Visualização de leitura

Por que a Índia não deve mais exportar açúcar por vários anos

MUMBAI, 22 Jun (Reuters) – A Índia, que já foi o segundo maior exportador mundial de ⁠açúcar, deverá ter um excedente reduzido para exportação por pelo menos mais três safras, já que as condições climáticas ⁠do El Niño ameaçam a produção de cana e o aumento da demanda por etanol restringe a oferta.

Essas duas pressões devem manter milhões de toneladas de ‌açúcar fora do mercado mundial, reduzindo a oferta para importadores na Ásia, África e Oriente Médio e sustentando os preços de referência em Londres e Nova York.

Uma ausência prolongada da Índia dos mercados de exportação retiraria um importante fornecedor, à medida que os riscos climáticos e as políticas de biocombustíveis remodelam os fluxos globais do comércio de açúcar.

Entrevistas com ‌mais de uma dúzia de executivos do comércio e da indústria, fontes governamentais e agricultores mostram que a menor disponibilidade de cana e a crescente demanda por etanol deixarão pouco para exportação por vários anos, levando os corretores de empresas globais a alertar as sedes sobre a redução das oportunidades na Índia, segundo fontes do setor.

GOVERNO DEVE RESTRINGIR AS EXPORTAÇÕES

O açúcar é um tema politicamente sensível na Índia, maior consumidor mundial, onde doces são muito populares e muitas famílias de baixa renda dependem dele como fonte barata de calorias.

‘A oferta já está escassa na Índia, e agora o El Niño está se tornando um grande risco’, disse Rahil Shaikh, diretor-gerente da MEIR Commodities India, uma corretora com sede em Mumbai.

‘Se as chuvas ficarem aquém ⁠das previsões, ‌o plantio de cana será prejudicado e isso manterá a Índia fora do mercado de exportação de açúcar por pelo menos três anos, enquanto o Brasil e a Tailândia também podem ⁠ter suas safras afetadas pelo El Niño.’

O Brasil, principal exportador, também está destinando mais cana para a produção de etanol. A Tailândia, outro grande exportador, também pode ter sua produção afetada pelas chuvas reduzidas pelo El Niño.

A Índia exportou, em média, 6,8 milhões de toneladas métricas de açúcar por ano nas cinco safras até 2022-23 — cerca de 10% dos embarques globais. Este ano, após exportar cerca de 800 mil toneladas, a Índia suspendeu os embarques até 30 de setembro, o fim da safra.

As usinas precisam de aprovação do governo para exportar açúcar, e Nova Délhi provavelmente suspenderá as autorizações de exportação a cada safra, em vez de anunciar uma proibição plurianual, ​afirmaram fontes do governo e do setor com conhecimento do assunto.

No mês passado, um ministro de alto escalão do governo do primeiro-ministro Narendra Modi instruiu as usinas a priorizarem a disponibilidade no mercado interno e a não pressionarem por exportações, disseram as fontes sob condição de anonimato, uma vez que as discussões eram confidenciais.

O Departamento de ​Alimentação, Abastecimento Civil e Assuntos do Consumidor da Índia não respondeu a um pedido de comentário sobre as perspectivas para as exportações ou suas restrições sobre exportações.

EL NIÑO PREJUDICA AS PERSPECTIVAS PARA A CANA

As condições do El Niño devem enfraquecer as chuvas de monção na Índia este ano, levando-as ao nível mais baixo em 11 anos.

Chuvas abaixo da média, aliadas a uma precipitação em junho mais de 40% abaixo da média, levaram os agricultores a adiar o plantio.

‘Eu tinha planejado plantar variedades de cana de ciclo longo em junho, mas como todo mundo está falando sobre chuvas mais fracas, decidi adiar esse plano’, disse Sambhaji Patil, que decidiu cultivar soja em 2 acres (0,8 hectares) no distrito de Sangli, no estado ‌de Maharashtra, no oeste do país.

O proprietário de um viveiro, Suraj Chavan, disse que a demanda por mudas de cana ​caiu drasticamente nas últimas semanas.

É provável que os agricultores mudem para culturas que exijam menos água, o que poderia reduzir a área plantada com cana e a disponibilidade do produto na safra de 2027-28, disse Prakash Naiknavare, diretor-geral da Federação Nacional de Fábricas Cooperativas de Açúcar.

As autoridades locais começaram a promover culturas alternativas, como soja, feijão-guandu e outras variedades de leguminosas, na maioria das regiões produtoras de açúcar, e restringiram o abastecimento ⁠de água para irrigação.

A Índia deveria produzir 30,95 milhões de toneladas de açúcar ​nesta safra, mas a produção agora está estimada ​em 27,9 milhões de toneladas, abaixo do consumo anual de cerca de 28,5 milhões de toneladas, segundo estimativas do setor.

Como resultado, os estoques nas usinas no início da safra, em 1º de outubro, provavelmente cairão para cerca ⁠de 3,5 milhões de toneladas, o nível mais baixo em mais de três décadas, disse Shaikh, ​da MEIR.

Ao mesmo tempo, a Índia está promovendo uma maior mistura de etanol à gasolina e uma adoção mais ampla de veículos flex-fuel para reduzir a dependência do caro petróleo importado.

A demanda por etanol poderia mais que dobrar, passando dos atuais 12 bilhões a 13 bilhões de litros para cerca de 30 bilhões de litros (8 bilhões de galões) até 2039-40, à medida que o aumento da mistura de ​etanol na gasolina e a adoção de veículos flex-fuel ganham ritmo, sugerem as estimativas do setor.

‘A trajetória da demanda por etanol é incrivelmente forte’, disse Samir Somaiya, presidente e diretor-geral da Godavari Biorefineries. ‘A próxima fase da evolução da demanda será impulsionada pelo lançamento comercial de veículos flex-fuel.’

A Maruti Suzuki, maior ​montadora indiana, lançou este mês o primeiro veículo flex-fuel do ⁠país, enquanto a Hero MotoCorp lançou uma motocicleta flex-fuel.

A Índia eliminou este mês o imposto sobre a produção de gasolina misturada com níveis mais altos de etanol e lançou combustível com até 85% de etanol para apoiar a adoção ⁠de veículos flex-fuel.

As futuras políticas governamentais provavelmente darão prioridade à produção de etanol em detrimento das exportações de açúcar, afirmou B.B. Thombare, diretor-geral da Natural Sugar, no estado de Maharashtra.

A Índia poderia eventualmente ser forçada a importar açúcar se as perturbações climáticas relacionadas ao El Niño reduzissem drasticamente a área de cultivo de cana e a produção, disseram fontes do governo e autoridades do setor, com os comerciantes alertando que a oferta poderia ficar ainda mais restrita na safra de 2027-28.

‘Devido a um El Niño severo e à crescente demanda por etanol, não só as exportações da Índia seriam praticamente eliminadas, como também as importações para a Índia nos próximos anos poderiam se tornar necessárias”, disse Mohan Narang, diretor da K.S. Commodities, uma corretora de commodities em Nova Délhi.

(Reportagem de Rajendra ​Jadhav)

The post Por que a Índia não deve mais exportar açúcar por vários anos appeared first on InfoMoney.

  •  

A herança de Pablo Escobar: o que são os “hipopótamos da cocaína” — e como esse herdeiro indiano bilionário quer salvá-los

Além das consequências do narcotráfico que ainda marcam a Colômbia, Pablo Escobar deixou uma herança inusitada para o país: uma população de hipopótamos que continua crescendo décadas após sua morte.

A história dos animais reúne ingredientes de uma novela: um narcotraficante bilionário, uma espécie invasora fora de controle, planos de abate e, agora, um herdeiro bilionário indiano disposto a salvar os mamíferos.

Anant Ambani, filho do empresário Mukesh Ambani, afirmou que poderia transferir dezenas de hipopótamos colombianos para um santuário de vida selvagem na Índia, evitando o sacrifício dos animais defendido por autoridades locais.

Hipopótamos: o legado inesperado de Escobar

Nos anos 1980, Pablo Escobar vivia o auge de seu poder como líder do Cartel de Medellín. Entre suas extravagâncias estava a criação de um zoológico particular na Fazenda Nápoles, propriedade localizada a cerca de 150 quilômetros de Medellín.

O local reunia animais exóticos vindos de diferentes partes do mundo, incluindo girafas, zebras, elefantes, rinocerontes, búfalos e hipopótamos.

Com a morte de Escobar, em 1993, a fazenda foi abandonada. Grande parte dos animais acabou transferida para zoológicos e reservas, mas os hipopótamos permaneceram no local.

Sem predadores naturais, com abundância de água e alimento, os animais se reproduziram rapidamente.

Hoje, essa população é considerada a única manada de hipopótamos vivendo em estado selvagem fora da África.

De atração turística a problema ambiental

O crescimento da população transformou os hipopótamos em uma preocupação ambiental.

Por serem uma espécie invasora, os animais alteram ecossistemas locais, competem com espécies nativas e podem modificar a qualidade da água dos rios.

Além dos impactos ambientais, autoridades registraram episódios de perseguição a moradores, ataques e relatos de pescadores que evitam determinadas áreas por medo dos animais.

Há mais de duas décadas, o governo colombiano busca alternativas para controlar a população, incluindo esterilização, transferência para outros países e programas de controle reprodutivo.

Mais recentemente, o debate sobre o abate de parte dos animais voltou à pauta diante do crescimento contínuo da manada.

O herdeiro bilionário que entrou na história

Enquanto a Colômbia procura uma solução para o problema, surgiu um interessado improvável.

Anant Ambani, filho de Mukesh Ambani — considerado o homem mais rico da Índia — afirmou que poderia receber cerca de 80 hipopótamos no Vantara, um dos maiores centros de conservação animal do mundo.

O santuário, localizado no estado indiano de Gujarat, afirma já ter acolhido mais de 1,5 milhão de animais de milhares de espécies.

A proposta prevê a transferência dos hipopótamos colombianos para a Índia, onde receberiam cuidados permanentes e seriam mantidos em áreas protegidas.

Por enquanto, porém, o governo colombiano ainda não respondeu oficialmente à oferta.

Caso o plano avance, os animais poderão ganhar um novo capítulo em uma história que começou há mais de 40 anos em um zoológico particular construído por Pablo Escobar e que, até hoje, continua produzindo consequências inesperadas.

*Sob supervisão de Renan Dantas.

  •  

Índia aumenta em quatro vezes mistura de etanol na gasolina e pode impulsionar demanda de álcool e açúcar brasileiros

Em uma ofensiva para diversificar sua matriz energética e reduzir a forte dependência do petróleo importado, a Índia lançou oficialmente no mercado um novo combustível com altíssimo teor de etanol nesta sexta-feira (5).

Atualmente, a nação sul-asiática já comercializa em toda a sua rede varejista a gasolina com 20% de etanol, conhecida como E20. O novo combustível, batizado de E85, contará com cerca de 85% de etanol em sua composição e promete ser menos poluente que os concorrentes convencionais.

Além do apelo ecológico, o bolso do consumidor também deve sentir o reflexo: o E85 terá um preço 20 rúpias mais barato por litro do que a gasolina E20, ou uma economia de 20% para o bolso.

O anúncio foi feito pelo ministro do Petróleo, Hardeep Puri, que apresentou a novidade em um posto da Indian Oil Corp., na capital Nova Déli. Inicialmente, o produto começará a ser vendido em 50 postos de combustíveis espalhados pelo país.

De acordo com Puri, a Índia possui hoje uma capacidade instalada para produzir 19 bilhões de litros de etanol, sendo que o programa de mistura atual consome 11,5 bilhões de litros. A chegada do E85 ao mercado surge justamente como um motor para alavancar essa demanda pelo biocombustível.

Um crescimento acentuado na demanda pela nova mistura de combustível, no entanto, pode levar a Índia a buscar etanol no mercado externo. Essa necessidade coloca o Brasil, um dos maiores produtores do álcool combustível, em posição privilegiada.

O Brasil produziu em 2025 um pouco mais de 37 bilhões de litros.

Além da demanda por etanol, a novidade na Índia pode também trazer demanda extra para o açúcar do país. Isso porque como a Índia precisa desviar parte de sua safra de cana para garantir a mistura de etanol, a sua oferta global de açúcar diminui. Isso frequentemente exige que o mercado busque o Brasil (maior produtor mundial) para suprir essa lacuna.

Sem tração nos veículos elétricos

A estratégia da Índia ganha força diante do ritmo lento da transição para a mobilidade elétrica no país, travada pelos altos custos dos veículos e por uma infraestrutura de recarga ainda bastante limitada.

Nesse cenário, as autoridades indianas enxergam os veículos compatíveis com etanol como um caminho complementar e estratégico para cortar o consumo de petróleo, exigindo muito menos investimentos em infraestrutura do que a criação de uma rede nacional de carregamento para elétricos.

Esse movimento é crucial para o país, cuja demanda por gasolina — consumida majoritariamente por veículos de duas rodas — cresceu a uma média anual de 9% nos últimos cinco anos, inflando a conta de importação de petróleo.

Dando sinais claros do empenho do governo em estruturar um ecossistema de transporte que sustente esse maior uso do biocombustível, o ministro Puri apresentou novos modelos de motocicletas da Hero MotoCorp Ltd. e o hatch Wagon R, da Maruti Suzuki India Ltd., ambos já preparados para rodar com o E85.

O chefe da pasta do Petróleo revelou ainda que o governo estuda medidas políticas para acelerar a adoção de veículos híbridos e projetou que o novo combustível deverá estar disponível em até 500 postos até o final deste ano.

Apesar do otimismo do governo, o combustível chega às bombas em meio a discussões persistentes no mercado sobre o impacto de misturas tão ricas em etanol no rendimento por quilômetro e na durabilidade dos motores. Tentando mitigar os receios, o Ministério do Petróleo declarou no ano passado que a gasolina E20 já oferece melhor aceleração, maior suavidade na condução e menores emissões de carbono em comparação ao combustível convencional — benefícios que, segundo a pasta, tendem a ser amplificados com a chegada de misturas de etanol ainda mais concentradas.

  •