Visualização de leitura

Sob Milei, turismo internacional na Argentina muda e reduz dependência de vizinhos

A Argentina recebeu, entre janeiro e maio deste ano, quase 1,19 milhão de turistas residentes em países não vizinhos, um aumento de 39% em relação aos mesmos cinco meses de 2023, quando o diferencial cambial ultrapassava 200% e sair para jantar em Buenos Aires era extremamente barato para qualquer visitante que chegasse com dólares ou euros.

Os dados são provenientes das Estatísticas de Turismo Internacional (ETI) do Indec e sugerem que a Argentina não precisa ser tão barata em dólares para atrair turistas norte-americanos, europeus ou asiáticos.

A Secretaria de Turismo, liderada por Daniel Scioli, informou que, entre janeiro e junho, o turismo de pessoas residentes em países não vizinhos atingiu um recorde histórico de 1,43 milhão de pessoas.

O pico anterior havia ocorrido em 2019 (1,38 milhão), enquanto em 2023 foram 1,17 milhão os turistas com as mesmas características que entraram na Argentina durante o primeiro semestre.

Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.

Por outro lado, a própria Secretaria destacou que o turismo não fronteiriço representa hoje 46% do total, contra 33% no primeiro semestre de 2023.

Esse fenômeno contrasta com o que ocorre com os turistas de países vizinhos, cujo fluxo ficou 29% abaixo do registrado no primeiro semestre de 2023 — período em que, devido à diferença cambial promovida pelo governo de Alberto Fernández, a dinâmica tornava extremamente barato o consumo em supermercados, entretenimento e gastronomia para quem cruzava a fronteira com pesos chilenos, guaranis, bolivianos, dólares ou reais.

Os números por região

O crescimento do turismo não fronteiriço ocorreu em todos os mercados de origem, mas o aumento mais acentuado em relação a 2023 foi o da categoria “resto do mundo”, que inclui turistas da Ásia, Oriente Médio, África e Oceania, que quase dobrou.

De acordo com os dados das ETI do Indec, o número passou de 65.800 visitantes entre janeiro e maio de 2023 para 127.000 no mesmo período de 2026, um aumento de 93%.

A Europa contribuiu com o maior volume absoluto, com 458.400 turistas, contra 330.300 em 2023, um aumento de cerca de 39%.

Os Estados Unidos e o Canadá somaram 329.200, 29,5% a mais do que há três anos. E o restante da América cresceu 34,7%, chegando a 270.200 visitantes.

Leia também: América Latina tem dois países na lista dos 50 passaportes mais poderosos em 2026

Desregulamentação

A Secretaria de Turismo atribuiu o forte crescimento à desregulamentação do “céu aberto”, que possibilitou mais voos internacionais, e à simplificação da concessão de vistos para cidadãos da China, Índia e República Dominicana, que agora podem entrar na Argentina com seu visto dos Estados Unidos, sem a necessidade de solicitar um visto adicional nem pagar outra taxa.

Também foi mencionado o lançamento de novas rotas aéreas, como o voo da China com escala na Nova Zelândia, que conectou diretamente o gigante asiático à Argentina. Atualmente, trata-se do trecho mais longo do mundo.

Por fim, destacaram a eficácia das diferentes campanhas de promoção internacional impulsionadas pelo Instituto Nacional de Promoção Turística (Inprotur).

“Conseguimos essa chegada histórica de turistas entre janeiro e junho deste ano”, disse Daniel Scioli à Bloomberg Línea.

Campanhas internacionais de promoção

O Inprotur informou que, desde o final de setembro de 2025, está em andamento a campanha “Freedom Lives Here” (“A liberdade mora aqui”, em tradução livre), divulgada em nove idiomas e voltada para mais de 18 mercados internacionais, entre eles Estados Unidos, Colômbia, Peru, México, Itália, Espanha, Alemanha, Reino Unido, França, Países Baixos, Austrália, Nova Zelândia, Índia e China.

Desde o seu lançamento, a campanha acumulou 400 milhões de impressões e alcançou mais de 250 milhões de usuários únicos, uma média de 24 milhões por mês.

A campanha é veiculada por meio do Google Ads e da Meta, e será ampliada em breve para outras plataformas, precisaram. Seu foco é posicionar a Argentina como um destino “livre e seguro”, o que o órgão identifica como uma das principais demandas do turista internacional.

Além da subcampanha mais recente, chamada “Grandeza”, o Inprotur também destacou parcerias comerciais com companhias aéreas e agências de turismo online, como Expedia e Decolar, que ajudam a promover o destino em escala global.

Leia também: Brasil tem 10 praias entre entre as 100 melhores de 2026, segundo levantamento

Visão do setor privado

Segundo Paula Cristi, gerente geral da Decolar para a Argentina e o Uruguai, “a melhoria na conectividade aérea internacional, com novas rotas, mais companhias aéreas chegando ao nosso país e um aumento na frequência dos voos, ampliou as opções para viajar para a Argentina a partir da Europa, dos Estados Unidos e de outros mercados de longa distância”, disse à Bloomberg Línea.

A executiva destacou que o turista de longa distância planeja com maior antecedência, permanece mais noites no destino e visita vários pontos do país, o que gera um maior impacto econômico em toda a cadeia turística.

Ela afirmou, além disso, que a Argentina se consolida como uma alternativa atraente na América do Sul para viagens de longo alcance, em um contexto em que os viajantes buscam maximizar o valor de suas férias.

Fator preço

Uma pessoa que trabalha no setor e pediu para permanecer anônima acrescentou outro elemento à análise desse recorde histórico: embora a Argentina opere com uma taxa de câmbio que muitos consideram desatualizada, há destinos nos Estados Unidos que são muito caros e, em comparação com eles, a Argentina consegue competir em termos de preço. Na opinião dela, isso funciona como um fator adicional que inclina a balança a favor do país.

Os dados sugerem que a competitividade turística da Argentina não depende exclusivamente da taxa de câmbio, mas de uma combinação de conectividade, promoção, simplificação de trâmites e uma relação preço-experiência que, mesmo sem o subsídio implícito que a diferença de de câmbio oferecia, continua atraente para o turista de longa distância, acrescentou a mesma pessoa.

Leia também

Direita à prova: Milei testa sua influência política na campanha de Flávio Bolsonaro

O turismo de países fronteiriçoes caiu 29% em comparação com o ano anterior (Foto: Divulgação)
  •  

Bancos veem Uruguai como hub financeiro e a ‘Singapura da América Latina’

O Uruguai está se consolidando como hub financeiro na América Latina — e em particular como plataforma para canalizar fluxos de investimento de latino-americanos.

A avaliação foi compartilhada por representantes do BTG Pactual, do JPMorgan Asset Management e da Janus Henderson na Pro Capital Conference 2026, organizada pela corretora uruguaia Pro Capital em 15 de abril, no Centro de Eventos do LATU, em Montevidéu.

Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.

Dirk Mengers, head of sales & business development para a América Latina excluindo o Brasil do BTG Pactual Asset Management, definiu o Uruguai como “a Singapura da região” e afirmou que o país é um passo natural para a expansão do maior banco de investimento da América Latina.

Leia também: Do Brasil ao México: como o FMI vê os impactos da guerra no Irã para a América Latina

O BTG Pactual está em processo de aquisição do HSBC no Uruguai — uma operação de US$ 175 milhões ainda pendente de aprovação regulatória, que consolidaria sua presença no país.

Mengers apontou que o banco percebe fragilidades nos Estados Unidos e na Europa — como crescimento dos gastos sociais e perda de confiança nas moedas locais — que tornam a América Latina um destino de investimento mais atrativo.

Juan Pablo Soffia, managing director do JPMorgan Asset Management para o Cone Sul, com 30 anos de indústria e 22 na instituição, apresentou dados do Guide to the Markets que ilustram o custo de tentar cronometrar o mercado: perder os 10 ou 20 melhores dias de negociação reduz drasticamente os retornos de longo prazo.

Sua mensagem foi direta: manter-se investido com carteiras diversificadas supera consistentemente a estratégia de tentar antecipar os movimentos do mercado.

Soffia disse que a carteira clássica 60/40 está evoluindo para uma configuração 50/30/20, que incorpora ativos alternativos como infraestrutura e dívida privada. “A diversificação não é apenas adicionar mais ativos. É alcançar uma descorrelação efetiva”, afirmou. O JPMorgan Asset Management administra US$ 4,3 trilhões globalmente, com presença em 34 países e mais de 1.500 analistas.

IA como tendência estrutural de investimento

John Davies, representante da Janus Henderson Investors no Uruguai e com 12 anos representando a gestora na região, defendeu que a inteligência artificial é uma tendência de longo prazo que os investidores deveriam acessar por meio de fundos especializados com histórico comprovado, em vez de tentar selecionar ações individuais.

Ele citou o fundo Global Technology Leaders da gestora, ativo desde 1996, como exemplo de veículo para capturar a temática sem o risco do stock picking.

Davies recomendou ignorar, na medida do possível, o ruído geopolítico e focar nas megatendências.

Sobre o conflito no Oriente Médio e seu impacto nos mercados, os três painelistas concordaram que a volatilidade gerada por notícias tende a se dissipar e que a chave está na alocação estratégica de longo prazo — não em reagir a cada manchete.

América Latina: fluxos que revalorizam a região

Mengers afirmou que o BTG está observando um fluxo global que revaloriza a América Latina e que os clientes estão se diversificando em direção à região.

Segundo ele, a aposta do banco é em ativos de “baixa obsolescência” — commodities, logística e serviços bancários — que têm caráter tangível difícil de replicar com tecnologia.

O evento contou ainda com a participação de Hernán Kazah, cofundador do Mercado Livre e co-líder da Kaszek, maior fundo de venture capital da América Latina, e de Guibert Englebienne, cofundador e presidente para a América Latina da Globant. O Bank of New York Mellon participou como parceiro estratégico do evento.

Diego Pozzi, fundador e managing partner da Pro Capital, destacou que o Uruguai capta cada vez mais fluxos de clientes argentinos e institucionais, gerando emprego e oportunidades nas áreas de gestão de ativos e estruturação financeira.

Pozzi afirmou que a Pro Capital e o Itaú são os dois destinos profissionais mais aspiracionais para jovens de finanças no Uruguai.

Leia também

Family office dos Safra tem novo CEO após alta de 78% em ativos

Citi nomeia José Alberto Benamor como novo líder de commercial banking para o Brasil

Mengers, do BTG, apontou que o banco percebe fragilidades nos Estados Unidos e na Europa que tornam a América Latina um destino de investimento mais atrativo.
  •