Visualização normal

Received before yesterdayPolítica - Brasil

Futebol e niilismo: perderam o jogo, puseram brincos e foram ao cinema. Por Lênio Streck

11 de Julho de 2026, 10:16
Lênio Streck dando aula a jogadores e técnico da Seleção. Foto: reprodução

Por Lenio Strek, em Conjur

Há algo de profundamente simbólico no futebol contemporâneo, e não me refiro a esquemas táticos ou a estatísticas. Refiro-me a uma mudança de mentalidade. De imaginário.

Lembro-me de quando a regra que proibia o goleiro de agarrar com as mãos o recuo deliberado do companheiro foi saudada como uma revolução. Seria o fim da cera, da acomodação, do jogo burocrático. Durante algum tempo, pareceu funcionar.

Mas o futebol, como as instituições, também aprende a contornar as regras. O velho recuo transformou-se em outra coisa. Hoje ele não precisa mais ser dado ao goleiro. Basta fazê-lo horizontalmente. O resultado é semelhante: posse de bola estéril, circulação interminável, um “tiki-taka” no meio do campo que confunde movimentação com criatividade e controle com coragem.

O jogador que parte para cima do marcador parece ter sido substituído pelo funcionário que cumpre protocolo. O futebol produziu seus próprios burocratas.

1. Chego, então, ao Brasil: a derrota, a desclassificação.

Não basta dizer que perdemos. É preciso compreender como se perde. Contra a Noruega, assistimos a um espetáculo de resignação.  Os noruegueses trocavam passes lentamente. O Brasil aguardava pacientemente em seu próprio campo. Como se recuperar a bola fosse um detalhe secundário.

Onde estava a pressão imediata? Onde estava aquilo que os alemães chamariam, metaforicamente, de uma blitzkrieg para recuperar a posse?

Nada. Os jogadores apenas cercavam, acompanhavam, observavam. Espirravam em torno da bola.  Pateticamente. O resultado foi quase pedagógico.

Dois gols. Porque quem espera permanentemente acaba premiando o adversário. Mas talvez o problema nem seja exclusivamente tático. O problema é anterior. É cultural. Falta vigor. Falta dedicação. Falta sangue nos olhos.

A seleção brasileira parece ter se transformado em uma atividade paralela. Comercial.

O técnico divide seu tempo entre convocações e campanhas publicitárias de cerveja. Isso que, segundo noticiou a imprensa, recebe 4 milhões por mês. E renovou até 2.030. E precisa do comercial da Brahma. Que coisa, não?

Há jogadores com dezenas de contratos comerciais. Diz-se que um empresário sozinho possui um terço dos jogadores da seleção na sua carteira.

Um anuncia bancos. Outro promove casas de apostas. Outro vende cerveja. Outro se jacta (adoro essa palavra) de ter R$ 200 mil em perfumes e cremes para pele e cabelo. E, pior, diz que a Copa lhe tirou as férias. Sim, foi Raphinha quem disse tal absurdo. E ainda faz propaganda dos produtos usados por sua esposa.

E o que dizer de Neymar, que, conforme se noticiou e mostrou, levou relógios avaliados em 22 milhões. E a malta pintando ruas de verde e amarelo. Pobre povo.

2. Perdeu o jogo, frustrou a torcida, colocou dois brincos de diamante em cada orelha e foi ao cinema

É a paráfrase do clássico Matou a Família e Foi ao Cinema, de 1969, dirigido por Júlio Bressane, obra marco do cinema marginal. Poucos, à época, souberam ler o niilismo ali escancarado, manifestado no grito de revolta e descrença frente às utopias políticas da época e à opressão da ditadura militar.

Niilismo, bem entendido, vai além de agir mal sem demonstrar peso na consciência: é o esvaziamento dos valores que davam sentido à própria coisa. No filme, o protagonista mata a família e vai ao cinema. Lembra Raskolnikov, de Crime e Castigo. Só que, atenção, não o Raskolnikov de depois do crime, devorado pela culpa até a confissão; o de antes, aquele que se convenceu de que cometera um gesto extraordinário e que o homem extraordinário está acima do julgamento comum.

É esse Raskolnikov de antes que vejo nos jogadores da seleção. Perdem o jogo e saem sorrindo. Vini Jr coloca dois brincos em cada orelha (devem valer alguns milhões) e abre o sorriso e vai para o jantar. Ou ao cinema, como no filme. Falo não dos caros brincos em si (belos, por sinal). Falo do simbólico: ninguém se enfeita para ir a um velório. Remorso zero. Culpa nenhuma.  Isso se repete em Ancelotti. Com seu chiclete incansável. Aliás, não entendi por qual razão os fabricantes de goma de mascar não contrataram Ancelotti.

Não há pecado algum em ganhar dinheiro. O problema começa quando a profissão principal parece transformar-se em atividade acessória. A seleção deixa de ser o centro. Passa a ser uma plataforma de exposição para marcas.

Neymar diante de painel da Copa do Mundo 2026 e microfones de imprensa
Neymar após eliminação na Copa do Mundo. Foto: Reprodução

A pergunta inevitável é simples. Em que momento há tempo para pensar futebol?

Jogadores milionários que pouco se importam com o que a torcida pensa. Não é moralismo. É prioridade. Pelé, Zico, Beckenbauer, Zidane faziam publicidade. A diferença é que a publicidade era consequência.  Hoje ela parece ser o projeto principal.

O futebol virou intervalo comercial. Como venho insistindo há anos a respeito do Direito, que de prática interpretativa foi convertido em gerenciamento de procedimento, a burocracia engole tudo. O futebol não escapou; há apenas mapas de calor, GPS, métricas, algoritmos… e muita frescura. Enfim, parece que o futebol imita o Direito.

Tem de tudo. Só falta o futebol. O ludopedismo. A propósito: já não há cobradores de faltas. Dizem que treinar cobranças prejudica o joelhinho. Pobre gente. Que pena que eu tenho.

Fundamentalmente, falta justamente aquilo que fazia alguém levantar do sofá. Os jogadores jogam passando a bola para o lado e para trás. O dinizismo venceu. Aliás, deveriam ter deixado Diniz na seleção. Encaixaria melhor. E sem o chiclete do mister.

Em algum momento convencemos nossos jogadores de que errar tentando é pior do que acertar sem criar.

Talvez aí esteja a verdadeira derrota. Não apenas da seleção. Mas da própria ideia de futebol.

Enfim, esculhambaram (com) o futebol. Apatifaram-no, cobrindo-o de ouro e diamantes. E de Rolexes. Patek Philippes, Richard Milles etc. De empresários. De assessorias de imprensa que blindam determinados jogadores de quaisquer críticas. Claro, e de jornalistas amigos.

E o que dizer dos influencers transformados em comentaristas? Nada menos do que patético. E os repórteres entrevistando o pipoqueiro e o guarda de trânsito? O pré-jogo virou uma disputa de palhaçadas sem graça.

No fim, é o que resta: perderam o jogo, puseram os brincos, os relógios… e foram ao cinema. Sem remorso. Sem culpa. Como no filme. E no livro.

Banco indeniza funcionária após piadas machistas de chefe: “Vou comer seu bolo”

25 de Março de 2026, 19:16
Mulher com um bolo nas mãos. Foto: Reprodução

A 71ª Vara de São Paulo/SP determinou que o Banco Pan indenizasse uma consultora comercial por danos morais, após reconhecer que a funcionária foi submetida a um ambiente de trabalho hostil e constrangedor. A sentença foi prolatada pelo juiz Cristovão José Martins Amaral.

A decisão se baseou em condutas vexatórias e em uma série de violações à dignidade da trabalhadora, incluindo comentários machistas e exposição pública humilhante. De acordo com a ação movida pela funcionária, ela enfrentou um ambiente competitivo e desconfortável. Segundo o juiz, as provas testemunhais confirmaram que as atitudes dos superiores extrapolavam os limites do que seria considerado profissional e saudável no ambiente corporativo.

Em um dos relatos, uma testemunha mencionou que o gerente regional da funcionária fazia comentários sobre a sua aparência e forma de vestir, além de afirmar que ela estava “arrasando corações”. Esses comentários foram classificados como “brincadeiras machistas”, que, de acordo com o juiz, violavam o respeito devido no local de trabalho.

Em uma situação ainda mais constrangedora, durante o aniversário da funcionária, o mesmo gerente cantou uma música com conotação dúbia e fez um comentário inapropriado: “parabéns, hoje vou comer seu bolo”, o que a funcionária descreveu como extremamente desconfortável.

Fachada de uma agência do Banco Pan. Foto: Divulgação

Entre os casos relatados, a trabalhadora destacou um atraso no pagamento das comissões, que foi feito de maneira injustificada por cerca de 60 dias, enquanto outros funcionários receberam as suas comissões dentro do prazo estabelecido.

Além disso, ela foi preterida em premiação para um evento musical, algo que também agravou o clima de hostilidade no ambiente de trabalho. A funcionária ainda relatou que, durante as reuniões, eram exibidos rankings de desempenho, mostrando publicamente os nomes dos empregados e o percentual de metas não alcançadas, criando uma situação de constrangimento.

O juiz, ao analisar o caso, considerou que as condutas do gerente e a exposição pública nas reuniões não apenas prejudicaram a imagem da trabalhadora, mas também criaram um ambiente de trabalho tóxico, contrariando a política de conduta do próprio Banco Pan, que veda práticas discriminatórias e de assédio moral.

“Tais condutas extrapolam os limites do poder diretivo do empregador e revelam comportamento incompatível com um ambiente de trabalho saudável e respeitoso, configurando afronta à dignidade da trabalhadora. Registre-se, inclusive, que a própria política de conduta do Banco Pan veda práticas discriminatórias e de assédio moral, exigindo atuação pautada no respeito e no profissionalismo”, afirmou o juiz.

Com base nos depoimentos e provas apresentadas, o juiz concluiu que houve uma violação à dignidade, honra e imagem da trabalhadora, e, por isso, determinou que o banco pagasse R$ 5 mil em danos morais à funcionária, como forma de reparar os danos causados pela conduta abusiva e discriminatória de seus superiores.

Agronegócio: Trump inclui Brasil em investigação que pode gerar novas tarifas; entenda

13 de Março de 2026, 09:00
Donald Trump anunciando o tarifaço em 2025. Foto: reprodução

O governo dos Estados Unidos, liderado pelo presidente Donald Trump, abriu uma nova investigação comercial contra o Brasil por supostas práticas relacionadas ao uso de trabalho forçado na produção ou na importação de bens de terceiros países fabricados sob essas condições. O procedimento, conhecido como seção 301, foi anunciado pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) e pode resultar na aplicação de tarifas comerciais contra o país.

Além do Brasil, outros 59 países também são alvo da investigação, entre eles Argentina, União Europeia, China, México e Indonésia. A iniciativa ocorre após a Suprema Corte dos Estados Unidos considerar ilegal o instrumento utilizado anteriormente pelo governo Trump para impor tarifas comerciais a mais de uma centena de países, a lei conhecida como IEEPA (Lei de Poderes Econômicos Emergenciais Internacionais).

Segundo o Uol, auxiliares do governo estadunidense indicam que a nova investigação busca garantir ao presidente flexibilidade para aplicar tarifas diferenciadas a países conforme interesses econômicos e geopolíticos de Washington. Trata-se da segunda investigação aberta contra o Brasil durante o atual mandato de Trump.

Na primeira apuração, iniciada após o anúncio de um tarifaço de 50% em julho, temas como desmatamento, violação de direitos autorais e até a concorrência no sistema de pagamentos digitais, incluindo questionamentos ao Pix, foram citados. Esse processo ainda não foi concluído e, até o momento, não resultou em medidas tarifárias.

Agora, um dos focos da nova investigação pode ser o agronegócio brasileiro. Durante a primeira investigação baseada na seção 301, representantes do setor agrícola dos Estados Unidos alegaram que produtores brasileiros teriam vantagem competitiva por utilizarem mão de obra forçada ou em condições análogas à escravidão.

O setor agropecuário brasileiro nega as acusações e ressalta que o Brasil é signatário de convenções da Organização Internacional do Trabalho (OIT) voltadas à erradicação do trabalho forçado.

Funcionários do agro. Foto: reprodução

A atual investigação não se limita à produção direta com trabalho forçado. O foco também inclui a importação, por determinados países, de produtos fabricados sob essas condições em terceiros mercados. Essa abordagem explica por que países como a Noruega, sem histórico de problemas nesse campo, também aparecem na lista de investigados.

“Nos Estados Unidos, temos há cerca de cem anos uma lei que proíbe a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado. Há cerca de dez anos, o Congresso endureceu essa lei e, nos últimos sete ou oito anos, o governo americano a aplicou com bastante eficácia. Esperamos que outros parceiros comerciais adotem a mesma abordagem. Isso não tem a ver com as condições internas de países específicos”, afirmou o embaixador Jamieson Greer, chefe do USTR.

Greer acrescentou que a medida busca evitar distorções no comércio internacional. “por muito tempo, trabalhadores e empresas americanas foram forçados a competir com produtores estrangeiros que podem ter uma vantagem de custo artificial obtida com o flagelo do trabalho forçado”.

Segundo ele, sanções ou tarifas poderão ser aplicadas caso os Estados Unidos concluam que os países investigados não adotam medidas suficientes para combater esse tipo de prática. A expectativa do governo estadunidense é concluir o processo até o fim de julho, quando expiram as atuais tarifas emergenciais adotadas após a decisão da Suprema Corte.

Antes disso, o procedimento prevê consultas públicas e audiências de defesa, marcadas para ocorrer em 28 de abril.

Guerra no Irã suspende viagem de Lula aos EUA prevista para março

7 de Março de 2026, 07:33
Donald Trump e Lula. Foto: reprodução

A viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aos Estados Unidos, prevista para a segunda quinzena de março, foi suspensa em razão da guerra no Irã. A informação foi confirmada nesta sexta-feira (6) pelo ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, que participaria da agenda presidencial no país. Com informações do Estadão.

Segundo o ministro, a visita fazia parte das negociações entre Brasil e Estados Unidos relacionadas às tarifas comerciais impostas pelo governo do presidente Donald Trump. O tema vinha sendo tratado entre autoridades dos dois países nas últimas semanas.

Fávaro afirmou que havia sido convidado por Lula para integrar a comitiva presidencial na viagem a Washington. No entanto, a agenda internacional foi interrompida após o agravamento do conflito envolvendo o Irã.

“A gente está em plena negociação por conta das tarifas impostas nos Estados Unidos, apesar de já ter reduzido. Temos ainda muitos assuntos a serem tratados com os Estados Unidos de interesse comum. (O presidente) me pediu para que acompanhasse essa viagem, que deveria ser na segunda quinzena de março, mas em função da guerra essa agenda foi suspensa”, declarou o ministro.

Carlos Fávaro, ministro da Agricultura. Foto: reprodução

O titular da Agricultura comentou o tema ao ser questionado sobre o prazo para deixar o cargo no governo federal. Ele deve se descompatibilizar da função para disputar a reeleição ao Senado por Mato Grosso.

A legislação eleitoral estabelece que ministros que pretendem concorrer nas eleições devem deixar o cargo até o início de abril. No caso de Fávaro, o prazo máximo para a saída do ministério é nesta sexta-feira (4).

O ministro afirmou que aguardava a definição do presidente Lula sobre a viagem antes de formalizar a saída do cargo. Com a suspensão da agenda internacional, a decisão sobre a descompatibilização passa a depender apenas da definição do presidente.

“Não sei exatamente (a data). Eu estou aguardando a decisão do presidente Lula, que tinha me pedido para fazer mais uma viagem internacional com ele, aos Estados Unidos”, afirmou.

Integrantes do governo admitem, reservadamente, a possibilidade de que a reunião entre Lula e Donald Trump em Washington seja remarcada. A hipótese considerada por auxiliares é que a viagem possa ocorrer em abril, dependendo da evolução do conflito no Oriente Médio.

❌