A Natura (NATU3) reverteu lucro e registrou prejuízo de R$ 444,5 milhões no primeiro trimestre, para, em um cenário que a administração defendeu como “desafiador”.
Entre as razões para a baixa, está uma demora maior que a esperada em retomar o crescimento da marca Natura no Brasil. A marca enfrenta uma queda de consumo no país diante do aumento do endividamento das famílias.
“O consumo da categoria de beleza vinha de um momento muito exuberante há um ano atrás, e, como noticiamos em outras ocasiões, esse consumo freou e está crescendo muito pouco em volume. É algo que me preocupa”, afirmou João Paulo Ferreira, CEO da Natura, em coletiva com jornalistas nesta terça-feira (12) para comentar os resultados da varejista.
Sem crescimento de mercado garantido, a estratégia da Natura passa a depender de ganhos sobre os concorrentes.
“Se o mercado cresce pouco em volume, a gente precisa buscar espaços para ganhar mais da concorrência”, afirmou Ferreira, destacando que a companhia está mapeando categorias e regiões onde pode ser mais competitiva.
O Nordeste aparece como uma das prioridades depois de aparecer como região de maior vulnerabilidade no trimestre, com queda no tamanho e na produtividade da rede de consultoras na região.
“O Nordeste é uma região muito importante para nós e precisamos adaptar nosso sortimento de produtos ao perfil do consumidor nordestino”, disse.
Entre os produtos, Ferreira mencionou o body splash como um exemplo de onde a companhia pode ganhar espaço. “[É uma opção] que vem se destacando possivelmente como uma reação ao poder de consumo mais limitado e ao desejo de consumir perfumaria”, afirmou.
Do lado das despesas, a Natura está mais perto de finalizar os custos de seu processo de reestruturação após a companhia abandonar a ambição global e reforçar o foco na América Latina – incluindo a fusão de estruturas administrativas da Natura e da Avon na região.
O processo de reestruturação foi o principal detrator do resultado da empresa no trimestre. A rentabilidade ficou em 7,3%, mas a CFO Sílvia Vilas Boas ressaltou que as despesas não recorrentes de 4,7 pontos percentuais distorcem o número. Sem os efeitos associados à reestruturação, o indicador teria sido de 12%.
Com 75% da reorganização já concluída – e a maior parte das rescisões contabilizadas no primeiro trimestre –, a expectativa da companhia é que os benefícios da reestruturação apareçam de forma mais expressiva a partir do segundo trimestre, com uma curva significativamente menor de custos não recorrentes.
A Natura aposta também na implementação do novo modelo operacional como estratégia de eficiência. “Decidimos antecipar a implementação do novo modelo para que estivéssemos com a estrutura mais leve para enfrentar o cenário macroeconômico”, afirmou a CFO a jornalistas.
“O balanço que nós vamos ter durante o ano é de muito controle de despesa, capturando os benefícios da reorganização, mas sem deixar de investir em alavancas que vão suportar essa retomada do crescimento”, disse.
A MRV Incorporação, principal negócio do conglomerado MRV&Co, registrou um lucro líquido ajustado de R$ 132,8 milhões no primeiro trimestre de 2026 — resultado 7,4 vezes maior na comparação anual.
No entanto, a margem bruta – um dos indicadores mais acompanhados pelo mercado por sinalizar a rentabilidade futura da companhia e seu ritmo de recuperação – ficou estável em 31% na comparação trimestral, apesar da melhora de 3,7 pontos percentuais na comparação anual.
Esta foi a primeira interrupção do ciclo de alta da margem desde o segundo trimestre de 2022. O indicador é observado como termômetro central da tese de recuperação da MRV, que passou por um processo de turnaround após a explosão dos custos de construção no pós-pandemia.
Ricardo Paixão, CFO da MRV, reforçou que o cenário atual não é uma virada na tendência de bons resultados da companhia.
“Foi um ponto fora da curva”, afirmou em entrevista à Bloomberg Línea. “Olhando para frente, não vejo porque não possamos ter uma melhora similar ao ritmo anterior.”
O que segurou a expansão de margem foi a deterioração das expectativas com a inflação de custos, causada pela guerra entre Estados Unidos e Irã no Oriente Médio.
Com a alta dos preços do petróleo e insumos do setor de construção, a MRV decidiu revisar de forma conservadora suas projeções de inflação, elevando em dois pontos percentuais a estimativa de custo sobre os empreendimentos já lançados. O efeito prático é um aumento no custo ainda a incorrer nas obras em andamento.
O CFO afirmou ainda que o efeito da inflação deve ser parcialmente compensado pelas mudanças recentes no programa Minha Casa Minha Vida. No final de abril, o governo promoveu uma correção nas faixas de renda e nos parâmetros do programa, ampliando a capacidade de pagamento dos clientes em todas as faixas — da 1 à 4.
A atualização eleva o poder de compra dos usuários do programa e abre espaço para reajuste de preços por parte das incorporadoras, funcionando como uma válvula de alívio para a pressão de custos.
Segundo Paixão, a medida deve aparecer melhor nos resultados do segundo trimestre. “Os novos parâmetros do MCMV nos permitem tentar compensar, em parte, esse aumento potencial de inflação. Mas ainda não vimos efetivamente essa inflação acontecer, são projeções”, afirmou.
Prejuízo no consolidado da MRV&Co
Já a MRV&Co, grupo que reúne a MRV, Urba, Luggo e Resia, encerrou o primeiro trimestre de 2026 com prejuízo líquido ajustado de R$ 14,4 milhões.
O balanço do conglomerado segue impactado negativamente pela subsidiária americana Resia que, sozinha, registrou um prejuízo de R$ 120 milhões. O resultado reverteu lucro de R$ 116,5 milhões no quarto trimestre de 2025 e também ficou 94,5% abaixo do montante alcançado no mesmo período do ano anterior.
A subsidiária norte-americana registrou a venda de um ativo por valor inferior ao contabilizado no balanço, ampliando o prejuízo da operação.
O plano de desinvestimento, no entanto, segue em curso: a companhia projeta concluir vendas relevantes de propriedades até o fim de 2026, o que deve reduzir progressivamente a alavancagem e a despesa financeira da unidade.
Apesar da pressão já esperada da Resia, a MRV também teve os resultados afetados por outro fator: o descasamento entre produção e repasses no trimestre. A MRV produziu em média 3.200 unidades por mês contra apenas 2.700 repassadas – um gap de 1.500 unidades que pressionou a geração de caixa e o reconhecimento de receita.
O CFO destacou que mais de 40% das vendas do primeiro trimestre se concentraram em março, impedindo que essas unidades fossem reconhecidas a tempo no resultado do primeiro trimestre. A expectativa é que o descompasso beneficie os resultados do próximo trimestre.
“Certamente no segundo trimestre teremos crescimento maior de receitas e de vendas. Vamos voltar pra aquela trajetória de resultado ainda mais forte”, disse.
A receita líquida consolidada da companhia somou R$ 2,776 bilhões no período, alta de 21,6% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior. As despesas operacionais consolidadas, por sua vez, totalizaram R$ 444,5 milhões, avanço de 6,5% na comparação anual.
MRV Incorporação, principal negócio do conglomerado MRV&Co, registrou um lucro líquido ajustado de R$ 132,8 milhões no primeiro trimestre de 2026. (Foto: Victor Moriyama/Bloomberg)
A busca de investidores globais por ativos fora dos Estados Unidos, os conflitos geopolíticos e a dinâmica das taxas de juros são alguns dos fatores que têm feito o dólar perder valor frente a outras moedas globais, principalmente o real, no último ano.
Para Artur Wichmann, Chief Investment Officer (CIO) da XP Investimentos, é possível que essas forças continuem exercendo influência negativa sobre a moeda americana, mas isso não significa que o dólar deixará de perder o status de moeda de reserva do mundo.
Na visão de Wichmann, os dois fenômenos podem coexistir, especialmente em um cenário no qual outras moedas, como o euro europeu e o renminbi chinês não têm força para ocupar o lugar que a divisa americana tem hoje nos mercados.
“É possível ter um dólar mais fraco estruturalmente enquanto essa moeda continua sendo o padrão de reserva de valor no mundo”, afirmou Wichmann em entrevista à Bloomberg Línea. “O dólar ganha por W.O. Não tem quem substitua.”
A China avança em esforços para fortalecer o renminbi como moeda de referência em sua zona de influência, mas o caminho ainda é longo. Barreiras de conversibilidade e desconfiança institucional limitam o alcance dessa ambição no horizonte relevante para investidores.
Uma transição nos moldes do que ocorreu após a Segunda Guerra Mundial, quando o dólar substituiu a libra esterlina como padrão global, ainda está fora do radar.
E é justamente esse papel insubstituível do dólar que, na avaliação de Wichmann, impede que o enfraquecimento da moeda ocorra de forma abrupta.
“De janeiro a julho de 2025, tivemos o pior início de ano do dólar desde que o Nixon tirou o dólar do padrão ouro. O dólar perdeu 11% contra uma cesta relevante de moedas. É um movimento pontual, que se ocorre com maior frequência levaria o mundo a uma crise”, disse.
Outro ponto que pode fazer o dólar perder valor de forma mais prolongada ao longo do tempo é a ambiguidade entre a narrativa e a prática na política americana.
Os Estados Unidos mantêm o discurso oficial de defesa de um dólar forte, mas Wichmann avalia que uma parte relevante do próprio governo Trump prefere o cenário oposto, já que um dólar mais fraco ajudaria a corrigir déficits comerciais e ajudaria a indústria americana a ganhar competitividade – objetivos centrais da agenda tarifária de Trump.
Brasil larga na frente
Nesse cenário, o Brasil tem se destacado. A combinação de um dólar global mais fraco com a posição do país como exportador líquido de commodities – petróleo, minério de ferro e agrícolas – coloca o Brasil entre os beneficiários da nova dinâmica global, na avaliação de Wichmann.
O resultado aparece no câmbio. “O Brasil talvez seja o ganhador relativo do conflito no Oriente Médio. Se no ano passado o real foi bem dentro de um conjunto de emergentes que também tiveram boa performance, agora ele começa a se destacar”, defendeu o CIO.
Existe, no entanto, o contraponto da dinâmica, que é a alta da inflação. Com o petróleo acima de US$ 100 o barril, as projeções de IPCA subiram e comprimiram o espaço do Banco Central para cortar juros.
Wichmann reconhece o risco, mas não o vê como suficiente para inverter o saldo positivo do país – ao menos no cenário-base. Outros emergentes, como Coreia do Sul e Vietnã, enfrentam o mesmo choque inflacionário sem a contrapartida das exportações de commodities.
É possível ainda que fatores internos comecem a ter maior impacto na dinâmica cambial conforme se aproximem as eleições presidenciais de 2026.
Segundo o CIO, o capital estrangeiro que hoje entra no Brasil sem grandes questionamentos deve começar a precificar as propostas econômicas dos candidatos nos próximos meses.
“O investidor estrangeiro quer saber de apenas uma coisa: qual é a trajetória da dívida sobre o PIB”, resumiu. A resposta a essa pergunta deve determinar o próximo grande movimento do real, especialmente no caso da oposição, cuja plataforma ainda não está clara".
Wichmann avalia ainda que o impacto eleitoral sobre o câmbio tende a se intensificar apenas após a Copa do Mundo, quando a atenção da população e dos mercados deve se voltar de forma mais consistente para o debate político.
“É pouco provável assumir que o real vai ser influenciado apenas por fatores globais em um ano de eleição presidencial”, disse.
Transição nos moldes do que ocorreu após a Segunda Guerra Mundial, quando o dólar substituiu a libra esterlina como padrão global, ainda está fora do radar. (Foto: Dimas Ardian/Bloomberg)
O Bradesco (BBDC4) entregou um lucro líquido de R$ 6,8 bilhões no primeiro trimestre de 2026, alta de 16% na comparação anual e acima do esperado pelo mercado. Ainda assim, a apresentação de resultados desta quinta-feira (7) foi marcada por uma mensagem de cautela: o banco sinalizou que adotará um viés mais conservador no crédito diante da deterioração do cenário macroeconômico – sem, no entanto, abrir mão do crescimento.
“O viés mais conservador não significa puxar o freio de mão, parar de ofertar”, afirmou o CEO Marcelo Noronha a jornalistas. “Continuamos com tração forte [nas modalidades] que têm bons ratings e boas modalidades de garantia.”
A inadimplência longa, acima de 90 dias, avançou seis pontos-base no trimestre, para 4,19%, movimento que o banco classificou como dentro do esperado. Noronha disse não esperar uma deterioração da inadimplência do Bradesco, ainda que seja uma preocupação da indústria como um todo para os próximos meses.
“O cenário macroeconômico está, sim, mais desafiador, mas não vejo grandes oscilações no nosso indicador. Podemos ter alguma flutuação no indicador de micro, pequenas e médias empresas, mas, no conjunto da obra, não [esperamos deterioração]”, disse.
O banco reforçou o guidance para avanço da carteira de crédito no ano, entre 8,5% e 10%. No trimestre, a carteira somou R$ 1,090 trilhão no trimestre – avanço de 8,4% em 12 meses.
Na avaliação de Noronha, o momento atual é diferente do ciclo de alta da inadimplência que o Bradesco enfrentou no pós-pandemia, quando o banco foi um dos mais afetados do setor por sua elevada exposição à baixa renda.
Desde então, o Bradesco reorganizou sua área de crédito, ampliou o uso de modelos estatísticos e machine learning, e deslocou sua carteira para linhas com mais garantias.
“Optamos por reordenar a unidade de negócios de crédito, criamos uma área de gestão de portfólio, incrementamos muito o uso de tecnologia e melhorou muito o nosso modelo”, disse o executivo. “Hoje temos um portfólio muito mais saudável.”
Atualmente cerca de 61% da carteira total do banco está lastreada em garantias; na área de pessoa física, esse percentual sobe para 70%.
O Bradesco também acelerou a ofensiva no público de alta renda nos últimos anos. No primeiro trimestre, o banco reforçou a oferta dentro da própria base, e fez o upgrade de mais de 500 mil clientes para os segmentos Prime e Principal — e projeta encerrar 2026 com cerca 820 mil clientes no segundo grupo.
“Estamos melhorando a nossa proposta de valor para ter um maior nível de relacionamento e, naturalmente, a fidelização desse cliente”, disse.
As ações preferenciais do Bradesco (BBDC4) operavam em queda de 3,68% por volta das 11h50, em momento em que o Ibovespa recuava 1,88%.
Marcelo Noronha disse não esperar uma deterioração da inadimplência do Bradesco, ainda que seja uma preocupação da indústria como um todo para os próximos meses (foto: Victor J. Blue/Bloomberg)
O Bradesco (BBDC4) apresentou nesta quarta-feira (6) um resultado acima das expectativas do mercado para o primeiro trimestre de 2026. O banco somou lucro líquido recorrente de R$ 6,811 bilhões no período, acima dos R$ 6,652 bilhões esperados pelo consenso Bloomberg.
O resultado representa um avanço de 16,1% em base anual e de 4,5% contra o quarto trimestre do ano passado.
Já o retorno sobre o patrimônio líquido médio (ROAE), principal indicador de rentabilidade do banco, ficou em 15,8% – alta de 1,4 pontos percentuais (p.p.) em relação ao mesmo período do ano anterior e de 0,6 p.p. frente ao último trimestre.
“O Bradesco entrega o nono trimestre seguido de aumento do lucro líquido, expansão do ROAE e execução consistente do plano de transformação”, informou o banco em nota divulgada à imprensa.
O banco informou que as receitas cresceram 14% na comparação anual e foram o principal motivo para a melhora da rentabilidade no período. “O ano começou em ritmo acelerado para o Bradesco, com bom desempenho das nossas receitas”, afirmou a nota.
Cautela no crédito
A carteira de crédito do banco também avançou e somou R$ 1,090 trilhão – avanço de 8,4% na comparação com o mesmo período do ano passado e leve alta de 0,1% em três meses.
E embora a inadimplência esteja controlada, o Bradesco indicou um período mais desafiador à frente. O indicador de inadimplência longa, acima de 90 dias, subiu 0,1% na comparação trimestral, para 4,2%, impactado pelo segmento de pequenas e médias empresas.
O banco também sinalizou preocupação com o segmento de agronegócio, que está sendo um ponto de preocupação no setor desde o ano passado. Houve piora no portfólio de crédito rural de operações antigas para pessoas físicas e jurídicas.
“Nosso apetite ao risco continua moderado, com viés para mais conservador, em função do acompanhamento dos indicadores de mercado sobre inadimplência, que apresentaram certa degradação, em particular no agronegócio e em algumas modalidades”, informou a nota.
As ações do Bradesco (BBDC4) sobem 5,76% no acumulado do ano, contra uma alta de 16,33% do Ibovespa no mesmo período.
Retorno sobre o patrimônio líquido médio (ROAE), principal indicador de rentabilidade do banco, ficou em 15,8% – alta de 1,4 pontos percentuais (p.p.) em relação ao mesmo período do ano anterior (Foto: Lucas Landau/Bloomberg)
Após uma sequência de cinco anos de resultados trimestrais recordes quase ininterruptos, o Itaú Unibanco (ITUB4) registrou lucro estável no primeiro trimestre de 2026. Os R$ 12,3 bilhões alcançados na última linha do balanço ficaram 0,3% abaixo do resultado anterior, reflexo de efeito sazonal e da distribuição antecipada de dividendos.
Milton Maluhy Filho, CEO do banco, reforçou que a rentabilidade do trimestre se manteve nas máximas e que não projeta redução no apetite para o crescimento nos próximos meses – mesmo em um cenário mais cauteloso com o aumento da inadimplência no mercado brasileiro diante de juros altos.
“Mesmo com todos os desafios, a gente continua defendendo o guidance de crescimento de carteira e de custo do crédito, que mostra, de novo, a nossa capacidade preditiva de simular eventos olhando para frente", afirmou o executivo a jornalistas durante a entrevista nesta quarta-feira (6) para comentar os resultados.
O Itaú manteve inalteradas as projeções para 2026, que preveem crescimento da carteira de crédito total entre 5,5% e 9,5%, e custo do crédito entre R$ 38,5 bilhões e R$ 43,5 bilhões.
Um dos pilares que sustentam o apetite de crédito do banco é o foco nos chamados “clientes-alvo”. A instituição é conhecida por ser líder nos segmentos de média e alta renda, que foram especialmente resilientes no pós-pandemia.
Maluhy afirma, no entanto, que a estratégia abarca também outras faixas de renda, desde que se encaixem nos critérios de avaliação. O objetivo é concentrar sua originação em clientes considerados resilientes ao longo de diferentes ciclos econômicos, avaliados não apenas pela renda, mas por modelos que testam seu comportamento financeiro em cenários de estresse ao invés de expandir o crédito de forma ampla.
Hoje, mais de 80% da carteira de crédito do banco está alocada nesses clientes. Nas novas concessões, esse percentual chega a quase 100%.
O Itaú defende que esse segmento de clientes está mais protegido da inadimplência que os demais. Para demonstrar o ponto a investidores, o banco realizou um estudo em sua base analisando o endividamento das famílias brasileiras excluindo o crédito imobiliário.
Partindo de uma base 100 em dezembro de 2019, o endividamento total das famílias subiu para 123 em janeiro de 2026, enquanto o endividamento dos clientes-alvo do Itaú foi a apenas 105 no mesmo período. Considerando toda a carteira do banco, o índice chegou a 106, também abaixo da média do setor.
A diferença aparece também na comparação da inadimplência longa, com atrasos acima de 90 dias. No crédito pessoal, a inadimplência do Itaú ficou em 5,1%, ante 9,3% do mercado. No cartão de crédito, 5,1% contra 10,2% do setor. Em veículos, 3,5% frente a 6,2%; e no consignado privado, 4,2% contra 7,1% do mercado.
“De fato, focamos em clientes-alvo e saímos de públicos menos resilientes ao longo dos ciclos. Quando olhamos o resultado num ciclo mais longo, claramente foi uma estratégia vencedora”, disse Maluhy Filho.
“[Projetamos ainda] muita evolução em modelagem, inteligência artificial generativa. Com isso, vamos conseguir mais hiper personalizar ainda mais os limites e ter performances ainda melhores”, afirmou.
O banco também aproveitou para reafirmar sua posição relativamente confortável no crédito agrícola, setor que tem pressionado outros bancos com recuperações judiciais.
O Itaú detém cerca de 20% de participação de mercado no agro, mas apenas 4% do total de recuperações judiciais do setor. A carteira de produtores rurais conta com alienação fiduciária em 78% dos casos, o que a coloca fora do alcance dos processos de recuperação judicial.
Maluhy Filho não revelou quais culturas ou geografias o banco evita, mas confirmou que o Itaú ficou de fora de algumas regiões consideradas mais voláteis por questões climáticas.
A carteira de crédito total alcançou R$ 1,483 trilhão, com crescimento de 1,2% no trimestre excluindo variação cambial — e de 9% em 12 meses. O consignado privado foi o destaque, com alta de 63% anual, e os programas governamentais para PMEs cresceram 52% no período.
Milton Maluhy Filho, CEO do banco, reforçou que a rentabilidade do trimestre se manteve nas máximas e que não projeta redução no apetite para o crescimento nos próximos meses. (Foto: Tuane Fernandes/Bloomberg)
O lucro da construtora Tenda (TEND3) mais que dobrou em seu balanço do primeiro trimestre deste ano, alcançando um saldo de R$ 183,4 milhões – 44% acima do consenso Bloomberg News.
Segundo a empresa, o resultado consolida o processo de turnaround após a turbulência enfrentada no pós-pandemia – e blinda a construtora do maior temor atual no mercado imobiliário: a pressão de custos de materiais diante da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã.
O conflito começou no final de fevereiro, e o mais recente alerta veio na divulgação do Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) de abril. O indicador registrou forte aceleração no último mês, subindo 1,04%, acima dos 0,36% observados em março.
Luiz Mauricio Garcia, CFO da Tenda, disse que a empresa está “blindada” contra a inflação de custos da guerra, cenário oposto do que aconteceu a partir de 2021, quando o avanço do INCC foi um dos detratores do resultado da Tenda.
A construtora sofreu com a alta dos preços de materiais causada pelo lockdown e enfrentou compressão de margens. Além disso, acelerou lançamentos antes e durante a pandemia e acabou enfrentando dificuldades operacionais.
O CFO defende que a companhia fez o dever de casa e atualmente está bem posicionada para enfrentar o novo desafio – e, desta vez, sem solavancos.
“Estamos em nosso melhor momento na qualidade de execução. Isso ajuda a explicar o resultado acima do esperado alcançado neste trimestre e também porque estamos protegidos nesse cenário atual de aumento de custos com o conflito no Oriente Médio”, afirmou Garcia em entrevista à Bloomberg Línea.
O executivo vê o avanço da eficiência como resultado da aposta da Tenda em um modelo construtivo industrial, com uso de formas de alumínio, que encurta os prazos de construção e diminui a exposição da empresa à inflação de custos.
O ciclo de obra ficou mais curto nos últimos anos: o prazo total de obra caiu de 30 para 18 meses de 2020 para cá.
A melhora no resultado veio também após uma combinação de reformas nos processos de orçamento, governança e controle de custos.
A Tenda tem apostado no reajuste antecipado de preços (já executado em 7% a 8% no início do ano), em sua estrutura da carteira de recebíveis, que corrige pelo INCC na fase pré-chaves e pelo IPCA na fase pós-chaves, e no conservadorismo nas provisões.
Hoje, 11% do total do “a gastar” em obras está provisionado para inflação e eventuais, contra zero em 2020.
No cenário mais conservador simulado pela companhia, de INCC a 10% no ano e correção dos recebíveis limitada a 5%, o impacto no lucro de 2026 seria de R$ 20 milhões. É um impacto considerado marginal diante do guidance para o ano, entre R$ 500 milhões e R$ 600 milhões.
“Estamos com uma obra muito eficiente e isso ajuda a entender como alcançamos esse resultado mesmo sem ter sido uma empresa que surfou na onda das faixas mais altas [do programa Minha Casa Minha Vida], que foi o grande impulsionador para muitas empresas nos resultados recentes”, disse.
A Tenda hoje tem 43% das vendas contabilizadas para a faixa 1 do MCMV, a mais baixa do programa, que atende o público de renda de até R$ 2.850 por mês.
A longo prazo, a companhia projeta uma distribuição mais similar entre as três principais faixas do programa, o que deve aumentar ainda mais em resultados com o aumento da penetração nas camadas mais altas do MCMV.
Outro ponto de atenção para os resultados da Tenda vinha sendo sua subsidiária Alea, grande queimadora de caixa. No trimestre, o segmento consumiu R$ 14,9 milhões – redução de 55% frente ao primeiro trimestre do ano passado.
Se mantiver a tendência, a companhia vai ficar abaixo do piso do guidance anual de queima entre R$ 60 a R$ 80 milhões para a Alea. A companhia encerrou o trimestre com apenas 13 canteiros ativos na subsidiária, frente a 33 no auge.
“A redução de queima de caixa era uma premissa importante para mostrar a estabilização da Alea, e alcançamos uma melhora substancial nesse trimestre”, afirmou o CFO.
Enquanto isso, a marca Tenda seguiu em tendência de aceleração. As vendas líquidas atingiram R$ 1,43 bilhão no trimestre – recorde histórico excluindo o programa Pode Entrar – com velocidade de vendas (VSO) de 26,9%.
O banco de terrenos consolidado chegou a R$ 29 bilhões em VGV potencial, crescimento de 24% na base anual.
A margem bruta ajustada do segmento Tenda foi de 38,5%, evolução de 1,8 ponto percentual frente ao primeiro trimestre do ano passado.
Já o EBITDA ajustado do segmento foi R$ 283,5 milhões no trimestre, alta de 67% na comparação anual. Anualizado, o número já supera R$ 1,1 bilhão — acima do teto do guidance para 2026, fixado entre R$ 950 milhões e R$ 1,05 bilhão.
A receita líquida total atingiu R$ 1,18 bilhão, também recorde histórico trimestral, com avanço de 36,9% na base anual. Já a geração de caixa do grupo somou R$ 86,6 milhões no trimestre, excluindo recompra de ações e distribuição de dividendos.
As ações da Tenda (TEND3) sobem 23,69% no acumulado do ano, contra uma alta de 16,33% do Ibovespa no mesmo período.
Empreendimento da construtora Tenda: construtora alcançou lucro líquido de R$ 183,4 milhões no primeiro trimestre – 44% acima do consenso Bloomberg (Foto: Divulgação)
Comprar o terreno, lançar o projeto, vender as unidades e entregar as chaves aos compradores. De forma simplificada, é possível resumir a estratégia tradicional de incorporação imobiliária nesses quatro pilares.
A Meta Incorporadora, no entanto, adota uma abordagem diferente: cerca de 20% das unidades de cada projeto continuam sob a propriedade da construtora, que mantém os apartamentos em uma carteira interna de locação e revenda que financia parte do custo do próprio negócio.
A tese da Meta conta com a valorização de seus imóveis, focados no alto padrão. “Um de nossos empreendimentos teve valorização de 80% no preço do metro quadrado em dois anos, entre lançamento e entrega. E esperamos que o preço, atualmente em R$ 24 mil/m², passe para R$ 30mil/m² até o próximo ano”, afirmou o CEO Alexandre Souza Lima em entrevista à Bloomberg Línea.
Lima começou a carreira no mercado imobiliário com construção para terceiros. Na pessoa física, investia em imóveis com o objetivo de ter uma renda constante com venda e aluguel das unidades. Quando fundou a Meta, como incorporadora boutique, em 2009, a lógica do investidor foi aplicada também na pessoa jurídica.
“O nome Meta vem desse plano em ter um determinado volume de receita recorrente, de locação que nos permitisse ter a tranquilidade para pagar os custos da empresa”, disse. O fundador afirma que o percentual de receita gerado com a iniciativa é relevante, mas não abre os números.
A Meta conta hoje com 120 unidades em seu portfólio, tanto para locação quanto para venda. “A maior parte das empresas de incorporação tem um negócio financeiro e a incorporação é um meio [para a geração de caixa]. Nós não somos assim: focamos no imóvel”, afirmou.
No negócio tradicional de incorporação, o uso de capital de terceiros, seja via alavancagem ou abertura de capital, é uma ferramenta comum para impulsionar o crescimento do negócio e maximizar o retorno.
Ao optar por manter parte das unidades para aluguel, a Meta alonga o fluxo de caixa do projeto e reduz a velocidade de retorno do capital investido. É uma estratégia conservadora, que perde para os pares em ciclos de forte alta do mercado, quando os imóveis são vendidos rápido e a preços crescentes, maximizando a Taxa Interna de Retorno (TIR) – um dos principais indicadores observados no mercado imobiliário.
“Muitos acreditam que essa estratégia não faz sentido, já que nossa TIR com certeza é muito menor que a de outras incorporadoras quando o vento está favorável. Mas preferimos olhar também para outros indicadores, como a valorização dos nossos imóveis”, disse.
A valorização é um aspecto observado de perto também pelos compradores de unidades da Meta, já que metade dos clientes compram os apartamentos como investimento. “Estamos muito otimistas este ano porque, com a redução de juros, o imóvel deve ter ainda maior protagonismo como tese de investimento”, afirmou.
O valor geral de vendas (VGV) acumulado da incorporadora alcançou R$ 550 milhões em 2025. A expectativa é de alcançar R$ 700 milhões este ano. O montante deve vir de um único projeto, que é o grande foco da incorporadora em 2026.
Batizado “The Club”, o empreendimento terá 43.000 m² de área construída, dividido entre torre residencial de 42 andares, área de lazer de 3.300 m² e outros 2.000 m² destinados a lojas. As unidades variam desde metragens menores, de 23 m², até maiores de 284 m².
Lançado em 2025, este é o quarto empreendimento da empresa no Jardim Guedala, bairro de alto padrão vizinho ao Morumbi, em São Paulo, que abriga a sede da Meta e se tornou o principal foco de crescimento da incorporadora. “É um bairro com boas escolas, hospitais, arborizado, que é possível caminhar a pé e com um preço bem mais barato que o Itaim Bibi. Por isso investimos tanto aqui”, disse.
O próximo passo da Meta é o lançamento de um clube, também no Jardim Guedala, que seja próximo aos empreendimentos já lançados na região e funcione como uma área extra de lazer para os clientes da incorporadora. Quem compra o imóvel tem direito a um título do espaço, e terá acesso por um preço melhor que eventuais associados externos.
Os clubes de alto padrão na cidade ganharam força com o lançamento de dois clubes de surf ao estilo praia, às margens da Marginal Pinheiros: o São Paulo Surf Club, da JHSF, e o Beyond The Club, de BTG Pactual Asset Management, KSM Realty, Realty Properties – ambos atrelados a projetos residenciais de luxo.
O espaço da Meta será focado em atividades como tênis e pickleball, com quadras internas e externas.
A expectativa de lançamento do clube é para o segundo semestre deste ano, com operação liderada pela própria Meta, em sua primeira incursão no universo de serviços. “Será um negócio complementar à incorporação”, afirmou o CEO.
Após cinco anos como CEO do Santander Brasil (SANB11), Mario Leão avalia que deixa um banco com uma operação melhor do que a que encontrou em 2021.
“[O Santander é hoje] um banco em vários aspectos melhor, mas não quer dizer que eu não recebi um banco muito bom – recebi um banco espetacular", afirmou Leão em coletiva com jornalistas nesta quarta-feira (29).
“É um banco melhor no sentido de mais diversificado, mais balanceado, mais evoluído com benefícios de sistemas, processos e modelos.”
Leão apresentou nesta quarta-feira sua última divulgação de resultados como CEO do Santander Brasil.
Em março, o banco anunciou que o executivo deixaria o cargo por decisão própria. Ele será substituído por Gilson Finkelsztain, atual presidente da B3, no início do segundo semestre; Finkelsztain deve liderar a próxima divulgação de resultados do segundo trimestre, programada para julho.
Os anos de Mario Leão à frente do banco foram marcados por um período de adversidade macroeconômica após um ciclo de forte crescimento sob o comando de Sergio Rial, que foi presidente entre 2016 e 2021.
Rial liderou uma agenda de forte avanço do Santander em linhas de maior risco e rentabilidade, como o crédito para pessoa física de baixa renda e em “mar aberto”, buscando clientes com os quais o banco não tinha relacionamento prévio.
A carteira de crédito saltou 77,4% entre 2015 e 2021, passando de R$ 261 bilhões para R$ 463 bilhões. A estratégia levou o ROE do banco, seu principal indicador de rentabilidade, da faixa dos 13% em 2016 para 21% em 2021.
A chegada de Leão ao comando do banco, em 2022, coincidiu com uma inversão de ciclo macroeconômico, com o aumento expressivo da inadimplência da pessoa física no pós-pandemia, especialmente da baixa renda.
A rentabilidade do banco chegou a cair para 8,3% no patamar mínimo no quarto trimestre de 2022, e uma das principais metas do banco desde então vem sendo a retomada do patamar de 20%. Atualmente o ROE do Santander Brasil está em 16%.
“Estou no Santander desde 2015, participei do ciclo de crescimento anterior e fizemos isso com louvor até 2021. Então não é que eu recebi um problema, mas tive sim um desafio com esse novo ciclo de crescimento”, disse.
Leão foi diretor executivo de banking e corporate finance e vice-presidente executivo de corporate antes de assumir como CEO.
O Santander Brasil não fornece guidance, mas a expectativa anunciada é que a recuperação dos 20% de ROE patamar seja alcançada ao longo de 2028. No primeiro trimestre de 2026 o indicador registrou queda de 1,5 ponto percentual frente ao mesmo período de 2025, depois de dois resultados em tendência de alta.
Leão classificou o movimento como sazonal. “Esperamos que o movimento se inverta ao longo dos próximos trimestres para que possamos tocar o patamar dos 20% talvez até antes mesmo de 2028″, afirmou.
Embora não tenha alcançado a rentabilidade do ciclo anterior, Leão projeta que o lucro anualizado do banco em 2026 irá superar o resultado do último ano da gestão passada, que foi de R$ 16,3 bilhões. No primeiro trimestre deste ano, o banco registrou lucro de R$ 3,79 bilhões.
“Este ano vamos ter um lucro anual maior que em 2021. E eu me sinto ‘dono’ do lucro em 2026 tanto quanto nos anos passados [em que esteve à frente do banco em todo o período]”, afirmou. “Muito do que deve acontecer daqui para frente também tem meu DNA.”
O Santander Brasil (SANB11) deu início à temporada de balanços entre os grandes bancos ao divulgar seus resultados nesta quarta-feira (29).
A operação brasileira do grupo espanhol registrou lucro líquido gerencial de R$ 3,788 bilhões no primeiro trimestre de 2026 — uma retração de 1,9% na comparação anual e de 7,3% frente ao quarto trimestre do ano anterior.
O resultado veio abaixo da projeção de R$ 4,03 bilhões estimada pelo consenso de analistas consultados pela Bloomberg.
O ROAE (Retorno sobre o Patrimônio Líquido Médio), principal métrica de rentabilidade do setor bancário, recuou após dois trimestres consecutivos de alta. O indicador atingiu 16,0% no primeiro trimestre, queda de 1,6 ponto percentual (p.p.) frente ao quarto trimestre de 2025 e de 1,5 p.p. na comparação anual.
A margem financeira bruta somou R$ 15,812 bilhões, com recuo de 0,7% na comparação anual, pressionada pelo desempenho da margem com o mercado. Em base trimestral, no entanto, o indicador avançou 3,1%.
A margem financeira com o mercado encerrou o período negativa em R$ 771 milhões, uma piora frente ao ganho de R$ 97 milhões registrado no mesmo trimestre de 2025.
Segundo o banco, o resultado foi impactado pela sensibilidade negativa ao aumento da taxa de juros ao longo do ano. A comparação trimestral, no entanto, mostra uma recuperação expressiva ante os R$ 1,486 bilhão negativos do período anterior, acompanhando a recente queda nas taxas.
O resultado geral foi parcialmente sustentado pela margem financeira com clientes, que somou R$ 16,584 bilhões, avanço de 4,8% na comparação anual, beneficiada, segundo o banco, por maiores volumes, melhora no mix e disciplina de precificação, com reflexo positivo no spread.
Na base trimestral, porém, houve recuo de 1,4%, pressionado pelo menor número de dias úteis e pelo efeito do diferimento de comissões migradas para a margem.
As despesas gerais totalizaram R$ 6,633 bilhões, estáveis frente ao trimestre anterior e com alta de apenas 0,9% em 12 meses, abaixo da inflação do período. O banco destacou o uso intensivo de tecnologia como vetor de ganhos de produtividade e otimização de processos.
Crédito e inadimplência
A carteira ampliada de crédito encerrou março de 2026 em R$ 705,6 bilhões, crescimento de 3,4% em relação ao mesmo período do ano anterior, com leve recuo de 0,4% frente ao trimestre anterior, influenciado pela sazonalidade em cartões e pela variação cambial.
A inadimplência acima de 90 dias atingiu 3,3%, com alta de 0,2 p.p. no trimestre e de 0,6 p.p. em 12 meses, concentrada especialmente em pessoa física nas faixas de menor renda e em pequenas e médias empresas.
As provisões para devedores duvidosos (PDD) totalizaram R$ 6,344 bilhões, avanço de 3,9% frente ao trimestre anterior e queda de 0,7% na comparação anual. O Santander atribuiu o recuo anual à gestão ativa de riscos e à melhora no mix do portfólio, com maior participação de operações de menor risco.
No acumulado do ano, as units do Santander (SANB11) recuam 12,78%, contra alta de 17,49% do Ibovespa.
Sede do Santander Brasil em São Paulo, em foto de 2012: operação do banco espanhol no país ficou com lucro abaixo dos R$ 4,03 bilhões previstos pelo consenso de analistas pela Bloomberg (Foto: Dado Galdieri/Bloomberg)
O entusiasmo desenfreado em torno da inteligência artificial nos Estados Unidos desperta comparações com o período de otimismo e derrocada das ações de tecnologia no início dos anos 2000, conhecido como “bolha das pontocom”. A avaliação é de Thiago Kapulskis, sócio e gestor do fundo global de tecnologia da São Pedro Capital.
“Como alguém que olha o mercado de ações, acredito cada dia mais que estamos em uma bolha como nos anos 2000″, afirmou o gestor em painel no evento Fórum The AI Economy Brazil, realizado nesta segunda-feira (28) pela Sólides em parceria com a Bloomberg Línea.
A principal tese do gestor é de que os indicadores de negócio observados para distribuir os cheques de financiamento para as startups de IA são completamente diferentes do que eram no último ciclo de “boom” entre as companhias de tecnologia. E essa mudança pode trazer desafios reais de rentabilidade para os negócios que hoje disparam em valuation.
Kapulskis defendeu que muitas dessas startups não mostram a disciplina de modelos de negócio que caracterizou empresas como Google e Amazon em suas fases iniciais. “Não vejo nesse ciclo nenhuma discussão de como essas novas companhias vão ganhar dinheiro daqui a três anos”, disse.
Para o Brasil, isso pode ser um caminho de oportunidade, segundo o gestor. Isso porque a escassez de capital e os maiores desafios de custo podem impor uma disciplina às startups brasileiras que falta às americanas.
“A vantagem de nós brasileiros é que a gente vive num país difícil. Um país de capital caro, onde qualquer um que investe no negócio vai querer saber como a empresa vai ganhar dinheiro”, disse Kapunskis. “Talvez essa seja uma vantagem desse ciclo.”
Ainda assim, o cenário é desafiador. Camila Vieira, sócia e diretora para o Brasil da gestora global QED Investors, destacou que pequenas e médias empresas chegam ao ciclo da IA fragilizadas por anos de juros elevados, instabilidade tributária e mudanças regulatórias que consumiram sua capacidade de investimento.
A dinâmica de excesso de capital nos EUA também se torna um desafio de captação para as empresas brasileiras que buscam financiadores globais e precisam competir com startups americanas que saem “de US$ 500 mil para US$ 100 milhões em receita em questão de meses”.
Apesar dos desafios, Vieira enxerga potencial para que negócios disruptivos despontem também no Brasil.
“A Stripe, por exemplo, foi lançada anos depois e hoje se fala muito mais dela do que de PayPal. Talvez uma ‘Stripe brasileira’ esteja bem posicionada no futuro para competir com as americanas”, disse.
Por enquanto, o protagonismo do desenvolvimento em IA tem estado nas mãos do setor financeiro.
Instituições como Itaú, Nubank, Banco do Brasil e Mercado Livre buscam soluções internas sofisticadas de tecnologia, em contraste com a postura mais cautelosa dos grandes bancos americanos.
“Em um final de semana, o Itaú realizou um teste que apresentou desempenho 40% superior ao modelo original. Em uma empresa desse tamanho, é um retorno gigantesco”, afirmou.
“As empresas financeiras brasileiras são compradores extremamente sofisticados [de IA]. Existem muitas boas soluções sendo desenvolvidas, mas ainda se fala pouco sobre isso”.
Henrique Ferreira, sócio da DGF Investimentos – fundo com 25 anos de atuação em tecnologia –, aponta vantagens estruturais do país na frente de energia.
A regulação do setor elétrico e a disponibilidade de energia renovável posicionam o Brasil como candidato a abrigar infraestrutura de computação, um dos principais gargalos do desenvolvimento da IA.
“Na camada de modelos fundacionais, a gente pode desenvolver um papel bastante estratégico em energia”, disse no painel.
Thiago Kapulskis, sócio e gestor do fundo global de tecnologia da São Pedro Capital, Camila Vieira, sócia e diretora para o Brasil da gestora global QED Investors, e Henrique Ferreira, sócio da DGF Investimentos durante o Fórum The AI Economy Brazil, realizado pela Sólides em parceria com a Bloomberg Línea (Foto: Bloomberg Línea)
O Santander Brasil (SANB11)decidiu apostar em um novo programa de relacionamento, em uma iniciativa do banco que busca reforçar sua estratégia para a alta renda.
Apresentado nesta nesta segunda-feira (27), o Santander Rewards começa a ser disponibilizado gradualmente no mês de maio e propõe uma jornada de “gamificação” na relação bancária, que recompensa o grau de relacionamento do cliente com o banco.
O programa vai incrementar o acúmulo de pontos Esfera, plataforma de recompensas. Os clientes que concentram mais produtos e serviços no Santander – como uso de cartão de crédito, recebimento de salário, investimentos, débito automático e compartilhamento de dados via Open Finance – poderão acumular até 50% mais pontos do que na pontuação base.
O foco está nos clientes do Santander Select, segmento de alta renda do banco. Esse público ganhou protagonismo não apenas na estratégia do Santander, mas em todo o sistema financeiro, especialmente após a alta da inadimplência entre consumidores de menor renda no pós-pandemia.
Diante desse cenário, os bancos intensificaram a disputa pela alta renda, reforçando programas de benefícios e propostas de valor para atrair e fidelizar essa base. Segundo Geraldo Rodrigues Neto, diretor do segmento de pessoa física do Santander, a instituição ainda carecia de uma oferta mais estruturada para esse público, apesar de já perseguir esse objetivo há alguns anos.
“A percepção de valor e de benefício que entregávamos ao nosso cliente era inferior ao que é oferecido por alguns dos nossos concorrentes. É o momento de virar essa página e repensar a maneira como a gente constrói valor em relação a todos os nossos clientes”, afirmou o executivo durante evento de lançamento do programa.
Gustavo Santos, responsável por cartões e conta corrente de pessoa física no banco, reconheceu que o mercado de benefícios caminhou para uma lógica de commodity nos últimos anos, com bancos copiando uns aos outros em termos de salas VIP, programas de pontos e coberturas de seguro.
A proposta do Rewards, segundo ele, é sair dessa disputa por benefícios pontuais e entrar no dia a dia do cliente.
“Benefício não é só sobre uma sala VIP no momento em que se viaja. É sobre uma rotina de benefícios que a gente dá todos os dias”, disse.
A adesão ao programa é gratuita e feita pelo aplicativo. Ao entrar, o cliente descobre em qual nível já se enquadra com base em seu histórico de relacionamento do mês anterior — parte da base deve ingressar diretamente em níveis mais altos.
O Santander Rewards organiza os clientes em quatro níveis, calculados mensalmente a partir de comportamentos financeiros traduzidos em “passos”. Quem atingir o nível máximo poderá chegar a 5,25 pontos por dólar gasto no cartão Unique ou no Unlimited Prime – partindo de uma base de 1,5 pontos por dólar para o cartão Elite.
Plataforma global e integração digital
O Santander Rewards integra uma estratégia global do Grupo Santander, lançada simultaneamente no Brasil, Espanha, Chile e México.
As versões variam: os mercados latinos apostam mais nos programas de fidelidade, enquanto a matriz europeia irá explorar modelos de assinatura inspirados em plataformas como a inglesa Revolut.
“Não obrigatoriamente com programas que são iguais, mas que têm um objetivo claro de convergência no médio prazo”, afirmou Rodrigues Neto.
A expectativa é que o modelo seja implementado globalmente em todos os países onde o Santander tem atuação ao longo de 2027.
O banco também sinalizou que o programa evoluirá além dos pontos. A lógica dos níveis deverá ser aplicada futuramente a taxas de crédito imobiliário, acesso a experiências exclusivas – como ingressos para shows e espaços na Fórmula 1, territórios escolhidos pelo banco para fortalecer a marca nos segmentos premium.
A plataforma Esfera, hoje em ambiente separado, será integrada ao aplicativo principal do Santander ao longo dos próximos meses.
O banco também usará dados de Open Finance e informações do Banco Central para personalizar as conversas sobre evolução de nível, permitindo que gerentes e canais digitais indiquem ao cliente o que falta para avançar na classificação.
Atual sede do Santander Brasil em São Paulo, no Complexo JK: banco anunciou programa de relacionamento com aceleração de pontos. (Foto: Divulgação/Santander Brasil)
O Nubank (NU) destinará cerca de R$ 45 bilhões ao mercado brasileiro ao longo de 2026 – volume duas vezes maior do que era investido no país há dois anos, de acordo com anúncio feito pela fintech nesta segunda-feira (27).
O Brasil é a maior operação da Nu Holdings, com 87% dos 130 milhões de clientes do grupo, que atua também no México e na Colômbia.
A fintech anunciou que os recursos serão divididos em quatro frentes: desenvolvimento de plataformas de crédito com inteligência artificial, lançamento de novos produtos, expansão de escritórios e equipes pelo país e reforço da base de capital.
O Nubank não detalhou o montante destinado a cada frente, mas o banco digital já havia anunciado, em janeiro deste ano, um investimento de R$ 2,5 bilhões ao longo de cinco anos em escritórios para ampliar a capacidade do trabalho presencial.
“Estamos chegando aos 13 anos de operação no Brasil como a maior instituição financeira privada em número de clientes, com escala para continuar transformando o mercado e responsabilidade para fazê-lo de forma sustentável”, disse Livia Chanes, CEO do Nubank Brasil, em nota.
A companhia também trabalha para obter uma licença bancária no Brasil ainda em 2026 e ingressou na Febraban no mês passado, segundo a CEO.
Expansão física e fim do trabalho remoto
A fatia destinada à infraestrutura de escritórios acompanha uma mudança no modelo de trabalho da fintech.
Em novembro de 2025, o Nubank anunciou um novo modelo híbrido de trabalho, que entra em vigor em julho de 2026 e prevê que cerca de 70% dos funcionários passem a comparecer ao escritório dois dias por semana.
Para acomodar esse retorno ao presencial, dois novos prédios serão ocupados no bairro de Pinheiros, em São Paulo. O Capote 210, edifício de 20 andares, abrirá a partir de abril deste ano como espaço de inovação, com um Research Lab voltado à cocriação de produtos com clientes.
A partir de 2027, o Cyrela Corporate, na Rua Oscar Freire, projetado pelo estúdio italiano Pininfarina, receberá os funcionários em 35 mil m² com capacidade para mais de 3 mil pessoas.
Com as duas adições, o bairro concentrará quatro endereços da empresa e mais de 5.700 estações de trabalho — mais de cinco vezes a capacidade atual na região.
Fora da capital paulista, serão inaugurados espaços em Campinas, no Bresco Viracopos, com 9.150 m², no Rio de Janeiro, com 6.870 m² em cinco andares do Vista Mauá, e em Belo Horizonte, com local ainda a ser definido, todos até o segundo semestre de 2026.
Companhia não detalhou o montante destinado a cada frente, mas o banco já havia anunciado, em janeiro deste ano, um investimento de R$ 2,5 bilhões ao longo de cinco anos em escritórios
O Banco do Brasil (BBAS3) abriu o BB Day 2026, evento para investidores e analistas de mercado, com o diagnóstico de que 2025 foi “o ano mais desafiador da história recente do banco”, segundo o CFO Geovanne Tobias.
O lucro anual do BB caiu 45,4% em 2025, impactado principalmente pelo aumento do risco de crédito com a ampliação das provisões.
O volume trimestral de provisões praticamente triplicou na comparação com a média dos últimos 11 anos, que girava em torno de R$ 5 bilhões. O custo do risco saltou de 2,5% em 2014 para 5,1% em 2025.
“Sem dúvida alguma foi um ano completamente fora da curva”, disse o CFO. “Passar por 2025 exigiu da nossa administração muita transparência”.
O grande vilão dos resultados do BB foi o agronegócio – segmento que já foi fortaleza do banco e representa um terço de sua carteira de crédito. Apenas no último trimestre de 2025, R$ 10 bilhões dos R$ 18 bilhões de provisões totais vieram desse segmento.
Tobias listou uma combinação de fatores que prejudicaram os resultados do agro: conflito Rússia-Ucrânia e seus reflexos nas commodities agrícolas, a alavancagem excessiva do produtor rural, inflação de custos, Selic elevada, queda no preço da soja em 2023 e os eventos climáticos severos no Rio Grande do Sul em 2024.
A solução de curto prazo foi suspender o guidance apresentado para 2025 e reformular toda a esteira de cobrança e exigência de garantias, passando a priorizar a alienação fiduciária no lugar do penhor e da hipoteca, que são instrumentos historicamente mais utilizados na carteira rural.
O BB também reforçou a aposta em outras linhas de crédito, além de diminuir a perspectiva de apetite no agronegócio. O guidance para 2026 tem projeção de crescimento zero da carteira de agro no ponto médio do guidance (projeção), que vai de -2,0% a +2,0%.
Ainda é cedo, no entanto, para projetar como será a recuperação da carteira agro. Até lá, o Banco do Brasil espera usar seu conglomerado como estratégia para manter a rentabilidade apesar dos desafios de crédito.
Tobias reforçou que a instituição opera como um conglomerado com mais de 80 empresas, e que foi essa estrutura que permitiu sustentar retorno sobre patrimônio de dois dígitos mesmo em meio à crise de crédito.
“Estamos falando de um banco que vai muito além de financiar a agricultura”, afirmou.
“As empresas do grupo vem somando 52% do resultado. Essa estratégia foi fundamental para criar essa musculatura para que o conglomerado do Banco do Brasil enfrentasse 2025″.
Entre as empresas do grupo estão a BB Seguridade, líder em seguros rurais com 62% de participação de mercado e com posições relevantes em previdência e capitalização; a BB Consórcios, que hoje administra R$ 150 bilhões em carteira e 1,7 milhão de cotas ativas; e o BV, atualmente maior financiador de veículos do país.
O Banco do Brasil conta ainda parceria com o UBS no mercado de capitais, uma joint venture que já gerou R$ 1 trilhão em volume desde seu lançamento em 2020, e a BB Asset Management, que é atualmente a maior gestora de investimentos do Brasil com R$ 1,8 trilhão sob gestão.
No segmento de meios de pagamento, o banco concluiu o fechamento de capital da Cielo em 2024, junto ao Bradesco, que também é controlador da empresa. A bandeira Elo, a plataforma de benefícios Alelo e a empresa de fidelidade Livelo completam o ecossistema.
O CFO reforçou ainda que o BB pretende avançar na internacionalização. O banco lançou o PIX na Argentina via Banco Patagônia em março de 2026 e agora pretende replicar a experiência nos Estados Unidos, onde o BB Américas mantém mais de US$ 3 bilhões em ativos, sendo cerca de US$ 2 bilhões em financiamentos imobiliários para brasileiros na Flórida.
O CFO destacou também o programa de venture capital do BB, com investimentos em 51 startups entre fintechs, agritechs, govtechs e finanças verdes, que conta com capital investido superior a R$ 500 milhões.
“Apesar de termos enfrentado o maior desafio da história do Banco do Brasil nesses últimos 20 anos, nós acreditamos na capacidade do BB continuar gerando resultados sustentáveis no médio e longo prazo, dado toda essa estratégia de conglomerado que nós implementamos”, afirmou.
A próxima etapa anunciada é a criação de uma diretoria estatutária dedicada exclusivamente à gestão das participações estratégicas do conglomerado.
Estrutura com mais de 80 empresas respondeu por mais da metade do resultado e ajudou a amortecer impacto da crise no agro (Foto: Christopher Dilts/Bloomberg)
Nove em cada dez consumidores da América Latinae do Caribe já se identificam como usuários de pagamentos digitais. É o que aponta pesquisa encomendada pela Mastercard e divulgada nesta terça-feira (21).
Os dados revelam, no entanto, que há uma demanda represada pela digitalização, que esbarra no desafio de melhorar o acesso dos consumidores para as opções de pagamento digitais.
O estudo, feito pela consultoria independente Many Minds Group com 3.558 adultos em dez países da América Latina e Caribe em março de 2026, mostra que, apesar do avanço expressivo, o dinheiro físico persiste como alternativa em contextos nos quais a aceitação digital ainda é precária.
Quase metade dos entrevistados (47%) usou cédulas nos últimos seis meses, e 36% ainda recorrem a elas dentro de ônibus. Entre vendedores ambulantes, a dependência do dinheiro em espécie chega a 32%.
“A inclusão já não se trata apenas de incorporar as pessoas no sistema financeiro, mas sim em garantir que o sistema funcione para elas em sua vida diária”, afirmou, em nota, Andrea Scerch, presidente da Mastercard para América Latina e Caribe.
A pesquisa abrangeu os mercados de Argentina, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Guatemala, Jamaica, México, Panamá, Peru e Porto Rico.
Vale lembrar que, no Brasil, a digitalização está bem mais avançada devido à adoção massificada do Pix. O sistema de pagamentos instantâneo, criado pelo Banco Central em novembro de 2020, já superou o uso de dinheiro em espécie em market share desde o primeiro trimestre de 2021.
Em março deste ano, o total de usuários que já tinham realizado Pix, segundo dados do BC, somava 81% da população brasileira.
Apetite em ascensão
No restante da região, a pesquisa da Mastercard aponta uma demanda crescente por pagamentos digitais. Oito em cada dez consumidores apontam segurança e praticidade como razões para preferir o digital, e 87% querem que mais estabelecimentos e pessoas passem a aceitar esse tipo de pagamento.
Cerca de 59% relatam que, ao menos uma vez ao mês, precisam sacar dinheiro quando gostariam de usar o celular ou o cartão.
Os consumidores que optam pelo pagamento digital preferem o cartão de débito: seis em cada dez utilizam essa opção para transações diárias – mais do que carteiras digitais (42%) e transferências (39%).
As categorias em que cartão de débito mais aparece entre as preferências são supermercados (34%), restaurantes e cafeterias (33%), contas de celular (27%) e transporte por aplicativo (26%).
A pesquisa reforça que a expansão dos pagamentos digitais depende tanto de infraestrutura quanto de percepção de segurança.
Entre os usuários digitais, 95% consideram a proteção um fator relevante na hora de escolher como pagar, e 94% citam a confiabilidade do sistema.
Já entre os consumidores ainda resistentes ao digital, 43% afirmam que melhorias em segurança os fariam mudar de postura, seguidos por proteção mais clara em caso de problemas (38%) e atendimento ao cliente mais eficiente (36%).
Entre os não-usuários, 68% deles afirma ser “algo ou muito provável” que adote pagamentos digitais no futuro. A janela de conversão existe — o que falta é construir a confiança e a infraestrutura que a torne real.
Estudo mostra que, apesar do avanço expressivo, o dinheiro físico persiste como alternativa em contextos nos quais a aceitação digital ainda é precária. (Foto: Paulo Fridman/Bloomberg)
A escalada do conflito no Oriente Médio gerou turbulências nos mercados globais, mas a América Latina está em posição relativamente confortável para atravessar a turbulência e tem menos a perder que outras geografias.
É o que avalia Ernesto Revilla, economista-chefe para América Latina do Citigroup, em entrevista à Bloomberg Línea.
“Mesmo que o conflito com o Irã seja ruim para todos na economia global, a América Latina está relativamente bem posicionada em comparação com outras regiões, particularmente em relação à Ásia e à Europa”, disse Revilla.
A distância geográfica do conflito e a estrutura produtora de petróleo de vários países da região estão entre os fatores de proteção citados pelo economista.
Além disso, a melhora nos fundamentos macroeconômicos – como câmbio flutuante e reservas internacionais mais robustas – forma um colchão de proteção para a região que não existia em crises anteriores.
O cenário-base do Citi prevê que os preços do petróleo devem recuar a partir de meados de junho, para então se normalizar de forma significativa.
“Esperamos que o impacto do conflito nos preços do petróleo dure mais algumas semanas, mas que o cessar-fogo se sustente, ainda que de forma instável”, disse o economista.
Nesse contexto, o crescimento da região não deve ser muito diferente do ano anterior, e a inflação não deve subir de forma expressiva. A explicação está em parte porque os governos da maioria dos países da região têm algum nível de controle sobre os repasses dos preços dos combustíveis ao consumidor, absorvendo o choque via pressão fiscal, e não via inflação direta.
Existe, no entanto, um cenário mais turbulento no qual a guerra se prolongue além do esperado, pressionando o preço do petróleo e o impacto inflacionário.
Um dos grandes riscos dessa conjuntura seria a possibilidade de juros mais altos nos Estados Unidos, maior economia do mundo.
“O pior cenário seria se o choque fosse grande o suficiente para que o mercado tivesse que reprecificar as expectativas sobre os juros americanos”, afirmou Revilla. “Se houvesse uma mudança para uma expectativa de juros mais altos nos EUA, poderia ser muito disruptivo para a região.”
Brasil: expectativa de queda de juros continua
No caso do Brasil, Revilla elogiou a postura do Banco Central, que cortou a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual em março, para 14,75% ao ano.
“O Banco Central do Brasil demonstrou uma prudência extraordinária. É uma instituição muito respeitada, que conquistou seu prestígio como condutor independente da política monetária”, afirmou.
Ainda assim, o Citi mantém a projeção de taxa terminal para o Brasil em 12% ao ano, com risco de revisão para cima na próxima rodada de análises.
“Dado que o Brasil era o país que mais ia cortar juros em 2026 antes do conflito no Irã, ainda há espaço para manobra uma vez que o cenário fique um pouco mais claro”, disse Revilla.
Além do contexto externo, o Brasil enfrenta o desafio das eleições presidenciais, assim como a Colômbia. Ambos os países, segundo o economista, compartilham um problema central: a trajetória fiscal está em rota insustentável e o mercado exige sinalização clara de mudança – de quem quer que vença o pleito.
“O mercado não se importa tanto com a cor do partido que vence, mas sim com as políticas [implementadas]. E em ambos os casos, o mercado está esperando anúncios fiscais como primeira prioridade”, disse.
Para Revilla, há potencial para aumento na confiança dos investidores e de maior fluxo de capital estrangeiro para os mercados emergentes a depender das medidas anunciadas logo após as eleições.
Dólar fraco e a janela estrutural
Um fator que tem surpreendido positivamente é o comportamento do dólar. Contrariando as expectativas de que as tarifas do governo Trump fortaleceriam a moeda americana, o dólar enfraqueceu ao longo dos últimos meses, e esse movimento tem sido um vento favorável para as moedas e os ativos latino-americanos.
“As moedas latino-americanas têm se comportado extraordinariamente bem diante de muitos choques, incluindo tarifas, reconfiguração geopolítica e o conflito com o Irã, justamente por causa do dólar fraco”, disse Revilla.
No médio prazo, o economista acredita que o dólar retomará gradualmente sua posição de força como moeda de reserva global visto que “não há alternativa” para substituição da moeda americana. A expectativa é que isso ocorra nos próximos 12 meses.
Para Revilla, o momento abre também uma janela de oportunidade mais estrutural para a região. Com os Estados Unidos se desacoplando de partes da Ásia e da Europa, e sem capacidade de produzir tudo internamente, a América Latina emerge como fornecedora natural — de commodities tradicionais, mas também de lítio, terras raras e produtos manufaturados.
“Os Estados Unidos não conseguem produzir tudo internamente, nem manufaturados nem commodities. E quando você pensa nisso, a América Latina está perfeitamente posicionada para abastecer uma economia americana dinâmica com o que ela não consegue produzir”, disse.
O economista afirma que o momento é de oportunidade para que a região seja um destino estrutural de investimentos. “É bom finalmente ver a América Latina não sendo o centro das preocupações ou da vulnerabilidade.”
São Paulo: Distância geográfica do conflito e a estrutura produtora de petróleo de vários países da região estão entre os fatores de proteção para América Latina (Foto: Tuane Fernandes/Bloomberg)
A incorporadora que não comprou terreno na Rua Augusta, em São Paulo, está prestes a perder a janela de oportunidade. É essa a avaliação de Ariel Frankel, CEO da Vitacon, que atua no segmento de studios para alta renda e que está com quatro terrenos na via. A estimativa é que 80% das opções de terrenos disponíveis já estejam comprometidas com projetos em andamento.
“A rua já está bem formatada para a mudança, que deve ficar mais visível conforme os prédios sejam entregues. [Antes] era uma via de passagem, que está se transformando na nova grande potência nobre da cidade”, afirmou Frankel em entrevista à Bloomberg Línea.
A expectativa do executivo é que a região tenha potencial de valorização semelhante ao que aconteceu na Avenida Rebouças após a mudança do Plano Diretor em 2014. A avenida foi enquadrada como Zona Corredor (ZCOR), o que permitiu maiores construções com incentivo a diversos usos, de residencial a serviços.
O movimento ganhou força nos últimos cinco anos, especialmente com a consolidação da Rebouças como novo polo corporativo da cidade, aproveitando a proximidade com a Avenida Faria Lima.
O maior exemplo da mudança veio no primeiro semestre de 2025, quando a Amazon locou 39.000 metros quadrados no edifício corporativo Biosquare, que está em construção e fica a uma quadra da Rebouças.
Já a Augusta foi incluída em uma revisão do mapa da Lei de Zoneamento em 2024, que aumentou o potencial construtivo da rua, incluindo trechos como Zonas de Corredor e Zonas Eixo de Estruturação da Transformação Urbana (ZEUs).
A mudança acelerou a valorização do metro quadrado dos terrenos na via. O preço passou de uma média de R$ 34.191/m² em 2020 para R$ 42.700/m² em 2025, um ganho de 4,5% nos cálculos da consultoria Binswanger. No alto padrão, as negociações já ultrapassam o preço de R$ 60.000/m².
A Vitacon já tinha um empreendimento lançado na região antes da mudança no zoneamento. Com a alteração, a incorporadora aumentou a aposta na via, com outros três lançamentos no pipeline de 2026.
“Vimos o valor dos nossos imóveis na Rebouças dobrar nos últimos cinco anos. Para a Augusta – e no nosso negócio, de forma geral –, buscamos produzir imóveis bem abaixo do custo de mercado para que o cliente possa surfar essa valorização também", disse.
Atualmente 70% dos compradores de imóveis da Vitacon são investidores que buscam retorno com a revenda dos apartamentos ou com a locação. Na região dos Jardins, onde está localizada a Rua Augusta, o preço médio de aluguel subiu 6% em 12 meses segundo os dados mais recentes do FipeZAP, para R$ 17.354 /m².
A Vitacon projeta 13 lançamentos no acumulado de 2026, com R$ 1,8 bilhão em valor geral de vendas (VGV) para este ano – crescimento de 28,6% frente ao ano passado.
Em paralelo à aposta na região da Rua Augusta, a Vitacon tem sido alvo de questionamentos na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Habitação Social. Instaurada no segundo semestre de 2025, a CPI investiga irregularidades nas vendas de moradias populares em São Paulo.
Embora não seja seu produto principal, a Vitacon incluiu unidades de Habitações de Interesse Social (HIS) em seus empreendimentos localizados em zonas de maior adensamento.
A prática permite que as incorporadoras ampliem o potencial construtivo dos terrenos, viabilizando projetos maiores.
Essa tipologia representa cerca de 20% das unidades nos empreendimentos em que são aplicadas, mas Frankel estima que elas totalizem menos de 5% do portfólio total da empresa.
A CPI investiga se a venda das habitações sociais da Vitacon e de outras incorporadoras foi feita a investidores que não estavam enquadrados nas regras do modelo ou que alugavam os apartamentos sem seguir as restrições impostas a unidades HIS.
A legislação proíbe, por exemplo, a locação de curta temporada (short stay) – carro-chefe da Housi, spin-off da Vitacon que atua na operação de condomínios e oferece gestão completa dos imóveis para locação.
Frankel afirmou que a Vitacon seguiu com as normas exigidas em todas as vendas. Atualmente não há uma fiscalização sobre a locação do apartamento após a comercialização o que, em sua visão, deveria ficar a cargo da prefeitura.
“Vemos com bons olhos a regularização [do mercado]. Quem tem mais experiência com esse tipo de produto vai implantar as alterações rapidamente – esse deve ser o nosso caso", afirmou.
O CEO da Vitacon destacou ainda que a empresa não pretende eliminar as unidades HIS de seus empreendimentos. “Não teremos uma redução. É um complemento ao nosso mix, que equilibra nossos produtos.”
O Nubank (NU) assumiu os “naming rights” do estádio Palestra Itália, do Palmeiras, após a rescisão do contrato da Allianz Seguros com a WTorre, empresa responsável pela gestão da arena, desde a sua inauguração em 2014.
A fintech brasileira irá abrir uma votação pública para escolher o novo nome do estádio, entre as opções “Nubank Parque”, “Nubank Arena” e “Parque Nubank”. A novo nome será anunciado em 4 maio, informou a empresa nesta sexta-feira (10).
Nubank e WTorre não divulgaram o valor nem prazo do contrato, mas reforçaram que a parceria é de longo prazo.
Esta é a segunda grande aposta do banco digital no setor. No início de março, o Nubank confirmou a compra dos naming rights do novo estádio do Inter Miami CF, dois meses após obter a aprovação condicional para licença bancária nos Estados Unidos.
Livia Chanes, CEO do Nubank no Brasil, afirmou que a mudança faz parte da estratégia recente da empresa em oferecer experiências a seus clientes. A estratégia vinha tendo um foco global, com o naming rights de Miami e o patrocínio da Mercedes da Fórmula 1.
“O Brasil é a nossa primeira casa. Óbvio que a gente não podia deixar a cidade em que foi fundado e o país que detém a maior operação longe desse novo passo”, afirmou Chanes em entrevista a jornalistas.
Em nota, a Allianz Seguros afirmou que a rescisão do contrato sete anos antes do encerramento do prazo foi feita de forma amigável e que faz parte de uma nova estratégia de marketing para o Brasil.
“Somos profundamente gratos por tudo o que o Allianz Parque nos proporcionou e reconhecemos a importância do investimento para a consolidação da marca no país. No entanto, vivemos um período de crescimento acelerado e expansão territorial e decidimos encerrar esse ciclo para iniciar uma fase”, afirmou, em nota, Eduard Folch, CEO da Allianz Brasil.
A empresa destacou ainda que o case de naming rights foi “o mais bem-sucedido do Brasil”, inspirando outras empresas a nomearem estádios.
Entre os casos mais emblemáticos, a Mondelez Brasil adquiriu os naming rights do estádio do São Paulo Futebol Clube, que passou a se chamar Morumbis em janeiro de 2024.
No mesmo mês, o estádio do Pacaembu passou a se chamar Mercado Livre Arena Pacaembu após a gigante argentina comprar os direitos para o nome da arena.
Em meio à disputa acirrada no e-commerce latino-americano, o Mercado Pago, banco digital do Mercado Livre, reforça sua aposta em pequenas e médias empresas com o lançamento da Conta Negócio.
A plataforma unifica soluções já existentes e introduz novos benefícios para o segmento de PMEs – que abrange os vendedores do Mercado Livre e é considerado uma das principais alavancas em sua estratégia de crescimento.
“O segmento de PMEs é um dos mais dinâmicos e estratégicos da economia brasileira e queremos ser protagonistas dessa jornada”, afirmou Daniel Davanço, diretor sênior de PMEs da companhia no Brasil, durante entrevista coletiva.
A solução foi lançada no Brasil nesta quinta-feira (9) e a expectativa é de expansão para os outros países da região.
Uma das principais alavancas da conta é a concessão de crédito, um dos principais desafios de crescimento para os pequenos empreendedores.
O Mercado Pago já oferece ao menos uma solução de crédito em até três meses de uso para 9 a cada 10 empreendedores que apresentem faturamento mensal acima de R$ 10 mil.
Segundo um levantamento do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) mostrou que em 2025 apenas 4 em cada 10 empreendedores conseguiam os empréstimos que buscavam.
O maior apetite se justifica, segundo o executivo, pelo relacionamento de 20 anos com esse perfil de clientes – o banco digital foi criado inicialmente para atender os vendedores do Mercado Livre. Davanço afirma que análise de concessão usa mais de 2 mil variáveis e dados de Open Finance para calibrar as ofertas por perfil de cliente.
A companhia não abre guidance de crescimento para o segmento PMEs, mas Davanço reforçou que é uma área prioritária para a estratégia do banco.
“A Conta Negócio libera uma oferta de crédito para um volume maior de empreendedores. Estamos crescendo a taxas muito aceleradas nesse segmento”, afirmou.
A carteira de crédito para pequenas e médias empresas do Mercado Pago no Brasil cresceu 40% em 2025 em base anual, para R$ 11 bilhões. A carteira de crédito total do grupo avançou para US$ 12,5 bilhões no quarto trimestre do ano passado, uma alta anual de 90%.
A Conta Negócio integra os serviços já oferecidos para PMEs em uma única interface no aplicativo do Mercado Pago, e conta com benefícios extras para expandir a base, atualmente em 9 milhões de empreendedores.
Em adquirência, o dinheiro das vendas não passa por taxas adicionais de antecipação e irá contar com tarifas regressivas conforme o volume transacionado. O portfólio inclui maquininhas Point, solução via celular (Point Tap), links de pagamento e QR Code.
No pilar financeiro, os “cofrinhos” rendem até 120% do CDI com liquidez imediata – benefício que antes era restrito a alguns usuários e agora é garantido a todos os correntistas da Conta Negócio.
E o software de gestão, que custava R$ 79 mensais, passa a ser gratuito para o segmento, com emissão de notas fiscais, controle de estoque e PDV integrado.
A Conta Negócio está sendo lançada no Brasil e ainda está em análise para outros países. O serviço é gratuito, sem teto de faturamento e vale para qualquer PJ. No entanto, os benefícios plenos, como o rendimento turbinado e o software sem custo, ficam restritos a quem fatura acima de R$ 10 mil por mês.
Os clientes PJ serão migrados automaticamente para a nova interface, enquanto os novos usuários poderão optar pela conta ao abrir seu cadastro.
A guerra entre Irã, Estados Unidos e Israel freou a tendência de diversificação global que impulsionou o mercado brasileiro no início do ano. A expectativa de gestores locais, no entanto, é que a turbulência seja passageira e que não afete a atratividade da bolsa local a médio prazo.
Os dois primeiros meses de 2026 foram marcados por uma fraqueza global do dólar e pela busca por investimentos fora dos Estados Unidos – uma mudança relevante de tendência após mais de uma década de protagonismo das bolsas americanas nas carteiras globais.
A guerra porém, deixou os investidores mais cautelosos a partir de março, e diminuiu o fluxo de capital para mercados emergentes. Ainda assim, o impacto não deve comprometer as perspectivas de médio prazo, segundo Rodrigo Santoro, diretor de ações da Bradesco Asset.
“O fluxo de capital estrangeiro para o Brasil no ano está em torno de R$ 50 bilhões. E uma vez que a guerra termine, devemos voltar a ter esse fluxo vindo da diversificação [global para mercados emergentes]”, afirmou Santoro em painel durante o Brazil Investment Forum, realizado pelo Bradesco BBI nesta terça-feira (7).
O gestor participou do painel ao lado de André Lion, sócio e diretor de portfólio da Ibiuna Investimentos, Sara Delfim, sócia da Dahlia Capital, e André Caldas, sócio e diretor de portfólio de ações da Springs Capital.
Delfim destacou que, apesar das turbulências recentes, o Ibovespa entregou cerca do dobro de retorno do CDI nos últimos três anos – um desempenho que pode ser ainda melhor a depender das condições macroeconômicas.
“Apesar de toda a alta recente, a gente ainda acha o valuation da bolsa atrativo, especialmente porque o lucro das empresas também subiu. Não é verdade para a bolsa como um todo, mas tem muito setor e muita empresa entregando bons resultados, bons dividendos”, afirmou.
O valuation atrativo por si só não seria motivo suficiente para apostar em uma alta, não fosse o contexto macroeconômico favorável, que une a tendência global de diversificação e dólar enfraquecido com a perspectiva de queda de juros no Brasil.
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu reduzir a taxa básica de juros da economia em 0,25 ponto percentual em sua última reunião, em março deste ano. A Selic caiu de 15% para 14,75% ao ano, em seu primeiro corte em quase dois anos.
“Os estrangeiros compram agressivamente [quando ocorre] o corte. E o Brasil ainda não recebeu ainda esse fluxo de capital, porque o Copom acabou de começar um ciclo de redução de juros em paralelo com uma aversão a risco global”, pontuou André Caldas, da Sprint Capital.
O gestor projeta que a taxa de juros deve ficar na faixa entre 11% e 12% nos próximos 12 a 18 meses – um patamar ainda elevado, mas que será mais atrativo para o investidor.
O maior risco para o cenário é a possibilidade de um conflito prolongado no Oriente Médio que eleve a inflação e coloque uma possível recessão global no radar.
Não é, porém, o cenário-base. “No momento em que o Irã começa a participar das discussões isso demonstra que a guerra não vai durar três ou seis meses”, disse Caldas.
André Lion, da Ibiuna Investimentos, reforçou que os rumos da guerra estão completamente abertos e que, apesar das boas perspectivas para a bolsa, não é possível retomar integralmente o cenário anterior ao conflito.
“Nós já aumentamos o investimento no setor de energia como um todo. Não se pode manter a cabeça de janeiro achando que é tudo igual: aquele cenário não existe mais”, afirmou.
Para uma retomada consistente da renda variável no Brasil, outro fator será determinante: a volta do investidor local. Mais conservador, esse perfil de investidor ficou majoritariamente de fora da alta ocorrida nos primeiros meses deste ano.
Lion projeta que o fluxo de retomada para o restante de 2026 deve continuar ancorado no investidor estrangeiro, que vê o mercado local como uma alocação de oportunidade. Para que o investidor doméstico retorne, ainda é preciso que os juros recuem com maior consistência.
“A partir do momento que a gente entrar em um ciclo real de afrouxamento monetário, o investidor vai ficar incomodado em perder o retorno de 1% ao mês [na renda fixa]. Precisamos de uma clareza maior, de um ciclo de cortes mais prolongado. Não apenas um ciclo de calibração de política monetária”.
Os executivos da Tenda estão otimistas com as perspectivas da empresa para 2026. A construtora, especializada no segmento de baixa renda, é um dos principais players nas faixas de entrada do Minha Casa Minha Vida (MCMV) — e pode ser beneficiada por um reajuste no programa.
No início de março, o Ministério das Cidades propôs aumentar o limite de renda familiar em todas as faixas do MCMV, além de elevar o teto das faixas 3 e 4, as mais altas do programa habitacional. As mudanças atendem a uma demanda da classe média e têm peso político relevante em ano eleitoral.
Para a Tenda, o ponto central da proposta é o reajuste na faixa 1, que concentra metade da base de clientes da construtora. Por essa proposta, o limite de renda da faixa poderia subir de R$ 2.850 para R$ 3.200, caso aprovada pelo conselho curador do FGTS.
“A renda mediana do nosso cliente é de R$ 3.000, então estimamos que poderemos capturar os benefícios desse movimento de forma expressiva”, afirmou Luiz Garcia, CFO da Tenda, em entrevista à Bloomberg Línea.
A empresa tem surfado o bom momento do MCMV, programa que ganhou força no terceiro mandato do presidente Lula.
A expectativa para 2026 é de manutenção da tendência: a Tenda anunciou na última quinta-feira (5) que atingiu R$ 1 bilhão em vendas brutas nos dois primeiros meses de 2026, crescimento de 27% na comparação com o mesmo período do ano anterior.
“O resultado não responde a nenhum fator sazonal, e é algo que mostra a força tanto do do bom momento da companhia, quanto do cenário macroeconômico com o MCMV”, afirmou.
Para o ano, a incorporadora projeta lucro líquido consolidado entre R$ 500 milhões e R$ 600 milhões, excluindo o resultado de swap de dívida, o que representaria um crescimento de 35% a 62% no indicador.
A projeção foi divulgada junto com o balanço do quarto trimestre de 2025, que veio em linha com as expectativas do mercado. No período, a Tenda registrou lucro de R$ 104,6 milhões, salto de 390,9% na comparação anual.
O desempenho foi puxado pela divisão de incorporação vertical, enquanto a Alea, braço de casas pré-fabricadas da companhia, seguiu no vermelho. A subsidiária registrou prejuízo líquido de R$ 50,2 milhões no trimestre e R$ 130,4 milhões no acumulado de 2025.
O breakeven da Alea, que estava previsto para o ano passado, precisou ser adiado depois que a companhia “acelerou antes da hora” e foi obrigada a recalibrar sua estratégia. A nova meta é atingir o breakeven em 2027. Para este ano, a projeção é de queima de caixa entre R$ 60 milhões e R$ 80 milhões — bem abaixo dos R$ 154,2 milhões consumidos em 2025.
“Apesar do prejuízo de Alea, entregamos um bom resultado consolidado graças à força da Tenda. Então o foco este ano é seguir crescendo nesse segmento, que está em um momento muito positivo”, disse.
As ações da Tenda (TEND3) subiram 7,5% no pregão seguinte à apresentação do balanço. Os papéis acumulam ganhos de 30% no ano e de 115% em 12 meses até a quarta-feira (11).
A faixa 1 ainda responde por metade dos negócios da Tenda no MCMV, mas a empresa tem ampliado progressivamente sua presença nos demais segmentos de renda. Hoje, o mix inclui 34% das unidades voltadas à faixa 2 e 15% à faixa 3.
Segundo Garcia, a expectativa é que, até o fim de 2026, a distribuição esteja mais equilibrada, com a faixa 3 chegando a uma fatia entre 20% e 25% do portfólio.
A atuação na faixa 4, porém, não está nos planos. A avaliação da companhia é que o segmento mais alto do programa é incompatível com o modelo de construção industrializado adotado pela Tenda.
“A faixa 4 frequentemente exige projetos arquitetônicos mais elaborados e uma engenharia mais flexível, o que demanda mais mão de obra. Não queremos seguir esse caminho”, afirmou o executivo.
O tema da mão de obra, aliás, está no centro das preocupações do setor. A inflação de custos trabalhistas avança de forma contínua desde 2023, e o Congresso deve discutir ainda este ano o fim da escala 6x1, regime amplamente utilizado na construção civil.
Para o CFO da Tenda, se a eventual mudança mantiver o limite de 40 horas semanais, o impacto sobre a empresa deve ser limitado, já que essa é a média atual de produtividade dos seus trabalhadores. O modelo industrializado também ajuda, por demandar um número menor de pessoas no canteiro.
“Já estamos bem posicionados para enfrentar esse cenário. O componente de mão de obra da Tenda está cerca de 10 pontos percentuais abaixo da média do segmento econômico”, concluiu.
-- Reportagem atualizada às 15h32, de 12/03/2026, para corrigir a informação de que a perspectiva de que a faixa 3 chegue a a uma fatia entre 20% e 25% do portfólio é para o fim de 2026, e não de 2025.
A Bayer projeta uma virada de ciclo em sua divisão farmacêutica na América Latina após enfrentar um aumento na competição com genéricos nos últimos quatro anos.
Adib Jacob, presidente da divisão para América Latina e Brasil, projeta crescimento de 10% nas vendas líquidas da região para 2026 — o dobro do ritmo registrado em 2025, quando a divisão avançou 5,4%, para 824 milhões de euros.
O combustível para o crescimento virá, segundo ele, da expansão do portfólio, com a chegada de novos medicamentos ao mercado latino-americano. Além disso, a expectativa é que novas indicações ampliem o alcance de produtos já estabelecidos.
“Vamos ter, pelo menos, sete motores de crescimento em diferentes áreas, como oncologia, cardiorenal, hemofilia, saúde feminina, oftalmologia e AVC. Não estamos colocando todos os ovos na mesma cesta”, afirmou o presidente da divisão a jornalistas no encontro anual da empresa para a América Latina, realizado na última segunda-feira (9).
A Bayer estima que a categoria mais promissora será a de produtos associados à darolutamida, molécula utilizada para tratamento oncológico no câncer de próstata.
A expectativa é alcançar 300 milhões de euros em potencial de venda em LatAm com a ampliação da indicação original para abranger outros estágios do câncer.
Outra aposta da Bayer está no uso da molécula finerenona, atualmente usada no tratamento renal de pacientes com diabetes tipo 2.
A farmacêutica lançou há um ano e meio uma segunda indicação para o medicamento, desta vez para uso contra falha cardíaca.
A expansão do medicamento pode levar o produto a 200 milhões de euros em vendas apenas na América Latina, segundo os cálculos da empresa.
Perda de patentes
O apetite da Bayer para novos lançamentos representa a aposta da empresa em diversificar o portfólio. O movimento se intensificou após perda de patente de um de seus principais blockbusters, o anticoagulante Xarelto.
Um dos produtos mais relevantes do portfólio global da Bayer, o medicamento chegou a representar um terço das vendas na América Latina.
O Xarelto perdeu a proteção de patente no Brasil em 2021 e viu a exclusividade se encerrar nos demais mercados da região até 2024, quando o México foi o último a abrir espaço para os genéricos.
“O Xarelto era o maior medicamento do mercado farmacêutico brasileiro, vendia mais que o Dorflex”, disse o executivo, em referência a um dos remédios mais conhecidos no Brasil, produzido pela concorrente Sanofi. “Foi um fenômeno importante para nós, com a chegada de mais de 50 genéricos no mercado.”
Mesmo assim, a América Latina terminou 2025 como a segunda região de maior crescimento em vendas globais da Bayer, atrás apenas dos Estados Unidos.
O resultado LatAm veio positivo apesar do desempenho do México, cujas vendas líquidas recuaram 1,5% ainda sob o peso da perda de exclusividade do Xarelto.
A expectativa, no entanto, é que a recuperação no mercado mexicano seja a mais forte da região este ano, com um crescimento anual de 20%.
“Não prevemos nenhuma perda de patente significativa para os próximos cinco anos. Isso, somado a novos lançamentos como motores de crescimento, deve trazer anos promissores para a companhia”, afirmou Jacob.
Inovação em LatAm
A divisão farmacêutica da Bayer também aposta na América Latina para pesquisas de desenvolvimento de novos produtos que ajudem à fazer frente ao aumento da competição com medicamentos genéricos.
No Brasil, a frente de pesquisas foi reforçada no final de 2025 após a aprovação da nova Lei da Pesquisa Clínica, que encurtou os prazos para aprovação de projetos para até 90 dias. A estimativa é que os prazos anteriores levavam de seis meses a um ano.
Atualmente, o Brasil participa de menos de 2% da pesquisa clínica mundial nos cálculos do governo federal. A expectativa é que a nova lei dobre o número de estudos registrados em 2024 e ajude a reverter uma tendência de queda iniciada em 2022, quando outros países tornaram seus marcos regulatórios mais competitivos.
Jacob avalia que a mudança incentivou “profundamente” a atração de novas pesquisas para o Brasil. Entre os próximos passos da Bayer, a empresa se prepara para realizar no país sua primeira pesquisa de fase 1 – primeira etapa de testes de um medicamento em seres humanos – fora dos Estados Unidos e da Europa.
“É um movimento que fala da capacidade dos hospitais, centros e médicos latino-americanos em fazer ciência de alta qualidade, mas também da heterogenidade de pacientes da região. A diversidade da população latina é um ativo para estudo de qualquer molécula”, afirmou.
Fábrica da Bayer na planta de Lerma, no México: país deve ter o maior crescimento em vendas líquidas da região em 2026, com estimativa de incremento de 20%
Seis anos após o início da pandemia de covid-19, o regime de trabalho presencial se consolidou novamente nas empresas brasileiras – e o mercado imobiliário de escritórios já reflete a mudança em seus indicadores.
São Paulo, maior mercado corporativo do país, registrou em 2025 seu segundo melhor resultado dos últimos cinco anos em absorção líquida, que mede a diferença entre o total locado e o devolvido.
Foram 289.000 metros quadrados absorvidos no ano passado de acordo com dados da CBRE, consultoria global de referência no mercado imobiliário comercial e a maior do Brasil no setor.
“Houve um represamento de demanda de empresas que cresceram na pandemia e não estavam buscando escritórios devido ao home office. É um movimento que desaguou nos últimos dois anos, com as companhias voltando a locar espaços”, afirmou Edson Ferrari, vice-presidente da CBRE Brasil, em entrevista à Bloomberg Línea.
O Nubank foi o último caso emblemático desse movimento. A fintech manteve por cinco anos um dos modelos mais flexíveis do mercado, com exigência de apenas uma semana de trabalho presencial a cada três meses. No final do ano passado, o banco digital anunciou uma mudança gradual para o modelo híbrido que começou com uma forte movimentação no mercado de escritórios.
A empresa fez uma das maiores locações do último ano ao ocupar 14.957 m² no edifício Capote 210, em Pinheiros, a poucos metros da atual sede. Na esteira dessa locação, a região de Pinheiros registrou a maior redução de vacância da cidade no ano passado, com uma queda de 14,4 pontos percentuais segundo levantamento da consultoria Binswanger.
Ainda assim, o movimento de retomada dos espaços ainda não foi suficiente para elevar o apetite do investidor pelo real estate corporativo.
O segmento tem apenas 18% de interesse de alocação de investidores este ano na América Latina, contra 40% do setor de logística, que segue sendo o mais desejado da região. Os dados são da pesquisa Investor Sentiment Survey da CBRE, adiantada com exclusividade à Bloomberg Línea.
“A volta para o escritório está sacramentada e vemos preços cada vez melhores, com o segmento ganhando tração nos próximos anos. Mas os fundos estavam sobrealocados no setor quando veio a pandemia. Então, observamos primeiro a queda da vacância antes que o investimento volte, o que ainda pode levar algum tempo”, avaliou Ferrari.
O diagnóstico é reforçado por levantamentos de pares do setor, que também observaram uma queda no número de projetos liderados pelos investidores de real estate. O resultado é um enxugamento do número de estoques e queda na taxa de vacância da cidade.
Relatório da consultoria Cushman & Wakefield estima que a adição de novo estoque classe A em 2025 foi limitada e concentrada em poucos mercados, “confirmando um ciclo de desenvolvimento cauteloso”. A cidade de São Paulo adicionou 49.908 m² de escritórios classe A no último ano nos cálculos da Cushman, 35% menos do que os 76.718 m² apurados em 2024.
Já a consultoria Newmark estimou que o crescimento de 15,9% dos estoques foi abaixo da expectativa para o ano, chegando ao nível mais baixo desde 2012. Como consequência, houve uma crescente valorização do preço médio de escritórios na cidade, que subiu 4% na comparação anual, para R$ 115,2 mensais por metro quadrado ao final de 2025.
No levantamento da Cushman, o preço em São Paulo segue sendo o mais caro da América Latina, em torno de US$ 26,3 (aproximadamente R$ 137,6) por metro quadrado ao mês – uma alta de 20% no acumulado de 2025.
“A tendência de preços ao longo de 2025 confirma um cenário no qual os ajustes de alta se concentraram em mercados e regiões com fundamentos mais sólidos, enquanto, naqueles com maior disponibilidade, os valores tenderam a se estabilizar ou a se ajustar de forma mais gradual”, informou o relatório.
As regiões mais buscadas da capital paulistana estão em torno do eixo financeiro, especialmente ao redor das Avenidas Brigadeiro Faria Lima e Juscelino Kubitschek. Dados da consultoria Binswanger apontam que a escassez e os preços podem ser ainda maiores nestes eixos premium.
O eixo financeiro da cidade encerrou o ano com vacância de apenas 9,2%, e o preço médio pedido ultrapassou R$ 200/m² mensais. Entre os locais mais disputados da Faria Lima, os contratos de locação chegam ao preço de R$ 420/m² por mês.
Apesar da tendência positiva para o mercado de escritórios, um fator que preocupa globalmente os investidores é o impacto que a inteligência artificial pode ter nesse mercado. O grande temor é que a IA seja responsável por demissões em massa de funcionários e diminua a necessidade das companhias por espaço corporativo.
A CBRE foi um dos casos mais emblemáticos do chamado “IA scary trade” em fevereiro: as ações da empresa desabaram 20% na bolsa no acumulado de dois pregões após a divulgação do balanço – mesmo com a empresa apresentando um resultado acima do esperado.
O CEO Bob Sulentic admitiu na conferência de resultados que é possível que a inteligência artificial reduza a demanda por espaços de escritório no longo prazo. No entanto, Sulentic de que não há indicação de que o core business da empresa não sofrerá disrupção de IA.
“Estamos bastante confiantes de que o negócio é impulsionado pelo pensamento estratégico e criativo de nossos brokers. E acreditamos que isso continuará sendo verdade – não vimos nenhuma evidência em contrário”, afirmou.
Ferrari, vice-presidente da CBRE Brasil, afirmou que a empresa não identificou até o momento um cliente que tenha reduzido significativamente sua área ocupada como consequência direta da adoção de IA. Segundo o executivo, o padrão observado é de alteração de layout, com algumas áreas perdendo postos e outras com contratações.
“Vemos empresas que tinham 30 pessoas numa determinada área, por exemplo, que foi reduzida a cinco pessoas questão de eficiência. Mas são companhias que crescem em outras frentes, e continuam locando mais área de escritório”, afirmou.
Já a Cushman & Wakefield estima que mercados e edifícios concentrados em funções de back-office ou associados a funções repetitivas e de alto volume são os mais propensos a serem impactados pela IA e, consequentemente, sofrer pressão estrutural de demanda.
“Para muitas organizações, um modelo híbrido se tornará mais atraente, com uma área central menor, otimizada para a tomada de decisões e a cultura organizacional, apoiada por uma capacidade flexível que pode absorver a volatilidade – picos de crescimento, equipes de projeto, entradas em novos mercados e reorganizações – sem a necessidade de compromissos de longo prazo", afirmou Richard Pickering, diretor de previsão estratégica e inteligência da Cushman, em relatório.
O estudo, divulgado em março deste ano, estima os impactos da IA no mercado de Estados Unidos e Europa. A consultoria ainda não realizou um levantamento específico sobre o tema para a América Latina.
o movimento de retomada dos espaços ainda não foi suficiente para retomar o apetite do investidor pelo real estate corporativo. (Foto: Paulo Fridman/Bloomberg)
Um dos pilares da Natura (NATU3) no desenvolvimento de produtos é sua atuação de 25 anos de pesquisas na Amazônia. A floresta tropical abriga a maior biodiversidade do planeta e se tornou a principal fonte de novos bioativos para uso cosmético na empresa.
A fabricante de produtos de beleza agora enxerga potencial para explorar outro ecossistema mais sul, o da Antártida.
Por meio do Natura Ventures, seu fundo de corporate venture capital (CVC), a companhia acaba de co-liderar uma rodada de investimento Seed de US$ 3,5 milhões (aproximadamente R$ 18 milhões) na Antarka, startup uruguaia de biotecnologia focada em soluções para longevidade da pele, que pesquisa o continente gelado.
Enquanto a Amazônia fornece uma ampla gama de matérias-primas exclusivas da região, o potencial da Antártida está nos microrganismos escondidos no gelo que conseguem viver em condições climáticas extremas.
“O investimento nos ajudou a descobrir que existem outras formas de conseguirmos nos diferenciar através de bioativos que não dominamos na Amazônia”, afirmou José Manuel Silva, vice-presidente de novos negócios da Natura, à Bloomberg Línea.
A startup de biotecnologia tem um projeto que busca explorar o potencial cosmético das fotoliases antárticas, enzimas capazes de reparar o DNA danificado pela radiação ultravioleta (UV), responsável por cerca de 80% dos danos visíveis causados à pele humana. O objetivo da tecnologia é alcançar o núcleo da célula, revertendo o dano em sua origem.
“A hipótese que a equipe científica tinha naquele momento era que os microrganismos que sobreviveram às condições extremas da Antártida contavam com algo muito interessante do ponto de vista científico. E depois, como indústria, encontramos uma aplicação que é disruptiva”, disse Stefano Valdesolo, cofundador e CEO da Antarka, na mesma entrevista.
O modelo tem potencial de representar uma mudança de paradigma nas estratégias de combate ao envelhecimento da pele pela indústria de cosméticos.
“Essa talvez seja a primeira tecnologia que realmente regenera a célula. Nós da Natura e o mercado em geral temos soluções que retardam o envelhecimento da pele mas não vão até o núcleo celular. Isso foi o que mais nos chamou a atenção para realizar o investimento”, disse o vice-presidente de novos negócios da Natura.
A Natura não foi a única interessada. O fundo de corporate venture capital da empresa, gerido pela Vox Capital, dividiu a liderança da rodada com o Zentynel, fundo de venture capital latino-americano especializado em biotecnologia.
Também participaram da rodada o GS Futures, braço de venture capital dos Estados Unidos pertencente ao conglomerado sul-coreano de energia e construção GS Group, e a CTK, uma das principais fabricantes de cosméticos da Coreia do Sul.
A descoberta do potencial das enzimas nasceu de um projeto científico realizado pela Faculdade de Ciências da Universidade da República do Uruguai, com apoio do Instituto Antártico Uruguaio e do Ministério de Defesa do país.
A startup foi fundada em 2023, e, dois anos depois, foi firmado um acordo de transferência tecnológica que permitiu à Antarka buscar a comercialização da tecnologia.
No mesmo ano, a startup recebeu um aporte de capital de risco global por meio de um investimento da SOSV, líder em investimentos em deep tech em estágio inicial, via seu programa de aceleração em biotecnologia, batizado Indie Bio.
A SOSV também participou da rodada Seed fechada este mês via follow-on, junto a outros investidores.
“Essa rodada nos permite começar a comercializar a tecnologia, fechar parcerias e escalar a operação comercial com parceiros a nível global. A Natura é um deles, especialmente para a América Latina”, afirmou Valdesolo.
José Manuel Silva, da Natura, reforçou que o aporte na Antarka opera no conceito smart money. O modelo permite que, além do capital, a empresa investida tenha acesso aos laboratórios e centros de pesquisa da fabricante brasileira.
Como líder da rodada, a Natura conta ainda com uma exclusividade do primeiro ciclo de desenvolvimento para os próximos 24 meses.
“Nosso grande interesse não é em si a exclusividade, mas sim ajudar cada vez mais a Antarka a encontrar outras enzimas semelhantes para outros perfis em um segmento em um perfil de mercado que cresce cada vez mais: o da geração prateada”, disse Silva.
O termo geração prateada faz referência aos cabelos grisalhos do público acima de 50 anos, que cresce em relevância acompanhando o envelhecimento da população, e é um dos principais alvos de investimento da Natura para os próximos anos.
Inicialmente, as descobertas devem ser usadas para evoluir linhas já existentes, como Renew e Chronos, para depois entrar em lançamentos.
A estimativa da empresa é que o aporte da Antarka diminua pela metade o tempo de desenvolvimento de novos produtos focados em soluções para saúde e envelhecimento da pele.
Atualmente, o processo entre a descoberta de um bioativo e aplicação no produto final é de seis anos e meio.
O investimento na Antarka foi o primeiro aporte em biotecnologia do Natura Ventures e o quarto da história do fundo.
Lançado em 2024 com capital inicial de R$ 50 milhões, o fundo aportou recursos na brasileira Abbiamo e na chilena WareClouds, voltadas à logística inteligente, e na norte-americana Mango Materials, que aposta em soluções para substituição de plástico com biopolímeros renováveis.
Como próximos passos, Silva enxerga oportunidade para investimento ainda no setor logístico, além de oportunidades em deep tech e inteligência artificial associada ao futuro da venda por relacionamento. “Estamos com um pipeline bem agressivo, e com o desafio de fazer as escolhas certas”, diz.
A empresa segue com apetite para realizar até três investimentos por ano, com aportes em média de R$ 2 milhões e R$ 10 milhões.
“Continuamos com o apetite inicial, mas os aportes variam por segmentos. Algo de deep tech talvez precise de um bolso maior, por exemplo”, afirmou o executivo.
A empresa não abriu qual foi sua participação na rodada de US$ 3,5 milhões na Antarka.
Com a entrada da startup uruguaia no portfólio, a Natura Ventures reforça posição na América Latina, uma vez que três de suas quatro investidas estão na região. A estratégia do fundo segue o posicionamento da empresa-mãe, que foca suas operações na região após tentativa de expansão global.
Na última semana, a companhia confirmou a venda da Avon Rússia, último passo de simplificação das operações que envolveu ainda a venda de outros ativos globais como a Aesop e a The Body Shop.
O processo durou três anos e meio e, segundo fato relevante divulgado pela empresa, a última venda “consolida o foco no crescimento de seu negócio na América Latina”.
Exploração da Antarka na Antártida: projeto que busca explorar o potencial cosmético de enzimas capazes de reparar o DNA danificado pela radiação ultravioleta (UV). (Foto: Divulgação)
O Santander Brasil (SANB11) vai mudar sua sede corporativa do Complexo JK, que abriga também o shopping JK Iguatemi, para um novo empreendimento construído pela gestora americana GTIS Partners em São Paulo.
Em comunicado divulgado nesta terça-feira (24), a unidade do banco espanhol no Brasil estima que a mudança ocorra no segundo semestre de 2028.
Batizado de “Campus JK”, o novo empreendimento está em construção na Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, a cerca de 1,5 quilômetro de distância da sede atual e ocupa uma quadra inteira na avenida. Empreendimento terá mais de 101.000 metros quadrados de área construída em um terreno de 15.000 metros quadrados, segundo o banco.
O complexo será composto por três torres corporativas interligadas, com seis andares de escritórios, quatro níveis de garagem e um rooftop privativo.
A construção em formato de campus horizontal, com prédios mais baixos, contrasta com a atual sede que é composta de uma torre única de 28 andares.
“O Campus JK representa muito mais do que uma mudança de endereço. É uma decisão estratégica alinhada ao conceito global de espaços corporativos do Grupo Santander, e pensada para acompanhar a evolução do nosso negócio e da sociedade nas próximas décadas”, afirmou, em nota, Mario Leão, CEO do Santander Brasil.
O empreendimento busca certificação LEED Platinum – o nível mais alto do principal sistema internacional de avaliação de sustentabilidade em construções – com foco em eficiência energética, gestão hídrica e redução de emissões de carbono.
À frente do projeto, a GTIS Partners, gestora com sede em Nova York e US$ 4,9 bilhões em ativos sob gestão, foi responsável por outros projetos de destaque na capital paulista, como o edifício Infinity e o Hotel Palácio Tangará.
A expectativa é que o banco seja proprietário de sua nova sede, assim como já é do prédio atual. O Santander ainda não informou qual será o destino da sede no Complexo JK ou se o teatro Santander, localizado ao lado da torre corporativa, também será transferido.
A operação ainda depende de aprovação regulatória.
Atual sede do Santander Brasil em São Paulo, no Complexo JK: banco irá mudar de local a partir do segundo semestre de 2028. (Foto: Divulgação/Santander Brasil)
A presidente do Banco do Brasil, Tarciana Medeiros, definiu o ano de 2025 como o mais desafiador entre os seus 26 de carreira na instituição. O principal obstáculo foi o agronegócio, que segue com a inadimplência elevada e vem pressionando os resultados do banco desde o início do ano passado.
O Banco do Brasil (BBAS3) é o maior financiador do agro do Brasil, com um terço da carteira de crédito voltado para o segmento – um montante de R$ 406 bilhões. Para 2026, o banco vai reduzir o apetite no agro, com perspectiva de crescimento zero da carteira no ponto médio do guidance (projeção), que vai de -2,0% a +2,0%.
A expectativa da CEO é que o freio no crédito ajude o BB a arrumar a casa e entregar avanço em duas das linhas mais observadas pelos investidores: lucro líquido e rentabilidade.
“2025 foi um ano desafiador que apresentou queda depois do maior resultado do BB. Foi um ano que tivemos comportamento atípico no agronegócio”, afirmou Medeiros a jornalistas nesta quinta-feira (12), um dia após a divulgação dos resultados.
O lucro líquido acumulado do BB no ano foi de R$ 20,68 bilhões, queda de 45,4% frente ao recorde apurado em 2024. Para 2026, o banco projeta alta de 15% na última linha do balanço, considerando o ponto médio da projeção para o ano – um saldo de R$ 24 bilhões.
Já o retorno sobre o patrimônio líquido médio (ROAE), principal indicador de rentabilidade do banco, ficou em 11,4% no acumulado de 2025 – bem abaixo dos 21,4% do ano anterior. Na mínima do ano, o ROE chegou a cair para o patamar de 8,4% no segundo e no terceiro trimestre.
O BB havia adiantado que o primeiro passo era retomar um ROE de dois dígitos – meta que foi alcançada no quarto trimestre. O próximo movimento é avançar para a faixa intermediária, entre 14% e 16%, antes de buscar a retomada do patamar de 20% que costumava ser o padrão.
“Este ano podemos começar a mirar os ‘mid teens’ [patamar entre 14% 16%]. Isso vai depender de quão rápido se recuperam os agricultores, da nossa eficiência na cobrança, do estancamento das recuperações judiciais”, afirmou Geovanne Tobias, CFO do Banco do Brasil, na mesma conversa.
“Com a MP, esperamos o arrefecimento desses volumes, sejam financeiros ou de clientes entrando em RJ”, afirmou Felipe Prince, CRO do BB.
A postura mais conservadora do BB foi inicialmente bem recebida no mercado. As ações chegaram a subir até 7% logo início da sessão, mas perderam força ao longo do dia e operavam com ganhos de 2,65% por volta das 14h.
O agronegócio já foi fortaleza do Banco do Brasil no pós-pandemia. Enquanto outros grands bancos eram prejudicados pela alta inadimplência, o BB teve dois anos de resultados recordes, em 2023 e 2024, alcançando até R$ 9,6 bilhões de lucro.
O cenário mudou em 2025 por uma combinação desafiadora de safras e um aumento expressivo nas recuperações judiciais do setor nos últimos dois anos.
O saldo de clientes em RJ passou de 176 ao final de 2022, para 608 em dezembro de 2024 e 980 no último mês do ano passado. O saldo total em RJ subiu de R$ 400 milhões para R$ 7,1 bilhões no mesmo período.
Enquanto mira uma atuação mais firme junto aos inadimplentes – inclusive com medidas judiciais –, o BB anunciou, ainda em 2025, a meta de crescer na pessoa física para deixar o portfólio menos suscetível ao momento do agro.
O banco reforçou a mensagem ao apresentar o guidance para 2026. Enquanto outras linhas podem apresentar encolhimento, a de pessoa física é a maior aposta do banco, com crescimento previsto entre entre 6,0% e 10,0%.
Medeiros afirmou que a prioridade é crescer em linhas mais conservadoras como crédito consignado público e privado – o BB é líder no segmento público e quer buscar 20% de participação de mercado no privado.
“No crédito não consignado, onde já tivemos no passado algumas questões, vamos focar em públicos estratégicos: um cliente que já está conosco há muito tempo e sabemos histórico de inadimplências. E também em linhas com garantias de imóveis, saldo de previdência”, disse.
O BB também renovou o apetite para a alta renda, considerado um segmento prioritário entre os bancos que querem crescer na PF sem comprometer a inadimplência.
O CFO anunciou durante a coletiva que o BB terá sua primeira sala VIP em Guarulhos, seguindo o exemplo dos principais concorrentes que já possuem espaços no aeroporto para alta renda.
O Banco do Brasil (BBAS3) apresentou lucro líquido recorrente de R$ 5,74 bilhões no quarto trimestre de 2025 – acima dos R$ 4,11 bilhões esperado pelo consenso de analistas consultados pela Bloomberg, segundo resultado divulgado ao mercado no começo da noite desta quarta-feira (11).
O saldo representa uma queda de 40,1% frente ao mesmo período do ano passado, mas mostra recuperação após o impacto da crise do agronegócio que derrubou os números no segundo e no terceiro trimestres para a casa dos R$ 3,8 bilhões.
Na comparação com os três meses imediatamente anteriores, o lucro do banco liderado pelo CEO Tarciana Medeiros subiu 51,7%.
No acumulado do ano, a última linha do balanço apontou um lucro líquido de R$ 20,68 bilhões, queda de 45,4% frente ao apurado em 2024.
Já o retorno sobre o patrimônio líquido médio (ROAE), principal indicador de rentabilidade do banco, ficou em 12,4% – queda frente aos 20,8% registrados no mesmo período de 2024, mas novamente com recuperação frente ao patamar de 8,4% do terceiro trimestre.
A margem financeira alcançou R$ 27,8 bilhões, ganho de 3,8% na comparação anual e de 5,4% em três meses.
A carteira de crédito expandida somou R$ 1,297 trilhão no período, alta de 2,5% em 12 meses e de 1,4% frente ao terceiro trimestre.
O BB totalizou um crescimento de 3,1% da carteira no acumulado de 2025, próximo à faixa inferior do guidance que estimava um avanço entre 3% e 6% no período - o banco revisou a projeção para baixo ao longo do ano diante do impacto negativo da carteira do agronegócio.
Em inadimplência, o índice de atrasos acima de 90 dias avançou 2,1 pontos percentuais na comparação anual, para 5,17%. Frente ao último trimestre, houve avanço de 0,66 ponto percentual.
Guidance para 2026
Junto ao resultado, o Banco do Brasil apresentou suas projeções para 2026, com um guidance mais conservador do que o de 2025, especialmente no crédito.
A expectativa é que haja um avanço de 0,5% a 4,5% na carteira total ao longo do ano, com a maior força vindo da pessoa física, em que o BB espera avançar no intervalo entre 6,0% e 10,0%.
No agronegócio, a faixa esperada vai de -2,0% a +2,0%, enquanto a de pessoas jurídicas tem a menor projeção de crescimento, entre -3,0% a +1,0%.
O BB espera reportar em 2026 um lucro líquido ajustado próximo ao patamar de 2025, entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões.
Já a projeção para avanço da margem financeira bruta ficou entre 4% a 8%.
O custo de crédito deve ficar no intervalo entre R$ 53 bilhões e R$ 58 bilhões.
O banco espera um crescimento de 2% a 6% em relação às receitas de prestação de serviço, enquanto estima avanço de 5% a 9% para as despesas administrativas.
O Banco Daycoval, conhecido principalmente por sua frente de crédito empresarial, deu seu mais recente passo de diversificação de negócios há pouco mais de um ano, com o lançamento de uma corretora.
O primeiro ano de operação foi marcado por resgates em fundos e volumes fracos de negociação, um reflexo de uma dinâmica mais ampla de mercado diante de taxas de juros que seguem elevadas desde 2022.
“Foi um ano difícil e ainda não alcançamos o volume de negociação que seria ideal. Mas tivemos um resultado que consideramos positivo na adesão e na prospecção de clientes: estamos com 20 gestoras e pretendemos alcançar pelo menos 30 em 2026”, disse Marcos Alexandre Lyra, diretor da Daycoval Corretora de Valores, em entrevista à Bloomberg Línea.
Além de aumento do número de gestoras atendidas, o Daycoval pretende abrir relacionamento com quatro a cinco bancos este ano – atualmente a corretora não possui nenhuma instituição financeira como cliente na frente de negociação.
O Daycoval recebeu aprovação do Banco Central para abrir a corretora ainda em 2023, e o lançamento oficial ocorreu em outubro do ano seguinte.
Lyra considera 2025 o primeiro ano de real operação da casa, que começou com foco em clientes do próprio banco.
“Captamos 10% dessa sinergia interna. Isso significa que ainda tem muito espaço para crescer. Além disso, tivemos uma surpresa positiva com demanda também de clientes externos, que podem usar a corretora como uma nova porta de entrada para o banco”, disse o executivo.
Atualmente, 70% da receita da corretora vem de clientes institucionais, e 30%, de pessoas físicas. A meta para 2026 é equilibrar esse mix em 50% para cada segmento.
“Acredito que a queda da taxa de juros será um grande gatilho para a chegada de novos clientes que querem operar no mercado acionário”, disse o executivo em referência à expectativa consensual do mercado para a Selic.
Montagem de equipes e estrutura
De olho no crescimento, o Daycoval montou uma estrutura com mesas especializadas em mercado listado, mercados futuros, títulos e aluguéis de ações – esta última como porta de entrada principal de novos clientes para a corretora.
Nos próximos meses, a empresa deve reforçar a equipe comercial e busca profissionais especializados em produtos estruturados.
A expectativa é atingir de 50% a 60% de penetração na base de clientes do Daycoval ainda neste ano.
A médio prazo, Lyra estima que a frente deve responder por uma fatia entre 7% e 8% do resultado consolidado do banco, que hoje gira em torno de R$ 1,3 bilhão.
A corretora marcou o retorno do Daycoval às atividades de trading, que representaram sua porta de entrada no mercado financeiro brasileiro.
O Banco Daycoval foi fundado pela família Dayan, com raízes na casa bancária criada pelo patriarca Selim Dayan, no Líbano.
No Brasil, a instituição teve início em 1968 com a Daycoval Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, sob o comando do empresário Alberto Dayan. Em 1970, ele criou com seu irmão, Sasson, a Valco Corretoras de Valores Mobiliários.
Já no final dos anos 1980, o negócio bancário da família Dayan recebeu autorização para se tornar um banco múltiplo com foco em crédito.
Sasson é atualmente presidente do conselho de administração, e seus filhos Carlos Moche Dayan e Salim Dayan são diretores-executivos do banco, ao lado do primo Morris Dayan.
Dois anos depois de apresentar seu plano de turnaround, o Bradesco voltou a entregar um resultado acima das expectativas dos analistas no quarto trimestre de 2025.
Ainda assim, o mantra de um plano de recuperação gradual - “step by step” - executado pelo CEO Marcelo Noronha foi questionado por analistas e investidores, que esperam por uma aceleração a partir deste ano.
A principal decepção veio com as projeções para 2026, classificadas como conservadoras. O lucro líquido estimado a partir do guidance aponta para um resultado de R$ 27,5 bilhões – abaixo da faixa de R$ 30 bilhões esperada para o acumulado deste ano.
“O mercado cobra mais que chefes e conselho [de administração]. Eles entenderam a estratégia, mas querem mais”, afirmou Noronha a jornalistas nesta sexta-feira (6) ao comentar os resultados do banco.
O plano de recuperação do Bradesco foi planejado para durar cinco anos, com conclusão até 2028.
Um dos grandes desafios é a recuperação do retorno sobre o patrimônio líquido médio (ROAE), principal indicador de rentabilidade do banco, que chegou a “afundar” para 6,9% em 2023 após uma estratégia que se mostrou equivocada de concessão de crédito no pós-pandemia. A título de comparação, o ROE buscado pelos concorrentes ronda ou até supera a casa de 20%.
O turnaround dos últimos dois anos elevou o ROE do Bradesco, que alcançou um indicador de 15,2% no quarto trimestre de 2025.
Foi a primeira vez que o ROE alcançou um patamar acima do custo de capital desde o início do plano de retomada no começo de 2024, pouco depois que Noronha assumiu como CEO em novembro de 2023, em substituição a Octavio de Lazari.
Noronha defendeu que o plano exige um nível ainda elevado de investimentos, especialmente em tecnologia, e que o Bradesco não vai alterar essa estratégia para ganhar competitividade no mercado no curto prazo.
“Não vamos mudar o que estamos fazendo [por causa do mercado]”, disse o CEO.
Noronha também refutou a tese que 2026 seria um ano de acomodação dentro da estratégia de retomada.
“Devemos ter um pouco mais de volatilidade no segundo semestre devido ao cenário eleitoral, mas vejo muita oportunidade de crescer”, afirmou.
O segundo maior banco privado do país estima um crescimento de receitas ancorado, entre outros pontos, no avanço do crédito.
A expectativa é crescer a carteira em 9,5%, no ponto médio do guidance, mas abaixo dos 11% de expansão registrada em 2025.
Ainda assim, o guidance fica acima do intervalo esperado pelo Itaú, que estimou uma faixa de crescimento entre 5,5% e 9,5% para a carteira de crédito.
Entre as alavancas do crédito, Noronha destacou o segmento de pequenas e médias empresas, em que há o maior apetite para crescimento junto com ganho de participação de mercado.
O Bradesco é líder no segmento, com uma fatia de mercado de 16,1%, com ganho de 2,3 pontos percentuais em participação desde o final de 2023.
Na alta renda, o foco é aprofundar mais o relacionamento mais do que ampliar a base de clientes.
Ainda assim, é esperado um crescimento na base, o que inclui o segmento Principal, lançado em outubro de 2024 para atender clientes com renda superior a R$ 25.000 e investimentos a partir de R$ 300 mil.
O banco encerrou o ano de 2025 com 320 mil clientes no Principal e pretende crescer a base em 150%, para 800 mil ao fim de 2026.
Após a divulgação dos resultados, os ADRs do Bradesco chegaram a cair 5% no after market na quinta-feira.
As ações preferenciais (BBDC4) operavam em queda de 3,2% por volta das 14h30, em momento em que o Ibovespa subia 0,35%.
“A ação tem que ser ajustada em 5%? Não tem problema. Estou super confiante na nossa organização”, acrescentou Noronha a analistas.
O foco na consistência tem sido um dos mantras do CEO do Itaú Unibanco (ITUB4), Milton Maluhy Filho desde que assumiu o comando do maior banco do país.
E não foi diferente ao comentar com analistas e jornalistas os resultados divulgados na noite de quarta-feira (4).
O Itaú entregou novamente um resultado considerado robusto pelo mercado e em linha com o consenso das expectativas: o banco somou um lucro líquido recorde de R$ 12,26 bilhões no quarto trimestre.
A distribuição dos lucros entre os acionistas é também um dos fatores que mantém o Itaú como top pick do setor do ponto de vista do sell side.
Desde o início da gestão de Maluhy, há cinco anos, o Itaú distribuiu R$ 105 bilhões em proventos - um payout de 58%.
“A valorização da nossa ação somada aos dividendos pagos e reinvestidos no período dá um retorno ao acionista próximo a 23% ao ano nos últimos cinco anos – um retorno muito alto", afirmou Maluhy a jornalistas na quinta-feira (5).
O Itaú não faz projeções sobre o patamar de retorno que o acionista pode esperar a partir de 2026, mas o CEO reforçou que o resultado é sustentável e que há espaço para manter o ritmo que tem sido apresentado nos últimos anos.
“Nós antevemos uma rentabilidade muito em linha com o que já estamos entregando. Estamos muito confortáveis e confiantes com o desempenho do banco, apesar de este ser claramente um ano com mais incertezas.”
Analistas projetam que o lucro acumulado do Itaú para 2026 deve ficar em aproximadamente R$ 50,6 bilhões, considerando o ponto médio a partir do guidance fornecido para algumas das principais métricas de negócios do banco.
Se esse cenário se concretizar, o resultado ficaria acima dos R$ 46,83 bilhões apurados ao longo do ano passado.
Um dos pontos de aceleração para este ano deve ser o crédito.
O Itaú Unibanco projeta crescimento da carteira de crédito total entre 5,5% e 9,5% ao longo deste ano – com um ponto médio de 7,5%, também acima dos 6% de expansão registrada no ano anterior.
Maluhy reforçou que não há nenhum segmento específico da carteira que terá mais protagonismo no ano. A frente de grandes empresas, no entanto, pode passar por um momento de maior volatilidade diante do cenário eleitoral e das expectativas para o mercado de capitais.
Ao longo do último ano, o Itaú revisou o guidance duas vezes, elevando as projeções para a margem financeira com clientes e com o mercado, o que resultou em um saldo final de R$ 2 bilhões a mais que o inicialmente estimado.
Questionado sobre uma possível reprecificação do valuation das ações – dado o fluxo crescente de investidores estrangeiros para o Brasil em janeiro e a continuidade do momento do Itaú, Maluhy preferiu não fazer projeções.
“Nosso trabalho é aumentar a criação de valor. No longo prazo, imaginamos que isso se reflete no valuation da companhia”, disse.
As ações do Itaú subiram 2% na quinta-feira (5) após a divulgação do balanço, para R$ 45,52 – máxima histórica, o que confere ao banco um valor de mercado aproximado de R$ 485 bilhões. Em 12 meses, a ação avançou 50%.
Milton Maluhy Filho, CEO do Itaú Unibanco, no Web Summit Rio 2025: agenda de geração de valor é sustentável, defende (Foto: Sam Barnes/Web Summit via Sportsfile)
O Bradesco (BBDC4) apresentou lucro líquido recorrente de R$ 6,516 bilhões no quarto trimestre de 2025, o que representou um avanço de 20,6% em 12 meses e de 5% na comparação trimestral.
O saldo ficou acima do consenso de analistas consultados pela Bloomberg, que estimava R$ 6,41 bilhões de lucro para o período.
No acumulado de 2025, o banco lucrou R$ 24,65 bilhões, um ganho de 26,1% comparado a 2024.
Já o retorno sobre o patrimônio líquido médio (ROAE), principal indicador de rentabilidade do banco, ficou em 15,2% – alta de 2,5 pontos percentuais (p.p.) em relação ao mesmo período do ano anterior e de 0,5 p.p. frente ao último trimestre.
“Apresentamos ROE superior ao nosso custo de capital, com crescimento da nossa rentabilidade por oito trimestres consecutivos”, informou o banco em nota divulgada à imprensa.
“A expectativa é que a nossa rentabilidade continue a aumentar de forma gradual e segura.”
Essa tem sido uma das principais métricas observadas por investidores e analistas e alvo de priorização no plano estratégico do CEO Marcelo Noronha desde que assumiu o comando do segundo maior banco privado do país em novembro de 2023.
A margem financeira alcançou R$ 19,245 bilhões, ganho de 13,2% na comparação anual e de 2,9% em três meses.
Por sua vez, a carteira de crédito expandida somou R$ 1,089 trilhão no período, alta de 11% em 12 meses e de 5,3% frente ao terceiro trimestre.
Guidance para 2026
Junto ao resultado, o Bradesco apresentou suas projeções para 2026.
A expectativa para a carteira de crédito é a de crescimento entre 8,5% e 10,5%. Já margem financeira líquida deve alcançar um intervalo de R$ 42 bilhões a R$ 48 bilhões no período.
As receitas com prestação de serviços devem avançar de 3% a 5%, enquanto o resultado da operação de seguros tem previsão de expansão entre 6% e 8% ao longo de 2026.
No campo de custos, o banco projeta aumento de 6% a 8% nas despesas operacionais.
Em um ano que sinaliza a retomada do apetite do investidor para a renda variável, a B3 – atualmente a única bolsa de valores em operação no Brasil – avança para diversificar seus negócios para além da negociação de ativos.
A empresa lançou nesta quinta-feira (5) a marca Trillia, que une cinco negócios de dados que operam dentro da B3.
O objetivo é consolidar uma fonte de receita recorrente desatrelada ao negócio de bolsa e, portanto, menos exposta ao ciclo macroeconômico mais volátil.
“A B3 tem capacidade de ser uma empresa ambidestra, atuando no core business no mercado de capitais e também [aproveitando essa] oportunidade de crescimento nas adjacências”, afirmou o CEO da B3, Gilson Finkelsztain, à jornalistas em evento nesta quinta-feira (5).
O movimento segue o passo já dado por concorrentes no exterior, que buscam tradicionalmente diversificação no mercado de dados por já contarem com a expertise de processar e coletam enormes volumes de informações sobre negociações e comportamento de mercado.
Na B3, a diversificação começou em 2018, com um negócio interno de dados que se tornou a Unidade de Infraestrutura para Financiamentos (UIF).
A frente foi reforçada ao longo dos últimos anos com quatro aquisições, das empresas PtDTec, Neoway, Neurotech e DataStock.
A Trillia é a primeira marca criada pela bolsa desde a própria B3, adotada em março de 2017 a partir da fusão entre a BM&FBOVESPA e a Cetip.
A marca não cria uma nova empresa, mas consolida os negócios anteriores sob um único guarda-chuva. Uma estratégia que busca destravar valor para a B3, segundo o CEO.
A B3 (B3SA3) tem atualmente valor de mercado aproximado de R$ 87 bilhões, depois que a ação subiu perto de 50% em 12 meses.
“Existe uma opcionalidade enorme dentro do nosso negócio. E esse segmento pode crescer de forma muito robusta, com um crescimento de dois dígitos por muitos anos, que ganhe participação dentro da B3″, disse.
Hoje a frente de dados já representa 10% da receita da B3.
A empresa não fornece guidance, mas Finkelsztain estima que as concorrentes no exterior buscam uma faixa de 25% e 30% de receita vinda de seus negócios de dados para além do core business.
O ecossistema rebatizado de Trillia já atende mais de 6.000 clientes em quatro verticais: inteligência de mercado, marketing e vendas; compliance e prevenção a fraudes; mercado segurador; e crédito e recuperação.
As soluções envolvem, entre outros pontos, análise de mercado potencial, precificação de risco e prevenção a lavagem de dinheiro.
“Mais do que produto de prateleira, atuamos em várias indústrias. Somos muito fortes em financeiro porque o DNA é da B3, mas atuamos também em varejo, logística, transportes, tem uma abrangência muito grande. Crédito, por exemplo, atinge todas essas indústrias”, afirmou Marcos Vanderlei, novo diretor à frente da Trillia, e também vice-presidente da unidade de infraestrutura para financiamentos da B3.
Expectativas para 2026
O lançamento da Trillia ocorre simultaneamente a um período de otimismo para o core business da B3, especialmente quando o assunto é renda variável. Em janeiro, até o dia 29, os estrangeiros comparam R$ 25,3 bilhões em ações locais, um montante superior a todo o fluxo do ano de 2025.
“Parece ser o início de movimento que reverte uma tendência de quase cinco anos em que mercado americano absorveu todo o dinheiro marginal na indústria de investimento. Ainda veio pouco capital para o Brasil perto do que ainda pode vir”, afirmou Finkelsztain.
O CEO da B3 estimou que 2026 será o ano de reabertura do mercado brasileiro para as ofertas públicas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês), que não ocorrem desde o segundo semestre de 2021.
O início do ano foi marcado pela abertura de capital da fintech brasileira PicPay na Nasdaq, com ações precificadas no teto da faixa indicativa, o que pode ser “um prenúncio de uma potencial onda de abertura de capital no Brasil”.
Na próxima semana, a expectativa é que seja a vez do Agibank, que vai buscar concluir a sua oferta inicial na NYSE, a Bolsa de Nova York.
As conversas preliminares de Finkelsztain com agentes de mercado apontam de 10 a 15 operações ainda este ano, entre follow-ons e IPOs.
Entre as ofertas iniciais de ações, a expectativa é que o setor de infraestrutura “puxe a fila” com operações maiores.
“É um tema de demanda. Se houver demanda [do investidor], as empresas vêm a mercado”.
O Itaú Unibanco (ITUB4) registrou lucro líquido recorrente de R$ 12,317 bilhões no quarto trimestre de 2025 – um avanço de 13,2% na base anual e de 3,7% em três meses.
O resultado, divulgado nesta noite de quarta-feira (4), ficou levemente acima do consenso de analistas consultados pela Bloomberg, que estimavam um lucro de R$ 12,26 bilhões.
No consolidado do ano, o lucro do maior banco do país foi de R$ 46,83 bilhões, alta de 13,1% em relação ao ano passado.
O ROE (Retorno sobre o Patrimônio Líquido), principal métrica de rentabilidade dos bancos, ficou em 23,4% – leve alta de 0,1 ponto percentual (p.p.) frente ao trimestre passado, mas 1,2 p.p. acima do no mesmo período do ano anterior.
“Entregamos resultados consistentes em 2025 com disciplina de risco, solidez e governança robusta. Entramos em 2026 preparados para crescer com responsabilidade e seguir criando valor de forma sustentável”, escreveu o CEO Milton Maluhy Filho em nota enviada à imprensa.
O Itaú somou R$ 1,49 trilhão na carteira de crédito expandida ao final de 2025. O saldo representa alta de 6% na base anual e de 6,3% frente ao terceiro trimestre.
A carteira de pessoas físicas cresceu 6,6% em 12 meses, para R$ 474,3 bilhões, enquanto a de micro, pequenas e pequenas empresas (MPMEs) avançou 8,7% no mesmo intervalo, para R$ 303,1 bilhões.
Já em grandes empresas, a carteira somou R$ 455,9 bilhões, alta de 5,2% em um ano.
A margem financeira gerencial somou R$ 31,53 bilhões no período, alta de 7,3% na comparação anual e de 0,5% na trimestral.
Já a inadimplência longa, acima de 90 dias, alcançou 1,9%, queda de 0,1 p.p. na comparação anual, e estabilidade frente ao terceiro trimestre.
Guidance para 2026
Junto com os resultados, o banco divulgou o guidance para algumas das principais métricas em 2026.
O Itaú Unibanco projeta crescimento da carteira de crédito total entre 5,5% e 9,5% ao longo deste ano. Considerando apenas a carteira do Brasil, a alta poderia ficar no intervalo entre 6,5% e 10,5%.
A projeção para margem financeira com clientes é de crescimento entre 5% e 9%, e, para a margem financeira com o mercado, um saldo entre R$ 2,5 bilhões e R$ 5,5 bilhões.
A receita em prestação de serviços e resultado de seguros deve avançar entre 5% e 9% nos cálculos do Itaú.
Já as despesas não recorrentes de juros devem ter alta entre 1,5% e 5,5%.
“Os guidances de 2026 refletem essa base sólida: capacidade de navegar diferentes cenários e seguir entregando retorno com responsabilidade e consistência”, afirmou o CFO Gabriel Amado de Moura em nota à imprensa.
As ações do Itaú fecharam o pregão em baixa de 3,29%, acompanhando a queda dos papéis do setor após o resultado do Santander Brasil (SANB11), que foi o primeiro grande banco a divulgar seus números na manhã desta quarta-feira.
Apesar da queda, os papéis do Itaú acumulam valorização de 13,97% em 2026 e de 50,44% em 12 meses.
No consolidado do ano, o lucro do maior banco do país foi de R$ 46,83 bilhões, alta de 13,1% em relação ao ano passado. (Foto: Divulgação/Itaú Unibanco)
O banco espanhol Santander anunciou na terça-feira (3) um deal de peso para reforçar a sua presença no mercado dos Estados Unidos.
Em meio a especulações de mercado sobre um hipotético fechamento de capital da subsidiária no Brasil, o Santander comprou o banco americano Webster Financial por US$ 12,2 bilhões – operação que posicionará o Santander entre os dez maiores bancos dos Estados Unidos.
O CEO do Santander Brasil (SANB11), Mario Leão, disse que a ambição renovada do grupo nos EUA não tira protagonismo do Brasil para a estratégia global.
“O Brasil não perde em nada sua relevância – diria que aumenta. [A operação no país] é uma das maiores geradoras de capital do grupo, então, de certa forma, também está financiando essa capacidade do grupo de crescer nos EUA", afirmou Leão a jornalistas nesta quarta-feira (4), em entrevista coletiva para comentar os resultados trimestrais do banco.
Atualmente o Brasil mantém o status de maior operação do grupo em grande parte das métricas financeiras. Uma das exceções é o lucro, que tem sido maior na matriz espanhola, acompanhando a força do euro versus o real.
“A Espanha hoje gera resultado maior em lucro, o que é mais mérito deles que demérito nosso”, afirmou Leão, que destacou que não há competição interna por resultados.
“Estamos trabalhando para entregar a melhor versão do Santander Brasil, e se ela puder ser a maior do grupo, tanto melhor. Até acho que pode acontecer em alguns anos, mas sem ser contra Espanha ou Estados Unidos, trabalhamos pela soma de tudo isso.”
Questionado sobre a possibilidade de uma OPA (Oferta Pública de Aquisição) que poderia tirar a subsidiária da bolsa brasileira, Leão afirmou que se trata de especulação.
“Essa não é uma pauta da nossa gestão. Nossa responsabilidade é crescer e gerar capital para o grupo. O Santander Brasil precisa continuar a crescer para que o grupo cresça.”
A retomada do peso global do Santander acompanha a estratégia de “de-risking" do banco, que vem buscando diminuir a exposição a risco da operação desde o fim de 2021.
Leão estimou que a organização esteja na fase final desse processo, que envolveu um reforço em segmentos estratégicos como o de alta renda e o de pequenas e médias empresas, e a redução da exposição a outros mais arriscados, como a baixa renda.
O Santander não abre dados sobre a proporção entre esses segmentos na carteira de crédito.
Leão disse apenas que o Santander deve encerrar este ano com um mix mais saudável de crédito e próximo do patamar ideal buscado pelo banco.
“Não eliminamos portfólio [de crédito]. Fazemos gestão para – na margem – gerar portfólios mais saudáveis enquanto gerenciamos o estoque e reduzimos o portfólio que não é bom historicamente. É algo que deixa o agregado mais saudável, mas leva tempo".
Uma das principais métricas perseguidas pelo Santander é a retomada do patamar de 20% do ROE (Return on Equity), principal indicador de rentabilidade dos bancos.
O indicador ficou em 17,6% no quarto trimestre de 2025 – e Leão já adiantou que não a meta não será alcançada em 2026, embora se mostre otimista com a evolução do indicador.
“Estamos enxergando no horizonte da operação o momento em que tocamos esse patamar de 20% de forma cada vez mais concreta. E já estamos nos preparando para mirar em um ROE de 22% a 23% – um objetivo mais perto do final", afirmou.
O Santander foi o primeiro dos grandes bancos que operam no Brasil a apresentar seu balanço de 2025 e registrou lucro líquido gerencial de R$ 4,086 bilhões no quarto trimestre de 2025 – dentro da expectativa de R$ 4,09 bilhões estimada pelo consenso de analistas consultados pela Bloomberg.
Após a divulgação dos resultados, as units do banco recuam perto de 2,50% por volta das 14h30. No ano, os papéis ainda acumulam alta de 4,00%.
O Santander Brasil (SANB11) foi o primeiro dos grandes bancos que operam no Brasil a apresentar seu balanço do quarto trimestre e do ano fechado de 2025, com um resultado em linha ao esperado pelo mercado.
A operação brasileira do banco espanhol registrou lucro líquido gerencial de R$ 4,086 bilhões no quarto trimestre de 2025 – uma alta de 5,2% na base anual e de 1,9% frente ao terceiro trimestre.
O número ficou dentro da expectativa de R$ 4,09 bilhões estimada pelo consenso de analistas consultados pela Bloomberg.
No acumulado do ano, o lucro líquido do Santander somou R$ 15,61 bilhões, 13,8% acima do resultado de 2024.
O ROAE (Retorno sobre o Patrimônio Líquido Médio), principal métrica de rentabilidade dos bancos, continuou a trajetória de recuperação e subiu pelo segundo trimestre consecutivo - em reversão às duas quedas trimestrais anteriores.
O indicador ficou em 17,6% no quarto trimestre, estável em 12 meses e com leve avanço de 0,02 ponto percentual (p.p.) frente ao trimestre anterior.
O CEO do Santander Brasil, Mario Leão, voltou a ressaltar o desafio do cenário macroeconômico e reforçou a ambição de crescimento do ROAE “com foco em resultados e disciplina na gestão”.
A margem financeira bruta, por sua vez, teve recuo de 4% na comparação anual, somando R$ 15,332 bilhões, impactada pela margem com o mercado. Em base trimestral, o indicador teve baixa de 0,8%.
A margem financeira com o mercado ficou negativa em R$ 1,48 bilhão, revertendo ganho de R$ 198 milhões no ano anterior. Segundo o banco, o indicador foi impactado pela sensibilidade negativa ao aumento da taxa de juros.
O saldo final foi novamente parcialmente equilibrado pela margem financeira com clientes, que, por sua vez, foi “beneficiada principalmente por volume, mix e disciplina de preço, contribuindo para o aumento do spread”, segundo o CFO Gustavo Alejo. O indicador somou R$ 16,82 bilhões, alta de 6,6% na comparação anual.
As despesas totais somaram R$ 6,63 bilhões, queda de 2,09% em 12 meses e avanço de 3,3% contra o terceiro trimestre deste ano. A alta, segundo o banco, se deve à sazonalidade de final de ano.
Crédito e inadimplência
A carteira ampliada de crédito ampliada atingiu R$ 708,2 bilhões. O valor representou crescimento de 3,7% na comparação anual e de 2,8% em relação ao trimestre anterior.
“No quarto trimestre, mantivemos o rigor na alocação de capital, com crescimento seletivo e equilibrado de nossos ativos. A qualidade de crédito permanece pressionada pelo contexto macroeconômico, mas seguimos atuando com prudência, disciplina e gestão ativa de riscos”, afirmou Leão em nota à imprensa.
A inadimplência longa, acima de 90 dias, ficou em 0,5%, avanço de 0,1 p.p. na comparação anual, e de 0,3 p.p. frente ao terceiro trimestre, “especialmente em pessoa física nas faixas de menor renda e, em pessoa jurídica, nas empresas de menor faturamento”.
Já as provisões para devedores duvidosos (PDD) subiram para R$ 6,105 bilhões: alta de 2,9% em 12 meses. Frente ao último trimestre, no entanto, o indicador recuou 6,4%.
“Com relação às provisões, observamos um desempenho melhor em relação ao trimestre anterior, refletindo principalmente a aceleração do reforço de cobertura ao longo do ano e a ausência de efeitos pontuais relevantes, como casos específicos no atacado”, reforçou o CFO em comunicado ao mercado.
Na véspera, as ações do Santander Brasil (SANB11) caíram 2,39% após a matriz espanhola ter divulgado o seu resultado antes do esperado.
Segundo o balanço publicado na tarde de terça-feira (3), a operação brasileira do banco alcançou 579 milhões de euros (aproximadamente R$ 3,58 bilhões) no lucro atribuído aos acionistas controladores no período.
O número divulgado não segue o mesmo padrão BR GAAP usado localmente pelos bancos brasileiros, mas sinalizava para onde deveria apontar o balanço desta quarta-feira.
No acumulado do ano, as units sobem 6,55%, contra alta de 15,66% do Ibovespa.
Sede do Santander Brasil em São Paulo: lucro líquido gerencial ficou dentro da expectativa de R$ 4,09 bilhões estimada pelo consenso de analistas consultados pela Bloomberg
O espanhol Santander divulgou nesta terça-feira (3) o resultado consolidado para o grupo no quarto trimestre de 2025. Segundo o balanço publicado, a operação brasileira do banco alcançou 579 milhões de euros (aproximadamente R$ 3,58 bilhões) no lucro atribuído aos acionistas controladores no período.
A divulgação ocorreu antes do esperado pelo mercado, já que o grupo normalmente divulga o balanço global poucas horas antes de soltar o resultado no Brasil – programado para sair nesta quarta-feira (4), por volta das 6h.
O número divulgado não segue o mesmo padrão BR GAAP usado localmente pelos bancos brasileiros, mas sinaliza para onde deve apontar o balanço.
O saldo reportado pela controladora para o quarto trimestre representa uma queda de 3,7% no lucro da operação brasileira contra o mesmo período do ano passado.
No acumulado do ano, o lucro do Santander Brasil (SANB11) foi de 2,168 bilhões de euros (cerca de R$ 13,42 bilhões), um recuo de 2,9% contra o ano anterior.
As ações da unidade brasileira, que subiam até a divulgação do resultado, tinham queda de 2,36% pouco antes do fechamento do mercado, às 18h (horário de Brasília).
O Nubank recebeu aprovação condicional para estabelecer um banco nacional nos Estados Unidos – o país representa o próximo passo de expansão internacional da fintech brasileira, que hoje atua no Brasil, no México e na Colômbia.
O banco será aberto em até 18 meses e será liderado pela cofundadora Cristina Junqueira, que se mudou para Miami, nos EUA, para liderar o desenvolvimento do Nubank no país. A unidade de negócios será uma subsidiária integral da Nu Holdings.
“Receber a aprovação federal para uma licença de banco nacional é um passo significativo em nossa jornada para nos tornarmos uma instituição regulamentada sólida, em conformidade com as normas e competitiva nos EUA”, disse Junqueira em nota.
A aprovação condicional concedida pelo Escritório do Controlador da Moeda (Office of the Comptroller of the Currency - OCC) dos UA vai permitir que o Nubank opere sob uma estrutura federal, o que facilitará o lançamento de contas de depósito, cartões de crédito, empréstimos e custódia de ativos digitais.
Nessa fase, o foco é capitalizar a instituição dentro de 12 meses e abrir o banco em até 18 meses, ou seja, até julho de 2027.
O Nubank (NU) apresentou o pedido de obtenção de uma licença bancária nacional ao OCC em 30 de setembro de 2025.
O banco digital tem atualmente 127 milhões de clientes, dos quais 112 milhões no Brasil. A operação começou no Brasil em 2013 e se expandiu para o México em 2019 e para a Colômbia em 2020.
“Essa aprovação não é apenas uma expansão da nossa operação; é uma oportunidade de provar nossa tese de que um modelo digital-first, centrado no cliente, é o futuro dos serviços financeiros globais”, disse o CEO e fundador, David Vélez, também em nota.
Campos Neto na presidência do conselho
Roberto Campos Neto será o presidente do conselho de administração do Nubank nos Estados Unidos.
O ex-presidente do Banco Central é vice-presidente do conselho de administração do Nubank no Brasil desde meados de 2025.
Além de Campos Neto e Cristina Junqueira, o conselho de administração da operação nos EUA será composto por mais três executivos.
São eles: Youssef Lahrech, ex‑presidente e COO do Nu e atual observador do comitê de auditoria e risco; Brian Brooks, atualmente presidente do conselho e CEO da Meridian Capital Group; e Kelley Morrell, ex‑diretora geral sênior da Blackstone e atualmente fundadora e sócia‑gestora da Highline Capital Management.
Painéis eletrônicos na NYSE (Bolsa de Nova York) exibem a celebração do Nubank quanto atingiu a marca de 100 milhões de clientes em maio de 2024 (Foto: Divulgação)
No mercado de private banking, o atendimento personalizado é considerado um atributo fundamental. Não à toa, a proximidade com o cliente é associada como vantagem competitiva de gestoras boutiques, family offices e escritórios de consultoria, ou seja, casas de tamanho menor.
Isso não significa, no entanto, que grandes players não possam conciliar os dois mundos e fazer valer o seu tamanho como diferencial. É o que defende o Itaú Private Banking, em que o segmento de grandes fortunas atingiu R$ 1 trilhão em ativos sob gestão no fim de 2025, dois anos antes do planejado.
Segundo os executivos Paola Sarkis, diretora comercial do Itaú Private, e Alex Saud, diretor regional do banco, a marca é um indicativo de que a escala pode ser um ativo, e não um obstáculo, para conquistar e fidelizar os clientes.
“O tamanho que temos atualmente nos proporciona investir em inovação, em tecnologia e em experiências que só algo nessa dimensão seria capaz de fazer”, afirmou Sarkis, citando eventos internacionais como o Miami Open e a Art Basel, ambos patrocinados pelo banco.
“Tentamos sofisticar ainda mais territórios como arte, música e esportes para famílias que já são muito sofisticadas. O objetivo é proporcionar experiências que eles não podem comprar”, completou.
O novo cliente do private
A conquista da marca do R$ 1 trilhão antes do planejado veio ancorada por uma estratégia para conquistar o “novo cliente” potencial do private banking, um perfil que envolve principalmente novas gerações – tanto herdeiros de grandes fortunas quanto indivíduos que enriqueceram com seu trabalho.
O Itaú Private reduziu a faixa mínima de patrimônio de R$ 15 milhões para R$ 10 milhões. A mudança foi provocada por estudos conduzidos com consultoria externa ao longo de 2024, que identificaram uma expressiva transferência de recursos prevista para os próximos anos.
Antes da mudança, o banco tinha uma faixa de entrada superior à da concorrência. Com o ajuste, passou a competir por um público que já tinha acesso a serviços de private no que Saud classifica como “nova concorrência”: gestoras menores e escritórios autônomos de investimentos.
Segundo o executivo, esses players mais recentes cresceram principalmente no interior do país, região que o Itaú Private passou a buscar privilegiar nos últimos dois anos em sua estratégia de expansão.
Nos últimos três anos, o banco expandiu sua presença física de sete para 13 escritórios regionais ao incluir as cidades de Bauru (São Paulo), Fortaleza (Ceará), Goiânia (Goiás), Brasília, Salvador (Bahia) e Blumenau (Santa Catarina).
O movimento trouxe resultados acima da média do próprio Itaú. Enquanto o market share consolidado do banco no segmento private cresceu de 29% para 31%, nas regionais o avanço foi maior, de 21% para aproximadamente 27%.
“Nesse caso, ter mais proximidade e entender a realidade regional, no mesmo ambiente em que está o cliente mas também a empresa do cliente, é algo que tem trazido frutos ao longo do tempo”, explicou Saud.
A estratégia de expansão regional conta ainda com um foco em nichos temáticos, sendo o agronegócio o principal deles.
Há dois anos, o banco abriu um escritório especializado em Goiânia, capital da região de maior representação do agro brasileiro, o Centro-Oeste. Hoje, o setor representa cerca de 9% da carteira do private.
“Nós enxergávamos o nicho sendo muitíssimo bem atendido no âmbito do negócio pelo Itaú BBA, mas havia a necessidade de um olhar complementar e patrimonial que abarcasse negócios, investimentos e família”, afirmou.
Além do agro, o banco tem apostado em outros nichos temáticos como os setores de tecnologia, entretenimento e esportes.
Complexo que recebe o Miami Open, que tem o Itaú como patrocinador principal: tamanho do banco permitiu conquistar esse status e levar clientes do private para experiências (Foto: Divulgação)
A bolsa brasileira recebeu um fluxo de capital estrangeiro acima de R$ 12 bilhões no mês de janeiro – quase metade do total aportado em todo o ano passado.
Os investimentos beneficiaram principalmente as maiores e mais líquidas ações da bolsa – blue chips como Vale (VALE3), Petrobras (PETR4) e os papéis de grandes bancos.
O movimento faz parte de uma diversificação global para bolsas emergentes, que não “olha” as empresas no detalhe e aposta em posições táticas, muitas vezes via índices como o EWZ, que representa a bolsa brasileira em dólar.
Para Christian Keleti, CEO da Alpha Key, trata-se de um cenário desafiador de alocação em que os valuations das empresas podem ficar distorcidos – ou serem reposicionados para outro patamar diante do apetite voraz do investidor estrangeiro.
“Como o ‘gringo’ está entrando forte, nós vamos perder referência de valuation”, afirmou o gestor no segundo dia da Latin America Investment Conference (LAIC), realizada pelo UBS BB nesta quarta-feira (28), em São Paulo.
Keleti citou como exemplo a Vale, que é historicamente negociada a um múltiplo de enterprise value sobre Ebitda (EV/Ebitda) de 4,5 vezes, e já está no patamar de 5 vezes depois dos ganhos recentes – o papel saltou 20% em preço apenas neste início de ano.
Nesse caso, haveria um potencial de reposicionar o valuation da empresa, dada especialmente a expansão no negócio de cobre para os próximos cinco anos. A gigante peruana do cobre Southern Copper Corp é negociada a múltiplos de 15 vezes, como efeito de comparação.
“Por que a Vale não poderia negociar a um múltiplo de 6 vezes ou 7 vezes? É a frase de americano: ‘Don’t fight the flow’”, afirmou.
Existem, no entanto, casos que o gestor apontou como distorção, como seria o caso da Ambev (ABEV3). “É um negócio que está decrescendo, em que é difícil repassar preço e volume, mas que está em uma alta histórica de valuation. Mesmo sem crescer há dez anos.”
A explicação por trás da entrada massiva de capital estrangeiro em emergentes é a tendência de diversificação global diante da retomada da postura agressiva do presidente americano Donald Trump diante de aliados históricos como Europa e Canadá.
É algo que tem, inclusive, enfraquecido o dólar globalmente diante da reavaliação da estratégia de sobrealocação de ativos denominados na moeda americana.
A tendência pode ganhar força caso o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) adote uma postura mais dovish – favorável a juros mais baixos –, com a saída do presidente do Fed, Jerome Powell, em maio deste ano.
Keleti citou ainda um terceiro vetor que pode impulsionar a bolsa brasileira: a queda na taxa básica de juros.
Nesta quarta-feira no fim da tarde, horas depois das declarações, o Comitê de Política Monetária do Banco Central manteve a taxa básica de juros em 15% ao ano, como esperado, e sinalizou que o início do ciclo de relaxamento monetário deve começar em março se o cenário vigente se mantiver até lá.
“Meu medo nesse cenário é que podemos estar apenas no início do fluxo [de capital estrangeiro para a B3] e não temos papel para investir. Temos atualmente apenas 200 ações ‘investíveis’ na bolsa”, completou Keleti.
O gestor disse que esse é um cenário “mais assustador” que a projeção de dólar a R$ 4,40 levantada ontem, durante o mesmo evento, por Luis Stulhberger, da Verde Asset. “Vamos chegar aqui e a bolsa vai estar a 300.000 pontos.”
No limite, essa entrada de capital geraria ainda uma situação incomum no mercado: a necessidade dos gestores buscarem proteção. Ao comprar parte de um índice, por exemplo, eles seriam capazes de “surfar” os ganhos das blue chips – ainda que elas não sejam suas maiores posições.
“Precisamos tomar cuidado com esse cenário. O que é possível fazer – e é incrível dizer isso – é um hedge [contra a alta da bolsa]”.
Bolsa brasileira recebeu um fluxo de capital estrangeiro acima de R$ 12 bilhões no mês de janeiro – quase metade do total aportado em todo o ano passado