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Itaú BBA: por que os gestores de investimentos estão otimistas com a Bolsa

O sentimento dos gestores de investimentos sobre a Bolsa brasileira segue positivo, embora com leve moderação, constatou o Itaú BBA após pesquisa feita com 107 investidores entre os dias 23 e 29 de abril. Segundo o levantamento, os investidores projetam o Ibovespa acima de 210 mil pontos até o fim de 2026.

Em relatório, os estrategistas Daniel Gewehr, Matheus Marques e Raphael Matutani destacam que, em uma escala de zero (pessimista) a dez (otimista), a média desta edição da pesquisa foi de 7,09, abaixo da pesquisa anterior (7,18), mas ainda no segundo nível mais alto da série histórica.

No que diz respeito ao cenário macroeconômico, a pesquisa mostrou expectativa de ciclo de afrouxamento monetário mais curto. Os investidores esperam que a Selic (taxa básica de juros) se aproxime de 13% até o fim de 2026, praticamente 80 pontos-base acima da média indicada na pesquisa anterior. O Itaú BBA também destaca que há divergências sobre o momento do ciclo macroeconômico, mas que essas diferenças já estariam precificadas.

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Em termos de posicionamento setorial, as empresas de serviços públicos seguem liderando as preferências dos investidores, impulsionadas por companhias locais. Ao mesmo tempo, os setores cíclicos domésticos ganharam relevância nas posições subponderadas, superando as commodities. O levantamento também aponta a entrada de shoppings no Top 5 das posições subponderadas.

Entre os fatores de atenção para os investidores, a política local e as curvas de juros continuam no radar, junto com a geopolítica. O Itaú BBA afirma que conflitos estão no topo do radar de riscos globais e acrescenta que o Brasil deve continuar recebendo fluxos de capital. Fora do Brasil, houve melhora no humor em relação às ações americanas; na América Latina ex-Brasil, a Argentina segue dominando, mas os países andinos passaram a deter a maior participação, com Chile, Colômbia e Peru também avançando ante edições anteriores da pesquisa.

O levantamento mostrou ainda pequeno aumento na posição de caixa de fundos long-only, fundos de ações focados na valorização de ativos, e menor exposição de fundos hedge (ou fundos de cobertura) a ações. A pesquisa mostra ainda estimativas equilibradas, com previsão neutra para a temporada de balanços do primeiro trimestre de 2026.

Nos destaques de ações individuais, Axia (AXIA3), Nubank (ROXO34), Equatorial (EQTL3), BTG (BPAC11) e Itaú (ITUB4) aparecem como as principais escolhas, e a expectativa é que a NU tenha o maior retorno em seis meses.

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Em comparação com a pesquisa anterior, a Localiza (RENT3) registrou a maior queda nos votos, de 19,4% para 10%. No Top 10, Petrobras (PETR3; PETR4) e Copel (CPLE6) entraram no lugar de Cyrela (CYRE3) e Prio (PRIO3).

*Conteúdo elaborado com auxílio de Inteligência Artificial, revisado e editado pela Redação da Broadcast

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Robôs dominam mais da metade das negociações na B3; o que isso muda para quem investe?

Robôs negociando na Bolsa de Valores parece coisa de roteiro de ficção científica. Fora das telas do cinema, porém, essa já é a realidade do mercado financeiro brasileiro há pelo menos uma década, e os especialistas avisam: a tendência é aumentar. Em poucos anos, algoritmos, sistemas computacionais que compram e vendem ativos em frações de segundo, passaram de curiosidade tecnológica a protagonistas das negociações.

Levantamento de estrategistas consultados pelo E-Investidor aponta que, em 2010, o HFT (negociação de alta frequência) respondia por apenas 0,57% do volume financeiro na B3 (B3SA3). Em 2015, já eram quase 14%. Hoje, estimativas do setor apontam cerca de 35% do volume no mercado à vista e mais de 50% nos contratos futuros.

Para ter dimensão, nos Estados Unidos esse tipo de estratégia responde por algo entre 60% e 70% do volume em ações, segundo dados fornecidos por analistas. O Brasil, dizem eles, ainda está alguns degraus abaixo, mas a direção é a mesma.

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“A B3 mantém, desde 2010, um programa de incentivo tarifário para operadores de alta frequência, com descontos regressivos por volume. O movimento foi estimulado pelo desenho da Bolsa, e o fluxo hoje é majoritariamente estrangeiro: investidores de fora respondem por 61,2% do volume negociado em 2026, quase todo via mesas algorítmicas de bancos globais”, diz Marcos Valadão, da Armada Asset.

Em nota, a B3 disse que não dispõe de um dado consolidado sobre a quantidade de robôs ou sistemas algorítmicos que operam hoje na Bolsa. “Isso porque cada investidor ou participante do mercado decide, na sua própria infraestrutura, se envia ordens manualmente, ordem a ordem, ou por meio de algoritmos, e essa escolha não é identificada individualmente pela B3”, afirmou.

Rápido demais para o humano acompanhar

A mudança no perfil de quem opera alterou também o ritmo com que os preços se movem. Quando a maioria das ordens vinha de humanos, uma notícia ruim levava tempo para ser digerida. Hoje, um algoritmo lê o mesmo dado em milissegundos e já reagiu antes que qualquer investidor consiga abrir o home broker. Ciclos que antes duravam semanas se comprimem em horas.

E quando muitos sistemas respondem ao mesmo sinal ao mesmo tempo, o efeito pode ser tão intenso quanto uma manada humana, só que mais rápido e sem uma manchete clara para explicar. Pesquisadores de mercado chamam esse fenômeno de correlação sistêmica, e ele está por trás de alguns dos episódios de volatilidade mais abruptos dos últimos anos, aqueles em que a Bolsa despencou sem motivo aparente.

O debate sobre o impacto desse domínio das máquinas na formação de preços ainda divide o mercado. Para alguns, o processo segue eficiente, já que algoritmos também incorporam informações reais, como balanços, dados macroeconômicos e fluxo de caixa. Outros veem com ceticismo: o predomínio de estratégias de curtíssimo prazo pode distorcer os sinais de preço, enquanto o “humor” do mercado, antes guiado por expectativas e confiança, cede espaço a uma dinâmica mais fria e opaca.

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“O mercado, de forma geral, avalia esse movimento como positivo do ponto de vista de eficiência: há ganho de liquidez, redução de spreads e maior velocidade de incorporação de informações nos preços. Por outro lado, cresce também a preocupação com efeitos colaterais, especialmente em eventos de estresse”, explica Lucas Girão, economista e especialista em investimentos.

Quando o algoritmo some, o problema começa

A volatilidade que se observa hoje na B3 não é um ruído de adaptação que vai desaparecer com o tempo, afirmam os especialistas. Ela tem forma, endereço e horário. Os algoritmos entregam liquidez quando é lucrativo entregá-la e somem quando o custo sobe. Em dias de estresse, o spread abre, a seleção adversa dispara e o formador de mercado racional recua, só que agora ele recua em milissegundos, não em minutos.

O episódio mais citado por analistas para ilustrar esse mecanismo é o Flash Crash de maio de 2010, quando o índice Dow Jones despencou 9% e se recuperou em menos de 20 minutos após uma única ordem automatizada de 75 mil contratos do E-mini, um derivativo de índice americano.

Pesquisa de Kirilenko publicada no Journal of Finance em 2017 mostrou que os sistemas de HFT (negociação de alta frequência) não foram o gatilho, mas acumularam inventário e venderam de forma agressiva no pior momento, amplificando a queda. “Volatilidade intradia de cauda hoje é estruturalmente maior num mundo algorítmico. Volatilidade do dia a dia pode até ser menor. O mercado ficou mais eficiente em dia comum e mais frágil em dia ruim, o que não é contradição alguma, é efeito direto do desenho”, avalia Valadão.

A Bolsa brasileira sempre foi sensível ao humor externo, mas a entrada de fundos sistemáticos estrangeiros elevou esse grau de dependência. Na prática, decisões do Federal Reserve ou dados fracos da indústria europeia passam a afetar os preços na B3 quase em tempo real, antes mesmo da leitura completa por analistas locais. Com isso, fatores domésticos, como resultados corporativos e a perspectiva fiscal, perdem peso no curto prazo, pressionados por fluxos automatizados que reagem de forma simultânea a sinais globais.

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Quando muitos sistemas leem o mesmo gatilho ao mesmo tempo, a correlação sistêmica não distingue Petrobras, por exemplo, de índice europeu. “O ruído de curto prazo está mais algorítmico, mas a direção de longo prazo ainda é, em grande medida, humana. Decisões baseadas em fundamentos, alocação estratégica e leitura macro continuam sendo determinantes para tendências mais duradouras”, observa Girão.

Segundo especialistas, o avanço das máquinas não mudou a lógica do mercado, mas a divisão de trabalho. Em ativos líquidos, o preço intradiário é quase todo sistemático, enquanto mid e small caps seguem mais dependentes da análise humana, já que o volume não justifica a estrutura de HFT.

“No intradiário de ativos líquidos, o preço é quase 100% sistemático. Em horizontes mais longos, a tese ainda é humana. A diferença é que hoje a pessoa física também tem inteligência artificial ao seu alcance, o que reequilibra parte do jogo”, diz Bruno Meazzini, diretor de tecnologia e cofundador da BlackBots Tecnologia.

O humor tem novo endereço

O humor do mercado não desapareceu com a chegada dos algoritmos. O que mudou foi quem o carrega, conforme especialistas. Cada modelo reflete as apostas de quem o programou, e quando milhares deles leem o mesmo sinal e reagem juntos, o movimento que se vê na tela não tem rosto nem nome para explicar. “O humor não saiu, foi codificado. Quando milhares de modelos convergem para a mesma tese, eles deslocam preço juntos. O humor do mercado hoje está no posicionamento agregado dos sistemáticos e na calibração dos fatores. Apenas mudou de endereço”, diz Valadão.

Os episódios que melhor ilustram o que acontece quando esse desenho é testado não faltam. Em 2013, a conta da Associated Press no X foi hackeada e publicou um tuíte falso sobre uma explosão na Casa Branca. Em três minutos, o Dow Jones perdeu o equivalente a US$ 136 bilhões, depois que algoritmos de processamento de linguagem natural (PLN) venderam antes que qualquer humano fosse checar a fonte.

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Para Girão, em situações de estresse os algoritmos tendem a piorar o problema. Quando o mercado começa a cair com força, os sistemas programados para evitar perdas param de comprar e vendem o que têm. Menos compradores, mais vendedores, queda maior. O que era para ser um amortecedor vira um acelerador.

O que sobra para o investidor individual nesse mercado é uma pergunta que os especialistas respondem com menos hesitação do que se poderia esperar. Tentar competir em velocidade ou frequência com mesas algorítmicas de bancos globais não é questão de preparo, é assimetria estrutural, avalia Valadão.

Mais de 80% dos fundos ativos de longo prazo perdem do próprio benchmark no mundo todo, segundo dados citados pelos especialistas. Se gestores profissionais com equipe dedicada não conseguem bater o índice de forma consistente, o investidor que tenta operar trade no home office está num jogo que não foi desenhado para ele.

O caminho, segundo Valadão, passa por entender o negócio, comprar barato, carregar por anos e reinvestir dividendos. Meazzini observa que hoje qualquer investidor consegue conversar com um modelo de inteligência artificial, filtrar notícias, ler balanços, construir cenários e identificar padrões, tudo o que antes exigia uma mesa inteira.

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“Faz mais sentido alongar o horizonte, já que fundamentos ainda funcionam no médio e longo prazo, e adotar métodos sistemáticos de baixa frequência, com apoio de IA para disciplina e backtests. Reduzir exposição à renda variável é um falso conforto”, orienta Meazzini.

“O ponto central é entender que o jogo ficou mais rápido e eficiente, e que competir no curto prazo contra máquinas tende a ser menos vantajoso do que jogar um jogo diferente, o de longo prazo”, completa Girão.

 

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Conflito de interesses impulsiona migração da assessoria para consultoria. O fee fixo é para todo mundo?

Até poucos anos, o assunto consultoria de investimentos vinha sempre acompanhado do questionamento se o investidor brasileiro estaria disposto a pagar pelo serviço com uma taxa fixa. Não é que antes o atendimento fosse gratuito, mas predomina no mercado o modelo de assessoria, em que a remuneração do especialista ocorre via comissionamento da venda de produtos e nem sempre fica clara para o cliente.

Mas hoje aquela dúvida sobre a viabilidade do modelo consultivo parece superada. O investidor amadureceu – por vontade ou por consequência dos episódios de conflitos de interesses, em que acabou empurrado para um investimento desencaixado de seu perfil de risco por um assessor incentivado pela comissão oferecida pelas distribuidoras. A norma CVM 179, que desde novembro de 2024 dá transparência a essas taxas, também acelerou o processo.

O mercado percebeu isso. O cliente estaria disposto a pagar uma taxa fixa pelo atendimento, o chamado fee-based ou fee fixo, desde que enxergasse valor no serviço.

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Com a bandeira de atender melhor o investidor, casas que surgiram e cresceram como assessoria deram início a uma transição nos seus modelos. Primeiro, passaram a oferecer o serviço via taxas fixas. Depois, principalmente em 2025, foi a consultoria de investimentos que ganhou destaque.

“Está acontecendo uma migração para o modelo híbrido no que tange a cobrança, com grandes players, inclusive os bancos, oferecendo as duas opções. É o que deve ficar na estrutura do Brasil, semelhante ao que é nos Estados Unidos“, diz Cassio Bariani, sócio fundador da SmartBrain.

Com base nos seus dados internos, a SmartBrain estima que 20% das assessorias já tenham migrado para a consultoria ou para o modelo híbrido. O número de consultores certificados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) teve uma alta de magnitude semelhante, enquanto o número de agentes autônomos se manteve igual.

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Outro sinal de que esse mercado está aquecido e ganhando cada vez mais concorrência vem da evolução do fee por AuM (ativos sob gestão), a taxa cobrada pelo serviço com base no patrimônio do cliente. A média praticada pela indústria nacional era de 0,78% no início de 2025. Neste início de 2026, já caiu para 0,62%, indicam os dados da plataforma.

Mercado em transição

O fee-based não é uma novidade. É o principal modelo de remuneração dos profissionais há anos nos mercados desenvolvidos e já é bastante popular no Brasil no atendimento às famílias ricas nos multi family offices. Mas foi só recentemente que os players de varejo passaram a olhar para isso, com negócios que já estão nascendo 100% no modelo consultivo e um redirecionamento nas corretoras tradicionais.

A XP, pioneira na assessoria de investimentos, fez esse movimento com maior foco no ano passado, quando reduziu a aplicação mínima para acessar a consultoria para R$ 1 milhão. Nesse modelo, especialmente no atendimento a clientes de patrimônio elevado, os players oferecem serviços que vão além dos investimentos, como planejamento sucessório e tributário, offshores e outros.

A corretora já oferecia a opção do fee-based desde 2020, mas não via demanda para focar os esforços no modelo consultivo. “Há dez anos, talvez fosse improvável falar sobre planejamento tributário, sucessão, investimentos no exterior. Agora a demanda pelos serviços de assessoria está mais sofisticada, principalmente entre os investidores de maior faixa de renda“, explica Bruno Ballista, sócio e head de segmentos de clientes da XP.

A XP quer ser líder no mercado de investimentos nacional até 2032 e, por ser a pioneira na disrupção das plataformas abertas, não quer ficar de fora da onda das consultorias. Mas não acha que o novo direcionamento tenha a ver diretamente com conflito de interesses, presentes em qualquer modelo ou indústria.

“Acreditamos que a ausência de conflito é a opcionalidade, ter múltiplas alternativas para o cliente escolher aquilo que o deixa mais confortável. Somos absolutamente agnósticos em relação ao modelo“, afirma Ballista.

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O fee-based já corresponde a 23% do AuC (ativos sob custódia) de varejo na plataforma.

Na Monte Bravo, a quarta maior assessoria do Brasil, a bandeira do fee fixo veio pelo lado dos profissionais. O CEO Filipe Portella acredita que o momento de mercado do Brasil tem muitas semelhanças ao que, anos atrás, impulsionou a migração para o fee-based nos EUA. O desgaste dos assessores quando o mercado tem menos liquidez, como nos últimos anos, deixa os problemas da assessoria via comissões mais evidentes.

As carteiras ficam com pouco risco, é difícil rentabilizar, o profissional se vê pressionado para vender produtos com rebates mais altos para garantir seu salário no fim do mês e acaba cada vez mais distante do propósito do trabalho.

“Muito tem se falado sobre ser para todo mundo, se é barato ou caro, mas o ponto não é esse. É o alinhamento real de interesses entre o profissional e o cliente”, diz Portella.

Já estão sob o fee-based 42% dos ativos sob custódia da corretora e a empresa está apostando na expansão do segmento para que ele corresponda a 80% do todo em alguns anos. Para isso, reestruturou todo o ecossistema, centralizando a inteligência de alocação de ativos e dando prioridade a produtos de investimento mais alinhados ao modelo para que os profissionais tenham mais tempo para focar no relacionamento. E anunciou um investimento de R$ 300 milhões para formar e treinar os assessores para essa transformação.

Na visão da Monte Bravo, a disrupção de plataformas abertas que aconteceu entre 2014 e 2018 se deu muito por conta dos profissionais. Agora, a popularização do fee fixo também será. “Não é uma mudança reativa, estamos reestruturando tudo para daqui a três anos sermos a principal casa fee-based para o assessor trabalhar”, afirma o CEO.

Quem também promoveu uma reestruturação interna nesta direção foi a Suno. A empresa surgiu em 2017 inicialmente como uma casa de análise, mas foi expandindo os ecossistemas até abarcar assessoria, consultoria e wealth management (gestão de fortunas). Em fevereiro, unificou tudo no modelo consultivo a taxas fixas.

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A demanda veio dentro de casa. Já há algum tempo, os novos clientes da assessoria Suno já entravam com a cobrança no fee fixo, conta o CEO Gian Kojikovski. “Sempre fomos uma empresa de inteligência, de produto, que inclusive comprou muitas brigas com outras assessorias falando sobre conflito de interesses”, diz. “Unificamos como consultoria, porque entendemos que é o modelo que melhor atende o nosso cliente.” Veja detalhes da nova operação da Suno aqui.

Os desafios (e as críticas)

Número de consultorias de investimento cresce; e veio para ficar, dizem especialistas.

Os negócios que levantaram a bandeira do fee fixo lá atrás agora veem seu modelo ser chancelado com a chegada da concorrência. Mas têm algumas críticas pela forma que essa transição está acontecendo.

Renato Breia, sócio-fundador da Nord Investimentos e responsável pela Nord Wealth, uma das primeiras consultorias para investidores de alta renda, vê a mudança de posicionamento do mercado como o resultado de uma combinação de fatores. O exemplo dos países desenvolvidos, os avanços na regulação, além das polêmicas recentes – como COEs de Ambipar, CDBs do Master e do Will Bank, que deixaram os investidores machucados.

Mas é também uma reação das empresas aos resgates sofridos nos últimos anos, diz. “As casas começaram a ver que estavam perdendo clientes para o modelo. Muita gente montou suas consultorias por isso”, diz Breia.

Há ainda uma outra questão. O timing da migração dos clientes do regime de comissão para o consultivo acontece em um momento em que as carteiras de investimento estão muito concentradas na renda fixa e em ativos bancários.

Na assessoria tradicional, o profissional ganha dinheiro quando um cliente compra um ativo, a chamada comissão “na cabeça”, e quando ele roda a carteira; por exemplo, se convence o investidor a fazer um resgate antecipado de um título, trocar uma posição por outra. Mas, com os juros em dois dígitos, boa parte dos investidores está levando as aplicações até o vencimento.

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A receita dos negócios caiu e migrar essa base para o fee fixo seria uma forma de garantir um rendimento mais previsível mesmo nesse novo cenário. Mas também acabaria onerando o cliente duas vezes pelo mesmo produto.

“Não dá para acreditar que os grandes bancos e corretoras que rodam o modelo comissionado há 30 anos estão fazendo essa transição por uma motivação que não seja financeira. Eles enxergaram no modelo de taxa fixa uma alternativa de recuperar a receita, não um modelo mais alinhado para o cliente”, diz Lucas Taxweiler, assessor CFP na Warren, uma das assessorias pioneiras no fee-based no Brasil.

Para os executivos, esse é um desafio para a nova fase do mercado financeiro brasileiro: provar o valor do modelo consultivo e de taxas fixas para o cliente final. Se as empresas focarem apenas no lado dos negócios, mudando a forma de cobrar, mas não de atender, não vão reter os investidores.

“Quando o modelo migra, o assessor vai ter um trabalho mais ativo e precisa envolver o cliente. Se não, ele não percebe o valor”, explica Lucas Ferraz, CEO da Faz Capital, que também opera no fee-based há anos. “É aí que as consultorias têm errado, porque cobram uma taxa maior e as entregas continuam as mesmas da assessoria. Quem não mudar isso, vai ficar para trás.”

O fee-based é para todo mundo?

Enquanto a transição do mercado ainda está no início, os players tentam fazer a conta fechar. Ou seja, chegar a um meio termo de preço cobrado e patrimônio atendido que consiga fazer o negócio prosperar, escalar, sem perder a qualidade do atendimento.

Não há um consenso sobre a melhor forma de fazer isso. Há quem cobre uma taxa fixa igual para todos os clientes, como há casos em que o fee vai caindo a depender do patrimônio. Tampouco existe uma regra sobre qual tipo de cliente atender. Algumas casas só oferecem a consultoria para quem tem um valor mínimo investido de centenas de milhares ou milhões de reais, enquanto em outras é possível ser atendido no fee-based com qualquer montante.

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Isso abre espaço para uma outra discussão maior, que também vai envolver o investidor. Afinal, muitas oferecem as duas opções e cabe a ele decidir em qual modelo quer ser atendido. E não existe uma resposta única para isso.

A Warren, por exemplo, atende clientes a partir de R$ 100 e só na cobrança fixa. “O modelo comissionado não faz sentido para ninguém. Se o investidor está buscando o serviço de gestão de patrimônio, precisa ser no fee fixo”, diz Lucas Taxweiler.

Gian Kojikovski, da Suno, destaca que é uma falácia dizer que a consultoria não serve para investidores pequenos, como costuma circular no mercado. “O cliente de patrimônio menor obviamente precisa fazer a conta, mas tenho certeza absoluta que faz sentido pagar por uma melhor alocação de produto.”

Se não é uma decisão que passa pelo tamanho da carteira, pode ser sobre o perfil de investidor. Pense em um conservador, com pouco patrimônio, que compra apenas títulos do Tesouro Direto para levar até o vencimento. Ou em alguém que investe em ações para receber dividendos e deseja manter a custódia para o resto da vida. “Não tem porque cobrar um fee fixo sobre isso”, diz Filipe Portella, da Monte Bravo. É por isso que a casa, ainda que aposte no fee-based, não acha que o modelo vai representar 100% da indústria.

Renato Breia, da Nord, destaca que a discussão do mercado vem sendo pautada por preço; se o modelo for mais barato, é melhor. Mas a resposta não é tão simples. “Depende muito. Você precisa de um profissional para te ajudar a construir o seu patrimônio? Essa é a pergunta que precisa ser feita”, diz.

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