O quarto tenor da quase-estagnação brasileira (por Henrique Morrone)
Henrique Morrone (*)
Depois dos três tenores, restou um silêncio estranho — longo demais para ser aplauso. O palco permanecia montado após o espetáculo. A plateia, ainda inflamada, seguia inquieta, à espera de algo inesperado. A quase-estagnação passou a ser cantada como maturidade econômica. E o espetáculo seguiu.
Mas havia um quarto tenor.
Não entrou pela frente do palco. Não vestia fraque nem buscava aplauso direto. Instalou-se nos bastidores, reorganizando a acústica da sala. Sua voz não elevava a produção, apenas ampliava o eco. Ainda assim, ocupava cada vez mais espaço na partitura nacional.
Enquanto os três primeiros discutiam custos, gastos, expectativas e lucros, algo mudava discretamente na contabilidade do sistema. Cresciam ocupações que giram sobre si mesmas: intermediações sucessivas, rendas financeiras recicladas, serviços que administram serviços, estruturas dedicadas menos a produzir do que a precificar, controlar, arbitrar e extrair fluxos já existentes. A economia parecia movimentada — planilhas trêmulas, indicadores pirimpilando — mas algo fundamental permanecia estanque.
Produzia-se movimento. Não valor.
Talvez o país não percebesse: trabalhava, mas não avançava.
Era esse o quarto tenor: o das atividades de não-produção, expandindo-se silenciosamente.
Em edifícios corporativos iluminados até tarde, equipes inteiras revisam relatórios destinados a revisar relatórios anteriores. Telas exibem gráficos em permanente atualização, reuniões sucedem reuniões, contratos circulam entre departamentos que pouco se conectam com a produção material. Tudo funciona. Nada avança.
Não faltava trabalho. Faltava transformação.
O fenômeno confunde atividade com criação. Um prédio comercial cheio sugere dinamismo; contratos circulando sugerem prosperidade; aplicativos multiplicados sugerem inovação. Parte crescente dessa engrenagem apenas redistribui valor dentro do próprio sistema.
É uma economia ocupada consigo mesma.
Como uma engrenagem em falso, o volume aumenta enquanto a melodia esmaece. O PIB registra passos ilusórios, sustentados por atividades que pouco ampliam a base produtiva. Crescimentos espasmódicos surgem como solos virtuosos — logo dissolvidos pela ausência de um coro capaz de sustentá-los.
O quarto tenor entoa uma ária alternativa. A expansão, ainda que rastejante, passa a apoiar-se nessas atividades — comércio, finanças, administração pública, entre outras. Juros elevados tornam rentável esperar. Capturar valor existente torna-se mais seguro do que criá-lo. Produzir vira exceção; administrar o já existente, regra.
Não se trata de moralizar setores nem romantizar fábricas perdidas. Toda economia moderna necessita de serviços complexos e coordenação institucional. O problema surge quando essas atividades deixam de sustentar a produção e passam a orbitá-la como fim em si mesmas.
Trabalha-se mais para deslocar menos.
A quase-estagnação brasileira talvez não seja apenas crescimento fraco, mas uma mudança silenciosa em sua composição. A energia econômica não desapareceu; foi redirecionada. O país não parou — passou a girar em falso.
E, como em toda ópera longa demais, o público começa a confundir repetição com enredo. Ajustes são anunciados como clímax. Pequenas acelerações parecem redenção. A crítica passa a soar como impaciência.
Enquanto isso, o quarto tenor segue cantando.
Sua voz é suave, técnica, aparentemente inevitável. Não provoca ruptura. Apenas prolonga o ato — uma música estável o suficiente para evitar o colapso, fraca demais para inaugurar o próximo movimento.
E então a ópera continua — não porque avance, mas porque o público persiste em ouvi-la.
(*) Economista e professor da UFRGS.
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