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Como nasceu o jogo de The Boys feito por um estúdio brasileiro? Confira entrevista

Com quase nove anos de existência, a ARVORE – estúdio brasileiro de jogos vencedor do Emmy – está prestes a dar um dos passos mais ambiciosos da sua trajetória: transformar o universo violento de The Boys em uma experiência interativa em realidade virtual. 

Em entrevista ao Voxel, o diretor Ricardo Laganaro revelou detalhes do desenvolvimento de The Boys: Trigger Warning, explicando como nasceu a parceria com a Sony Pictures, os desafios criativos da adaptação e por que o VR foi a escolha ideal para o projeto.

 

Assumindo o papel de Lucas Costa, o jogador deve se infiltrar para descobrir os segredos da Vought International após uma grande perda na família (causada por Supers). Para isso, o ex-funcionário contará com a ajuda daqueles que juraram destruir os seres mais poderosos da Terra: The Boys.

De protótipo original a The Boys

A história do projeto começa antes mesmo da ideia de adaptar uma franquia famosa. Segundo Laganaro, a ARVORE já mantinha contato com a Sony desde 2017, período em que o mercado de VR ainda estava em formação.

“É um mercado pequeno, então todo mundo acaba se conhecendo”, explica.

 

Durante a pandemia, o estúdio brasileiro começou a experimentar mecânicas de superpoderes em realidade virtual. A ideia inicial era criar uma propriedade original que explorasse o uso do corpo, como braços, cabeça e movimento completo para simular a sensação de ser um super-herói.  

É claro que não poderia faltar o Composto V.



Esse protótipo acabou chamando a atenção da Sony Pictures Television, responsável pelos direitos da série de TV The Boys. “Quando mostramos o conceito, eles falaram: ‘temos The Boys’. E aí tudo mudou.”

“A partir daí, começou um longo processo de negociação que durou cerca de nove meses. O desafio não era apenas adaptar o conceito, mas convencer nomes importantes da série, incluindo o showrunner Eric Kripke, de que o jogo seria digno da franquia".

Construindo uma história dentro do universo da série

Diferente de muitos jogos licenciados, The Boys: Trigger Warning não é apenas um produto derivado, mas faz parte do universo canônico da série. A narrativa foi construída em colaboração direta com roteiristas do próprio seriado, que está prestes a estrear sua quinta e última temporada.

 

O processo começou ainda durante as negociações, com a ARVORE apresentando possíveis premissas. Aos poucos, essas ideias foram refinadas em conjunto com a equipe criativa da produção original. Depois do contrato fechado, o desenvolvimento da história ganhou ritmo profissional: reuniões semanais, validações constantes e acompanhamento próximo dos roteiristas.

Um dos pontos altos foi a participação da roteirista Ellie Monahan, que ajudou a escrever diálogos e garantir que os personagens mantivessem o tom característico da série. “Desde a primeira fala, você reconhece a voz dos personagens”, afirma Laganaro.

 

Atores originais e “imitações perfeitas”

Trazer parte do elenco de The Boys para o jogo foi um dos grandes objetivos do estúdio. Nem todos os atores estavam disponíveis, mas ainda assim, a equipe conseguiu nomes importantes como Laz Alonso, que interpreta o Leitinho, Jensen Ackles como Soldier Boy, Colby Minifie como a CEO Ashley Barrett e P.J. Byrne como o fracassado diretor de cinema, Adam Bourke.

Segundo Laganaro, ter Laz Alonso no jogo foi importante não só pelo peso do personagem, mas também pela carga emocional dentro da trama, que funciona como uma âncora narrativa para o jogador. “A história do nosso jogo é de um pai que perdeu uma filha, é uma história de vingança. E o Leitinho tem a família, ele preza muito isso. Então a gente achava que ele podia ser um um ponto importante de âncora emocional para o jogador".   

 

Leitinho e Billy Bruto.



Já no caso de personagens sem os atores originais, como Billy Bruto, a solução foi investir pesado em fidelidade. Durante meu teste do jogo no escritório do estúdio, tive a certeza de que era Karl Urban na dublagem do personagem – até me avisarem que o ator não participou do jogo, mas sim outra pessoa. Para chegar neste nível de semelhança, o estúdio chegou a contratar o mesmo coach de dialeto que trabalhou com Karl Urban na série.

 

O resultado, segundo o diretor, é uma recriação convincente, algo essencial para manter a imersão.

 

VR como ferramenta narrativa

Um dos pontos mais discutidos em torno do jogo durante os primeiros anúncios foi o fato do jogo ser exclusivo de realidade virtual. Parte do público virou o nariz, porém Ricardo comentou que a equipe já esperava. “Isso sempre acontece. Quem não tem VR acaba se frustrando”, comenta Laganaro.

 

Ainda assim, a escolha pelo formato não foi casual. Para o diretor, o VR permite algo que nenhuma outra plataforma entrega: a sensação real de possuir poderes.

 

Pesadelo no VR: o Homelander chegou!



A proposta do jogo é colocar o jogador dentro da experiência não apenas como espectador, mas como agente ativo dentro daquele mundo. “Ver um trailer e jogar são coisas completamente diferentes.”  

Com um Emmy e um Leão de Veneza no histórico da equipe, Ricardo comenta que isso deu forças para que a ARVORE tomasse um espaço até então, pouco explorado no mercado de games brasileiro: o de realidade virtual. “Quando começamos, lá em 2017, não existia um “nome estabelecido”, não tinha um grande criador referência, não tinha um “Hideo Kojima do VR” ou um “Steven Spielberg do VR”.

“Então a gente olhou para isso como uma oportunidade: por que não ser um desses nomes? Se o mercado ainda está em formação e todo mundo está aprendendo junto, existe espaço para crescer junto com ele".

 

Desde sua fundação, o estúdio rejeita o chamado “complexo de vira-lata” e aposta na ideia de que o Brasil pode ser protagonista em mercados emergentes, então o VR foi visto como essa oportunidade.

“Hoje, a gente sente que não só faz parte desse mercado, mas também ajuda a apontar caminhos para onde essa indústria pode ir — e isso vindo do Brasil", comenta Ricardo. “A expectativa agora é que esse projeto seja só o começo, uma espécie de cartão de visitas para que mais jogos baseados em grandes IPs possam ser desenvolvidos aqui, por estúdios brasileiros, com relevância global".

 

Apesar das críticas iniciais, a recepção da comunidade de VR foi positiva. Segundo Laganaro, esse público é mais exigente, mas também valoriza experiências mais completas, sendo especialmente importante em um mercado que ainda carece de grandes produções baseadas em IPs conhecidos.

 

O futuro: mais do que um experimento

Para a ARVORE, o projeto representa mais do que um jogo — é uma prova de conceito.

A ideia é mostrar que estúdios brasileiros podem liderar projetos globais, trabalhar com grandes IPs e ajudar a definir o futuro de novas plataformas como o VR.

 “A ideia é puxar a bandeira, isso ajuda também a aumentar o reconhecimento lá fora. Acho que a gente vai puxando a indústria junto como um todo. Se o ecossistema for forte, é bom para todo mundo, para a gente ter mais mão de obra, para a gente ter mais força mesmo de negociação". 

Se depender da ambição do time, esse é apenas o primeiro passo de uma jornada maior.

The Boys: Trigger Warning chega em 26 de março no Meta Quest 3 e PSVR 2.   
 

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Crítica: Devoradores de Estrelas, filme com Ryan Gosling, é carta de amor à ciência

Faça o seguinte experimento: numa roda de amigos, pergunte para eles qual o filme de ficção científica com temática espacial favorito de cada um e o porquê. Dependendo da idade das pessoas, cada um terá uma resposta diferente: os mais velhos poderão citar Star Wars e sua influência na cultura pop, outros poderão citar Alien: O Resgate como um equilíbrio entre o terror e a temática espacial. 

Já na lista dos mais novos, Interstellar e sua física levada a sério deve ser escolha da maioria, assim como Gravidade e sua interpretação do ciclo da vida humana. Outro grande título icônico dos tempos recentes é A Chegada, do renomado diretor Denis Villeneuve.

Felizmente, Devoradores de Estrelas também deve entrar nessa lista num futuro próximo. O longa deve ganhar espaço entre os cinéfilos não só como um dos melhores filmes de ficção científica com temática espacial, mas sim como um dos melhores do gênero nos últimos anos. 

Além de seguir à risca o livro em que foi baseado, o longa enaltece não só a ciência como um todo, como também é capaz de inspirar futuras gerações a seguirem carreira na área. Tudo isso com muita emoção, momentos belíssimos e muito amor – por uma pedra extraterrestre.  

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O Projeto Hail Mary

Durante observações noturnas, uma astrônoma descobre uma fina linha que se estende da órbita de Vênus até o Sol. Após estudos, cientistas percebem que nossa estrela está perdendo seu brilho e que a tal “Linha de Petrova” é a culpada, fazendo com que a vida na terra possa ser extinta nos próximos anos

Num esforço internacional, governos do mundo todo se mobilizam para descobrir não só como parar isso, mas também saber porquê somente uma estrela de várias afetadas ao nosso redor não está perdendo seu brilho. Com isso, é criado o Projeto Hail Mary (nome oficial do título em inglês), que tem a seguinte missão: viajar até essa estrela e descobrir o porquê dela não está morrendo. 

Para isso, a humanidade está contando com um professor de ciências do primário, Ryland Grace (Ryan Gosling), que acorda de um coma induzido no meio do espaço, sem lembrança alguma de como chegou até ali. Assim, começa a caçada pelos astrofágicos, que além de serem devoradores de estrelas, também conseguem guardar uma grande quantidade de energia, funcionando como combustível. 

A adaptação das 424 páginas do livro de Andy Weir (Perdido em Marte, Artemis) contém nomes de peso da indústria. Drew Goddard (Cloverfield: O Monstro, Perdido em Marte) assina o roteiro, que possui direção da já conhecida dupla Chris Miller e Phil Lord (Aranhaverso, Tá Chovendo Hambúrguer). 

Como um grande fã do livro, um dos meus maiores medos da versão cinematográfica ficou justamente no que entra e no que sai na adaptação, afinal: nenhuma delas é 100% fiel ao conteúdo original. Felizmente, mais uma vez Drew Goddard provou mais uma vez que é possível condensar um livro sem estragar o livro, com Perdido em Marte já no currículo, também baseado num livro de Weir.

Ryan Gosling: o rei do carisma

A direção de Miller e Lord faz com que você torça para o filme demorar para acabar, mesmo com a duração de 2h36m. A dupla, que tem sucessos como Uma Aventura LEGO, Homem-Aranha no Aranhaverso e Anjos da Lei no currículo, consegue equilibrar bem os momentos de comédia com o peso da responsabilidade do personagem principal durante o filme.

Esse "feeling" ganha mais força graças ao talento canastrão de Ryan Gosling (que nasceu para o papel, uma adaptação extremamente fiel do Grace no livro). Embora o tom de comédia pastelão incomode um pouco no início, vamos descobrindo aos poucos não só quem é Ryland Grace, mas também o porquê dele ter aceitado esta missão suicida.

O ator se entrega de corpo e alma ao projeto, sendo um dos papéis mais carismáticos de Ryan Gosling até então. Alternando entre momentos de pura comédia e picos de depressão, Ryan consegue já transparecer a preocupação de estar sozinho numa missão suicida e o peso dessa decisão. 

Mas logo, o jogo muda: ao ter contato com uma raça alienígena que também tem um sol morrendo, o filme muda de tom ao introduzir Rocky – o Eridiano de pedra dentro da narrativa, transformando o filme numa dramédia de colegas de quarto que não se aguentam, mas se respeitam. E é aqui onde começam a maioria dos acertos.

O primeiro acerto – e talvez o meu favorito até então – é usar a ciência como base para várias escolhas dentro da história. Afinal, como devo me comunicar com um extraterrestre feito de pedra sem sequer entender uma palavra da língua dele?Usando a matemática, a tal “linguagem universal”. 

Juntos, Grace e Rocky utilizam de conceitos fundamentais de física, química e matemática, trazendo o espectador para dentro do problema, querendo também ajudar na solução para que ambos possam salvar seus planetas. A relação de ambos, além de ser muito bem construída, consegue cativar a plateia a ponto de segurar a respiração em um dos momentos mais tensos do filme. Se você, assim como eu, tem um animal de estimação, prepare os lencinhos.

Veja na maior tela possível

Um dos maiores marketings do filme até então envolve a produção, com o uso mínimo de efeitos especiais e a equipe dando preferência para (pasmem), efeitos práticos e cenários reais. Parece bobagem falar, mas isso faz muita diferença, principalmente com a fotografia em ambientes internos. 

Greig Fraser, diretor de fotografia, soube bem usar isso em sua vantagem. Com filmes como Duna, Rogue One e The Batman no currículo, o trabalho dele em conjunto com Lord e Miller consegue te transportar para dentro da história, seja com o jogo de luz e sombra de dentro da nave até as paisagens exuberantes da atmosfera de Adrian, um dos pontos altos do longa.

Essa experiência fica ainda melhor dentro de uma sala IMAX, onde a imensidão do espaço vazio irá te engolir por completo. Devoradores de Estrelas facilmente entra na lista de filmes espaciais mais bonitos já feitos até então, te transportando da sala de cinema diretamente para outro lugar. Assim como o buraco negro de Interstellar e Los Angeles de Blade Runner, o filme também deve virar referência futura dentro do universo de ficção científica.


Uma ode à ciência

O maior trunfo de Devoradores de Estrelas está na beleza da ciência e sua importância para a humanidade. No livro, Weir consegue dosar bem a lógica por trás de cada escolha narrativa, o que Drew conseguiu transpor com maestria para o tempo do filme. 

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Conceitos de relatividade, biologia microbiana, comunicação e linguagem, tudo está ali para gerar um gatilho nas futuras gerações que, com certeza, irão buscar carreira nestas áreas, inspirados pela mensagem do filme. Num mundo onde cada vez mais o ensino está sendo sucateado e a ciência posta a prova de dúvidas, é importante lembrarmos de como é divertido aprender pode salvar vidas (mesmo que você esteja em outro sistema solar). 

A beleza do aprendizado e esperança nas futuras gerações é o que faz Devoradores de Estrelas ser tão belo, afinal… até eu quis me dedicar à educação assim que os créditos começaram a rolar. Um novo clássico da ficção científica nasce, e com ele virá também uma nova leva de pessoas inspiradas para transformar o mundo num lugar melhor.

Devoradores de Estrelas chega em 19 de março nos cinemas brasileiros. A crítica foi produzida após uma sessão antecipada do filme e convite da Sony Pictures Brasil. 

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