Visualização de leitura

Quando o algoritmo para de pagar por cobras criadas em cativeiro

TL;DR: O May 2026 Core Update encerrou seu rollout em 21 de maio, mesmo dia em que publiquei aqui no TecMundo sobre o ciclo de volume com IA. Publishers que fabricaram conteúdo em escala para o Discover estão registrando quedas severas e irreversíveis no curto prazo. A Lei de Goodhart explica o mecanismo: quando a métrica vira meta, o comportamento se distorce até o sistema se ajustar. Há recuperação possível, mas não há atalho.

Este é um texto que não gostaria de escrever, mas é parte do que me levou a montar a 42ENGINE e a 42WP.

Não gostaria de escrevê-lo por me faltar argumento, mas pela frustração que me gera, uma vez que o problema foi construído com cumplicidade ampla, de ferramentas, de plataformas oportunistas, de publishers e, em parte, da lógica perversa dos incentivos que o próprio ecossistema de busca ajudou a criar.

Esse último Core Update terminou o rollout em 21 de maio, mesmo dia em que publiquei no TecMundo uma análise sobre as duas forças simétricas que alimentam o ciclo vicioso da desconstrução de valor: o pânico com o fim dos cliques e a corrida irresponsável por volume. O que descrevi como padrão emergente chegou.

Publishers em todo o Brasil estão em colapso. Ouvi isso de muita gente com queda acentuada de tráfego e, consequentemente, de receita. Mas a resposta honesta para quem me pergunta o que aconteceu é que a responsabilidade não é do Google, desculpe informar.

A lei de Goodhart

Em 1975, o economista Charles Goodhart descreveu um princípio simples e verdadeiro: quando uma métrica vira meta, ela deixa de ser uma boa métrica. As pessoas distorcem o comportamento para atingir a meta, e a métrica perde seu significado original.

O Google Discover virou meta, e o que acontece quando uma métrica vira meta?

As pessoas criam cobras para receber a recompensa por cobra morta.

A origem da metáfora aconteceu quando o governo colonial britânico na Índia criou um programa de recompensas por cobra morta. Moradores passaram a criar cobras em cativeiro para entregá-las. Quando o programa foi cancelado, as cobras foram soltas. O problema ficou pior do que antes. O ecossistema de conteúdo digital vem reproduzindo esse ciclo com precisão.

As cobras têm nomes conhecidos

Ferramentas que vendem conteúdo 100% gerado por IA, calibrado para trending topics do Google Discover, com páginas saturadas de publicidade de baixo custo por clique. Publishers que seguem sugestões automáticas de plataformas de analytics e publicam para os mesmos tópicos e ao mesmo tempo que todos os assinantes da mesma plataforma o fazem. O resultado é o mesmo, uma enxurrada de conteúdo de baixo valor, experiência degradada, zero jornalismo.

Documentei o caso Rite Aid na coluna anterior: uma keyword trending no Brasil em menos de 48 horas, 11 versões da mesma matéria publicadas por veículos diferentes, sem nenhum dado original, sem nenhuma apuração. O conteúdo fabricado ocupou o espaço do conteúdo autoral nos resultados de busca.

O Google, ao perceber que as cobras estavam sendo criadas apenas para receber a recompensa, suspendeu o pagamento. Era inevitável que iria acontecer, só não se sabia quando.

O efeito MAIE e a proximidade do cume

MAIE, ou Mount-AI Effect é a curva que aparece quando um publisher adota estratégia de volume com IA para capturar sinal algorítmico: subida íngreme, pico, descida vertical.

Uma agência de AEO celebrou +4.000% de tráfego no próprio site em setembro de 2025. Em abril de 2026: 190 visitas. Lily Ray monitorou mais de 220 sites identificados como clientes de plataformas de criação de conteúdo com IA: 54% perderam 30% ou mais do pico de tráfego orgânico; 22% perderam 75% ou mais. A descida é proporcional à artificialidade da subida e costuma ser muito mais veloz.

Se você está na fase ascendente, cuidado, pois pode estar muito próximo do cume.

A injustiça estrutural do ciclo

O que me incomoda não é que o Google ajuste o algoritmo. Algoritmos se ajustam e é o que deveriam fazer. O que me incomoda é que o conteúdo de qualidade pagou parte do preço pela volatilidade criada por quem não investiu na sua construção.

O que é possível fazer

Há recuperação. Fiz isso na CNN Brasil. Fizemos na 42WP com alguns publishers, recentemente. Porém, não é rápida, não existe mágica e não há atalho. É a reconstrução de autoridade com conteúdo original, experiência de leitura que respeita o leitor, CMS e infraestrutura preparados para entregar eficiência e consistência editorial.

A saúde da indústria e a medicação correta

A saúde da indústria de mídia está cada dia mais frágil e o que mais me preocupa não é a fragilidade em si, mas a resposta que boa parte do mercado escolheu para ela.

Paliativos funcionam para dar alguma qualidade de vida. Mas quando o diagnóstico é grave e a terapia escolhida é apenas aliviar o sintoma, o que se prolonga não é a recuperação, é a morte. Volume sem substância, publicidade invasiva e conteúdo sem governança são paliativos. Compram tempo, mas não recuperam a saúde.

A medicação correta existe. É mais lenta, exige disciplina e não produz resultado no trimestre, mas é a única que leva à recuperação. Autoridade editorial construída consistentemente, experiência de leitura que respeita o leitor, modelo de receita que não canibaliza a confiança que sustenta o negócio.

Como no mercado financeiro, as quedas costumam ser bruscas e a recuperação é lenta. Espero que este texto provoque uma reflexão que ajude a repensar o papel e propósito de cada um, muito além da métrica — ainda que ela seja importante. Chamemos essa reflexão de Lei de good heart!

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O desafio de desaprender na era da IA

Publicado na semana passada, Labor Market Impacts of AI: A New Measure and Early Evidence é o estudo mais detalhado já produzido pela Anthropic sobre o impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho. Analisou mais de um milhão de conversas reais com o Claude, mapeou mais de 20 mil tarefas profissionais e criou uma métrica chamada “observed exposure”, a distância entre o que a IA é teoricamente capaz de fazer e como está sendo efetivamente usada nas organizações.

Para profissionais de computação e matemática, modelos de linguagem são teoricamente capazes de executar 94% das tarefas. Em funções administrativas, o gap é semelhante. O vermelho, adoção real, é uma fração do azul, capacidade possível.

O próprio paper identifica o problema e indica que a diferença entre a exposição atual à IA e a exposição potencial é muito grande, abrindo a possibilidade de maior disrupção adiante. Mas há uma dimensão que o estudo não captura.

O problema das fotografias

O paper mede um momento. Uma fotografia de onde a adoção chegou em relação ao que já é possível. É uma contribuição valiosa para gestores que precisam entender o presente.

Mas o presente não é onde o risco mais relevante se esconde.

A fronteira azul não é estática. Enquanto o vermelho tenta alcançar o azul atual, os modelos continuam avançando e expandindo o próprio azul em velocidade provavelmente superior à velocidade da capacidade de qualquer organização absorver o que já existe no mundo teórico. Não por falha das empresas, mas porque a capacidade teórica se expande mais rápido do que a fricção corporativa — legal, cultural, regulatória — permite.

É preciso mudar o foco e observar o “vazio”, o espaço além do que a teoria nos permite enxergar hoje. Não o vermelho do que já foi adotado, nem o azul do que já se sabe possível. Mas o branco do que ainda não tem contorno, mas que ganhará forma em 18 a 36 meses.

Fonte: https://www.anthropic.com/research/labor-market-impacts “Theoretical capability and observed exposure by occupational category. Share of job tasks that LLMs could theoretically perform (blue area) and our own job coverage measure derived from usage data (red area).”

É nesse espaço que o risco real se prepara, silenciosamente.

Execute, Adapt, Unlearn

A partir dessa observação desenvolvemos um framework de três círculos para avaliar prontidão organizacional diante da expansão da IA.

Execute é o círculo interno, no domínio do conhecido. Aqui a organização opera o que já sabe, com processos estabelecidos e métricas de eficiência. É onde a maioria das análises de impacto da IA se concentra e onde os resultados são mais visíveis.

Adapt é o círculo intermediário, no domínio da mudança. A organização precisa de abertura para absorver o que já é tecnicamente possível, mas ainda não foi internalizado. A métrica aqui não é velocidade, mas permeabilidade. A capacidade de mudar sem quebrar.

Unlearn é o círculo externo, no domínio do desconhecido em mutação. Aqui as métricas do passado deixam de funcionar. Eficiência, velocidade, ROI — todos são instrumentos calibrados para o que já existe. No espaço branco, a única métrica útil é a qualidade da experimentação: a capacidade de errar com aprendizado, de desaprender ativamente para explorar o que ainda não tem forma.

Perguntas diferentes para contextos diferentes

O C-level gerencia a tensão entre Execute e Adapt. A execução, acelerar adoção, reduzir fricção, transformar capacidade teórica em operação real. Roadmaps, change management, e indicadores de cobertura. O horizonte é o que cabe no balanço.

O board monitora a distância entre Adapt e Unlearn. A prontidão organizacional, que indica a capacidade da empresa de navegar de forma consciente quando o azul se expande e engloba o que hoje está no espaço branco. O horizonte é o que ainda não tem nome.

A maioria dos modelos de maturidade de IA disponíveis hoje está calibrada para a tensão Execute/Adapt. Perguntam “quão bem está sendo adotado?” quando a pergunta estratégica do board deveria ser: “quão bem estamos organizacionalmente preparados para o que ainda não sabemos que virá?”. Esse é o tipo de pergunta que estamos interessados na Comissão do Futuro da Governança, no IBGC - Instituto Brasileiro de Governança Corporativa.

São perguntas fundamentalmente diferentes e, por isso, exigem instrumentos igualmente fundamentalmente diferentes.

O que medir no espaço branco

A pergunta sobre prontidão para o círculo Unlearn não tem resposta fácil.

Se o CA só consegue avaliar a IA com métricas de eficiência e velocidade de adoção, ele está, na prática, navegando o futuro com instrumentos do passado. O espaço branco não é um vácuo temporário que a adoção eventualmente preencherá. É o espaço onde decisões estratégicas são tomadas sem consciência do risco real e onde as organizações mais bem preparadas construirão vantagem antes que o risco se torne visível para todos.

Prontidão para o Unlearn não se mede com quantas ferramentas de IA a empresa adotou. Mede-se pela capacidade da organização de experimentar sem garantia de retorno, de errar sem punição, de desaprender uma certeza operacional antes que ela se torne um obstáculo.

É uma métrica de cultura antes de ser uma métrica de tecnologia.

The 42* question

Se sua organização precisasse desaprender uma certeza estratégica hoje para estar pronta amanhã, qual seria ela? E quem no seu conselho está fazendo essa pergunta?
 

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