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Pesquisa expõe como sistemas de reconhecimento facial reproduzem desigualdades sociais

Antes de reconhecer alguém diante da câmera, um sistema de inteligência artificial (IA) precisa decidir se aquele rosto “existe”. É justamente nesse momento, anterior à identificação, que, segundo a cientista da computação Ana Carolina Silva das Neves da Hora, mais conhecida como Nina da Hora, começam os apagamentos produzidos pelas tecnologias de reconhecimento facial, tema de sua tese de mestrado, Do Rosto ao Vetor: Epistemicídio Computacional no Reconhecimento Facial, defendida nesta segunda-feira (11), no Instituto de Computação (IC).

Orientada pela professora Sandra Avila, do IC, e coorientada pela antropóloga Marisol Marini, da Universidade de São Paulo (USP), a tese teve na banca examinadora a socióloga Angela Figueiredo, da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), e o pesquisador Virgílio Almeida, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). 

A pesquisa combina reflexão teórica e experimentos computacionais para analisar desigualdades em arquiteturas de detecção facial amplamente utilizadas em sistemas de IA. Da Hora propõe o conceito de “epistemicídio computacional”, inspirado nos trabalhos da filósofa Sueli Carneiro sobre o apagamento de sujeitos negros na produção do conhecimento. O trabalho multidisciplinar reúne computação, antropologia, artes visuais, estudos raciais e filosofia.

A pesquisadora auditou arquiteturas de detecção facial utilizando uma base criada pela Meta, dona do Facebook, do Instagram e do WhatsApp, a partir de vídeos enviados por pessoas de países como Brasil, Índia, Síria e Indonésia. Os resultados revelaram desigualdades profundas nos processos de detecção facial. “O dano já começa antes, quando o sistema sequer detecta aquele rosto como um rosto válido”, explica.

Em um dos experimentos, pessoas acima de 85 anos tiveram apenas 44% de taxa de detecção, enquanto grupos mais jovens alcançaram índices superiores a 90%. Em outros casos, determinados grupos simplesmente desapareciam dos sistemas. “Tivemos grupos com 0%. Normalmente, quando aparece um 0%, você roda o sistema de novo e tenta corrigir. Mas quis investigar por que aquelas pessoas tinham desaparecido”, diz.

Uma pessoa apresentando em um evento acadêmico, gesticulando diante de duas telas de projeção, sendo uma com participantes em videoconferência à esquerda e outra com slide de apresentação em português sobre questões de pesquisa à direita.
Pessoa apresentando em evento acadêmico diante de projeção contendo slide com título "O rosto não é dado natural: e superfície de disputa" e subtítulos sobre teorias relacionadas a eugenia e biometria, com monitor ao fundo exibindo participante remoto em biblioteca.
A pesquisa combina reflexão teórica e experimentos computacionais para analisar desigualdades em arquiteturas de detecção facial amplamente utilizadas em sistemas de IA

Segundo Da Hora, os sistemas simplificam realidades complexas ao transformar diversidade humana em categorias rígidas. “É como se não existissem variações. Ou você é branco ou você é negro. Mas nós sabemos que isso não representa países como o Brasil.”

Mais do que erros técnicos, a pesquisadora vê nesses resultados a materialização de escolhas políticas e históricas. “A etapa do reconhecimento só acumula problemas. Primeiro, o sistema precisa decidir que existe um rosto ali.” Em muitos casos, afirma, nem mesmo a autodeclaração das pessoas é suficiente. “Quando eu mando um vídeo dizendo quem eu sou, pessoas do outro lado podem dizer que eu não sou aquilo que estou dizendo. E, às vezes, a palavra delas vai valer mais.”

Segundo a pesquisadora, o problema não está apenas na precisão técnica. “A questão não é fazer a tecnologia funcionar melhor”, afirma. “É perguntar por que estamos insistindo em tecnologias que transformam pessoas em padrões de vigilância.”

Da Hora vê a expansão dessas tecnologias como parte de uma transformação maior nas formas de controle social e circulação da informação. “O reconhecimento facial e as inteligências artificiais são vendidos como solução para tudo. Mas, muitas vezes, o que elas produzem é exclusão e aprofundamento de desigualdades. Eu queria entender o que se perde quando você transforma o rosto de uma pessoa em vetor matemático”, afirma.

“Você olha para um rosto e tenta resumir aquela pessoa a medidas, padrões e probabilidades. Só que ali existe história, contexto e identidade”, destaca.

Além da dissertação, a pesquisadora tem novos trabalhos acadêmicos. Um deles, intitulado Frankenstein em Processo: Epistemicídio Computacional no Reconhecimento Facial, será apresentado em junho, no Canadá, em uma conferência mundial sobre justiça algorítmica. No artigo, ela aproxima a lógica dos sistemas de reconhecimento facial da figura do personagem Frankenstein. “Você pega retalhos e monta uma pessoa”, explica. “Fragmenta o rosto e tenta contar a história de alguém apenas a partir daquilo.”

Uma pessoa usando óculos e vestimenta com estampa geométrica colorida gesticula com as mãos enquanto fala em um ambiente interno com quadros ao fundo.
Pesquisadora se tornou uma das vozes mais conhecidas da discussão sobre tecnologia e racismo algorítmico no país

Ativismo e ética

Prestes a completar 31 anos, Nina da Hora se tornou uma das vozes mais conhecidas da discussão sobre tecnologia e racismo algorítmico no país. Colunista da MIT Technology Review Brasil, pesquisadora do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getúlio Vargas (FGV), integrante da comissão de tecnologia do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e fundadora do Instituto da Hora, ela construiu uma trajetória que atravessa ciência, ativismo e divulgação tecnológica.

Em poucos anos, acumulou reconhecimentos importantes. Em 2022, recebeu o CUBS Sabiá Award, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, pela pesquisa sobre racismo algorítmico no reconhecimento facial. Antes disso, entrou para a lista Forbes Under 30 e foi incluída entre as 100 mulheres mais relevantes do mundo em ética em inteligência artificial.

Embora hoje seja conhecida nas redes como “hacker antirracista”, a pesquisadora explica que sua trajetória passou menos pela invasão de sistemas e mais pela cibersegurança. Ela trabalhou com análise de hardware e investigação técnica de códigos, especialmente em projetos ligados às urnas eletrônicas e à transparência eleitoral nas eleições de 2022. “Eu trabalhei mais com hacker ético”, afirma. “Depois, os caminhos me levaram para a inteligência artificial e ‘hacker’ acabou virando mais um apelido”, conta.

Essa preocupação atravessa também sua atuação pública. Depois de integrar a Comissão de Transparência das Eleições de 2022, Da Hora volta a colaborar com o TSE, agora em discussões ligadas à inteligência artificial, plataformas digitais e regulação tecnológica. Ela acredita que as próximas eleições brasileiras serão profundamente impactadas pelo avanço da IA generativa. “Essa vai ser a eleição da inteligência artificial”, afirma. “Nós já temos dificuldade de diferenciar o que é real e o que não é. Isso vai aumentar muito nas campanhas.”

Segundo Da Hora, embora o TSE tenha aprovado regras para limitar determinados usos de IA durante o período eleitoral, ainda existem poucas ferramentas capazes de detectar manipulações em larga escala. “A disputa agora também acontece no campo da confiança”, observa. “As pessoas vão olhar vídeos, imagens, áudios, e muitas vezes não vão saber se aquilo aconteceu de verdade.”

Outro eixo importante de sua atuação está no Instituto da Hora, organização criada em 2020 para discutir direitos digitais, IA e soberania tecnológica a partir de perspectivas antirracistas. O instituto mantém projetos voltados à formação de jovens periféricos em segurança da informação e apoio a pessoas LGBTQIAPN+ interessadas em pesquisa e tecnologia. “A gente trabalha muito nesse momento do ‘pré’ e do ‘durante’ tentando ajudar as pessoas a chegar nesses espaços e permanecer neles.”

Três pessoas conversam em pé diante de uma tela de projeção que exibe o título "Do Rosto ao Vetor: Epistemicídio Computacional no Reconhecimento Facial" e informações sobre uma defesa de dissertação de mestrado de Nina da Hora, em um ambiente de apresentação acadêmica.
Duas pessoas abraçadas sorrindo em um ambiente acadêmico, com projeção ao fundo exibindo texto sobre orientadora e coorientadora, durante o que aparenta ser uma defesa ou apresentação acadêmica.
Nina Da Hora (ao centro) ao lado das orientadoras Sandra Avila (à esquerda) e Marisol Marini e com a mãe Ana Cláudia

Fora do roteiro

Quando chegou à Unicamp, vinda da Baixada Fluminense (RJ), Da Hora carregava a sensação de estar em um território que, durante muito tempo, parecia não lhe pertencer. “Tinha um roteiro muito mais simples para a minha vida”, afirma. “Fazer pesquisa na Unicamp não fazia parte do roteiro.”

A pesquisadora aprendeu programação ainda adolescente no computador de uma tia e com materiais emprestados por amigos da mãe, a professora Ana Cláudia, que prestigiou a defesa do mestrado na Unicamp.

Antes de chegar ao curso de graduação em Ciência da Computação, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), conciliou estudos, trabalho e longos deslocamentos diários. Na faculdade, o choque social foi imediato. “Eu vivia em outra realidade, as pessoas perguntavam, por exemplo, por que eu trabalhava.”

Na Unicamp, o estranhamento voltou em outra escala. “É outro mundo ao quadrado”, afirma. “A Unicamp, para mim, tem uma diversidade muito maior do que outros espaços por onde passei. Ela é um mundo de oportunidades.”

Entre uma conferência internacional, experimentos computacionais e debates públicos sobre tecnologia, a pesquisadora tenta administrar a dimensão mais íntima de tudo o que conquistou nos últimos anos. “Se eu pudesse traduzir meu sentimento, é uma mistura de muito orgulho do que eu fiz e o medo de perder. Fiquei em alerta durante esses três anos.”

Depois da defesa, planeja descansar por algumas semanas antes de decidir os próximos passos do doutorado, possibilidade já discutida por grupos da própria Universidade. Enquanto fala sobre o futuro, Da Hora retorna várias vezes à ideia do improvável. Não como exceção individual, mas como abertura de caminhos. “Hoje eu encontro estudantes chegando na computação com os olhos brilhando”, conta. “E eu penso muito nisso, porque eu também não imaginava que conseguiria chegar aqui.”

Foto de capa:

Ambiente de evento com participantes sentados em cadeiras assistindo a uma apresentação, onde uma pessoa está de pé próxima a uma mesa de madeira clara, com múltiplas telas exibindo videoconferência e projeção de slides contendo texto em português.
Nina durante apresentação da dissertação de mestrado Do Rosto ao Vetor: Epistemicídio Computacional no Reconhecimento Facial, defendida nesta segunda-feira (11), no Instituto de Computação (IC)

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Pterossauros para jovens exploradores

Resultado de uma dissertação de mestrado em Ensino e História de Ciências da Terra defendida no Instituto de Geociências (IG) da Unicamp, o livro “Pterossauros para jovens exploradores” apresenta de forma didática a família desses lagartos alados, muitas vezes confundidos com dinossauros. Com orientação de Fresia Soledad Ricardi Torres Branco, a pesquisadora Cristiane Vigilato da Paixão desenvolveu um material didático como ferramenta para o ensino de paleontologia na educação básica. O livro, de 66 páginas, reúne os frutos de sua dissertação e 13 modelos de pterossauros para serem recortados e montados em formato de móbile.

Paixão é formada em Biologia pela Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP) e, durante a graduação, foi orientada por Ariel Milani Martine, que a coorientou no mestrado. Além do livro, junto a uma equipe, a pesquisadora elaborou um móbile, pendurado no teto do hall do IG, que foi pensado como uma árvore filogenética, com representantes das 13 famílias de pterossauros estudadas.

O livro, que traz as mesmas espécies do móbile, também apresenta conceitos de paleontologia e de evolução, mostrando onde esses seres habitavam e onde hoje são encontrados seus fósseis. “Há um pouco de biologia e de geologia”, explica Paixão. Segundo orientadora Fresia Ricardi, “um banner explicativo com QR Code ficará disponível na entrada principal do prédio para que as pessoas possam conhecer os pterossauros”. O material foi registrado na Biblioteca Nacional e tem direitos autorais reservados.

Quatro pessoas sorrindo seguram um livro sobre pterossauros e maquetes de répteis voadores suspensos, em ambiente interno com teto alto, janelas e iluminação natural, com uma exposição sobre paleontologia.
Átrio interno de uma edificação institucional com pé-direito amplo, claraboia em estrutura metálica amarela no teto, múltiplos pavimentos com varandas laterais, escadaria central em mármore com corrimãos brancos, e grupo de pessoas observando a arquitetura do espaço, com balcão de recepção ao fundo.
Equipe que desenvolveu o projeto do móbile com a orientação da professora Frésia Ricardi (blusa verde)

Ariel Martine foi responsável pela pintura dos pterossauros; Pábulo Matheus Domiciano, doutorando em Geociências no IG, fez as ilustrações; Bruno Belila Rusinelli elaborou os mapas do livro. Paixão ficou responsável por vetorizar os desenhos do mobile em AutoCad, que foram cortados no Laboratório Plasma, do Instituto de Física Gleb Wataghin.

Para produzir o móbile e imprimir o livro, a equipe coordenada por Fresia Ricardi obteve apoio da Pró-Reitoria de Pós-Graduação da Unicamp e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). “A coordenação do Programa de Pós-Graduação em EHCT colaborou para o sucesso da submissão do projeto de extensão junto à Capes”, reforça a orientadora. Assim, além da impressão do móbile em destaque no hall do IG, foi possível imprimir 200 exemplares que serão distribuídos. Uma versão online está disponível na Biblioteca Digital da Unicamp.

Foto de capa:

Três pessoas sorrindo posam para foto em ambiente interno com arquitetura moderna colorida ao fundo, sendo que a pessoa ao centro segura um livro sobre pterossauros e a pessoa à direita segura uma estrutura articulada representando um pterossauro.
Da esquerda para a direita, Bruno Belila Rusinelli, Cristiane Vigilato da Paixão e Pábulo Matheus Domiciano: apoio ao projeto da Capes e PRPG

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Estágio de pós-doc no exterior fortalece parcerias em estudos sobre erosão costeira no Mediterrâneo

O pós-doutorando do Departamento de Geografia do Instituto de Geociências (IG) Luca Lämmle retornou de um estágio de um ano no Departamento de Geologia da Universidade de Patras, na Grécia, onde foi recebido por Pavlos Avramidis. Sob supervisão do professor do IG Archimedes Perez Filho no IG, Lämmle pesquisou ambientes de transição de áreas estuarinas e deltaicas localizadas na foz do rio Pineios, no oeste do Peloponneso, Grécia. Também realizou atividades de campo junto à Universidade de Napoli Federico II, na Itália, por dois meses, quando pesquisou a foz do rio Volturno, localizado na região Campania, no sul do país. Seus estudos buscaram compreender como as pressões antrópicas nas bacias hidrográficas — incluindo urbanização, agricultura e barragens — impactam o sistema costeiro. O foco principal recai sobre a erosão costeira progressiva, que ameaça áreas urbanas no Mediterrâneo, configurando um desafio crescente para a gestão pública.

À esquerda, visita ao State Key Laboratory of Estuarine and Coastal Research (East China Normal University) e grupo de pesquisa anfitrião
À esquerda, visita ao State Key Laboratory of Estuarine and Coastal Research (East China Normal University) e grupo de pesquisa anfitrião
À esquerda, visita ao State Key Laboratory of Estuarine and Coastal Research (East China Normal University) e grupo de pesquisa anfitrião

Financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Lämmle conta que seu primeiro contato com Avramidis, coordenador do Laboratório de Sedimentologia da universidade grega, ocorreu durante seu doutorado em Geografia no IG. Em 2023, o coordenador consolidou parceria com o Laboratório de Geomorfologia (Geomorfo), coordenado por Perez Filho, quando participou de um workshop internacional.

Resultados dos estudos na Grécia

Segundo Lämmle, “é possível apontar que o principal problema das áreas estudadas até então é que estão passando por um processo de erosão costeira com intensidade progressiva, associada às alterações no fluxo hidrossedimentar dos rios, reduzindo sua capacidade de transportar sedimentos até a costa”. Esses sedimentos deveriam chegar às praias e manter o equilíbrio na área de foz, mas a perda de energia dos rios diminui o fluxo de sedimentos até a foz. Esse déficit nas praias faz com que as ondas avancem sobre o continente para recompor o material ausente, o que caracteriza o fenômeno da erosão costeira.

O pesquisador aponta que, “dentre as principais atividades de uso relacionada a tais alterações, está a presença de barragens, que possuem grande capacidade de reter sedimentos e de alterar o fluxo de vazão fluvial”. Praias urbanas próximas a essas áreas também foram analisadas por Lämmle. Dois artigos já foram publicados e outro está em avaliação: um no periódico Anthropocene Coasts e outro no Land.  

Palestra proferida na Universidade de Veneza e apresentação de resultados parciais na 11ª Conferência Internacional de Geomorfologia, realizada em Christchurch, na Nova Zelândia,
Palestra proferida na Universidade de Veneza e apresentação de resultados parciais na 11ª Conferência Internacional de Geomorfologia, realizada em Christchurch, na Nova Zelândia,

Durante a execução do projeto, o pós-doc do IG propôs um evento no formato de reunião científica aqui no Departamento, intitulado “II Meeting on Tropical and Subtropical transitional environments“. “O objetivo do evento foi consolidar as colaborações internacionais vinculadas ao projeto, e o encontro contou com membros do Laboratório de Geomorfologia da Unicamp, além de professores de universidades italianas, americanas, alemãs e gregas”, destaca Lämmle. 

O pesquisador também participou de palestras na Universidade de Genova (Itália), na Universidade de Napoli Federico II (Itália) e na Universidade da Basilicata (Itália), que permitiram estreitar relações acadêmicas para ampliar a colaboração internacional do grupo do Geomorfo-Unicamp.

Eventos internacionais

Durante seu estágio na Grécia, o pós-doc do IG participou de eventos internacionais, como o Congresso Internacional de Geomorfologia, na Nova Zelândia, em que divulgou resultados parciais em apresentação oral e coordenou uma sessão temática do eixo de Geomorfologia Antropogênica, juntamente com o Francesco Faccini, professor da Universidade de Genova, e Alessia Pica, da Universidade de Roma La Sapienza.

Lämmle participou ainda de uma atividade de campo na China, no delta do rio Yangtze, no State Key Laboratory of Estuarine and Coastal Research. Esse laboratório é o principal centro de estudos estuarinos e costeiros da China, sendo vinculado ao Ministério da Educação e estando hospedado na East China Normal University (ECNU). O pós-doc ministrou a palestra “Transitional environments under anthropogenic pressures: current challenges and future directions”.

Professores e pesquisadores participantes do II Meeting on Tropical and Subtropical Transitional Environments no auditório da Universidade de Patras
Professores e pesquisadores participantes do II Meeting on Tropical and Subtropical Transitional Environments no auditório da Universidade de Patras

Prêmios e títulos

Os estudos de Lämmle tem rendido prêmios internacionais. Um deles ocorreu durante seu estágio na Grécia. Concedido em junho de 2025, para participar da “Giornate di Studi autunnali AIGeo” realizada em Florença (Itália), no formato de conferência científica, o pós-doc ficou em primeiro lugar entre os geomorfólogos de destaque.  

No final de 2025, Lämmle recebeu o título de cidadão honorário de Belmonte, na Bahia, por reconhecimento aos trabalhos em desenvolvimento sobre erosão costeira no município, que está localizado na foz do rio Jequitinhonha.  “A sessão solene ocorreu em 15 de dezembro de 2025, mas, em decorrência da realização do estágio no exterior, não pude participar pessoalmente, e o título foi recebido por um familiar”, explica. 

À esquerda, grupo de pesquisa do Laboratório de Sedimentologia do Departamento de Geologia da Universidade de Patras, Grécia; à direita, trabalho de campo do II Meeting on Tropical and Subtropical Transitional Environments
À esquerda, grupo de pesquisa do Laboratório de Sedimentologia do Departamento de Geologia da Universidade de Patras, Grécia; à direita, trabalho de campo do II Meeting on Tropical and Subtropical Transitional Environments
À esquerda, grupo de pesquisa do Laboratório de Sedimentologia do Departamento de Geologia da Universidade de Patras, Grécia; à direita, trabalho de campo do II Meeting on Tropical and Subtropical Transitional Environments

Convite

Lämmle é membro de corpo editorial de três revistas internacionais. “Submissões resultantes de pesquisas do IG são muito bem-vindas, uma vez que vários professores já publicam nessas revistas”, aponta o pós-doc.

Para saber mais sobre as revistas, acesse:

Anthropocene Coasts (Springer)/Associate Editor

Quaternaty International (Elsevier)/ Editorial Board member

Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology (Elsevier)/ Editorial Board member

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Pesquisa aponta problemas de pele em crianças e adolescentes que utilizam dispositivos para controlar diabetes

A equipe da Endocrinologia Pediátrica do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp participou de uma pesquisa internacional sobre o uso de dispositivos tecnológicos como sensores de glicose e bombas de insulina para controlar a glicemia de crianças e adolescentes. O estudo envolveu 22 centros de diabete pediátrica no mundo e foi realizado com mais de 1.700 crianças e adolescentes com a doença.

Durante quatro semanas foram coletados dados das crianças e adolescentes que utilizavam esses dispositivos, incluindo fatores demográficos, problemas de pele visíveis, tipo de dispositivo e produtos utilizados.  A pesquisa mostrou que problemas de pele estavam presentes em 52% dos usuários de bomba de insulina, em comparação com 30% dos usuários de sensor de glicose. Eczema foi encontrado em 9% dos participantes tanto nos locais de aplicação da bomba de insulina quanto nos locais de aplicação do sensor de glicose.

A endocrinologista pediátrica, Mariana Zorron: risco de complicações
A endocrinologista pediátrica, Mariana Zorron: risco de complicações

Cicatrizes, feridas e lipodistrofias foram mais frequentes nos locais de aplicação da bomba de insulina do que nos locais de aplicação do sensor de glicose. Tanto a xerose cutânea (pele excessivamente seca, áspera e descamativa) quanto a queratose pilar (acúmulo de queratina nos folículos pilosos) estiveram fortemente associadas a quase todos os tipos de problemas de pele, aumentando o risco de duas a cinco vezes.

De acordo com Mariana Zorron, endocrinologista pediátrica do HC da Unicamp, esse estudo trouxe evidências sobre as complicações cutâneas associadas ao uso de tecnologias na prática clínica. Ainda segundo a especialista da Unicamp, os problemas de pele são uma preocupação séria que limita o uso de dispositivos para diabetes em crianças e adolescentes, aumentando, consequentemente, o risco de complicações.

“O desenvolvimento de dispositivos mais amigáveis, a conscientização da família sobre os cuidados com a pele e a identificação precoce dos fatores de risco como pele seca ou queratose pilar são necessários para garantir que todas as crianças e adolescentes com diabetes possam usar esses dispositivos de forma eficaz em longo prazo”, comenta Zorron.

Os resultados foram constam do artigo Skin-Pedic: A Worldwide Assessment of Skin Problems in Children and Adolescents Using Diabetes Devices [uma avaliação mundial de problemas de pele em crianças e adolescentes usando dispositivos para diabetes] do qual Zorron é uma das autoras. O estudo também teve a participação das médicas e médicos-residentes da equipe da endocrinologia pediátrica do HC da Unicamp.

O artigo foi selecionado para o Anúário 2025 da Conferência Internacional sobre Tecnologias e Tratamentos Avançados para o Diabetes (ATTD, na sigla em inglês). A apresentação aconteceu durante a edição de 2026 do ATTD, ocorrido no mês de março, em Barcelona, na Espanha.

Cicatrizes, feridas e lipodistrofias foram mais frequentes nos locais de aplicação da bomba de insulina do que nos locais de aplicação do sensor de glicose
Cicatrizes, feridas e lipodistrofias foram mais frequentes nos locais de aplicação da bomba de insulina do que nos locais de aplicação do sensor de glicose

Inovação no cuidado

O ATTD é um dos principais congressos internacionais dedicados à inovação no cuidado do diabetes, especialmente no campo das tecnologias avançadas. Seu Anuárioreúne os artigos científicos mais relevantes e impactantes da área, selecionados e analisados criticamente por especialistas internacionais.

“A inclusão deste estudo no Anuáriodo ATTD reforça sua relevância científica e impacto clínico, além de destacar a inserção do HC da Unicamp em redes internacionais de pesquisa e sua contribuição para o avanço da inovação em diabetes pediátrico”, diz Zorron, que também integra o Conselho Consultivo da Sociedade Internacional para o Diabetes Pediátrico e Adolescente (ISPAD) no triênio 2023–2026.

A ISPAD é a principal organização global dedicada à melhoria do cuidado de crianças, adolescentes e jovens com diabetes, atuando na promoção do conhecimento científico, educação e melhores práticas assistenciais. Seu Conselho Consultivo tem papel estratégico no apoio às iniciativas e diretrizes da sociedade.

Matéria publicada originalmente no site do HC Unicamp.

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Nova cátedra propõe modernização de indicadores de atividade científica

A Unicamp foi agraciada com um novo projeto ligado ao São Paulo Excellence Chair (SPEC), modalidade de auxílio à pesquisa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) que busca atrair cientistas reconhecidos que atuam no exterior para coordenar projetos em universidades ou institutos de pesquisa paulistas. Rodrigo Costas, do Centre for Science and Technology Studies (CWTS), da Leiden University (Países Baixos), será o pesquisador responsável pelo projeto Multi-Observatório de Ciência, Tecnologia e Dinâmica de Inovação (MultiObs), que será desenvolvido junto ao Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) do Instituto de Geociências (IG), em parceria com a Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) e do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp.

Junto ao exponencial crescimento da produção de conhecimento, vem ocorrendo um avanço nos métodos de medi-lo. A ausência de mecanismos precisos de automonitoramento em sistemas de ciência, tecnologia e inovação (CTI) gera lacunas nos ecossistemas de conhecimento que comprometem a resposta a desafios sociais e científicos urgentes. Assim, o objetivo do projeto é desenvolver, ao longo de cinco anos, um amplo programa de pesquisa para criar e aplicar métodos para produzir evidências e conhecimento para um monitoramento mais amplo e útil dos sistemas de CTI.

Rodrigo Costas, do CWTS, da Leiden University: demandas urgentes
Rodrigo Costas, do CWTS, da Leiden University: demandas urgentes

Os indicadores mais comuns atualmente usados dependem de bases de dados fechadas e que falham em capturar a complexidade da relação contemporânea entre ciência e sociedade. Assim, o projeto desenvolverá uma matriz que amplia a base de dados utilizada e diversifica os resultados e interpretações possíveis. “O projeto está motivado por demandas urgentes que existem no mundo acadêmico de mudanças de como medimos, monitoramos e avaliamos ciência, tecnologia e inovação”, afirma Costas.

Segundo o pesquisador, a maior ambição do projeto é mudar como se mede a ciência e incorporar uma maior diversidade de bases, muito além da Web of Science e Scopus, introduzindo a visão dos próprios stakeholders, tais como agências de financiamento, indústria e organizações políticas. Assim, propõe-se a implementação de um monitoramento cocriado e contextualizado em uma nova abordagem, propondo uma matriz que amplia a base dados utilizada e diversifica os resultados e interpretações possíveis, com participação dos stakeholders, especialmente com foco no Sul Global. O objetivo é tornar visíveis as atividades científicas que ainda permanecem invisíveis, especialmente da América Latina e de outras regiões em desenvolvimento, cujas dinâmicas são muitas vezes ignoradas pelas bases, análises e rankings internacionais.

“Como queremos mudar essa forma de fazer cientometria, trabalharemos para desenvolver uma infraestrutura de dados que seja mais democrática e que permita aos usuários trabalhar em grande escala com esses dados, em que se sintam empoderados para discutir e questionar os indicadores que se propõem”, diz Costas. “O trabalho dedica-se a conectá-los e beneficiá-los dessa interconexão de bases de dados”, completa.

O design geral do programa pode ser visualizado como uma estrutura de árvore, com uma base enraizada em uma ampla infraestrutura de Big Data, cujos ramos temáticos florescem em um living lab dedicado ao monitoramento de CTI. A infraestrutura de dados engloba bancos de dados interconectados que permitem responder a perguntas de pesquisa. Os ramos temáticos abordam desafios específicos de políticas de CTI e servem como campo de teste. O living lab é o elemento mais inovador do projeto que servirá para apontar respostas aos ramos temáticos combinando dados, marcos teóricos e abordagens participativas com os stakeholders.

A cátedra envolve o Departamento de Política Científica e Tecnológica do IG, em parceria com a FCA e Labjor da Unicamp
A cátedra envolve o Departamento de Política Científica e Tecnológica do IG, em parceria com a FCA e Labjor da Unicamp
Na Unicamp, a cátedra envolve o Departamento de Política Científica e Tecnológica do IG, em parceria com a FCA e Labjor

Para a execução do projeto, haverá uma estreita colaboração entre sete pesquisadores principais, que supervisionarão os ramos temáticos do projeto. Sérgio Salles-Filho, do LagGeopi-Unicamp, supervisionará, junto a Costas, a infraestrutura de big data e o living lab. Salles atuará com Cassidy Sugimoto, do The Georgia Institute of Technology (Estados Unidos) na supervisão do ramo temático dedicado às dinâmicas de política científica e diplomacia em CTI – em julho, a pesquisadora assumirá a direção da escola de Humanidades e Ciências Sociais da Carnegie Mellon University. Adriana Bin, da FCA, e Ismael Ràfols, ligado à Cátedra Unesco, à Leiden University e ao INGENIO (um centro misto do Consejo Superior de Investigaciones Científicas e da Universitat Politècnica de València, na Espanha), supervisionarão o eixo temático referente a financiamento e dinâmica das forças de trabalho. Costas e Germana Barata (Labjor) supervisionarão o ramo temático dedicado a comunicação pública e dinâmicas societárias. Nicolas Vonortas, da The George Washington University (Estados Unidos) e Sérgio Queiroz, do DPCT-Unicamp, supervisarão o eixo dedicado a tecnologia, inovação e dinâmicas regionais.

Para Sergio Salles, “a nova cátedra SPEC representa uma contribuição substantiva para os estudos sociais da ciência, tecnologia e inovação, ampliando e disponibilizando em acesso aberto amplas e originais bases de dados e construindo análises que devem criar evidências de utilidade para os principais stakeholders do sistema de CTI no Brasil e para a sociedade como um todo”.

O projeto espera produzir uma infraestrutura de computação em nuvem pública; criar indicadores específicos para temas complexos e subestimados; além de produzir materiais educacionais, resumos de políticas e resultados acadêmicos. O MutiObs conta com 13 pesquisadores associados, diferentes parceiros nacionais e internacionais, e prevê a realização de conferências internacionais, workshop e hackatons.

Foto de capa:

Junto ao exponencial crescimento da produção de conhecimento, vem ocorrendo um avanço nos métodos de medi-lo
Junto ao exponencial crescimento da produção de conhecimento, vem ocorrendo um avanço nos métodos de medi-lo

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Pesquisadores desenvolvem tratamento promissor contra o câncer de pele

O câncer de pele não melanoma não é o tipo mais letal, nem o mais agressivo – mas é o de maior incidência no Brasil e traz consigo alto potencial estigmatizante. Tumor que atinge regiões expostas ao sol – como o rosto, orelhas, boca, braços, pernas e pescoço –, é geralmente tratado com o que os médicos chamam de “ressecção cirúrgica”, a remoção de uma parte ou da totalidade do órgão ou tecido atingidos, num procedimento que pode deixar cicatrizes ou resultar em mutilação.

“Muitas vezes, o paciente perde partes do nariz, das orelhas, ou fica com cicatrizes profundas na boca ou em outras partes do corpo, o que provoca uma pressão social muito grande”, diz o químico Pedro Paulo Corbi, coordenador do Laboratório de Pesquisas em Química Bioinorgânica e Medicinal (LQBM) da Unicamp. Há 12 anos, Corbi trabalha no desenvolvimento de uma molécula que, agora, após colaboração com a médica oncologista Carmen Silvia Passos Lima – coordenadora do Serviço de Oncologia Clínica do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp e do Laboratório de Genética do Câncer (Lageca) da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp – e com a farmacêutica Gisele Goulart, pesquisadora do Lageca, tem se mostrado altamente promissora no tratamento desse tipo de enfermidade.

A farmacêutica Gisele Goulart e o químico Pedro Paulo Corbi: tumor tem alto potencial estigmatizante
A farmacêutica Gisele Goulart e o químico Pedro Paulo Corbi: tumor tem alto potencial estigmatizante

A pesquisa chegou a um composto inovador, nascido da mistura de um complexo de prata combinado com um anti-inflamatório. Começou a ser testado em humanos no início deste ano e tem trazido perspectivas alentadoras para pacientes que necessitam de tratamento.

O carcinoma de células escamosas cutâneo (CCEC) é o segundo mais prevalente entre os cânceres humanos em todo o mundo. Tem origem nas células principais que compõem a epiderme, a camada mais externa da nossa pele, e ocorre devido a vários fatores, com destaque para a exposição aos raios UV – os raios solares.

O tratamento do CCEC de pequenas dimensões baseia-se na ressecção do tumor por cirurgia. Contudo, pacientes com CCEC avançado são frequentemente inelegíveis para cirurgia curativa ou radioterapia, já que estas podem causar anormalidades funcionais, desfiguração e problemas psicológicos. Esses pacientes são tratados com quimioterapia com cisplatina, que oferece benefícios clínicos modestos e toxicidade potencialmente grave.

Foi pensando numa solução alternativa que Corbi e Lima avaliaram novas moléculas contra o tumor que pudessem ter uso direto na pele, para evitar toxicidades. O objetivo inicial era apenas diminuir o tamanho da lesão. Com isso, o cirurgião teria uma área menor a ser retirada e, assim, poderia reduzir as sequelas.

Pesquisadores da Unicamp desenvolvem tratamento promissor contra o câncer de pele
Os pesquisadores avaliaram novas moléculas contra o tumor que pudessem ter uso direto na pele, para evitar toxicidades
Os pesquisadores avaliaram novas moléculas contra o tumor que pudessem ter uso direto na pele, para evitar toxicidades

O estudo que mais avançou avaliou os efeitos de um complexo de prata com o anti-inflamatório nimesulida – um composto que vem sendo chamado de AgNMS. Corbi explica que a prata tem sido utilizada para o tratamento de condições humanas desde a Antiguidade. Embora o uso do metal tenha sido empírico por muito tempo, hoje as aplicações racionais na medicina estão intimamente relacionadas à sua atividade antibacteriana. Mais recentemente, a literatura mostrou o potencial de complexos de prata em inibir células de câncer in vitro.

A farmacêutica Tuany Zambroti Candido, doutoranda do Lageca que atuou sob supervisão dos pesquisadores Carmen Lima, Ana Lucia Tasca Góis Ruiz e João Ernesto de Carvalho, deu continuidade ao estudo no Lageca e no Laboratório de Fitoquímica, Farmacologia e Toxicologia Experimental (LaFTEx) da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Unicamp, conta Carmen Lima.

O AgNMS foi testado em experimentos “in vitro” com várias linhagens de câncer, incluindo o CCE, e em células de pele saudáveis. Observou-se que o AgNMS inibiu a proliferação do CCE, mas não a das células saudáveis, o que indicou a seletividade de ação do composto.

A médica oncologista Carmen Silvia Passos Lima (àesquerda): AgNMS foi testado em experimentos “in vitro” com várias linhagens de câncer

Candido também conduziu experimentos “in vivo” em camundongos com CCEC tratados com a molécula acoplada a uma membrana de celulose bacteriana e um adesivo, produzidos pelos farmacêuticos Wilton Rogerio Lustri e Silmara Cristina Lazarini Frajácomo, pesquisadores da Universidade de Araraquara (Uniara). Foi observado que o AGNMS reduziu os tumores ou causou seu desaparecimento, sem efeitos tóxicos para os animais. O grupo concluiu que, juntas, a NMS e a Ag podem se tornar uma alternativa na luta contra o CCEC.

Corbi e Lima veem o futuro do experimento com otimismo. “A meta inicial era apenas reduzir o tumor, mas agora podemos ter como perspectiva a remissão total”, afirmam.

Imunoterápicos como o cemiplimabe já são indicados para o tratamento de pacientes com CCEC, diz Lima, mas seu custo elevado impede o uso para pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) do Brasil. “Para nós, o cenário ideal é buscar uma solução que evite a cirurgia, a quimioterapia e a imunoterapia”, dizem Corbi e Lima.

“O AgNMS em membrana bacteriana e adesivo é absolutamente inovador para o CCEC, e, por esta razão, há cerca de cinco anos, conseguimos duas patentes – uma nacional e uma internacional”, conta Lima. O estudo só não prosseguiu, diz ela, por falta de investimento. “A indústria não quer arcar com os custos do estudo clínico de fase I e de fase II. Eles querem o negócio pronto”, explica.

Etapas

O estudo do AgNMs passou pela etapa da pesquisa básica de desenvolvimento, que consiste na síntese da molécula; pela fase pré-clínica, que são os experimentos em células e animais, e agora está em avaliação na fase clínica, com experimentos em humanos, que consta das fases I e II.

O estudo de fase I tem como objetivo verificar se, em doses crescentes, o AgNMS causa toxicidade ao paciente, de modo a determinar a dose adequada a ser usada no estudo de fase II.

O estudo de fase I teve início neste ano, com a aplicação do composto em três pacientes com CCEC atendidos no Hospital de Clínicas da Unicamp, em cooperação com as médicas dermatologistas e pesquisadoras Aparecida Machado de Moraes e Renata Ferreira Magalhães, do Serviço de Dermatologia do HC da Unicamp.

Equipes dos laboratórios de Genética do Câncer (à esquerda) e de Pesquisas em Química Bioinorgânica e Medicinal
Equipe do Laboratório de Pesquisas em Química Bioinorgânica e Medicinal da Unicamp que há 12 anos estuda o desenvolvimento de moléculas
Equipes dos laboratórios de Genética do Câncer (à esquerda) e de Pesquisas em Química Bioinorgânica e Medicinal

Os pesquisadores contam que o AgNMS não foi aplicado como um creme comum, mas sim na forma de um dispositivo constituído por uma membrana de celulose bacteriana e um adesivo, a mesma utilizada no estudo em animais. Essa membrana funciona como um reservatório que libera o medicamento de forma controlada e contínua por várias horas. Além disso, também pode ter uma ação antibacteriana, já que protege a ferida de infecções durante o tratamento.

“Os resultados até agora foram promissores, com redução do tumor nos pacientes avaliados e ausência de toxicidade. Precisamos agora testar em um segundo grupo de pacientes, ainda na fase I do estudo, com dose maior do AgNMS, para verificar qual dose será menos tóxica para tratar os pacientes da fase II”, disse Gisele Goulart.

Um grupo de 20 a 30 pacientes com CCEC do HC da Unicamp fará parte do estudo de fase II, a ser desenvolvido ao longo do ano. Serão tratados com o AgNMS – em dose definida no estudo de fase I – em adesivo com membrana de celulose bacteriana.

Se reduções parciais ou totais do tumor forem observadas, o complexo poderá chegar ao mercado – após avaliação e aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O estudo está em avaliação na fase clínica, com experimentos em humanos, que consta das fases I e II
O estudo está em avaliação na fase clínica, com experimentos em humanos, que consta das fases I e II

De acordo com Corbi, o avanço da pesquisa é decorrência direta da interação das pesquisas básica, pré-clínica e clínica no Centro de Inovação Teranóstica em Câncer, o CancerThera, que tem o apoio financeiro da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e sede na Unicamp. O Centro reuniu toda uma cadeia de pesquisa para o desenvolvimento de fármacos e radiofármacos a serem utilizados no diagnóstico e no tratamento de câncer.

Com o objetivo de criar tratamentos inovadores, o CancerThera reúne especialistas em áreas da medicina, química, física, biologia, farmácia, matemática, entre outras, mantendo colaborações com instituições nacionais e estrangeiras.

Lima lembra que inúmeros pesquisadores e experimentos, ao longo de uma década, foram necessários para obter um tratamento potencial para pacientes com CCEC, o que, segundo ela, revela a dedicação de pesquisadores brasileiros. Há ainda que se considerar, diz, que os estudos em células e animais foram conduzidos com o apoio financeiro da Fapesp, e os estudos em humanos só foram retomados com apoio do CancerThera da Fapesp. “Foi a grande chance de darmos sequência ao estudo AgNMS em CCEC, reforçando a importância da agência de fomento para a pesquisa em inovação no Estado de São Paulo”, reforçou.

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O câncer de pele não melanoma é o de maior incidência no Brasil
O câncer de pele não melanoma é o de maior incidência no Brasil

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Projetos de educação midiática atuam no enfrentamento à desinformação

A desinformação se tornou um dos principais desafios contemporâneos com a expansão das redes sociais. O ambiente digital mudou a forma como a informação circula e intensificou a disseminação das narrativas manipuladas e dos discursos de ódio. Diante desse cenário, o Observatório da Desinformação da Unicamp tem intensificado suas ações de enfrentamento a partir de projetos de educação midiática, como o lançamento, em breve, de três cartilhas sobre o tema e um projeto piloto que será implantado nas escolas públicas de Campinas. 

O objetivo é ajudar estudantes, professores e comunidades a compreenderem de forma crítica o funcionamento das mídias e a circulação de conteúdos no ambiente digital, destaca a pesquisadora do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE), Claudia Wanderley, uma das coordenadoras do Observatório, que funciona de forma colaborativa e descentralizada. “Muitos dos conflitos vêm da dificuldade de lidar com a diferença.”

A professora Josianne Cerasoli e a pesquisadora Claudia Wanderley: informação como um direito
A professora Josianne Cerasoli e a pesquisadora Claudia Wanderley: informação como um direito

As cartilhas, com temas que abordam noções básicas de educação midiática, letramento em mídia, estratégias e desafios, fazem parte de um projeto maior, a Olimpíada Brasileira de Educação Midiática (Obem). “Todo esse material está em fase de publicação e deve ser disponibilizado gratuitamente ao público”, acrescenta.

Enquanto aguarda a confirmação da data de realização da Olimpíada, um projeto piloto está sendo organizado nas escolas públicas de Campinas ligadas ao Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid). A professora da Faculdade de Educação (FE), Nima Spigolon, uma das coordenadoras do grupo, destaca que o objetivo é ajudar estudantes e professores a lidar com a grande quantidade de informação digital que circula no cotidiano escolar. “Hoje todos produzem e compartilham informação. Precisamos aprender a fazer isso de forma crítica e segura.”

Uma das estratégias discutidas no projeto é a criação de redes de apoio dentro das escolas para ajudar os estudantes a avaliar informações. “Bibliotecários, orientadores pedagógicos, professores e gestores podem atuar com os alunos”, explica.

A professora da FE, Nima Spigolon e o biólogo e professor da Ufac, Ewerton Machado: relação entre emoção e informação
A professora da FE, Nima Spigolon e o biólogo e professor da Ufac, Ewerton Machado: relação entre emoção e informação

“O material que preparamos aborda desde o pensamento crítico e avaliação de fontes até a relação entre emoção e informação”, destaca o biólogo e professor da Universidade Federal do Acre (Ufac), Ewerton Machado, também coordenador do Observatório. “Temos livros conceituais e também materiais pedagógicos para ajudar professores e alunos a trabalhar com educação midiática.”

Além das ações com escolas e comunidades, o grupo, que produz boletins que analisam casos de desinformação em diferentes contextos, pretende disponibilizar parte dos materiais produzidos em plataformas abertas, como a Wikimedia. “A ideia é ampliar o acesso público ao conhecimento”, destaca Wanderley. 

Informação como um direito

O Observatório, que mantém parceria com Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), funciona como um núcleo para que pesquisadores interessados possam estudar o tema a partir de diferentes áreas do conhecimento. Para a professora de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), Josianne Cerasoli, uma das articuladoras do projeto, o ponto de partida é reconhecer a informação como um direito. “Buscamos entender como esse direito está sendo ameaçado hoje e o que a Educação pode fazer diante disso”, afirma.

O grupo nasceu a partir de uma articulação com o Observatório de Direitos Humanos da Unicamp e, além da produção acadêmica, aposta no diálogo com a sociedade, especialmente por meio de iniciativas de formação e extensão. 

Segundo Cerasoli, o objetivo não é atuar diretamente na checagem de informações, mas compreender as condições sociais e culturais que favorecem a disseminação da desinformação. “O que nos interessa é entender como as relações humanas criam espaço para que a desinformação tenha um papel tão desarticulador quanto vemos hoje”, explica.

Para a historiadora, a dinâmica das plataformas digitais intensifica processos que já fazem parte da história política. “Processos de exclusão política sempre passam pela mobilização de sentimentos”, afirma. 

“As bolhas parecem algo novo, mas trabalham em um campo que politicamente já está disponível há muito tempo”, continua Cerasoli, que destaca que os processos de exclusão política frequentemente começam com a construção de distanciamento emocional entre grupos. “Primeiro se corta a empatia. Depois, começam a surgir imagens negativas do outro, que levam ao desprezo, à indiferença e, em casos extremos, ao ódio”, explica.

Cartilha Noções básicas de Educação Midiática
Cartilha Estratégias e desafios para estudantes na Obem
Cartilha Letramento em Mídia e Informação

Esse processo encontra nas plataformas digitais um ambiente favorável à amplificação. Cerasoli cita estudos sobre patentes registradas por empresas de tecnologia que exploram justamente a dimensão emocional das interações online. “Nos últimos anos, mais da metade das patentes do Facebook mencionam emoção ou sentimento. Isso mostra o quanto essas plataformas operam diretamente sobre nossas reações emocionais.” Para ela, compreender essa dimensão é essencial para pensar estratégias de enfrentamento da desinformação.

Conhecimentos tradicionais

Outro eixo do trabalho do Observatório envolve a colaboração com o povo Paiter Suruí, em Rondônia, parceria que existe há cerca de uma década. Segundo Machado,  a proposta, hoje, busca ampliar o diálogo entre conhecimentos tradicionais e debates globais. “A ideia é que eles possam falar sobre a floresta e sobre o conhecimento que possuem a partir da própria perspectiva.”

Inicialmente voltado à organização do conhecimento tradicional da comunidade, o projeto passou a incluir discussões sobre desinformação em temas como floresta e mudanças climáticas. 

Uma das iniciativas mais recentes é a criação de uma MIL City — (MIL é a sigla em inglês de “letramento em mídia e informação”) na Aldeia Lapetanha. A proposta é transformar a comunidade em uma referência internacional em educação midiática indígena. “Será a primeira aldeia MIL do mundo”, destaca.

Conheça o projeto

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O Observatório da Desinformação mantém parceria com Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco)
O Observatório da Desinformação mantém parceria com Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco)


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Banco de dados inédito revela padrões de desinformação antivacina no Telegram

Um grupo multidisciplinar reunido pelo Laboratório de Inteligência Artificial Recod.ai, da Unicamp, mergulhou nas redes sociais e agrupou quatro milhões de postagens com apenas um objetivo: traçar os caminhos da desinformação antivacina que circula pelo aplicativo de mensagens Telegram no Brasil. O conjunto coletado inclui 1,4 milhão de arquivos de imagem, vídeo, áudio e enquetes – tudo compartilhado organicamente pelos usuários das redes ou turbinado pelos algoritmos. Com base nesses materiais, os pesquisadores criaram um banco de dados totalmente aberto, para uso sem finalidades comerciais, que está disponível no Repositório de Dados da Universidade. Trata-se de uma ferramenta que auxilia na valorização da verdade quando o assunto é saúde pública.

Infográfico de narrativas antivacina identificadas no Telegram

A análise abrangeu publicações feitas entre janeiro de 2020 e junho de 2025. O recorte temporal teve início nas primeiras semanas após a descoberta do coronavírus da covid-19 e se estendeu até os anos pós-pandemia, período de considerável circulação de desinformação na área de saúde, principalmente sobre a eficácia de tratamentos.

“Queremos entender melhor as motivações e estratégias de propagação da desinformação, mais precisamente na questão da vacinação. O tipo de comunicação que sobrevive, ganha força e se propaga nesse meio tem muita semelhança com os mecanismos de seleção natural que vemos na natureza. Se algum tipo de narrativa não está gerando engajamento, naturalmente as pessoas vão parar de reproduzi-la”, explica Leopoldo Lusquino Filho, colaborador do Recod.ai e docente da Unesp.

“Nós fizemos uma análise e conseguimos identificar que existem canais que só disseminam desinformação, outros que apenas a compartilham, e os que fazem as duas coisas. Existe uma estratégia por trás disso. Eventos externos, como a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, geram um efeito dominó nessas redes. É possível perceber também que há muitas mensagens compartilhadas por robôs”, detalha o pesquisador.

Ainda de acordo com Lusquino Filho, o fato de 2026 ser um ano eleitoral no Brasil tende a intensificar a circulação de conteúdos desinformativos. Isso porque as áreas de saúde e política acabam integrando disputas ideológicas que ficam mais acirradas nesse período. “Tivemos contato com outras agências de verificação de informações e elas confirmaram que nunca houve uma quantidade tão grande de desinformação política quanto neste ano”, aponta.

A análise abrangeu publicações feitas entre janeiro de 2020 e junho de 2025
A análise abrangeu publicações feitas entre janeiro de 2020 e junho de 2025

Primeiros passos

O primeiro passo para criar o banco de dados sobre desinformação antivacina foi identificar, em artigos de agências de checagem, os principais boatos sobre o tema. A partir disso, os pesquisadores selecionaram canais e grupos no Telegram, por ser esta uma base de dados mais acessível para fins de pesquisa e por ser conhecida por disseminar conteúdos antivacina. Isso foi feito com base em palavras-chave comuns nesse meio e de recomendações do algoritmo da própria plataforma para encontrar canais públicos semelhantes com mais de mil membros.

Na sequência, os cientistas desenvolveram uma ferramenta de coleta de dados personalizada nos canais e grupos. Depois do processo de coleta, os dados passaram por uma curadoria.

O projeto contou com o apoio da empresa Maritaca.ai para uso do modelo Sabiá, que facilitou a identificação de postagens relacionadas à vacinação. A privacidade dos usuários dos canais e grupos também foi assegurada. Eles passaram por um processo de anonimização, no qual a identificação do autor da mensagem foi removida. Somado a isso, informações pessoais como telefone, e-mail e registros de entradas e saídas dos grupos também foram excluídas. Isso tudo para que o processo respeitasse as boas práticas de ética em pesquisa e proteção de dados.

Da esquerda para a direita, Michelle Diniz Lopes, Leopoldo Lusquino Filho e Christiane Versuti: falta de dados abertos e sistematizados sobre a infodemia
Da esquerda para a direita, Michelle Diniz Lopes, Leopoldo Lusquino Filho e Christiane Versuti: falta de dados abertos e sistematizados sobre a infodemia

Lacuna histórica

De acordo com o Recod.ai, a iniciativa busca suprir uma lacuna histórica em relação à falta de dados abertos e sistematizados sobre a infodemia – o excesso de informações, incluindo notícias falsas ou imprecisas, que se espalham rapidamente durante uma crise sanitária – no caso brasileiro. “Os dados mostram que a desinformação vai além da saúde e envolve disputas políticas, crenças e desconfiança nas instituições — com impactos reais, como a queda da cobertura vacinal”, ressalta o material de divulgação científica do laboratório.

O conjunto de dados ocupa 5,5 terabytes de armazenamento (1 terabyte equivale a 1.024 gigabytes), reunindo conteúdos postados por 71.672 usuários em 119 grupos do Telegram. Há 407.723 mensagens relacionadas especificamente à postura antivacina, o que corresponde a 10,2% das postagens que compõem o banco de dados.

“Analisamos as reais motivações das pessoas que consomem informação negacionista na área de saúde, principalmente no que diz respeito à questão vacinal, e quais são as estratégias eficientes para propagação dessa desinformação”, explica a doutoranda Michelle Diniz Lopes, integrante da equipe de pesquisa, graduada em Matemática e especialista em Estatística e Neurociências. “Identificamos diversos nichos: o da desconfiança institucional, crenças injustificadas, visão de mundo e política, preocupações religiosas e fobias”, conta.

O conjunto de dados ocupa 5,5 terabytes de armazenamento (1 terabyte equivale a 1.024 gigabytes), reunindo conteúdos postados por 71.672 usuários em 119 grupos do Telegram
O conjunto de dados ocupa 5,5 terabytes de armazenamento (1 terabyte equivale a 1.024 gigabytes), reunindo conteúdos postados por 71.672 usuários em 119 grupos do Telegram

Disputas ideológicas

As narrativas de infodemia postadas por usuários do Telegram viraram espaço de disputas ideológicas. No espaço virtual, surgem com frequência temas ligados à saúde, à ciência, a instituições e políticas públicas e a crenças e desconfianças, além da disputa política propriamente dita. Ainda de acordo com o material de divulgação do Recod.ai, a presença maciça dessas narrativas indica que a desinformação na área de saúde passou a ter efeitos concretos na população. Isso trouxe impactos na política pública de vacinação, como se viu na perda de penetração do Programa Nacional de Imunizações (PNI), criado em 1973 para garantir às pessoas o acesso universal e gratuito às vacinas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Em 2020, o PNI alcançou o menor percentual de cobertura vacinal da sua história (75%) , de acordo com apuração do Instituto Butantan. A desinformação tem muita influência nisso.

Na tentativa de contribuir para reverter esse quadro, o Recod.ai espera que o novo banco de dados ajude as comunidades científica e de saúde a desenvolverem estratégias baseadas em evidências para mitigar a desinformação e a hesitação vacinal. “O entendimento dos padrões da infodemia é essencial para reconstruir o diálogo e a confiança com pessoas afetadas por narrativas falsas”, reforça o material de divulgação do trabalho científico.

As mais diversas áreas de pesquisa podem se beneficiar dos dados coletados. No campo do processamento de linguagem natural, por exemplo, serve como ferramenta para entender grandes volumes de postagens; nas ciências sociais, que permite compreender as narrativas antivacina; na análise de redes, servirá para identificar grupos e perfis influentes na disseminação de desinformação; e, no estudo das realidades sintéticas, contribui para identificar vídeos e imagens que são gerados por IA para apoiar discursos antivacina.

Michelle Lopes destaca o papel social do trabalho e a sua capacidade de orientar a população em geral. “Existem muitas pesquisas que não conseguem ter uma aplicabilidade social, mas no Recod.ai nós sempre tentamos vincular esse trabalho com a extensão, para que ele possa ser aproveitado pela sociedade como um todo. É importante dizer que temos utilizado a IA para analisar e encontrar padrões, mas é fundamental sempre existir uma curadoria humana”, salienta Lopes.

Na opinião dela, é fundamental “que possamos fazer questionamentos de forma estruturada, em prol do nosso desenvolvimento como sociedade”. Isso só é possível porque contamos com diversos pesquisadores, em um grupo multidisciplinar, que nos apoiam. Nossa busca é pela verdade.”, completa.

Em uma nova etapa do trabalho, os pesquisadores querem compreender o que leva as pessoas a aderirem a esse tipo de conteúdo
Em uma nova etapa do trabalho, os pesquisadores querem compreender o que leva as pessoas a aderirem a esse tipo de conteúdo

Ressentimento

A pós-doutoranda Christiane Versuti, com formação em Ciências Sociais e Comunicação, colaborou como pesquisadora no projeto. Ela entrou como uma usuária comum em diversos grupos do Telegram e acompanhou suas movimentações. Nesse ambiente, percebeu que o ressentimento e a busca por pertencimento movem quem acompanha cada postagem. “A falta de letramento midiático torna tudo ainda mais hostil. As pessoas não têm o hábito de checar as fontes ou só compartilhar algo quando têm certeza do conteúdo”, diz a pesquisadora.

Para Versuti, o ambiente digital fica ainda mais turbulento quando a questão da religião aparece. “É a lógica do racional contra o emocional. Tem gente que só aceita a ciência quando a informação bate com suas crenças. O mesmo acontece em relação à imprensa: os jornalistas só são considerados sérios quando falam o que a pessoa defende”, destaca Christiane, que se deparou com momentos que beiram o absurdo. “Encontrei mensagens que tratavam a enzima conhecida como luciferase como algo demoníaco apenas pela vaga lembrança que seu nome trazia. Outras apontavam que a aplicação dessa enzima transformaria as pessoas em zumbis”, lembra Versuti, explicando que luciferase é uma enzima bioluminescente que catalisa a oxidação, produzindo luz em diversos organismos como vagalumes, bactérias e fungos, por exemplo.

Próximas etapas

Em uma nova etapa do trabalho, os pesquisadores vão além da identificação das mensagens antivacina. Eles querem compreender o que leva as pessoas a aderirem a esse tipo de conteúdo. “Outros projetos de pesquisa já coletaram bases de dados amplas como a nossa, mas não as disponibilizam gratuitamente. Esse material costuma ser vendido por valores altos. Mas, no nosso caso, qualquer outro grupo acadêmico pode pegar as análises que a gente fez. Já disponibilizamos a base de dados do Telegram e, agora, estamos trabalhando com o Instagram, YouTube e X. Vamos disponibilizar isso ainda este ano, também de forma totalmente aberta e gratuita”, adianta o pesquisador Lusquino Filho. Neste mês, representantes do Recod.ai vão se reunir com funcionários do Ministério da Saúde para oferecer a ferramenta como fonte de futuras políticas públicas no país.

O banco de dados é resultado de uma parceria entre o Recod.ai e a Maritaca.ai, reunindo expertises acadêmicas e tecnológicas no desenvolvimento de soluções baseadas em IA. O projeto recebeu apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), por meio do Projeto Horus, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Ministério da Saúde, a partir do Projeto Aletheia, iniciativa de pesquisa que usa IA e linguística computacional para combater a desinformação em saúde.

Além de Leopoldo Lusquino Filho, Michelle Lopes e Christiane Versuti , o projeto teve a participação direta de Ana Carolina Monari e Anderson Rocha, coordenador do Recod.ai.

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O conjunto coletado inclui 1,4 milhão de arquivos de imagem, vídeo, áudio e enquetes – tudo compartilhado organicamente pelos usuários das redes ou turbinado pelos algoritmos
O conjunto coletado inclui 1,4 milhão de arquivos de imagem, vídeo, áudio e enquetes – tudo compartilhado organicamente pelos usuários das redes ou turbinado pelos algoritmos

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O carbono esquecido debaixo do Cerrado

Por décadas, o Cerrado brasileiro foi visto apenas como uma paisagem seca e retorcida
Por décadas, o Cerrado brasileiro foi visto apenas como uma paisagem seca e retorcida

O carbono esquecido debaixo do Cerrado

Veredas e campos úmidos do bioma armazenam até oito vezes mais carbono por hectare do que a Amazônia

Por décadas, o Cerrado brasileiro foi visto apenas como uma paisagem seca e retorcida
Por décadas, o Cerrado brasileiro foi visto apenas como uma paisagem seca e retorcida

Descobertas no Cerrado brasileiro estão prestes a redesenhar o mapa global de estoques de carbono e a forma como a ciência compreende a importância das savanas no equilíbrio do planeta. Por décadas, esse bioma foi visto apenas como uma paisagem seca e retorcida, ocupando o papel de ‘patinho feio’ ou ‘boi de piranha’ nas políticas de conservação brasileira, que privilegiavam quase exclusivamente a exuberância úmida da Amazônia e de outras florestas tropicais.

A ecóloga Larissa Verona: parte do solo é um grande estocador de carbono
A ecóloga Larissa Verona: descobertas no Cerrado podem redesenhar o mapa climático global
A ecóloga Larissa Verona: parte do solo é um grande estocador de carbono
A ecóloga Larissa Verona: descobertas no Cerrado podem redesenhar o mapa climático global

No entanto, uma pesquisa inédita liderada pela ecóloga Larissa Verona, mestre em Biologia Vegetal pela Unicamp, em conjunto com outros pesquisadores da universidade, do Instituto Max Planck (Alemanha), do Cary Institute e da Universidade Yale (EUA), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, mostra que as veredas e os campos úmidos do Cerrado são capazes de estocar até oito vezes mais carbono por hectare do que o carbono presente na biomassa aérea de uma floresta amazônica típica, transformando o que antes era visto como uma paisagem sazonalmente seca em um cofre climático gigantesco.

“Estamos mostrando que parte do solo é um grande estocador de carbono, e as turfeiras do Cerrado [áreas úmidas, onde restos de plantas se acumulam e se decompõem lentamente, formando um solo rico em matéria orgânica] têm esse potencial exacerbado. Conservar esse estoque evita a emissão do que estaria indo para a atmosfera se degradássemos esse solo”, explica Verona. Esse e outros achados estão em um artigo publicado na revista New Phytologist.

Por meio de aferições de isótopos radioativos de carbono feitas no solo em profundidades de até quatro metros, os pesquisadores concluíram que esses reservatórios contêm carbono acumulado há mais de 20 mil anos. Apesar de o longo período trazer a impressão de se tratar de estoques seguros de carbono, o estudo revela que são frágeis diante das alterações na dinâmica hídrica da região e do rebaixamento dos lençóis freáticos. “Se começarmos a drenar essas turfeiras e liberar esse carbono acumulado, lançaremos bombas de carbono na atmosfera. É uma quantidade de carbono orgânico até então desconhecida, em uma grande extensão e em um bioma improvável”, alerta o professor do Departamento de Biologia Vegetal da Unicamp Rafael Oliveira, coordenador do estudo e orientador de Verona.

O coordenador da pesquisa, Rafael Oliveira: falta de conservação pode levar a emissão de bombas de carbono na atmosfera
O coordenador da pesquisa, Rafael Oliveira: falta de conservação pode levar a emissão de bombas de carbono na atmosfera

Berço das águas sob ameaça

O coordenador da pesquisa, Rafael Oliveira: falta de conservação pode levar a emissão de bombas de carbono na atmosfera
O coordenador da pesquisa, Rafael Oliveira: falta de conservação pode levar a emissão de bombas de carbono na atmosfera

Com quase dois milhões de quilômetros quadrados, o Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil e representa 23,3% do território. Presente em 16 estados e no Distrito Federal, é conhecido como “berço das águas” por abrigar oito das 12 nascentes das principais bacias hidrográficas do Brasil, além de três grandes aquíferos. Dentro desse bioma, estão as veredas e os campos úmidos, onde se encontram as turfas e os solos ricos em carbono orgânico.

Veredas são zonas úmidas que aparecem no Cerrado como ilhas lineares encaixadas em vales rasos e nascentes de rios. Os campos úmidos são ecossistemas semelhantes, mas sem as palmeiras, compostas por extensões herbáceas encharcadas, dominadas por gramíneas e sedges, que também foram objeto de análise do estudo.

Até então, o consenso global científico ditava que grandes áreas de turfeiras existiam majoritariamente em regiões de frio extremo no Hemisfério Norte ou sob florestas tropicais de chuva constante, como na Bacia do Congo ou na Amazônia peruana. Sob essa perspectiva, o clima do Cerrado, com sua estação de seca severa de seis meses, não teria condições de sustentar a umidade necessária para formar turfas. Como consequência, grande parte desses estoques de carbono permaneceu fora das estimativas globais sobre o papel dos ecossistemas tropicais na regulação do clima.

O Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul presente em 16 estados brasileiros e no Distrito Federal
O Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul presente em 16 estados brasileiros e no Distrito Federal
O Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil presente em 16 estados e no Distrito Federal

Oliveira ressalta que o Brasil Central foi historicamente excluído de mapeamentos globais de áreas úmidas porque “temos dificuldade de entender parte da nossa própria natureza quando ela foge do viés que associa áreas úmidas a ambientes muito chuvosos e florestais”. O diferencial está no subsolo: “A água do Cerrado está principalmente no componente subterrâneo. Quando a zona freática aflora na superfície, determina a baixa decomposição da matéria orgânica e, consequentemente, possibilita a acumulação do carbono.”

As veredas operam como uma “caixa d’água invertida”: a água da chuva se infiltra profundamente no solo e recarrega os reservatórios subterrâneos que afloram na superfície, mantendo a terra permanentemente saturada. Esse encharcamento contínuo cria um escudo que bloqueia o oxigênio e impede que microrganismos decomponham a matéria orgânica, permitindo que o carbono retirado da atmosfera seja enterrado e preservado no solo por milênios.

“Quando você olha uma paisagem do Cerrado à distância, você vê a savana e os campos, mas a Vereda está encaixada ali e ocupa um espaço pequeno. Pensando na escala do ecossistema inteiro, essas pequenas áreas se tornam muito importantes”, resume Verona. Com base nos levantamentos feitos pela equipe, as turfeiras representam, ao todo, cerca de 8% da área do Cerrado – uma extensão de 16,7 milhões de hectares, maior do que o estado do Acre, que tem 15,2 milhões de hectares.

Exemplo de solo orgânico entre 100-150 cm de profundidade
Exemplo de solo orgânico entre 100-150 cm de profundidade

Do campo à tecnologia

Exemplo de solo orgânico entre 100-150 cm de profundidade
Exemplo de solo orgânico entre 100-150 cm de profundidade

O que diferenciou esse trabalho dos estudos anteriores foi a profundidade das coletas. Enquanto outras pesquisas analisaram camadas superficiais, de 20 centímetros a um metro de profundidade, os pesquisadores da Unicamp utilizaram sondas tubulares metálicas, conhecidas como Russian Peat Auger, para extrair amostras de solo de até 4 metros, o que foi determinante para os resultados encontrados. “Se não fôssemos para campo e fizéssemos as medidas, nunca saberíamos qual a profundidade desses solos, e isso muda todo o cenário”, disse Verona. Caso a coleta fosse restrita apenas à camada superficial, como em outros estudos, o carbono total seria subestimado em até 95%.

As amostras foram suficientes para confirmar o acúmulo de carbono nas turfas, mas era importante estimar o total para o bioma de quase 2 milhões de quilômetros quadrados. Para isso, parte da equipe treinou um algoritmo para encontrar veredas e campos úmidos nessa imensidão, cruzando dados topográficos e dos satélites Sentinel-1 e2. O modelo de aprendizado de máquina utilizado (Random Forest) foi validado com dados do Cadastro Ambiental Rural (CAR), registro público em que proprietários de terras precisam declarar a presença de veredas, classificadas no Código Florestal como Áreas de Preservação Permanente (APPs).

O mapeamento chegou ao total de cerca de 16,7 milhões de hectares. Em termos de carbono, isso representa uma média de aproximadamente 1,2 mil tonelada de carbono por hectare, armazenadas principalmente no solo. Para ter uma ideia da proporção, Verona conta que, se todas as veredas mapeadas acumularem a mesma quantidade média de carbono do que as áreas das amostras, as veredas do Cerrado, sozinhas, respondem por cerca de 20% de todo o carbono estocado pela biomassa da Amazônia. Contudo, são necessários mais estudos para que essa estimativa seja confirmada. Ainda segundo a pesquisadora, a ciência estima que as turfas de todo o mundo armazenam mais carbono do que toda a biomassa dos seres vivos – plantas e animais – combinada.

Amostra que confirma o acúmulo de carbono nas turfas
Amostra de turfa retirada na Chapada dos Veadeiros

Longevidade e sensibilidade

Amostra que confirma o acúmulo de carbono nas turfas
Amostra de turfa retirada na Chapada dos Veadeiros

A importância cronológica desse solo também foi posta à prova. Algumas das amostras foram enviadas ao Instituto Max Planck para análises biogeoquímicas, sob os cuidados de Susan Trumbore, uma das maiores especialistas mundiais em ciclos de carbono e datação por radiocarbono. As avaliações apontaram que o processo de formação das turfeiras estudadas começou há pelo menos 20 mil anos. “Trata-se de uma verdadeira cápsula do tempo geológico e climático”, escrevem os pesquisadores no artigo, notando que o sistema operou como um cofre silencioso, resistindo a milênios de variações climáticas.

Nem tudo é celebração, sobretudo diante de décadas de intervenções humanas no bioma. Através de análises de espectrometria de infravermelho (FT-IR), as veredas e campos úmidos do Cerrado foram comparados com outras turfeiras tropicais, e uma fragilidade alarmante foi descoberta.

Enquanto as turfeiras de florestas são ricas em lignina – composto fibroso e resistente, difícil de ser digerido pelas bactérias –, constatou-se que as do Cerrado produzem turfa a partir de gramíneas e ervas, material carregado de holocelulose, de fácil digestão para os microrganismos. Verona descreve as moléculas de holocelulose como um “algodão doce” para as bactérias do solo: uma fonte de energia fácil e instantânea.

Da esquerda para a direita, Paulo Bernardino, Larissa Verona, Guilherme Alencar, Natashi Pilon, Rafael Oliveira durante durante o trabalho de campo na Chapada dos Veadeiros:
Da esquerda para a direita, Paulo Bernardino, Larissa Verona, Guilherme Alencar, Natashi Pilon, Rafael Oliveira durante durante o trabalho de campo

O único motivo pelo qual esse estoque não foi consumido nos últimos milênios foi justamente o escudo de água que mantém os microrganismos dormentes por falta de oxigênio. Quando esse escudo baixa, mesmo que sazonalmente, as bactérias encontram o substrato ideal e o ciclo de decomposição se acelera.

As análises feitas a partir dos dados de fluxos de gases confirmam que essa “bomba-relógio” já dá sinais de ativação sazonal. Equipamentos instalados em campo mediram as emissões de dióxido de carbono (CO₂) e metano (CH₄) ao longo de um ano e revelaram que 70% das emissões anuais ocorrem durante a estação seca. Quando o lençol freático desce naturalmente por conta da estiagem, o oxigênio invade o solo, e as bactérias iniciam seu banquete frenético no alimento acumulado por 20 mil anos. O impacto é preocupante, especialmente em relação ao metano, que possui um potencial de aquecimento global muito superior ao CO₂.

A vulnerabilidade das veredas e dos campos úmidos é agravada por sua distribuição “dendrítica”, segundo Oliveira. Ao contrário de grandes extensões contínuas, como as turfeiras do Congo ou da Amazônia peruana, elas não se organizam em massas compactas, mas em áreas pequenas, fragmentadas e ramificadas que acompanham a rede de drenagem por todo o bioma. São finas tiras sinuosas que acompanham as nascentes e riachos de primeira ordem, espalhando-se pela paisagem como neurônios. Por serem longas e estreitas, estão em contato permanente com áreas de agricultura intensiva e são diretamente afetadas pelo uso da água ao seu redor.

À esquerda, pivôs de irrigação central retiram água do subsolo para manter enormes plantações de soja no Matopiba, na Bahia. (Marizilda Cruppe/Greenpeace); à direita Canal de irrigação que abastece sistema de pivô central para uma plantação de soja no Cerrado. (Victor Moriyama/Greenpeace Brasil)
À esquerda, pivôs de irrigação central retiram água do subsolo para manter enormes plantações de soja no Matopiba, na Bahia. (Marizilda Cruppe/Greenpeace); à direita Canal de irrigação que abastece sistema de pivô central para uma plantação de soja no Cerrado. (Victor Moriyama/Greenpeace Brasil)
À esquerda, pivôs de irrigação central retiram água do subsolo para manter enormes plantações de soja no Matopiba, na Bahia. (Marizilda Cruppe/Greenpeace); à direita Canal de irrigação que abastece sistema de pivô central para uma plantação de soja no Cerrado. (Victor Moriyama/Greenpeace Brasil)

Legislação e expansão agrícola

Apesar de sua importância e da existência de leis para proteger essas áreas, as veredas e campos úmidos enfrentam ameaças crescentes devido a mudanças no uso da terra, à drenagem de áreas úmidas, à expansão agrícola e à intensificação das secas associadas às mudanças climáticas. Esses distúrbios podem fazer com que os ecossistemas passem de importantes sumidouros de carbono a fontes de emissões, liberando para a atmosfera estoques acumulados ao longo de milhares de anos.

Quando propriedades vizinhas a essas áreas instalam pivôs centrais de irrigação que sugam grandes volumes dos lençóis freáticos, o nível da água de toda a bacia é rebaixado – explica a ecóloga –, fazendo com que as veredas e campos úmidos sequem debaixo do solo.

As descobertas abrem uma nova fronteira para a conservação. Para os pesquisadores, elas evidenciam os limites de uma visão historicamente “florestocêntrica”, que priorizou a Amazônia em detrimento das savanas e áreas úmidas abertas – e que resultou em décadas de negligência com o Cerrado, tanto científica quanto política. Proteger a vegetação visível das veredas sem proteger o regime hídrico da bacia ao redor é, segundo os estudiosos, uma proteção incompleta. “A gestão do território não pode ser apenas sobre plantas. A gestão da água e a gestão do carbono são, neste bioma, a mesmíssima coisa”, defende Oliveira.

A principal questão suscitada pelo estudo, que ainda demanda respostas, é também a mais urgente para os pesquisadores: ainda não se sabe quanto desse estoque já foi perdido. “O Cerrado está tão alterado que já percebemos no cotidiano as secas mais intensas, os rios com menos água, e não sabemos o quanto já perdemos desses ecossistemas. As evidências indicam que algo já foi perdido, mas a dimensão dessa perda ainda é uma pergunta sem resposta”, avalia o professor.

Confira artigo completo na revista New Phytologist.

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Pesquisa transforma o que antes era visto como uma paisagem sazonalmente seca em um cofre climático gigantesco
Pesquisa transforma o que antes era visto como uma paisagem sazonalmente seca em um cofre climático gigantesco (Foto: André Dib)

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Pesquisa transforma resíduo da indústria da batata em farinha sustentável

O que a água utilizada no processamento da batata tem a ver com a poluição de rios? A resposta está no amido liberado pelo tubérculo ao entrar em contato com o líquido durante as etapas industriais.

Sendo um dos alimentos mais consumidos no mundo, a batata possui uma produção em larga escala que exige volumes massivos de água, gerando um resíduo que pode causar danos ao meio ambiente.

Segundo Eric Keven Silva, professor e pesquisador da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp, o descarte inadequado desse efluente compromete a qualidade dos corpos d’água e dos lençóis freáticos.

“Esse material possui uma alta carga orgânica. Quando descartado sem tratamento, ele contribui para a redução do oxigênio na água, causando o desequilíbrio de ecossistemas aquáticos”, explica o docente do Departamento de Engenharia e Tecnologia de Alimentos.

Alternativa sustentável

Para enfrentar o problema, pesquisadores da FEA desenvolveram um processo capaz de recuperar o amido presente na chamada “água de batata”, transformando o resíduo em uma farinha rica em fibras.

“O ingrediente pode ser utilizado na produção de pães e bolos ou como espessante natural para molhos, ampliando as possibilidades de uso na indústria”, destaca Gabriela Milanezzi, doutoranda da FEA e responsável pelo estudo.

A proposta central da pesquisa é permitir que as próprias indústrias incorporem o reaproveitamento do resíduo em suas linhas de produção. A iniciativa não apenas reduz o desperdício de recursos, mas também agrega valor comercial a um material que, anteriormente, seria descartado apenas como efluente.

Confira mais detalhes na reportagem.

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Pesquisa aplica abordagem inovadora em estudo sobre terras raras em Poços de Caldas (MG)

Pesquisadores analisam caixa com os furos de sondagem do depósito
Pesquisadores analisam caixa com os furos de sondagem do depósito

Um grupo de pesquisadores do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp e do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) esteve em Poços de Caldas (MG) no final de fevereiro para uma atividade de campo em uma área que integra um dos maiores depósitos de elementos de terras raras (ETRs) do mundo – o depósito Caldeira, um maciço alcalino reconhecido internacionalmente por seu potencial mineral. Coordenada pelo docente do IG Diego Fernando Ducart, a atividade teve como objetivos a descrição geológica detalhada de furos de sondagem, a coleta sistemática de amostras, a aquisição de dados espectrais e geoquímicos com múltiplos equipamentos e a integração de dados com outras fontes.

“Os ETRs são essenciais para tecnologias de alta performance, incluindo baterias, turbinas eólicas, ímãs permanentes de alto desempenho, veículos elétricos, dispositivos eletrônicos e equipamentos médicos. Apesar do nome, muitos ETRs não são necessariamente raros na crosta terrestre, mas sua concentração em depósitos economicamente viáveis é incomum”, explica Ducart. No depósito Caldeira, os ETRs estão principalmente associados a argilas que passaram por modificação físico-química por ação da água, do oxigênio ou de ácidos orgânicos durante processos intensos de decomposição.

Diferentemente de muitos minerais metálicos, a caracterização correta dos ETRs exige técnicas analíticas avançadas. Tais elementos não são identificados a olho nu, nem mesmo com métodos tradicionais de campo, como a lupa de mão. Para superar esses desafios em Poços de Caldas, “a equipe utilizou equipamentos portáteis de última geração, capazes de gerar dados em tempo real diretamente nos testemunhos de sondagem”, segundo Ducart.

Medição fluorescencia de raios-x
Medição fluorescencia de raios-x
Rocha com elementos de terras raras
Rocha com elementos de terras raras
 medidas com espectrômetro de reflectância no VNIR-SWIR
 Medição com espectrômetro de reflectância

Foram utilizados um analisador de fluorescência de raios-X (pXRF, empregado para determinar a composição química de amostras), um espectrômetro de reflectância de alta resolução, cobrindo desde o espectro visível (VIS) até o infravermelho de ondas curtas (SWIR), e um espectrômetro FTIR, cobrindo o infravermelho termal (TIR) — fundamentais para identificar assinaturas espectrais características dos ETRs, além dos minerais com ETRs agregados. “A integração dessas técnicas hiperespectrais e ultraespectrais representa uma abordagem inovadora na prospecção mineral no Brasil, permitindo maior eficiência, redução de custos analíticos e geração de modelos mais robustos sobre os processos de formação do depósito”, explica o coordenador da atividade em Poços de Caldas.

Além de Ducart, participaram da atividade os docentes da Unicamp Carlos Roberto de Souza Filho, Alfredo Borges de Campos e David Jozef Cornelius Debruyne, o docente da UFRJ Claudio Gerheim Porto, o pesquisador da Unicamp Raphael Bianchi Hunger, os alunos de pós-graduação da Unicamp César Henrique Bezerra de Farias, Juan Felipe Galán, André Martins Leal, Anna Beatriz Gomes Tetzner e Pedro Henrique Hokama, e o aluno da UFRJ João Antônio Casado do Nascimento. “O número expressivo de pesquisadores envolvidos foi fundamental para garantir a cobertura completa dos pontos de amostragem, medição e análise”, explica o coordenador da atividade.

Equipe de pesquisadores da Unicamp e UFRJ que participou da atividade de campo
Equipe de pesquisadores da Unicamp e UFRJ que participou da atividade de campo

O estudo ocorreu no escopo de dois projetos de pesquisa de grande relevância científica: “The Rare Earth Supergene Caldeira System: From Ore Forming Processes to Recovery”, coordenado por Rodrigo de Melo, docente da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e financiado pela Agência para o Desenvolvimento e Inovação do Setor Mineral Brasileiro (ADIMB), e “Maximizing the Use of Hyper- and Ultra-Spectral Techniques for Prospecting Rare-Earth Elements in Brazil”, coordenado por Diego Ducart, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Segundo Ducart, “há atualmente diversos trabalhos de mestrado e doutorado em desenvolvimento no âmbito desses projetos, reforçando a formação de recursos humanos altamente qualificados em um tema estratégico para o Brasil”.

Ducart lembra que o estudo do depósito Caldeira contribui para compreender os processos geológicos de formação de depósitos de ETRs e aprimorar metodologias de prospecção mineral com base em técnicas espectrais avançadas, além de apoiar o desenvolvimento de cadeias produtivas ligadas à transição energética. Estudos como esse fundamentam a consolidação do protagonismo da Unicamp na área de pesquisa mineral estratégica. A iniciativa em Poços de Caldas “reforça a integração entre universidade, agências de fomento e setor produtivo, promovendo ciência de excelência com impacto direto no desenvolvimento tecnológico e econômico do país”, finaliza Ducart.

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Equipe descrevendo os testemunhos de sondagem do depósito
Equipe descrevendo os testemunhos de sondagem do depósito

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Ministério credencia HC para diagnóstico de doenças raras em pacientes com deficiência intelectual

O Hospital de Clínicas da Unicamp é a única entidade no estado de São Paulo, credenciada pelo Ministério da Saúde, que passa a ofertar no SUS coletas para um exame genético inovador e de alta tecnologia para a confirmação do diagnóstico de doenças raras em pacientes com deficiência intelectual (PCDT 572). Trata-se do Sequenciamento Completo do Exoma (WES), capaz de atender até 90% dos pacientes que precisam do laudo em até 90 dias da chegada da amostra. Os laudos serão realizados em laboratórios credenciados no Rio de Janeiro.

“Na realidade, o HC já está realizando as coletas de exoma para investigação desde o final de janeiro, após treinamento da equipe da genética, incluindo docentes, médicos assistentes e médicos residentes, seguindo todas as orientações do ministério. Estamos em via de receber o resultado das amostras investigadas nos laboratórios do Instituto Nacional de Cardiologia no RJ para análise e emissão dos primeiros laudos”, informa o coordenador no HC, professor Carlos Steiner (foto), da Genética Médica.

Segundo Steiner, embora o exame de sequenciamento completo do exoma possa ser disponibilizado para a investigação genética de todas as doenças raras, neste momento, está sendo oferecido apenas para a investigação etiológica da deficiência intelectual, contemplada no PCDT 572. “O projeto piloto embasará estudos para o futuro se incluir outras doenças”, comenta.

O coordenador do projeto no HC, Carlos Steiner: projeto piloto
O coordenador do projeto no HC, Carlos Steiner: projeto piloto

São Paulo está entre as 11 unidades federativas contempladas pelo projeto-piloto do Ministério da Saúde. O exame enfrenta um dos principais gargalos vividos pelas famílias: a demora na confirmação diagnóstica. Com a nova oferta, o resultado será entregue em até seis meses (antes, a espera podia chegar a sete anos). A redução é de 93% no tempo de espera.

As amostras coletadas nos estados serão enviadas para dois laboratórios públicos no Rio de Janeiro: o Instituto Nacional de Cardiologia (INC), que opera em fase piloto desde outubro de 2025; e a Fiocruz, cuja estrutura deve estar concluída até o fim de maio. A iniciativa do ministério terá capacidade para atender 100% da demanda nacional pelo exame, o equivalente a 20 mil diagnósticos por ano.

Pelo projeto Piloto, o laboratório do INC já recebe amostras de 13 serviços habilitados em 10 estados e no Distrito Federal: Bahia, Rio de Janeiro, Goiás, Pará, Pernambuco, Paraná, Minas Gerais, Ceará, São Paulo e Mato Grosso. O projeto registra taxa de sucesso de 99% nas coletas e já emitiu 175 laudos.

Nos meses de março e abril, outros 23 serviços serão habilitados, contemplando também Espírito Santo, Paraíba, Piauí, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Rio Grande do Norte. A previsão é que, até o fim de 2026, os dois laboratórios operem em plena capacidade, garantindo atendimento a todas as famílias elegíveis.

Como funciona o exame

Fundamental para confirmar o diagnóstico de doenças raras genéticas, o Sequenciamento Completo do Exoma analisa regiões do DNA onde se concentram a maioria das mutações genéticas, a partir de amostras de sangue ou saliva.

O exame também contribui para a confirmação diagnóstica de doenças identificadas no teste do pezinho (triagem neonatal), como fibrose cística, fenilcetonúria, hipotireoidismo congênito, doença falciforme, outras hemoglobinopatias e hiperplasia adrenal congênita.

O ministro da Saúde também anunciou que a rede especializada do SUS voltada ao tratamento de doenças raras será ampliada em 120%
O ministro da Saúde também anunciou que a rede especializada do SUS voltada ao tratamento de doenças raras será ampliada em 120%

Diagnóstico precoce

Além de proporcionar mais qualidade de vida aos pacientes, o diagnóstico precoce permite a indicação de tratamentos mais adequados e personalizados, aumentando as chances de melhores desfechos clínicos.

No caso da fibrose cística, por exemplo, além da ampliação do diagnóstico precoce, o SUS oferta, desde 2023, medicamento específico para o tratamento da doença, reforçando a linha de cuidado e o acesso à terapia inovadora.

Com a confirmação diagnóstica, mais pessoas poderão acessar terapias disponíveis na rede pública, garantindo tratamento oportuno, redução de complicações e melhora na expectativa e na qualidade de vida.

Ampliação da rede especializada

Na quinta-feira, dia 26/2, o ministro da Saúde também anunciou que a rede especializada do SUS voltada ao tratamento de doenças raras será ampliada em 120%. Para isso, foram destinados R$ 44 milhões para habilitar 11 novos serviços em quatro regiões do país.

Com a expansão, o número de serviços especializados passará de 23, em 2022, para 51 unidades em hospitais públicos e filantrópicos.

“Com a ampliação para 51 serviços especializados, vamos mais que dobrar a rede existente e consolidar a maior rede pública de diagnóstico e cuidado de doenças raras do mundo. É o Estado brasileiro assumindo a responsabilidade de garantir o acesso próximo de onde as pessoas vivem”, afirmou Alexandre Padilha.

O investimento federal assegura estrutura adequada, equipes multiprofissionais e atendimento contínuo aos pacientes.

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Cepagri desenvolve ferramenta que calcula emissões de carbono nas lavouras de café

Depois de aproximadamente três anos de trabalho, pesquisadores  do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), da Unicamp, concluíram o desenvolvimento de uma ferramenta capaz de calcular o balanço de emissões de carbono na cultura de café.

Acesse a ferramenta.

Num projeto em parceria com a Cooperativa dos Cafeicultores de Guaxupé (Cooxupé), no sul de Minas Gerais, o recurso permite contabilizar as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e o sequestro de carbono em todas as etapas da produção.

A partir da aplicação de insumos – fertilizantes usados no cultivo, queima de combustível para funcionamento de maquinário, processos de beneficiamento e outras atividades da cadeia produtiva – a solução faz a quantificação das emissões e do sequestro de GEE. Com esses dados disponíveis, o produtor poderá promover um manejo sustentável sem reduzir níveis de produtividade e rentabilidade, além de disputar o mercado interno e externo em melhores condições.

A pesquisadora do Cepagri Renata Gonçalves: primeiro destinado para a cafeicultura
A pesquisadora do Cepagri Renata Gonçalves: primeiro destinado para a cafeicultura

A pesquisadora do Cepagri e coordenadora do projeto Renata Gonçalves conta que há mais de 20 anos a organização global de pesquisa World Resources Institute (WRI) cria protocolos internacionalmente aceitos para o desenvolvimento de inventários corporativos de GEE. Denominados genericamente de GHG Protocol (“protocolo GEE”, em inglês), esses padrões definem as práticas internacionalmente aceitas para o desenvolvimento de inventários de GEE corporativos, de projetos ou de produtos.

Nos últimos anos, no entanto, tem crescido a demanda por diretrizes técnicas voltadas para o setor agrícola. O modelo elaborado pelo Cepagri é o primeiro destinado especificamente para a cafeicultura.

A Cooxupé é hoje uma das associações mais importantes do setor na América Latina. Conta com aproximadamente 20 mil membros produtores. Segundo a associação, Minas Gerais é responsável por grande parte da safra nacional e, dessa produção, cerca de 50% é entregue pelo Sul de Minas. No total, o estado tem uma área cultivada superior a 1 milhão de hectares. De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), 99% desse espaço é voltado à produção do café arábica, para o qual a ferramenta do Cepagri foi desenvolvida.

O pesquisador João Paulo da Silva, que integra a equipe de desenvolvedores, diz que a principal preocupação no processo de adaptação da ferramenta para o café foi a busca pela identificação mais precisa dos efeitos da atividade no carbono estocado no solo.

“Isso demandou um trabalho bastante importante de coletas de dados específicos, como a coleta de amostra no campo em diferentes extratos das propriedades de café”, explica Silva.

João Paulo da Silva, da equipe de desenvolvedores: coletas de dados específicos
João Paulo da Silva, da equipe de desenvolvedores: coletas de dados específicos

“Depois, tivemos de submeter essas amostras a análises laboratoriais para entendermos a dinâmica desse carbono no solo em diferentes situações; em extratos de um cafezal, pontos relacionados ao relevo e em diferentes idades da planta”, conta ele.

Em seguida, o grupo fez o cruzamento de dados levantados nas propriedades com o banco de dados que a Cooxupé havia construído ao longo dos anos. Segundo Silva, a cooperativa dispõe de grande volume de dados sobre análise de solo e, a partir disso, foi possível estabelecer uma taxa de variação do carbono no solo.

Necessidade

Renata Gonçalves conta que o projeto de desenvolvimento da ferramenta integra o programa da Cooxupé denominado Protocolo de Sustentabilidade Gerações, que visa promover boas práticas agrícolas tendo como metas a sustentabilidade econômica, social e ambiental.

Gonçalves explica que muitos anos atrás, quando o Cepagri e a Embrapa começaram a trabalhar com o tema de mudanças climáticas, os pesquisadores alertaram que o café teria problemas com o aumento da temperatura. “Se a temperatura sobe muito, por exemplo, na época do florescimento, são grandes as chances de abortamento floral”, lembrou a pesquisadora.

Segundo ela, os eventos extremos, como calor extremo, granizo, geadas muito fortes ou secas prolongadas, têm ocorrido com maior frequência nessas áreas. Com isso, os produtores registraram grandes perdas nos últimos anos. “Foi aí que começaram a pensar em mudanças no manejo”, disse Gonçalves.

Cafeicultor durante colheita do café; parceria com a Cooxupé, no sul de Minas Gerais
Cafeicultor durante colheita do café; parceria com a Cooxupé, no sul de Minas Gerais

Além da questão ambiental, os produtores começaram a ter maior preocupação com a produção também pelo viés econômico. “As empresas compradoras, hoje, estão exigindo que a produção seja mais sustentável. Precisam que os produtores promovam mitigação de GEE para que possam continuar comprando e exportando o café”, revela.

Sabor

De acordo com os pesquisadores do Cepagri, o manejo sustentável das plantações de café tem potencial para, inclusive, impactar positivamente o sabor da bebida.

João Paulo da Silva lembra que a matéria orgânica tem uma função muito importante no comportamento do solo. É o elemento que, segundo ele, vai melhorar a capacidade de troca catiônica do solo – aumentando a quantidade de nutrientes disponíveis no solo para a planta absorver e utilizar em seus processos fisiológicos de crescimento e desenvolvimento de frutos.

Os eventos, como calor extremo, granizo, geadas muito fortes ou secas prolongadas, têm ocorrido com maior frequência nessas áreas
Os eventos, como calor extremo, granizo, geadas muito fortes ou secas prolongadas, têm ocorrido com maior frequência nessas áreas

“Se a gente tiver um solo com mais matéria orgânica, teremos menor necessidade de aplicação de adubo para a obtenção de uma bebida de mais qualidade. Com isso, a gente está reduzindo custo de produção e melhorando a qualidade da bebida”, disse o pesquisador.

“Desta técnica de diminuir a adubação e deixar mais matéria orgânica no solo é que vem a maioria dos cafés premiados deles”, finaliza Renata Gonçalves.

Multiplicadores

Os pesquisadores do Cepagri observam que a partir de agora haverá um trabalho de formação de multiplicadores. Técnicos vão ser treinados pela Associação para disseminar as funcionalidades da ferramenta junto aos produtores rurais.

Também participaram do projeto os pesquisadores do Cepagri, Priscila Coltri, Eduardo Assad, Jurandir Zullo Junior e Maria Leonor Lopes Assad.

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Os pesquisadores do Cepagri observam que a partir de agora haverá um trabalho de formação de multiplicadores
Os pesquisadores do Cepagri observam que a partir de agora haverá um trabalho de formação de multiplicadores

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Projeto propõe pedagogia inovadora no ensino de lutas e artes marciais para crianças

O tatame como espaço de acolhimento a partir de uma pedagogia para o ensino de lutas mais inovadora, inclusiva e baseada no respeito mútuo. Este é o foco do projeto  “(Re)pensando os caminhos entre universidade e comunidade no campo das Lutas, Artes Marciais e Esportes de Combate: proposta de inovação no ensino de crianças baseada no Tactical Games Approach”, da Faculdade de Educação Física (FEF), aprovado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) dentro do programa “Primeiros Projetos”.

Com duração de três anos, o projeto de extensão terá concessão de bolsas para um pesquisador de pós-doutorado, dois mestrandos e dois bolsistas de iniciação científica. A maior parte dos recursos, de pouco mais de R$ 600 mil, será destinada à formação desses pesquisadores, explica o professor da FEF e coordenador do projeto, Luiz Gustavo Bonatto Rufino, que é faixa-preta de jiu-jitsu.

Uma das ações centrais será o oferecimento de um curso de extensão gratuito para treinadores e professores de lutas que atuam com crianças, independentemente da modalidade ou da formação em Educação Física. “Após essa formação inicial, os pesquisadores acompanharão esses profissionais em seus próprios contextos de atuação, como academias, clubes e projetos sociais, fortalecendo a relação entre universidade e comunidade”, destaca Rufino.

“O objetivo não é a Universidade dizer o que deve ser feito, mas construir junto”, completa o professor, que ressalta que o projeto prevê “escuta ativa dos treinadores, valorizando seus saberes e experiências”. A proposta é reunir representantes de modalidades — como judô, jiu-jitsu, karatê, boxe e esgrima, entre outras — para fomentar a troca de experiências.

O coordenador do projeto, Luiz Gustavo Bonatto Rufino e a professora Mariana Simões Pimentel Gomes: oferecimento de um curso de extensão gratuito para treinadores e professores de lutas que atuam com crianças
O coordenador do projeto, Luiz Gustavo Bonatto Rufino e a professora Mariana Simões Pimentel Gomes: ensino de lutas baseado no respeito mútuo

Também integrante do projeto, a professora de educação física adaptada Mariana Simões Pimentel Gomes, igualmente faixa-preta de jiu-jitsu, enfatiza que o objetivo é construir alternativas pedagógicas que ampliem o acesso, valorizem a diversidade corporal e promovam experiências mais significativas para as crianças. “A ideia partiu da constatação de que o ensino tradicional das modalidades de luta ainda é marcado por modelos conservadores, hierarquizados e pouco inclusivos, voltados majoritariamente a um perfil específico de praticante”, explica.

A professora destaca que sua trajetória pessoal influenciou diretamente essa abordagem. Filha de um faixa-preta de jiu-jitsu e irmã de uma pessoa com deficiência, ela relata que desde cedo percebeu como o ensino das lutas era direcionado apenas a determinados corpos. “Eu queria ensinar de outra forma, romper com a ideia de que a luta é só para um tipo de pessoa”, afirma. Essa inquietação levou à criação, ainda na graduação, da escolinha de lutas da FEF, um projeto de extensão voltado a crianças da comunidade.

Rufino ressalta que sua experiência pessoal com o jiu-jitsu também foi determinante para sua trajetória acadêmica. Ele conta que iniciou a prática ainda criança, após enfrentar dificuldades de comportamento na escola, e que a modalidade teve impacto direto em sua formação pessoal e profissional. “As lutas me levaram à Educação Física e à universidade”, relata.

Jogos e táticas

Entre os principais eixos do projeto está a busca por ressignificar o ensino baseado apenas na repetição técnica de golpes por abordagens que valorizem jogos, situações-problema e princípios táticos comuns às diferentes lutas. “A ideia é que crianças compreendam, desde cedo, aspectos como movimentação, percepção do outro e tomada de decisão”, continua Rufino.

“Geralmente, a criança aprende um movimento e o repete muitas vezes. Depois, na hora da luta, não sabe quando realizar, como se movimentar ou como reagir ao oponente”, ressalta. “A alternativa apresentada é começar pela lógica da luta: entender que o alvo é móvel e que, ao mesmo tempo em que se ataca, também se é alvo.”

Estudantes participam de aula de lutas na FEF; uma das ações centrais do projeto é o oferecimento de um curso de extensão gratuito para treinadores e professores de lutas que atuam com crianças
Estudantes participam de aula de lutas na FEF; uma das ações centrais do projeto é o oferecimento de um curso de extensão gratuito para treinadores e professores de lutas que atuam com crianças

Ao transpor princípios estruturais das lutas para jogos e situações pedagógicas, o projeto busca tornar o aprendizado mais significativo. A ideia é ensinar desde o início conexões e compreensões que, tradicionalmente, só seriam adquiridas muitos anos depois — muitas vezes, apenas na faixa-preta. “Queremos formar praticantes mais conscientes, mais completos e mais autônomos sobre o que estão fazendo”, afirma.

Os docentes também chamam atenção para o alto índice de evasão nas modalidades de luta. Embora muitas pessoas iniciem a prática, poucas permanecem até níveis mais avançados. Para eles, isso está diretamente relacionado a modelos pedagógicos excludentes. “A história que se conta é a de quem chegou à faixa-preta, mas pouco se fala de quem ficou pelo caminho”, observa o professor.

Mais do que desempenho competitivo, o foco está na formação humana. O trabalho enfatiza consciência corporal, autoestima e inclusão. “Todo corpo é potente — seja gordo, magro, alto, baixo, feminino ou masculino. O tatame pode ser um espaço de descoberta e transformação”, destaca Gomes.

A professora enfatiza ainda a necessidade de combater práticas de intimidação, assédio e exclusão, especialmente em relação a mulheres, pessoas LGBTQIA+ e pessoas com deficiência. “Ainda engatinhamos em muitas questões, especialmente de gênero e diversidade. Se você for a uma academia hoje, verá poucas mulheres proporcionalmente. E pessoas LGBTQIA+ muitas vezes não se sentem acolhidas. A luta precisa ser para todos — mas isso exige um olhar atento, não pode ser só discurso”, destaca.

“O tatame precisa ser um espaço de acolhimento, não de temor, assédio ou silenciamento. É possível aprender respeito sem medo. Nem todo mundo vai gostar de lutar, e está tudo bem. Mas todos devem ter o direito de experimentar e se sentir acolhidos”, completa.

Além da produção de artigos científicos, o projeto prevê a elaboração de um material didático voltado ao campo profissional. A expectativa é que esse material contribua para a continuidade das reflexões e das transformações propostas, mesmo após o término da pesquisa. “Publicamos muitos artigos, mas eles nem sempre chegam ao campo profissional. Por isso, o curso vai gerar um material didático em linguagem acessível, que permita interação com os profissionais. Queremos construir relações de diferentes formas e documentar isso para que outras pessoas possam continuar”, destaca a professora.

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Terrae Didatica, revista editada no Instituto de Geociência, atinge conceito de excelência na Capes

A revista Terrae Didatica — editada no Instituto de Geociências (IG) da Unicamp pelo docente Celso Dal Ré Carneiro, fundador da revista — atingiu o conceito A3 do Qualis Capes no novo sistema de avaliação das publicações científicas brasileiras, que entrou em vigor em 2025. A faixa A é reservada a periódicos de excelência. Trata-se de um importante reconhecimento, que atesta a qualidade da publicação e sua visibilidade. Além disso, o conceito obtido aumenta substancialmente as chances de a revista ser contemplada em editais concorridos do CNPq.

Lançada oficialmente em fins de 2005, a revista possui dois registros de ISSN: um para a versão impressa, que foi interrompida no final de 2016 por falta de recursos, e outro para a online, que sempre predominou nas consultas, devido à facilidade de acesso. Ao longo dos anos, a Terræ Didatica, editada ininterruptamente desde sua criação, ampliou a periodicidade e a quantidade de artigos científicos publicados. Entre 2005 e 2009, a revista publicou um número por volume; entre 2010 e 2013, passou a dois números por volume, alcançando três entre 2014 e 2017. Já em 2018, o periódico passou a ser trimestral, quando se fundiu com a Terræ, outra revista científica do IG. Desde que adotou o padrão contínuo de publicação, em 2019, a revista acelerou a difusão dos artigos aceitos. O número de publicações por volume é expressivo: foram 551 artigos e outras comunicações de 2005 até o final de 2025. Em pouco mais de 20 anos, a revista recebeu 794 contribuições. Isso significa que cerca de 30% das submissões foram rejeitadas por diferentes motivos.

O corpo de consultores editoriais Terrae Didatica é altamente qualificado, sendo formado por especialistas de diferentes áreas. “Essa característica, fundamental para que o material recebido seja avaliado da forma mais abrangente e isenta possível, exige tempo e dedicação dos consultores”, destaca Carneiro. “Agradecemos a todos eles pelo fato de colaborarem com a revista sem qualquer remuneração”, reforça. O periódico adota o regime duplo-cego, em que os autores desconhecem os nomes dos avaliadores durante a avaliação, e o avaliador tem dificuldade para identificar os autores. “Caso os pareceristas permitam ser identificados, os autores saberão os nomes de quem avaliou seus trabalhos. Muitas vezes eles agradecem pelas sugestões recebidas”, explica o editor-chefe. Esse trabalho “requer muita atenção aos detalhes, mas, ao mesmo tempo, exige um olhar de conjunto, para garantir que a revista permaneça aberta a quaisquer autores capazes de produzir trabalhos de boa qualidade, sem discriminação”, completa.

O professor Celso Dal Ré Carneiro, fundador da revista: periódico de excelência
O professor Celso Dal Ré Carneiro, fundador da revista: periódico de excelência

Historicamente, cerca de 20% dos trabalhos publicados a cada ano pela revista estão relacionados ao Programa de Pós-Graduação em Ensino e História de Ciências da Terra (PPG-EHCT) do IG. A proporção pode ser considerada saudável, pois representa uma endogenia relativamente modesta. No volume 21, publicado em 2025, 11 dos 47 trabalhos estão relacionados a professores, estudantes ou ex-alunos do PPG-EHCT. Além disso, a comunidade nacional aceita bem os campos e temas de interesse abordados pela revista, resultantes de pesquisas originais e inéditas, de cunho acadêmico ou técnico-profissional, nas áreas de Ciências da Terra, Geologia, Geografia, História da Ciência, Educação, Ensino e outros campos relacionados às Ciências do Ambiente. Terræ Didatica também tem veiculado em suas páginas informações e relatos das atividades do Fórum Nacional de Cursos de Geologia.

Carneiro lembra que muitos fatores interferem nas avaliações da Capes, como a regularidade e pontualidade da publicação; o devido respeito a prazos ágeis de publicação; a qualidade do corpo editorial; o rigor na avaliação; a atualidade das contribuições; a inexistência (ou baixíssima incidência) de erros de formatação ou ortografia; a diversidade de fontes de indexação; a abrangência do público-alvo; a baixa endogenia; os temas abordados. “O conceito A3 é meritório e, de certa forma, justo, prevalecendo para todas as áreas de avaliação da Capes, uma vez que a revista foi assim classificada pela área-mãe (Área 46-Ensino)”, afirma.

O cenário de coexistência das revistas comerciais e das revistas de acesso livre mudou com a internet. “As editoras comerciais tiveram de se adaptar, mas continuam a ‘vender’ o acesso à maioria dos artigos que publicam, enquanto ‘douram a pílula’ ao oferecer alguns deles no formato open-access”, comenta Carneiro. Terrae Didatica sempre se manteve no padrão de revistas de acesso livre (open-access journals). Foi uma das primeiras revistas que passaram a ser veiculadas pelo Portal de Periódicos Eletrônicos Científicos (PPEC) da Unicamp, cuja proposta é abrigar, em uma única plataforma, todos os periódicos editados e produzidos no âmbito da Universidade. O PPEC, que é uma iniciativa da Coordenadoria Geral da Universidade (CGU) gerenciada pelo Sistema de Bibliotecas (SBU), sugere que as revistas organizem toda a sua publicação em modalidade contínua. A revista do IG opera somente por volume desde 2019, sem subdivisão em fascículos.

Origens de Terrae Didatica

Carneiro descreve como se deu, entre 2004 e 2005, a criação da revista. “Alguns anos depois da criação dos cursos de graduação em Geologia e Geografia da Unicamp, o professor Bernardino Figueiredo, que havia sido diretor do Instituto e sempre foi um entusiasta da ciência, reuniu um grupo de docentes dos quatro departamentos do IG com a finalidade de lançar uma revista que publicasse os resultados das pesquisas do Instituto. O projeto era ambicioso, pois todos os artigos deveriam ser redigidos em inglês e a distribuição seria nacional e internacional.” Assim surgiu a revista Terræ, que passaria a ocupar o lugar deixado pelos extintos Cadernos do IG, apesar dea proposta ter sido acolhida com algum ceticismo pelos docentes, pois a obtenção de recursos poderia dificultar sua publicação. “Graças ao apoio de ex-alunos, em pouco tempo a Petrobras se dispôs a publicar um anúncio na contracapa, gerando uma receita que equilibraria os orçamentos”, conta Carneiro.

Meses depois, Figueiredo lançou a ideia de uma outra publicação periódica, predominantemente em português, com a intenção de divulgar os trabalhos e pesquisas do IG no campo educacional. A denominação seria Terræ Didatica, para vincular uma revista à outra. Assim, em 2005, a revista foi criada, mesmo com recursos escassos, com a missão de ser um veículo de difusão e de intercâmbio de artigos educativos, materiais didáticos e recursos de ensino-aprendizagem que atendessem ao público das áreas ambiental e de Ciências da Terra.

Em 2018, ocorreu a fusão com a Terræ, o queampliou o espectro temático da publicação, até então restrito ao segmento educacional. “O novo perfil possibilita acolher artigos resultantes de pesquisas científicas, educacionais ou mistas e abre a alternativa de compor conjuntos temáticos com resultados de investigações relevantes no plano internacional”, destaca o editor-chefe. A revista aceita artigos inéditos resultantes de pesquisas científicas ou educacionais; sínteses, reflexões, relatos ou análises críticas de projetos e propostas relacionados às Ciências da Terra; números temáticos ou monográficos sintetizando resultados de um ou mais grupos de pesquisa, além de materiais didáticos originais e recursos de ensino, em meio eletrônico. Entre esses últimos, são aceitos textos de apoio, sínteses, aplicações práticas e experimentos educativos; análises de mapas e outros documentos das Geociências que divulguem ou abordem aspectos do conhecimento regional ou mesmo global; relatórios de projetos, workshops, simpósios, congressos e qualquer outra atividade relevante relacionada às Ciências da Terra; traduções de textos altamente relevantes para o avanço das Geociências; e relatos de pesquisas científicas, educativas e propostas de desenvolvimento de pesquisas inovadoras em qualquer área das Ciências da Terra.”

Convite

Carneiro convida os autores a submeterem suas contribuições, tal como no editorial da edição de 2026:

Terræ Didatica está aberta para acolher contribuições de excelente qualidade, sempre com foco nas Geociências ou em campos multidisciplinares de pesquisa geocientífica e/ou de aplicação geoeducacional. A revista consolidou-se perante a comunidade nacional e internacional das Ciências da Terra, sendo escolhida, tanto por pesquisadores mais jovens quanto pelos experientes, para divulgar resultados de investigações originais e inéditas. Esperamos expandir a penetração da revista em 2026, ao mesmo tempo em que reiteramos a confiança no valor inestimável da difusão de ciência de boa qualidade.”

Interessados em enviar artigos podem entrar em contato com o editor-chefe da revista pelo email cedrec@unicamp.br.

Foto de capa:

A revista foi lançada oficialmente em fins de 2005
A revista foi lançada oficialmente em fins de 2005

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Unicamp terá Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para discutir práticas solidárias e sustentáveis

Diante de um cenário de aprofundamento da desigualdade social e de ocorrências de tragédias naturais provenientes das alterações climáticas, um novo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) sediado na Unicamp, que começa a operar em março deste ano, pretende apresentar às gerações mais jovens alternativas de organização socioeconômica mais solidárias e sustentáveis, focadas no bem-estar social e na saúde ambiental. O Instituto também se propõe a fomentar a cidadania participativa e democrática por meio da criação de um aplicativo que permite a comunicação entre governo e cidadãos.

O Instituto de Informação para uma Economia Solidária e Sustentável (INE2S) está instalado no Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE), o primeiro e único Centro Interdisciplinar de Pesquisa da Unicamp a sediar um INCT. Os centros de pesquisa interdisciplinar da Unicamp são subordinados à Coordenadoria de Centros e Núcleos interdisciplinares de Pesquisa (Cocen), responsável hoje por 23 centros e núcleos.

O INE2S, que tem duração prevista de cinco anos, foi aprovado na última chamada do programa, realizada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) em 2024, cujos resultados foram divulgados em 2025. O Instituto foi contemplado com cerca de R$ 10 milhões em recursos.

O vice-coordenador do INCT, Alfredo Pereira (à esquerda), o vice-diretor do CLE Fábio Bertato e a coordenadora do INE2S Itala D'Ottaviano
O vice-coordenador do INCT, Alfredo Pereira (à esquerda), o vice-diretor do CLE Fábio Bertato e a coordenadora do INE2S Itala D’Ottaviano

A interdisciplinaridade é um dos pontos fortes da proposta, que apresenta características incomuns para um INCT. A ideia do projeto nasceu dentro de um grupo interdisciplinar que atua no CLE desde o final da década de 1980, o Grupo Interdisciplinar Auto-Organização, que trabalha temas como teoria de sistemas, auto-organização, informação e complexidade – sob o comando da professora Itala D’Ottaviano, coordenadora do novo INCT.

“Arriscamos duplamente [na apresentação da proposta], porque, além de ser um tema de ponta, uma novidade, também submetemos [a proposta] na área de filosofia – e a grande maioria dos INCT aprovada, em geral, está nas áreas de biológicas e de exatas”, explica D’Ottaviano, que celebra a aprovação do projeto com uma nota alta na seleção.

Outro diferencial é a abordagem extensionista do projeto, uma vez que prevê contato direto com a comunidade a partir da criação de núcleos em diferentes cidades. Até o momento, já existem nove núcleos organizados em Campinas, Botucatu, Marília, São Carlos, Limeira, Rondonópolis, Belém, Rio de Janeiro, Terra Indígena Canauanim e Bonfim (RR), além de outros em análise.

Esses grupos trabalharão diferentes temas em parceria com escolas locais, em especial com as turmas de ensino médio, aproveitando vocações regionais e as áreas de pesquisas dos participantes.

O público-alvo do projeto envolve desde comunidades indígenas, ribeirinhos, comunidades urbanas socialmente vulneráveis, entre outras. “Vamos abarcar várias áreas importantes que afetam questões sociais, de sustentabilidade, minorias, questões de gênero, preservação da vida senciente, desigualdade, questões de etnia e outras”, afirma D’Ottaviano.

O INE2S está instalado no Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência, o primeiro e único centro a sediar um INCT
O INE2S está instalado no Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência, o primeiro e único centro a sediar um INCT

Pesquisa-ação

O vice-coordenador do INE2S, Alfredo Pereira, que é docente da Universidade Estadual Paulista (Unesp), explica que a motivação é conscientizar os estudantes a respeito de novas perspectivas de empreendedorismo que não visem apenas o lucro e o ganho pessoal, incentivando-os a criar iniciativas de geração de emprego e renda e de auto-organização popular.

“Os jovens estão sem perspectivas. A humanidade vive duas crises. Uma delas é a desigualdade e a falta de oportunidades com a introdução da inteligência artificial. A outra é a ambiental, que gera a necessidade de mudarmos o modelo econômico e termos práticas mais sustentáveis”, argumenta Pereira.

Para o desenvolvimento do trabalho, o INCT planeja utilizar a metodologia da pesquisa-ação, que combina a investigação de um tema com o diálogo com a sociedade. “Estamos muito animados com a possibilidade de trazer a nossa expertise – que é mais teórica, mais ligada ao pensamento crítico, à complexidade – e fazer essa ponte com o concreto, a ação. E não tem ninguém que conhece melhor os problemas locais do que a comunidade, então essa troca é fundamental”, destaca Fábio Bertato, pesquisador, vice-diretor do CLE e tesoureiro do INE2S.

Bertato pontua, ainda, que essa ponte teoria-prática exige formação dos participantes. Nesse contexto, os envolvidos nos núcleos participarão anualmente de ações de capacitação ofertadas pelo Instituto, tanto presenciais quanto virtuais. O projeto conta, também, com verba para a disponibilização de 200 bolsas em diferentes níveis, podendo contemplar desde alunos do ensino médio, professores municipais até pós-doutorandos.

“O INCT estar sediado em um centro de pesquisa coaduna com os objetivos da Universidade de potencializar suas ações com a sociedade. Isso dá um grau ainda maior de institucionalidade para todo o processo”, destaca o secretário executivo do INCT, Marcelo Phaiffer.

Apesar de os institutos estarem instalados fisicamente em instituições brasileiras de excelência, os trabalhos são interconectados com várias regiões e pesquisadores. O INE2S é composto por cerca de 30 pesquisadores de diferentes instituições. Além do CLE, também da Unesp – Campi Marília e Botucatu; Universidade de São Paulo (USP); universidades federais de São Carlos (UFSCar), de Rondonópolis (URF, no Mato Grosso), do Pará (UFPA), de São João del Rei (UFSJ, MG), de Uberlândia (UFU), do Paraná (UFPR), do Mato Grosso do Sul (UFMS), de Minas Gerais (UFMG), da Paraíba (UFPB) e de Pernambuco (UFPE).

Além da interlocução direta com a juventude, o INCT também atuará na divulgação de informações via redes sociais
Além da interlocução direta com a juventude, o INCT também atuará na divulgação de informações via redes sociais

Cidadania

Além da interlocução direta com a juventude, o INCT também atuará na divulgação de informações via redes sociais. “Vamos agir circulando informações que mostrem essas possibilidades, a fim de incentivar as novas gerações a se tornarem empreendedoras, dentro do chamado empreendedorismo social”, esclarece Pereira.

Somado a isso, o docente destaca como um dos resultados principais do INCT a criação de um canal de comunicação “de baixo para cima” entre o povo e os governantes. Por meio de um aplicativo, a ser desenvolvido e vinculado ao sistema informatizado governamental, os cidadãos poderão enviar suas demandas e reinvindicações. Essas informações serão compiladas e organizadas em relatórios, com o auxílio da inteligência artificial, e encaminhadas para a esfera pública pertinente.

“Não existe, hoje, uma ferramenta para a população, continuamente, participar [da gestão pública] por meio das suas avaliações, sugestões e solicitações. Acreditamos que a inteligência artificial pode ser usada em prol da democracia. Essas informações fornecerão subsídios para que a sociedade possa cobrar condutas mais eficazes e eficientes dos governantes”, afirma Pereira.

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Unicamp terá Insitituto Nacional de Ciência e Tecnologia para discurtir práticas solidárias e sustentáveis
O Instituto também se propõe a fomentar a cidadania participativa e democrática por meio da criação de um aplicativo que permite a comunicação entre governo e cidadãos

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Deserto avança no Nordeste brasileiro, aponta mapeamento desenvolvido em doutorado

O fenômeno da desertificação vem avançando no Brasil, principalmente nos estados do Nordeste. Novas áreas têm apresentado um risco potencial para o crescimento do fenômeno, em função das mudanças climáticas e da intensificação das ações humanas no manejo do solo. É o que aponta a pesquisa de doutorado desenvolvida no Instituto de Geociências (IG) da Unicamp por Mariana de Oliveira.

Oliveira estudou o fenômeno da desertificação como membro do grupo de pesquisas coordenado pelo professor Marcos César Ferreira, do IG. O grupo cria modelos de risco para detecção e análise de problemas ambientais e vem observando como os fenômenos climáticos afetam solos, vegetação e recursos hídricos. 

O estudo, realizado durante o doutorado de Oliveira, criou um modelo de risco da desertificação nas condições geográficas brasileiras, utilizando o método de regressão logística,  com base em dados empíricos, mapas e imagens de satélite. Foi mapeada a probabilidade de ocorrência da desertificação a partir de cinco variáveis geográficas de risco (temperatura terrestre, manejo do solo, vegetação, média de chuvas e densidade populacional).  A pesquisa identificou uma provável nova mancha do fenômeno em uma área ainda não mapeada no Ceará e novas áreas de risco à desertificação no estado do Ceará.

Para Flávio Rodrigues do Nascimento, coordenador do Departamento de Combate à Desertificação do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), a metodologia desenvolvida no estudo contribui para o monitoramento das áreas degradadas e para o diagnóstico mais preciso daquelas mais suscetíveis ao avanço da desertificação.

Assista ao programa Vida em Pesquisa:

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