Os contratos futuros do açúcarbruto na bolsa ICE atingiram uma máxima de cinco meses nesta quinta-feira, com a retomada da alta dos preços do petróleoem meio à incerteza entre os investidores sobre as perspectivas do fim da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã.
Um aumento sustentado nos preços do petróleo pode fazer com que as usinas de cana no maior produtor, o Brasil, e em outros países reduzam a produção de açúcar em favor do etanol.
O açúcar bruto subiu 0,32 centavo, ou 2,1%, a 15,87 centavos de dólar por libra-peso, depois de ter atingido uma máxima de cinco meses de 15,97 centavos mais cedo.
Sinais contraditórios emitidos anteriormente pelos EUA e pelo Irã sobre as negociações para acabar com a guerra no Oriente Médio deixaram os mercados nervosos, com as ações e títulos caindo em meio ao aumento do preço do petróleo.
O Brasil deve reduzir as exportações de açúcar na temporada 2026/27 em 14,2%, já que as usinas desviam a cana-de-açúcar para produzir etanol devido aos altos preços da energia, informou a consultoria Safras & Mercado na quinta-feira.
A AP commodities disse que, embora o açúcar esteja sob pressão devido aos modestos excedentes e à forte venda especulativa, é provável que surjam recuperações, mesmo que temporárias, dada a sensibilidade do adoçante aos riscos climáticos e a fatores ligados ao etanol.
A consultoria acrescentou que as posições vendidas dos especuladores, ou apostas na queda dos preços, são grandes, o que significa que há o risco de que muitos revertam o curso e apostem em ganhos de preços se suas posições permanecerem no vermelho por muito mais tempo.
O açúcar branco subiu 1,2%, para US$459,60 a tonelada.
Café
O café arábica caiu 8,45 centavos de dólar, ou 2,7%, para US$3,0765 por libra-peso, depois de ter atingido a máxima de sete semanas, de US$3,1950, na terça-feira.
A anomalia climática conhecida como El Niño deverá se desenvolver globalmente por volta do terceiro trimestre deste ano e deverá trazer secura e temperaturas mais altas até o início de 2027 para as áreas tropicais onde o café e o cacau são cultivados, informou a trader Sucafina.
O café robusta caiu 0,9%, para US$3.596 a tonelada.
Os negociantes do Vietnã, maior produtor de robusta, disseram que os agricultores não estão vendendo no momento e que aqueles que precisam cumprir contratos começaram a buscar grãos no Brasil e na Indonésia.
Cacau
O cacau em Londres fechou em alta de 28 libras, ou 1,2%, a 2.356 libras por tonelada.
O cacau está sob pressão da fraca demanda e de uma perspectiva geralmente favorável para as safras na África Ocidental, embora grande parte disso esteja precificada por enquanto.
O cacau em Nova York subiu 1%, para US$3.164 a tonelada, depois de cair 3,2% na quarta-feira.
A escalada da guerra entre EUA e Irã já incendiou as cotações de petróleo, e agora flerta com o próximo front: as commodities agrícolas. Com o risco de interrupção em cadeias logísticas e o encarecimento de insumos, o setor surge como a nova fronteira de um rali com contornos estruturais — e o investidor pode estar de cara com a oportunidade de bons retornos.
“Não é só uma ou outra commodity que está subindo, todas estão. A última que falta reagir são as agrícolas”, afirma Matheus Spiess, analista da Empiricus Research.
Na leitura dele, esse movimento não se explica apenas pela guerra no Irã, mas por uma mudança mais estrutural de cenário.
Ele avalia que o mundo pode estar à beira de um novo ciclo de alta das commodities, sustentado por fatores que vão além do curto prazo.
Tradicionalmente, commodities e dólar caminham em direções opostas: a moeda norte-americana mais forte costuma pressionar os preços das matérias-primas — e o inverso também é verdadeiro.
Spiess aposta em um cenário de enfraquecimento do dólar no horizonte estrutural, o que abriria espaço para uma valorização mais consistente das commodities.
“Episodicamente, o dólar pode se fortalecer, como vimos em março. Mas, estruturalmente, podemos estar perto de um novo ciclo em que o dólar volte para a média histórica”, afirma.
Por trás dessa visão está uma combinação de fatores macroeconômicos. Spiess cita o aumento da dívida dos Estados Unidos, o risco fiscal elevado e um movimento global de diversificação cambial.
Há também uma questão de posicionamento: na leitura dele, o dólar ficou “caro demais” desde a crise de 2008, enquanto commodities ficaram relativamente baratas.
Segundo Spiess, pode haver um movimento de busca estrutural por mais exposição em commodities.
O resultado, segundo o analista, é um ambiente propício para um novo ciclo de alta — com potencial de beneficiar países exportadores, como o Brasil.
Fertilizante mais caro, comida mais cara
O conflito, que já pressiona o petróleo e deve chegar às commodities agrícolas, também atinge um elo menos visível, mas igualmente estratégico: o mercado de fertilizantes, essencial para a produção de alimentos.
Nesta terça-feira (24), a Rússia anunciou a suspensão das exportações de fertilizantes por um mês, priorizando o abastecimento interno.
A medida se soma a um cenário de rotas marítimas alteradas, redução da produção no Golfo Pérsico e dificuldades no escoamento via Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um terço do comércio global desses insumos antes do conflito.
No Brasil, o efeito tende a ser direto: aproximadamente 40% dos fertilizantes usados no agronegócio passam pela região.
E o impacto nos preços já começou. A ureia, por exemplo, acumula alta de cerca de 50% desde o início da guerra, impulsionada também pelo encarecimento do gás natural — insumo essencial para sua produção.
Segundo Spiess, o efeito deve se espalhar rapidamente pela economia real. “Se o fertilizante ficar mais caro, os alimentos vão ficar mais caros. Então, há um medo inflacionário generalizado no Ocidente”, afirma.
Na avaliação dele, esse risco preocupa governos, inclusive nos envolvidos na guerra, como os Estados Unidos.
“Os governantes não querem isso para si, porque inflação acaba gerando impopularidade”, pontua.
Ele relembra que o próprio presidente norte-americano, Donald Trump, que neste ano passa por uma eleição de meio de mandato, deve se preocupar com a possível aceleração da inflação no país.
“Ele não pode se dar ao luxo de ver a popularidade cair ainda mais. Então, tem motivo para que o conflito acabe antes [da eleição]”, afirma Spiess.
Crise hídrica e risco de colapso no Oriente Médio
As preocupações não se limitam aos preços do petróleo, do fertilizante ou das commodities agrícolas. Segundo Spiess, há um risco estrutural mais grave se o conflito avançar sobre a infraestrutura da região.
“O Irã tem muito petróleo, mas não tem comida nem água em abundância. Grande parte do abastecimento passa pelo Estreito de Ormuz. Se isso for comprometido, você pode ter uma crise alimentar humanitária”, afirma.
Outro ponto crítico são as usinas de dessalinização existentes nas proximidades do Irã, essenciais para o abastecimento de água em diversos países do Oriente Médio.
Segundo Spiess, essas instalações não possuem proteção e um eventual ataque teria consequências imediatas.
“Se você ‘queimar’ essas estações, cidades inteiras, como a capital saudita, serão inviabilizadas”, alerta.
Apesar de, em tese, serem protegidas pelo direito internacional, ele pondera que esse tipo de regra vem perdendo força.
“Temos visto um enfraquecimento do direito internacional. As pessoas estão indo pela lei do mais forte. Então, o Irã, em um movimento de desespero, pode acabar atacando essas instalações”, afirma.
O que o investidor deve fazer diante desse cenário?
Spiess defende uma estratégia menos exposta à volatilidade direta das commodities e mais ancorada na geração de caixa.
A preferência, segundo o analista, é por empresas do setor, que conseguem capturar os ganhos do ciclo de alta com maior previsibilidade.
“Eu prefiro me expor a isso com fluxo de caixa em petróleo, por meio de ações do setor”, afirma.
Nessa leitura, o Brasil aparece bem posicionado. “O Brasil tem muito disso e pode se beneficiar. Se essa tese for verdadeira — e gente grande lá fora defende isso —, pode ser muito bom para os ativos brasileiros de maneira geral”, diz.
“Você compra como se fosse uma ação e ganha exposição a empresas brasileiras de commodities”, explica.
Segundo Spiess, o produto reúne algumas vantagens: exposição ao fluxo de caixa gerado pelas commodities, forte presença em petróleo e gás (cerca de 40% da carteira), diversificação, baixo custo e boa liquidez — com prazos de resgate de cerca de dois dias.
As commodities agrícolas têm apresentado alta em meio ao conflito entre Estados Unidos e Irã.
De acordo com o BB Investimentos, as perspectivas para a soja e o milho são de crescimento para este mês, já para as carnes, os preços têm sido pressionados.
Em fevereiro, a soja teve bons resultados na bolsa de Chicago, com crescimento de 6,7% em comparação ao mês anterior. A alta partiu de perspectivas de maior consumo de grãos nos Estados Unidos, além da expectativa de exportação para a China, com a possível elevação do uso de óleo de soja para biocombustíveis.
Em março, a cotação da soja teve novas altas, após o início do conflito entre EUA e Irã. De acordo com o BB Investimentos, a cotação mais alta do petróleo influencia os valores das commodities agrícolas, “dado que a cotação dos biocombustíveis se correlaciona com a do petróleo”.
Já o milho, no mês passado, teve uma leve queda de 0,3% comparado a janeiro, devido a expectativa de redução do trade global dos EUA, com maior competição contra exportadores sul-americanos e pouco crescimento da demanda global. Todavia, a guerra também elevou a cotação do grão, que fechou a US$ 4,53 no dia 12 de março.
Pressão sobre os preços
No caso das carnes, as perspectivas a médio e longo prazo para o BB não são tão otimistas.
A carne bovina teve uma desaceleração no ritmo de abates, mas manteve um patamar de exportações elevado. Esse desequilíbrio tem pressionado os preços da arroba do boi gordo, que está sendo negociada em torno de R$ 350/@, segundo o banco.
Para a carne de frango e a carne suína, o cenário é semelhante: crescimento dos abates, mas níveis de exportação reduzidos, prejudicando a rentabilidade tanto no mercado internacional quanto no mercado doméstico.
A analista Georgia Jorge, que assina o relatório, indica uma expectativa de que esse cenário se mantenha nos próximos meses e impacte negativamente a lucratividade do setor ao longo de 2026.
Ainda assim, entre as recomendações, os frigoríficos foram destaque de fevereiro para o BB, com 3 recomendações de compra em Minerva Foods (BEEF3), JBS (JBSS32) eMBRF (MBRF3). Já em março, SLC Agrícola (SLCE3) fica em evidência, apontando para os melhores resultados nos preços dos grãos.