A Apple enviou, nesta quinta-feira (13), uma nova rodada de notificações para usuários de 110 países que podem ter sido alvo de ataques com spyware, segundo informações obtidas pelo TechCrunch. A empresa afirma que já notificou clientes em mais de 150 países desde que começou a emitir esse tipo de alerta.
As notificações são destinadas a pessoas que a Apple suspeita de terem sido alvo de softwares espiões capazes de comprometer iPhones, iPads e Macs. Esse tipo de spyware é normalmente associado a operações de vigilância direcionada, incluindo ferramentas utilizadas por governos.
A empresa passou a enviar os avisos diretamente para a tela bloqueada do iPhone, facilitando o acesso às informações sobre o possível ataque e às medidas recomendadas para proteger o dispositivo.
A mensagem exibida pelo sistema diz: “A Apple detectou um ataque de spyware mercenário direcionado ao seu iPhone. Há medidas que você pode tomar agora para proteger seus dados e seu dispositivo.”
Além da notificação na tela, a Apple também envia alertas por e-mail e os apresenta quando o usuário entra em sua conta.
Receber o alerta não significa que o celular foi invadido
Um ponto importante é que a notificação não significa necessariamente que o aparelho tenha sido comprometido com sucesso:
A Apple identifica sinais que indicam que determinado usuário pode ter sido alvo de uma campanha de spyware. Mesmo que a invasão não tenha sido concluída, a empresa recomenda que a pessoa trate o aviso com seriedade e tome medidas imediatas para proteger seus dados;
Entre as recomendações está a ativação do Modo de Bloqueio (Lockdown Mode), recurso de segurança da Apple criado especificamente para dificultar ataques sofisticados e direcionados;
Segundo a companhia, até o momento, ela não registrou um caso em que um dispositivo tenha sido invadido enquanto o Modo de Bloqueio estava ativado;
A notificação também direciona o usuário para orientações sobre como procurar ajuda e proteger seus dispositivos.
Mesmo que a invasão não tenha sido concluída, a Apple recomenda que a pessoa trate o aviso com seriedade e tome medidas imediatas para proteger seus dados – Imagem: Samuel Boivin/Shutterstock
Por que a Apple envia esses avisos?
Ataques com spyware são considerados relativamente raros, mas a tecnologia de vigilância se tornou mais disseminada nos últimos anos.
Ferramentas desse tipo podem ser utilizadas para monitorar pessoas específicas sem que elas percebam e já foram associadas a operações contra jornalistas, ativistas, integrantes da sociedade civil e críticos de governos.
O pesquisador sênior John Scott-Railton, do grupo de pesquisa digital Citizen Lab, foi um dos primeiros a destacar a nova rodada de notificações da Apple. Em entrevista ao TechCrunch, ele classificou a mudança como uma “grande melhoria” na maneira como a companhia alerta possíveis vítimas.
Segundo Scott-Railton, os novos avisos facilitam que pessoas potencialmente atacadas procurem ajuda e adotem medidas para proteger seus dispositivos.
Os alertas da Apple existem desde 2021, mas a empresa vem aprimorando a maneira de comunicar os possíveis alvos.
Apple amplia alcance dos alertas
A nova rodada de notificações mostra também a dimensão global dos ataques com spyware direcionado. A Apple afirma que já enviou alertas para usuários em mais de 150 países desde o início do programa. Somente nesta quinta-feira (13), foram notificadas pessoas em 110 países.
Os ataques costumam envolver ferramentas sofisticadas de espionagem capazes de explorar vulnerabilidades em dispositivos e sistemas operacionais. Em muitos casos, o objetivo é atingir indivíduos específicos, e não realizar uma campanha indiscriminada contra milhões de aparelhos.
Um dos casos que ajudaram a chamar atenção para esse tipo de ameaça envolveu o uso de spyware contra opositores políticos na Polônia, episódio que também foi acompanhado por pesquisadores do Citizen Lab.
Para usuários que recebem uma notificação da Apple, a principal recomendação é não ignorar o aviso. Mesmo que não seja possível confirmar que o aparelho foi efetivamente invadido, a identificação de uma possível tentativa de ataque indica que o usuário pode estar diante de uma ameaça mais sofisticada do que um golpe digital comum.
Além de ativar o Modo de Bloqueio, a Apple orienta os usuários a seguir as recomendações apresentadas na própria notificação e procurar assistência especializada quando necessário.
Spywares são usados por hackers para monitorar as ações dos usuários em busca de dados pessoais e informações bancárias (imagem: Vladimir Fedotov/Unsplash)
O spyware é um malware silencioso projetado para infiltrar-se em dispositivos e monitorar atividades sem qualquer consentimento. O objetivo é o roubo de dados pessoais, senhas e informações bancárias para alimentar fraudes financeiras ou espionagem.
A infecção ocorre geralmente via links maliciosos em mensagens ou downloads de softwares que parecem legítimos, mas são perigosos. Uma vez instalado, ele opera em segundo plano, capturando cada ação da vítima e transmitindo os arquivos sensíveis para servidores remotos.
Existem diversas categorias de app espião, como os keyloggers, infostealers e cavalos de Troia. Versões mais avançadas podem até assumir o controle físico de microfones e câmeras, transformando o aparelho em um rastreador em tempo real.
A seguir, entenda o conceito de spyware, como funciona detalhadamente e os tipos mais comuns. Também saiba como identificar e o que fazer ao ser vítima de um app espião.
Spyware é um software malicioso projetado para infiltrar-se em dispositivos e monitorar atividades sem o consentimento do usuário, coletando credenciais e dados pessoais. Sua finalidade é o roubo de informações para fraude ou espionagem, operando silenciosamente enquanto compromete a privacidade e o desempenho.
Qual é o significado de spyware?
O termo “spyware” é resultado da união das palavras “spy” (espião, em inglês) e “software”, sendo usado pela primeira vez em uma publicação da Usenet em 1995. Originalmente, a palavra descrevia dispositivos de vigilância física antes de ser aplicada no contexto digital.
Em 2000, o termo foi popularizado por Gregor Freund e Steve Gibson para identificar softwares que rastreavam dados e usavam conexões sem consentimento. Essa evolução consolidou a definição moderna de malware voltado ao monitoramento oculto de usuários.
Alguns malwares podem servir como cavalo de troia e conter spywares que rastream as ações do usuário (imagem: Vitor Pádua/Tecnoblog)
Quais são os tipos de spyware?
O spyware abrange diversos softwares espiões que monitoram secretamente e roubam dados do usuário. Estas são as principais categorias:
Adwares: coletam dados de navegação para forçar a exibição de anúncios personalizados e invasivos no sistema. É frequentemente propagado como um componente oculto em softwares gratuitos ou piratas;
Keyloggers: monitoram e registram cada tecla pressionada fisicamente ou virtualmente no dispositivo infectado. São projetados especificamente para interceptar senhas, números de cartões e mensagens privadas;
Monitores de sistema: registram atividades detalhadas do usuário, incluindo capturas de tela, histórico de arquivos e conversas em tempo real. Permitem que o invasor reconstrua toda a rotina digital da vítima;
Infostealers: escaneiam o armazenamento do dispositivo em busca de bancos de dados de navegadores, cookies de sessão e carteiras de criptomoedas. O foco é a exportação imediata de credenciais e ativos digitais para servidores remotos;
Trojans (Cavalos de Troia): infiltram-se no sistema disfarçados de arquivos legítimos para abrir backdoors para outros ataques ou ameaças cibernéticas. Uma vez ativos, facilitam a instalação de outros spywares e o controle remoto do hardware;
Rootkits: operam no núcleo (kernel) do sistema operacional para ocultar a presença de processos maliciosos. Eles garantem que o aplicativo espião permaneça invisível tanto para o usuário quanto para antivírus convencionais;
Cookies de rastreamento (web trackers): identificadores que seguem a atividade do usuário entre diferentes domínios e plataformas na internet. São usados para construir perfis comportamentais profundos sem o consentimento explícito.
Keyloggers são ameaças invisíveis que monitoram tudo que é digitado pelo usuário (imagem: Emerson Alecrim/Tecnoblog)
Como funciona o spyware
O spyware pode infiltrar-se silenciosamente via anexos infectados, sites fraudulentos, softwares “gratuitos” ou redes Wi-Fi desprotegidas. Uma vez ativo, ele opera em segundo plano, garantindo privilégios de administrador para monitorar o sistema sem levantar suspeitas.
A ameaça cibernética captura dados sensíveis em tempo real, como senhas digitadas, históricos de navegação e capturas de tela contínuas. Essas informações são compactadas e transmitidas para servidores remotos, permitindo que criminosos explorem identidades e contas financeiras.
Para evitar a detecção, o aplicativo espião camufla-se como um processo legítimo do sistema operacional para dificultar a identificação por usuários leigos. Ele altera registros profundos para ser executado automaticamente a cada inicialização, resistindo a tentativas superficiais de desinstalação ou limpeza.
Além da espionagem, o spyware consome recursos de processamento, tornando o dispositivo lento e instável ao abrir brechas para outros ataques. Versões avançadas podem até assumir o controle físico de periféricos, transformando microfones e câmeras em ferramentas de vigilância ativa.
Como funciona um spyware (imagem: Reprodução/Keepnet)
É possível identificar um spyware?
Sim, dá para identificar um spyware por meio de uma combinação de ferramentas e análise comportamental do dispositivo. Estes são alguns métodos para verificar se o smartphone ou computador não está sendo vítima de crimes cibernéticos:
Desempenho fora do padrão: lentidão súbita, superaquecimento sem uso intenso e consumo excessivo de bateria ou dados costumam indicar processos ocultos em execução;
Comportamento de rede: picos de tráfego em horários de ociosidade e conexões com IPs desconhecidos sugerem que informações estão sendo enviadas a servidores externos;
Varreduras de segurança: antivírus modernos usam análise comportamental para identificar ameaças inéditas que ainda não possuem uma assinatura digital registrada em bancos de dados;
Auditoria de permissões: aplicativos que solicitam acesso desnecessário à câmera, microfone ou acessibilidade podem estar agindo como vetores de espionagem silenciosa;
Monitoramento de processos: ferramentas como Gerenciador de Tarefas revelam softwares que se camuflam com nomes de sistema para consumir CPU e memória;
Verificação de integridade: mudanças não autorizadas no DNS, na página inicial do navegador ou a presença de novos certificados de segurança indicam invasões de nível root.
O que fazer se eu localizar um spyware no meu dispositivo?
Ao identificar um app espião, é importante agir rápido e seguir os seguintes passos para proteger os dispositivos e os dados:
Isole o dispositivo: corte imediatamente conexões Wi-Fi e dados móveis para interromper o envio de informações em tempo real para os servidores do invasor;
Entre em Modo Seguro: reinicie o dispositivo em Modo Seguro para impedir que o app espião inicie automaticamente, facilitando a identificação e remoção de apps suspeitos;
Faça uma varredura profunda: use um antivírus confiável para escanear o armazenamento, movendo ameaças detectadas para quarentena e deletando arquivos maliciosos;
Redefina suas senhas: altere todas as credenciais de contas bancárias e e-mails usando um dispositivo seguro, ativando obrigatoriamente a autenticação de dois fatores (2FA);
Atualize o ecossistema: instale todos os patches pendentes do sistema operacional e de aplicativos para corrigir as vulnerabilidades que permitiram a invasão inicial;
Restaure o padrão de fábrica: use o reset total de fábrica somente como medida definitiva para eliminar ameaças cibernéticas persistentes que se escondem em pastas protegidas do sistema.
Formalize a ocorrência:registre um boletim de ocorrência online para se resguardar legalmente contra o uso indevido de sua identidade e dados roubados pelos criminosos.
Fazer varreduras com antivírus podem ajudar a encontrar ameaças que estão monitorando o dispositivo (imagem: Lucas Braga/Tecnoblog)
Como se proteger contra spywares
Estas são algumas práticas que auxiliam na proteção contra aplicativos espiões:
Instale antivírus e antispyware confiáveis: use soluções de segurança que ofereçam proteção em tempo real e varreduras automáticas para detectar ameaças antes que se instalem;
Mantenha o sistema e apps atualizados: verifique regularmente as atualizações do sistema operacional e aplicativos para corrigir vulnerabilidades que servem de porta de entrada para invasores;
Ative a autenticação de dois fatores (2FA): proteja suas contas com camadas extras de verificação, impedindo o acesso indevido mesmo que as senhas principais sejam interceptadas;
Gerencie permissões e extensões do navegador: remova extensões desnecessárias e ajuste as configurações de privacidade para bloquear rastreadores e a coleta de dados de navegação;
Habilite o bloqueio de janelas pop-ups: configure o navegador para impedir anúncios intrusivos que podem executar downloads automáticos sem a autorização;
Priorize fontes de download oficiais: baixe aplicativos apenas em lojas oficiais ou sites de desenvolvedores verificados, evitando anexos de e-mails desconhecidos e links encurtados.
Qual é a diferença entre spyware e malware?
Spyware é um tipo específico de malware projetado exclusivamente para monitorar e coletar dados sensíveis, como senhas e hábitos de navegação. Sua principal característica é a operação silenciosa, focada no roubo de informações para fins de espionagem ou fraude financeira.
Malware é um termo genérico para qualquer software malicioso desenvolvido para infiltrar, danificar ou explorar sistemas, redes e dispositivos sem permissão. Ele engloba diversas ameaças, como vírus e ransomware, que se espalham por vulnerabilidades para causar destruição direta ou sequestro de dados.
Qual é a diferença entre spyware e stalkerware?
Spyware é um software malicioso infiltrado para coletar dados sensíveis, como senhas e informações bancárias, visando o lucro financeiro ou espionagem. Ele opera de forma oculta, sendo disseminado por meio de links corrompidos ou downloads de arquivos infectados para atingir o maior número de vítimas.
Stalkerware é uma variante invasiva instalada intencionalmente por alguém com acesso físico ao dispositivo para monitorar mensagens, localização e chamadas de uma vítima específica. Diferente de outras ameaças, ele é frequentemente comercializado como “aplicativo de controle parental” para camuflar o assédio e o controle interpessoal.
S24 está entre os aparelhos impactados (foto: Thássius Veloso/Tecnoblog)Resumo
O spyware Landfall explorou uma falha zero-day em celulares Galaxy, permitindo invasão via imagem maliciosa em apps de mensagens.
O ataque, focado no Oriente Médio, visou modelos Galaxy S22, S23, S24 e da linha Z, afetando usuários em países como Marrocos, Irã, Iraque e Turquia.
A vulnerabilidade CVE-2025-21042 foi corrigida em abril de 2025, e o Landfall tinha semelhanças com ataques do grupo Stealth Falcon.
Pesquisadores da Palo Alto Networks revelaram uma campanha de espionagem digital que teve como alvo celulares da linha Galaxy, da Samsung. O ataque, que durou quase um ano, explorou uma vulnerabilidade até então desconhecida pela empresa sul-coreana – o que a classifica como uma falha zero-day.
Batizado de Landfall, o spyware foi descoberto em julho de 2024 e se aproveitava de uma brecha no Android da Samsung. Ela permitia que hackers invadissem os dispositivos por meio do envio de uma imagem maliciosa, geralmente compartilhada por aplicativos de mensagens, sem que o usuário precisasse realizar qualquer ação.
Quem são os afetados?
De acordo com o relatório da Unit 42, divisão de cibersegurança da Palo Alto Networks, o spyware tinha alcance limitado e mirava alvos específicos – o que sugere uma operação de espionagem, e não uma disseminação em massa. Os indícios apontam que as vítimas estavam concentradas no Oriente Médio, incluindo usuários em países como Marrocos, Irã, Iraque e Turquia.
Um dos endereços IP associados ao malware chegou a ser classificado como malicioso pela equipe nacional de resposta cibernética da Turquia (USOM), reforçando a hipótese de que cidadãos turcos estavam entre os alvos. A vulnerabilidade usada, registrada como CVE-2025-21042, foi corrigida pela Samsung em abril de 2025 — meses após o início dos ataques.
O pesquisador sênior Itay Cohen, da Unit 42, explicou que o caso “foi um ataque de precisão contra indivíduos específicos”, e não uma campanha de disseminação de malware em larga escala.
O que o spyware fazia?
O Landfall tinha acesso amplo aos dados dos dispositivos comprometidos, podendo extrair fotos, mensagens, contatos e registros de chamadas, além de ativar o microfone e rastrear a localização das vítimas.
A análise do código revelou que o malware citava especificamente modelos como Galaxy S22, S23, S24 e alguns da linha Z, embora especialistas acreditem que outros aparelhos com Android 13 a 15 também tenham sido afetados.
O relatório também identificou semelhanças entre a infraestrutura digital usada pelo Landfall e a de um grupo conhecido como Stealth Falcon, vinculado a ataques anteriores contra jornalistas e ativistas nos Emirados Árabes Unidos. Ainda assim, os pesquisadores afirmam que não há provas suficientes para atribuir o caso a um governo ou fornecedor de vigilância específicos.