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Pesquisa mostra rejeição crescente a Israel no Brasil e no exterior e repulsa a Netanyahu

6 de Junho de 2026, 14:16
Pesquisa do Centro de Pesquisas Pew, dos EUA, sobre a rejeição crescente a Israel

Uma pesquisa internacional realizada pelo Pew Research Center revela que a imagem de Israel continua se deteriorando em grande parte do mundo e que a confiança no primeiro-ministro Benjamin Netanyahu segue em queda.

O levantamento foi realizado entre 8 de fevereiro e 13 de maio de 2026 em 36 países, incluindo Brasil, Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, França, Argentina, México, Colômbia e África do Sul.

O Pew Research Center é um dos principais institutos independentes de pesquisa dos Estados Unidos, especializado em estudos de opinião pública, tendências sociais, política, religião e relações internacionais. Seus levantamentos são frequentemente utilizados por universidades, governos, meios de comunicação e centros de pesquisa em diversos países.

Segundo o estudo, a mediana global mostra que 67% dos entrevistados têm uma opinião desfavorável de Israel, enquanto apenas 25% manifestam uma visão favorável.

Os índices mais negativos aparecem em países de maioria muçulmana, como Bangladesh, Indonésia, Malásia, Paquistão e Turquia, além da Cisjordânia e Jerusalém Oriental. O levantamento não incluiu a Faixa de Gaza devido às condições de terra arrasada.

A pesquisa também identificou níveis elevados de rejeição em praticamente toda a Europa. Na Itália, na Holanda e na Espanha, cerca de metade da população ou mais declarou ter uma visão “muito desfavorável” de Israel. Em contrapartida, alguns dos resultados mais positivos foram registrados em países da África Subsaariana.

Os dados indicam ainda uma diferença geracional significativa. Em vários países da América do Norte e da Europa, os jovens demonstram opiniões mais negativas sobre Israel do que os grupos mais velhos. Na Hungria, por exemplo, 72% das pessoas entre 18 e 34 anos têm visão desfavorável do país, contra 45% entre aqueles com 50 anos ou mais.

O recorte ideológico também mostra uma divisão expressiva. Em diversos países, eleitores identificados com a esquerda apresentam avaliações muito mais negativas de Israel do que aqueles posicionados à direita. Nos Estados Unidos, 83% dos liberais têm opinião desfavorável sobre Israel, contra 37% dos conservadores. Diferenças semelhantes foram registradas na Austrália, Espanha, França, Suécia, Canadá, Alemanha, Holanda, Itália, Brasil e Colômbia.

Segundo o levantamento, 52% dos brasileiros têm uma visão desfavorável do país, enquanto 33% expressam uma opinião favorável. Entre os que avaliam Israel negativamente, 13% afirmam ter uma opinião “muito desfavorável” e 39% uma opinião “um pouco desfavorável”. Já entre os que veem o país de forma positiva, 28% manifestam uma opinião “um pouco favorável” e apenas 5% dizem ter uma visão “muito favorável”.

O resultado coloca o Brasil entre os países latino-americanos onde predominam avaliações negativas sobre Israel, ao lado de Chile (60%), México (59%), Colômbia (56%) e Argentina (55%).

A percepção internacional sobre Israel piorou em relação ao ano passado. Entre os 24 países onde havia dados comparáveis, 13 registraram aumento estatisticamente significativo das opiniões negativas. Na Argentina, por exemplo, a parcela da população com visão desfavorável passou de 46% em 2025 para 55% em 2026. Crescimentos também foram observados na Austrália, Itália, Nigéria, Polônia e Reino Unido.

O estudo aponta igualmente uma deterioração da imagem de Benjamin Netanyahu. Em grande parte dos países pesquisados, a maioria dos entrevistados declarou ter pouca ou nenhuma confiança no premiê israelense para lidar com assuntos internacionais.

Mais da metade da população em países como Canadá, França, Alemanha, Itália, Espanha, Suécia, Austrália, Indonésia, Malásia, Paquistão e Reino Unido afirmou não confiar de forma alguma no líder israelense.

Apenas dois países apresentaram maioria favorável a Netanyahu: Quênia e Filipinas. Nos demais, os índices de desconfiança predominam. Assim como ocorre com a imagem de Israel, jovens e pessoas identificadas com a esquerda tendem a expressar avaliações mais negativas do primeiro-ministro.

A confiança em Netanyahu também caiu em 13 dos 24 países onde o instituto possui dados comparativos. A Coreia do Sul registrou a maior mudança: 76% dos entrevistados afirmam agora ter pouca ou nenhuma confiança no premiê israelense, ante 64% no ano anterior. Na Itália, a parcela dos que dizem não confiar de forma alguma em Netanyahu subiu de 45% para 62% em apenas um ano.

A pesquisa foi realizada após o início da campanha militar conduzida por Estados Unidos e Israel contra o Irã, lançada em 28 de fevereiro, e em meio à continuidade do genocídio na Faixa de Gaza, fatores que ajudam a contextualizar a evolução dos resultados observados pelo instituto.

Trump finalmente vislumbra uma saída do Irã, diz New York Times

21 de Março de 2026, 21:48
Donald Trump

O presidente dos EUA, Donald Trump afirmou que está considerando uma “redução gradual” das operações no Irã, mas muitos dos seus objetivos militares iniciais ainda não foram alcançados. Desde o início do que ele chamou de “excursão” ao Irã, Washington tem sido dominada por uma pergunta persistente: quando o presidente decidirá encerrar a operação, mesmo com uma parte significativa dos seus objetivos ainda inacabados?

Na sexta-feira, durante uma viagem à Flórida, Trump esboçou um possível caminho para essa saída, mas não está claro se ele realmente tomará essa decisão. Além disso, os sinais indicam que os efeitos dessa incursão podem ultrapassar o interesse imediato do presidente: o preço da gasolina aumentou, a infraestrutura ao longo do Golfo Pérsico está severamente danificada, e a teocracia iraniana, embora golpeada, continua se mantendo firme. Aliados dos EUA, inicialmente relutantes, agora enfrentam a tarefa de patrulhar águas mais hostis.

As mensagens de Trump têm sido oscilantes, diz David E. Sanger no New York Times. Sanger cobre o governo Trump e temas de segurança nacional. Com mais de quatro décadas no Times, é autor de quatro livros sobre política externa e acompanhou cinco presidentes americanos.

Os críticos de Trump, escreve Sanger, afirmam que isso é evidência de que ele entrou no conflito sem uma estratégia clara, enquanto seus apoiadores defendem que isso é uma “estratégia inteligente”. Com a intensificação dos ataques americanos e israelenses, Trump afirmou que não tem interesse em um cessar-fogo, alegando que os Estados Unidos estavam “obliterando” os estoques de mísseis, a marinha, a força aérea e a base industrial de defesa do Irã.

No entanto, horas depois, talvez sensível à crescente apreensão de sua base republicana, escreveu em sua rede social: “Estamos muito próximos de atingir nossos objetivos, ao mesmo tempo em que consideramos reduzir nossos grandes esforços militares no Oriente Médio”.

Sua formulação mais recente de objetivos omite pontos anteriormente centrais. Não há menção à derrota da Guarda Revolucionária Islâmica, que ainda mantém o poder, nem a Mojtaba Khamenei, sucessor de seu pai. Além disso, a promessa de “libertar” o povo iraniano foi retirada de suas falas, levantando dúvidas sobre o compromisso dos EUA com a mudança política no Irã.

Trump também passou a redefinir seus objetivos em relação ao programa nuclear iraniano. Em vez de exigir a remoção total do material nuclear, ele agora afirma que seu objetivo é “nunca permitir que o Irã sequer se aproxime da capacidade nuclear”, mantendo os EUA sempre prontos para uma reação “rápida e contundente”. Essencialmente, a situação permanece a mesma de quando os EUA destruíram o programa nuclear iraniano em junho do ano passado, com instalações sob vigilância constante de satélites dos EUA.

O presidente também passou a exigir que os aliados, que haviam sido excluídos das deliberações iniciais, patrulhassem o Estreito de Ormuz e outras áreas estratégicas, com o apoio logístico dos EUA. Isso representa uma mudança na doutrina americana para o Oriente Médio, transferindo a responsabilidade para outros países.

No início do conflito, Trump acreditava que a capitulação do Irã seria rápida. No entanto, a recusa iraniana em se render foi uma surpresa, assim como a crise nos mercados de energia. O governo dos EUA teve que intervir, liberando estoques da Reserva Estratégica de Petróleo e permitindo o envio de petróleo russo e iraniano, o que acabou favorecendo adversários em guerra com a Ucrânia e com os próprios americanos.

Além disso, o Irã tem utilizado o caos nos mercados como uma ferramenta crucial para pressionar os EUA. No sábado, Teerã advertiu que poderia incendiar outras instalações no Oriente Médio. O país parece ter em torno de 3.000 minas marítimas, parte das quais já foi destruída, e forças americanas estão se concentrando em neutralizar embarcações iranianas que atacam petroleiros aliados dos EUA.

A necessidade de aliados também se tornou evidente. Trump inicialmente acreditava que a guerra seria breve, mas a vigilância do estreito e de outros pontos estratégicos mostrou que a tarefa seria mais longa do que esperava. Uma outra surpresa foi a falta de um levante entre a Guarda Revolucionária ou a população iraniana, o que contradizia as previsões de deserções em diversos níveis, segundo autoridades de inteligência.

Esse cenário ainda pode evoluir, pois as guerras não são decididas em poucas semanas. No entanto, Trump ingressou no conflito após uma sequência de vitórias rápidas, como o bombardeio das principais instalações nucleares do Irã, e uma operação bem-sucedida que resultou na captura de Nicolás Maduro em Caracas. Apesar disso, o Irã mostrou ser um adversário mais resiliente do que Trump inicialmente subestimou, lembra Sanger.

Saiba a posição do Brasil no ranking dos países mais felizes do mundo em 2026

20 de Março de 2026, 23:06
Pessoas na mureta do Cristo Redentor
Rio de Janeiro, cartão-postal do Brasil – Reprodução

O Brasil aparece na 7ª posição entre os países com maior nível de felicidade no Ipsos Happiness Report 2026, levantamento internacional que ouviu 23.268 adultos em 29 nações entre 24 de dezembro de 2025 e 9 de janeiro de 2026. No país, 80% dos entrevistados afirmaram estar “felizes” ou “muito felizes”, percentual acima da média global de 74%. O resultado coloca o Brasil entre os dez melhores desempenhos do ranking divulgado pela Ipsos em março de 2026.

No recorte brasileiro, 28% disseram estar muito felizes, 52% bastante felizes, 15% não muito felizes e 5% nada felizes. A pesquisa também registrou alta de 2 pontos percentuais no índice de felicidade no Brasil em relação a 2025. À frente do país aparecem Indonésia, Países Baixos, México, Colômbia, Malásia e Tailândia. Logo depois surgem Austrália, Espanha e Bélgica, que completam o grupo dos dez primeiros colocados.

O levantamento mostra ainda quais fatores foram mais associados à felicidade pelos brasileiros. O item mais citado foi sentir-se amado, com 34% das respostas. Em seguida aparecem saúde física e mental, com 31,4%, relacionamento com família e filhos, com 29,4%, controle da própria vida, com 29%, e a percepção de que a vida tem significado, com 27%. Entre os entrevistados no Brasil, fé religiosa ou vida espiritual também ganhou destaque, com 22% das menções, índice superior à média global de 10%.

Pessoas com boto
Reprodução/Agência Brasil

A pesquisa também apontou diferenças por faixa etária e perfil de renda. No Brasil, a soma dos que se declaram muito felizes e bastante felizes entre 50 e 74 anos chegou a 82%, a maior média entre os grupos analisados. Já a Geração Z foi a que mais concentrou respostas na faixa “nada feliz”, com 5,6%. Os dados da Ipsos ainda indicam correlação entre renda e felicidade: pessoas de renda mais alta registraram índice de felicidade de 79%, contra 67% entre as de renda mais baixa.

Segundo a metodologia divulgada pela Ipsos, a pesquisa foi conduzida em plataformas on-line. No Brasil, a amostra foi de mil entrevistados e, como a própria empresa informa, o grupo consultado tende a representar uma parcela mais urbana, com maior escolaridade e renda acima da média nacional. Esse recorte delimita o alcance estatístico do levantamento no país e integra as condições metodológicas do relatório de 2026.

No cenário geral, a Ipsos informou que 25 dos 29 países pesquisados registraram aumento nos níveis de felicidade em relação ao ano anterior. O relatório também aponta que, globalmente, sentir-se apreciado ou amado segue entre os principais fatores ligados ao bem-estar declarado pelos entrevistados. No caso brasileiro, os dados colocam o país entre os melhores resultados da edição de 2026 e mostram peso maior de vínculos pessoais, saúde e espiritualidade nas respostas coletadas.

Efeito Trump: maior gestora de fundos do mundo limita valor de saques de seus clientes

7 de Março de 2026, 08:12
Sede da BlackRock em Nova York, nos EUA. Foto: reprodução

A gestora BlackRock informou na sexta-feira (6) que limitou os resgates de um de seus principais fundos de crédito privado após um aumento inesperado nos pedidos de retirada por parte dos investidores. A decisão ocorre em meio a preocupações crescentes com o setor global de crédito privado, estimado em cerca de US$ 2 trilhões. Com informações da Reuters.

A decisão ocorreu em um momento de turbulência nos mercados financeiros. As ações da BlackRock chegaram a cair 6,7% na Bolsa de Nova York em meio a uma onda de vendas generalizada, após dados de emprego nos Estados Unidos abaixo das expectativas e à escalada da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã.

O fundo afetado é o HPS Corporate Lending Fund (HLend), que possui aproximadamente US$ 26 bilhões em ativos e foi criado para atrair investidores individuais de alta renda. No primeiro trimestre, o fundo recebeu pedidos de resgate que somaram US$ 1,2 bilhão, equivalente a cerca de 9,3% do patrimônio líquido.

Diante da demanda, a gestora informou aos investidores que pagaria US$ 620 milhões em saques, valor correspondente ao limite trimestral de 5%. Esse percentual é o patamar padrão a partir do qual os gestores podem restringir novos pedidos de retirada.

Nos últimos meses, o sentimento dos investidores em relação ao crédito privado tem se deteriorado. Episódios recentes, como as falências de um fornecedor de autopeças nos Estados Unidos e de uma credora de veículos subprime, além do colapso de uma instituição de crédito hipotecário no Reino Unido, ampliaram os questionamentos sobre os padrões de concessão de crédito no setor.

Para Greggory Warren, analista sênior de ações da Morningstar, a situação revela riscos estruturais para investidores individuais. “Isso deve servir como um sinal de alerta para o setor e para os responsáveis pela regulamentação sobre as desvantagens dos fundos ilíquidos para os investidores de varejo”, afirmou em entrevista à Reuters.

Hospital atingido após bombardeios dos EUA e de Israel contra Teerã. Foto: Reprodução

A HLend é uma empresa de desenvolvimento de negócios adquirida pela BlackRock junto com sua gestora, a HPS Investment Partners, em uma operação de US$ 12 bilhões realizada em 2024. Segundo a gestora, esta é a primeira vez desde a criação do fundo que os pedidos de saque ultrapassam o limite de 5%.

As BDCs captam recursos principalmente de investidores individuais e os utilizam para conceder empréstimos a empresas de médio porte. Como esses ativos não podem ser vendidos rapidamente, um grande volume de resgates simultâneos pode criar dificuldades para o fundo.

Segundo a empresa, o limite de 5% existe justamente para evitar “uma incompatibilidade estrutural entre o capital do investidor e a duração esperada dos empréstimos de crédito privado nos quais a HLend investe”.

Warren explica que restrições desse tipo ajudam a evitar prejuízos maiores. “Ao impedir resgates por meio de mecanismos de bloqueio, os gestores de fundos podem evitar serem forçados a vender ativos, o que impactaria negativamente o retorno do investimento para os demais investidores, dada a opacidade e a iliquidez dos ativos nesses fundos”.

Dados divulgados pela empresa mostram que cerca de 19% da carteira do fundo está exposta ao setor de software, segmento que vem enfrentando pressão nos mercados diante do avanço de startups focadas em inteligência artificial.

Executivo uma das principais empresas de IA pede demissão e alerta: “O mundo está em perigo”

10 de Fevereiro de 2026, 19:10

Mrinank Sharma, responsável pela área de pesquisa em salvaguardas da Anthropic, anunciou sua saída do cargo por meio de uma carta pública divulgada na rede X na segunda (9), que rapidamente alcançou grande repercussão. “O mundo está em perigo”, escreveu.

No texto, ele afirma que chegou o momento de seguir outro caminho e alerta que o planeta vive uma situação de risco não apenas por causa da inteligência artificial, mas por um conjunto de crises interligadas que se aprofundam ao mesmo tempo.

A Anthropic é uma empresa de pesquisa em inteligência artificial fundada por ex-integrantes da OpenAI e é focada no desenvolvimento de sistemas avançados de IA com ênfase em segurança, alinhamento ético e redução de riscos.

A companhia é responsável pelo modelo Claude, concorrente direto do ChatGPT, e defende uma abordagem chamada “IA constitucional”, na qual regras explícitas orientam o comportamento dos sistemas.

Na carta de despedida, Sharma diz ter vivenciado, dentro da empresa, a dificuldade recorrente de permitir que valores éticos orientem decisões práticas. Segundo ele, há pressões constantes para relativizar princípios considerados centrais, ainda que não detalhe episódios específicos.

Em um dos trechos, afirma que a humanidade se aproxima de um ponto crítico em que a capacidade de intervir no mundo cresce mais rápido do que a sabedoria para lidar com esse poder.

Com doutorado em aprendizado de máquina pela Universidade de Oxford, Sharma ingressou na Anthropic em 2023 e liderou pesquisas voltadas à mitigação de riscos associados à IA.

Entre os temas trabalhados estavam a prevenção do uso de sistemas de linguagem em atividades criminosas, como bioterrorismo, e estudos sobre comportamentos de chatbots que tendem a reforçar excessivamente crenças dos usuários, criando relações de dependência ou distorções da realidade.

Pouco antes de deixar a empresa, Sharma publicou um estudo apontando que interações com chatbots podem gerar percepções distorcidas do mundo em milhares de casos diários, especialmente em áreas sensíveis como saúde emocional e relações pessoais.

Para ele, os dados evidenciam a necessidade de sistemas que preservem a autonomia humana, em vez de enfraquecê-la.

Após a saída, o pesquisador afirmou que pretende se dedicar a outros caminhos, incluindo estudos em poesia e ao que chamou de “fala corajosa”, buscando uma atuação pública coerente com seus valores. O episódio se soma a uma série de desligamentos recentes no setor de inteligência artificial motivados por preocupações éticas, reforçando o debate sobre os limites, responsabilidades e impactos sociais do avanço acelerado dessas tecnologias.

Leia a carta na íntegra:

Caros colegas,

Decidi deixar a Anthropic. Meu último dia será 9 de fevereiro.

Obrigado. Há muito aqui que inspira e que me inspirou. Para citar algumas dessas coisas: um desejo sincero e uma disposição real para estar presente em uma situação tão desafiadora, aspirando a contribuir de forma impactante e com integridade; a disposição para tomar decisões difíceis e defender o que é correto; uma quantidade quase absurda de brilho intelectual e determinação; e, claro, a considerável gentileza que permeia nossa cultura.

Alcancei aqui o que me propus a fazer. Cheguei a São Francisco há dois anos, após concluir meu doutorado, querendo contribuir para a segurança em inteligência artificial. Sinto-me privilegiado por ter conseguido contribuir com o que fiz aqui: compreender a bajulação em sistemas de IA e suas causas; desenvolver defesas para reduzir riscos de bioterrorismo assistido por IA; efetivamente colocar essas defesas em produção; e escrever um dos primeiros estudos de caso em segurança de IA. Tenho especial orgulho dos meus esforços recentes para nos ajudar a viver nossos valores por meio de mecanismos internos de transparência; e também do meu projeto final sobre como assistentes de IA podem nos tornar menos humanos ou distorcer nossa humanidade. Obrigado pela confiança.

Ainda assim, ficou claro para mim que chegou o momento de seguir em frente. Tenho constantemente me confrontado com a nossa situação. O mundo está em perigo. E não apenas por causa da IA ou de biotecnologias, mas por uma série inteira de crises interconectadas que estão se desenrolando neste exato momento. Parece que estamos nos aproximando de um limiar no qual nossa sabedoria precisa crescer na mesma proporção da nossa capacidade de afetar o mundo, para que não enfrentemos as consequências. Além disso, ao longo do meu tempo aqui, vi repetidamente o quão difícil é permitir que nossos valores realmente orientem nossas ações. Vi isso em mim mesmo, dentro da organização — onde enfrentamos constantemente pressões para deixar de lado o que mais importa — e também na sociedade em geral.

É ao sustentar essa situação e ao escutar da melhor forma que consigo que aquilo que devo fazer se torna claro. Quero contribuir de uma forma que esteja plenamente alinhada com minha integridade e que me permita colocar em jogo mais das minhas particularidades. Quero explorar as questões que considero verdadeiramente essenciais para mim — aquelas que, como diria David Whyte, “não têm o direito de desaparecer”, as questões que Rilke nos implora que “vivamos”. Para mim, isso significa partir.

O que vem a seguir, eu não sei. Tenho um carinho especial pela famosa citação zen: “não saber é o mais íntimo”. Minha intenção é criar espaço para deixar de lado as estruturas que me sustentaram nesses últimos anos e ver o que pode emergir na ausência delas. Sinto-me chamado à escrita que dialogue de forma plena com o lugar em que nos encontramos, e que coloque a verdade poética ao lado da verdade científica como formas igualmente válidas de conhecimento — ambas, acredito, com algo essencial a contribuir no desenvolvimento de novas tecnologias. Espero explorar uma formação em poesia e me dedicar à prática da fala corajosa. Também estou animado para aprofundar minha prática em facilitação, mentoria, construção de comunidades e trabalho em grupo. Veremos o que se desenrola.

Obrigado, e adeus. Aprendi muito aqui e desejo o melhor a todos vocês. Deixo vocês com um dos meus poemas favoritos, “The Way It Is”, de William Stafford.

Boa sorte,
Mrinank


The Way It Is

Há um fio que você segue.
Ele passa entre as coisas que mudam. Mas ele não muda.
As pessoas perguntam o que você está buscando.
Você precisa explicar sobre o fio.
Mas é difícil para os outros verem.
Enquanto você o segura, você não se perde.
Tragédias acontecem; pessoas se machucam
ou morrem; e você sofre e envelhece.
Nada do que você faz pode impedir o desdobramento do tempo.
Você nunca solta o fio.

William Stafford

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