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Pesquisa expõe como sistemas de reconhecimento facial reproduzem desigualdades sociais

Antes de reconhecer alguém diante da câmera, um sistema de inteligência artificial (IA) precisa decidir se aquele rosto “existe”. É justamente nesse momento, anterior à identificação, que, segundo a cientista da computação Ana Carolina Silva das Neves da Hora, mais conhecida como Nina da Hora, começam os apagamentos produzidos pelas tecnologias de reconhecimento facial, tema de sua tese de mestrado, Do Rosto ao Vetor: Epistemicídio Computacional no Reconhecimento Facial, defendida nesta segunda-feira (11), no Instituto de Computação (IC).

Orientada pela professora Sandra Avila, do IC, e coorientada pela antropóloga Marisol Marini, da Universidade de São Paulo (USP), a tese teve na banca examinadora a socióloga Angela Figueiredo, da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), e o pesquisador Virgílio Almeida, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). 

A pesquisa combina reflexão teórica e experimentos computacionais para analisar desigualdades em arquiteturas de detecção facial amplamente utilizadas em sistemas de IA. Da Hora propõe o conceito de “epistemicídio computacional”, inspirado nos trabalhos da filósofa Sueli Carneiro sobre o apagamento de sujeitos negros na produção do conhecimento. O trabalho multidisciplinar reúne computação, antropologia, artes visuais, estudos raciais e filosofia.

A pesquisadora auditou arquiteturas de detecção facial utilizando uma base criada pela Meta, dona do Facebook, do Instagram e do WhatsApp, a partir de vídeos enviados por pessoas de países como Brasil, Índia, Síria e Indonésia. Os resultados revelaram desigualdades profundas nos processos de detecção facial. “O dano já começa antes, quando o sistema sequer detecta aquele rosto como um rosto válido”, explica.

Em um dos experimentos, pessoas acima de 85 anos tiveram apenas 44% de taxa de detecção, enquanto grupos mais jovens alcançaram índices superiores a 90%. Em outros casos, determinados grupos simplesmente desapareciam dos sistemas. “Tivemos grupos com 0%. Normalmente, quando aparece um 0%, você roda o sistema de novo e tenta corrigir. Mas quis investigar por que aquelas pessoas tinham desaparecido”, diz.

Uma pessoa apresentando em um evento acadêmico, gesticulando diante de duas telas de projeção, sendo uma com participantes em videoconferência à esquerda e outra com slide de apresentação em português sobre questões de pesquisa à direita.
Pessoa apresentando em evento acadêmico diante de projeção contendo slide com título "O rosto não é dado natural: e superfície de disputa" e subtítulos sobre teorias relacionadas a eugenia e biometria, com monitor ao fundo exibindo participante remoto em biblioteca.
A pesquisa combina reflexão teórica e experimentos computacionais para analisar desigualdades em arquiteturas de detecção facial amplamente utilizadas em sistemas de IA

Segundo Da Hora, os sistemas simplificam realidades complexas ao transformar diversidade humana em categorias rígidas. “É como se não existissem variações. Ou você é branco ou você é negro. Mas nós sabemos que isso não representa países como o Brasil.”

Mais do que erros técnicos, a pesquisadora vê nesses resultados a materialização de escolhas políticas e históricas. “A etapa do reconhecimento só acumula problemas. Primeiro, o sistema precisa decidir que existe um rosto ali.” Em muitos casos, afirma, nem mesmo a autodeclaração das pessoas é suficiente. “Quando eu mando um vídeo dizendo quem eu sou, pessoas do outro lado podem dizer que eu não sou aquilo que estou dizendo. E, às vezes, a palavra delas vai valer mais.”

Segundo a pesquisadora, o problema não está apenas na precisão técnica. “A questão não é fazer a tecnologia funcionar melhor”, afirma. “É perguntar por que estamos insistindo em tecnologias que transformam pessoas em padrões de vigilância.”

Da Hora vê a expansão dessas tecnologias como parte de uma transformação maior nas formas de controle social e circulação da informação. “O reconhecimento facial e as inteligências artificiais são vendidos como solução para tudo. Mas, muitas vezes, o que elas produzem é exclusão e aprofundamento de desigualdades. Eu queria entender o que se perde quando você transforma o rosto de uma pessoa em vetor matemático”, afirma.

“Você olha para um rosto e tenta resumir aquela pessoa a medidas, padrões e probabilidades. Só que ali existe história, contexto e identidade”, destaca.

Além da dissertação, a pesquisadora tem novos trabalhos acadêmicos. Um deles, intitulado Frankenstein em Processo: Epistemicídio Computacional no Reconhecimento Facial, será apresentado em junho, no Canadá, em uma conferência mundial sobre justiça algorítmica. No artigo, ela aproxima a lógica dos sistemas de reconhecimento facial da figura do personagem Frankenstein. “Você pega retalhos e monta uma pessoa”, explica. “Fragmenta o rosto e tenta contar a história de alguém apenas a partir daquilo.”

Uma pessoa usando óculos e vestimenta com estampa geométrica colorida gesticula com as mãos enquanto fala em um ambiente interno com quadros ao fundo.
Pesquisadora se tornou uma das vozes mais conhecidas da discussão sobre tecnologia e racismo algorítmico no país

Ativismo e ética

Prestes a completar 31 anos, Nina da Hora se tornou uma das vozes mais conhecidas da discussão sobre tecnologia e racismo algorítmico no país. Colunista da MIT Technology Review Brasil, pesquisadora do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getúlio Vargas (FGV), integrante da comissão de tecnologia do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e fundadora do Instituto da Hora, ela construiu uma trajetória que atravessa ciência, ativismo e divulgação tecnológica.

Em poucos anos, acumulou reconhecimentos importantes. Em 2022, recebeu o CUBS Sabiá Award, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, pela pesquisa sobre racismo algorítmico no reconhecimento facial. Antes disso, entrou para a lista Forbes Under 30 e foi incluída entre as 100 mulheres mais relevantes do mundo em ética em inteligência artificial.

Embora hoje seja conhecida nas redes como “hacker antirracista”, a pesquisadora explica que sua trajetória passou menos pela invasão de sistemas e mais pela cibersegurança. Ela trabalhou com análise de hardware e investigação técnica de códigos, especialmente em projetos ligados às urnas eletrônicas e à transparência eleitoral nas eleições de 2022. “Eu trabalhei mais com hacker ético”, afirma. “Depois, os caminhos me levaram para a inteligência artificial e ‘hacker’ acabou virando mais um apelido”, conta.

Essa preocupação atravessa também sua atuação pública. Depois de integrar a Comissão de Transparência das Eleições de 2022, Da Hora volta a colaborar com o TSE, agora em discussões ligadas à inteligência artificial, plataformas digitais e regulação tecnológica. Ela acredita que as próximas eleições brasileiras serão profundamente impactadas pelo avanço da IA generativa. “Essa vai ser a eleição da inteligência artificial”, afirma. “Nós já temos dificuldade de diferenciar o que é real e o que não é. Isso vai aumentar muito nas campanhas.”

Segundo Da Hora, embora o TSE tenha aprovado regras para limitar determinados usos de IA durante o período eleitoral, ainda existem poucas ferramentas capazes de detectar manipulações em larga escala. “A disputa agora também acontece no campo da confiança”, observa. “As pessoas vão olhar vídeos, imagens, áudios, e muitas vezes não vão saber se aquilo aconteceu de verdade.”

Outro eixo importante de sua atuação está no Instituto da Hora, organização criada em 2020 para discutir direitos digitais, IA e soberania tecnológica a partir de perspectivas antirracistas. O instituto mantém projetos voltados à formação de jovens periféricos em segurança da informação e apoio a pessoas LGBTQIAPN+ interessadas em pesquisa e tecnologia. “A gente trabalha muito nesse momento do ‘pré’ e do ‘durante’ tentando ajudar as pessoas a chegar nesses espaços e permanecer neles.”

Três pessoas conversam em pé diante de uma tela de projeção que exibe o título "Do Rosto ao Vetor: Epistemicídio Computacional no Reconhecimento Facial" e informações sobre uma defesa de dissertação de mestrado de Nina da Hora, em um ambiente de apresentação acadêmica.
Duas pessoas abraçadas sorrindo em um ambiente acadêmico, com projeção ao fundo exibindo texto sobre orientadora e coorientadora, durante o que aparenta ser uma defesa ou apresentação acadêmica.
Nina Da Hora (ao centro) ao lado das orientadoras Sandra Avila (à esquerda) e Marisol Marini e com a mãe Ana Cláudia

Fora do roteiro

Quando chegou à Unicamp, vinda da Baixada Fluminense (RJ), Da Hora carregava a sensação de estar em um território que, durante muito tempo, parecia não lhe pertencer. “Tinha um roteiro muito mais simples para a minha vida”, afirma. “Fazer pesquisa na Unicamp não fazia parte do roteiro.”

A pesquisadora aprendeu programação ainda adolescente no computador de uma tia e com materiais emprestados por amigos da mãe, a professora Ana Cláudia, que prestigiou a defesa do mestrado na Unicamp.

Antes de chegar ao curso de graduação em Ciência da Computação, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), conciliou estudos, trabalho e longos deslocamentos diários. Na faculdade, o choque social foi imediato. “Eu vivia em outra realidade, as pessoas perguntavam, por exemplo, por que eu trabalhava.”

Na Unicamp, o estranhamento voltou em outra escala. “É outro mundo ao quadrado”, afirma. “A Unicamp, para mim, tem uma diversidade muito maior do que outros espaços por onde passei. Ela é um mundo de oportunidades.”

Entre uma conferência internacional, experimentos computacionais e debates públicos sobre tecnologia, a pesquisadora tenta administrar a dimensão mais íntima de tudo o que conquistou nos últimos anos. “Se eu pudesse traduzir meu sentimento, é uma mistura de muito orgulho do que eu fiz e o medo de perder. Fiquei em alerta durante esses três anos.”

Depois da defesa, planeja descansar por algumas semanas antes de decidir os próximos passos do doutorado, possibilidade já discutida por grupos da própria Universidade. Enquanto fala sobre o futuro, Da Hora retorna várias vezes à ideia do improvável. Não como exceção individual, mas como abertura de caminhos. “Hoje eu encontro estudantes chegando na computação com os olhos brilhando”, conta. “E eu penso muito nisso, porque eu também não imaginava que conseguiria chegar aqui.”

Foto de capa:

Ambiente de evento com participantes sentados em cadeiras assistindo a uma apresentação, onde uma pessoa está de pé próxima a uma mesa de madeira clara, com múltiplas telas exibindo videoconferência e projeção de slides contendo texto em português.
Nina durante apresentação da dissertação de mestrado Do Rosto ao Vetor: Epistemicídio Computacional no Reconhecimento Facial, defendida nesta segunda-feira (11), no Instituto de Computação (IC)

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Pterossauros para jovens exploradores

Resultado de uma dissertação de mestrado em Ensino e História de Ciências da Terra defendida no Instituto de Geociências (IG) da Unicamp, o livro “Pterossauros para jovens exploradores” apresenta de forma didática a família desses lagartos alados, muitas vezes confundidos com dinossauros. Com orientação de Fresia Soledad Ricardi Torres Branco, a pesquisadora Cristiane Vigilato da Paixão desenvolveu um material didático como ferramenta para o ensino de paleontologia na educação básica. O livro, de 66 páginas, reúne os frutos de sua dissertação e 13 modelos de pterossauros para serem recortados e montados em formato de móbile.

Paixão é formada em Biologia pela Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP) e, durante a graduação, foi orientada por Ariel Milani Martine, que a coorientou no mestrado. Além do livro, junto a uma equipe, a pesquisadora elaborou um móbile, pendurado no teto do hall do IG, que foi pensado como uma árvore filogenética, com representantes das 13 famílias de pterossauros estudadas.

O livro, que traz as mesmas espécies do móbile, também apresenta conceitos de paleontologia e de evolução, mostrando onde esses seres habitavam e onde hoje são encontrados seus fósseis. “Há um pouco de biologia e de geologia”, explica Paixão. Segundo orientadora Fresia Ricardi, “um banner explicativo com QR Code ficará disponível na entrada principal do prédio para que as pessoas possam conhecer os pterossauros”. O material foi registrado na Biblioteca Nacional e tem direitos autorais reservados.

Quatro pessoas sorrindo seguram um livro sobre pterossauros e maquetes de répteis voadores suspensos, em ambiente interno com teto alto, janelas e iluminação natural, com uma exposição sobre paleontologia.
Átrio interno de uma edificação institucional com pé-direito amplo, claraboia em estrutura metálica amarela no teto, múltiplos pavimentos com varandas laterais, escadaria central em mármore com corrimãos brancos, e grupo de pessoas observando a arquitetura do espaço, com balcão de recepção ao fundo.
Equipe que desenvolveu o projeto do móbile com a orientação da professora Frésia Ricardi (blusa verde)

Ariel Martine foi responsável pela pintura dos pterossauros; Pábulo Matheus Domiciano, doutorando em Geociências no IG, fez as ilustrações; Bruno Belila Rusinelli elaborou os mapas do livro. Paixão ficou responsável por vetorizar os desenhos do mobile em AutoCad, que foram cortados no Laboratório Plasma, do Instituto de Física Gleb Wataghin.

Para produzir o móbile e imprimir o livro, a equipe coordenada por Fresia Ricardi obteve apoio da Pró-Reitoria de Pós-Graduação da Unicamp e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). “A coordenação do Programa de Pós-Graduação em EHCT colaborou para o sucesso da submissão do projeto de extensão junto à Capes”, reforça a orientadora. Assim, além da impressão do móbile em destaque no hall do IG, foi possível imprimir 200 exemplares que serão distribuídos. Uma versão online está disponível na Biblioteca Digital da Unicamp.

Foto de capa:

Três pessoas sorrindo posam para foto em ambiente interno com arquitetura moderna colorida ao fundo, sendo que a pessoa ao centro segura um livro sobre pterossauros e a pessoa à direita segura uma estrutura articulada representando um pterossauro.
Da esquerda para a direita, Bruno Belila Rusinelli, Cristiane Vigilato da Paixão e Pábulo Matheus Domiciano: apoio ao projeto da Capes e PRPG

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Olimpíada Nacional em História do Brasil elege como tema as mulheres na ciência

Uma competição feita de documentos, imagens, mapas, debates e perguntas sobre o país e seu passado mobiliza um número recorde de 64.187 equipes espalhadas por escolas de todos os estados brasileiros. A 18ª Olimpíada Nacional em História do Brasil (ONHB), promovida pela Unicamp, iniciou sua nova edição nesta segunda-feira (5) com o tema “Mulheres cientistas, mulheres na ciência”, escolhido a partir da proposta do Ministério da Ciência e Tecnologia para 2026, que vai atravessar as diferentes fases da competição.

“Todo ano escolhemos um eixo de reflexão”, afirma a coordenadora da ONHB, a historiadora Cristina Meneguello, professora do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH). “Neste ano vamos discutir, em diferentes momentos da prova, o lugar das mulheres na ciência. Abraçamos a proposta por considerar a temática fundamental. Mais do que recuperar trajetórias do passado, o tema convida os participantes a refletir sobre a dimensão histórica das mulheres na ciência e, ao mesmo tempo, a lançar o olhar para o presente, para as cientistas em formação, as que já atuam na área, ou aquelas que sonham em um dia tornarem-se cientistas.”

Pessoa sentada em um banco ao ar livre, usando óculos e blusa floral de manga longa, em ambiente de evento com estrutura de madeira, plantas trepadeiras e outras pessoas ao fundo.
A historiadora Cristina Meneguello: temática fundamental

O professor Luiz Estevam de Oliveira Fernandes, também do IFCH e da coordenação do projeto, ressalta que a escolha do tema é mais do que oportuna: “É um debate muito importante para nossa sociedade, na qual as cientistas ainda estão subvalorizadas no acesso às posições mais altas da carreira ou no peso da dupla jornada enfrentada, para cuidar da casa e da família”, afirma. 

Criada em 2009 por docentes do Departamento de História do IFCH, a ONHB transformou-se em um projeto nacional. Do total de equipes inscritas em 2026, 22.455 pertencem ao ensino fundamental e 41.732 ao ensino médio. O número representa um salto significativo em relação à edição anterior, que contou com 57.100 equipes, um crescimento que impressiona a coordenação. “A cada edição a gente se surpreende”, afirma a historiadora. “No ano passado foram cerca de 225 mil participantes e, desta vez, chegamos a 250 mil. Nosso projeto é hoje o maior projeto de divulgação científica em ciências humanas do país e, sem dúvida, a maior ação de extensão da Unicamp em alcance na educação básica.”

Debate coletivo

A primeira fase da ONHB segue aberta até sábado (9), às 23h59. Depois dela, os participantes enfrentarão outras quatro etapas online até a grande final presencial, marcada para 29 e 30 de agosto, na Unicamp.

As provas combinam questões de múltipla escolha e tarefas investigativas construídas a partir da análise de documentos históricos, fotografias, obras de arte, mapas, notícias, relatos e diferentes tipos de fontes. História do Brasil, literatura, geografia, patrimônio cultural, arqueologia e atualidades se cruzam em uma proposta interdisciplinar que privilegia interpretação e construção de argumentos.

“O formato aproxima os estudantes da prática da pesquisa acadêmica”, diz Meneguello. “As questões trabalham interpretação, contextualização histórica e colaboração. A gente percebe que a Olimpíada desperta talentos.”

Entre as novidades da edição de 2026 está a entrada oficial dos estudantes do 7º ano. Antes, a participação era restrita aos alunos do 8º e 9º anos do Ensino Fundamental e de todo o Ensino Médio. A mudança responde a uma demanda antiga das escolas e dos próprios estudantes. “Na prática, os alunos do sétimo ano já acompanhavam as provas informalmente. Agora, eles passam a receber certificado e entram mais cedo em contato com a Olimpíada.”

Outra mudança importante é a criação de uma etapa estadual online, que premiará estudantes com medalhas de ouro e prata em cada estado. A ideia amplia o reconhecimento dos participantes e cria novas formas de valorização regional. “Nosso sonho era criar uma fase estadual presencial, mas seria impossível corrigir esse volume de provas”, conta a coordenadora. “Mesmo online, ela é importante porque amplia o reconhecimento dos estudantes e valoriza o desempenho regional.”

Grande ginásio coberto com estrutura metálica aparente e iluminação artificial, onde centenas de pessoas estão sentadas no chão organizadas em fileiras, voltadas para um palco central com equipamentos de som e telões, caracterizando um evento de grande porte.
Sala de aula ampla com diversos estudantes sentados em cadeiras com pranchetas acopladas, dispostos em grupos, realizando atividades acadêmicas, com quadro branco ao fundo e iluminação artificial no teto.
Estudantes durante a final de 2024 na Unicamp; nesta edição os estudantes finalistas estarão reunidos nos dias 29 e 30 de agosto

Após as etapas online, cerca de 1.200 estudantes participarão da grande final. E é durante a cerimônia de encerramento que eles descobrem, diante dos colegas e professores, quem receberá as medalhas nacionais. “Tem choro, comemoração, abraços. Depois de 18 anos, eu ainda me emociono”, ressalta a coordenadora.

Desde 2024, estudantes de escolas públicas participam gratuitamente da edição escolar da olimpíada. Em paralelo, a ONHB mantém a modalidade “ONHB Aberta para Todos”, criada em 2021 e destinada ao público com mais de 12 anos. A competição é realizada com apoio do Departamento de História da Unicamp, do Serviço de Apoio ao Estudante (SAE) e da Associação Nacional de História (Anpuh). A organização reúne docentes universitários, estudantes de graduação, mestrandos e doutorandos.

A ONHB também integra o programa Vagas Olímpicas da Unicamp. Dependendo do desempenho na competição, estudantes podem disputar vagas em cursos de graduação sem necessidade de vestibular. Hoje, as medalhas da ONHB são aceitas em 53 cursos de graduação em São Paulo.

Estratégia de financiamento

Neste ano, a Olimpíada enfrentou um cenário de incerteza financeira. Pela primeira vez, desde sua criação, não houve abertura do edital do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) destinado às olimpíadas científicas. “O edital sempre foi fundamental para nós”, afirma Meneguello. “Não foi apenas a nossa olimpíada que ficou sem recursos. Isso afetou todas as olimpíadas científicas do país.”

Segundo ela, a equipe precisou recorrer a emendas parlamentares e ampliar estratégias de financiamento para garantir a continuidade do projeto. “Quando você mantém um projeto há 18 anos, não pode deixá-lo morrer por falta de verba”, resume. “É um projeto bonito demais. No curso de História da Unicamp, por exemplo, quando pergunto no primeiro dia de aula quem participou da olimpíada, quase todo mundo levanta a mão.”

Calendário da ONHB 2026

Primeira fase: de 4 a 9 de maio
Segunda fase: de 11 a 16 de maio
Terceira fase: de 18 a 23 de maio
Quarta fase: de 25 a 30 de maio
Quinta fase (final estadual e semifinal nacional): de 8 a 13 de junho
Divulgação das equipes classificadas para a final nacional presencial: 19 de junho
Divulgação das equipes medalhistas estaduais: 26 de junho
Envio dos certificados de premiação estadual: a partir de 15 de outubro

Grande final presencial na Unicamp
Prova: 29 de agosto
Cerimônia de premiação: 30 de agosto

Foto de capa:

Grande grupo de pessoas reunidas em área externa sob estrutura coberta, com banner roxo ao fundo indicando "Prova Final" e "Olimpíada Nacional em História do Brasil", caracterizando evento educacional de competição acadêmica.
A divulgação das equipes classificadas para a final nacional presencial acontece no dia 19 de junho

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Projeto leva diversidade da música popular brasileira à Itália

Quatro professores do curso de música do Instituto de Artes (IA) embarcam para a Itália levando na bagagem um projeto inédito que mistura performance, escuta e reflexão crítica em torno da música popular brasileira, tratada como campo de criação, história e pensamento. A iniciativa reúne a cantora Regina Machado, a pianista Thaís Nicodemo, o baterista Leandro Barsalini e o contrabaixista José Alexandre Carvalho em uma programação que inclui aulas, concerto e palestras em Frosinone e Roma, nos dias 25 e 29 de maio.

O ponto de partida foi um convite simples, quase pontual, feito para Machado pela cantora e professora italiana Susanna Stivali: ministrar aulas de canto no Conservatorio di Musica Licinio Refice di Frosinone, a cerca de uma hora de Roma. Mas a ideia se expandiu. “Eu recebi o convite e pensei: vou, claro, mas podemos fazer algo maior. A proposta acabou se tornando uma semana inteira dedicada à música popular brasileira, fora dos formatos já estabelecidos de congressos e eventos acadêmicos”, conta.

No conservatório de Frosinone, onde o ensino musical se organiza com estatuto de universidade e forte ênfase na performance, o encontro se dará sobretudo no território do som. Pela manhã, cada professor trabalhará com os alunos em seu instrumento; à tarde, as vozes e os instrumentos se reúnem em torno de um repertório construído em conjunto, na experiência compartilhada do fazer musical. No dia 27, esse percurso se abre ao público em forma de concerto, incorporando também os alunos italianos.

A escolha do repertório reflete uma preocupação central do projeto: apresentar a diversidade da música popular brasileira para além dos recortes mais difundidos internacionalmente. Obras de Tom Jobim, Gilberto Gil, Chico Buarque e Cartola estão previstas, mas não como fim em si mesmas. “Lá fora, a principal referência ainda é a bossa nova, porque ela teve uma internacionalização muito forte”, observa Machado. “Mas a gente quer ampliar esse horizonte, mostrar outros gêneros, como o samba e o baião. A ideia é fazer uma espécie de amostragem dessa música que se consolidou ao longo do século 20 e que hoje é matéria de estudo.”

Pessoa de cabelos cacheados e volumosos, usando óculos roxos e camiseta branca, gesticula com as mãos levantadas durante uma apresentação ou conversa em ambiente interno.
Pessoa de cabelos escuros ondulados, vestindo blusa azul e colar, sentada em cadeira, gesticulando com a mão esquerda enquanto fala em ambiente interno com parede clara e detalhe em madeira ao fundo.
À esquerda, a cantora Regina Machado e, à direita, a pianista Thaís Nicodemo: projeto inédito que mistura performance, escuta e reflexão crítica em torno da música popular brasileira

Essa ideia de “matéria” como algo que se investiga, se transmite e se transforma atravessa todo o projeto. Em Roma, onde os professores participam de atividades na La Sapienza Università di Roma, a música se desloca para a palavra. Ali, o grupo chega como convidado do professor e pesquisador Luca Bacchini, ligado a um departamento dedicado aos estudos interculturais e brasileiros. “O professor que nos convidou é um brasilianista com vários trabalhos sobre a canção brasileira. É um campo de estudo consolidado”, aponta Machado.

Cada docente da Unicamp apresentará uma palestra, expandindo em reflexão aquilo que se experimenta na prática. Machado enfocará a voz, suas formas, suas sonoridades, aquilo que se construiu historicamente e ainda ressoa. “A voz na canção brasileira foi se definindo ao longo do século 20 e isso constitui uma linguagem, uma estética, um campo de pesquisa”, explica.

Barsalini aponta a bateria como eixo para pensar uma tensão mais ampla. “Quero discutir a relação entre tradição e modernidade a partir da presença da bateria, observar como ela aparece em diferentes momentos históricos e o que isso revela sobre transformações da linguagem.”

Se a bateria tensiona, o piano, na leitura de Thaís Nicodemo, atravessa. “Eu penso o piano como um mediador cultural”, define. Historicamente associado a espaços de prestígio e à tradição europeia, o instrumento, no Brasil, desce às ruas, sobe o morro, infiltra-se no samba. “Ele cria uma ponte entre universos distintos”, afirma. “Não está apartado da música popular, pelo contrário, participa ativamente de sua construção, muitas vezes como elemento de modernização.”

Na base de tudo, sustentando e articulando essas camadas, está o trabalho de Carvalho, que abordará o acompanhamento, sobretudo no samba e no choro. “Quero mostrar como os instrumentos constroem essa base para que a música aconteça”, explica.

As quatro abordagens, distintas em seus focos, convergem em um ponto essencial: a recusa de separar prática e pensamento. “A gente trabalha com a ideia de que a performance e a reflexão crítica caminham juntas”, ressalta Barsalini. “Isso faz parte da própria história da música popular brasileira.”

Essa convergência também resulta de uma formação comum, construída ao longo de décadas na Unicamp. “Somos fruto de um trabalho que começou há 15, 20 anos, com professores que criaram grupos de pesquisa e trouxeram uma leitura mais crítica e multidisciplinar da música”, acrescenta o baterista.

Pessoa sentada em uma cadeira usando camiseta amarela com texto em azul, gesticulando com as mãos durante o que aparenta ser uma entrevista ou depoimento em ambiente interno.
Pessoa usando óculos e camiseta azul escura com estampa, gesticulando com as mãos enquanto fala, em ambiente interno com parede clara ao fundo.
À esquerda, o contrabaixista José Alexandre Carvalho e, à direita, o baterista Leandro Barsalini: programação que inclui aulas, concerto e palestras em Frosinone e Roma

Memória e afirmação

No contexto dos 60 anos da Unicamp, comemorados em 2026, a viagem assume também um caráter simbólico, como um gesto de memória e afirmação. Ao levar essa perspectiva para fora do país, o grupo reafirma a própria história da Universidade, que, em 1989, criou o primeiro curso de graduação em música popular em uma universidade pública brasileira. “Não é trivial”, lembra Machado. “É o reconhecimento de que essa música tem uma importância cultural enorme, não só para o Brasil, mas para o mundo.”

Ao longo do tempo, o curso foi se transformando, equilibrando diferentes demandas e visões. Se, em sua origem, privilegiava a formação crítica de músicos já atuantes, incorporou progressivamente a dimensão da performance e expandiu sua atuação para a pós-graduação. “A performance está consolidada”, observa Barsalini. “Agora a gente busca fortalecer novamente a formação crítica.”

A música popular brasileira se constrói muitas vezes fora dos modelos formais de ensino, em práticas coletivas, na oralidade e na circulação entre espaços. “Ela envolve a roda, a convivência, a troca”, diz Nicodemo. “E nem sempre isso se encaixa nas estruturas tradicionais da universidade.”  Há lacunas a serem enfrentadas, como a presença tímida de instrumentos ligados às tradições populares, como pandeiro e cavaquinho, no ambiente acadêmico. “São caminhos que ainda precisamos abrir”, reconhece Barsalini.

Se a viagem aponta para esses desafios, ela também revela possibilidades. O interesse pela música brasileira no exterior, concordam os professores, é intenso e consistente. “Às vezes maior do que aqui”, observa Machado. O departamento que os recebe em Roma é um exemplo desse campo de investigação que se consolida fora do país, impulsionado por pesquisadores e artistas que veem na canção brasileira um território fértil de análise.

A expectativa é que o projeto não se encerre em si mesmo. Já há articulações para a vinda de professores italianos à Unicamp e para a construção de programas de intercâmbio que incluam estudantes. “A ideia é criar um fluxo. Levar e trazer, estabelecer vínculos”, completa Carvalho. 

Foto de capa:

Quatro pessoas posicionadas atrás de um piano de cauda aberto, sorrindo para a câmera em ambiente interno com parede clara.
Cada um dos docentes apresentará uma palestra, expandindo em reflexão aquilo que se experimenta na prática

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A representação nipo-brasileira na cultura vista pela literatura de Oscar Nakasato

Quem conta o Brasil – e, sobretudo, quais histórias permanecem à margem das narrativas mais difundidas no país – é uma das questões que atravessam as reflexões do escritor e professor Oscar Nakasato. Ao iniciar, em maio, uma residência artística no Instituto de Estudos Avançados (IdEA) da Unicamp, o autor retoma um tema recorrente em sua obra: a presença ainda restrita de experiências nipo-brasileiras na literatura e em outras formas de produção cultural. Para ele, essa ausência não é casual, mas sintoma de um processo mais amplo de construção do imaginário nacional.

Segundo Nakasato, embora haja sinais de mudança nos últimos anos, a incorporação desse universo permanece limitada e desigual, especialmente quando se observa sua circulação em diferentes linguagens. A literatura, o cinema e a televisão ainda oferecem poucos espaços consistentes para personagens e narrativas nipo-brasileiras, o que contribui para uma visibilidade fragmentada. “Que o universo nipo-brasileiro faça parte do audiovisual, do cinema, da televisão, enfim, isso ainda é bastante incipiente”, afirma, ao destacar que essa lacuna atravessa não apenas a produção artística, mas também os circuitos de difusão cultural.

Fotografia de uma pessoa usando óculos de armação preta e camisa social preta, posicionada em ambiente interno com elementos decorativos ao fundo, incluindo estruturas de madeira e objetos desfocados.
Oscar Nakasato: presença ainda restrita de experiências nipo-brasileiras na literatura e em outras formas de produção cultural

Essa condição, para o autor, evidencia os limites históricos da representação no Brasil, onde determinadas experiências permanecem sub-representadas mesmo quando possuem relevância social e histórica. A presença japonesa no país, iniciada no início do século XX e profundamente enraizada em diferentes regiões, nem sempre se traduz em protagonismo narrativo. Nesse sentido, a escassez de personagens nipo-brasileiros aponta para uma seleção implícita do que merece ser contado — e do que tende a ser silenciado ou secundarizado.

Ao mesmo tempo, Nakasato reconhece que há um movimento gradual de ampliação dessas narrativas, impulsionado por novas produções e por uma maior diversidade de vozes no campo cultural. Ainda que esse avanço seja desigual, ele indica uma abertura crescente para histórias que antes encontravam pouca ressonância nos espaços mais visíveis. Trata-se, segundo o escritor, de um processo em construção, que depende tanto da produção de novas obras quanto da transformação dos critérios de legitimação no campo artístico.

A discussão sobre representação se articula diretamente com a questão da identidade, especialmente quando se observam as mudanças nas novas gerações de descendentes de japoneses no Brasil. Para Nakasato, a relação com a cultura de origem tornou-se mais difusa, marcada por distanciamentos e reinterpretações. “Grande parte dos nipo-brasileiros hoje se reconhece absolutamente como brasileira”, afirma, ao indicar que elementos da cultura japonesa persistem, mas de forma mais fragmentada e menos central na vida cotidiana.

Essa reconfiguração não implica o desaparecimento da identidade nipo-brasileira, mas sua transformação ao longo do tempo, em diálogo com processos históricos, sociais e culturais mais amplos. A identidade, nesse sentido, deixa de ser compreendida como uma herança estática e passa a ser vista como um campo dinâmico, atravessado por deslocamentos, negociações e ressignificações. Essa perspectiva permite compreender a experiência nipo-brasileira para além de estereótipos, reconhecendo sua complexidade e suas múltiplas camadas.

Essas questões estão no centro de Nihonjin, romance publicado há mais de uma década e responsável por projetar nacionalmente a obra de Nakasato. Ao revisitar o livro, o autor observa que os dilemas de pertencimento que estruturam a narrativa permanecem atuais, ainda que se manifestem de maneiras distintas no presente. A obra, que acompanha a trajetória de uma família de imigrantes japoneses no Brasil, articula memória individual e experiência coletiva para explorar os conflitos e as tensões envolvidos na construção da identidade.

Capa de livro intitulado "Nihonjin" de Oscar Nakasato, publicado pela editora Fósforo, apresentando ilustração de um edifício comercial de três andares em estilo arquitetônico japonês, com fachada em tons de rosa e amarelo, letreiros em japonês e português incluindo "CASA", vitrines no térreo e detalhes ornamentais, acompanhado dos ideogramas japoneses 日本人 e selo indicando vencedor do Prêmio Jabuti.
Ilustração digital de uma cozinha doméstica em tons de verde, marrom e bege, apresentando mesa com cadeiras em primeiro plano, estantes com utensílios, eletrodomésticos, televisão, calendário na parede e luminária pendente, com os textos "FOSFORO" no topo, "oscar nakasato" e "ojiichan" em caracteres latinos e japoneses sobre fundo verde.

Memória e ficção em Nihonjin

Desde sua publicação, Nihonjin tem sido lido não apenas como um relato sobre a imigração japonesa, mas como uma reflexão mais ampla sobre deslocamento, adaptação e pertencimento. Nesse sentido, o romance dialoga com outras experiências migratórias e com os desafios de inserção em contextos culturais distintos. Para Nakasato, essa dimensão mais ampla contribui para a permanência da obra, que continua a suscitar interpretações à medida que novas gerações se deparam com questões semelhantes sob outras circunstâncias.

O interesse do autor por essas temáticas se estende a seus projetos mais recentes, entre eles um novo romance centrado na experiência dos chamados decasséguis (brasileiros descendentes de japoneses que migraram para o Japão em busca de trabalho). Nesse caso, a narrativa se volta para o retorno ao Brasil e para o sentimento de deslocamento que acompanha esse movimento. “O protagonista é alguém que passa décadas no Japão e, ao voltar, sente-se perdido. É a questão da identidade mesmo”, explica, ao indicar a persistência do desenraizamento.

A experiência dos decasséguis, segundo o escritor, evidencia uma forma particular de deslocamento, marcada por uma dupla pertença que nem sempre se resolve de maneira harmoniosa. Ao retornar ao Brasil, esses indivíduos frequentemente se veem entre dois mundos, sem se reconhecer plenamente em nenhum deles. Essa condição liminar reforça a ideia de que a identidade é um processo em constante construção, influenciado por trajetórias individuais e por contextos históricos mais amplos.

Na elaboração de suas narrativas, Nakasato recorre a uma combinação de memória pessoal, experiência familiar e pesquisa histórica, articulando diferentes níveis de realidade na construção ficcional. “É uma história que inventei, mas com base na memória da minha família e na memória coletiva”, afirma. Esse procedimento permite ao autor criar personagens e situações que, embora fictícios, dialogam diretamente com experiências compartilhadas por diferentes grupos.

Entre memória e história

O trabalho com a memória envolve também a recuperação de episódios históricos pouco difundidos, como momentos de preconceito e exclusão enfrentados por imigrantes japoneses no Brasil, especialmente durante períodos de tensão internacional. Ao trazer esses elementos para a ficção, o autor contribui para ampliar o conhecimento sobre aspectos menos visíveis da história nacional, ao mesmo tempo em que problematiza como esses episódios são lembrados — ou esquecidos.

A circulação dessas narrativas por outras linguagens amplia ainda mais seu alcance e potencial de impacto. A adaptação de Nihonjin para o audiovisual, por meio da animação Eu e meu avô japonês, exemplifica esse processo. Para Nakasato,  não se trata de reproduzir a obra original, mas abrir espaço para transformações que respondem às especificidades de cada linguagem. “Mais do que uma adaptação, foi uma inspiração”, afirma.

Esse trânsito entre literatura e audiovisual possibilita atingir públicos distintos e explorar novas formas de narrar experiências já abordadas em outros contextos. Ao mesmo tempo, reforça a ideia de que a representação da identidade nipo-brasileira não se esgota em um único formato, podendo se expandir por diferentes meios e linguagens. Essa multiplicidade contribui para diversificar as formas de percepção e interpretação dessas narrativas.

Ao abordar a presença ainda incipiente de personagens nipo-brasileiros na produção cultural, Nakasato chama a atenção para um problema que ultrapassa o campo literário e se insere em uma discussão mais ampla sobre representação no Brasil. A ampliação dessas narrativas, segundo ele, depende não apenas da produção de novas obras, mas também da disposição do público e das instituições em reconhecer e valorizar essas histórias.

Nesse contexto, a literatura surge como um espaço privilegiado para tensionar as formas estabelecidas de representação e para abrir caminho a outras perspectivas. Ao colocar em circulação experiências historicamente menos visíveis, ela contribui para ampliar o repertório simbólico do país e para complexificar a compreensão sobre sua diversidade. Mais do que preencher lacunas, trata-se de reconfigurar os modos de narrar e de perceber a realidade brasileira.

Ilustração digital mostrando duas pessoas em um ambiente interno com janela ao fundo exibindo vegetação verde, onde uma pessoa mais jovem com cabelos escuros e vestimenta verde segura um objeto pequeno nas mãos, enquanto uma pessoa mais velha com cabelos grisalhos nas laterais da cabeça, vestindo roupa marrom e azul clara, segura palitos e aparenta estar em uma refeição.
Cena da animação da adaptação de Nihonjin para o audiovisual

Confira a programação completa:

13 de maio, 19h

Palestra de abertura: A incipiência de personagens nipo-brasileiros na produção ficcional

Anfiteatro do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp (IEL) | R. Sérgio Buarque de Holanda, 571

14 de maio a 01 de julho, diversos horários

Oficina de criação literária (ficção) com Oscar Nakasato | turma A

Instituto de Estudos Avançados da Unicamp (IdEA) | Av. Oswaldo Cruz, 301, Cidade Universitária

14 de maio a 01 de julho, diversos horários

Oficina de criação literária (ficção) com Oscar Nakasato | turma B

Instituto de Estudos Avançados da Unicamp (IdEA) | Av. Oswaldo Cruz, 301, Cidade Universitária

15 de maio, 14h

Conversa com Lúcia Hiratsuka: O que se diz com palavras e traços

Anfiteatro do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp (IEL) | R. Sérgio Buarque de Holanda, 571

02 de junho, 09h

Debate e exibição da animação “Eu e meu avô japonês”

Espaço Cultural Casa do Lago da Unicamp | Avenida Érico Veríssimo, 1011, Cidade Universitária Zeferino Vaz

03 de junho, 19h

Oscar Nakasato conversa com Carla Kinzo: Identidade nipo-brasileira no diálogo entre literatura e teatro

Anfiteatro do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp (IEL) | R. Sérgio Buarque de Holanda, 571

02 de julho, 19h

Mesa redonda: identidade nipo-brasileira na cultura

Anfiteatro do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp (IEL) | R. Sérgio Buarque de Holanda, 571

Foto de capa:

Pessoa usando óculos e camiseta verde oliva em ambiente interno, com parede ao fundo contendo arte visual e texto parcialmente visível em português que menciona "desdobramentos da Guerra na vida" e "japoneses".
Escritor e professor Oscar Nakasato inicia, em maio, uma residência artística no IdEA (Foto: Cristiano Martinez)

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Marcos Nobre lança livro ‘Os arquivos da Teoria Crítica’

Nesta quarta-feira (29), o professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp Marcos Nobre lança o livro Os arquivos da Teoria Crítica. O evento ocorre no Sesc Campinas, às 19h30. A obra, organizada por Nobre e pela professora da Universidade de Paris 1 Panthéon-Sorbonne Isabelle Aubert, reúne análises de pesquisadores sobre os arquivos de intelectuais da Teoria Crítica, corrente de pensamento fundada oficialmente em 1934 pelo Instituto de Pesquisa Social (IPS). O evento terá um debate entre Marcos Nobre e a professora Taisa Palhares, também do Departamento de Filosofia da Unicamp, mediado pelo doutorando Raphael Concli.

O livro foi publicado em 2025 pela Edições Sesc e conta com ampla contribuição de intelectuais brasileiros. Em entrevista ao Jornal da Unicamp veiculada em novembro, Nobre abordou o legado dos intelectuais da Teoria Crítica, que sofreram perseguição do nazismo e precisaram fugir da Alemanha diante das ameaças. “Com a chegada de Hitler ao poder, o Instituto teve que se mudar para Genebra, depois para Paris e depois para Nova Iorque. Ele foi fugindo da guerra, e, com isso, perdeu-se muita coisa, porque os nazistas depredaram a sede do Instituto em 1933. Um novo prédio foi construído a partir de 1950, quando o Instituto retornou para a cidade de Frankfurt”, disse o professor. 

O professor Marcos Nobre: legado dos intelectuais da Teoria Crítica
O professor Marcos Nobre: legado dos intelectuais da Teoria Crítica

No entanto, Walter Benjamin, Max Horkheimer, Jürgen Habermas e diversos outros intelectuais do Instituto buscaram salvar o que podiam. Em Os arquivos da Teoria Crítica, a análise desses documentos oferece um panorama sobre o pensamento dos intelectuais.  

Entre os 24 capítulos, destaca-se a contribuição de Jürgen Habermas, que morreu em março deste ano, aos 97 anos. “Habermas foi muito solícito com a gente, permitiu que publicássemos duas cartas. e nós ficamos muito contentes de ter a possibilidade de mostrar o tipo de material que se pode encontrar nos arquivos dele”, recordou Nobre na entrevista.

Ao Jornal da Unicamp, o professor também destacou a pluralidade de perspectivas na Teoria Crítica e seu fio condutor: a prática orientada para a emancipação. “Quando a Teoria Crítica nasce, na década de 1930, ela nasce com esse espírito da união de teoria e prática. Ao mesmo tempo, para que fosse mantida a pluralidade de perspectivas e de posições dentro do Instituto, não seria possível defender uma forma específica de prática, porque isso restringiria o pensamento e a pesquisa. Essa é uma noção de tolerância em que se pensa: nós estamos orientados para a prática dirigida para e pela emancipação, mas não para uma prática determinada de um partido, de um determinado grupo”.

Leia mais:

Os 100 anos de uma teoria voltada à emancipação

capa do livro sobre os arquivos da teoria crítica

Serviço:

Lançamento do livro Os arquivos da Teoria Crítica

Onde: Sesc Campinas (Rua Dom José I, 270/333 – Bonfim)

Data: 29/4 (quarta-feira)

Horário: 19h30

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Livro de coleção internacional celebra Walter Carnielli e contribuição brasileira à lógica

O lançamento do livro Walter Carnielli on Reasoning, Paraconsistency, and Probability [Walter Carnielli sobre o raciocínio, a paraconsistência e a probabilidade], 32º volume da coleção Outstanding Contributions to Logic, da editora alemã Springer, uma das mais prestigiadas do mundo acadêmico, marca um momento de inflexão para a lógica desenvolvida no Brasil. A obra reúne contribuições de 19 pesquisadores de diferentes países em torno da produção científica do lógico-matemático Walter Carnielli, professor titular do Departamento de Filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e pesquisador-sênior da Unicamp, vinculado ao Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE).

Mais do que uma homenagem individual, o livro se insere em um movimento mais amplo de reconhecimento da ciência brasileira e amplia a visibilidade internacional de uma tradição de pesquisa construída ao longo de décadas no país, destaca o professor. “O livro não é uma homenagem a mim apenas, é uma homenagem à lógica brasileira”, afirma Carnielli, autor, entre outros títulos, de Computabilidade: funções computáveis, lógica e os fundamentos da matemática, ganhador do Prêmio Jabuti, e de Pensamento crítico: o poder da lógica e da argumentação, escritos em parceria com o matemático norte-americano Richard L. Epstein.

A coleção da Springer reúne livros dedicados a nomes de grande impacto na área, e a inclusão de Carnielli marca um feito inédito: é a primeira vez que um pesquisador fora do eixo hegemônico é homenageado na série. “Nem América Latina, nem África, nem outros países do Sul Global tinham sido contemplados antes”, conta.

O professor Wlater Carnielli: homenagem à lógica brasileira
O professor Walter Carnielli: homenagem à lógica brasileira

Para o professor, esse dado evidencia uma desigualdade estrutural no sistema científico internacional. “Conseguir esse espaço mostra que é possível romper essa barreira. De certa forma, eu furei essa bolha”, diz. A “bolha”, nesse caso, refere-se a uma estrutura consolidada de produção e circulação do conhecimento, na qual centros acadêmicos do Hemisfério Norte concentram visibilidade, prestígio e capacidade de influência.

Carnielli ressalta que pesquisadores de outras regiões frequentemente enfrentam mais obstáculos para alcançar reconhecimento equivalente, mesmo quando produzem contribuições relevantes. “É muito mais difícil para quem está fora desse eixo ganhar espaço”, aponta.

O livro foi organizado por Henrique Antunes, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), e Alfredo Roque Freire, da Universidade de Brasília (UnB), ambos ex-alunos de doutorado de Carnielli, e por Abílio Rodrigues, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e colaborador de longa data. A organização do volume levou quatro anos. “Foi um trabalho enorme. Coordenar autores de vários países, revisar textos e estruturar o livro demandou um esforço coletivo muito grande”, afirma. A obra apresenta análises críticas, desenvolvimentos teóricos e novas propostas a partir das ideias de Carnielli e de seus colaboradores. “Não é uma coletânea de elogios. É um debate científico de alto nível”, ressalta.

Cada capítulo dialoga com aspectos específicos da produção do pesquisador, abrangendo temas como lógicas paraconsistentes e não clássicas, computabilidade, teoria da probabilidade, filosofia da lógica e filosofia da ciência, por exemplo. Entre os destaques está a discussão sobre a relação entre a lógica contemporânea e a tradição aristotélica. Um dos textos propõe uma “ruptura radical” com essa ortodoxia. “Não se trata de jogar fora a lógica clássica, mas de estendê-la. Na matemática e na lógica, quase nunca se abandona o que foi construído. O que fazemos é ampliar”, afirma.

Para ilustrar essa ideia, ele recorre a uma analogia com a música brasileira. “A bossa nova não destruiu a música clássica nem o samba tradicional. Ela incorporou elementos e criou algo novo. Gosto de dizer que o Brasil está fazendo a ‘bossa nova da lógica’.”

Além de reunir os artigos, o livro inclui a participação direta de Carnielli, responsável por comentar cada uma das contribuições, estabelecendo um diálogo com os autores e aprofundando o debate. A obra traz ainda uma autobiografia intelectual, na qual o pesquisador revisita sua trajetória acadêmica, suas influências e os caminhos que levaram à consolidação da lógica paraconsistente no Brasil.

Escrito integralmente em inglês, o livro foi concebido para circulação internacional e já está disponível na plataforma Amazon. Com mais de 600 páginas, a obra se projeta como referência para pesquisadores da área e para novas gerações interessadas em lógica, filosofia e ciência da computação.

Ao olhar para o conjunto de sua trajetória, Carnielli vê no lançamento um momento de síntese. “Eu considero esse livro uma coroação de um trabalho coletivo de décadas”, afirma. “Se não fosse o ambiente da Unicamp, do Centro de Lógica, dos alunos e colaboradores, nada disso existiria.”

Capa do livro parte da coleção internacional

Escola brasileira de lógica

A publicação recupera e projeta especialmente o desenvolvimento da lógica paraconsistente, uma área iniciada no Brasil a partir dos trabalhos do matemático Newton da Costa (1929–2024), e de forma independente na Polônia.

Um dos pilares dessa trajetória é o Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE), criado no início dos anos 1970 a partir de uma iniciativa liderada pelo filósofo Oswaldo Porchat Pereira, que trouxe para a Unicamp a proposta de um espaço dedicado à pesquisa em lógica, filosofia e fundamentos da ciência, em um momento em que essas áreas ainda eram incipientes no Brasil. “O centro surgiu com a proposta de investigar não apenas a lógica formal, mas também seus fundamentos filosóficos e históricos, um enfoque inovador para a época”, lembra Carnielli, cuja trajetória está diretamente ligada ao CLE. Ele atuou desde os primeiros anos, participou da consolidação do centro, foi diretor da instituição durante 11 anos e hoje segue como professor e pesquisador-sênior, mantendo atividades na pós-graduação e orientação de alunos.

O CLE se consolidou como um dos principais polos de pesquisa em lógica na América Latina, formando gerações de pesquisadores. Foi nesse ambiente que a lógica paraconsistente encontrou espaço para se desenvolver e ganhar projeção. “Se não fosse este espaço, este grupo, este ambiente, esse trabalho não existiria”, destaca.

A lógica paraconsistente propõe uma inflexão conceitual importante em relação à tradição clássica. Enquanto a lógica tradicional, herdada em grande parte da filosofia aristotélica, não admite contradições, levando sistemas inconsistentes ao colapso, a abordagem paraconsistente permite trabalhar com elas de forma controlada, sem comprometer a racionalidade. “A ciência clássica não consegue lidar com contradições. Se você introduz uma, o sistema ‘explode’. A lógica paraconsistente, ao contrário, permite que você continue raciocinando de maneira rigorosa mesmo na presença de contradições”, explica.

Essa possibilidade aproxima a formalização lógica do modo como os seres humanos efetivamente pensam e tomam decisões, com profundos reflexos em várias áreas da ciência. No cotidiano, contradições são frequentes, com informações conflitantes, interpretações divergentes ou dados incompletos e, ainda assim, o raciocínio não colapsa. “É uma lógica mais humana, e mais realista, no sentido de que consegue lidar com situações concretas”, observa.

Ao longo das últimas décadas, essa abordagem deixou de ser apenas uma proposta teórica para se tornar uma ferramenta relevante em diversas áreas. Aplicações em computação, linguística, inteligência artificial, filosofia da ciência, teoria da probabilidade e fundamentos da matemática demonstram o alcance do campo.

Na Unicamp, esse desenvolvimento ganhou novo impulso com a reestruturação da teoria e a criação de uma vertente conhecida como lógicas da inconsistência formal, que sistematiza e amplia propostas anteriores.

“O que fizemos aqui foi retomar uma ideia que estava, de certa forma, dispersa, e reorganizá-la. A partir disso, conseguimos integrar diversas contribuições internacionais e dar maior consistência ao campo”, explica. “O resultado foi a consolidação de uma escola brasileira de lógica, que formou pesquisadores e se expandiu por diferentes universidades do país, como a Universidade de Brasília (UnB) e as Federais da Bahia (UFBA), de Santa Catarina (UFSC), do Paraná (UFPR) e de Minas Gerais (UFMG)”, completa.

Esse movimento também contribuiu para a internacionalização da área. Hoje, pesquisas em lógica paraconsistente e não clássica desenvolvidas no Brasil dialogam com centros nos Estados Unidos, Alemanha, Israel, Japão, Bélgica, França, Itália, Austrália, Nova Zelândia, México, Argentina e China. “A área cresceu e o grupo brasileiro ganhou projeção. Isso foi um trabalho coletivo, de muitos anos.”

Foto de capa:

A organização do volume levou quatro anos; cada capítulo dialoga com aspectos específicos da produção do pesquisador
A organização do volume levou quatro anos; cada capítulo dialoga com aspectos específicos da produção do pesquisador

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Projeto mapeia feiras livres e busca resgatar cultura de convivência em Campinas

Se existem lugares que estão no DNA do Brasil, a feira livre é um deles. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem cerca de 9 mil delas em funcionamento atualmente, distribuídas em 3.961 municípios, alcançando 71,5% do país. Disposto a incentivar o público universitário a frequentar esses locais, um grupo de estudantes do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), da Unicamp, deu início ao projeto de extensão “Cadê a feira?”, que busca mapear e descrever cada um desses pontos de comércio popular e tradicional em Campinas. Valorizar a agricultura familiar é outro foco do grupo com este trabalho.

O que era para ser uma ação entre colegas, transformou-se em um projeto a serviço da comunidade em geral. Surgido em 2024 dentro das disciplinas de extensão universitária, alunos das Ciências Sociais passaram a combinar pesquisa acadêmica com ações práticas de resgate destes espaços, que vão além da compra de alimentos.

Atualmente, a iniciativa tem uma página no Instagram — kdafeira.unicamp —, onde é possível saber os bairros, dias e horários das feiras, além do que cada local oferece. “Hoje, entendemos que o projeto tem um caráter de utilidade pública, porque facilita o acesso à informação. Queremos conectar feirantes a consumidores”, explica o estudante Pedro Montefusco Neto, integrante da iniciativa.

Além de reunir dados, o grupo busca resgatar o papel das feiras como espaços de convivência. Mais do que locais de compra, elas são vistas como ambientes de socialização e de troca entre pessoas de diferentes origens. “Queremos recuperar essa cultura de frequentar a feira não só pelo consumo, mas pela experiência social”, comenta o estudante.

Estudantes durante a programação do Unicamp Portas Abertas, em 2025; a docente Artionka Capiberipe no centro e ao lado o estudante Pedro Montefusco Neto
Estudantes durante a programação do Unicamp Portas Abertas, em 2025; a docente Artionka Capiberipe no centro e ao lado o estudante Pedro Montefusco Neto

O projeto também tem investido em ações educativas. Entre elas, a participação em eventos universitários com atividades interativas sobre os caminhos dos alimentos até o consumo e a organização de exibições de documentários sobre alimentação e indústria alimentícia. Na edição mais recente do programa Unicamp de Portas Abertas (UPA), por exemplo, o grupo montou literalmente uma banca de feira para chamar a atenção dos visitantes.

Para ampliar este verdadeiro raio-x das feiras, o grupo do IFCH realiza um trabalho de campo que envolve um mapeamento a partir de dados públicos (site da Prefeitura de Campinas, por exemplo), a verificação das informações e visitas presenciais. Pedro Neto conta que, em alguns casos, feiras existentes no portal do município, na verdade, não existem. Por isso, a importância desse contato presencial pelas regiões da cidade.

Durante as idas aos locais, eles conversam com feirantes e consumidores, registram imagens em foto e vídeo, além de coletar dados sobre o funcionamento e o perfil dos trabalhadores. Outra ação do grupo foi a criação de localizações no Google para feiras que ainda não estavam registradas digitalmente.

Barão Geraldo

Por enquanto, as atividades estão concentradas em Campinas, principalmente por questões logísticas. O levantamento mais detalhado até agora foi feito na feira de Barão Geraldo, distrito de Campinas, onde os estudantes aplicaram questionários para compreender aspectos econômicos e históricos dos feirantes. Ainda de acordo com Pedro Neto, o perfil dos trabalhadores é diverso, e nem todos são produtores diretos. “É comum que muitos sejam revendedores, o que também faz parte da dinâmica atual. Por isso, além da agricultura familiar, também valorizamos a economia local como um todo”, afirma ele.

Questionado sobre a percepção de que as feiras estariam desaparecendo, o estudante avalia que elas continuam ativas, mas perderam visibilidade. A concorrência com supermercados, que oferecem maior praticidade, é apontada como um dos principais desafios. “As feiras não sumiram. O que mudou foi o acesso e o hábito das pessoas”, acredita.

Outro ponto observado é o perfil do público. A frequência ainda é majoritariamente composta por pessoas de uma faixa etária mais alta, habituadas culturalmente a frequentar esses espaços, o que reforça a necessidade de atrair novos consumidores. Para os integrantes do grupo, o objetivo central é manter viva uma prática cultural que resiste às transformações urbanas. “A feira é um espaço importante de convivência e de resistência. Fazer com que as pessoas saibam que ela existe já é um passo muito grande”, conclui.

Feirantes no distrito de Barão Geraldo: atividades para compreender aspectos econômicos e históricos dos feirantes
Feirantes no distrito de Barão Geraldo: atividades para compreender aspectos econômicos e históricos dos feirantes

Vida própria

A professora Artionka Capiberibe, coordenadora da graduação em Ciências Sociais (2024-2026) do IFCH, lembra que o projeto “Cadê a Feira?” surgiu em sala de aula como parte de uma disciplina de extensão e rapidamente ganhou vida própria. A proposta inicial evoluiu para um trabalho mais profundo de interação com feirantes e frequentadores.

“A partir desse diagnóstico, passaram a atuar em diálogo com os trabalhadores locais, respeitando o princípio fundamental da extensão universitária: a construção conjunta com a comunidade”, aponta a professora. “A experiência prática também revelou aos alunos a complexidade do cotidiano dos feirantes, muitos dos quais exercem  múltiplas atividades além da feira. Esse contato direto contribuiu para desconstruir visões simplificadas e ampliar a compreensão sobre as dinâmicas sociais e econômicas envolvidas”, acrescenta.

Capiberibe faz questão de ressaltar que a “curricularização” da extensão universitária tem provocado mudanças significativas na formação de estudantes, ao estimular o contato direto com a sociedade e a aplicação prática do conhecimento acadêmico. “Na área de Ciências Sociais, essa transformação tem se materializado em uma série de projetos que conectam universidade e comunidade de forma contínua e colaborativa”, diz ela.

O “Cadê a Feira?” é apenas uma entre diversas iniciativas desenvolvidas no âmbito das disciplinas de extensão. Projetos como o “Falacine”, que leva sessões de cinema nacional a escolas públicas, o “Iranti”, voltado à realização de oficinas com mulheres idosas, e o “Humanidades em Cena”, que articula teoria social e produção teatral, demonstram a diversidade de propostas e públicos alcançados.

Ainda de acordo com Capiberibe, diferentemente de atividades acadêmicas tradicionais, os projetos de extensão não se encerram em um semestre. Estruturados em ciclos de disciplinas, eles permitem continuidade e aprofundamento ao longo do tempo, além de favorecer a participação coletiva — tanto entre estudantes quanto com os grupos externos envolvidos.

“Mais do que aplicar conhecimentos, os alunos relatam transformações pessoais ao longo do processo. Em muitos casos, a expectativa de levar algo à comunidade dá lugar à percepção de troca e aprendizado mútuo. A vivência prática, marcada pelo diálogo e pela adaptação às realidades encontradas, reforça o papel social da universidade pública”, comenta a professora.

Com iniciativas que seguem ativas desde 2024, os projetos indicam que a extensão pode ir além de uma exigência curricular, consolidando-se como um eixo estruturante da formação universitária. Ao romper os muros da academia, essas experiências contribuem para formar profissionais mais conscientes, engajados e preparados para atuar em contextos diversos.

Feiras visitadas pelos estudantes para colher informações; à esquerda no bairro Costa e Silva e à direita no Jardim Chapadão
Feiras visitadas pelos estudantes para colher informações; à esquerda no bairro Costa e Silva e à direita no Jardim Chapadão

Praça de alimentação

Rogério Chiminazzo, presidente do Sindicato dos Feirantes e Ambulantes de Campinas, valoriza a iniciativa surgida na Unicamp e acredita que ela pode reaquecer um estratégico setor comercial da cidade. “Também sou feirante e considero esse trabalho maravilhoso, justamente por atrair a atenção dos jovens. Atuo há seis anos em feiras noturnas e, hoje, elas estão ainda mais completas com verduras, peixe, espetinhos, milho, chope, pastel, crepe, hambúrguer, cookie e até acarajé. Tem muita coisa. É praticamente uma praça de alimentação. Queremos fazer isso também com as feiras diurnas”, conta.

Documentário

Como parte complementar desse universo ligado à alimentação, o IFCH exibe, no próximo dia 30, a partir das 18h, no Auditório Marielle Franco (Rua Cora Coralina, 100, na Unicamp), o documentário “Comida de Mentira”, de Rafael Mellin e Chica Andrade. Após a exibição, haverá uma roda de conversa sobre o filme. O evento é promovido pelo projeto “Cadê a Feira?”. A obra revela como a indústria dos ultraprocessados, movida pelo lucro a qualquer custo, quer reprogramar a alimentação de milhões de pessoas, comprometendo a saúde e ameaçando ecossistemas inteiros. A produção é do Coletivo Bodoque e Pajú Entretenimento.

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Estágio de pós-doc no exterior fortalece parcerias em estudos sobre erosão costeira no Mediterrâneo

O pós-doutorando do Departamento de Geografia do Instituto de Geociências (IG) Luca Lämmle retornou de um estágio de um ano no Departamento de Geologia da Universidade de Patras, na Grécia, onde foi recebido por Pavlos Avramidis. Sob supervisão do professor do IG Archimedes Perez Filho no IG, Lämmle pesquisou ambientes de transição de áreas estuarinas e deltaicas localizadas na foz do rio Pineios, no oeste do Peloponneso, Grécia. Também realizou atividades de campo junto à Universidade de Napoli Federico II, na Itália, por dois meses, quando pesquisou a foz do rio Volturno, localizado na região Campania, no sul do país. Seus estudos buscaram compreender como as pressões antrópicas nas bacias hidrográficas — incluindo urbanização, agricultura e barragens — impactam o sistema costeiro. O foco principal recai sobre a erosão costeira progressiva, que ameaça áreas urbanas no Mediterrâneo, configurando um desafio crescente para a gestão pública.

À esquerda, visita ao State Key Laboratory of Estuarine and Coastal Research (East China Normal University) e grupo de pesquisa anfitrião
À esquerda, visita ao State Key Laboratory of Estuarine and Coastal Research (East China Normal University) e grupo de pesquisa anfitrião
À esquerda, visita ao State Key Laboratory of Estuarine and Coastal Research (East China Normal University) e grupo de pesquisa anfitrião

Financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Lämmle conta que seu primeiro contato com Avramidis, coordenador do Laboratório de Sedimentologia da universidade grega, ocorreu durante seu doutorado em Geografia no IG. Em 2023, o coordenador consolidou parceria com o Laboratório de Geomorfologia (Geomorfo), coordenado por Perez Filho, quando participou de um workshop internacional.

Resultados dos estudos na Grécia

Segundo Lämmle, “é possível apontar que o principal problema das áreas estudadas até então é que estão passando por um processo de erosão costeira com intensidade progressiva, associada às alterações no fluxo hidrossedimentar dos rios, reduzindo sua capacidade de transportar sedimentos até a costa”. Esses sedimentos deveriam chegar às praias e manter o equilíbrio na área de foz, mas a perda de energia dos rios diminui o fluxo de sedimentos até a foz. Esse déficit nas praias faz com que as ondas avancem sobre o continente para recompor o material ausente, o que caracteriza o fenômeno da erosão costeira.

O pesquisador aponta que, “dentre as principais atividades de uso relacionada a tais alterações, está a presença de barragens, que possuem grande capacidade de reter sedimentos e de alterar o fluxo de vazão fluvial”. Praias urbanas próximas a essas áreas também foram analisadas por Lämmle. Dois artigos já foram publicados e outro está em avaliação: um no periódico Anthropocene Coasts e outro no Land.  

Palestra proferida na Universidade de Veneza e apresentação de resultados parciais na 11ª Conferência Internacional de Geomorfologia, realizada em Christchurch, na Nova Zelândia,
Palestra proferida na Universidade de Veneza e apresentação de resultados parciais na 11ª Conferência Internacional de Geomorfologia, realizada em Christchurch, na Nova Zelândia,

Durante a execução do projeto, o pós-doc do IG propôs um evento no formato de reunião científica aqui no Departamento, intitulado “II Meeting on Tropical and Subtropical transitional environments“. “O objetivo do evento foi consolidar as colaborações internacionais vinculadas ao projeto, e o encontro contou com membros do Laboratório de Geomorfologia da Unicamp, além de professores de universidades italianas, americanas, alemãs e gregas”, destaca Lämmle. 

O pesquisador também participou de palestras na Universidade de Genova (Itália), na Universidade de Napoli Federico II (Itália) e na Universidade da Basilicata (Itália), que permitiram estreitar relações acadêmicas para ampliar a colaboração internacional do grupo do Geomorfo-Unicamp.

Eventos internacionais

Durante seu estágio na Grécia, o pós-doc do IG participou de eventos internacionais, como o Congresso Internacional de Geomorfologia, na Nova Zelândia, em que divulgou resultados parciais em apresentação oral e coordenou uma sessão temática do eixo de Geomorfologia Antropogênica, juntamente com o Francesco Faccini, professor da Universidade de Genova, e Alessia Pica, da Universidade de Roma La Sapienza.

Lämmle participou ainda de uma atividade de campo na China, no delta do rio Yangtze, no State Key Laboratory of Estuarine and Coastal Research. Esse laboratório é o principal centro de estudos estuarinos e costeiros da China, sendo vinculado ao Ministério da Educação e estando hospedado na East China Normal University (ECNU). O pós-doc ministrou a palestra “Transitional environments under anthropogenic pressures: current challenges and future directions”.

Professores e pesquisadores participantes do II Meeting on Tropical and Subtropical Transitional Environments no auditório da Universidade de Patras
Professores e pesquisadores participantes do II Meeting on Tropical and Subtropical Transitional Environments no auditório da Universidade de Patras

Prêmios e títulos

Os estudos de Lämmle tem rendido prêmios internacionais. Um deles ocorreu durante seu estágio na Grécia. Concedido em junho de 2025, para participar da “Giornate di Studi autunnali AIGeo” realizada em Florença (Itália), no formato de conferência científica, o pós-doc ficou em primeiro lugar entre os geomorfólogos de destaque.  

No final de 2025, Lämmle recebeu o título de cidadão honorário de Belmonte, na Bahia, por reconhecimento aos trabalhos em desenvolvimento sobre erosão costeira no município, que está localizado na foz do rio Jequitinhonha.  “A sessão solene ocorreu em 15 de dezembro de 2025, mas, em decorrência da realização do estágio no exterior, não pude participar pessoalmente, e o título foi recebido por um familiar”, explica. 

À esquerda, grupo de pesquisa do Laboratório de Sedimentologia do Departamento de Geologia da Universidade de Patras, Grécia; à direita, trabalho de campo do II Meeting on Tropical and Subtropical Transitional Environments
À esquerda, grupo de pesquisa do Laboratório de Sedimentologia do Departamento de Geologia da Universidade de Patras, Grécia; à direita, trabalho de campo do II Meeting on Tropical and Subtropical Transitional Environments
À esquerda, grupo de pesquisa do Laboratório de Sedimentologia do Departamento de Geologia da Universidade de Patras, Grécia; à direita, trabalho de campo do II Meeting on Tropical and Subtropical Transitional Environments

Convite

Lämmle é membro de corpo editorial de três revistas internacionais. “Submissões resultantes de pesquisas do IG são muito bem-vindas, uma vez que vários professores já publicam nessas revistas”, aponta o pós-doc.

Para saber mais sobre as revistas, acesse:

Anthropocene Coasts (Springer)/Associate Editor

Quaternaty International (Elsevier)/ Editorial Board member

Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology (Elsevier)/ Editorial Board member

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Impacto não será traumático para municípios, garante mentor da reforma tributária

A reforma tributária que entrou em vigor este ano  —e que se estenderá até 2033 — não provocará perdas relevantes de receita aos municípios brasileiros. A garantia foi dada nesta quinta-feira (23) pelo economista Bernard Appy, que foi secretário Extraordinário da Reforma Tributária do Ministério da Fazenda — órgão que elaborou a proposta votada no Congresso. Em seminário promovido pelo Instituto de Economia (IE) da Unicamp em parceria com a Prefeitura de Campinas — que reuniu representantes de municípios da região —, Appy afirmou que o novo modelo traz grandes vantagens na comparação com o sistema anterior. 

“Com certeza não haverá nenhum impacto traumático sobre a arrecadação dos municípios. Isso posso garantir”, afirmou ele a uma plateia de estudantes, professores e secretários de finanças de mais de uma dezena de municípios paulistas, que lotou o auditório Zeferino Vaz. “No curto prazo, não haverá nenhuma perda relevante, e, no longo prazo, será preciso pensar em alternativas, mas que não sejam voltar para o sistema tributário atual, que é muito ruim”, disse. 

Bernard Appy: novo sistema reduzirá desigualdades
Bernard Appy: novo sistema reduzirá desigualdades

Segundo Appy, o novo sistema reduzirá desigualdades. “Hoje, no Brasil, há casos de municípios em que a diferença de receita per capita de ISS e quota parte do ICMS chega a 200 vezes. Com a reforma, isso cairá para 15 vezes”, diz. 

A reforma começou, na prática, este ano, como uma espécie de teste, antes da substituição definitiva de cinco tributos. Desse total, três são federais: o Programa de Integração Social (PIS), a Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). O Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) é administrado pelos estados; e o Imposto sobre Serviços (ISS), pelos municípios. 

A reforma prevê que esses cinco tributos começarão a ser extintos em 2027, mas haverá uma alíquota de teste em 2026. O PIS, a Cofins e o IPI darão origem à Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS). O ICMS e o ISS darão origem ao Imposto sobre Bens e Serviços (IBS). A soma da CBS e do IBS resultará no IVA Dual.

Neste ano de 2026, haverá uma alíquota de teste de 0,9% de CBS e 0,1% de IBS, que serão deduzidas dos tributos atuais. A partir de 2027, os cinco tributos sobre o consumo serão gradualmente extintos, enquanto as alíquotas de CBS e de IBS subirão.

Evento contou com público massivo; a reforma prevê que cinco tributos começarão a ser extintos em 2027
Evento contou com público massivo; a reforma prevê que cinco tributos começarão a ser extintos em 2027

Situação dos municípios

O prefeito de Campinas,  Dario Saadi, disse que os municípios estão preocupados com a reforma. De acordo com ele, as prefeituras assumiram encargos que antes eram atribuições das esferas estadual ou federal. “Hoje temos responsabilidade até com a segurança. A criação das Guardas Municipais mostra isso. Os gastos com o transporte coletivo são cada vez maiores e, cada vez mais, cobertos pelos cofres municipais. Isso sem contar com aumentos progressivos nas despesas com a saúde. Hoje 90% dos programas sociais são mantidos pelas prefeituras”, reclamou. “Quem vai garantir que os municípios conseguirão manter uma arrecadação que seja capaz de fazer frente a esses encargos?”, questionou.

Financiamento das universidades públicas

Bernard Appy lembrou no seminário que a reforma também definiu a fonte de financiamento das universidades públicas. “As universidades públicas, como é o caso das estaduais paulistas, são financiadas por uma parte da receita do ICMS. A emenda constitucional 132, que introduziu a reforma tributária,  mantém essa vinculação, tendo como base o IBS estadual, que substituirá o ICMS. Portanto, na prática, a reforma tributária não afeta o financiamento das universidades”, disse ele.

O pró-reitor de Desenvolvimento Universitário da Unicamp, Fernando Sarti, reconhece que as receitas que estavam vinculadas ao ICMS antes da reforma permanecem vinculadas, mas lembra que isso não é suficiente. Para Sarti, é preciso discutir a alíquota e a previsão do financiamento em lei específica. 

O pró-reitor de Desenvolvimento Universitário, Fernando Sarti: é preciso discutir a alíquota e a previsão do financiamento em lei específica
O pró-reitor de Desenvolvimento Universitário, Fernando Sarti: é preciso discutir a alíquota e a previsão do financiamento em lei específica

“Hoje temos 9,57% do ICMS , mas precisaremos negociar. O que nos preocupa é que poderemos ter perdas significativas. Manter a vinculação ajuda, mas o que nos deixaria mais tranquilos é ter uma sinalização sobre a alíquota e a constitucionalização da medida, já que, hoje, dependemos de lei orçamentária que, a cada ano, precisa ser aprovada na Assembleia Legislativa”, argumenta. “Sem dúvida, a vinculação é uma garantia, mas não é suficiente”, advertiu. 

O encontro contou também com a presença do 1° vice-presidente do Comitê Gestor do IBS e secretário de Finanças de São Paulo, Luis Felipe Vidal Arellano; da secretária da Fazenda do Rio de Janeiro, Andrea Riechert Senko, do presidente do Fórum de Secretárias e Secretários municipais de Fazenda e Finanças da Frente Nacional de Prefeitos (FNP) e secretário de Finanças de Campinas, Aurílio Caiado, e do professor do IE Geraldo Biasoto Jr. O seminário teve ainda, as presenças do diretor do IE, Celio Hiratuka e da secretária  de Desenvolvimento Econômico, Tecnologia e Inovação de Campinas, Adriana Flosi.

Foto de capa:

O seminário, promovido pelo Instituto de Economia (IE) da Unicamp em parceria com a Prefeitura de Campinas, reuniu representantes de municípios da região
O seminário, promovido pelo Instituto de Economia (IE) da Unicamp em parceria com a Prefeitura de Campinas, reuniu representantes de municípios da região

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Pesquisa aponta problemas de pele em crianças e adolescentes que utilizam dispositivos para controlar diabetes

A equipe da Endocrinologia Pediátrica do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp participou de uma pesquisa internacional sobre o uso de dispositivos tecnológicos como sensores de glicose e bombas de insulina para controlar a glicemia de crianças e adolescentes. O estudo envolveu 22 centros de diabete pediátrica no mundo e foi realizado com mais de 1.700 crianças e adolescentes com a doença.

Durante quatro semanas foram coletados dados das crianças e adolescentes que utilizavam esses dispositivos, incluindo fatores demográficos, problemas de pele visíveis, tipo de dispositivo e produtos utilizados.  A pesquisa mostrou que problemas de pele estavam presentes em 52% dos usuários de bomba de insulina, em comparação com 30% dos usuários de sensor de glicose. Eczema foi encontrado em 9% dos participantes tanto nos locais de aplicação da bomba de insulina quanto nos locais de aplicação do sensor de glicose.

A endocrinologista pediátrica, Mariana Zorron: risco de complicações
A endocrinologista pediátrica, Mariana Zorron: risco de complicações

Cicatrizes, feridas e lipodistrofias foram mais frequentes nos locais de aplicação da bomba de insulina do que nos locais de aplicação do sensor de glicose. Tanto a xerose cutânea (pele excessivamente seca, áspera e descamativa) quanto a queratose pilar (acúmulo de queratina nos folículos pilosos) estiveram fortemente associadas a quase todos os tipos de problemas de pele, aumentando o risco de duas a cinco vezes.

De acordo com Mariana Zorron, endocrinologista pediátrica do HC da Unicamp, esse estudo trouxe evidências sobre as complicações cutâneas associadas ao uso de tecnologias na prática clínica. Ainda segundo a especialista da Unicamp, os problemas de pele são uma preocupação séria que limita o uso de dispositivos para diabetes em crianças e adolescentes, aumentando, consequentemente, o risco de complicações.

“O desenvolvimento de dispositivos mais amigáveis, a conscientização da família sobre os cuidados com a pele e a identificação precoce dos fatores de risco como pele seca ou queratose pilar são necessários para garantir que todas as crianças e adolescentes com diabetes possam usar esses dispositivos de forma eficaz em longo prazo”, comenta Zorron.

Os resultados foram constam do artigo Skin-Pedic: A Worldwide Assessment of Skin Problems in Children and Adolescents Using Diabetes Devices [uma avaliação mundial de problemas de pele em crianças e adolescentes usando dispositivos para diabetes] do qual Zorron é uma das autoras. O estudo também teve a participação das médicas e médicos-residentes da equipe da endocrinologia pediátrica do HC da Unicamp.

O artigo foi selecionado para o Anúário 2025 da Conferência Internacional sobre Tecnologias e Tratamentos Avançados para o Diabetes (ATTD, na sigla em inglês). A apresentação aconteceu durante a edição de 2026 do ATTD, ocorrido no mês de março, em Barcelona, na Espanha.

Cicatrizes, feridas e lipodistrofias foram mais frequentes nos locais de aplicação da bomba de insulina do que nos locais de aplicação do sensor de glicose
Cicatrizes, feridas e lipodistrofias foram mais frequentes nos locais de aplicação da bomba de insulina do que nos locais de aplicação do sensor de glicose

Inovação no cuidado

O ATTD é um dos principais congressos internacionais dedicados à inovação no cuidado do diabetes, especialmente no campo das tecnologias avançadas. Seu Anuárioreúne os artigos científicos mais relevantes e impactantes da área, selecionados e analisados criticamente por especialistas internacionais.

“A inclusão deste estudo no Anuáriodo ATTD reforça sua relevância científica e impacto clínico, além de destacar a inserção do HC da Unicamp em redes internacionais de pesquisa e sua contribuição para o avanço da inovação em diabetes pediátrico”, diz Zorron, que também integra o Conselho Consultivo da Sociedade Internacional para o Diabetes Pediátrico e Adolescente (ISPAD) no triênio 2023–2026.

A ISPAD é a principal organização global dedicada à melhoria do cuidado de crianças, adolescentes e jovens com diabetes, atuando na promoção do conhecimento científico, educação e melhores práticas assistenciais. Seu Conselho Consultivo tem papel estratégico no apoio às iniciativas e diretrizes da sociedade.

Matéria publicada originalmente no site do HC Unicamp.

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Nova cátedra propõe modernização de indicadores de atividade científica

A Unicamp foi agraciada com um novo projeto ligado ao São Paulo Excellence Chair (SPEC), modalidade de auxílio à pesquisa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) que busca atrair cientistas reconhecidos que atuam no exterior para coordenar projetos em universidades ou institutos de pesquisa paulistas. Rodrigo Costas, do Centre for Science and Technology Studies (CWTS), da Leiden University (Países Baixos), será o pesquisador responsável pelo projeto Multi-Observatório de Ciência, Tecnologia e Dinâmica de Inovação (MultiObs), que será desenvolvido junto ao Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) do Instituto de Geociências (IG), em parceria com a Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) e do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp.

Junto ao exponencial crescimento da produção de conhecimento, vem ocorrendo um avanço nos métodos de medi-lo. A ausência de mecanismos precisos de automonitoramento em sistemas de ciência, tecnologia e inovação (CTI) gera lacunas nos ecossistemas de conhecimento que comprometem a resposta a desafios sociais e científicos urgentes. Assim, o objetivo do projeto é desenvolver, ao longo de cinco anos, um amplo programa de pesquisa para criar e aplicar métodos para produzir evidências e conhecimento para um monitoramento mais amplo e útil dos sistemas de CTI.

Rodrigo Costas, do CWTS, da Leiden University: demandas urgentes
Rodrigo Costas, do CWTS, da Leiden University: demandas urgentes

Os indicadores mais comuns atualmente usados dependem de bases de dados fechadas e que falham em capturar a complexidade da relação contemporânea entre ciência e sociedade. Assim, o projeto desenvolverá uma matriz que amplia a base de dados utilizada e diversifica os resultados e interpretações possíveis. “O projeto está motivado por demandas urgentes que existem no mundo acadêmico de mudanças de como medimos, monitoramos e avaliamos ciência, tecnologia e inovação”, afirma Costas.

Segundo o pesquisador, a maior ambição do projeto é mudar como se mede a ciência e incorporar uma maior diversidade de bases, muito além da Web of Science e Scopus, introduzindo a visão dos próprios stakeholders, tais como agências de financiamento, indústria e organizações políticas. Assim, propõe-se a implementação de um monitoramento cocriado e contextualizado em uma nova abordagem, propondo uma matriz que amplia a base dados utilizada e diversifica os resultados e interpretações possíveis, com participação dos stakeholders, especialmente com foco no Sul Global. O objetivo é tornar visíveis as atividades científicas que ainda permanecem invisíveis, especialmente da América Latina e de outras regiões em desenvolvimento, cujas dinâmicas são muitas vezes ignoradas pelas bases, análises e rankings internacionais.

“Como queremos mudar essa forma de fazer cientometria, trabalharemos para desenvolver uma infraestrutura de dados que seja mais democrática e que permita aos usuários trabalhar em grande escala com esses dados, em que se sintam empoderados para discutir e questionar os indicadores que se propõem”, diz Costas. “O trabalho dedica-se a conectá-los e beneficiá-los dessa interconexão de bases de dados”, completa.

O design geral do programa pode ser visualizado como uma estrutura de árvore, com uma base enraizada em uma ampla infraestrutura de Big Data, cujos ramos temáticos florescem em um living lab dedicado ao monitoramento de CTI. A infraestrutura de dados engloba bancos de dados interconectados que permitem responder a perguntas de pesquisa. Os ramos temáticos abordam desafios específicos de políticas de CTI e servem como campo de teste. O living lab é o elemento mais inovador do projeto que servirá para apontar respostas aos ramos temáticos combinando dados, marcos teóricos e abordagens participativas com os stakeholders.

A cátedra envolve o Departamento de Política Científica e Tecnológica do IG, em parceria com a FCA e Labjor da Unicamp
A cátedra envolve o Departamento de Política Científica e Tecnológica do IG, em parceria com a FCA e Labjor da Unicamp
Na Unicamp, a cátedra envolve o Departamento de Política Científica e Tecnológica do IG, em parceria com a FCA e Labjor

Para a execução do projeto, haverá uma estreita colaboração entre sete pesquisadores principais, que supervisionarão os ramos temáticos do projeto. Sérgio Salles-Filho, do LagGeopi-Unicamp, supervisionará, junto a Costas, a infraestrutura de big data e o living lab. Salles atuará com Cassidy Sugimoto, do The Georgia Institute of Technology (Estados Unidos) na supervisão do ramo temático dedicado às dinâmicas de política científica e diplomacia em CTI – em julho, a pesquisadora assumirá a direção da escola de Humanidades e Ciências Sociais da Carnegie Mellon University. Adriana Bin, da FCA, e Ismael Ràfols, ligado à Cátedra Unesco, à Leiden University e ao INGENIO (um centro misto do Consejo Superior de Investigaciones Científicas e da Universitat Politècnica de València, na Espanha), supervisionarão o eixo temático referente a financiamento e dinâmica das forças de trabalho. Costas e Germana Barata (Labjor) supervisionarão o ramo temático dedicado a comunicação pública e dinâmicas societárias. Nicolas Vonortas, da The George Washington University (Estados Unidos) e Sérgio Queiroz, do DPCT-Unicamp, supervisarão o eixo dedicado a tecnologia, inovação e dinâmicas regionais.

Para Sergio Salles, “a nova cátedra SPEC representa uma contribuição substantiva para os estudos sociais da ciência, tecnologia e inovação, ampliando e disponibilizando em acesso aberto amplas e originais bases de dados e construindo análises que devem criar evidências de utilidade para os principais stakeholders do sistema de CTI no Brasil e para a sociedade como um todo”.

O projeto espera produzir uma infraestrutura de computação em nuvem pública; criar indicadores específicos para temas complexos e subestimados; além de produzir materiais educacionais, resumos de políticas e resultados acadêmicos. O MutiObs conta com 13 pesquisadores associados, diferentes parceiros nacionais e internacionais, e prevê a realização de conferências internacionais, workshop e hackatons.

Foto de capa:

Junto ao exponencial crescimento da produção de conhecimento, vem ocorrendo um avanço nos métodos de medi-lo
Junto ao exponencial crescimento da produção de conhecimento, vem ocorrendo um avanço nos métodos de medi-lo

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Pesquisa busca reduzir incerteza na datação de rochas que registram a história da Terra

A datação de rochas sedimentares – que registram a maior parte da história da Terra – ainda opera com incertezas que podem chegar a 10% da idade medida, o que, em escalas geológicas, representa de milhões a dezenas de milhões de anos. Reconstruir com maior exatidão eventos-chave da evolução do planeta é o desafio que um projeto conduzido por pesquisadores do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp, no âmbito do Centro de Estudos de Petróleo e Energia (Cepetro) – com financiamento da Petrobras –  busca enfrentar, aprimorando métodos para datar diretamente essas rochas, com maior confiabilidade.

O avanço na datação de rochas sedimentares tem implicações diretas para a compreensão de alguns dos principais eventos da história da Terra. Com maior precisão temporal, torna-se possível testar hipóteses sobre mudanças globais na composição da atmosfera, episódios de glaciação em escala planetária, o surgimento e a expansão da vida multicelular e a duração e a dinâmica de grandes extinções.

Hoje, muitos desses eventos são reconstruídos a partir de correlações entre registros geológicos distribuídos em diferentes regiões do mundo. Sem uma datação precisa, ainda há incertezas sobre a sincronia desses fenômenos.

“As rochas sedimentares são o principal arquivo da história da Terra, e estamos começando a conseguir datá-las diretamente de forma sistemática”, afirma o geólogo Bernardo Tavares Freitas, coordenador da pesquisa.

O professor do IG Bernardo Tavares Freitas: as rochas sedimentares são o principal arquivo da história da Terra
O professor do IG Bernardo Tavares Freitas: as rochas sedimentares são o principal arquivo da história da Terra

Um limite histórico

Durante décadas, a geocronologia – área que estuda a idade das rochas – apoiou-se principalmente em minerais de origem ígnea, que funcionam como “relógios naturais” mais estáveis: ao se formarem, eles aprisionam elementos radioativos que, ao longo do tempo, transformam-se em outros elementos em ritmo conhecido, permitindo calcular sua idade.

Já as rochas sedimentares, organizadas em camadas que funcionam como páginas da história do planeta, sempre representaram um desafio. Seus minerais possuem baixos teores desses elementos radioativos e são mais suscetíveis a alterações ao longo do tempo, o que dificulta a obtenção de idades precisas.

Sem datação direta, a ciência avançou apoiada principalmente em fósseis – usados para identificar e correlacionar camadas (bioestratigrafia) – e em outros métodos indiretos, capazes de indicar a ordem dos eventos, mas não exatamente quando eles ocorreram.

Nova fronteira científica

Nos últimos anos, avanços tecnológicos passaram a permitir a datação de minerais carbonáticos, como calcita e dolomita, formados dentro das próprias rochas sedimentares.

Isso representou uma mudança importante: em vez de depender de eventos externos, como erupções vulcânicas, os pesquisadores passam a atribuir idades diretamente às camadas que registram os processos geológicos.

O desafio, no entanto, permanece. Esses minerais apresentam baixa concentração de urânio e alta sensibilidade a alterações químicas, o que gera resultados frequentemente complexos. “Em muitos casos, você obtém várias idades diferentes e precisa entender o que, de fato, representa a história daquele sistema”, explica Freitas.

As rochas sedimentares, organizadas em camadas que funcionam como páginas da história do planeta, sempre representaram um desafio
As rochas sedimentares, organizadas em camadas que funcionam como páginas da história do planeta, sempre representaram um desafio

Do dado ao método

O projeto desenvolvido na Unicamp, cujo foco é reduzir incertezas na exploração de petróleo, busca justamente aumentar a precisão e a confiabilidade dessas datações. O objetivo é entender por que alguns resultados são consistentes e outros não, um ponto central para consolidar a técnica como ferramenta científica mais robusta.

Para isso, a equipe combina múltiplas técnicas de análise – incluindo microscopia eletrônica, mapeamentos espectrais e isotópicos – para construir um retrato detalhado da composição e da textura das rochas. Esses dados são integrados por meio de algoritmos que buscam identificar padrões associados à qualidade dos resultados geocronológicos.

A expectativa é que esse cruzamento permita, no futuro, prever quais amostras têm maior potencial de gerar idades confiáveis e, assim, direcionar o uso de análises mais complexas e destrutivas – com potencial para reduzir incertezas na exploração de petróleo. Ao mesmo tempo, os avanços metodológicos desenvolvidos no projeto podem ampliar a capacidade de datação de rochas sedimentares em diferentes contextos, com implicações que vão além da indústria de energia e alcançam a própria compreensão da história da Terra.

O projeto tem duração prevista de quatro anos, com conclusão estimada para 2029, e reúne uma equipe multidisciplinar, com cerca de dez pesquisadores, entre docentes, pós-doutorandos e alunos de pós-graduação, além de especialistas vinculados ao Laboratório Nacional de Luz Síncrotron e a diferentes laboratórios do IG. A iniciativa conta com investimento de aproximadamente R$ 8,5 milhões em pesquisa e desenvolvimento, além de cerca de R$ 1,5 milhão em infraestrutura.

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Pioneira da análise do discurso no Brasil, Eni Orlandi recebe título de professora emérita da Unicamp

Base cultural, identidade e sensação de pertencimento. A língua une, constrói a realidade de um povo e se transforma com o passar do tempo. Ela é viva. Nesse campo, a linguista Eni de Lourdes Puccinelli Orlandi é reconhecida como uma das principais responsáveis pela consolidação da análise de discurso no Brasil. Nascida em 1942, na cidade de São Paulo, a pesquisadora construiu uma trajetória acadêmica marcada pelo pioneirismo e pela articulação entre linguagem, sociedade e ideologia. Em uma cerimônia realizada no auditório do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), na quarta-feira (15), ela foi homenageada com o título de professora emérita da Unicamp.

O reitor Paulo Cesar Montagner foi o responsável pela entrega do diploma à professora. Para ele, títulos eméritos, como o conferido à professora Orlandi, reforçam o papel da Unicamp na valorização de trajetórias acadêmicas que impulsionaram decisivamente o desenvolvimento científico e a formação do pensamento crítico no país. “É importante valorizar aqueles que contribuíram para a construção da história da instituição. Iniciativas como a concessão de títulos honoríficos representam não apenas uma homenagem individual, mas também o reconhecimento coletivo de trajetórias que fortaleceram a produção científica e intelectual. São pessoas que engrandecem o nome da universidade e que, neste momento, tornam-se verdadeiros embaixadores da Unicamp”, afirmou o reitor.

O reitor Paulo Cesar Montagner presidiu a cerimônia de entrega do título
O reitor Paulo Cesar Montagner presidiu a cerimônia de entrega do título

O coordenador-geral da Universidade, Fernando Coelho, também prestigiou a cerimônia. Ele destacou o caráter simbólico do título de emérito, que classificou como um dos mais altos níveis de reconhecimento acadêmico. “A honraria celebra não apenas a excelência na produção científica, mas também a capacidade de formar gerações de novos pesquisadores e consolidar campos de conhecimento”, disse.

Silêncio

Formada em Letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara, em 1964, a professora Orlandi concluiu o mestrado e o doutorado em Linguística pela USP, com parte de sua formação realizada também na Universidade de Paris/Vincennes. Já percorrendo a carreira acadêmica, em 1979 ela se transferiu para a Unicamp, onde desenvolveu grande parte de sua produção intelectual.

Na Universidade, ela foi responsável por introduzir no país a análise de discurso de base materialista, inspirada nos trabalhos do filósofo francês Michel Pêcheux. Também fundou o Laboratório de Estudos Urbanos (Labeurb), consolidando um espaço interdisciplinar dedicado à investigação das relações entre linguagem e cidade. Mesmo após sua aposentadoria, em 2002, continuou atuando como professora colaboradora e pesquisadora.

Com uma produção extensa, que inclui 14 livros autorais, participação em 28 obras coletivas e 133 artigos em periódicos científicos, a pesquisadora também se destacou ao aprofundar o estudo do silêncio na linguagem. Em 1993, recebeu o Prêmio Jabuti na área de Ciências Humanas pelo livro As formas do silêncio, no qual define o silêncio como elemento constitutivo do discurso, fundamental para a produção de sentido. Para Orlandi, o silêncio não representa ausência, mas sim uma dimensão simbólica que permite a interpretação e a abertura do dizer.

Eni Orlandi com as madrinhas Cláudia Pfeiffer (à esquerda) e Mônica Zoppi (à direita)
Eni Orlandi com as madrinhas Cláudia Pfeiffer (à esquerda) e Mônica Zoppi (à direita)
Eni Orlandi com as madrinhas Cláudia Pfeiffer (à esquerda) e Mônica Zoppi (à direita)

Além da produção teórica, sua trajetória é marcada pela formação de um grande número de pesquisadores. Ela orientou dezenas de dissertações e teses, contribuindo para a expansão da análise de discurso no Brasil e na América Latina. Entre esses pesquisadores que contribuem para a multiplicação e consolidação do legado da mais nova professora emérita da Unicamp está Mônica Graciela Zoppi Fontana, diretora associada do IEL, uma das madrinhas de Orlandi no evento. “Cheguei ao Brasil para fazer minha pós-graduação; sou formada na Universidade de Buenos Aires, na Argentina, onde nasci. Desde o primeiro semestre eu fui aluna da professora Eni Orlandi. Depois, participei dos projetos de pesquisa e fui sua colega no departamento. É uma imensa honra e alegria estar nesse momento homenageando a professora que, para mim, é um exemplo e sempre será. Este reconhecimento institucional é muito importante pelo trabalho que ela tem feito e pela enorme formação de pesquisadores e pesquisadoras que estão atuando hoje em todo o Brasil graças ao seu trabalho”, disse Fontana.

Outra madrinha foi Cláudia Castellanos Pfeiffer, pesquisadora do Labeurb. “Estou muito emocionada neste momento de reconhecimento. Faço parte de um grupo enorme de pesquisadores formados por Eni Orlandi. É a valorização da trajetória de alguém que tem uma contribuição acadêmica em muitas dimensões”, ressaltou. 

Na Universidade, a professora emérita foi responsável por introduzir no país a análise de discurso de base materialista, inspirada nos trabalhos do filósofo francês Michel Pêcheux
Na Universidade, a professora emérita foi responsável por introduzir no país a análise de discurso de base materialista, inspirada nos trabalhos do filósofo francês Michel Pêcheux

Redes sociais

Pouco antes do início da cerimônia, onde fez seu discurso oficial de agradecimento, a pesquisadora comentou sobre as transformações contemporâneas no campo da linguagem, especialmente diante do impacto das redes sociais. Segundo ela, as mudanças são profundas e afetam diretamente as formas de significação e interação social. “A linguagem está em constante transformação, e isso altera o modo como as pessoas vivem e se relacionam”, explicou.

Para Orlandi, essas transformações não devem ser classificadas como positivas ou negativas, mas compreendidas como parte de processos históricos e sociais mais amplos. Nesse contexto, ela destacou o papel central das novas gerações na renovação da linguagem. “Os jovens são agentes fundamentais dessas mudanças, apropriando-se da linguagem de maneiras diferentes e impulsionando novas formas de expressão”, concluiu a mais nova embaixadora da Unicamp.

Presenças

Também estiveram presentes à cerimônia o professor Eduardo Roberto Junqueira Guimarães, marido de Eni Orlandi e coordenador do Labeurb, Petrilson Alan Pinheiro, diretor do IEL, o professor Lauro José Siqueira Baldini, padrinho da homenageada, Angela de Noronha Bignami, secretária-geral da Unicamp e o professor emérito Carlos Vogt, reitor entre 1990 e 1994, ex-diretor do IEL e atual coordenador do Laboratório em Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), além de diversos outros integrantes da comunidade acadêmica e alunos que tiveram suas carreiras e vidas impactadas pelo trabalho de Eni Orlandi.

Foto de capa:

A cerimônia contou com integrantes da comunidade acadêmica e alunos que tiveram suas carreiras e vidas impactadas pelo trabalho de Eni Orlandi
A cerimônia contou com integrantes da comunidade acadêmica e alunos que tiveram suas carreiras e vidas impactadas pelo trabalho de Eni Orlandi

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Pesquisadores desenvolvem tratamento promissor contra o câncer de pele

O câncer de pele não melanoma não é o tipo mais letal, nem o mais agressivo – mas é o de maior incidência no Brasil e traz consigo alto potencial estigmatizante. Tumor que atinge regiões expostas ao sol – como o rosto, orelhas, boca, braços, pernas e pescoço –, é geralmente tratado com o que os médicos chamam de “ressecção cirúrgica”, a remoção de uma parte ou da totalidade do órgão ou tecido atingidos, num procedimento que pode deixar cicatrizes ou resultar em mutilação.

“Muitas vezes, o paciente perde partes do nariz, das orelhas, ou fica com cicatrizes profundas na boca ou em outras partes do corpo, o que provoca uma pressão social muito grande”, diz o químico Pedro Paulo Corbi, coordenador do Laboratório de Pesquisas em Química Bioinorgânica e Medicinal (LQBM) da Unicamp. Há 12 anos, Corbi trabalha no desenvolvimento de uma molécula que, agora, após colaboração com a médica oncologista Carmen Silvia Passos Lima – coordenadora do Serviço de Oncologia Clínica do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp e do Laboratório de Genética do Câncer (Lageca) da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp – e com a farmacêutica Gisele Goulart, pesquisadora do Lageca, tem se mostrado altamente promissora no tratamento desse tipo de enfermidade.

A farmacêutica Gisele Goulart e o químico Pedro Paulo Corbi: tumor tem alto potencial estigmatizante
A farmacêutica Gisele Goulart e o químico Pedro Paulo Corbi: tumor tem alto potencial estigmatizante

A pesquisa chegou a um composto inovador, nascido da mistura de um complexo de prata combinado com um anti-inflamatório. Começou a ser testado em humanos no início deste ano e tem trazido perspectivas alentadoras para pacientes que necessitam de tratamento.

O carcinoma de células escamosas cutâneo (CCEC) é o segundo mais prevalente entre os cânceres humanos em todo o mundo. Tem origem nas células principais que compõem a epiderme, a camada mais externa da nossa pele, e ocorre devido a vários fatores, com destaque para a exposição aos raios UV – os raios solares.

O tratamento do CCEC de pequenas dimensões baseia-se na ressecção do tumor por cirurgia. Contudo, pacientes com CCEC avançado são frequentemente inelegíveis para cirurgia curativa ou radioterapia, já que estas podem causar anormalidades funcionais, desfiguração e problemas psicológicos. Esses pacientes são tratados com quimioterapia com cisplatina, que oferece benefícios clínicos modestos e toxicidade potencialmente grave.

Foi pensando numa solução alternativa que Corbi e Lima avaliaram novas moléculas contra o tumor que pudessem ter uso direto na pele, para evitar toxicidades. O objetivo inicial era apenas diminuir o tamanho da lesão. Com isso, o cirurgião teria uma área menor a ser retirada e, assim, poderia reduzir as sequelas.

Pesquisadores da Unicamp desenvolvem tratamento promissor contra o câncer de pele
Os pesquisadores avaliaram novas moléculas contra o tumor que pudessem ter uso direto na pele, para evitar toxicidades
Os pesquisadores avaliaram novas moléculas contra o tumor que pudessem ter uso direto na pele, para evitar toxicidades

O estudo que mais avançou avaliou os efeitos de um complexo de prata com o anti-inflamatório nimesulida – um composto que vem sendo chamado de AgNMS. Corbi explica que a prata tem sido utilizada para o tratamento de condições humanas desde a Antiguidade. Embora o uso do metal tenha sido empírico por muito tempo, hoje as aplicações racionais na medicina estão intimamente relacionadas à sua atividade antibacteriana. Mais recentemente, a literatura mostrou o potencial de complexos de prata em inibir células de câncer in vitro.

A farmacêutica Tuany Zambroti Candido, doutoranda do Lageca que atuou sob supervisão dos pesquisadores Carmen Lima, Ana Lucia Tasca Góis Ruiz e João Ernesto de Carvalho, deu continuidade ao estudo no Lageca e no Laboratório de Fitoquímica, Farmacologia e Toxicologia Experimental (LaFTEx) da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Unicamp, conta Carmen Lima.

O AgNMS foi testado em experimentos “in vitro” com várias linhagens de câncer, incluindo o CCE, e em células de pele saudáveis. Observou-se que o AgNMS inibiu a proliferação do CCE, mas não a das células saudáveis, o que indicou a seletividade de ação do composto.

A médica oncologista Carmen Silvia Passos Lima (àesquerda): AgNMS foi testado em experimentos “in vitro” com várias linhagens de câncer

Candido também conduziu experimentos “in vivo” em camundongos com CCEC tratados com a molécula acoplada a uma membrana de celulose bacteriana e um adesivo, produzidos pelos farmacêuticos Wilton Rogerio Lustri e Silmara Cristina Lazarini Frajácomo, pesquisadores da Universidade de Araraquara (Uniara). Foi observado que o AGNMS reduziu os tumores ou causou seu desaparecimento, sem efeitos tóxicos para os animais. O grupo concluiu que, juntas, a NMS e a Ag podem se tornar uma alternativa na luta contra o CCEC.

Corbi e Lima veem o futuro do experimento com otimismo. “A meta inicial era apenas reduzir o tumor, mas agora podemos ter como perspectiva a remissão total”, afirmam.

Imunoterápicos como o cemiplimabe já são indicados para o tratamento de pacientes com CCEC, diz Lima, mas seu custo elevado impede o uso para pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) do Brasil. “Para nós, o cenário ideal é buscar uma solução que evite a cirurgia, a quimioterapia e a imunoterapia”, dizem Corbi e Lima.

“O AgNMS em membrana bacteriana e adesivo é absolutamente inovador para o CCEC, e, por esta razão, há cerca de cinco anos, conseguimos duas patentes – uma nacional e uma internacional”, conta Lima. O estudo só não prosseguiu, diz ela, por falta de investimento. “A indústria não quer arcar com os custos do estudo clínico de fase I e de fase II. Eles querem o negócio pronto”, explica.

Etapas

O estudo do AgNMs passou pela etapa da pesquisa básica de desenvolvimento, que consiste na síntese da molécula; pela fase pré-clínica, que são os experimentos em células e animais, e agora está em avaliação na fase clínica, com experimentos em humanos, que consta das fases I e II.

O estudo de fase I tem como objetivo verificar se, em doses crescentes, o AgNMS causa toxicidade ao paciente, de modo a determinar a dose adequada a ser usada no estudo de fase II.

O estudo de fase I teve início neste ano, com a aplicação do composto em três pacientes com CCEC atendidos no Hospital de Clínicas da Unicamp, em cooperação com as médicas dermatologistas e pesquisadoras Aparecida Machado de Moraes e Renata Ferreira Magalhães, do Serviço de Dermatologia do HC da Unicamp.

Equipes dos laboratórios de Genética do Câncer (à esquerda) e de Pesquisas em Química Bioinorgânica e Medicinal
Equipe do Laboratório de Pesquisas em Química Bioinorgânica e Medicinal da Unicamp que há 12 anos estuda o desenvolvimento de moléculas
Equipes dos laboratórios de Genética do Câncer (à esquerda) e de Pesquisas em Química Bioinorgânica e Medicinal

Os pesquisadores contam que o AgNMS não foi aplicado como um creme comum, mas sim na forma de um dispositivo constituído por uma membrana de celulose bacteriana e um adesivo, a mesma utilizada no estudo em animais. Essa membrana funciona como um reservatório que libera o medicamento de forma controlada e contínua por várias horas. Além disso, também pode ter uma ação antibacteriana, já que protege a ferida de infecções durante o tratamento.

“Os resultados até agora foram promissores, com redução do tumor nos pacientes avaliados e ausência de toxicidade. Precisamos agora testar em um segundo grupo de pacientes, ainda na fase I do estudo, com dose maior do AgNMS, para verificar qual dose será menos tóxica para tratar os pacientes da fase II”, disse Gisele Goulart.

Um grupo de 20 a 30 pacientes com CCEC do HC da Unicamp fará parte do estudo de fase II, a ser desenvolvido ao longo do ano. Serão tratados com o AgNMS – em dose definida no estudo de fase I – em adesivo com membrana de celulose bacteriana.

Se reduções parciais ou totais do tumor forem observadas, o complexo poderá chegar ao mercado – após avaliação e aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O estudo está em avaliação na fase clínica, com experimentos em humanos, que consta das fases I e II
O estudo está em avaliação na fase clínica, com experimentos em humanos, que consta das fases I e II

De acordo com Corbi, o avanço da pesquisa é decorrência direta da interação das pesquisas básica, pré-clínica e clínica no Centro de Inovação Teranóstica em Câncer, o CancerThera, que tem o apoio financeiro da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e sede na Unicamp. O Centro reuniu toda uma cadeia de pesquisa para o desenvolvimento de fármacos e radiofármacos a serem utilizados no diagnóstico e no tratamento de câncer.

Com o objetivo de criar tratamentos inovadores, o CancerThera reúne especialistas em áreas da medicina, química, física, biologia, farmácia, matemática, entre outras, mantendo colaborações com instituições nacionais e estrangeiras.

Lima lembra que inúmeros pesquisadores e experimentos, ao longo de uma década, foram necessários para obter um tratamento potencial para pacientes com CCEC, o que, segundo ela, revela a dedicação de pesquisadores brasileiros. Há ainda que se considerar, diz, que os estudos em células e animais foram conduzidos com o apoio financeiro da Fapesp, e os estudos em humanos só foram retomados com apoio do CancerThera da Fapesp. “Foi a grande chance de darmos sequência ao estudo AgNMS em CCEC, reforçando a importância da agência de fomento para a pesquisa em inovação no Estado de São Paulo”, reforçou.

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O câncer de pele não melanoma é o de maior incidência no Brasil
O câncer de pele não melanoma é o de maior incidência no Brasil

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A memória que resiste entre palavras e imagens

Cinco décadas após o golpe militar que instaurou uma das ditaduras mais violentas da história da Argentina, em março de 1976, palavras e imagens se tornam, cada vez mais, um espaço de memória e testemunho, um movimento “ainda estamos aqui”. Para a escritora argentina Nora Strejilevich, 74 anos, sobrevivente do período, as artes são instrumentos decisivos nesse trabalho de permanência: “Cabe a nós ativar a memória.”

Em 1977, Strejilevich foi presa e torturada no centro clandestino de detenção Club Atlético, em Buenos Aires. Após a libertação, viveu um longo exílio em diferentes países, experiência que se tornou matéria central de sua produção literária e acadêmica. Atualmente professora emérita da Universidade Estadual de San Diego, na Califórnia (EUA), a autora construiu uma obra dedicada à reflexão sobre a violência de Estado. “Para mim, a escrita é uma forma de resistência ao apagamento histórico.”

Seu romance-testemunho “Uma Só Morte Numerosa”, publicado originalmente em 1996, está sendo lançado pela primeira vez em português, pela Balaio Editorial. A autora esteve na Unicamp a convite do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) para participar da Jornada Internacional “A literatura de Nora Strejilevich aos 50 anos do golpe militar na Argentina”. Para ela, o lançamento no Brasil adquire um significado ainda mais forte por ocorrer em um momento de reativação dos debates públicos sobre memória democrática. “Demorou muito tempo, mas chegou no momento certo.”

Mais do que narrar uma experiência pessoal, o livro é construído por fragmentos, imagens, vozes e sobreposições. Memórias da infância, o desaparecimento do irmão, a prisão, a tortura e o exílio reaparecem como flashes de uma lembrança que nunca se fecha por completo. Strejilevich destaca que essa escolha formal não foi apenas estética e que responde diretamente à natureza da memória e à dificuldade de elaborar a experiência do trauma. “A estrutura do livro tenta imitar o funcionamento da memória, em que uma palavra leva a uma lembrança e essa lembrança puxa outra”, explica.

O romance-testemunho de Nora Strejilevich, "Uma Só Morte Numerosa”, está sendo lançado pela primeira vez em português
O romance-testemunho de Nora Strejilevich, “Uma Só Morte Numerosa”, está sendo lançado pela primeira vez em português

A autora ressalta que a lógica do texto se aproxima da montagem cinematográfica, em que imagens, palavras e tempos distintos se sobrepõem. “O livro tem uma construção quase visual, como acontece na montagem do cinema. Nós escrevemos livros que contam a história de uma forma diferente, mas a literatura não chega a públicos tão amplos. O cinema alcança muito mais pessoas do que a literatura”, afirma.

O cinema argentino, destaca, já tem uma tradição consolidada na abordagem da ditadura e de suas reverberações sociais. Filmes como “A História Oficial”, que rendeu o primeiro Oscar para o país, em 1986, e mais recentemente títulos como “O Segredo dos seus Olhos”, também premiado com o Oscar de filme internacional em 2009, e Argentina, 1985, entre outros, trouxeram para o centro da narrativa os dramas e as feridas de um passado doloroso. Para a escritora, esse conjunto de obras não apenas narra acontecimentos históricos, mas amplia a transmissão da memória entre gerações. “Se a história chega ao cinema, ela pode alcançar muitas vidas, um público muito maior, algo que a literatura, lamentavelmente, não consegue sozinha”, diz.

Em um tempo marcado pela circulação veloz de conteúdos e pelo predomínio das plataformas de streaming, Strejilevich vê no audiovisual “uma potência”. Cita o impacto recente do filme “Ainda Estou Aqui”, premiado com o Oscar no ano passado, que reforça o papel do cinema como catalisador do debate público sobre a violência de Estado, o trauma familiar e os silêncios históricos. “É uma forma de fazer essas histórias seguirem vivas”, ressalta.

Após ser libertada, a escritora viveu em diferentes países, como Canadá e Estados Unidos, e mais recentemente retornou à Argentina. “Meu coração e minha imaginação vivem na Argentina. É lindo pertencer a um lugar e viver ali, eu gosto disso, mas quando as circunstâncias políticas mudam e cercam a própria vida, isso é doloroso”, afirma. “Hoje, prefiro ir e voltar, não ficar de forma fixa.”

Depois do Brasil, seu próximo destino é a Itália. “Uma Só Morte Numerosa”, que já foi adaptada para o teatro nos Estados Unidos, em 2001, com o nome “A Single, Numberless Death”, será encenada em Roma. “A adaptação em inglês me impressionou muito. Agora,  vai acontecer na Itália, em uma parceria com a dramaturga Ita Scaramuzza”, adianta.

A escritora com a organizadora do evento, Amanda Lacerda: defesa da memória democrática
A escritora com a organizadora do evento, Amanda Lacerda: defesa da memória democrática

A política, hoje

Ao comentar sua relação com a Argentina de hoje, Strejilevich diz que tem dificuldades diante das atuais circunstâncias políticas. Para a escritora, a eleição de Javier Milei evidenciou transformações profundas na circulação das ideias e no debate público, especialmente entre as novas gerações. “Foi uma surpresa muito grande que um personagem como Milei ganhasse. Parecia uma piada.”

Segundo ela, parte desse fenômeno pode estar relacionada à forma como as redes sociais passaram a moldar o debate político e a recepção da informação. “Passamos a um mundo de comunicação virtual, fragmentado, onde já não há espaço para o debate de ideias. Circulam imagens breves, frases curtas, e isso começa a organizar a maneira como as pessoas pensam”, disse.

A autora observa que esse ambiente favorece discursos simplificadores. “O diálogo, o debate e a conversa desapareceram”, lamenta. Para ela, o ambiente digital enfraqueceu os espaços de elaboração crítica e de escuta e essa lógica afeta, inclusive, a linguagem política e a capacidade de transmissão da experiência histórica.

Para Strejilevich, o empobrecimento da linguagem tem como consequência mais grave o enfraquecimento do diálogo como prática democrática. “O debate era justamente o que permitia avançar o pensamento”, destaca.

Ao comentar a circulação de discursos violentos nas plataformas digitais, ela é enfática ao afirmar que não é possível enfrentar esse cenário reproduzindo a mesma lógica. “Não podemos imitá-los. Não podemos entrar por essa via.” A escritora, porém, não defende um afastamento das redes, mas a necessidade de ocupar criticamente esse espaço. “Esse mundo já existe, não podemos negá-lo. O que precisamos é criar outras formas de circulação dentro desse mesmo espaço.”

Mas Strejilevich ressalta que, apesar das ameaças, o trabalho construído em torno da memória, da verdade e da justiça permanece como um patrimônio coletivo difícil de ser apagado. ““Pensávamos que memória, verdade e justiça eram intocáveis, que jamais seriam colocadas em questão e, de repente, temos um governo que questiona diretamente esse piso”, diz. Ainda assim, avalia que a força social construída ao longo das últimas décadas continua atuando como resistência. “Ele pode querer barrar, mas isso volta. Não terminará, porque a memória está muito viva na sociedade.”

O evento, que marcou o cinquentenário do golpe argentino de 1976, reuniu pesquisadores da Unicamp, da PUC-SP e da Unifesp
O evento, que marcou o cinquentenário do golpe argentino de 1976, reuniu pesquisadores da Unicamp, da PUC-SP e da Unifesp

Memória e presente

Ao reunir reflexão acadêmica, testemunho literário e memória histórica, a passagem de Strejilevich pela Unicamp reafirma o papel da Universidade como espaço de elaboração crítica do passado e de defesa da memória democrática. Para a organizadora do evento, Amanda Lacerda, doutoranda em Teoria e História Literária pelo IEL, o debate sobre as ditaduras latino-americanas está longe de se restringir ao campo da história. “Falar de memória é falar do presente”, destaca.

Lacerda pesquisa livros contemporâneos sobre as ditaduras do Brasil, Chile e Argentina, com ênfase nas narrativas da chamada “geração dos filhos” — autores que herdaram os traumas, os silêncios e as perguntas deixadas por aquele período.

A reflexão, segundo ela, torna-se ainda mais urgente em um momento em que discursos autoritários voltam a circular com força no debate público, muitas vezes esvaziando a complexidade histórica em slogans e revisionismos.

O evento, que marcou o cinquentenário do golpe argentino de 1976, reuniu pesquisadores da Unicamp, da Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC-SP) e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), além da participação especial da escritora argentina.

No encerramento houve o lançamento do livro de Strejilevich em português, projeto que nasceu de uma rede acadêmica construída entre pesquisadores brasileiros e argentinos, em especial a partir do trabalho de Lacerda e do historiador Leonardo Claudiano, da PUC-SP.

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A escritora argentina Nora Strejilevich, 74 anos: “Cabe a nós ativar a memória.”
A escritora argentina Nora Strejilevich, 74 anos: “Cabe a nós ativar a memória.”

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Uma antropologia marcada por grafias, imagens e movimento

Nem toda pesquisa é feita somente de palavras. Algumas se desenham em imagens, outras se desdobram em mapas, filmes ou cadernos visuais. Há investigações que pedem voz, gesto, superfície e movimento. É nesse território em que a antropologia se aproxima da arte, da literatura e do cinema que o Laboratório Antropológico de Grafia e Imagem (La’grima), vinculado ao Departamento de Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), construiu um caminho marcado pela experimentação.

Criado em 2015, o grupo realiza, de 15 a 17 de abril, o “Simpósio 10 anos do La’grima: contribuições das grafias nas experimentações antropológicas”, que vai reunir pesquisadores, docentes, estudantes e convidados em torno de uma pergunta que atravessa toda a história do laboratório: de quantas formas o conhecimento pode ser produzido, narrado e compartilhado?

Simpósio 10 anos do La’grima: contribuições das grafias nas experimentações antropológicas acontece nos dias 15 a 17 de abril
Simpósio 10 anos do La’grima: contribuições das grafias nas experimentações antropológicas acontece nos dias 15 a 17 de abril, no Auditório Fausto Castilho (IFCH)

Ao longo de sua primeira década, o La’grima dedicou-se à investigação das grafias e das imagens. Para Fabiana Bruno, pesquisadora e uma das coordenadoras do grupo, o laboratório se consolidou como um ponto de experimentação sobre as formas de produzir conhecimento. “As grafias funcionam menos como um tema e mais como uma forma de pensar a pesquisa”, afirma. “A antropologia é uma disciplina historicamente muito pautada pela escrita e pela descrição e o laboratório ajudou a ampliar essa perspectiva.”

A pesquisadora conta que sua linha de pesquisa, por exemplo, são as fotografias de família. “Entendendo a fotografia não apenas como superfície imagética, mas em relação à oralidade, à memória e a outras formas de grafia. A escrita antropológica também é central e não é vista em oposição às imagens, mas sempre em relação com elas”, explica.

Com programação híbrida, o evento será realizado no Auditório Fausto Castilho, no prédio de graduação do IFCH, com transmissão online pelo canal do Instituto no YouTube. A programação reúne debates e uma mostra das produções do La’grima, que podem ser conhecidas no arquivo digital “Grafia em Linha”

A abertura do simpósio será conduzida pela professora e pesquisadora Suely Kofes, coordenadora do laboratório desde sua criação, com a mesa “A gente pintava nas pedras a voz e o que dava santidades às nossas palavras era a canção do ver: grafias e linhas, dez anos depois”.

À esquerda material sendo separado para exposição; à direita trabalho com mapas
À esquerda material sendo separado para exposição; à direita trabalho com mapas

Formas de narrar

Para a pesquisadora Daniela Feriani, integrante do grupo desde sua fundação, uma das marcas mais fortes dessa trajetória é justamente a abertura a formas não convencionais de escrita e pesquisa. Ela destaca que essa experimentação aparece não apenas no conteúdo das pesquisas, mas também em sua forma material, com trabalhos que extrapolam a estrutura linear da página, incorporando superfícies, imagens, desenhos e dispositivos visuais como parte do próprio processo de pensamento.

Feriani, pesquisadora dos temas demência e neurodivergência, ressalta que cada vez mais teses e dissertações vêm experimentando com as grafias. “Sem perder o rigor científico, buscamos uma linguagem que possa alcançar públicos mais amplos, seja por meio de uma escrita mais poética, ensaística, visual ou audiovisual”, afirma. “Um filme, por exemplo, é muito mais acessível do que um artigo acadêmico.”

“Durante o meu pós-doutorado, eu mesma criei um site com materiais de pesquisa, justamente pensando em como apresentar esses materiais imagéticos para além de uma escrita meramente acadêmica. É uma forma de fazer com que a pesquisa chegue a outros lugares”, completa a pesquisadora.

Feriani cita exemplos do que é desenvolvido no La’grima, como o projeto “Sala de Cinema”, com exibição de filmes com teor etnográfico. “Escolhemos um filme para debater. Assistimos à obra, promovemos a discussão e, quando possível, convidamos o autor ou diretor para participar”, conta. Ela também destaca os seminários de leitura, em que uma obra ou um tema é escolhido para debate. “Neste semestre, por exemplo, estamos trabalhando com o tema dos sonhos”, conta.

Já a professora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) Mariana Petroni, também da equipe de pesquisadoras do La’grima, destaca a abertura permanente ao novo como uma das principais conquistas do laboratório. “O fato de ser um laboratório de experimentação nos permite incorporar novas linguagens e mudanças sem perder o compromisso com o rigor científico e antropológico”, observa. “Se deixarmos de experimentar, perdemos a nossa essência.”

Atualmente em Salvador, Petroni mantém projetos em diálogo com o grupo e ressalta a força da rede construída ao longo da década. Segundo ela, a experiência do La’grima tem possibilitado intercâmbios entre universidades e novas formas de produção de conhecimento, especialmente em pesquisas ligadas à fotografia, imagem e antropologia visual.

“Minha pesquisa trabalha com fotografias indígenas feitas por indígenas e sobre indígenas, nesse diálogo das grafias, no sentido de compreender tanto a produção quanto a imagem em si, sempre com uma perspectiva antropológica”, completa.

Da esquerda para a direita: Daniela Feriani, Mariana Petroni e Fabiana Bruno: interesse crescente das novas gerações pelo laboratório
Da esquerda para a direita: Daniela Feriani, Mariana Petroni e Fabiana Bruno: interesse crescente das novas gerações pelo laboratório

Novas gerações

A equipe do La’grima tem observado um interesse crescente das novas gerações pelo laboratório. “Estudantes de graduação têm buscado o grupo para pensar pesquisas que dialoguem com cinema, imagem, desenho e outros modos de escrita. Também tem sido muito interessante perceber o interesse crescente dos estudantes mais jovens, especialmente da graduação”, conta Bruno.

A coordenadora ressalta que, além dos bolsistas, muitos estudantes colaboradores  procuram o laboratório pelo interesse nas questões das grafias. “Eles querem pensar pesquisas de iniciação científica a partir das imagens, de outros modos de escrita e até da produção de filmes. Sentimos uma força muito grande nesse interesse das novas gerações.”

Bruno destaca ainda que a trajetória do La’grima foi marcada por uma ampla rede de interlocução com outros centros de pesquisa, no Brasil e no exterior. Entre os chamados “laboratórios primos”, com os quais o grupo mantém diálogo constante, estão o Sensolab, da Universidad Javeriana, em Bogotá, na Colômbia, o Laboratório de Imagem e Som em Antropologia (Lisa), da Universidade de São Paulo (USP), o Núcleo de Antropologia Visual (Navisual), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e o Grupo de Estudos e Pesquisas Rastros Urbanos, da Universidade Federal do Ceará (UFC). “Essas parcerias são fundamentais para a troca de produções e para a circulação de pesquisadoras e pesquisadores entre instituições”, afirma.

Para ela, a experimentação “é, sobretudo, carregar perguntas” e refletir sobre o modo de compartilhar informação para torná-la mais acessível. “Não somos um laboratório de respostas prontas. O La’grima reflete teórica e epistemologicamente sobre o fazer antropológico, e aí reside também um futuro. Temos um chão sólido de questões e, ao mesmo tempo, um horizonte aberto”, completa.

Acesse o La’grima
Acesse o Arquivo digital Grafia em Linhas

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O Laboratório Antropológico de Grafia e Imagem é vinculado ao Departamento de Antropologia do IFCH
O Laboratório Antropológico de Grafia e Imagem é vinculado ao Departamento de Antropologia do IFCH


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Livro que revela heróis anônimos do projeto Brasil: Nunca Mais é lançado em evento no IFCH

Contar o que ainda não tinha sido contado. Com esse objetivo em mente, o jornalista e escritor Camilo Vannuchi revisitou os bastidores do projeto Brasil: Nunca Mais, que resultou no livro homônimo lançado em 1985 e se tornou um marco do final do período de repressão militar, iniciado em 1964. No livro-reportagem “Nunca Mais: Os bastidores da maior denúncia contra a tortura já feita no Brasil” (editora Discurso Direto), lançado durante evento nesta quarta-feira, dia 8, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, Vannuchi lista 444 torturadores e 242 centros de tortura, além de revelar como, de forma quase improvisada, heróis anônimos conseguiram sustentar a maior denúncia contra a tortura já realizada no país.

“Quem foram as pessoas que, longe dos holofotes e sob risco permanente, trabalharam para impedir que a memória da tortura e da violência de Estado desaparecesse com o fim da ditadura militar? Quem copiou, microfilmou, organizou e escondeu os documentos?”, questiona Vannuchi, filho de Paulo de Tarso Vannuchi, preso político encarcerado durante cinco anos durante a ditadura militar, e primo de Alexandre Vannucchi Leme, estudante torturado e morto em 1973, cuja trágica história ele conta no livro “Eu só disse meu nome”, lançado em 2024. 

O encontro foi promovido pelo IFC e pelo Arquivo Edgard Leuenroth, onde parte fundamental do acervo Brasil: Nunca Mais se encontra preservada
O encontro foi promovido pelo IFCH e pelo Arquivo Edgard Leuenroth, onde parte fundamental do acervo Brasil: Nunca Mais se encontra preservada

O encontro, intitulado Memória e Democracia, promovido pelo IFCH e pelo Arquivo Edgard Leuenroth (AEL), da Unicamp, onde parte fundamental desse acervo se encontra preservada, reuniu Vannuchi, o diretor do arquivo, Mário Medeiros, que mediou o evento, a pesquisadora Magali Cunha, do Instituto de Estudos da Religião (Iser), e o professor do IFCH Marcelo Ridenti. Ao abrir a mesa, o autor ressaltou o simbolismo de discutir o tema no AEL, “guardião desta memória”.

Pontinha do iceberg

Vannuchi destaca que o livro “Brasil: Nunca Mais” sintetizou, em pouco mais de 300 páginas, um relatório de cerca de 6 mil páginas a partir da análise de mais de 1 milhão de páginas de processos da Justiça Militar. “Ele foi feito nos últimos dez meses de um projeto de seis anos. O livro ‘Brasil: Nunca Mais’ é uma pontinha do iceberg.”

Ao revisitar o tema, primeiro em um podcast e agora em livro, ambos com o título “Nunca Mais”, o autor reconstruiu a rede humana que sustentou a operação: advogados, religiosos, arquivistas, técnicos de microfilmagem, militantes e funcionários que trabalharam em absoluto sigilo entre 1979 e 1985. Trata-se de uma investigação que trouxe à luz personagens menos conhecidos, que atuaram longe do protagonismo público e cuja participação foi decisiva para a preservação da memória.

Com 236 páginas, o livro reconstrói o trabalho sigiloso conduzido por uma equipe de cerca de 30 pessoas ao longo de cinco anos. Entre eles estão Abel de Alencar, responsável por fotocopiar as milhares de páginas dos processos, e José do Egito Sombra, encarregado de microfilmar, página por página, parte fundamental do acervo. Vannuchi também resgatou o papel de Alê Corazza, responsável pela tesouraria e pela logística financeira da operação clandestina, além de Anivaldo Padilha (pai do ministro da Saúde, Alexandre Padilha), cuja interlocução com o Conselho Mundial de Igrejas, em Genebra (Suíça), foi decisiva para a obtenção de recursos internacionais que mantiveram o projeto em funcionamento.

Paralelamente à atuação pública de nomes centrais do projeto Brasil: Nunca Mais, como d. Paulo Evaristo Arns, o reverendo Jaime Wright e a advogada Eny Raimundo Moreira, atuavam, em segredo, para levar a empreitada adiante, um grupo se encarregou da missão de salvar os processos políticos antes que fossem destruídos. Um dos episódios mais emblemáticos revelados pelo jornalista diz respeito ao modo como os recursos enviados da Suíça chegavam ao Brasil. Para preservar o sigilo da operação, a equipe utilizava um código para avisar sobre a vinda do dinheiro: “Chegaram os chocolates”.

O jornalista Camilo Vannuchi: livro sintetiza um relatório de cerca de 6 mil páginas a partir da análise de mais de 1 milhão de páginas de processos da Justiça Militar
O jornalista Camilo Vannuchi: livro revela bastidores do projeto Brasil: Nunca Mais

Segundo o autor, o dinheiro era trazido de forma discreta por integrantes da articulação internacional, muitas vezes escondido em roupas e pertences pessoais. “Era um dinheiro não contabilizado”, relata. O escritor também descobriu como foi realizado o transporte clandestino dos microfilmes para Genebra, onde se formou uma cópia de segurança do acervo. “Iam escondidos no sapato, na bolsa, na cueca. Se tudo desaparecesse aqui, haveria uma cópia preservada.”

Vannuchi ressalta que a dimensão técnica da operação foi gigantesca: 707 processos analisados, milhares de questionários preenchidos manualmente e uma base de dados construída antes da era digital. “Foi esse trabalho que permitiu identificar 444 agentes envolvidos na tortura, desmontando a narrativa de que a violência teria sido episódica ou resultado de excessos individuais. Não eram casos isolados. Era uma estrutura institucionalizada”, afirma.

Ao trazer a discussão para o presente, o autor destaca que a memória não pode ser tratada como assunto exclusivamente histórico. “Não é para falar do passado. É para falar do presente e do futuro.” Ao mencionar denúncias recentes de tortura no sistema prisional e episódios de violência policial, afirma: “A impunidade de ontem é o salvo-conduto para a violência de hoje”.

Vannuchi confirma que a história do projeto Brasil: Nunca Mais vai ganhar uma adaptação para o cinema. “Tem um filme sendo feito. Antes do meu projeto, eles já estavam há seis anos trabalhando no roteiro e me procuraram. Estou ajudando com consultoria de pesquisa para não ter erros históricos”, conta. A adaptação, segundo ele, deverá enfatizar o caráter de suspense e espionagem da operação clandestina que deu origem ao acervo. “Essa história já nasceu como thriller, como filme de espionagem”, destaca.

A verdade, somente a verdade

Durante o evento no IFCH, a pesquisadora Magali Cunha ampliou a discussão ao recuperar um aspecto pouco conhecido da história do projeto: o papel decisivo de setores evangélicos na resistência democrática e na viabilização do Brasil: Nunca Mais. Para ela, o projeto foi “nossa primeira Comissão da Verdade”.

Segundo ela, o protagonismo contemporâneo de igrejas e lideranças religiosas intensificou o apagamento de uma memória histórica fundamental. “Muita gente não sabe que igrejas evangélicas tornaram possível o acervo. A participação do pastor presbiteriano Jaime Wright, que buscava pelo irmão desaparecido, Paulo Stuart Wright, foi fundamental.”

A pesquisadora Magali Cunha: o papel decisivo de setores evangélicos na resistência democrática e na viabilização do Brasil: Nunca Mais
A pesquisadora Magali Cunha: o papel decisivo de setores evangélicos na resistência democrática e na viabilização do Brasil: Nunca Mais

Cunha destaca que, em articulação com o Conselho Mundial de Igrejas, em Genebra, e com d. Paulo Evaristo Arns, então cardeal-arcebispo de São Paulo, Wright ajudou a estruturar a rede que trouxe recursos ao Brasil e possibilitou a operação clandestina.

Já o professor Marcelo Ridenti, do Departamento de Sociologia do IFCH, relembrou sua relação pioneira com o acervo e como utilizou a documentação do projeto Brasil: Nunca Mais ainda nos anos 1980, antes de sua ampla disponibilização pública. Segundo ele, o trabalho foi fundamental para a tese que resultaria no seu livro “O Fantasma da Revolução Brasileira”.

Ridenti ressalta que o projeto permitiu não apenas a leitura qualitativa dos depoimentos, mas também a construção de uma base estatística sem precedentes sobre os perseguidos pelo regime. Com apoio do setor de informática da Universidade Estadual de Londrina (UEL), onde era professor, organizou tabelas e quadros quantitativos sobre idade, sexo, ocupação profissional e filiação política dos processados. “Foi um trabalho monumental.”

Entre os resultados, destaca a forte presença da juventude entre os processados. “A maior parte dos perseguidos era muito jovem, com até 25 anos”, conta. Outro dado relevante foi a possibilidade de identificar a participação das mulheres nas organizações políticas e de analisar comparativamente diferentes perfis sociais. Esses levantamentos, afirma, permitiram compreender as bases sociais da oposição política ao regime e se tornaram referência para estudos posteriores sobre repressão e resistência. “O projeto Brasil: Nunca Mais fez um trabalho fabuloso: preservar a memória para que essas histórias sigam vivas.”

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Lançamento do livro e encontro aconteceu nesta quarta-feira, dia 8, no auditório Marielle Franco, no IFCH
Lançamento do livro e encontro aconteceu nesta quarta-feira, dia 8, no auditório Marielle Franco, no IFCH

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Entre deslocamentos e resistência, livro analisa presença quilombola na pós-graduação

A presença e a permanência de quilombolas nas universidades motivaram a pesquisadora Andréia Rosalina Silva, pós-doutoranda em Antropologia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), da Unicamp a lançar o livro “Quilombolas na pós-graduação: construindo ‘Ébgés’ de Resistência no Ensino Superior Brasileiro”, disponibilizado gratuitamente em formato e-book pela Editora da Universidade Estadual de Ponta Grossa (PR). A autora deve também lançar a obra no formato físico, em maio, num evento no IFCH.

O termo “ébgé”, que vem do iorubá, remete à ideia de coletividade. E foi pelo coletivo que a autora, especializada em políticas afirmativas de inclusão e equidade racial, elaborou a obra, base para a pesquisa “Caminhos e Desafios – o impacto das ações afirmativas para indígenas e quilombolas na gestão político-pedagógica universitária”, que vem sendo desenvolvida no IFCH com orientação do professor José Maurício Arruti, do Departamento de Antropologia, e apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

O lançamento marca também um percurso pessoal que, segundo a autora, começa antes mesmo da escrita. “Esse livro é fruto de um processo iniciado muito antes, com a minha ancestralidade”, afirma.

A pesquisadora e autora do livro Andréia Rosalina: vínculos estreitos com a comunidade onde ainda vive parte da minha família
A pesquisadora e autora do livro Andréia Rosalina: vínculos estreitos com a comunidade onde ainda vive parte da família

Nascida em Belo Horizonte (MG) e criada no interior paulista, em São Roque, a pesquisadora descende de negros escravizados que se estabeleceram em Belo Vale (MG) e formaram núcleos em comunidades tradicionais da região. Sua ancestralidade também remete ao município de Barão de Cocais (MG), terra de seu avô paterno.

Orientada pela memória de seus ancestrais, de seus saberes e da tradição oral, Rosalina sempre carregou questões sobre pertencimento. “Embora não tenha vivido no quilombo de forma permanente, mantive vínculos estreitos com a comunidade onde ainda vive parte da minha família. Na infância, ia para lá todas as férias escolares”, relata.

Essa herança, segundo ela, não apenas sustenta sua identidade, mas também orientou sua atuação acadêmica e profissional. “Eu conheço toda a minha história, sei de quem descendo, quem sou e a razão de valorizar quem veio antes de mim. E isso é importante para construir e consolidar o conhecimento em que acredito”, completa.

Rosalina graduou-se em Ciência da Informação na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Sua trajetória acadêmica a levou a ingressar no Projeto Ações Afirmativas da UFMG, um programa que articula ensino, pesquisa e extensão e também desenvolve ações voltadas à Educação Escolar Quilombola no estado. Já em São Paulo, fez doutorado em Educação na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e pós-doutorado em Psicologia Social e do Trabalho na Universidade de São Paulo (USP).

Hoje, na Unicamp, integra a equipe do Laboratório de Pesquisa e Extensão com Populações Tradicionais Ameríndias e Afro-americanas (LaPPAA) e o Centro de Estudos Rurais (Ceres), coordenados pelo professor Arrutti.

Rosalina resolveu investigar a presença de estudantes quilombolas a partir da análise de deslocamentos e estratégias de permanência

Mapa dos caminhos

Em sua pesquisa, com levantamentos na Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal de Goiás (UFG), Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), Rosalina resolveu investigar a presença de estudantes quilombolas a partir da análise de deslocamentos e estratégias de permanência.

“No livro, mostro esses deslocamentos. Mapeei os caminhos percorridos pelos estudantes, desde suas comunidades de origem até diferentes universidades do país. Em muitos casos, os percursos incluem passagens por múltiplas instituições e estados, revelando uma circulação acadêmica marcada por desafios, mas também por estratégias de inserção.”

Esses percursos revelam tanto os desafios estruturais quanto a capacidade de articulação desses estudantes. “Na UnB, por exemplo, a maioria não era de lá. Tinha gente do Pará, do Tocantins, de Minas Gerais. Já tinham passado por outros lugares e foram sendo direcionados, encontrando caminhos”, relata.

Em outras instituições, como a Universidade Federal de Goiás (UFG), a autora identificou diversidade de áreas de formação. “Encontrei pessoas na Antropologia, que é um curso muito procurado por quilombolas e indígenas, mas também em Relações Internacionais, o que eu achei muito interessante”, destaca.

Mas a pesquisadora enfatiza a dificuldade que encontrou para acessar dados consolidados sobre a presença quilombola no ensino superior. “As universidades sabem quem entrou, mas não sabe quantos terminaram, quantos mudaram de curso, quantos seguiram para o mestrado ou doutorado. Isso ainda precisa ser muito avaliado”, afirma. A ausência de informações, segundo ela, torna “invisíveis trajetórias importantes e dificulta a formulação de políticas mais eficazes”.

Capa do livro Quilombolas na pós-graduação: construindo ‘Ébgés’ de Resistência no Ensino Superior Brasileiro

Construção coletiva

Um dos diferenciais do livro está na forma como a pesquisa foi conduzida. Ao todo, 32 interlocutores participaram do estudo — estudantes, professores e gestores — que, segundo a autora, não são apenas fontes, mas coautores do processo. “Eu os considero interlocutores, porque foram eles que construíram, junto comigo, a pesquisa”, explica.

Essa perspectiva se reflete na própria estrutura do livro. No primeiro capítulo, os participantes se apresentam com suas próprias palavras. “Eu sinto falta disso na Ciência. Às vezes alguém te apresenta, mas não deixa você se apresentar. Eu quis que cada um dissesse quem é, de uma forma que fizesse sentido”, afirma. A escolha dialoga com uma crítica mais ampla ao modo como o conhecimento acadêmico é produzido. “Essa coisa de ser apenas ‘objeto de pesquisa’ é horrível. Eu já cansei de ser observada, acho que tenho o direito de falar de nós também. Então quis fazer diferente.”

Parte do desenvolvimento da pesquisa, entre 2018 e 2022, coincidiu com o período da pandemia, o que trouxe obstáculos adicionais. Sem acesso à internet em muitas comunidades, a autora precisou criar estratégias para realizar as entrevistas. “Foi um trabalho de detetive. Eu sabia que muitas pessoas iam ao INSS ou à prefeitura para receber benefícios. Então eu tentava encontrá-las nesses momentos”, conta.

A empatia também aparece como elemento central nas entrevistas. “Quando você começa a conversar, percebe semelhanças. A pessoa se abre e diz: ‘ue bom estar falando com você’. Isso não tem preço”, relata.

Outro aspecto marcante foi a predominância feminina entre os participantes e apoiadores do estudo. “A maioria dos gestores com quem conversei era de mulheres. Foram dez pessoas, só um homem. Somos nós, mulheres, que estamos construindo a Ciência neste país”, afirma.

A pesquisadora reconhece o papel fundamental de outras mulheres em sua formação. “Eu tive professoras que viram em mim a possibilidade de ser uma intelectual. Por muitas vezes eu era aquela que só ficava escutando nas salas de aula. E, de repente, fui para a frente, para participar, viajar, falar em congressos”, lembra. Hoje, ela busca reproduzir esse movimento em sala de aula. “Às vezes vejo uma jovem negra de cabeça baixa e, quando começo a falar, ela se reconhece. Pensa: ‘Essa história é igual à minha”, eu posso ir além’.”

Para Rosalina, o livro é parte de um processo maior de transformação. “Essas trajetórias mostram que estamos produzindo conhecimento, ocupando espaços e construindo novos caminhos. Não é só sobre estar na universidade, é sobre transformá-la”, afirma. Ela destaca a importância de ocupar espaços institucionais também como forma de incentivar outras trajetórias. “Eu acho importante marcar essa presença, até como inspiração para outros”, afirma.

Pós-doutoranda em Antropologia pelo IFCH, Andréia Rosalina optou por disponibilizar o livro no formato e-book gratuitamente
Pós-doutoranda em Antropologia pelo IFCH, Andréia Rosalina optou por disponibilizar o livro no formato e-book gratuitamente

Desigualdades

A trajetória da pesquisadora também evidencia as desigualdades ainda presentes no ambiente acadêmico. Recentemente em uma atividade da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp, ela era a única mulher negra entre mais de 50 participantes. “O espanto das pessoas ao me verem foi incrível.”

Para ela, a experiência revela uma visão ainda limitada sobre quem pode produzir conhecimento. “Acham que os quilombolas estão olhando só para as suas comunidades. Nós pensamos em melhorar a sociedade. Não vivemos isolados”, afirma. Essa crítica se estende ao próprio modelo de Ciência. “Hoje é construída isoladamente. E não é isso que a gente está procurando. Queremos uma Ciência que sirva para todo mundo”, defende.

Por essa perspectiva, Rosalina optou por disponibilizar seu livro no formato e-book gratuitamente. “O conhecimento não é só meu, ele tem que ser partilhado. Eu abri mão dos direitos autorais porque quero que muitas pessoas leiam, especialmente quilombolas, e se vejam refletidas ali”, afirma. Além do livro, ela também participa de outros projetos, como o desenvolvimento de um dicionário biográfico intitulado “Histórias entrelaçadas de mulheres afrodiaspóricas” (Editora Malê), ampliando o alcance de sua atuação acadêmica.

Acesse o e-book.

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A linguagem ao alcance de todos

Não é preciso ser linguista para ler, apreciar e absorver o conteúdo do livro Língua como poder simbólico, de Claire Kramsch, o primeiro da série Estudos Linguísticos, que dá início à Coleção Linguística Contemporânea, da Editora da Unicamp. A professora emérita da Universidade da Califórnia, em Berkeley (EUA), faz análises de temas atuais – quase sempre polêmicos – como Donald Trump e os usos que ele faz das mídias sociais, sob a perspectiva do poder simbólico da língua no cotidiano das pessoas.

“A língua pode informar ou enganar, seduzir ou insultar, fazer com que nos apaixonemos ou acabar com a nossa reputação. O que há na língua que lhe dá esse poder?”, escreve Kramsch no texto de agradecimento do livro, mencionando sua apresentação da disciplina Língua e Poder, ministrada por ela ao longo de 12 anos, que deu origem ao livro. As aulas sobre o funcionamento da língua eram dirigidas a estudantes de diferentes áreas com o objetivo de “envolver e inflamar as mentes de não especialistas”, como foi proposto pelo programa Disciplinas de Descobertas da Universidade.

De acordo com a professora Anna Bentes, do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, coordenadora da coleção, o livro retoma e aprofunda o conceito de poder simbólico do sociólogo e filósofo francês Pierre Bourdieu como mecanismo capaz de “construir a realidade social por meio da criação e do uso de símbolos que dão sentido ao mundo”.

A coordenadora da Coleção Linguística Contemporânea, da Editora da Unicamp, Anna Bentes: livros acessíveis para o público em geral
A coordenadora da Coleção Linguística Contemporânea, da Editora da Unicamp, Anna Bentes: livros acessíveis para o público em geral

Acessível ao leigo

“No livro, Kramsch amplia o conceito de poder simbólico e fala da nossa capacidade de construção, por meio da linguagem, das relações e das interações”, diz a coordenadora da Coleção Linguística Contemporânea. “Nos últimos mais de cem anos, desde que Ferdinand Saussure fundou a Linguística, em 1916, nós, do campo dos estudos da linguagem, mostramos a importância das teorizações produzidas nesse campo. Hoje, há uma influência muito grande dos estudos da linguagem em várias áreas, mas muitas vezes não temos livros que sejam acessíveis para o público de fora da área”, afirma Bentes. 

A série Estudos Linguísticos, que integra a nova coleção da Editora da Unicamp, prevê a publicação de quatro obras de formação, com o objetivo de “entender a natureza social da linguagem e sua centralidade”. Serão títulos traduzidos, cujos processos são mais caros e mais demorados do que publicações de autores brasileiros. A cada dois anos deve ser publicado um novo título. “Primeiro é preciso pagar os royalties, depois a tradução, a revisão da tradução e a publicação. Essa série vai demorar cerca de oito anos.” Já na série Temas de Linguagem e Sociedade, que também compõe a Coleção Linguística Contemporânea, as obras serão de autores brasileiros com o foco de tornar os estudos da linguagem mais conhecidos e divulgados. 

A professora emérita da Universidade da Califórnia, em Berkeley (EUA) Claire Kramsch: "paradoxo do poder simbólico da língua"
A professora emérita da Universidade da Califórnia, em Berkeley (EUA) Claire Kramsch: “paradoxo do poder simbólico da língua”

“Nós escolhemos a produção de obras que apresentem uma linguagem de mais fácil acesso para o público de não especialistas do campo e temas interdisciplinares ou multidisciplinares”, diz Bentes. Não por acaso, a coleção começou a série Estudos Linguísticos com Língua como poder simbólico, de Claire Kramsch. Para a coordenadora, um dos valores do livro é não privilegiar a teoria. “Ela trata de fenômenos concretos e mais atuais. É um título que vai interessar e dialogar com muitas áreas. A coleção tem como princípio fundamental esse diálogo com outras áreas do conhecimento.”

Para além da comunicação

Com exceção da obra de Bourdieu, não há no Brasil nenhum título cujo tema central relacione língua e poder simbólico, afirma a professora. “Nós temos a capacidade de compreender o mundo de forma linguística. A obra contribui para entender melhor o poder da nossa compreensão por meio das línguas naturais”, reafirma Bentes.

Logo no início do livro, a autora chama a atenção para a importância da língua. “Tem gente que acha que a língua é uma coisa que usamos apenas como meio de comunicação”, escreve Kramsch. E complementa: “Não é apenas isso”. A professora Bentes acrescenta: “Os usos linguísticos e, portanto, as línguas têm o poder de influenciar os outros.”

Para Claire Kramsch as mídias sociais são criadoras de dependência, ansiedade e alienação
Para Claire Kramsch as mídias sociais são criadoras de dependência, ansiedade e alienação

Mídias sociais

Sobre as mídias sociais, Kramsch escreve que, “de maneira idealista”, elas se propõem apenas a “conectar as pessoas ao redor do mundo”, mas na prática são “criadoras de dependência, ansiedade e alienação, além de minarem a própria democracia”. A autora situa as mídias sociais na história contemporânea: “A propaganda política grosseira da Guerra Fria foi substituída pelas chamadas ‘tecnologias de persuasão’, muito mais sutis, do Facebook e do Google”.

Kramsch fala do “paradoxo do poder simbólico da língua”, que nos dá “o poder de organizar e classificar as coisas no mundo, mas também tem o poder de disciplinar e restringir o nosso conhecimento”. Já nas suas considerações finais, a autora conclui que não é novidade “que as pessoas não necessariamente querem dizer o que dizem nem dizem o que querem, mas, com a mídia social, as incertezas de significado de hoje aumentaram exponencialmente”. 

Verdade

A verdade foi substituída por uma multiplicidade de opiniões nas redes sociais, e esse contexto implodiu e fragmentou a ideia de apenas uma verdade, diz o livro. “Não existe uma única visão de mundo, uma única perspectiva, uma única verdade. A verdade é sempre perspectivada”, acrescenta a professora Bentes.

Conhecimento não é o mesmo que informação. Esse é também um dos temas do livro. “O que as pessoas estão aprendendo na internet, que elas pensam que é conhecimento, é misconnaissance, na definição de Bourdieu, de um tipo de conhecimento desvirtuado ou equivocado, aquilo que você acha que conhece, mas não conhece”, explica a professora da Unicamp. “É um conhecimento que parece ser da ordem natural das coisas porque a pessoa nem sequer questiona. É como se fosse um consenso”, explica Bentes.

Capa do primeiro livro da coleção intitulado Língua como poder simbólico
Capa do primeiro livro da coleção intitulado Língua como poder simbólico

Violência masculina

Mesmo a construção de consensos leva muito tempo. A professora cita o exemplo do consenso de que determinadas práticas civis das mulheres brasileiras não podem mais ser, hoje em dia, determinadas pela autoridade masculina. “No início do século XX, era um consenso que as mulheres tinham que ser tuteladas pelos homens. Isso mudou. Passa-se a ter outro consenso, o de que as mulheres podem ter independência. Mas hoje vemos a tentativa de retomada daquele consenso anterior de que a mulher precisa ser tutelada ou de que não pode dissolver o seu relacionamento amoroso; se isso acontece, ela corre o risco de sofrer um feminicídio ou outros tipos de agressão. Temos que nomear isso: mais que violência contra a mulher, trata-se de violência masculina”, pontua Bentes.

“Eles vão forjando isso por meio de blogs e sites, em que isso vai sendo dito, como no caso de estudantes que elegiam a garota ‘estuprável’, escrevendo em uma mídia. A norma social fez com que eles apagassem, mas a polícia recuperou.” As pessoas têm o poder simbólico na medida em que têm o poder de interpelação, diz a professora. Isso acontece tanto na dimensão micro (do uso de símbolos linguísticos) quanto macro (dos usos e abusos do poder simbólico), conforme teoriza a autora do livro.

Donald Trump

Kramsch também traz temas atuais, como a política do presidente norte-americano, Donald Trump, descrito por Kramsch como uma pessoa que “faz uso abusivo do poder simbólico da língua”. Ela reconhece no livro que a figura do presidente causou forte impacto em suas análises.

“A atual situação política dos Estados Unidos afetou fortemente a maneira como vejo as questões discutidas neste livro. Os excessos verbais de Trump (uso abusivo da linguagem) que desafiam as normas e rompem com a verdade e esmagam atos de fala criam um clima de ‘incerteza e ansiedade simbólica’, mas também proporcionam o aumento da conscientização dos usuários de línguas e dos usuários de sistemas digitais sobre os efeitos paradoxais da língua como ação simbólica em nossas trocas verbais diárias.”

Foto de capa:

O livro de Claire Kramsch faz análises de temas atuais – quase sempre polêmicos – como Donald Trump e os usos que ele faz das mídias sociais, sob a perspectiva do poder simbólico da língua no cotidiano das pessoas
O livro faz análises de temas atuais – quase sempre polêmicos – como Donald Trump e os usos que ele faz das mídias sociais

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Pesquisa da Unicamp dá origem a memorial nacional sobre a pandemia

A partir de uma pesquisa que nasceu na Unicamp, os anos da pandemia, que tanto alteraram a vida coletiva e deixaram marcas profundas na história recente, foram preservados na plataforma Memorial Digital da Pandemia de Covid-19, lançado neste 7 de abril, Dia Mundial da Saúde. O portal reúne, organiza e disponibiliza registros científicos, institucionais, culturais e sociais produzidos ao longo da crise sanitária no Brasil. Mais do que um site de consulta, o projeto consolida uma política pública de memória.

A trajetória que desemboca no lançamento do memorial começou ainda nos primeiros meses de 2020, quando a pandemia impôs uma experiência inédita de perdas, isolamento, cuidado coletivo e reorganização da vida cotidiana. No Centro de Humanidades Digitais (CHD) da Unicamp, uma pergunta passou a orientar a pesquisa coordenada pelo professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e atual coordenador do Arquivo Público do Estado de São Paulo, Thiago Nicodemo: como preservar as fontes que, no futuro, permitiriam contar a história da pandemia?

O professor Thiago Nicodemo: ideia começou como investigação acadêmica
O professor Thiago Nicodemo: ideia começou como investigação acadêmica

“O projeto nasceu na Unicamp, literalmente em um fundo de garagem”, lembra Nicodemo. Uma ideia que começou como investigação acadêmica mobilizou estudantes e pesquisadores da Universidade e, seis anos depois, se transformou em uma infraestrutura pública de preservação digital. “Percebemos que, no meio das catástrofes, grupos sociais se articulam para produzir e armazenar memórias sobre sua identidade.”

Desde 11 de março de 2020, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o estado de pandemia, milhões de pessoas em todo o mundo passaram a registrar suas experiências diante de um acontecimento tão incerto quanto traumático. No Brasil, esse movimento também se fez presente: a população documentou o cotidiano do isolamento, as perdas, as formas de cuidado, a mobilização coletiva e as desigualdades aprofundadas pela crise sanitária.

Foi a partir dessa realidade que o CHD passou a mapear as múltiplas formas de registro. “Eu percebi que havia um grande fenômeno da memória no mundo contemporâneo”, destaca Nicodemo. Dessa reflexão surgiu o Coronarquivo, projeto desenvolvido pelo CHD como um “arquivo de arquivos” dedicado a mapear iniciativas de memória da pandemia em todo o país.

Ao longo da pesquisa, foram identificadas mais de 120 iniciativas, envolvendo universidades, museus, escolas, coletivos, movimentos sociais, comunidades indígenas, associações de moradores e organizações da sociedade civil. O trabalho revelou um fenômeno significativo: grande parte das memórias da pandemia estava sendo produzida fora dos arquivos públicos tradicionais. Fotos, vídeos, relatos, mensagens, postagens em redes sociais e documentos diversos passaram a ser organizados por grupos comunitários, pesquisadores e cidadãos comuns, frequentemente de forma voluntária e criativa.

“O potencial disso é infinito, porque nos permite criar soluções de memória que deem conta da escala e da diversidade do mundo digital”, afirma Nicodemo. Segundo ele, o projeto articula uma dimensão clássica das humanidades com a experimentação tecnológica e a resolução de problemas sociais concretos. “É ciência, porque resolve um problema real, existente na sociedade.”

Preservar essas memórias é também uma forma de enfrentar a cultura brasileira do esquecimento
Preservar essas memórias é também uma forma de enfrentar a cultura brasileira do esquecimento
Preservar essas memórias é também uma forma de enfrentar a cultura brasileira do esquecimento

Solução de memória

Mais do que um repositório de documentos, o memorial oferece acesso gratuito a depoimentos, entrevistas, produções artísticas, fotografias, mapas, registros sonoros e filmográficos, documentos normativos, publicações científicas e referências bibliográficas relacionadas à pandemia, além de permitir a incorporação contínua de novas coleções.

Essa abundância de registros, no entanto, também evidenciou um problema central: a fragilidade do ambiente digital. Computadores quebram, HDs deixam de funcionar, senhas são esquecidas, plataformas deixam de existir e formatos se tornam obsoletos.

“Sem infraestrutura adequada, uma parte significativa dessa memória corria o risco de desaparecer”, ressalta. “O projeto não é apenas um repositório. É uma solução de memória.”

O acervo contempla documentos formais e informais, individuais e coletivos, relacionados às diferentes experiências da Covid-19 no Brasil. Estão presentes registros produzidos por povos indígenas, comunidades periféricas, movimentos sociais e grupos historicamente marginalizados, tornando visíveis dimensões muitas vezes apagadas da crise sanitária, como desigualdade social, racismo, violência de gênero e violações de direitos.

Para Nicodemo, preservar essas memórias é também uma forma de enfrentar a cultura brasileira do esquecimento. “O Brasil tem uma tradição de não processar suas feridas”, afirma. “Foi assim com a ditadura, foi assim com a escravidão, e há o risco de acontecer o mesmo com a pandemia. O memorial é parte do processo de reconhecimento e elaboração do que aconteceu.”

Segundo ele, embora exista um certo esgotamento social em relação ao tema, consequência dos anos em que a pandemia ocupou integralmente o cotidiano, o trabalho de memória continua sendo indispensável. “É um evento que matou 700 mil pessoas no país e não pode ser subestimado”, diz. “A memória é um trabalho terapêutico para quem foi diretamente envolvido, mas também é uma responsabilidade coletiva.”

Desde 2021, a equipe do CHD também vem realizando entrevistas de história oral com responsáveis por arquivos digitais sobre a Covid-19 no Brasil e outros países da América Latina, ampliando o escopo da pesquisa e consolidando uma rede internacional de preservação.

Os resultados desse percurso foram sistematizados em diversos artigos acadêmicos e no livro Por uma história da Covid-19: iniciativas de memória da pandemia no Brasil, organizado por Ian Kisil Marino, pesquisador do projeto, e por Nicodemo, publicado em 2023.

Em 2024, Marino defendeu, no IFCH, a tese “Arquivando a pandemia: transformação digital e luta pela memória na América Latina”, para a obtenção do título de doutor em História, na área de Dinâmicas e Linguagens Políticas. No mesmo ano, Nicodemo defendeu a tese de livre-docência “Arquivo Digital: história e memória diante dos desafios do século XXI”, também no IFCH.

O projeto não é apenas um repositório. É uma solução de memória
O projeto não é apenas um repositório. É uma solução de memória

Dimensão institucional

A partir de 2024, a iniciativa ganhou dimensão institucional. Em março daquele ano, o Ministério da Saúde realizou, em Brasília, o Seminário Memorial da Pandemia de Covid-19, marco importante para a formalização do projeto.

O encontro resultou na assinatura de um memorando de entendimento entre os ministérios da Saúde e da Cultura, consolidando a criação do memorial no Centro Cultural do Ministério da Saúde.  A iniciativa do CHD contou ainda com a parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).

Entre 2024 e 2025, o diálogo entre as instituições levou à construção do modelo. Para o professor, a experiência também projeta novos caminhos para a Universidade. “Tecnologia não é algo fora das humanidades. Ela precisa estar dentro desse campo, de forma crítica e experimental”, afirma. “Isso tensiona o papel da Universidade para o futuro.”

O modelo já desperta interesse para outras aplicações, como a preservação de memórias relacionadas a guerras, mudanças climáticas e saberes tradicionais de comunidades indígenas em diferentes países. “É uma área híbrida de conhecimentos que a sociedade demanda cada vez mais”, afirma. “A Universidade precisa formar gente nesses saberes híbridos.”

Além do ambiente digital, o projeto prevê ações de difusão, como exposições itinerantes em diferentes capitais e uma mostra permanente no Centro Cultural do Ministério da Saúde, no Rio de Janeiro.

No site, já está disponível uma mostra fotográfica com imagens em preto e branco produzidas pelo fotojornalista e historiador Carlos Erbs Jr., que ilustram essa reportagem. O fotógrafo acompanhou a crise sanitária desde os primeiros momentos e percorreu as ruas do Rio de Janeiro para registrar os efeitos das medidas de isolamento social, as ações de órgãos públicos, iniciativas da sociedade civil, os gestos de solidariedade e a tensão vivida pelos profissionais da linha de frente. As fotos integram o livro Vidas importam – Memória visual da pandemia COVID-19 no Rio de Janeiro (Editora iVentura, 2021).

O acervo contempla documentos formais e informais, individuais e coletivos, relacionados às diferentes experiências da Covid-19 no Brasil
O acervo contempla documentos formais e informais, individuais e coletivos, relacionados às diferentes experiências da Covid-19 no Brasil
O acervo contempla documentos formais e informais, individuais e coletivos, relacionados às diferentes experiências da Covid-19 no Brasil

Serviço:
Lançamento do Memorial Digital da Pandemia de Covid-19
Data: 7 de abril de 2026
Horário: 16h30
Local: Centro Cultural do Ministério da Saúde (CCMS)
Praça Marechal Âncora, 95 – Centro, Rio de Janeiro (RJ)

Conheça o site.

Foto de capa:

O memorial oferece acesso gratuito a depoimentos, entrevistas, produções artísticas, fotografias, mapas, registros sonoros e filmográficos, documentos normativos, publicações científicas e referências bibliográficas relacionadas à pandemia
O memorial oferece acesso gratuito a depoimentos, entrevistas, produções artísticas, fotografias, mapas, registros sonoros e filmográficos, documentos normativos, publicações científicas e referências bibliográficas relacionadas à pandemia


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Consu aprova título de Professor Emérito ‘Post Mortem’ a Lauro Kubota e a Oswaldo Luiz Alves

Órgão máximo de deliberação da Unicamp, o Conselho Universitário (Consu) aprovou, nesta terça-feira (31), a concessão do título de Professor Emérito “Post Mortem” a dois professores do Instituto de Química (IQ). O Departamento de Química Orgânica indicou Oswaldo Luiz Alves, e o Departamento de Química Analítica, Lauro Tatsuo Kubota.

O professor Lauro Kubota nasceu em 20 de junho de 1964 em Goioerê, no estado do Paraná. Ele foi referência no Brasil na área de Química Analítica, especialmente em Eletroquímica, Biossensores, Dispositivos de Análise e Materiais Avançados para Sensoriamento. Suas linhas de pesquisa alinhavam inovação (novos materiais, plataformas de baixo custo, dispositivos portáteis) com aplicações relevantes. Sua produção científica alcançou alta visibilidade, tendo recebido mais de 24 mil citações (índice h = 85) no Google Scholar. Em 2025, integrou a lista dos 106 cientistas mais influentes do mundo.

Concluiu a graduação em Química na Universidade Estadual de Londrina-PR em 1986. Em 1993, obteve o doutorado em Química pela Unicamp. Após estágio de pós-doutorado na Lund University, na Suécia, e um período como docente na Faculdade de Ciências da Unesp-Bauru, ingressou na Unicamp em 1994 como professor assistente.

“Sua preocupação com a democratização do acesso à tecnologia, por exemplo, com plataformas em papel ou dispositivos portáteis de baixo custo para análise, engajou suas equipes em projetos com grande alcance social. Esse fator coloca em clara evidência a atuação de um professor que não apenas produziu ciência de qualidade, mas também contribuiu para formar pessoas e impactar o meio social”, diz o relatório elaborado pela comissão especial constituída para analisar a proposta de entrega da honraria e que contou com os professores Fernando Galembeck, José Geromel e Mário Saad. Kubota faleceu no dia 4 de outubro de 2024, aos 60 anos de idade.

O professor Oswaldo Luiz Alves
O professor Oswaldo Luiz Alves
O químico Lauro Tatsuo Kubota
O químico Lauro Tatsuo Kubota

Trajetória marcada pela inovação

Primeiro estudante negro do curso de Química da Unicamp, Oswaldo Luiz Alves construiu uma trajetória marcada pela inovação.

Sua atuação em inovação tecnológica resultou no depósito de 31 patentes, uma delas licenciada para a indústria. Destaca-se aqui o fato de que sua primeira patente foi depositada junto ao INPI em 1991, antes do início do movimento de inovação tecnológica na academia e da constituição, pela Unicamp, de sua Agência de Inovação, ocorrida em 2003.

Devido às suas conquistas nessa área, Oswaldo recebeu várias vezes da INOVA o Prêmio “Inventores Unicamp” – em 2009, 2011, 2017, 2018, 2020 e 2021, sendo o de 2011 na categoria “Tecnologia Absorvida pelo Mercado”.

“A Unicamp teve o privilégio de contar, por várias décadas, com um educador e cientista da grandeza de Oswaldo Luiz Alves, pesquisador exemplar que deixou sua marca na ciência brasileira e mundial e cuja carreira se notabilizou não somente por grandes conquistas científicas, mas também por sua personalidade generosa e afetuosa, sempre pronta a acolher e inspirar as gerações mais jovens”, diz o relatório da comissão especial, formada pelos professores Álvaro Crósta, Christiano Lyra Filho e Everardo Magalhães Carneiro.

“Acima de tudo, Oswaldo Luiz Alves foi um ser humano digno e ético que valorizou a importância da ciência, da cultura e das artes – grande apreciador da música que era, em especial do jazz – na formação das pessoas, além de se dedicar à inclusão acadêmica e social de pessoas oriundas de realidades historicamente excludentes”, continua o relatório.

Oswaldo Luiz Alves morreu em julho de 2021 em consequência de problemas cardíacos.

Foto de capa:

Sessão ordinária do Conselho Universitário realizada nesta terça-feira (31) aprovou os títulos de professores eméritos 'post-mortem'
Sessão ordinária do Conselho Universitário realizada nesta terça-feira (31) aprovou os títulos de professores eméritos ‘post-mortem’

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Denise Stoklos revisita espetáculo “Mary Stuart” no Palco DCult

Um palco quase vazio, uma cadeira, um foco de luz e a presença absoluta da atriz. Foi a partir dessa economia de elementos cênicos que Denise Stoklos construiu o espetáculo “Mary Stuart”, um de seus maiores sucessos. A artista revisita a obra, que estreou há quase quatro décadas, em uma nova temporada. O espetáculo chega à Unicamp com apresentação gratuita no dia 9 de abril, às 20h, na Adunicamp, como parte da programação do Palco DCult, da Diretoria de Cultura da Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (Proeec).

Montada originalmente em 1987, em Nova York (EUA), no circuito experimental do qual fazia parte o teatro La MaMa, “Mary Stuart” percorreu dezenas de países e foi apresentada em diferentes idiomas. A remontagem, em cartaz desde o ano passado em São Paulo, integra as celebrações dos 75 anos de vida e 57 de carreira de Stoklos, que construiu uma trajetória de sucesso com 27 espetáculos solos autorais e sete livros publicados.

Sozinha no palco, a atriz interpreta duas figuras históricas centrais da monarquia europeia Mary Stuart
Sozinha no palco, a atriz interpreta duas figuras históricas centrais da monarquia europeia Mary Stuart

Sozinha no palco, a atriz interpreta duas figuras históricas centrais da monarquia europeia: Mary Stuart, rainha da Escócia, e Elizabeth I, da Inglaterra. A disputa entre as primas, que culminou na execução de Mary no século 16, surge na encenação como uma metáfora potente para investigar tensões universais, como poder, opressão, liberdade e os mecanismos que atravessam as estruturas políticas e humanas ao longo do tempo

Para Stoklos, revisitar a peça traz novos sentidos, já que a permanência do espetáculo no tempo comprova sua atualidade. “Essa questão da luta pelo poder é constante e parece que, nestes nossos tempos, há ainda mais questões em torno desse tema, o que torna o espetáculo atual, infelizmente”, diz. Mesmo após quase quatro décadas, a encenação permanece próxima da concepção original. “Estou fazendo dentro do que foi concebido, com pequenas mudanças aqui ou ali.”

A artista destaca a força da linguagem cênica construída na montagem. “É um espetáculo físico, com uma presença grande de corpo. São 50 minutos com cenas que vêm acompanhadas de voz, texto, gestos e movimentos”, afirma. “Foi incrível perceber que ele comunica da mesma forma como quando esteve em temporadas de estreia, apesar de o mundo estar tão diferente.”

Foi durante o processo de criação da peça que ela sistematizou os princípios do Teatro Essencial, uma proposta que rejeita o excesso de elementos cênicos e privilegia a presença do ator. “Fui criando justamente durante o processo deste espetáculo. Nele, trabalho com três elementos fundamentais: o corpo, a voz e o pensamento, esse elemento abstrato que organiza e cria a dramaturgia.” Depois, vieram obras como Casa”, “Des-Medeia”, “Calendário da Pedra”, “Desobediência Civil” e “Preferiria Não”, entre outros. “Esses três elementos foram os que me mostraram que eu poderia, a partir daí, construir outros trabalhos.”

A proposta do Teatro Essencial nasceu da ideia de valorizar a atuação. “Um teatro sem cenário ainda é teatro. Sem figurino, sem iluminação e sem música, ainda é teatro. Mas o que não pode faltar é o ator”, afirma. “É ele o centro da comunicação teatral, com seu corpo, sua voz e sua mente organizando a cena”, explica. “Era uma proposta original e muito brasileira, com essa energia miscigenada. Isso me deu aceitação em muitos países, onde me apresentei diversas vezes”, relembra.

A artista destaca a força da linguagem cênica construída na montagem
A artista destaca a força da linguagem cênica construída na montagem

Acostumada a trabalhar com repertório, a artista explica que a retomada da obra ocorre em meio a outros projetos. “Fui fazendo outras peças e apresentando esses trabalhos. Também fiquei um tempo dando aulas online, o que me afastou um pouco dos palcos, mas eu nunca parei”, conta.

Mais recentemente, a artista tem buscado fortalecer sua relação com o público. “Tenho apresentado peças que me dão uma receptividade muito boa, então isso me anima a fazer mais”, diz. Atualmente em cartaz no Teatro Estúdio, em São Paulo, “Mary Stuart” também tem circulado por outras cidades. Apresentá-la na Unicamp, segundo ela, tem um significado especial. “Eu sei da importância da Universidade, do curso de Artes Cênicas. Então, para mim, está sendo um privilégio.”

Para Stoklos, esse retorno à obra da década de 1980 tem proporcionado um encontro especial com as novas gerações. “Muitos jovens estão tendo a oportunidade de ver agora, e isso me deixa extremamente feliz.”

A artista destaca o interesse em dialogar com públicos mais jovens. “Tenho duas netas adolescentes, então fico muito interessada nessas gerações. Quero me comunicar com elas e, se esse teatro fizer sentido, me deixa ainda mais contente, porque é um trabalho de uma vida.”

Serviço:
Palco DCult apresenta “Mary Stuart” com Denise Stoklos
Dia 9 de abril, às 20h

Entrada gratuita (Haverá distribuição de senhas 1 hora antes do espetáculo)
Auditório da Adunicamp – Av. Érico Veríssimo, 1479, Cidade Universitária Zeferino Vaz

Foto de capa:

A remontagem, em cartaz desde o ano passado em São Paulo, integra as celebrações dos 75 anos de vida e 57 de carreira de Stoklos
A remontagem, em cartaz desde o ano passado em São Paulo, integra as celebrações dos 75 anos de vida e 57 de carreira de Stoklos

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Entre memórias, corpos e territórios, formandos de Artes Visuais expõem múltiplas linguagens

A exposição, realizada anualmente, representa uma oportunidade para os artistas apresentarem suas criações à comunidade
A exposição, realizada anualmente, representa uma oportunidade para os artistas apresentarem suas criações à comunidade

Experimentação, linguagem, emoção, memória, território, pertencimento e as percepções do tempo estão entre as inspirações das obras da exposição coletiva “Cartografias do Comum – Experimentações da Arte em Projeto”, dos formandos de 2025 da graduação em Artes Visuais do Instituto de Artes (IA) da Unicamp. A mostra, inaugurada nesta quarta-feira (25), pode ser vista até 1º de maio na Galeria de Artes do IA (Gaia), no térreo da Biblioteca Central Cesar Lattes.

O professor do IA Sérgio Niculitcheff, coordenador da galeria, destaca a diversidade de linguagens da exposição, que reúne os trabalhos de conclusão de curso, chamados de “projetos experimentais”. “Como é arte, há uma dimensão maior de experimentação. Há pinturas, gravuras, esculturas, instalações, história em quadrinhos e vídeo, por exemplo.”.

A exposição, realizada anualmente, representa uma oportunidade para os artistas apresentarem suas criações à comunidade. Além da mostra, o evento também gera um catálogo anual, que reúne o trabalho de todos os 33 formandos. “É um registro importante, com indicação dos orientadores e pequenos textos sobre as obras”, explica o professor.

A mostra é composta pelo trabalho de 33 formandos em Artes Visuais; um catálogo reúne as obras expostas
A mostra é composta pelo trabalho de parte dos 33 formandos em Artes Visuais

Inspiração e interação

A memória, ou a sua perda, é o ponto de partida da obra do formando Filipi Macarini, que produziu um trabalho sensível a partir da relação com o avô e das questões ligadas ao Mal de Alzheimer. Em vídeo e objetos, ele investiga a fragilidade das lembranças e o impacto da doença não apenas em quem a vive, mas também ao redor. “Percebi que não é só a pessoa que sofre, mas todos à volta.”

“Meu avô era lenhador, carvoeiro, e sempre comia com uma colher”, lembra. Com essas três informações, criou peças de madeira com desenhos a carvão de colheres que, aos poucos, vão se apagando. “As colheres mais nítidas simbolizam a memória afiada que ele tinha, e as desgastadas evocam seu esquecimento progressivo”, explica.

A formanda Vandora Bonfim, nascida na Bahia e criada em Campinas, inspirou-se na memória e na vivência de sua mãe, vendedora ambulante. Sua instalação, que dialoga com a escultura, trata de memória, informalidade e pertencimento através de caixas de isopor empilhadas e enfeitadas com fitas com expressões típicas dos camelódromos, confeccionadas por ela. “São frases comuns, como formas de chamar o cliente ou tratar do preço, como ‘fala, campeão’ e ‘três por dez’, por exemplo. Isso vem da minha infância, de crescer nesse ambiente”, conta Bonfim, que pretende se tornar professora de artes e pesquisadora após fazer o mestrado e o doutorado.

Já a formanda Gabriela Gomes, que apresenta a obra “Diante da promessa”, aposta em um objeto-escultura, um “colar-porta”, que veste como uma experiência poética. A artista aciona aberturas e trancas e surgem inscrições que evocam pensamentos do cotidiano que sugerem sentidos abertos e inacabados. “São frases criadas durante o processo, sobre território e sentimentos”, explica. Entre as frases, escolhe uma: “Os dias vão pra nunca mais, mesmo assim tanta coisa fica.”

Entre memórias, corpos e territórios, formandos de Artes Visuais expõem múltiplas linguagens
Entre memórias, corpos e territórios, formandos de Artes Visuais expõem múltiplas linguagens
Entre memórias, corpos e territórios, formandos de Artes Visuais expõem múltiplas linguagens
Entre memórias, corpos e territórios, formandos de Artes Visuais expõem múltiplas linguagens
Entre memórias, corpos e territórios, formandos de Artes Visuais expõem múltiplas linguagens
Entre memórias, corpos e territórios, formandos de Artes Visuais expõem múltiplas linguagens
Entre memórias, corpos e territórios, formandos de Artes Visuais expõem múltiplas linguagens

Cores e técnicas

Entre os trabalhos expostos, a pintura aparece como campo de investigação cromática e técnica na obra de Felipe Menani, com trabalhos desenvolvidos a partir do uso de spray e de experimentações com estêncil, técnica de pintura que utiliza um molde vazado, muito associado à linguagem do grafite e da arte urbana.

“Foi um processo de descobrimento. Ao longo do curso, a gente passa por várias áreas e acaba se identificando mais com algumas linguagens”, conta. Inspirado também pela serigrafia e pela gravura, o artista usou materiais inusitados, como rendas, para criar texturas e desenhos.

A relação entre existência e tempo marca o trabalho de Beatriz Lumo, autora de uma pintura em grandes dimensões. “A ideia é pensar que estamos vivos no presente, atravessados ao mesmo tempo por maravilhas e agonias”, explica. A artista, que já desenvolve a pesquisa desde a iniciação científica, pretende dar continuidade ao trabalho em programas de pós-graduação e residências artísticas.

Formandos desenvolveram os trabalhos com a orientação dos professores do IA
Formandos desenvolveram os trabalhos com a orientação dos professores do IA
Formandos desenvolveram os trabalhos com a orientação dos professores do IA
Formandos desenvolveram os trabalhos com a orientação dos professores do IA

Identidade e trajetória

Isabelle Gomes apresenta um vídeo que articula corpo, espiritualidade e identidade a partir do projeto “Ter sede em águas salgadas: manifesto de uma lésbica do interior de São Paulo”, que resultou em um documentário de cerca de 28 minutos que será apresentado na Gaia no dia 8 de abril, às 15h.

Na mostra, um trecho do documentário da formanda, que é de Americana (SP), antecipa seu trabalho, que utiliza os elementos fogo e água como metáforas de sua trajetória. “O fogo aparece nos momentos mais difíceis, ligados à lesbofobia que ainda enfrento. A água é o que me resgata, me acalma e me dá força”, resume.

Mareh Vilella discute corpo, linguagem e dissidência na obra “Poéticas da carne: da língua bovina ao corpo queer”, uma ação performática registrada em vídeo, acompanhada de letras confeccionadas em cerâmica. “Eu parto do lugar da casa, do cuidado e do comer, e relaciono isso com a palavra e com o corpo”, explica.

Serviço:

Coletiva “Cartografias do Comum – Experimentações da Arte em Projeto”. A exposição reúne 33 formandos: Adriely Correia, Amanda Lima, Artur Strauch, Beatriz Lumo, Bianca Paiva, Carolina Avelina, Caos Haru, Cleiton Olympio, Enrico Scudeler, Felipe Menani, Fernanda Rocha, Filipi Macarini, Gabriela Germini Abreu, Gabriela Gomes, Giulia Urbano, Giuliana Takahira, Guilherme Gomes, Helena Rybka, Isabel Brentani, Isabelle Germano, Isabelle Gomes, Julia Roma, Laura Fernandes, Laura Marissa Pérez Henríquez, Lavínia Machado, Lucas Braco, Mareh Vilela, Pedro Mishima, Pedro Seebregts, Tania Sayri, Thayná Vitória Tinarelli e Vandora Bonfim.

Galeria de Artes do IA (Gaia), no térreo da Biblioteca Central Cesar Lattes – Rua Sérgio Buarque de Holanda, s/nº, no campus da Unicamp, em Barão Geraldo, Campinas.

Até 1º de maio, das 9h às 17h, de segunda a sexta-feira, exceto feriados.

Foto de capa:

A mostra pode ser vista na Galeria de Arte do IA até 1º de maio, de segunda à sexta, das 9 às 17 horas, exceto feriados
A mostra pode ser vista na Galeria de Arte do IA até 1º de maio, de segunda à sexta, das 9 às 17 horas, exceto feriados

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Unicamp tem nove cursos em ranking dos melhores do mundo

Nove cursos oferecidos pela Unicamp estão na lista dos 100 melhores do mundo em suas respectivas áreas, segundo o ranking da consultoria britânica Quacquarelli Symonds (QS) divulgado nesta quinta-feira (26). Três desses cursos aparecem entre os 50 melhores das suas especialidades: Odontologia (26º lugar), Engenharia de Petróleo (38º) e Antropologia (42º) (veja a lista completa no quadro abaixo).

O pró-reitor de Desenvolvimento Universitário, Fernando Sarti: liderança no cenário brasileiro e destaque no âmbito internacional
O pró-reitor de Desenvolvimento Universitário, Fernando Sarti: liderança no cenário brasileiro e destaque no âmbito internacional

O ranking da QS identifica as melhores universidades do mundo em áreas específicas de estudo e avalia o desempenho das universidades em cinco grandes áreas do conhecimento: Artes e Humanidades, Engenharia e Tecnologia, Ciências da Vida e Medicina, Ciências Naturais, e Ciências Sociais e Administração. Essas áreas são subdivididas em 55 disciplinas.

“A Unicamp possui nove disciplinas no ranking das 100 melhores do mundo, o que revela sua posição de liderança no cenário brasileiro e de destaque no cenário internacional”, disse o pró-reitor de Desenvolvimento Universitário, Fernando Sarti.

Os resultados gerais da Unicamp mostram que a área de Engenharia e Tecnologia mantém a melhor classificação (112ª posição) e a maior pontuação (73,9, de um máximo de 100) dentro da universidade, considerando a média ponderada de todos os indicadores avaliados. A Engenharia de Petróleo é um dos destaques da área, na 38ª posição entre os 100 melhores cursos mundiais dessa área, enquanto Engenharia Química aparece na 79ª colocação.

Entre as cinco grandes áreas abrangidas no ranking, Ciências Naturais também se destaca, com nota 73,5, em 156º lugar no seu ranking (veja dados gerais no quadro abaixo).

O curso de Antropologia oferecido pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas aparece em 42º da lista do ranking QS
O curso de Antropologia oferecido pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas aparece em 42º da lista do ranking QS

Em outras áreas a Universidade registrou avanços. Línguas Modernas (que agrupa cursos de idiomas e literaturas, dentro da área de Artes e Humanidades) saltou da 90ª posição no ranking de 2025 para a 75ª nesta edição.

Na área de Ciências Sociais, Antropologia deu um salto significativo, saindo da faixa dos 51-100 melhores colocados em 2025 para a 42ª posição mundial em 2026. Em Ciências Naturais houve uma melhora expressiva em Matemática (da 122ª para a 88ª posição), Física e Astronomia (ambas agora na 126ª posição).

Metodologia

Os rankings são calculados com base em cinco indicadores principais, cujos pesos variam conforme a disciplina: reputação acadêmica, reputação entre empregadores, citações por artigo, impacto da pesquisa e rede internacional de pesquisa.

O peso de cada indicador utilizado varia de acordo com a área e a disciplina avaliada.

Para esta edição, a QS analisou a reputação e a produção científica de 6.277 instituições em todo o mundo, 1.074 a mais do que no ranking de 2025, confirmando a crescente importância dada a classificações desse tipo.

O assessor docente da PRDU, Renato Garcia: crescimento do número de universidades participantes
O assessor docente da PRDU, Renato Garcia: crescimento do número de universidades participantes

A avaliação partiu de informações de 16,4 milhões de artigos acadêmicos (base Scopus), e nas avaliações de 151 mil acadêmicos e aproximadamente 100 mil empregadores de todo o mundo.

“Um dos grandes destaques desta classificação é que a Unicamp permanece nas posições de liderança entre as 200 melhores universidades do mundo em todas as grandes áreas do conhecimento, mesmo com o crescimento do número de universidades participando deste ranking”, disse o assessor docente da Pró-Reitoria de Desenvolvimento Universitário (PRDU), Renato Garcia.

Quadro 1 (Fonte QS):

Cursos/áreas da unicamp no top 100 mundial

Quadro 2:

Quadro com resultados gerais da Unicamp

Foto de capa:

O curso de Odontologia aparece entre os 50 melhores das suas especialidades; classificação em 26º lugar
O curso de Odontologia aparece entre os 50 melhores das suas especialidades; classificação em 26º lugar

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Novo estudo indica avanço do vírus Oropouche em todas as regiões do Brasil

Um novo estudo publicado nesta terça-feira (24) pela revista Nature Medicine aponta o avanço do vírus Oropouche – transmitido aos humanos pela picada dos mosquitos maruins (Culicoides paraensis), frequentemente chamados de porvinha – na América Latina e Caribe. Conduzido por uma equipe de pesquisadores do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, Universidade de São Paulo (USP), Universidade de Kentucky (EUA) e Fundação Hospitalar de Hematologia e Hemoterapia do Amazonas (Hemoam), o levantamento estima que 9,4 milhões de infecções ocorreram entre 1960 e 2025 nesta região do planeta, sendo 5,5 milhões apenas no Brasil.

O professor do IB José Luiz Proença Modena: sazonalidade coincide com estação chuvosa amazônica
O professor do IB José Luiz Proença Modena: sazonalidade coincide com estação chuvosa amazônica

De rápida proliferação em áreas de solo úmido que podem ir da Floresta Amazônica até a Mata Atlântica, hoje o vírus está presente em todos os estados brasileiros, mas a pesquisa identifica Manaus (AM) como um epicentro para a disseminação do Oropouche. Entre o final de 2023 e meados de 2024, a porcentagem da população com anticorpos contra o vírus (indicando infecção passada) aumentou de 11,4% para 25,7%, com base em estimativas de estudos sorológicos realizados com doadores de sangue. A alta densidade populacional e o transporte aéreo provavelmente facilitaram a disseminação para áreas anteriormente não afetadas. Viagens à Europa e América do Norte também têm gerado os chamados casos importados nessas regiões.

Os pesquisadores discutem que o desmatamento pode estar relacionado à reemergência do vírus. A destruição de áreas naturais aumenta o contato entre humanos e vírus que circulam na floresta, um processo que facilita a “transposição” de patógenos do ambiente silvestre para populações humanas e, a partir daí, sua disseminação.

“A sazonalidade do Oropouche coincide com a estação chuvosa amazônica, que oferece condições ideais para a reprodução desses maruins”, explica o professor José Luiz Proença Modena, da Unicamp. Ao analisar dados de anticorpos, a equipe reconstruiu a história da transmissão do Oropouche na capital amazonense, constatando que o surto de 2023–2024 praticamente reproduziu um surto documentado entre 1980–1981. Ambos atingiram o pico durante a estação chuvosa (dezembro a abril).

O professor William M. de Souza, da Universidade de Kentucky: circulação 'silenciosa' do vírus
O professor William M. de Souza, da Universidade de Kentucky: circulação ‘silenciosa’ do vírus

“Pacientes em regiões remotas da Amazônia frequentemente enfrentam tempos de deslocamento superiores a 24 horas para chegar a uma unidade de saúde. Isso significa que muitos casos provavelmente não foram diagnosticados, permitindo que o vírus circulasse ‘silenciosamente’ até atingir um grande centro urbano como Manaus”, comenta o professor William M. de Souza, da Universidade de Kentucky.

Um segundo estudo, publicado também nesta quarta-feira pelo mesmo grupo de pesquisa, dessa vez na revista Nature Health, demonstra que o Oropouche ocorre predominantemente em áreas rurais, em contraste com a dengue, chikungunya e zika. A equipe chegou à conclusão de que essa divergência epidemiológica é impulsionada pelas diferentes ecologias dos vetores. Os maruins necessitam de ambientes com alta umidade em áreas rurais, enquanto os mosquitos Aedes aegypti estão concentrados em ambientes urbanos.

Os autores argumentam que as estratégias atuais de controle de vetores, focadas em mosquitos urbanos como o Aedes, são insuficientes para controlar a transmissão do Oropouche. As políticas de saúde pública também devem se adaptar para incluir vigilância específica em comunidades rurais e áreas próximas a florestas. Neste caso, estudos soroepidemiológicos contínuos são fundamentais para compreender o impacto das doenças arbovirais (transmitidas por mosquitos) na população e orientar estratégias de saúde pública para controlar a transmissão.

Sem vacina, por enquanto

O Oropouche ganhou atenção após ressurgir na Amazônia brasileira no final de 2023 e provocar mais de 30 mil casos em vários países da América Latina e do Caribe. O vírus pode causar uma doença febril semelhante à dengue; casos graves podem levar a doenças neurológicas, complicações materno-fetais e morte. Atualmente, não há vacinas licenciadas nem medicamentos antivirais disponíveis.

Identificado no Brasil desde a década de 1960, o Oropouche sempre esteve associado a surtos na Região Norte do país, especialmente com grandes surtos em cidades como Belém e Santarém. Por décadas, no entanto, foi tratado como uma arbovirose típica de áreas rurais e de floresta. Com a intensificação da mobilidade, especialmente por transporte aéreo, o vírus passou a circular com mais rapidez, saindo da Amazônia e alcançando outros pontos.

Pesquisador em trabalho de campo (à esquerda), área de desmatamento (ao centro) e solo úmido (à direita); pesquisadores discutem que o desmatamento pode estar relacionado à reemergência do vírus
Pesquisador em trabalho de campo (à esquerda); ao centro e à direita área de desmatamento e solo úmido, respectivamente, são as condições favoráveis para proliferação do vírus

Apesar da expansão geográfica, a transmissão do Oropouche continua dependente de condições ambientais específicas. O vetor se desenvolve em locais com solo úmido e matéria orgânica, comuns em regiões de mata ou áreas agrícolas. Plantações como banana, café e mandioca ajudam a manter essa umidade, criando ambientes ideais para a reprodução do inseto. Por isso, o vírus costuma se concentrar em áreas periurbanas, nas bordas das cidades. Em Campinas, já foi registrada a presença de potenciais vetores, espécies de culicoides, nos distritos de Sousas e Barão Geraldo, por exemplo. Esse fator é crucial para entender o avanço da doença: não se trata de um vírus urbano clássico, como a dengue, mas de uma arbovirose que encontra “pontes ecológicas” para chegar às cidades.

Os estudos mostram que surtos podem ocorrer de forma rápida. Em Manaus, por exemplo, 14% da população foi infectada em apenas cinco a seis meses, durante o período de chuvas. Antes do surto, cerca de 11% da população já tinha anticorpos contra o vírus. Esse número subiu para 25% após um ano, indicando ampla exposição. A análise por idade revelou outro dado importante: a maioria das pessoas com imunidade prévia tinha mais de 45 anos. Modelagens apontam que essas infecções ocorreram durante um grande surto há mais de 40 anos, no início da década de 1980.

De acordo com a pesquisa, o padrão se repete: crescimento rápido de casos em poucos meses, sempre associado ao período chuvoso, o que sugere um comportamento cíclico da doença.

Estudos soroepidemiológicos contínuos são fundamentais para compreender o impacto das doenças arbovirais na população
Estudos soroepidemiológicos contínuos são fundamentais para compreender o impacto das doenças arbovirais na população
Estudos soroepidemiológicos contínuos são fundamentais para compreender o impacto das doenças arbovirais na população
Estudos soroepidemiológicos contínuos são fundamentais para compreender o impacto das doenças arbovirais na população

Mais eficiente

Outro fator que preocupa os pesquisadores é a evolução do vírus. O Oropouche pode sofrer rearranjos genéticos quando diferentes variantes infectam uma mesma célula, gerando novas versões. Essas novas variantes podem se replicar com mais eficiência ou escapar parcialmente da imunidade adquirida anteriormente.

A doença causada pelo vírus é semelhante à dengue, com febre alta, dores no corpo e mal-estar. Também pode haver sensibilidade à luz e aumento da frequência urinária. Em alguns casos, os sintomas podem retornar após uma melhora inicial. O maior alerta, no entanto, está nas complicações neurológicas. O vírus pode atingir o sistema nervoso central e causar desde alterações leves, como perda de equilíbrio, até quadros graves e potencialmente fatais de meningite e encefalite.

A diferença entre o número estimado de infecções e os casos confirmados está ligada, principalmente, às dificuldades de acesso à saúde em regiões remotas. Na Amazônia, o deslocamento até um hospital pode levar dias, muitas vezes por barco ou estradas precárias. Isso impede o diagnóstico adequado e contribui para a subnotificação. Quando o vírus chega a regiões com melhor infraestrutura, passa a ser mais facilmente detectado, o que reforça a percepção de que ele está se expandindo.

O desafio de fortalecer a vigilância

Vírus passou a ser incluído nos protocolos de testagem
Vírus passou a ser incluído nos protocolos de testagem

O caso do Oropouche reforça um ponto central: doenças antes consideradas regionais podem rapidamente ganhar escala nacional e até internacional. Os pesquisadores alertam que o desafio agora é fortalecer a vigilância, especialmente em áreas remotas, e investir na prevenção. Também destacam a importância de melhorar as condições de vida das populações amazônicas, que são as primeiras a detectar novos surtos.

Os estudos que revelaram a nova dimensão do Oropouche também já impactaram políticas públicas. Hoje, o vírus passou a ser incluído nos protocolos de testagem, inclusive em locais onde dengue, zika e chikungunya já circulam. “O Brasil possui um sistema robusto de vigilância de arboviroses, com milhões de testes realizados por ano, considerado referência internacional. Mesmo assim, há espaço para aprimorar a detecção precoce, especialmente em regiões de difícil acesso”, afirma Souza.

A pesquisa foi apoiada pelo Wellcome Trust, Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil, Euroimmun e Instituto Todos pela Saúde.

Acesse os artigos publicados na Nature Medicine e Nature Health:

Ecological and demographic drivers of Oropouche virus transmission

Transmission dynamics of Oropouche virus in Latin America and the Caribbean

Leia mais:

Imunidade materna protege fetos contra danos do Oropouche

Foto de capa:

O levantamento estima que 9,4 milhões de infecções ocorreram entre 1960 e 2025 nesta região do planeta, sendo 5,5 milhões apenas no Brasil (Foto: Flávio Carvalho/Fiocruz)
O levantamento estima que 9,4 milhões de infecções ocorreram entre 1960 e 2025 na América Latina e Caribe, sendo 5,5 milhões apenas no Brasil (Foto: Flávio Carvalho/Fiocruz)

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Ministra das Mulheres reforça importância da educação no enfrentamento à violência de gênero

A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, participou nesta sexta-feira (20), na Casa Laudelina de Campos Melo, na Vila Padre Anchieta, em Campinas, do lançamento da cartilha “Maternagem e o Mundo do Trabalho: conheça seus direitos”, produzida pela Associação de Docentes da Unicamp (Adunicamp) em parceria com a LBS Advogadas e Advogados. A publicação reúne informações sobre direitos trabalhistas e políticas de proteção social para “pessoas que gestam, maternam e exercem o cuidado”.

Lopes ressaltou o caráter inclusivo da cartilha, resultado de um processo coletivo que envolveu docentes, pesquisadoras, diversos coletivos da Universidade e profissionais do Direito. “A publicação está muito completa, porque se dirige a todas as mulheres: idosas, com deficiência, quilombolas, indígenas, trans. É um material muito bem elaborado, com linguagem simples e acessível. Queremos que o Brasil conheça essa cartilha e que ela chegue às escolas, para que desde cedo se compreenda a relação entre maternagem, trabalho e prevenção da violência”, afirmou.

A ministra das Mulheres Márcia Lopes: "Queremos que o Brasil conheça essa cartilha e que ela chegue às escolas"
A ministra das Mulheres Márcia Lopes: “Queremos que o Brasil conheça essa cartilha e que ela chegue às escolas”

A ministra, que é professora aposentada da Universidade Estadual de Londrina (UEL), reforçou que o enfrentamento à violência contra a mulher exige ações integradas, mas tem na educação seu eixo estruturante. “Nós precisamos investir na prevenção. E a prevenção começa na formação, na escola, na universidade”, afirmou. “Precisamos investir na formação para romper ciclos históricos de machismo e misoginia.”

Para Lopes, “a violência não nasce do nada. A maternagem, como está na cartilha, não é algo isolado, é um processo político, histórico e social. Se conseguirmos levar esse conteúdo para as escolas, para as comunidades, para os espaços de formação, vamos transformar essa realidade”.

A ministra ressaltou o papel da universidade pública na construção e difusão de políticas voltadas aos direitos das mulheres. “As instituições de ensino superior têm responsabilidade direta nesse processo, a partir da integração entre ensino, pesquisa e extensão. No ensino, os currículos precisam incorporar o tema dos direitos das mulheres e da violência de gênero. Na pesquisa, a universidade tem potencial para produzir conhecimento que responda às realidades locais. E, na extensão, ela precisa estar inserida na vida da comunidade.”

O Ministério das Mulheres tem intensificado suas mobilizações e, no próximo dia 25, promoverá um encontro nacional entre universidades e institutos federais com o objetivo de implementar políticas de prevenção e acolhimento para estudantes e servidoras. A proposta inclui medidas como núcleos de apoio, ampliação de direitos e inserção dos temas de gênero nos currículos acadêmicos. “Se, daqui a alguns anos tivermos profissionais de todas as áreas formados com outra visão, certamente essa realidade de banalização da violência vai se modificar”, afirmou.

Lançamento da cartilha ocorreu nesta sexta-feira (20), na Casa Laudelina de Campos Melo, na Vila Padre Anchieta
Lançamento da cartilha ocorreu nesta sexta-feira (20), na Casa Laudelina de Campos Melo, na Vila Padre Anchieta
Lançamento da cartilha ocorreu nesta sexta-feira (20), na Casa Laudelina de Campos Melo, na Vila Padre Anchieta

Lançamento da cartilha ocorreu nesta sexta-feira (20), na Casa Laudelina de Campos Melo, na Vila Padre Anchieta

Inclusão e compromisso social

A professora Silvia Gatti, presidente da Adunicamp e uma das organizadoras da cartilha, destacou o caráter coletivo e o compromisso social da iniciativa. “A maternagem amplia o entendimento do que é ser mãe. Há mulheres que não tiveram filhos, mas exercem o cuidado. Essa cartilha nasce desse olhar mais abrangente”, afirmou.

Para ela, o principal desafio agora é garantir a circulação do material, que também está disponível online. “Não queremos uma cartilha na prateleira. Queremos que ela chegue às periferias, às mulheres que muitas vezes não têm acesso à internet. Vamos promover encontros ao longo do ano para discutir esses direitos.”

A professora Silvia Gatti
A professora Silvia Gatti
A professora Maria José Mesquita
A professora Maria José Mesquita
A advogada Luciana Barreto
A advogada Luciana Barreto

A tiragem inicial contou com apoio do Ministério das Mulheres, sindicatos e da própria Unicamp, com previsão de ampliação. “É uma construção em andamento. Quanto mais diversidade incorporarmos, mais completa ela será”, disse.

A professora Maria José Mesquita, do Instituto de Geociências (IG), também uma das organizadoras da cartilha, explicou que o projeto nasceu de uma parceria entre a Unicamp e a LBS Advogadas e Advogados. “Começamos com reuniões abertas e fomos ampliando o grupo. Discutimos desde o nome — optamos por ‘maternagem’ por ser mais amplo — até incluir diferentes experiências: mulheres indígenas, mães de crianças trans, maternidade no cárcere, população em situação de rua”, relatou.

Segundo ela, os encontros também deram espaço para relatos de violência, incorporados de forma anônima na publicação. “Foi uma construção muito rica, que reflete a complexidade dessas experiências.”

A estudante de Ciências Sociais Luara Souza
A estudante de Ciências Sociais Luara Souza

Uma das autoras, a advogada Luciana Barreto, explicou que a proposta inicial era produzir um material sobre direitos trabalhistas, mas o projeto foi ampliado ao longo do processo. “A CLT é muito pouco diante das necessidades das pessoas que gestam. A cartilha aborda também violência obstétrica, trabalho informal, mulheres trans e mulheres em situação de rua, entre outras realidades”, afirmou. Segundo ela, o objetivo é garantir que a informação chegue a quem precisa. “Um direito escrito não significa que ele é cumprido. Por isso, a cartilha precisa estar na mão das mulheres.”

As ilustrações da cartilha foram desenvolvidas pela estudante Luara Souza, do curso de Ciências Sociais e ativista do Núcleo de Consciência Trans da Unicamp, que definiu o processo como uma experiência coletiva. “Foi um momento de troca muito sensível. A partir dos relatos e das conversas, consegui traduzir em imagens o que é a maternagem como prática social”, explicou.

Ao todo, são dez ilustrações, além da capa, inspirada na ideia de que o cuidado é uma responsabilidade compartilhada. “A maternagem não pode ser solitária. É uma prática que envolve toda a sociedade.”

Acesse a versão online da cartilha “Maternagem e o Mundo do Trabalho: conheça seus direitos

O simbolismo da Casa Laudelina de Campos Melo

A escolha da Casa Laudelina de Campos Melo como local do lançamento da cartilha foi simbólica para a ministra das Mulheres, Márcia Lopes. “Estar aqui é uma emoção, pelo que representou essa mulher aguerrida e pelo que representa esse grupo de mulheres resistentes, que ocupam esse espaço com legitimidade”, disse.

Laudelina de Campos Melo (1904-1991), natural de Poços de Caldas (MG), foi uma pioneira líder sindical e ativista negra. Ao se mudar para Campinas, nos anos 1950, criou a primeira escola de balé e piano voltada a crianças negras e também o concurso Pérola Negra, primeiro baile de gala nacional onde mulheres negras eram as protagonistas. Na década de 1980, com a promulgação da atual Constituição, criou em Campinas o primeiro sindicato das empregadas domésticas do Brasil.

Da esquerda para a direita, a secretária municipal de Políticas para as Mulheres de Campinas, a direigente da Casa Laudelina de Campos Melo, Cleusa Silva e a ministra Márcia Lopes
Da esquerda para a direita, a secretária municipal de Políticas para as Mulheres de Campinas, a dirigente da Casa Laudelina de Campos Melo, Cleusa Silva e a ministra Márcia Lopes

Cleusa Silva, dirigente da Casa Laudelina de Campos Melo, que está sendo reestruturada em um imóvel público no Conjunto Habitacional Padre Anchieta, destacou que a presença da ministra também simboliza um processo histórico. “Assumimos o compromisso de não deixar essa história desaparecer. Este espaço será um centro de memória, formação e fortalecimento das mulheres”, comentou.

A secretária municipal de Políticas para as Mulheres de Campinas, Alessandra Herrmann, também apontou a importância do evento. “É um espaço que já foi muito potente e que precisa ser reativado. A presença do Governo Federal, do município e da sociedade civil é fundamental para isso.”

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Documentário ‘Nãsêpôtiti, rio, terra e luta Panará’ inicia nova temporada de exibições

O mês de março de 2026 dá continuidade à temporada de exibições do documentário Nãsêpôtiti, rio, terra e luta Panará, produzido pela Associação Iakiô e pela Secretaria Executiva de Comunicação (SEC) da Unicamp. No dia 25, às 14h, o clube Geo Leitura, do Instituto de Geociências (IG), apresentará o documentário e fará, em seguida, uma roda de conversa com os realizadores da SEC, com a perspectiva de que membros da Associação Iakiô participem de modo remoto. Um dia depois, a exibição será feita no Museu da Cidade (Parque Taquaral), retomando a programação cancelada em 2025 por problemas estruturais, provocados por uma forte chuva. Dia 7 de abril, às 14h30, o documentário também será apresentado na Casa do Lago, integrando a mostra audiovisual Entre Territórios: memória, presença e resistência, que será realizada nos dias 6 e 7 de abril, dentro da programação de cinema da Diretoria de Cultura (DCult) da Unicamp.

Em dezembro de 2025, o documentário também foi lançado na aldeia Panará Nãsêpôtiti, em Altamira, no Pará, onde foi apresentado pela professora Cassiana Montagner, coordenadora do Laboratório de Química Ambiental do Instituto de Química (IQ). Montagner lidera a pesquisa interdisciplinar sobre a contaminação das águas do rio Iriri, afluente do rio Xingu, que banha o território Panará. Em 2023, foi convidada pela Associação Iakiô a integrar a pesquisa iniciada pela geógrafa e doutoranda do IG Zaira Moutinho, que exigia a análise química da água do rio Iriri. Moutinho estuda os impactos do avanço dos grandes conglomerados agrícolas nos recursos hídricos, monitorando o uso e ocupação do solo e as consequências da aplicação de agrotóxicos nas propriedades cada vez mais próximas da terra indígena. As mortandades de peixes no rio Iriri têm sido associadas à contaminação das águas, supostamente provocada pelo manejo inadequado desses produtos.

A pesquisa, até 2025 cofinanciada pela ONG Conservação Internacional-Brasil, sofreu um forte golpe em dezembro passado, quando foi anunciado o fim do repasse de recursos por parte de uma das empresas patrocinadoras, a HP. Este e outros projetos de pesquisa abrangendo a fauna e a flora do território indígena Panará, realizados por pesquisadores  da Universidade Federal do Pará (UFPA), precisaram ser interrompidos, afetando, inclusive, o pagamento de bolsas para os jovens Panará que faziam a observação e a coleta de dados na floresta.

A exibição do documentário na Unicamp e fora dela é agora um importante instrumento para fazer ecoar a história do povo Panará, permeada desde sempre pelas ameaças e pelos desafios perpetrados pelos não indígenas, seja por meio do garimpo, da agricultura ou da pecuária. Além disso, persiste a necessidade de aprofundar a pesquisa no rio Iriri, para identificar as causas dos vários episódios de mortandade de peixes e demais problemas que a aproximação com as grandes fazendas do agronegócio impõe.  

O documentário Nãsêpôtiti, rio, terra e luta Panará é resultado de um pedido do líder Akã Panará para que as ameaças ao território indígena e sua cultura chegassem ao maior número possível de pessoas, principalmente às autoridades governamentais. A narrativa é  dividida em 8 capítulos e apresenta, por meio dos depoimentos de anciãos e anciãs, as transformações sofridas pelo rio Iriri e as consequências para a cultura e a vida nas aldeias. O documentário tem ainda a participação das pesquisadoras da Unicamp, de ex-membros da Associação Iakiô e de um dos diretores do Instituto Socioambiental.  

Nãsêpôtiti, rio, terra e luta Panará

Dia 25/03 (quarta-feira), às 14 horas – Auditório Milton Santos – Instituto de Geociências (IG) da Unicamp.
Dia 26/03 (quinta-feira), às 19 horas – Museu da Cidade – Av. Dr. Heitor Penteado, 2.145, Parque Taquaral, Campinas.
Dia 07/04 (terça-feira), às 14h30 – Casa do Lago – Unicamp – Mostra audiovisual Entre Territórios: memória, presença e resistência.


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Projetos de educação midiática atuam no enfrentamento à desinformação

A desinformação se tornou um dos principais desafios contemporâneos com a expansão das redes sociais. O ambiente digital mudou a forma como a informação circula e intensificou a disseminação das narrativas manipuladas e dos discursos de ódio. Diante desse cenário, o Observatório da Desinformação da Unicamp tem intensificado suas ações de enfrentamento a partir de projetos de educação midiática, como o lançamento, em breve, de três cartilhas sobre o tema e um projeto piloto que será implantado nas escolas públicas de Campinas. 

O objetivo é ajudar estudantes, professores e comunidades a compreenderem de forma crítica o funcionamento das mídias e a circulação de conteúdos no ambiente digital, destaca a pesquisadora do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE), Claudia Wanderley, uma das coordenadoras do Observatório, que funciona de forma colaborativa e descentralizada. “Muitos dos conflitos vêm da dificuldade de lidar com a diferença.”

A professora Josianne Cerasoli e a pesquisadora Claudia Wanderley: informação como um direito
A professora Josianne Cerasoli e a pesquisadora Claudia Wanderley: informação como um direito

As cartilhas, com temas que abordam noções básicas de educação midiática, letramento em mídia, estratégias e desafios, fazem parte de um projeto maior, a Olimpíada Brasileira de Educação Midiática (Obem). “Todo esse material está em fase de publicação e deve ser disponibilizado gratuitamente ao público”, acrescenta.

Enquanto aguarda a confirmação da data de realização da Olimpíada, um projeto piloto está sendo organizado nas escolas públicas de Campinas ligadas ao Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid). A professora da Faculdade de Educação (FE), Nima Spigolon, uma das coordenadoras do grupo, destaca que o objetivo é ajudar estudantes e professores a lidar com a grande quantidade de informação digital que circula no cotidiano escolar. “Hoje todos produzem e compartilham informação. Precisamos aprender a fazer isso de forma crítica e segura.”

Uma das estratégias discutidas no projeto é a criação de redes de apoio dentro das escolas para ajudar os estudantes a avaliar informações. “Bibliotecários, orientadores pedagógicos, professores e gestores podem atuar com os alunos”, explica.

A professora da FE, Nima Spigolon e o biólogo e professor da Ufac, Ewerton Machado: relação entre emoção e informação
A professora da FE, Nima Spigolon e o biólogo e professor da Ufac, Ewerton Machado: relação entre emoção e informação

“O material que preparamos aborda desde o pensamento crítico e avaliação de fontes até a relação entre emoção e informação”, destaca o biólogo e professor da Universidade Federal do Acre (Ufac), Ewerton Machado, também coordenador do Observatório. “Temos livros conceituais e também materiais pedagógicos para ajudar professores e alunos a trabalhar com educação midiática.”

Além das ações com escolas e comunidades, o grupo, que produz boletins que analisam casos de desinformação em diferentes contextos, pretende disponibilizar parte dos materiais produzidos em plataformas abertas, como a Wikimedia. “A ideia é ampliar o acesso público ao conhecimento”, destaca Wanderley. 

Informação como um direito

O Observatório, que mantém parceria com Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), funciona como um núcleo para que pesquisadores interessados possam estudar o tema a partir de diferentes áreas do conhecimento. Para a professora de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), Josianne Cerasoli, uma das articuladoras do projeto, o ponto de partida é reconhecer a informação como um direito. “Buscamos entender como esse direito está sendo ameaçado hoje e o que a Educação pode fazer diante disso”, afirma.

O grupo nasceu a partir de uma articulação com o Observatório de Direitos Humanos da Unicamp e, além da produção acadêmica, aposta no diálogo com a sociedade, especialmente por meio de iniciativas de formação e extensão. 

Segundo Cerasoli, o objetivo não é atuar diretamente na checagem de informações, mas compreender as condições sociais e culturais que favorecem a disseminação da desinformação. “O que nos interessa é entender como as relações humanas criam espaço para que a desinformação tenha um papel tão desarticulador quanto vemos hoje”, explica.

Para a historiadora, a dinâmica das plataformas digitais intensifica processos que já fazem parte da história política. “Processos de exclusão política sempre passam pela mobilização de sentimentos”, afirma. 

“As bolhas parecem algo novo, mas trabalham em um campo que politicamente já está disponível há muito tempo”, continua Cerasoli, que destaca que os processos de exclusão política frequentemente começam com a construção de distanciamento emocional entre grupos. “Primeiro se corta a empatia. Depois, começam a surgir imagens negativas do outro, que levam ao desprezo, à indiferença e, em casos extremos, ao ódio”, explica.

Cartilha Noções básicas de Educação Midiática
Cartilha Estratégias e desafios para estudantes na Obem
Cartilha Letramento em Mídia e Informação

Esse processo encontra nas plataformas digitais um ambiente favorável à amplificação. Cerasoli cita estudos sobre patentes registradas por empresas de tecnologia que exploram justamente a dimensão emocional das interações online. “Nos últimos anos, mais da metade das patentes do Facebook mencionam emoção ou sentimento. Isso mostra o quanto essas plataformas operam diretamente sobre nossas reações emocionais.” Para ela, compreender essa dimensão é essencial para pensar estratégias de enfrentamento da desinformação.

Conhecimentos tradicionais

Outro eixo do trabalho do Observatório envolve a colaboração com o povo Paiter Suruí, em Rondônia, parceria que existe há cerca de uma década. Segundo Machado,  a proposta, hoje, busca ampliar o diálogo entre conhecimentos tradicionais e debates globais. “A ideia é que eles possam falar sobre a floresta e sobre o conhecimento que possuem a partir da própria perspectiva.”

Inicialmente voltado à organização do conhecimento tradicional da comunidade, o projeto passou a incluir discussões sobre desinformação em temas como floresta e mudanças climáticas. 

Uma das iniciativas mais recentes é a criação de uma MIL City — (MIL é a sigla em inglês de “letramento em mídia e informação”) na Aldeia Lapetanha. A proposta é transformar a comunidade em uma referência internacional em educação midiática indígena. “Será a primeira aldeia MIL do mundo”, destaca.

Conheça o projeto

Foto de capa:

O Observatório da Desinformação mantém parceria com Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco)
O Observatório da Desinformação mantém parceria com Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco)


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Agricultura orgânica é resposta para insegurança alimentar e mudanças climáticas, aponta ministra Marina Silva

A agricultura orgânica é a resposta brasileira para minimizar dois dos maiores desafios enfrentados pelo mundo nas últimas décadas: a insegurança alimentar e as mudanças climáticas. Essa é a percepção de Marina Silva, ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, que participou da abertura do 1º Congresso Técnico-Científico de Agricultura Orgânica, organizado pelo Instituto Brasil Orgânico (IBO) com apoio da Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri), da Unicamp. O evento acontece até quinta-feira (19) no Centro de Convenções da Universidade.

“A agroecologia e a cultura orgânica são promotores de processos regenerativos da Terra; de preservação da biodiversidade. Ao mesmo tempo, são altamente necessários ao combate à desigualdade”, afirmou a ministra. “Nosso maior ativo é o clima equilibrado. Sem isso, o que eu vou fazer com a tecnologia e com essa quantidade de terra? Isso só se resolve com o enfrentamento da mudança do clima, e vocês, produtores orgânicos, também são uma solução. Os produtos que vêm da agricultura orgânica são mais resilientes aos processos de mudança do clima”, reforçou ela.

A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima destacou a importância da agricultura orgânica para minimizar os desafios da insegurança alimentar e as mudanças climáticas
A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima destacou a importância da agricultura orgânica para minimizar os desafios da insegurança alimentar e as mudanças climáticas
A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima destacou a importância da agricultura orgânica para minimizar os desafios da insegurança alimentar e as mudanças climáticas

A ministra também apontou que incentivar políticas de financiamento, assistência técnica e suporte podem resultar em uma maior produção e, consequentemente, em alimentos chegando à mesa com preços mais acessíveis. “É muito importante que haja políticas públicas, de assistência técnica e crédito acessível para que essa produção chegue à mesa das pessoas por um preço cada vez menor. Quando você tem o suporte para alavancar essas atividades, o desdobramento é reduzir os custos. Mesmo assim, hoje já é bastante acessível. Existe, às vezes, uma tentativa de dizer que a agricultura orgânica é só de elite, mas não. É possível diminuir os custos dessa produção e ampliar o acesso”, disse.

Em sua fala de abertura, a ministra lembrou que, nesta semana, o governo federal lançou o Plano Nacional sobre Mudanças do Clima, que contará com um orçamento de R$ 27,5 bilhões. Ela ainda mencionou o Plano Nacional de Transformação Ecológica, de 2023, iniciativa do Ministério da Fazenda em parceria com outras pastas. “As mudanças climáticas precisam ser protagonistas na questão eleitoral este ano. No Brasil, onde temos seca na Amazônia e chuva demais no Rio Grande do Sul, cada vez mais os sistemas alimentares podem ser comprometidos, a segurança energética também. A população tem que ficar muito atenta a quem vai debater o tema da mudança climática com o compromisso de fazer o enfrentamento”, comentou. “As mudanças climáticas são um problema em todos os níveis, tanto para a segurança alimentar quanto para a questão energética, além de trazer riscos às nossas próprias vidas. No Brasil, com 8 milhões de quilômetros quadrados, tem lugar para todo mundo, desde que seja algo sustentável. O que não podemos é continuar comprometendo as condições em que a vida nos foi dada”, completou a ministra.

O 1º Congresso Técnico-Científico de Agricultura Orgânica, organizado pelo Instituto Brasil Orgânico (IBO) com apoio da Feagri
O 1º Congresso Técnico-Científico de Agricultura Orgânica, organizado pelo Instituto Brasil Orgânico (IBO) com apoio da Feagri
O 1º Congresso Técnico-Científico de Agricultura Orgânica, organizado pelo Instituto Brasil Orgânico (IBO) com apoio da Feagri acontece até dia 19

O papel da Ciência

Ao final, Marina Silva ressaltou o papel da Ciência e da pesquisa como parceiras na busca por políticas públicas que protejam de fato a população. “Cada vez mais, vamos precisar fazer políticas públicas a partir de dados e evidências. Tanto aqueles que são aportados pela academia, que vêm da pesquisa básica e aplicada, quanto aqueles que vêm da observação das pessoas, sejam agricultores familiares, populações tradicionais, pescadores e coletores, como temos em várias regiões do Brasil. Sem conhecimento é impossível, nestes tempos tão incertos e com tantos desafios, diminuir recursos e esforços para alcançar os melhores resultados. No Ministério, nós sempre fizemos política pública com base em dados e evidências. Seja em relação a desmatamentos, enfrentamento à desertificação ou resíduos sólidos, todas as nossas políticas têm um lastro técnico-científico de diferentes setores”, afirmou.

Política de Sustentabilidade

O coordenador-geral da Unicamp, Fernando Coelho, também esteve presente representando o reitor Paulo Cesar Montagner. Segundo ele, o evento acontece em um momento muito importante para a Universidade. “Estamos implementando a nossa política de sustentabilidade agora. Pensar em agricultura orgânica é discutir uma perspectiva de futuro, e esse é o papel da universidade pública: conversar com a sociedade”, comentou.

Roberto Donato, diretor executivo de Sustentabilidade da Unicamp, também enalteceu essa troca de ideias. “Temos aqui uma oportunidade de fazer uma discussão séria sobre um tema sensível para a sociedade brasileira, que é a produção de alimentos com qualidade, saúde e de forma ambientalmente correta”, apontou.

O ator Marcos Palmeira: laços entre produtores
O ator Marcos Palmeira: laços entre produtores

Produtor orgânico

O congresso ainda recebeu o ator Marcos Palmeira, também produtor orgânico destacado. “Meu interesse de estar aqui é criar laços entre os produtores. Um evento como este mostra a nossa dimensão, estimula a chegada de mais interessados”, disse. “Aqui, a gente fala sobre alimentar o mundo realmente. É importante que todos os envolvidos com o agro no Brasil venham procurar pesquisas que minimizem o uso de insumos químicos em sua produção. Espero que isso se popularize, com mais produtores e consumidores; que esta sala fique pequena no ano que vem. Temos um orgulho enorme das universidades públicas”, completou.

Economia verde 

O  “Congresso Técnico Científico de Agricultura Orgânica” tem como meta reunir, debater e disseminar trabalhos científicos e técnicos desenvolvidos por instituições de referência como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), universidades, institutos estaduais de pesquisa e profissionais do setor. O evento surge como uma iniciativa para ampliar a visibilidade e o protagonismo do setor na agenda da economia verde.

Foto de capa:

Durante a abertura do evento, a ministra Marina Silva recebeu vários presentes do público presente
Durante a abertura do evento, a ministra Marina Silva recebeu vários presentes do público presente

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Banco de dados inédito revela padrões de desinformação antivacina no Telegram

Um grupo multidisciplinar reunido pelo Laboratório de Inteligência Artificial Recod.ai, da Unicamp, mergulhou nas redes sociais e agrupou quatro milhões de postagens com apenas um objetivo: traçar os caminhos da desinformação antivacina que circula pelo aplicativo de mensagens Telegram no Brasil. O conjunto coletado inclui 1,4 milhão de arquivos de imagem, vídeo, áudio e enquetes – tudo compartilhado organicamente pelos usuários das redes ou turbinado pelos algoritmos. Com base nesses materiais, os pesquisadores criaram um banco de dados totalmente aberto, para uso sem finalidades comerciais, que está disponível no Repositório de Dados da Universidade. Trata-se de uma ferramenta que auxilia na valorização da verdade quando o assunto é saúde pública.

Infográfico de narrativas antivacina identificadas no Telegram

A análise abrangeu publicações feitas entre janeiro de 2020 e junho de 2025. O recorte temporal teve início nas primeiras semanas após a descoberta do coronavírus da covid-19 e se estendeu até os anos pós-pandemia, período de considerável circulação de desinformação na área de saúde, principalmente sobre a eficácia de tratamentos.

“Queremos entender melhor as motivações e estratégias de propagação da desinformação, mais precisamente na questão da vacinação. O tipo de comunicação que sobrevive, ganha força e se propaga nesse meio tem muita semelhança com os mecanismos de seleção natural que vemos na natureza. Se algum tipo de narrativa não está gerando engajamento, naturalmente as pessoas vão parar de reproduzi-la”, explica Leopoldo Lusquino Filho, colaborador do Recod.ai e docente da Unesp.

“Nós fizemos uma análise e conseguimos identificar que existem canais que só disseminam desinformação, outros que apenas a compartilham, e os que fazem as duas coisas. Existe uma estratégia por trás disso. Eventos externos, como a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, geram um efeito dominó nessas redes. É possível perceber também que há muitas mensagens compartilhadas por robôs”, detalha o pesquisador.

Ainda de acordo com Lusquino Filho, o fato de 2026 ser um ano eleitoral no Brasil tende a intensificar a circulação de conteúdos desinformativos. Isso porque as áreas de saúde e política acabam integrando disputas ideológicas que ficam mais acirradas nesse período. “Tivemos contato com outras agências de verificação de informações e elas confirmaram que nunca houve uma quantidade tão grande de desinformação política quanto neste ano”, aponta.

A análise abrangeu publicações feitas entre janeiro de 2020 e junho de 2025
A análise abrangeu publicações feitas entre janeiro de 2020 e junho de 2025

Primeiros passos

O primeiro passo para criar o banco de dados sobre desinformação antivacina foi identificar, em artigos de agências de checagem, os principais boatos sobre o tema. A partir disso, os pesquisadores selecionaram canais e grupos no Telegram, por ser esta uma base de dados mais acessível para fins de pesquisa e por ser conhecida por disseminar conteúdos antivacina. Isso foi feito com base em palavras-chave comuns nesse meio e de recomendações do algoritmo da própria plataforma para encontrar canais públicos semelhantes com mais de mil membros.

Na sequência, os cientistas desenvolveram uma ferramenta de coleta de dados personalizada nos canais e grupos. Depois do processo de coleta, os dados passaram por uma curadoria.

O projeto contou com o apoio da empresa Maritaca.ai para uso do modelo Sabiá, que facilitou a identificação de postagens relacionadas à vacinação. A privacidade dos usuários dos canais e grupos também foi assegurada. Eles passaram por um processo de anonimização, no qual a identificação do autor da mensagem foi removida. Somado a isso, informações pessoais como telefone, e-mail e registros de entradas e saídas dos grupos também foram excluídas. Isso tudo para que o processo respeitasse as boas práticas de ética em pesquisa e proteção de dados.

Da esquerda para a direita, Michelle Diniz Lopes, Leopoldo Lusquino Filho e Christiane Versuti: falta de dados abertos e sistematizados sobre a infodemia
Da esquerda para a direita, Michelle Diniz Lopes, Leopoldo Lusquino Filho e Christiane Versuti: falta de dados abertos e sistematizados sobre a infodemia

Lacuna histórica

De acordo com o Recod.ai, a iniciativa busca suprir uma lacuna histórica em relação à falta de dados abertos e sistematizados sobre a infodemia – o excesso de informações, incluindo notícias falsas ou imprecisas, que se espalham rapidamente durante uma crise sanitária – no caso brasileiro. “Os dados mostram que a desinformação vai além da saúde e envolve disputas políticas, crenças e desconfiança nas instituições — com impactos reais, como a queda da cobertura vacinal”, ressalta o material de divulgação científica do laboratório.

O conjunto de dados ocupa 5,5 terabytes de armazenamento (1 terabyte equivale a 1.024 gigabytes), reunindo conteúdos postados por 71.672 usuários em 119 grupos do Telegram. Há 407.723 mensagens relacionadas especificamente à postura antivacina, o que corresponde a 10,2% das postagens que compõem o banco de dados.

“Analisamos as reais motivações das pessoas que consomem informação negacionista na área de saúde, principalmente no que diz respeito à questão vacinal, e quais são as estratégias eficientes para propagação dessa desinformação”, explica a doutoranda Michelle Diniz Lopes, integrante da equipe de pesquisa, graduada em Matemática e especialista em Estatística e Neurociências. “Identificamos diversos nichos: o da desconfiança institucional, crenças injustificadas, visão de mundo e política, preocupações religiosas e fobias”, conta.

O conjunto de dados ocupa 5,5 terabytes de armazenamento (1 terabyte equivale a 1.024 gigabytes), reunindo conteúdos postados por 71.672 usuários em 119 grupos do Telegram
O conjunto de dados ocupa 5,5 terabytes de armazenamento (1 terabyte equivale a 1.024 gigabytes), reunindo conteúdos postados por 71.672 usuários em 119 grupos do Telegram

Disputas ideológicas

As narrativas de infodemia postadas por usuários do Telegram viraram espaço de disputas ideológicas. No espaço virtual, surgem com frequência temas ligados à saúde, à ciência, a instituições e políticas públicas e a crenças e desconfianças, além da disputa política propriamente dita. Ainda de acordo com o material de divulgação do Recod.ai, a presença maciça dessas narrativas indica que a desinformação na área de saúde passou a ter efeitos concretos na população. Isso trouxe impactos na política pública de vacinação, como se viu na perda de penetração do Programa Nacional de Imunizações (PNI), criado em 1973 para garantir às pessoas o acesso universal e gratuito às vacinas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Em 2020, o PNI alcançou o menor percentual de cobertura vacinal da sua história (75%) , de acordo com apuração do Instituto Butantan. A desinformação tem muita influência nisso.

Na tentativa de contribuir para reverter esse quadro, o Recod.ai espera que o novo banco de dados ajude as comunidades científica e de saúde a desenvolverem estratégias baseadas em evidências para mitigar a desinformação e a hesitação vacinal. “O entendimento dos padrões da infodemia é essencial para reconstruir o diálogo e a confiança com pessoas afetadas por narrativas falsas”, reforça o material de divulgação do trabalho científico.

As mais diversas áreas de pesquisa podem se beneficiar dos dados coletados. No campo do processamento de linguagem natural, por exemplo, serve como ferramenta para entender grandes volumes de postagens; nas ciências sociais, que permite compreender as narrativas antivacina; na análise de redes, servirá para identificar grupos e perfis influentes na disseminação de desinformação; e, no estudo das realidades sintéticas, contribui para identificar vídeos e imagens que são gerados por IA para apoiar discursos antivacina.

Michelle Lopes destaca o papel social do trabalho e a sua capacidade de orientar a população em geral. “Existem muitas pesquisas que não conseguem ter uma aplicabilidade social, mas no Recod.ai nós sempre tentamos vincular esse trabalho com a extensão, para que ele possa ser aproveitado pela sociedade como um todo. É importante dizer que temos utilizado a IA para analisar e encontrar padrões, mas é fundamental sempre existir uma curadoria humana”, salienta Lopes.

Na opinião dela, é fundamental “que possamos fazer questionamentos de forma estruturada, em prol do nosso desenvolvimento como sociedade”. Isso só é possível porque contamos com diversos pesquisadores, em um grupo multidisciplinar, que nos apoiam. Nossa busca é pela verdade.”, completa.

Em uma nova etapa do trabalho, os pesquisadores querem compreender o que leva as pessoas a aderirem a esse tipo de conteúdo
Em uma nova etapa do trabalho, os pesquisadores querem compreender o que leva as pessoas a aderirem a esse tipo de conteúdo

Ressentimento

A pós-doutoranda Christiane Versuti, com formação em Ciências Sociais e Comunicação, colaborou como pesquisadora no projeto. Ela entrou como uma usuária comum em diversos grupos do Telegram e acompanhou suas movimentações. Nesse ambiente, percebeu que o ressentimento e a busca por pertencimento movem quem acompanha cada postagem. “A falta de letramento midiático torna tudo ainda mais hostil. As pessoas não têm o hábito de checar as fontes ou só compartilhar algo quando têm certeza do conteúdo”, diz a pesquisadora.

Para Versuti, o ambiente digital fica ainda mais turbulento quando a questão da religião aparece. “É a lógica do racional contra o emocional. Tem gente que só aceita a ciência quando a informação bate com suas crenças. O mesmo acontece em relação à imprensa: os jornalistas só são considerados sérios quando falam o que a pessoa defende”, destaca Christiane, que se deparou com momentos que beiram o absurdo. “Encontrei mensagens que tratavam a enzima conhecida como luciferase como algo demoníaco apenas pela vaga lembrança que seu nome trazia. Outras apontavam que a aplicação dessa enzima transformaria as pessoas em zumbis”, lembra Versuti, explicando que luciferase é uma enzima bioluminescente que catalisa a oxidação, produzindo luz em diversos organismos como vagalumes, bactérias e fungos, por exemplo.

Próximas etapas

Em uma nova etapa do trabalho, os pesquisadores vão além da identificação das mensagens antivacina. Eles querem compreender o que leva as pessoas a aderirem a esse tipo de conteúdo. “Outros projetos de pesquisa já coletaram bases de dados amplas como a nossa, mas não as disponibilizam gratuitamente. Esse material costuma ser vendido por valores altos. Mas, no nosso caso, qualquer outro grupo acadêmico pode pegar as análises que a gente fez. Já disponibilizamos a base de dados do Telegram e, agora, estamos trabalhando com o Instagram, YouTube e X. Vamos disponibilizar isso ainda este ano, também de forma totalmente aberta e gratuita”, adianta o pesquisador Lusquino Filho. Neste mês, representantes do Recod.ai vão se reunir com funcionários do Ministério da Saúde para oferecer a ferramenta como fonte de futuras políticas públicas no país.

O banco de dados é resultado de uma parceria entre o Recod.ai e a Maritaca.ai, reunindo expertises acadêmicas e tecnológicas no desenvolvimento de soluções baseadas em IA. O projeto recebeu apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), por meio do Projeto Horus, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Ministério da Saúde, a partir do Projeto Aletheia, iniciativa de pesquisa que usa IA e linguística computacional para combater a desinformação em saúde.

Além de Leopoldo Lusquino Filho, Michelle Lopes e Christiane Versuti , o projeto teve a participação direta de Ana Carolina Monari e Anderson Rocha, coordenador do Recod.ai.

Foto de capa:

O conjunto coletado inclui 1,4 milhão de arquivos de imagem, vídeo, áudio e enquetes – tudo compartilhado organicamente pelos usuários das redes ou turbinado pelos algoritmos
O conjunto coletado inclui 1,4 milhão de arquivos de imagem, vídeo, áudio e enquetes – tudo compartilhado organicamente pelos usuários das redes ou turbinado pelos algoritmos

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Cientistas discutem novas técnicas para enfrentar o câncer

Cientistas brasileiros e estrangeiros de diversas áreas se reúnem nesta semana na Unicamp para discutir novas técnicas e abordagens contra o câncer, uma doença que deve registrar 781 mil novos casos por ano no Brasil até 2028, segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional do Câncer (INC) no início de fevereiro.

O 3º Congresso CancerThera acontece nesta quinta e sexta (dias 12 e 13) no auditório da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), com a participação de especialistas em áreas como medicina, química e física, entre outras. Neste ano, o tema do encontro é “Os desafios da pesquisa translacional no Teranóstico em câncer”. Teranóstico é a junção de conceitos de terapia e diagnóstico, e a ideia é debater formas de levar os avanços obtidos em pesquisa acadêmica até o paciente.. 

De acordo com hematologista Carmino de Souza, pesquisador responsável pelo  Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) CancerThera e presidente do Congresso, o encontro abre espaço para o debate sobre os mais recentes avanços no desenvolvimento de radiofármacos e metalofármacos (medicamentos de precisão nos quais as propriedades físico-químicas de um metal são usadas para realizar tarefas moleculares). Além disso, o seminário vai discutir estratégias diagnósticas e terapêuticas inovadoras para os cuidados de pacientes oncológicos.

Neste ano, o tema do encontro é “Os desafios da pesquisa translacional no Teranóstico em câncer”
Neste ano, o tema do encontro é “Os desafios da pesquisa translacional no Teranóstico em câncer”

“A função do Congresso é dar oportunidade para que todos os envolvidos no Cepid possam ver as atividades de pesquisa que estão sendo desenvolvidas e os respectivos resultados. Alguns são preliminares, outros, mais definitivos”, disse Souza.

“Não estamos falando apenas de irradiação. No casos de câncer de pele, por exemplo, a gente praticamente não falou de irradiação no sentido nuclear. Nós falamos de fotodinâmica, falamos de novos fármacos, falamos de metais”, observa. A fotodinâmica é uma técnica medicinal que utiliza a interação entre luz e um fármaco sensível à luz para destruir células doentes de forma extremamente precisa.

“Quando você conhece o inimigo e sabe quantos são, onde estão e aonde vão, você escolhe as armas com as quais vai lutar”, afirma. “No câncer é a mesma coisa”, argumenta.

Carmino de Souza diz que o seminário também discutirá a chamada “medicina personalizada”, na qual o tratamento é individualizado com base em características próprias de cada organismo.

Cepid CancerThera

Instalado na Unicamp em maio de 2023, o Centro de Inovação em Câncer com Ênfase em Metais e Teranóstico (CancerThera) tem como tarefa desenvolver atividades de pesquisa, inovação e difusão do conhecimento para a criação de novos fármacos e radiofármacos baseados em metais para diagnóstico e tratamento do câncer, incluindo novos usos para radiofármacos já conhecidos.

Além disso, o centro agrega pesquisadores de diversas áreas do conhecimento, incluindo oncologia clínica, onco-hematologia, química, medicina nuclear, farmácia, estatística, biologia e física, adotando um modelo inovador no país para se transformar numa instituição de classe mundial no estudo do câncer.

Tipos de câncer mais incidentes

Homens

Próstata (30,5%) – Cólon e reto (10,3%) – Pulmão (7,3%) – Estômago (5,4%) – Cavidade oral (4,8%)

Mulheres

Mama (30,0%) – Cólon e reto (10,5%) – Colo do útero (7,4%) – Pulmão (6,4%) – Tireoide (5,1%)

Fonte: INC

Alerta

➔  781 mil novos casos de câncer estimados por ano no Brasil em cada ano do triênio 2026-2028.

➔  518 mil casos anuais da doença, excluídos os tumores de pele não melanoma.

➔  O câncer se aproxima das doenças cardiovasculares como principal causa de mortes no Brasil. 

Foto de capa:

Doença deve registrar 781 mil novos casos por ano no Brasil até 2028
Doença deve registrar 781 mil novos casos por ano no Brasil até 2028

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Cepagri amplia acesso a dados meteorológicos em tempo real

Dados meteorológicos atualizados em tempo real, imagens de satélite interativas e novas ferramentas de monitoramento climático facilitam cada vez mais o acesso da população às informações sobre o clima. No novo site do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), da Unicamp, as novas tecnologias permitem que o público tenha informações mais precisas sobre, por exemplo, temperatura, precipitação, velocidade do vento, umidade relativa do ar e fenômenos como El Niño e La Niña. Visite o site

O site, um dos mais antigos da Unicamp, foi lançado em 1995 e passou por diversas reformulações ao longo de mais de 30 anos, destaca a coordenadora-associada do Cepagri, Renata Ribeiro Gonçalves. “Com as atualizações, melhoramos a navegação e ampliamos o acesso público aos dados produzidos”, destaca.

Uma das novidades da nova versão é a integração com a plataforma Labsat, que permite visualizar imagens de satélite com diferentes camadas de informação. “Antes, a plataforma tinha imagens sem interação. Agora, o usuário pode interagir e analisar diferentes informações”, explica Gonçalves, que ressalta que as imagens são geradas a partir de dados de um satélite geoestacionário que monitora cerca de um terço do planeta, incluindo toda a América do Sul. “É possível mapear, por exemplo, focos de incêndio, temperatura da superfície, temperatura do oceano e quantidade de raios”, afirma.

 A coordenadora-associada do Cepagri, Renata Ribeiro Gonçalves: imagens de radar meteorológico em tempo real
A coordenadora-associada do Cepagri, Renata Ribeiro Gonçalves: imagens de radar meteorológico em tempo real

Há também gráficos inéditos, que mostram variações nas últimas 24 horas, nos últimos 15 dias e dados históricos dos últimos 30 anos. “É possível escolher períodos determinados e analisar médias históricas”, exemplifica Gonçalves. De acordo com a coordenadora, a previsão é atualizada todos os dias e, se houver mudanças mais significativas, a atualização pode ocorrer mais de uma vez ao dia. “Essas previsões são feitas e assinadas pelos meteorologistas”, ressalta.

Nos próximos meses, o site também deverá incorporar uma plataforma com imagens de radar meteorológico em tempo real, projeto em parceria com a Agência Metropolitana de Campinas (Agemcamp) e a Defesa Civil. “O radar permite saber exatamente onde está chovendo e qual a intensidade da precipitação. Se houver uma tempestade muito forte, com cerca de meia hora de antecedência já será possível prever e acompanhar o deslocamento”, explica. Segundo a coordenadora, a ferramenta deverá contribuir para a emissão de alertas meteorológicos e para o monitoramento de eventos extremos. O radar, instalado em 2024 no Museu Exploratório de Ciências da Unicamp, entrou em operação em dezembro passado.

Gonçalves ressalta que o site é utilizado por diversos públicos, desde pesquisadores até profissionais de setores que dependem das condições climáticas, como agricultura, por exemplo. “Essas informações são de acesso gratuito para a população e também podem apoiar pesquisas científicas.”

O novo portal levou cerca de um ano e meio para ficar pronto, em um trabalho conjunto com a Coordenadoria de Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa (Cocen). “O trabalho foi feito em parceria com a nossa coordenadoria e o desenvolvedor Derivaldo Reis de Sousa, da equipe de tecnologia da informação. A gente passava as demandas e ele desenvolvia”, relata Gonçalves, que destaca que a plataforma continuará sendo atualizada conforme novas ferramentas e demandas surgirem. “É um site que vai estar em constante atualização, porque as informações meteorológicas mudam o tempo todo e também existem demandas da imprensa, do turismo, dos aeroportos e de outros setores.”

Além de fornecer dados climáticos para o público em geral, o Cepagri desenvolve pesquisas em diferentes áreas, incluindo o uso de inteligência artificial (IA) aplicada à análise de dados ambientais. “Utilizamos técnicas de IA para cruzar informações como dados sobre clima, índice de vegetação e ocorrência de incêndios. Isso permite identificar relações e gerar resultados mais precisos”, diz.

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Cepagri amplia acesso a dados meteorológicos em tempo real
As novas tecnologias permitem que o público tenha informações mais precisas

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Ana Frattini, da fábrica ao sistema de CT&I

Não será desta vez que uma mulher vai assumir a Diretoria Científica da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O engenheiro agrônomo Marcio de Castro Silva Filho, no cargo desde abril de 2023, foi nomeado para um novo mandato de três anos por meio de decreto publicado nesta quarta-feira (11). Ele encabeçava a listra tríplice encaminhada pelo Conselho Superior da Fapesp ao governador Tarcísio de Freitas, na qual constava também o nome da engenheira química Ana Maria Frattini Fileti, primeira mulher a ser indicada, e do físico Luiz Nunes de Oliveira. “Permaneço feliz na Unicamp”, afirma Frattini, que completará em abril dois anos à frente da Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP) da Universidade.

O vínculo de Frattini com a Unicamp é antigo: remonta à primeira metade da década de 1980, quando a hoje professora titular da Faculdade de Engenharia Química (FEQ) se tornou aluna do Colégio Técnico de Campinas (Cotuca). Foi ali, no Cotuca, que a então jovem estudante descobriu a sua inclinação para o setor industrial. “Percebi, ao estagiar em uma fábrica de refrigerantes, que queria trabalhar com engenharia mecânica ou química”, relembra. “Não queria ficar restrita à indústria de alimentos, que era a área do meu curso técnico. Mesmo sendo adolescente, foi uma escolha muito lúcida.”

Frattini começou a sua trajetória na FEQ como aluna de graduação. Embora houvesse poucas mulheres na turma, ela se sentia à vontade entre os colegas e professores. “Eu não via nenhuma hostilidade dentro da academia”, afirma. Nas indústrias em que realizou estágios, contudo, a situação era bem diferente. “Os ambientes eram muito masculinos. Isso nunca foi um problema para mim, mas havia falta de respeito e de confiança. Em contatos com fornecedores, sempre achavam que eu era a secretária do engenheiro.”

As dificuldades enfrentadas durante os estágios fizeram Frattini optar por permanecer na FEQ depois de formada. Matriculou-se no mestrado e depois no doutorado, durante o qual desenvolveu um software para controle de processos químicos baseado em inteligência artificial – algo tão novo para a época que alguns periódicos relutaram em publicar os resultados do trabalho. “As revistas me pediam para explicar por que eu não havia usado a matemática clássica”, recorda.

Filha e sobrinha de mestres da tradicional escola campineira Culto à Ciência, Frattini nunca havia pensado em seguir a carreira do pai e da tia, mas acabou tomando gosto, durante a pós-graduação, pela arte de transmitir conhecimento. Prestou concurso, foi aprovada e tornou-se docente da FEQ. Suas pesquisas com inteligência artificial não demoraram a chamar a atenção de indústrias interessadas em aumentar a eficiência de seus processos produtivos. “O status de professora da Unicamp deu legitimidade ao meu trabalho”, afirma.

Frattini desenvolveu numerosos projetos em parceria com empresas nas últimas décadas, os quais renderam patentes e contratos de licenciamento de tecnologia para a Unicamp, além de reconhecimento interno e externo para a docente. Homenageada com o Prêmio Inventor Petrobras 2020 pelo desenvolvimento de um sistema ultrassônico de monitoramento de escoamentos bifásicos para processos industriais, ela foi convidada no ano seguinte a ocupar o cargo de diretora-executiva da Agência de Inovação da Unicamp (Inova), o qual deixou em abril de 2024 para assumir o comando da PRP.

Nesta entrevista ao Jornal da Unicamp, Frattini traça um panorama do sistema nacional de ciência, tecnologia e inovação, relata suas experiências na administração universitária e explica de que forma a presença de mulheres em posições de liderança no mundo acadêmico pode contribuir para aumentar a participação feminina na pesquisa.

Ana Frattini começou sua trajetória na FEQ como aluna de graduação, e as dificuldades enfrentadas durante os estágios a fizeram optar por permanecer na Universidade depois de formada
Ana Frattini começou sua trajetória na FEQ como aluna de graduação, e as dificuldades enfrentadas durante os estágios a fizeram optar por permanecer na Universidade depois de formada

Jornal da Unicamp (JU)Com base em sua experiência como diretora executiva da Inova e em seu longo histórico de parcerias de pesquisa com o setor produtivo, que avaliação a sra. faz do sistema brasileiro de ciência, tecnologia e inovação?

Ana Frattini – O Brasil sempre aparece entre o 11° e o 15° lugar nos rankings internacionais de produção científica. Nos rankings de inovação, no entanto, o país cai para a 50ª posição. Isso significa que não conseguimos converter a pesquisa científica em inovação para a indústria ou para a sociedade. A Unicamp se distancia das universidades brasileiras no que se refere ao contato com empresas (públicas ou privadas), mesmo quando consideramos apenas a realidade de São Paulo, que é um Estado diferente dos demais. Por existir uma ampla relação de confiança universidade-empresa construída ao longo dos anos, o contato aqui é muito mais intenso. Nós transferimos de 25 a 35 tecnologias por ano. Não é pouca coisa. Este é um exemplo de colaboração efetiva para o alcance da soberania tecnológica do país.

JU – Por que a Unicamp está tão à frente das demais universidades brasileiras nos indicadores de inovação?

Ana Frattini – Durante um bom tempo, a pressão sobre as universidades era para que houvesse publicações científicas, além da formação de recursos humanos. Agora, já existe a compreensão na sociedade de que produzir artigos ou qualquer outro material escrito é fundamental, mas não suficiente. As pessoas querem que o conhecimento gerado na academia ajude a melhorar a vida delas e a resolver problemas regionais, como o da desigualdade social, e mundiais, como o da mudança climática. A pressão externa por indicadores diferentes vai aproximar as universidades de fora do Estado de São Paulo do ecossistema de inovação, mas isso não acontecerá de uma hora para a outra, porque a cultura da produção científica foi muito forte nos últimos 20 anos. Na Unicamp, a mudança de cultura está mais madura. Já possuímos um portfólio de mais de 1.300 patentes. Não deixamos de fazer pesquisa básica, mas os pesquisadores que se dedicam a essa atividade, que é muito importante, não veem com maus olhos os colegas que querem gerar novas tecnologias, colocar produtos no mercado ou elaborar novas políticas públicas.

A pró-reitora de Pesquisa foi também diretora da Agência de Inovação da Unicamp
A pró-reitora de Pesquisa foi também diretora da Agência de Inovação da Unicamp

JU – Que aspectos a sra. destacaria de sua gestão na Inova?

Ana Frattini – O reitor Antonio Meirelles me convidou para dirigir a Agência de Inovação justamente porque eu sabia conversar com empresas. A Inova, que foi criada em 2003, já tinha atingido um bom nível de maturidade, mas havia a necessidade, apontada por um estudo da Procuradoria Geral da Universidade, de transferir a gestão administrativa da agência para a Fundação de Desenvolvimento da Unicamp (Funcamp). Fui incumbida de implementar essa mudança. Padronizamos os contratos de todos os profissionais da Inova e fizemos um planejamento para as diferentes equipes de trabalho, estabelecendo ações e metas específicas para cada uma delas. O plano está vigente até hoje e recebe pequenos ajustes sempre que necessário. Algumas metas tiveram de ser ampliadas, porque os docentes da Unicamp já entenderam como funciona o sistema de inovação. Os números de patentes requeridas e de convênios com empresas aumentaram nos últimos anos, e há mais dinheiro da iniciativa privada entrando na Universidade.

JU – A sra. deixou a diretoria executiva da Inova, em 2024, para substituir o professor João Marcos Travassos Romano no comando da PRP. Como foi a sua adaptação à nova função?

Ana Frattini – Quando cheguei à PRP, com o meu pensamento de engenheira e de ex-diretora da Inova, precisei estudar um pouco para compreender como as áreas mais tecnológicas, que eu conheço melhor, poderiam se inter-relacionar com as pesquisas fundamentais, com as pesquisas das ciências humanas. Hoje eu entendendo perfeitamente que o nosso Hub Internacional para o Desenvolvimento Sustentável (Hids), por exemplo, deve ser um laboratório vivo não apenas para testar os protótipos de equipamentos e novas tecnologias de produção de energia limpa, mas também para que os pesquisadores das ciências humanas avaliem o possível impacto dessas inovações sobre a sociedade. Por mais que uma tecnologia seja eficiente e dê lucro, ela não pode ser instalada em um determinado local se isso prejudicar a população ou o meio ambiente daquela região. Aprendi a olhar as coisas de forma mais ampla aqui na PRP, incluindo também toda a diversidade de atuações da área da saúde.

JU – Quais foram as principais realizações da PRP nestes seus quase dois anos de atuação como pró-reitora?

Ana Frattini – Desde que cheguei à PRP, estamos fazendo um diagnóstico das ações necessárias para que a Unicamp continue a ser reconhecida como uma universidade forte em pesquisa. Manter-se no topo é algo que depende de organização. Um dos primeiros pontos que chamaram a minha atenção foi um estudo da PRP e do SBU [Sistema de Bibliotecas da Unicamp], que havia acabado de ser divulgado, mostrando que a produção científica da Unicamp era predominante masculina. Fomos investigar por que isso acontecia e constatamos que o percentual de mulheres na docência diminuía nos níveis mais altos da carreira, embora fosse similar ao de homens no nível de entrada. Ou seja: as mulheres estavam ficando pelo caminho. Decidimos, então, lançar o edital “Mais Mulheres na Pesquisa” para fortalecer os grupos de pesquisa com liderança feminina. Vamos mantê-lo como um edital em linha pelo tempo que for necessário. Também identificamos a necessidade de facilitar o acesso dos estudantes que entram na Unicamp pelo Vestibular Indígena ao Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic), que é muito concorrido. Lançamos um edital específico para esses alunos. Os contemplados estão recebendo apoio financeiro para desenvolverem pesquisas relacionadas às suas respectivas comunidades de origem. O lançamento desses dois editais foi possível porque, em uma ação conjunta com a PRDU [Pró-Reitoria de Desenvolvimento Universitário], conseguimos aumentar em 50% o valor do orçamento do Faepex [Fundo de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão]. Eu destacaria, ainda, o diagnóstico de que era preciso padronizar o modo de operação dos diferentes escritórios de apoio institucional à pesquisa existentes na Universidade. Preparamos e emitimos uma resolução para orientar as equipes dos escritórios com relação às atividades que se esperam desses órgãos. Isso forneceu um arcabouço jurídico para embasar as respostas dos funcionários às demandas que eles recebem dos docentes.

Ana Frattini: Unicamp continue a ser reconhecida como universidade forte em pesquisa
Ana Frattini: ações para que a Unicamp continue a ser reconhecida como universidade forte em pesquisa

JU – Que outras ações a sra. gostaria de implementar no âmbito da PRP?

Ana Frattini – Estamos pedindo que os coordenadores de pesquisa sejam os nossos facilitadores em suas respectivas unidades no que se refere à promoção da cultura do compartilhamento de espaços e equipamentos, muito forte no exterior. Durante muito tempo, investiram-se dinheiro e recursos humanos para que cada professor trabalhasse no seu próprio nicho. Agora, vemos que a pesquisa dá melhores frutos quando é feita de forma multidisciplinar. A cultura do isolamento não nos permite estar na fronteira dos conhecimentos. Queremos que o compartilhamento seja cada vez mais bem aceito pelos nossos grupos de pesquisa porque acreditamos que este seja o futuro da universidade, além de ser uma forma de otimizar os recursos. Não faz sentido replicar equipamentos em diferentes unidades, muito menos em dois ou mais laboratórios de pesquisa de uma mesma unidade. Precisamos atuar fortemente para que as pessoas compreendam que este é um momento de dinheiro mais curto e investimentos menores. Precisamos aproveitar melhor o que temos, de forma institucional, tanto em termos de equipamentos como de recursos humanos, senão não conseguiremos suprir as necessidades de todos. Esta é a minha visão de futuro para o curto prazo.

JU – Como a sra. vê a presença das mulheres no sistema brasileiro de ciência, tecnologia e inovação atualmente? Em que medida o aumento do número de mulheres em cargos estratégicos pode ajudar a ampliar a participação feminina na pesquisa?

Ana Frattini – As mulheres estão cada vez mais bem representadas. Hoje, várias universidades têm reitoras. Está havendo uma mudança cultural, mas, como no caso da inovação, as coisas acontecem de forma mais natural em alguns lugares do que em outros. Vai levar um tempo até que as mulheres sejam ouvidas facilmente em qualquer fórum. Não sou estudiosa do assunto, mas vejo que as mulheres ainda são muito críticas em relação a elas mesmas e às colegas. Sempre nos perguntamos se deveríamos ocupar a posição que ocupamos, se merecíamos receber este convite ou aquela indicação, se estamos no caminho certo, se não exageramos nisto ou naquilo… Aqui mesmo, na PRP, eu relutei em lançar o edital “Mais Mulheres na Pesquisa”, porque não queria dar a entender que estivesse legislando em causa própria. Foi preciso que um assessor insistisse que o edital era necessário para resolver um problema real, que já estava diagnosticado. Estando no alto escalão da administração universitária ou de agências de fomento, temos de mostrar que precisamos deixar de ser tão críticas conosco e que as mulheres devem se posicionar mais na liderança dos grupos de pesquisas. Podemos estar onde quisermos, e não deve haver sofrimento em caso de manifestação de desconfiança sobre o nosso trabalho. Não gosto de embates, nem de enfrentamento. Apenas reflito, e as minhas respostas vêm sempre com ações. Pode ter sido uma coincidência, mas quando deixei a Inova, havia mais engenheiras procurando a agência, mais mulheres interessadas em estagiar ou trabalhar lá. Espero que este efeito se multiplique pela Universidade, estando na posição que hoje ocupo.

Foto de capa:

A engenheira química Ana Maria Frattini Fileti, primeira mulher a ser indicada para o cargo de diretora científica da Fapesp
A engenheira química Ana Maria Frattini Fileti, primeira mulher a ser indicada para a Diretoria Científica da Fapesp

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O carbono esquecido debaixo do Cerrado

Por décadas, o Cerrado brasileiro foi visto apenas como uma paisagem seca e retorcida
Por décadas, o Cerrado brasileiro foi visto apenas como uma paisagem seca e retorcida

O carbono esquecido debaixo do Cerrado

Veredas e campos úmidos do bioma armazenam até oito vezes mais carbono por hectare do que a Amazônia

Por décadas, o Cerrado brasileiro foi visto apenas como uma paisagem seca e retorcida
Por décadas, o Cerrado brasileiro foi visto apenas como uma paisagem seca e retorcida

Descobertas no Cerrado brasileiro estão prestes a redesenhar o mapa global de estoques de carbono e a forma como a ciência compreende a importância das savanas no equilíbrio do planeta. Por décadas, esse bioma foi visto apenas como uma paisagem seca e retorcida, ocupando o papel de ‘patinho feio’ ou ‘boi de piranha’ nas políticas de conservação brasileira, que privilegiavam quase exclusivamente a exuberância úmida da Amazônia e de outras florestas tropicais.

A ecóloga Larissa Verona: parte do solo é um grande estocador de carbono
A ecóloga Larissa Verona: descobertas no Cerrado podem redesenhar o mapa climático global
A ecóloga Larissa Verona: parte do solo é um grande estocador de carbono
A ecóloga Larissa Verona: descobertas no Cerrado podem redesenhar o mapa climático global

No entanto, uma pesquisa inédita liderada pela ecóloga Larissa Verona, mestre em Biologia Vegetal pela Unicamp, em conjunto com outros pesquisadores da universidade, do Instituto Max Planck (Alemanha), do Cary Institute e da Universidade Yale (EUA), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, mostra que as veredas e os campos úmidos do Cerrado são capazes de estocar até oito vezes mais carbono por hectare do que o carbono presente na biomassa aérea de uma floresta amazônica típica, transformando o que antes era visto como uma paisagem sazonalmente seca em um cofre climático gigantesco.

“Estamos mostrando que parte do solo é um grande estocador de carbono, e as turfeiras do Cerrado [áreas úmidas, onde restos de plantas se acumulam e se decompõem lentamente, formando um solo rico em matéria orgânica] têm esse potencial exacerbado. Conservar esse estoque evita a emissão do que estaria indo para a atmosfera se degradássemos esse solo”, explica Verona. Esse e outros achados estão em um artigo publicado na revista New Phytologist.

Por meio de aferições de isótopos radioativos de carbono feitas no solo em profundidades de até quatro metros, os pesquisadores concluíram que esses reservatórios contêm carbono acumulado há mais de 20 mil anos. Apesar de o longo período trazer a impressão de se tratar de estoques seguros de carbono, o estudo revela que são frágeis diante das alterações na dinâmica hídrica da região e do rebaixamento dos lençóis freáticos. “Se começarmos a drenar essas turfeiras e liberar esse carbono acumulado, lançaremos bombas de carbono na atmosfera. É uma quantidade de carbono orgânico até então desconhecida, em uma grande extensão e em um bioma improvável”, alerta o professor do Departamento de Biologia Vegetal da Unicamp Rafael Oliveira, coordenador do estudo e orientador de Verona.

O coordenador da pesquisa, Rafael Oliveira: falta de conservação pode levar a emissão de bombas de carbono na atmosfera
O coordenador da pesquisa, Rafael Oliveira: falta de conservação pode levar a emissão de bombas de carbono na atmosfera

Berço das águas sob ameaça

O coordenador da pesquisa, Rafael Oliveira: falta de conservação pode levar a emissão de bombas de carbono na atmosfera
O coordenador da pesquisa, Rafael Oliveira: falta de conservação pode levar a emissão de bombas de carbono na atmosfera

Com quase dois milhões de quilômetros quadrados, o Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil e representa 23,3% do território. Presente em 16 estados e no Distrito Federal, é conhecido como “berço das águas” por abrigar oito das 12 nascentes das principais bacias hidrográficas do Brasil, além de três grandes aquíferos. Dentro desse bioma, estão as veredas e os campos úmidos, onde se encontram as turfas e os solos ricos em carbono orgânico.

Veredas são zonas úmidas que aparecem no Cerrado como ilhas lineares encaixadas em vales rasos e nascentes de rios. Os campos úmidos são ecossistemas semelhantes, mas sem as palmeiras, compostas por extensões herbáceas encharcadas, dominadas por gramíneas e sedges, que também foram objeto de análise do estudo.

Até então, o consenso global científico ditava que grandes áreas de turfeiras existiam majoritariamente em regiões de frio extremo no Hemisfério Norte ou sob florestas tropicais de chuva constante, como na Bacia do Congo ou na Amazônia peruana. Sob essa perspectiva, o clima do Cerrado, com sua estação de seca severa de seis meses, não teria condições de sustentar a umidade necessária para formar turfas. Como consequência, grande parte desses estoques de carbono permaneceu fora das estimativas globais sobre o papel dos ecossistemas tropicais na regulação do clima.

O Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul presente em 16 estados brasileiros e no Distrito Federal
O Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul presente em 16 estados brasileiros e no Distrito Federal
O Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil presente em 16 estados e no Distrito Federal

Oliveira ressalta que o Brasil Central foi historicamente excluído de mapeamentos globais de áreas úmidas porque “temos dificuldade de entender parte da nossa própria natureza quando ela foge do viés que associa áreas úmidas a ambientes muito chuvosos e florestais”. O diferencial está no subsolo: “A água do Cerrado está principalmente no componente subterrâneo. Quando a zona freática aflora na superfície, determina a baixa decomposição da matéria orgânica e, consequentemente, possibilita a acumulação do carbono.”

As veredas operam como uma “caixa d’água invertida”: a água da chuva se infiltra profundamente no solo e recarrega os reservatórios subterrâneos que afloram na superfície, mantendo a terra permanentemente saturada. Esse encharcamento contínuo cria um escudo que bloqueia o oxigênio e impede que microrganismos decomponham a matéria orgânica, permitindo que o carbono retirado da atmosfera seja enterrado e preservado no solo por milênios.

“Quando você olha uma paisagem do Cerrado à distância, você vê a savana e os campos, mas a Vereda está encaixada ali e ocupa um espaço pequeno. Pensando na escala do ecossistema inteiro, essas pequenas áreas se tornam muito importantes”, resume Verona. Com base nos levantamentos feitos pela equipe, as turfeiras representam, ao todo, cerca de 8% da área do Cerrado – uma extensão de 16,7 milhões de hectares, maior do que o estado do Acre, que tem 15,2 milhões de hectares.

Exemplo de solo orgânico entre 100-150 cm de profundidade
Exemplo de solo orgânico entre 100-150 cm de profundidade

Do campo à tecnologia

Exemplo de solo orgânico entre 100-150 cm de profundidade
Exemplo de solo orgânico entre 100-150 cm de profundidade

O que diferenciou esse trabalho dos estudos anteriores foi a profundidade das coletas. Enquanto outras pesquisas analisaram camadas superficiais, de 20 centímetros a um metro de profundidade, os pesquisadores da Unicamp utilizaram sondas tubulares metálicas, conhecidas como Russian Peat Auger, para extrair amostras de solo de até 4 metros, o que foi determinante para os resultados encontrados. “Se não fôssemos para campo e fizéssemos as medidas, nunca saberíamos qual a profundidade desses solos, e isso muda todo o cenário”, disse Verona. Caso a coleta fosse restrita apenas à camada superficial, como em outros estudos, o carbono total seria subestimado em até 95%.

As amostras foram suficientes para confirmar o acúmulo de carbono nas turfas, mas era importante estimar o total para o bioma de quase 2 milhões de quilômetros quadrados. Para isso, parte da equipe treinou um algoritmo para encontrar veredas e campos úmidos nessa imensidão, cruzando dados topográficos e dos satélites Sentinel-1 e2. O modelo de aprendizado de máquina utilizado (Random Forest) foi validado com dados do Cadastro Ambiental Rural (CAR), registro público em que proprietários de terras precisam declarar a presença de veredas, classificadas no Código Florestal como Áreas de Preservação Permanente (APPs).

O mapeamento chegou ao total de cerca de 16,7 milhões de hectares. Em termos de carbono, isso representa uma média de aproximadamente 1,2 mil tonelada de carbono por hectare, armazenadas principalmente no solo. Para ter uma ideia da proporção, Verona conta que, se todas as veredas mapeadas acumularem a mesma quantidade média de carbono do que as áreas das amostras, as veredas do Cerrado, sozinhas, respondem por cerca de 20% de todo o carbono estocado pela biomassa da Amazônia. Contudo, são necessários mais estudos para que essa estimativa seja confirmada. Ainda segundo a pesquisadora, a ciência estima que as turfas de todo o mundo armazenam mais carbono do que toda a biomassa dos seres vivos – plantas e animais – combinada.

Amostra que confirma o acúmulo de carbono nas turfas
Amostra de turfa retirada na Chapada dos Veadeiros

Longevidade e sensibilidade

Amostra que confirma o acúmulo de carbono nas turfas
Amostra de turfa retirada na Chapada dos Veadeiros

A importância cronológica desse solo também foi posta à prova. Algumas das amostras foram enviadas ao Instituto Max Planck para análises biogeoquímicas, sob os cuidados de Susan Trumbore, uma das maiores especialistas mundiais em ciclos de carbono e datação por radiocarbono. As avaliações apontaram que o processo de formação das turfeiras estudadas começou há pelo menos 20 mil anos. “Trata-se de uma verdadeira cápsula do tempo geológico e climático”, escrevem os pesquisadores no artigo, notando que o sistema operou como um cofre silencioso, resistindo a milênios de variações climáticas.

Nem tudo é celebração, sobretudo diante de décadas de intervenções humanas no bioma. Através de análises de espectrometria de infravermelho (FT-IR), as veredas e campos úmidos do Cerrado foram comparados com outras turfeiras tropicais, e uma fragilidade alarmante foi descoberta.

Enquanto as turfeiras de florestas são ricas em lignina – composto fibroso e resistente, difícil de ser digerido pelas bactérias –, constatou-se que as do Cerrado produzem turfa a partir de gramíneas e ervas, material carregado de holocelulose, de fácil digestão para os microrganismos. Verona descreve as moléculas de holocelulose como um “algodão doce” para as bactérias do solo: uma fonte de energia fácil e instantânea.

Da esquerda para a direita, Paulo Bernardino, Larissa Verona, Guilherme Alencar, Natashi Pilon, Rafael Oliveira durante durante o trabalho de campo na Chapada dos Veadeiros:
Da esquerda para a direita, Paulo Bernardino, Larissa Verona, Guilherme Alencar, Natashi Pilon, Rafael Oliveira durante durante o trabalho de campo

O único motivo pelo qual esse estoque não foi consumido nos últimos milênios foi justamente o escudo de água que mantém os microrganismos dormentes por falta de oxigênio. Quando esse escudo baixa, mesmo que sazonalmente, as bactérias encontram o substrato ideal e o ciclo de decomposição se acelera.

As análises feitas a partir dos dados de fluxos de gases confirmam que essa “bomba-relógio” já dá sinais de ativação sazonal. Equipamentos instalados em campo mediram as emissões de dióxido de carbono (CO₂) e metano (CH₄) ao longo de um ano e revelaram que 70% das emissões anuais ocorrem durante a estação seca. Quando o lençol freático desce naturalmente por conta da estiagem, o oxigênio invade o solo, e as bactérias iniciam seu banquete frenético no alimento acumulado por 20 mil anos. O impacto é preocupante, especialmente em relação ao metano, que possui um potencial de aquecimento global muito superior ao CO₂.

A vulnerabilidade das veredas e dos campos úmidos é agravada por sua distribuição “dendrítica”, segundo Oliveira. Ao contrário de grandes extensões contínuas, como as turfeiras do Congo ou da Amazônia peruana, elas não se organizam em massas compactas, mas em áreas pequenas, fragmentadas e ramificadas que acompanham a rede de drenagem por todo o bioma. São finas tiras sinuosas que acompanham as nascentes e riachos de primeira ordem, espalhando-se pela paisagem como neurônios. Por serem longas e estreitas, estão em contato permanente com áreas de agricultura intensiva e são diretamente afetadas pelo uso da água ao seu redor.

À esquerda, pivôs de irrigação central retiram água do subsolo para manter enormes plantações de soja no Matopiba, na Bahia. (Marizilda Cruppe/Greenpeace); à direita Canal de irrigação que abastece sistema de pivô central para uma plantação de soja no Cerrado. (Victor Moriyama/Greenpeace Brasil)
À esquerda, pivôs de irrigação central retiram água do subsolo para manter enormes plantações de soja no Matopiba, na Bahia. (Marizilda Cruppe/Greenpeace); à direita Canal de irrigação que abastece sistema de pivô central para uma plantação de soja no Cerrado. (Victor Moriyama/Greenpeace Brasil)
À esquerda, pivôs de irrigação central retiram água do subsolo para manter enormes plantações de soja no Matopiba, na Bahia. (Marizilda Cruppe/Greenpeace); à direita Canal de irrigação que abastece sistema de pivô central para uma plantação de soja no Cerrado. (Victor Moriyama/Greenpeace Brasil)

Legislação e expansão agrícola

Apesar de sua importância e da existência de leis para proteger essas áreas, as veredas e campos úmidos enfrentam ameaças crescentes devido a mudanças no uso da terra, à drenagem de áreas úmidas, à expansão agrícola e à intensificação das secas associadas às mudanças climáticas. Esses distúrbios podem fazer com que os ecossistemas passem de importantes sumidouros de carbono a fontes de emissões, liberando para a atmosfera estoques acumulados ao longo de milhares de anos.

Quando propriedades vizinhas a essas áreas instalam pivôs centrais de irrigação que sugam grandes volumes dos lençóis freáticos, o nível da água de toda a bacia é rebaixado – explica a ecóloga –, fazendo com que as veredas e campos úmidos sequem debaixo do solo.

As descobertas abrem uma nova fronteira para a conservação. Para os pesquisadores, elas evidenciam os limites de uma visão historicamente “florestocêntrica”, que priorizou a Amazônia em detrimento das savanas e áreas úmidas abertas – e que resultou em décadas de negligência com o Cerrado, tanto científica quanto política. Proteger a vegetação visível das veredas sem proteger o regime hídrico da bacia ao redor é, segundo os estudiosos, uma proteção incompleta. “A gestão do território não pode ser apenas sobre plantas. A gestão da água e a gestão do carbono são, neste bioma, a mesmíssima coisa”, defende Oliveira.

A principal questão suscitada pelo estudo, que ainda demanda respostas, é também a mais urgente para os pesquisadores: ainda não se sabe quanto desse estoque já foi perdido. “O Cerrado está tão alterado que já percebemos no cotidiano as secas mais intensas, os rios com menos água, e não sabemos o quanto já perdemos desses ecossistemas. As evidências indicam que algo já foi perdido, mas a dimensão dessa perda ainda é uma pergunta sem resposta”, avalia o professor.

Confira artigo completo na revista New Phytologist.

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Pesquisa transforma o que antes era visto como uma paisagem sazonalmente seca em um cofre climático gigantesco
Pesquisa transforma o que antes era visto como uma paisagem sazonalmente seca em um cofre climático gigantesco (Foto: André Dib)

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‘A fome não é um problema de produção, mas de acesso’, aponta José Graziano, idealizador do Fome Zero

Safras recordes não são, necessariamente, a solução para acabar com a fome ou oferecer uma dieta saudável no prato da população em geral. No Brasil, a mais recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) aponta que 6,4 milhões de pessoas ainda enfrentam insegurança alimentar grave diariamente, mesmo com 292,5 milhões de toneladas de grãos colhidas em 2024. O economista e filósofo indiano Amartya Sen, ganhador do Nobel de Ciências Econômicas em 1998, já alertava sobre a questão. Essa incômoda marca foi um dos destaques da palestra do engenheiro agrônomo, doutor em Economia e professor emérito da Unicamp, José Graziano da Silva, intitulada “Combate à fome e desperdício de alimentos”. Ao lado de outros especialistas da área, ele participou do “1º Fórum de Engenharia de Alimentos da Unicamp”, realizado pela Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA), nesta terça-feira (10).

O evento, direcionado para a comunidade acadêmica e para integrantes de instituições públicas, serviu para debater temas como a fome e o desperdício. As mudanças climáticas e seus impactos na cadeia produtiva, o papel da alimentação na promoção da saúde e a importância do processamento de alimentos no desenvolvimento da humanidade também estiveram em pauta.

Da esquerda para a direita, o ex-reitor Antonio Meirelles, a pró-reitora de Pós-Graduação, Cláudia Morelli e o diretor da FEA, Anderson de Souza Sant'Ana: Primeira edição do Fórum tratou do combate à fome e desperdício de alimentos
Da esquerda para a direita, o ex-reitor Antonio Meirelles, a pró-reitora de Pós-Graduação, Cláudia Morelli e o diretor da FEA, Anderson de Souza Sant’Ana: Primeira edição do Fórum tratou do combate à fome e desperdício de alimentos

Graziano, que foi um dos idealizadores do Programa Fome Zero – implantado em 2003 como uma iniciativa focada em agricultura familiar, educação nutricional e transferência de renda como forma de combater um problema crônico brasileiro –, afirmou que não basta apenas o sucesso no campo. De acordo com o pesquisador, é preciso investir em uma diversidade maior de produtos que realmente tragam nutrição saudável no dia a dia e que as pessoas possam comprar. “No Brasil, temos recorde atrás de recorde e continuamos com números assustadores da fome. Isso não é um problema de produção, mas de acesso. No caso da dieta saudável, temos um cenário ainda pior. Uma região que é o grande celeiro do mundo, como a América Latina, deveria ter um cardápio barato, mas não tem. Paradoxalmente, os latino-americanos têm uma das dietas saudáveis – que incluem frutas, verduras e legumes – com um dos custos mais altos do mundo.”

A transformação desse cenário – continuou Graziano – passa por uma nova mentalidade, e o meio acadêmico tem função estratégica nisso. “A universidade tem esse papel social, não apenas de formar pessoas que vão trabalhar nesses temas, mas também de aportar soluções. Muitas das políticas públicas desse país surgiram de iniciativas gestadas aqui na Unicamp, começando até mesmo pelo Fome Zero”, salientou. “Cada vez mais, precisamos envolver e complementar a formação técnica com essa responsabilidade social. Um seminário como esse da FEA vai nessa linha, já que o propósito é exatamente ajudar a chamar a atenção de alunos e professores, que transmitem esses conhecimentos”, acrescentou.

O evento foi direcionado para a comunidade acadêmica e para integrantes de instituições públicas
O evento foi direcionado para a comunidade acadêmica e para integrantes de instituições públicas

Desafios nacionais e mundiais

A professora Cláudia Vianna Maurer Morelli, pró-reitora de Pós-graduação, representante do reitor Paulo Cesar Montagner no evento, também destacou o papel da Universidade como difusora de novas formas de atuar perante os desafios nacionais e mundiais. “Atualmente, temas como fome, segurança alimentar, saúde e qualidade de vida são essenciais. E a Unicamp é uma das universidades que mais fomentam políticas públicas no país.”

Já o ex-reitor da Unicamp e docente da FEA, Antonio José de Almeida Meirelles, abordou os “Marcos no processamento de alimentos no desenvolvimento da humanidade”. Segundo Meirelles, num país que possui uma agricultura forte e produz muitos alimentos – tanto na agroindústria como na agricultura familiar –, é preciso pensar em alimentos que, cada vez mais, dialoguem com a saúde. “Isso coloca necessidades e desafios para a Engenharia de Alimentos, para o processamento e a industrialização crescentes. Temos uma variedade grande de produtos para pessoas que têm algum tipo de restrição, por exemplo, e essa é uma preocupação que precisa estar cada vez mais presente, até pelo envelhecimento da população. Para nosso país, é uma grande oportunidade.”

Temas urgentes e estruturais

Anderson de Souza Sant’Ana, diretor da FEA, ressaltou que é importante construir um espaço dedicado a discutir temas que são, ao mesmo tempo, urgentes e estruturais para o Brasil. “Nossa pauta vai muito além da Engenharia, da Ciência e da Tecnologia de Alimentos. Essas áreas são importantes para a soberania, a saúde e o futuro da nossa sociedade.”

Sant’Ana lembrou ainda que, historicamente, a Engenharia de Alimentos sempre foi vista sob uma ótica estritamente industrial. No entanto, os desafios contemporâneos exigem um outro papel de protagonismo. “Devido ao seu caráter multidisciplinar, a Engenharia de Alimentos deve se apropriar desses problemas reais do país. É fundamental que esses temas discutidos no fórum se tornem pontos centrais nos currículos de graduação e pós-graduação. Precisamos formar profissionais que não apenas dominem o processamento, mas que também compreendam o alimento como um vetor de saúde pública e desenvolvimento social.”

Professor UFABC Arilson da Silva Favareto: desigualdades no mundo
Professor UFABC Arilson da Silva Favareto: desigualdades no mundo

Mudanças climáticas

Também como palestrante, o professor da UFABC Arilson da Silva Favareto abordou o tema “Como as mudanças climáticas poderão impactar na cadeia produtiva de alimentos”. De acordo com Favareto, aprimorar a relação entre a forma de produzir e distribuir alimentos e a conservação ambiental é um dos grandes desafios mundiais. “É um assunto tão importante quanto o combate ao aumento das desigualdades no mundo, a ameaça à paz e a defesa da democracia. Temas incontornáveis que são enfrentados pela nossa geração e serão encarados pelas próximas também”, apontou.

O fórum contou ainda com a presença do professor Licio Augusto Velloso, que tratou sobre o “Papel dos alimentos e da alimentação na promoção à saúde”, reforçando a mentalidade de aliar produção, acesso, responsabilidade social e preocupação com o bem-estar da população. Ao final, os presentes debateram os assuntos abordados.

Aula Magna na Feagri

A Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) realiza, no próximo dia 18, a partir das 9h30, a 1ª Aula Magna de seu programa de pós-graduação. Na ocasião, o professor Graziano falará sobre “O que ainda falta no Brasil depois de sair do Mapa da Fome”. 

Foto de capa:

José Graziano afirmou que não basta apenas o sucesso no campo é preciso investir em uma diversidade maior de produtos
José Graziano afirmou que não basta apenas o sucesso no campo é preciso investir em uma diversidade maior de produtos

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Nova cientista residente, Sabrina Fernandes traz para o debate as várias crises dos nossos tempos

A economista e socióloga goiana Sabrina Fernandes é a nova cientista residente do Programa Cesar Lattes do Instituto de Estudos Avançados (IdEA) da Unicamp. Na residência, entre 16 de março e 16 de maio, sua proposta é tocar corações e mentes a respeito das múltiplas crises do mundo contemporâneo, a chamada “policrise planetária”, tema que permeia sua estadia na Unicamp.

Com mestrado em Economia Política e doutorado em Sociologia pela Universidade Carleton, no Canadá, Fernandes é atualmente chefe de pesquisa do Instituto Alameda e assessora-sênior de pesquisa do centro Technology & Industrialisation for Development da Universidaede de Oxford, no Reino Unido. Na residência, que inclui palestras, bate-papos e oficinas abertas ao público, ela pretende aprofundar questões que envolvem desordens e catástrofes, abordar conceitos como ecocídio e ecoceno, e trocar experiências sobre ativismo digital e o embate entre a linguagem do conhecimento e a linguagem do engajamento

Fernandes sustenta que, apesar do pessimismo que assola os pensamentos, ainda é possível manter um olhar apaixonado para o futuro. “É esse olhar apaixonado que vai dar energia para a gente construir alternativas”, afirma.

O Jornal da Unicamp conversou com a nova cientista residente sobre suas ideias, projetos e a programação que preparou.

A economista e socióloga Sabrina Fernandes: "É esse olhar apaixonado que vai dar energia para a gente construir alternativas"
A economista e socióloga Sabrina Fernandes: “É esse olhar apaixonado que vai dar energia para a gente construir alternativas”

Jornal da Unicamp (JU) – Como recebeu o convite para ser a nova cientista residente do IdEA?

Sabrina Fernandes – Fiquei muito animada porque é um programa que realmente permite interação e é voltado para a valorização da transdisciplinaridade. Normalmente, na universidade, ainda somos muito voltados a pensar dentro da nossa própria disciplina. O economista é economista, o sociólogo é sociólogo, o geólogo é geólogo e o matemático é matemático. O maior desafio de todos é construir uma linguagem comum. Como eu tenho formação em economia e sociologia, tive a oportunidade de ver formas diferentes de pensar quando estou em cada um desses lugares e tentar encontrar essa linguagem comum. Sinto que essa residência científica vai ter um efeito pessoal em mim, não só como cientista. Acho que consegui montar um programa bastante diverso, que toca em vários temas, todos relacionados à minha pesquisa.

JU – Do que trata a sua pesquisa?

Sabrina Fernandes –- Há alguns anos venho tentando compreender como as propostas de transição — muitas vezes tratadas como transição ecológica, transição climática ou transição justa — precisam ser melhor integradas para que possamos lidar com várias crises ao mesmo tempo. Em vez de falar apenas em crises múltiplas ou crises simultâneas em diferentes áreas, entendemos que essas crises interagem entre si e acabam piorando umas às outras. Uma solução parcial ou equivocada para um problema pode acabar agravando outro. Isso expande o nosso entendimento do que é uma solução e faz com que a gente tenha que avaliar também os riscos e perigos associados aos projetos alternativos que são apresentados.

JU – Sua palestra de abertura leva o título de “O desafio da policrise planetária e as visões de túnel que confundem caminhos”. O que vai apresentar?

Sabrina Fernandes – Quando falamos de policrise planetária, estamos olhando para além da nossa geografia local e entendendo que existe um ecossistema e um metabolismo da natureza que são globais. Não tem como escapar disso. Também precisamos rever como pensamos cooperação, solidariedade e responsabilidade, para que não seja apenas com interesses locais ou mais imediatos. As responsabilidades precisam estar atreladas também aos outros povos e países, para que possamos pensar caminhos de cooperação baseados em interesses comuns. Muitas vezes esses interesses são esvaziados ou ignorados porque a lógica global predominante é uma lógica de competição.

JU – Diante dessa policrise, como está o seu olhar para o futuro?

Sabrina Fernandes – Acho que vale a pena olhar para o futuro com um olhar mais carinhoso e apaixonado, porque infelizmente a nossa realidade anda um pouco contrária a isso. A gente está com um olhar muito pessimista para o futuro — e eu concordo, porque eu mesma sou muito pessimista — mas isso não exclui ter um olhar apaixonado. É esse olhar apaixonado que vai dar energia para a gente construir alternativas.

JU – Você incluiu o tema do ecoceno em um dos bate-papos. Pode explicar o que vai ser abordado?

Sabrina Fernandes – O ecoceno é uma lente sobre a existência futura da sociedade humana que entende que não basta salvar o planeta — o planeta continuará existindo independentemente de nós. O que precisamos salvar é o planeta que permite a nossa vida. É interessante pensar no Antropoceno como um momento em que, por mais que seja extremamente perigoso e delicado, nós, como espécie humana, temos o privilégio de poder ver o que está acontecendo e tentar desenvolver ferramentas para lidar com isso. Infelizmente, esse privilégio muitas vezes não está sendo aproveitado por causa das estruturas de poder que acabam piorando a situação. O programa que montei começa pelo problema, pelo desafio, e depois tenta costurar possíveis alternativas.

JU – Quais seriam essas alternativas?

Sabrina Fernandes – Na imaginação popular, muitas vezes influenciada pela ficção científica e pelas distopias, existe a ideia de um apocalipse em que sobra um pequeno grupo de heróis para reconstruir a humanidade. Isso mostra como temos dificuldade de imaginar utopias. Há valor nisso, no sentido de resistências, mas da mesma forma como a gente se coloca facilmente em narrativas distópicas, o objetivo também deveria ser pensar em como evitar o fim do mundo e como construir uma sociedade melhor a partir disso. Esse deslocamento de perspectiva também é um dos objetivos das discussões que vamos fazer na Unicamp nestes próximos dois meses.

Páginas do livro Sintomas Mórbidos de autoria de Sabrina Fernandes
Páginas do primeiro livro da autora: Sintomas Mórbidos

JU – Em 2019, você lançou o livro Sintomas Mórbidos, e, um ano depois, Se quiser mudar o mundo. Do que tratam esses livros? E sobre o seu terceiro livro, que você acaba de finalizar, qual é o tema?

Sabrina Fernandes – O meu primeiro livro foi escrito a partir de uma pesquisa de campo que conduzi durante o doutorado, e também um pouco depois dele, que analisa a organização política no Brasil desde junho de 2013, a fragmentação e a despolitização, além das contradições entre campos mobilizados e desmobilizados. O segundo livro é um trabalho mais introdutório, voltado para o letramento político da população. Ele explica, por exemplo, o que é um sindicato, o que é um movimento social, o que é o capitalismo e o que são as mudanças climáticas. A ideia é mostrar que tudo é político. Nem tudo é explicitamente político o tempo todo, mas nossas ações e decisões acontecem dentro de um sistema político. Agora estou finalizando um novo livro, que será publicado pela editora Planeta e que se relaciona com a temática da policrise planetária ao trazer uma perspectiva do Sul Global, olhando para a América Latina, para o Brasil e para países periféricos.

JU – Qual será sua abordagem a respeito dos conflitos de soberania que assolam o mundo?

Sabrina Fernandes – Uma das atividades que vou desenvolver na Unicamp se chama “Pesquisa estratégica entre a desordem e a catástrofe”. Será uma atividade híbrida no IdEA. Um dos convidados é o Juliano Fiori, diretor do Instituto Alameda, onde trabalho, e também teremos a participação da pesquisadora Vanessa Oliveira. Queremos criar uma ponte entre a Unicamp e o instituto, para que a troca não fique restrita apenas à minha presença. Nossa linha de pesquisa trata de conflitos de soberania, incluindo temas como soberania digital, militarismo, novas invasões e o enfraquecimento do multilateralismo e do direito internacional. É um campo de estudo que está mudando muito rapidamente, com novos dados e acontecimentos surgindo o tempo todo. Essa atividade será uma oportunidade para tentar construir coletivamente um entendimento sobre essas transformações e também discutir o papel do Brasil nesse cenário, incluindo, por meio do meu trabalho, a perspectiva da “soberania ecológica”.

JU – Você manteve um canal de sucesso na internet, o Tese Onze, cujo nome é uma referência à obra Teses sobre Feuerbach, escrita por Karl Marx em 1845, e passou a ser identificada como influencer, mas decidiu se retirar do mundo online. O que a levou a essa decisão?

Sabrina Fernandes – Eu decidi me aposentar desse trabalho em 2023. Eu nunca gostei muito do rótulo de “influencer”, porque não acho que era exatamente isso que eu fazia. Influenciadores normalmente trabalham a partir da própria vida pessoal, e esse nunca foi o meu caso. O que eu fazia era divulgação científica e divulgação política. O Tese Onze era um projeto voltado a explicar conceitos políticos e debates contemporâneos para um público mais amplo, com o objetivo de transformação da sociedade, e trabalhei nele enquanto fazia dois pós-doutorados e escrevia meus dois livros. Então senti que estava pesando muito tentar conciliar tudo isso. O papel que eu queria cumprir era ensinar que é possível fazer um debate na internet que envolva a política de forma respeitosa e de forma responsável. Isso foi possibilitado justamente pelo vínculo com a pesquisa. Foi gostoso enquanto durou, mas eu nunca pretendi fazer isso para o resto da vida, porque o meu trabalho é como pensadora.

JU – Uma das oficinas na Unicamp vai tratar justamente sobre linguagem, conhecimento e engajamento. O que pretende apresentar?

Sabrina Fernandes – No IEL [Instituto de Estudos da Linguagem] eu vou fazer uma oficina de divulgação científica com a ideia de mostrar que nós temos o potencial de ocupar bem esse espaço, mas ele não pode ser ocupado simplesmente visando à maximização do engajamento a todo custo. Se isso acontece, a gente acaba se assemelhando àqueles que estão vulgarizando o conhecimento, divulgando fake news e promovendo desinformação. Então, se o seu objetivo — e você tem que saber qual é o seu objetivo — é realmente informar e educar, você precisa de projeto, estratégia e metodologia para fazer isso de forma adequada. As métricas serão outras, não mais a quantidade de likes ou  visualizações de vídeos, mas a criação de comunidades ou o quanto aquele debate foi replicado organicamente pelas próprias pessoas. Precisamos ter nossos objetivos muito claros.

JU – Além de sua produção autoral, você é responsável por reedições das obras de Karl Marx e Friedrich Engels no Brasil, incluindo o Manifesto Comunista, O 18 de Brumário de Luís Bonaparte e um box especial com os três volumes de O Capital, com introdução, revisão técnica e notas originais. Como foi esse trabalho?

Sabrina Fernandes – Foi um processo muito interessante. O grupo editorial Record é detentor de alguns direitos de tradução dessas obras no Brasil. Minha editora me procurou porque existe um interesse renovado por essas obras, mas era necessário contextualizá-las. Não basta simplesmente colocar um livro do século 19 na mesa do leitor atual. É preciso ajudar a interpretar o texto a partir dos desafios do século 21, como as mudanças climáticas, por exemplo. Colaborei na reedição do box com os volumes 1, 2 e 3 de O Capital. Dentro da ecologia marxista e da economia ecológica, que são campos em que trabalho, o volume 3 tem uma importância muito grande, porque traz uma crítica ecológica ao sistema produtivo. Foi muito especial participar desse processo. Eu passei um período na Alemanha e na Áustria, o que também me ajudou na revisão técnica das traduções. Para alguém que leu Marx pela primeira vez aos 18 ou 19 anos, ter um livro de Marx e Engels com seu nome na capa é algo muito simbólico.

Programação

17 de março, às 14h | Instituto de Economia (IE)

Palestra “O desafio da policrise planetária e as visões de túnel que confundem caminhos (Inscrições)

1º de abril, às 14h | Instituto de Estudos Avançados (IdEA)

Oficina sobre divulgação científica (Inscrições)

9 de abril, às 14h | Instituto de Estudos da Linguagem (IEL)

Roda de conversa: “Da linguagem do conhecimento à linguagem do engajamento: refletindo sobre a comunicação nas plataformas digitais” (Inscrições)

10 de abril, às 14h | Instituto de Estudos Avançados (IdEA)

Bate-papo “Pesquisa estratégica entre a desordem e a catástrofe” (Inscrições)

11 de maio, às 14h | Instituto de Estudos da Linguagem (IEL)

Bate-papo “Ecocídio e genocídio na periferia do mundo” (Inscrições)

14 de maio, às 14h | Instituto de Estudos da Linguagem (IEL)

Palestra de encerramento “Ecoceno: a transição como um desvio ao futuro” (Inscrições)

Foto de capa:

Residência acontece entre 16 de março e 16 de maio e trará como tema central a chamada “policrise planetária”
Residência acontece entre 16 de março e 16 de maio e trará como tema central a chamada “policrise planetária”

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Mito da democracia racial é tema de aula magna com Lilia Schwarcz

A historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz ministrou nesta segunda-feira (9) uma aula magna sobre o mito da democracia racial e o papel das imagens na história brasileira, durante evento que celebrou os 50 anos do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL). Em sua apresentação, ela propôs uma reflexão sobre a relação entre a linguagem escrita e a linguagem visual na construção de narrativas sociais.

Autora de mais de 30 livros nas áreas de antropologia, história e história da arte, a professora-sênior do Departamento em Antropologia Social na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP) é membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 2024 e atualmente leciona como professora visitante na Universidade Princeton, nos Estados Unidos.

A historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz ministrou aula magna do IEL, nesta terça-feira, dia 10, no Centro de Convenções
A historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz ministrou aula magna do IEL, nesta segunda-feira, dia 9, no Centro de Convenções

Diante do auditório lotado do Centro de Convenções, Schwarcz destacou, no início da aula, sua relação com a universidade pública e com a própria Unicamp. “Toda a minha formação se deu na escola pública e tenho plena convicção da importância da universidade pública na produção republicana e cidadã de um país tão desigual como o Brasil”, afirmou. Ela também lembrou sua trajetória na Universidade: “Fui aluna do mestrado na Antropologia e depois dei aula por vários anos. A Unicamp sempre teve um papel formativo muito importante na minha vida.”

Durante sua apresentação, Schwarcz ressaltou que, em uma sociedade que vive da imagem, é preciso entender que documentos visuais não são apenas ilustrações. “Eles produzem valores, significados e também desigualdades. A palavra ‘imagem’ tem a mesma raiz de ‘magia’. As imagens produzem imaginação e naturalizam percepções”, explicou.

A professora Adriana Nunes Ferreira, do Instituto de Economia (IE), que representou o reitor da Unicamp, Paulo Cesar Montagner, destacou o papel simbólico da aula magna e a importância de discutir o mito da democracia racial no contexto das transformações recentes nas universidades brasileiras. “Sabemos que a ideia de democracia racial muitas vezes foi celebrada como marca da singularidade brasileira, mas também operou como um mecanismo de silenciamento”, disse.

Da esquerda para a direita, as professoras Adriana Nunes (IE) e Lúcia Granja (IEL) e o diretor do IEL, Petrilson Pinheiro da Silva
Da esquerda para a direita, as professoras Adriana Nunes (IE) e Lúcia Granja (IEL) e o diretor do IEL, Petrilson Pinheiro da Silva

Petrilson Pinheiro da Silva, diretor do IEL, ressaltou a ligação histórica de Schwarcz com a Universidade. “Parte dessa história, tanto da Unicamp quanto do IEL, passa pela professora Lilia Schwarcz”, afirmou. Lúcia Granja, coordenadora de graduação do curso de Teoria Literária do IEL, também destacou a trajetória da convidada. “É uma pessoa que abriu trilhas, ampliou debates e consolidou uma presença feminina forte e incontornável no pensamento brasileiro”, definiu.

Construção de sentidos

Schwarcz citou reflexões de pensadores como Ludwig Wittgenstein, Roland Barthes e Michel Foucault para discutir como texto e imagem podem se complementar ou até se contradizer na construção de sentidos. Segundo ela, compreender essa relação é essencial para analisar a formação de narrativas sobre a história do Brasil.

Um dos pontos centrais da apresentação foi a discussão sobre o chamado mito da democracia racial, conceito associado às interpretações da sociedade brasileira formuladas ao longo do século 20. Para Schwarcz, o termo “mito” não deve ser entendido apenas como uma falsidade. “Mito não é mentira. Mito é contradição”, afirmou. “Ele nasce, cresce e se desenvolve a partir de tensões históricas.”

Público lotou o auditório do Centro de Convenções para a aula magna "Imagens da branquitude: o mito da democracia racial como linguagem"
Público lotou o auditório do Centro de Convenções para a aula magna “Imagens da branquitude: o mito da democracia racial como linguagem”

A professora destacou ainda que a construção dessa narrativa está ligada a estruturas de poder e a posições sociais específicas. Ao longo da aula, apresentou diferentes obras visuais para discutir como as representações artísticas contribuíram para consolidar determinadas interpretações sobre o país. “Quando uma imagem aparece uma vez, pode ser coincidência. Quando aparece repetidas vezes, percebemos que existe um projeto narrativo”, destacou.

Entre os exemplos analisados estava a gravura “América”, do artista flamengo Jan van der Straet, de 1589. A obra representa o encontro simbólico entre o colonizador europeu e o continente americano. Na gravura, o continente é representado como uma mulher nua, deitada em uma rede em meio a uma paisagem paradisíaca. À esquerda está o colonizador europeu, vestido e acompanhado de instrumentos científicos, bandeiras e uma caravela — símbolos associados à ideia de civilização. A análise das imagens levou a pesquisadora a discutir como, no século 19, essas narrativas passaram a integrar projetos de construção da identidade nacional.

Outro exemplo citado foi o do naturalista alemão Carl Friedrich von Martius, que participou de um concurso promovido pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro em 1844 sobre como escrever a história do Brasil. No ensaio vencedor, Martius propôs a metáfora dos “três rios”, segundo a qual a formação do país resultaria da contribuição de três matrizes: portuguesa, indígena e africana. Para Schwarcz, embora o texto seja frequentemente interpretado como uma valorização da mistura, ele também revela a hierarquia racial presente na época. “A mestiçagem não significava igualdade. Nesse modelo, a mistura era vista como caminho para o branqueamento”, afirmou.

À esquerda a reprodução da obra A Pátria, do artista Pedro Bruno (1919); à direita Cena da Família, de Adolfo Augusto Pinto (1891)
À esquerda a reprodução da obra A Pátria, do artista Pedro Bruno (1919); à direita Cena da Família de Adolfo Augusto Pinto (1891)

Segundo a historiadora, essa ideia aparece de forma explícita na pintura “A redenção de Cam” (1895), do artista espanhol Modesto Brocos. A obra foi utilizada pelo diretor do Museu Nacional, João Batista de Lacerda, durante o Primeiro Congresso Universal das Raças, realizado em Londres em 1911. “Na ocasião, Lacerda defendia a tese de que a população negra desapareceria no Brasil em poucas gerações por meio da mestiçagem. Na pintura, aparecem três gerações de uma família: uma avó negra, uma mãe mestiça e uma criança branca de olhos azuis”, explica. Para Schwarcz, a imagem sintetiza visualmente o ideal de branqueamento que marcou o pensamento racial brasileiro no final do século 19 e início do século 20.

Schwarcz também analisou a obra “Cena da Família de Adolfo Augusto Pinto”, de 1891, do pintor Almeida Júnior, destacando como elementos da composição revelam hierarquias sociais e de gênero presentes na sociedade brasileira do período. Para a pesquisadora, a repetição desses elementos em diferentes representações visuais indica a existência de narrativas estruturadas sobre identidade, civilização e poder.

Ao comentar a pintura “A Pátria”, de 1919, do artista Pedro Bruno, a professora destacou como a obra expressa uma visão alegórica da República brasileira e da construção da identidade nacional. Produzida no contexto das comemorações republicanas de 1888, a tela apresenta uma cena que, segundo ela, “não poderia ter um título mais evidente”. Na pintura, mulheres e crianças aparecem costurando a bandeira do Brasil e posicionando as estrelas que representam as antigas províncias, hoje estados da República. Os homens, por sua vez, não participam diretamente da cena: estão representados apenas em retratos pendurados na parede, entre eles figuras históricas como Deodoro da Fonseca e Tiradentes.

Na análise, Schwarcz chamou a atenção para a composição da imagem. “As mulheres retratadas são todas brancas e de aparência europeia. A criança que ocupa o centro da tela é descrita como muito branca, loira e de olhos azuis — características que, segundo a interpretação apresentada, reforçam uma representação idealizada do futuro da nação brasileira. Essa imagem vai se afirmar cada vez mais: a projeção do brasileiro como criança branca e loira”, explicou. No chão, a bandeira em elaboração sugere a ideia de que a própria nação estaria sendo “costurada” naquele momento. “Esse é o Brasil que costura sua nacionalidade”, afirmou.

À esquerda, pintura “A redenção de Cam”, do artista espanhol Modesto Brocos (1895) e à direita campanha publicitária de 2019, no qual uma estudante negra, após formada, segura diploma com mão de pessoa branca
À esquerda, pintura “A redenção de Cam”, do artista espanhol Modesto Brocos (1895) e à direita campanha publicitária de 2019, no qual uma estudante negra, após formada, segura diploma com mão de pessoa branca

Durante a aula, Schwarcz exibiu um trecho do filme “Macunaíma”, de Joaquim Pedro de Andrade, de 1969, adaptado na obra de Mário de Andrade. Na narrativa, três irmãos se banham em uma água encantada e, após o mergulho, emergem com cores de pele diferentes — um branco de olhos azuis, outro de tom bronzeado e o terceiro permanecendo negro. Para a pesquisadora, essa passagem “dialoga com representações recorrentes na cultura brasileira que associam mistura racial à hierarquia e ao branqueamento”.

A pesquisadora também mostrou exemplos de campanhas publicitárias, especialmente em anúncios de sabonetes, que prometiam “branquear” a pele. “As mais famosas eu não trouxe porque elas são muito perversas”, afirmou. Também exibiu uma propaganda de 2019 do governo Bolsonaro no qual uma estudante negra, após formada, segura seu diploma com a mão de uma pessoa branca. “É um detalhe apavorante.”

“Não existe pensamento sem palavras, e eu diria que também não existe pensamento sem imagens”, concluiu, citando a educadora Ana Mae Barbosa.

Foto de capa:

Ao longo da aula, apresentou diferentes obras visuais para discutir como as representações artísticas contribuíram para consolidar determinadas interpretações sobre o país
Ao longo da aula, apresentou diferentes obras visuais para discutir como as representações artísticas contribuíram para consolidar determinadas interpretações sobre o país

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Elogio do mestiço

Quando tinha uns seis anos, pedi à minha mãe que me desse um banho de sabão em pó. Havia na época um produto que prometia “o branco total radiante”. A frase me sugeria uma primeira lição de dedução lógica. Durante anos, nas refeições, lembrávamos da cena e ríamos.

A experiência de ser mestiço nasceu do desejo de não sê-lo. Meus avós maternos (Pedrina e Pedro Polidoro) eram filhos de fazendeiros brancos. Do lado paterno, Benedito Fermino vivia da pesca. Vó Jasmira dizia-nos que, em Jaborandi, a polícia encarregava-o da captura de alguns bandidos mais perigosos. Daí nasceu a lenda de sua valentia e força física, que se transformaria em legado para seus filhos. De estatura delicada e nascida em Caculé, Jasmira, ou Vó Mila, como era chamada pelos netos, tinha os cabelos lisos e finos.

Meu pai mudou-se para Lençóis Paulista na década de 1960. Seu primeiro emprego foi abrir a golpes de picareta as valas que serviriam para o saneamento básico da cidade. Anos mais tarde, trabalhou na construção das primeiras siderúrgicas do interior paulista. A chaminé, erguida por ele e outros operários, sobrevive em meio às ruínas da antiga fábrica.

Batizada de Metalúrgica Irerê, depois Sidelpa (Siderúrgica de Lençóis Paulista), a sirene dessa fábrica dividia com o sino da igreja matriz o controle do tempo e a cadência de nossos passos pela cidade. O que restou de sua estrutura serviu de alicerce para o teatro municipal. Recentemente, procurei em suas paredes alguma menção aos operários.

Cresci em um meio familiar de mestiços. Minha avó materna, que fora educada para ser sinhazinha, mas acabara empregada doméstica, tentava nos ensinar o que significava ser digno. Meu avô paterno, que conheci muito pouco, morreu arrastando um carrinho de construção civil. Nesse mundo, habitado também por brancos e pretos, o bem e o mal não cabiam na dicotomia “opressor e oprimido”. Todos eram sócios nas frustrações e esperanças mais comezinhas.

Certa vez, caminhava com Pedrina por uma rua estreita. Ela vestia calça branca, blusa de listras e lenço. Adiante, um grupo de senhoras conversava. À medida que nos aproximávamos, percebi que elas riam. Passamos por elas, mas, bruscamente, minha avó virou e perguntou: “Por acaso estou cagada?”

Fui seguido algumas vezes por seguranças em lojas de departamentos. No primeiro emprego, aos 14 anos, como entregador de jornais, apelidaram-me de baiano, termo para se referir a mulatos. Em meu casamento, houve ausências significativas. Soube que isso se deveu ao fato de ser preto e pobre. Houve tristeza e raiva, depois, compaixão por esses ausentes.

Ao escrever este texto, perguntava-me se não usava as palavras como um dia imaginei ser possível com o sabão em pó. Nossa subjetividade e o sentido de uma história não cabem nos espartilhos de uma militância bem-intencionada, menos ainda se fortalece por meio da indignação moral face à violência diária. Coube à leitura criar os espaços de liberdade, quando, por exemplo, encontrei no título do romance Terras do Sem-fim, de Jorge Amado, a desmedida e a beleza da criação artística.

Em A filosofia da mestiçagem, Michel Serres provoca: “de duas pessoas que se contradizem espera-se que uma esteja errada e outra certa: não há terceira opção possível; diz-se que o Mestiço está excluído; ou melhor: não existe um meio. De verdade?”  Sob a égide de Exu, orixá mensageiro, e Hermes, deus das passagens, todo mestiço é fronteira.

Marcos Lopes é professor de Literatura Geral e Comparada na Unicamp

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Sabão em pó, divulkgação pixabay

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Pesquisa transforma resíduo da indústria da batata em farinha sustentável

O que a água utilizada no processamento da batata tem a ver com a poluição de rios? A resposta está no amido liberado pelo tubérculo ao entrar em contato com o líquido durante as etapas industriais.

Sendo um dos alimentos mais consumidos no mundo, a batata possui uma produção em larga escala que exige volumes massivos de água, gerando um resíduo que pode causar danos ao meio ambiente.

Segundo Eric Keven Silva, professor e pesquisador da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp, o descarte inadequado desse efluente compromete a qualidade dos corpos d’água e dos lençóis freáticos.

“Esse material possui uma alta carga orgânica. Quando descartado sem tratamento, ele contribui para a redução do oxigênio na água, causando o desequilíbrio de ecossistemas aquáticos”, explica o docente do Departamento de Engenharia e Tecnologia de Alimentos.

Alternativa sustentável

Para enfrentar o problema, pesquisadores da FEA desenvolveram um processo capaz de recuperar o amido presente na chamada “água de batata”, transformando o resíduo em uma farinha rica em fibras.

“O ingrediente pode ser utilizado na produção de pães e bolos ou como espessante natural para molhos, ampliando as possibilidades de uso na indústria”, destaca Gabriela Milanezzi, doutoranda da FEA e responsável pelo estudo.

A proposta central da pesquisa é permitir que as próprias indústrias incorporem o reaproveitamento do resíduo em suas linhas de produção. A iniciativa não apenas reduz o desperdício de recursos, mas também agrega valor comercial a um material que, anteriormente, seria descartado apenas como efluente.

Confira mais detalhes na reportagem.

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A Prostituta XL

Foi assim meu encontro com a prostituta XL na primeira visita ao Buraco Quente. Era uma época em que jurava ter vocação à santidade e meditava Lucas 7, 37-38: “E eis que uma mulher na cidade, que era uma pecadora, sabendo que ele estava à mesa em casa do fariseu, levou um vaso de alabastro com unguento; E, estando por detrás, aos seus pés, chorando, começou a regar seus pés com lágrimas, e os enxugava com os cabelos da sua cabeça; e beijava seus pés, e os ungia com o unguento.” 

Por recomendação de Frei S., fui conhecer a mulher pecadora e fundar o primeiro núcleo de evangelização “Maria de Magdala”. Com meus 18 anos e jejuns intermitentes, julgava gozar de força suficiente para transitar entre gemidos em falsetes, vindos dos quartos, e brindes ostensivos, celebrados nos balcões que separavam a entrada da casa da intimidade dos casais. Ao meu redor, velhos e jovens observavam os trejeitos das putas. XL cochichava em meu ouvido para que não me intimidasse com esses corpos se desejasse conquistar suas almas. Era preciso conhecer o que havia de mais bruto nas mulheres se quisesse penetrar em seus corações.

Fui apresentado à xs, a mulher de cabelos pretos como as asas da graúna, que me convidou, sem cerimônia, para seu quarto. Como poderia lhe confessar meu propósito?  Roubaria seu tempo sem lhe pagar por sua atenção? XL percebeu em meus olhos o desejo e o embaraço das desnecessárias justificativas e, pegando em meu braço, ordenou: “Frei, seja homem, convide-a antes para uma bebida.”

Nessa época, permitia-me apenas uma vez ou outra um cálice de vinho de sacristia. Mas disse à xs: “Aceita uma cerveja?” Ela se surpreendeu com a minha paciência, pois julgava que estivesse ansioso por conhecê-la. “Com preliminares… é mais gostoso”, disse esticando a voz.  Por estar ali em missão, reprimi um comichão subindo das partes baixas, mas não resisti a um arrepio muito esquisito na nuca.  Então comecei o interrogatório…

O meu copo de cerveja continuava intacto, enquanto ela já avançava no segundo.

Depois de algumas perguntas, xs, já olhando para os clientes, disparou: “Moço, você já trepou?”  “Sim, no seminário temos várias árvores frutíferas, e quando queremos nos exercitar, subimos nelas”. Como se estivesse diante de um bobo, soltou uma gargalhada e empurrou meu peito com suas duas mãos, num gesto infantil. Desequilibrei-me e caí de costas, despertando sua compaixão. Levantei-me em um golpe de vista, pedindo-lhe desculpas e já me preparando para deixá-la, quando XL veio em meu socorro.

O relógio marcava 23h, e o próximo circular passava em breve. Despedi-me de XL, não sem antes abrir meu coração. Após a queda, percebi que se quisesse conhecer xs e trazê-la para o rebanho, libertando-a dos lobos esfaimados, deveria me envolver emocionalmente com ela, contrariando uma das regras básicas da vida apostólica e do meretrício.  Por que negar que queria xs de corpo e alma? Como esquecer suas palavras, quando lhe perguntei:

“Os homens querem mesmo só sexo?”

“Não, moço, muitos vêm aqui apenas por uma companhia.”

Após as despedidas, avistei o ônibus que se aproximava com o luminoso destino “Centro”. Não havia nenhum passageiro nele. Sentei-me no último banco e fui contemplando o rosário de luzes que passava por mim, enquanto a casa de XL era apenas uma lembrança.

Esse texto não reflete necessariamente a opinião da Unicamp.


Foto de capa:

Ilustração de Fernando Morato
Ilustração de Fernando Morato

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Pesquisa aplica abordagem inovadora em estudo sobre terras raras em Poços de Caldas (MG)

Pesquisadores analisam caixa com os furos de sondagem do depósito
Pesquisadores analisam caixa com os furos de sondagem do depósito

Um grupo de pesquisadores do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp e do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) esteve em Poços de Caldas (MG) no final de fevereiro para uma atividade de campo em uma área que integra um dos maiores depósitos de elementos de terras raras (ETRs) do mundo – o depósito Caldeira, um maciço alcalino reconhecido internacionalmente por seu potencial mineral. Coordenada pelo docente do IG Diego Fernando Ducart, a atividade teve como objetivos a descrição geológica detalhada de furos de sondagem, a coleta sistemática de amostras, a aquisição de dados espectrais e geoquímicos com múltiplos equipamentos e a integração de dados com outras fontes.

“Os ETRs são essenciais para tecnologias de alta performance, incluindo baterias, turbinas eólicas, ímãs permanentes de alto desempenho, veículos elétricos, dispositivos eletrônicos e equipamentos médicos. Apesar do nome, muitos ETRs não são necessariamente raros na crosta terrestre, mas sua concentração em depósitos economicamente viáveis é incomum”, explica Ducart. No depósito Caldeira, os ETRs estão principalmente associados a argilas que passaram por modificação físico-química por ação da água, do oxigênio ou de ácidos orgânicos durante processos intensos de decomposição.

Diferentemente de muitos minerais metálicos, a caracterização correta dos ETRs exige técnicas analíticas avançadas. Tais elementos não são identificados a olho nu, nem mesmo com métodos tradicionais de campo, como a lupa de mão. Para superar esses desafios em Poços de Caldas, “a equipe utilizou equipamentos portáteis de última geração, capazes de gerar dados em tempo real diretamente nos testemunhos de sondagem”, segundo Ducart.

Medição fluorescencia de raios-x
Medição fluorescencia de raios-x
Rocha com elementos de terras raras
Rocha com elementos de terras raras
 medidas com espectrômetro de reflectância no VNIR-SWIR
 Medição com espectrômetro de reflectância

Foram utilizados um analisador de fluorescência de raios-X (pXRF, empregado para determinar a composição química de amostras), um espectrômetro de reflectância de alta resolução, cobrindo desde o espectro visível (VIS) até o infravermelho de ondas curtas (SWIR), e um espectrômetro FTIR, cobrindo o infravermelho termal (TIR) — fundamentais para identificar assinaturas espectrais características dos ETRs, além dos minerais com ETRs agregados. “A integração dessas técnicas hiperespectrais e ultraespectrais representa uma abordagem inovadora na prospecção mineral no Brasil, permitindo maior eficiência, redução de custos analíticos e geração de modelos mais robustos sobre os processos de formação do depósito”, explica o coordenador da atividade em Poços de Caldas.

Além de Ducart, participaram da atividade os docentes da Unicamp Carlos Roberto de Souza Filho, Alfredo Borges de Campos e David Jozef Cornelius Debruyne, o docente da UFRJ Claudio Gerheim Porto, o pesquisador da Unicamp Raphael Bianchi Hunger, os alunos de pós-graduação da Unicamp César Henrique Bezerra de Farias, Juan Felipe Galán, André Martins Leal, Anna Beatriz Gomes Tetzner e Pedro Henrique Hokama, e o aluno da UFRJ João Antônio Casado do Nascimento. “O número expressivo de pesquisadores envolvidos foi fundamental para garantir a cobertura completa dos pontos de amostragem, medição e análise”, explica o coordenador da atividade.

Equipe de pesquisadores da Unicamp e UFRJ que participou da atividade de campo
Equipe de pesquisadores da Unicamp e UFRJ que participou da atividade de campo

O estudo ocorreu no escopo de dois projetos de pesquisa de grande relevância científica: “The Rare Earth Supergene Caldeira System: From Ore Forming Processes to Recovery”, coordenado por Rodrigo de Melo, docente da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e financiado pela Agência para o Desenvolvimento e Inovação do Setor Mineral Brasileiro (ADIMB), e “Maximizing the Use of Hyper- and Ultra-Spectral Techniques for Prospecting Rare-Earth Elements in Brazil”, coordenado por Diego Ducart, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Segundo Ducart, “há atualmente diversos trabalhos de mestrado e doutorado em desenvolvimento no âmbito desses projetos, reforçando a formação de recursos humanos altamente qualificados em um tema estratégico para o Brasil”.

Ducart lembra que o estudo do depósito Caldeira contribui para compreender os processos geológicos de formação de depósitos de ETRs e aprimorar metodologias de prospecção mineral com base em técnicas espectrais avançadas, além de apoiar o desenvolvimento de cadeias produtivas ligadas à transição energética. Estudos como esse fundamentam a consolidação do protagonismo da Unicamp na área de pesquisa mineral estratégica. A iniciativa em Poços de Caldas “reforça a integração entre universidade, agências de fomento e setor produtivo, promovendo ciência de excelência com impacto direto no desenvolvimento tecnológico e econômico do país”, finaliza Ducart.

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Equipe descrevendo os testemunhos de sondagem do depósito
Equipe descrevendo os testemunhos de sondagem do depósito

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Ministério credencia HC para diagnóstico de doenças raras em pacientes com deficiência intelectual

O Hospital de Clínicas da Unicamp é a única entidade no estado de São Paulo, credenciada pelo Ministério da Saúde, que passa a ofertar no SUS coletas para um exame genético inovador e de alta tecnologia para a confirmação do diagnóstico de doenças raras em pacientes com deficiência intelectual (PCDT 572). Trata-se do Sequenciamento Completo do Exoma (WES), capaz de atender até 90% dos pacientes que precisam do laudo em até 90 dias da chegada da amostra. Os laudos serão realizados em laboratórios credenciados no Rio de Janeiro.

“Na realidade, o HC já está realizando as coletas de exoma para investigação desde o final de janeiro, após treinamento da equipe da genética, incluindo docentes, médicos assistentes e médicos residentes, seguindo todas as orientações do ministério. Estamos em via de receber o resultado das amostras investigadas nos laboratórios do Instituto Nacional de Cardiologia no RJ para análise e emissão dos primeiros laudos”, informa o coordenador no HC, professor Carlos Steiner (foto), da Genética Médica.

Segundo Steiner, embora o exame de sequenciamento completo do exoma possa ser disponibilizado para a investigação genética de todas as doenças raras, neste momento, está sendo oferecido apenas para a investigação etiológica da deficiência intelectual, contemplada no PCDT 572. “O projeto piloto embasará estudos para o futuro se incluir outras doenças”, comenta.

O coordenador do projeto no HC, Carlos Steiner: projeto piloto
O coordenador do projeto no HC, Carlos Steiner: projeto piloto

São Paulo está entre as 11 unidades federativas contempladas pelo projeto-piloto do Ministério da Saúde. O exame enfrenta um dos principais gargalos vividos pelas famílias: a demora na confirmação diagnóstica. Com a nova oferta, o resultado será entregue em até seis meses (antes, a espera podia chegar a sete anos). A redução é de 93% no tempo de espera.

As amostras coletadas nos estados serão enviadas para dois laboratórios públicos no Rio de Janeiro: o Instituto Nacional de Cardiologia (INC), que opera em fase piloto desde outubro de 2025; e a Fiocruz, cuja estrutura deve estar concluída até o fim de maio. A iniciativa do ministério terá capacidade para atender 100% da demanda nacional pelo exame, o equivalente a 20 mil diagnósticos por ano.

Pelo projeto Piloto, o laboratório do INC já recebe amostras de 13 serviços habilitados em 10 estados e no Distrito Federal: Bahia, Rio de Janeiro, Goiás, Pará, Pernambuco, Paraná, Minas Gerais, Ceará, São Paulo e Mato Grosso. O projeto registra taxa de sucesso de 99% nas coletas e já emitiu 175 laudos.

Nos meses de março e abril, outros 23 serviços serão habilitados, contemplando também Espírito Santo, Paraíba, Piauí, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Rio Grande do Norte. A previsão é que, até o fim de 2026, os dois laboratórios operem em plena capacidade, garantindo atendimento a todas as famílias elegíveis.

Como funciona o exame

Fundamental para confirmar o diagnóstico de doenças raras genéticas, o Sequenciamento Completo do Exoma analisa regiões do DNA onde se concentram a maioria das mutações genéticas, a partir de amostras de sangue ou saliva.

O exame também contribui para a confirmação diagnóstica de doenças identificadas no teste do pezinho (triagem neonatal), como fibrose cística, fenilcetonúria, hipotireoidismo congênito, doença falciforme, outras hemoglobinopatias e hiperplasia adrenal congênita.

O ministro da Saúde também anunciou que a rede especializada do SUS voltada ao tratamento de doenças raras será ampliada em 120%
O ministro da Saúde também anunciou que a rede especializada do SUS voltada ao tratamento de doenças raras será ampliada em 120%

Diagnóstico precoce

Além de proporcionar mais qualidade de vida aos pacientes, o diagnóstico precoce permite a indicação de tratamentos mais adequados e personalizados, aumentando as chances de melhores desfechos clínicos.

No caso da fibrose cística, por exemplo, além da ampliação do diagnóstico precoce, o SUS oferta, desde 2023, medicamento específico para o tratamento da doença, reforçando a linha de cuidado e o acesso à terapia inovadora.

Com a confirmação diagnóstica, mais pessoas poderão acessar terapias disponíveis na rede pública, garantindo tratamento oportuno, redução de complicações e melhora na expectativa e na qualidade de vida.

Ampliação da rede especializada

Na quinta-feira, dia 26/2, o ministro da Saúde também anunciou que a rede especializada do SUS voltada ao tratamento de doenças raras será ampliada em 120%. Para isso, foram destinados R$ 44 milhões para habilitar 11 novos serviços em quatro regiões do país.

Com a expansão, o número de serviços especializados passará de 23, em 2022, para 51 unidades em hospitais públicos e filantrópicos.

“Com a ampliação para 51 serviços especializados, vamos mais que dobrar a rede existente e consolidar a maior rede pública de diagnóstico e cuidado de doenças raras do mundo. É o Estado brasileiro assumindo a responsabilidade de garantir o acesso próximo de onde as pessoas vivem”, afirmou Alexandre Padilha.

O investimento federal assegura estrutura adequada, equipes multiprofissionais e atendimento contínuo aos pacientes.

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8 de Março, um dia para celebrar mais mulheres nas salas de aula, na pesquisa e na extensão

8 de Março, um dia
para celebrar mais mulheres nas
salas de aula,
na pesquisa e
na extensão

Universidade promove ações afirmativas como editais, eventos e disciplinas sobre gênero a fim de apoiar protagonismo feminino no universo acadêmico

O Dia Internacional da Mulher, comemorado em 8 de março, é uma data para lembrar lutas e celebrar avanços frente às desigualdades de gênero que ainda persistem. Na Unicamp, o incentivo às ações afirmativas para ampliar a participação feminina na produção acadêmica – como o “Mais Mulheres na Pesquisa”, da Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP), que terá sua segunda edição em 2026, depois de contemplar 25 projetos no ano passado –, a inclusão de disciplinas sobre gênero nos catálogos da universidade e o avanço de projetos de extensão voltados para o universo feminino estão entre os exemplos dessa busca por equidade.

Apesar da presença das mulheres nas salas de aula da Unicamp ser cada vez mais representativa, elas continuam minoria. Entre 2015 e 2025, o número de universitárias matriculadas aumentou 7%, de 1.504 para 1.610, enquanto a porcentagem masculina caiu 2%, de 1.991 para 1.941 matrículas, segundo dados da Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp (Comvest).

Na comparação entre os cursos, há grandes disparidades. Em 2025, as mulheres seguiam minoria em Engenharia de Computação (11,96%), Engenharia Mecânica (20,57%) e Estatística (25,35%), por exemplo. Já nos cursos historicamente associados ao cuidado e à saúde, como Medicina (55,3%), Enfermagem (75,6%) e Pedagogia (87,7%), as mulheres são maioria.

Conforme os indicadores estratégicos do Planes construídos pelo Escritório de Dados e Apoio à Transformação (Edat), na análise do percentual de alunos matriculados, entre o período de 2019 a 2026, os homens representam 55,4% e as mulheres 44,6% dos estudantes. Na carreira docente, os homens também predominam, com 60,6% contra 39,4%. Já entre os Profissionais de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão (Paepe), 59,7% são mulheres e 40,3% homens.

A pesquisadora do Pagu Karla Bessa: ampliar a presença feminina nas áreas STEM
A pesquisadora do Pagu Karla Bessa: ampliar a presença feminina nas áreas STEM

Longo caminho

Karla Bessa, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu, professora da pós-graduação em Multimeios no Instituto de Artes (IA) e do doutorado em Ciências Sociais no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), destaca que ainda há “um longo percurso para a equidade de fato acontecer”.

Bessa ressalta que ainda é preciso ampliar a presença feminina nas áreas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), reduzir a disparidade nas bolsas de produtividade e criar políticas específicas para mulheres negras, quilombolas, trans e indígenas, além de ser necessária uma maior integração entre dados, financiamento e avaliação institucional. “Só assim saberemos se as iniciativas que temos feito estão sendo eficientes e quais áreas precisamos aprimorar.”

Atualmente, como vice-coordenadora do INCT Caleidoscópio (Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências), voltado à equidade de gênero e étnico-racial nas ciências, Bessa diz que a preocupação central é garantir condições adequadas para que mulheres possam estudar e trabalhar. “A violência de gênero no ambiente de trabalho desencadeia sucessivas consequências”, enfatiza. Por isso, o Observatório Caleidoscópio, que Bessa coordena juntamente com as professoras Margaret Lopes (Pagu/Unicamp) e Joana Pedro, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), tem monitorado indicadores relevantes e desenvolvido pesquisas nessa área.

Segundo Bessa, a Unicamp é pioneira com ao menos quatro equipamentos estruturais importantes para receber denúncias, como o Serviço de Atenção à Violência Sexual (Savs), desvinculados dos departamentos. “Ainda há desafios, mas a criação da Diretoria de Direitos Humanos e de uma comissão especializada em sexualidade e gênero para pensar as políticas de equidade e o enfrentamento das violências foram fundamentais”, afirma.

Entre os avanços recentes, Bessa cita a implementação do “botão do pânico” e a criação do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab) e do Núcleo da Consciência Trans, que representam “uma conquista relevante, especialmente como espaço de produção acadêmica de mulheres negras e mulheres trans”. Para ela, enfrentar desigualdades estruturais exige ir além do acesso. “As políticas de cotas modificaram o perfil da Universidade, com vestibular indígena e cotas para pessoas negras e trans, mas é preciso garantir permanência e pertencimento”, destaca.

A Unicamp é pioneira com ao menos quatro equipamentos estruturais importantes para receber denúncias de violência
A Unicamp é pioneira com ao menos quatro equipamentos estruturais importantes para receber denúncias de violência

O cenário é complexo, continua a professora. “Persistem disparidades raciais, especialmente no acesso aos cargos de maior prestígio na carreira científica. O número de mulheres negras ainda é reduzido; na pós-graduação, onde as mulheres são maioria, há concentração em áreas como humanidades e saúde, enquanto as áreas tecnológicas ainda apresentam déficit feminino”, completa.

Na área de Exatas, há iniciativas na Unicamp para atrair mais alunas, como o projeto de extensão Elas na Engenharia, da Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM), que tem como missão inspirar mais meninas a seguirem carreira nas áreas STEM, além de prestar apoio às alunas do curso, de modo a evitar a evasão e a capacitá-las para futuros cargos de liderança no campo profissional.

Vale destacar que, no ano passado, os cursos de graduação em Engenharia de Controle e Automação e Engenharia Mecânica tiveram aumento no número de ingressantes mulheres. Em 2023 e 2024, elas representavam cerca de 14% do total de ingressos, correspondendo a 26 mulheres em cada ano. Em 2025, a porcentagem chegou a 20%, ou seja, 39 mulheres.

Entre os projetos de extensão, há o M.A.F.A.L.D.A., voltado a estudantes do Ensino Médio de escolas públicas, que tem como objetivo estimular meninas a ingressarem em carreiras nas áreas STEM. O nome é um acrônimo para Meninas na Química, Física e Engenharia para Liderar o Desenvolvimento em Ciência e sintetiza a proposta central do projeto: ampliar a presença feminina em áreas historicamente marcadas pela desigualdade de gênero.

Diversos movimentos e redes têm contribuído para ampliar o debate, como as Mulheres Cientistas da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o Parents in Science, as Mulheres Acadêmicas na Unicamp e outros coletivos. Agências de fomento também começam a incorporar medidas de equidade, como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que lançou um programa de diversidade e inclusão em 2023. “Além disso, o CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico] passou a considerar períodos de maternidade na avaliação curricular, e a Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior] criou um censo demográfico da pós-graduação, instrumento visto como fundamental para produzir métricas e monitorar desigualdades”, completa.

“A transformação profunda e estrutural da desigualdade de gênero na ciência não acontece apenas aumentando matrículas. Ela exige rever critérios de avaliação, financiamento, cultura institucional e redes de apoio, visto que a permanência e a inserção no circuito acadêmico, ou seja, o reconhecimento das trajetórias é um dado fundamental para avaliarmos a equidade de gênero de modo interseccional e abrangente nas diferentes áreas de conhecimento”, completa Bessa.

Em 2025, as mulheres seguiam minoria em Engenharia de Computação (11,96%), Engenharia Mecânica (20,57%) e Estatística (25,35%)
Em 2025, as mulheres seguiam minoria em Engenharia de Computação (11,96%), Engenharia Mecânica (20,57%) e Estatística (25,35%)
Em 2025, as mulheres seguiam minoria em Engenharia de Computação (11,96%), Engenharia Mecânica (20,57%) e Estatística (25,35%)

Conquistas históricas

A professora Helena Altmann, da Faculdade de Educação Física (FEF), que ministra a disciplina “Gênero e sexualidade nas práticas corporais”, destaca que o 8 de Março é uma data histórica importante para se olhar para o que já foi conquistado, como a própria existência de uma disciplina obrigatória sobre gênero no curso de Educação Física.

“Há muito a ser comemorado, porque a sociedade mudou muito. Mas, muitas vezes, a forma de comemorar recoloca a mulher em um lugar estereotipado, fragilizado, que o movimento feminista justamente reivindicou superar. A data significa a luta das mulheres para ocupar outros lugares: o direito ao voto, ao mercado de trabalho, ao esporte, a cargos de comando, além da luta contra o feminicídio e a violência contra a mulher, que ainda são questões muito presentes”, afirma.

A professora lembra que a disciplina na FEF nasceu da pauta das questões das mulheres dentro do campo da Educação Física e das Ciências Sociais. “Muitas vezes, gênero e sexualidade são marcadores de desigualdade no acesso, na permanência e na profissionalização dentro da Educação Física e dos esportes”, destaca.

A docente da Faculdade de Educação Física Helena Altmann: disciplina “Gênero e sexualidade nas práticas corporais”
A docente da Faculdade de Educação Física Helena Altmann ministra a disciplina “Gênero e sexualidade nas práticas corporais”

Altmann lembra que pesquisas comprovam que as mulheres praticam menos atividades físicas e esportivas do que os homens. “A inatividade aumenta a partir de marcadores sociais como renda, escolaridade e raça. Mulheres negras, com menor escolaridade e com renda mais baixa apresentam menor frequência de prática”, afirma.

A professora enfatiza que o direito das mulheres de praticar esportes “foi uma conquista histórica”. Vale destacar que a legislação brasileira proibiu a prática em dois momentos distintos, em 1941 e em 1965. “A legislação de 1941 dizia que as mulheres não podiam praticar esportes ‘incompatíveis com a sua natureza’. Havia a ideia de que a prática esportiva poderia afetar a capacidade reprodutiva, um tipo de preocupação que nunca foi formulada em relação aos homens.” Em 1965, a legislação explicitou que as mulheres não podiam praticar esportes como futebol, rugby, polo aquático e halterofilismo, modalidades consideradas perigosas para elas. “Isso caiu por volta de 1979, num contexto de abertura política no Brasil.”

Feminismo de dados

Sandra Avila, professora do Instituto de Computação (IC), co-coordenadora do projeto de extensão Meninas SuperCientistas, defende que as ações afirmativas precisam ocorrer em diferentes esferas. “É importante destacar que não começamos do mesmo lugar, já que as mulheres nem sempre tiveram direito de estudar, trabalhar ou votar. Não temos o mesmo histórico.”

Sobre o Dia Internacional da Mulher, Avila reforça que não se trata apenas de uma data simbólica. “É um momento de luta. Não é um dia só, são todos os dias.” A reflexão sobre desigualdades de gênero também atravessa sua atuação docente, com a criação da disciplina “Feminismo de dados”, ministrada na pós-graduação do IC.

“A disciplina discute inteligência artificial (IA) a partir da noção de que dados são poder. Se as pessoas não estão representadas nos dados, não estarão representadas nos modelos. A proposta não se restringe às mulheres, mas às pessoas minorizadas socialmente – mulheres, pessoas negras, indígenas, periféricas, LGBTQIA+, trans, com deficiência, corpos fora do ‘padrão’ e outros grupos marginalizados”, explica.

Sandra Avila, professora do Instituto de Computação: ´momento de luta
Sandra Avila, professora do Instituto de Computação: momento de luta

A primeira turma, em 2025, contou com estudantes de diferentes cursos, com homens e mulheres em número equilibrado, “além de alunos especiais e profissionais do setor privado interessados na discussão”. A disciplina será novamente oferecida no segundo semestre de 2026.

A professora, contemplada na primeira edição do projeto Mais Mulheres na Pesquisa, relata que passou a atuar mais intensamente para enfrentar a desigualdade de gênero na área acadêmica nos últimos anos, com o fortalecimento de iniciativas voltadas à permanência de mulheres na ciência.

Avila destaca que, no projeto Meninas SuperCientistas, criado em 2019, iniciativa que aproxima estudantes do Ensino Fundamental II de pesquisadoras científicas, a ideia é apresentar possibilidades: “São cientistas mulheres apresentando o que fazem para meninas que talvez não se enxerguem nesse mesmo lugar. É clichê, mas é isso: mostrar que elas podem ser o que elas quiserem.”

Foto de capa:

8 de Março, um dia para celebrar mais mulheres nas salas de aula, na pesquisa e na extensão
Apesar da presença das mulheres nas salas de aula da Unicamp ser cada vez mais representativa, elas continuam minoria

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Escola São Paulo de Ciência Avançada em Microplásticos acontece em setembro na Unicamp

Entre 1 e 11 de setembro de 2026 ocorre, em Campinas, a Escola São Paulo de Ciência Avançada em Microplásticos (ESPCA em Microplásticos), voltada à formação de pesquisadores(as) em início de carreira para enfrentar os desafios da poluição plástica por meio da investigação científica, do pensamento crítico e de políticas públicas baseadas em evidências. Durante a formação, 50 participantes brasileiros e 50 de outros países terão a oportunidade de conviver de maneira intensiva com cientistas e formuladores de políticas públicas de diversas regiões do Brasil e do mundo, referências na área, participando de aulas teóricas e práticas, sessões de pôsteres e projetos curtos sob mentoria desses especialistas.

As inscrições se iniciam em 20 de março, através de formulário próprio a ser divulgado no site da ESPCA em Microplásticos. O público-alvo são estudantes de mestrado e doutorado, além de pós-doutorandos e pesquisadores em início de carreira, vinculados a instituições brasileiras e internacionais e com formação em um conjunto abrangente de disciplinas relacionadas à temática. Para participar, os candidatos precisam apresentar uma série de documentos, dentre eles uma carta de intenções, um resumo do projeto de pesquisa que desenvolvem, uma carta de recomendação de seu orientador e o histórico acadêmico, além de atestar proficiência em inglês, língua oficial do evento. Os selecionados receberão apoio financeiro que inclui transporte, acomodação, alimentação e seguro-viagem (para participantes provenientes do exterior).

A Escola São Paulo de Ciência Avançada em Microplásticos é voltada à formação de pesquisadores(as) em início de carreira para enfrentar os desafios da poluição plástica
A Escola São Paulo de Ciência Avançada em Microplásticos é voltada à formação de pesquisadores(as) em início de carreira para enfrentar os desafios da poluição plástica

A organização da Escola, que acontece nas dependências da Unicamp, é uma parceria com a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Os grupos de pesquisa responsáveis pela organização são o Laboratório de Química Ambiental (LQA), da Unicamp, e o Grupo de Pesquisa em Poluição Plástica (GPPP), da UFSCar.

Objetivos e critérios de seleção

A Escola apostará na interdisciplinaridade e na visão integrada, com atividades divididas em quatro eixos de estudo: polímeros e suas substâncias químicas adicionadas; interações superficiais entre plásticos, aditivos e poluentes ambientais; impactos ecotoxicológicos; e debate público e ações viáveis baseadas em evidências e voltadas à formulação de políticas regulatórias.

Walter Waldman, docente na UFSCar e vice-coordenador da Escola, explica que esses eixos abrangem em seu conjunto a amplitude e a complexidade do problema da poluição plástica, fornecendo uma visão multidimensional a respeito desses materiais e seus efeitos no ambiente. Essa visão, afirma o docente, é particularmente relevante no contexto do Tratado Internacional sobre Poluição Plástica, o qual, uma vez implementado, será estratégico para o meio ambiente, a saúde, o comércio e a bioeconomia.

A coordenadora da ESPCA em Microplástico, Cassiana Montagner: enfrentamento de problemas reais
A coordenadora da ESPCA em Microplástico, Cassiana Montagner: enfrentamento de problemas reais

Microplásticos possuem um extraordinário potencial de transporte pelo ar, pela água e pelo solo, e pesquisas recentes os têm encontrado até mesmo em lugares bastante remotos como topos de montanhas e grandes desertos. Cassiana Montagner, docente na Unicamp e coordenadora da ESPCA em Microplásticos, detalha que, além do compartilhamento de conhecimentos analíticos, técnicos, práticos, laboratoriais e de campo, a Escola também será fundamental para atuar justamente no enfrentamento de problemas reais relacionados a essa presença marcante dos plásticos no ambiente. “A ESPCA em Microplásticos pretende abarcar áreas estratégicas de pesquisa e trabalhar com a expertise de cada convidado e participante, tendo como norte a formação de uma base sólida de articulação mundial capaz de responder aos desafios que a poluição por esses materiais traz para a biodiversidade e a vida em todas as suas formas.”

Walter Waldman complementa que o processo seletivo buscará proporcionar o máximo possível de diversidade global e regional na seleção dos participantes. “Essa representatividade nos garantirá a formação de uma rede nacional e internacional de pesquisa sobre microplásticos, fazendo do Brasil um ator fundamental nas discussões sobre regulação.” A equidade de gênero e raça também será um dos critérios de seleção.

Montagner e Waldman, junto com Evaldo Espíndola, docente na Universidade de São Paulo (USP), são pesquisadores principais no projeto apelidado de Plast-Agrotox, que estuda os destinos e impactos de microplásticos e agrotóxicos em matrizes aquáticas e terrestres, também financiado pela Fapesp, na modalidade de Projeto Temático. “Estamos em um momento de nossas pesquisas, tanto no Plast-Agrotox quanto em outros projetos nacionais e internacionais, em que muitos resultados importantes a respeito da ocorrência, dos destinos, do comportamento e dos efeitos de microplásticos começam a aparecer”, afirma Montagner, coordenadora do Plast-Agrotox. Ela acrescenta que, do ponto de vista analítico, a área é muito desafiadora, e é nesse sentido que a ESPCA em Microplásticos trará avanços bastante significativos. “Passaremos duas semanas imersos em perspectivas e metodologias de pesquisa sobre microplásticos, em seus diferentes aspectos. Esse aprofundamento irá dar suporte aos novos pesquisadores e às lideranças jovens na área. Isso nos ajudará a impulsionar a pesquisa nacional”, conclui.

Acesse o site da ESPCA em Microplásticos para mais informações.

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Dia Internacional da Mulher inspira variada programação de atividades

O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, é tema de uma extensa programação na Unicamp, que se estende ao longo do mês, com palestras, oficinas, homenagens, rodas de conversa e feira de empreendedorismo, entre outras atividades, a fim de contribuir para a reflexão, a formação e a mobilização da comunidade.

A Pró-Reitoria de Graduação (PRG), a Comissão Assessora de Gênero e Sexualidade da Diretoria Executiva de Direitos Humanos (DEDH) e o Núcleo de Estudos de Gênero Pagu divulgaram uma agenda integrada de atividades, que reúne programações de diversos institutos, com a mensagem de que “o compromisso com a equidade de gênero se sustente para além da data”.

Temas como saúde mental, trabalho, maternidade, sexualidade e autocuidado serão debatidos nesta quarta-feira (4), na Faculdade de Educação (FE), na programação do Mulheres em Roda, a partir das 14h30, com a psicóloga Karen Batista, do Centro de Saúde da Comunidade (Cecom). Já na Faculdade de Ciências Médicas (FCM) a Semana Mulheres em Foco segue até sexta-feira, com diversas palestras e oficinas.

O coletivo Mulheres em Luta, que reúne trabalhadoras da Unicamp, também promove uma série de atividades. Nesta quarta-feira, no Teatro de Arena, ao meio-dia, o debate é sobre violência de gênero na política. A programação continua no Centro de Saúde da Comunidade (Cecom), às 14h30, com uma palestra da médica Bia Bracco sobre a saúde ginecológica de mulheres cis e trans, homens trans, lésbicas, bissexuais e pessoas não-binárias.

O coletivo de Mulheres em Luta e o Sindicato dos Trabalhadores da Unicamp promovem a atividade "Ficha-limpa na Universidade", no dia 5/3, ao meio-dia
O coletivo de Mulheres em Luta e o Sindicato dos Trabalhadores da Unicamp promovem a atividade “Ficha-limpa na Universidade”, no dia 5/3, ao meio-dia

Na quinta-feira (5), também no Teatro de Arena, ao meio-dia, o tema é “Ficha-limpa na Universidade”. Na sexta-feira, no mesmo horário, a palestra “Gênero e Violência no Trabalho” será realizada no Salão Nobre da Faculdade de Educação (FE). A programação do coletivo termina com uma feira solidária durante a tarde, com a confraternização Celebrar para Existir, a partir das 18h, com shows de Elan e Vivi, no Sindicato dos Trabalhadores da Unicamp (STU).

Na sexta-feira (6), o Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (Imecc) realiza o evento “Celebrando o 8 de Março: Elas por elas, vozes que transformam”, a partir das 8h, com a proposta de refletir e dialogar a respeito da representatividade de gênero no ambiente acadêmico e científico. O evento também pretende dar visibilidade a iniciativas que buscam ampliar a inclusão e fortalecer a presença feminina em espaços de decisão, pesquisa e liderança, além de incentivar o protagonismo de mulheres na pesquisa e na pós-graduação.

Também na sexta-feira, na Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC), o evento WIE Talks, no auditório do Laboratório de Potência (Lepo), vai contar com a palestra “Trajetórias de Impacto: Mulheres na Ciência, Tecnologia e Indústria”, a partir das 16h.

Durante a próxima semana, a programação que celebra as mulheres continua em diversos institutos da Universidade. Já na segunda-feira (dia 9) a Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) promove, entre 11h e 15h, no pátio central, feira e exposição com mulheres empreendedoras. Na terça-feira (dia 10), na Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM), às 17h, será realizado um evento para debater a importância da data e sobre como transformar essa conversa em atitudes.

Também na terça-feira, no Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW), a partir das 14h, haverá encontro e roda de conversa com o tema “Entre forças e delicadezas, a pluralidade de ser mulher”. Na quarta-feira (dia 11), às 12h30, o IFGW promove um “pastel meeting” especial com a roda de conversa “Jornada pela Ciência: Perspectivas femininas estratégias em um mundo em transformação”, onde serão servidos pastéis e refrigerante.

Ainda na quarta-feira, o Instituto de Computação (IC) terá, a partir do meio-dia, um encontro das mulheres do instituto sobre a representatividade feminina na área e uma homenagem para a professora Cecília Rubira, que faleceu em janeiro. Na Biblioteca do Instituto de Química (IQ), às 14, mulheres que se destacaram e foram premiadas em 2025 serão celebradas em um encontro.

Já no dia 20, na Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF), será realizada a segunda edição do evento “Dia Delas”, com aula de yoga e palestras sobre cuidados com a pele e educação financeira, entre outras atividades.

Confira a programação completa.

Foto de capa:

Dia Internacional da Mulher inspira variada programação de atividades
A Pró-Reitoria de Graduação (PRG), a Comissão Assessora de Gênero e Sexualidade da Diretoria Executiva de Direitos Humanos (DEDH) e o Núcleo de Estudos de Gênero Pagu organizaram a divulgação da programação

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Cepagri desenvolve ferramenta que calcula emissões de carbono nas lavouras de café

Depois de aproximadamente três anos de trabalho, pesquisadores  do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), da Unicamp, concluíram o desenvolvimento de uma ferramenta capaz de calcular o balanço de emissões de carbono na cultura de café.

Acesse a ferramenta.

Num projeto em parceria com a Cooperativa dos Cafeicultores de Guaxupé (Cooxupé), no sul de Minas Gerais, o recurso permite contabilizar as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e o sequestro de carbono em todas as etapas da produção.

A partir da aplicação de insumos – fertilizantes usados no cultivo, queima de combustível para funcionamento de maquinário, processos de beneficiamento e outras atividades da cadeia produtiva – a solução faz a quantificação das emissões e do sequestro de GEE. Com esses dados disponíveis, o produtor poderá promover um manejo sustentável sem reduzir níveis de produtividade e rentabilidade, além de disputar o mercado interno e externo em melhores condições.

A pesquisadora do Cepagri Renata Gonçalves: primeiro destinado para a cafeicultura
A pesquisadora do Cepagri Renata Gonçalves: primeiro destinado para a cafeicultura

A pesquisadora do Cepagri e coordenadora do projeto Renata Gonçalves conta que há mais de 20 anos a organização global de pesquisa World Resources Institute (WRI) cria protocolos internacionalmente aceitos para o desenvolvimento de inventários corporativos de GEE. Denominados genericamente de GHG Protocol (“protocolo GEE”, em inglês), esses padrões definem as práticas internacionalmente aceitas para o desenvolvimento de inventários de GEE corporativos, de projetos ou de produtos.

Nos últimos anos, no entanto, tem crescido a demanda por diretrizes técnicas voltadas para o setor agrícola. O modelo elaborado pelo Cepagri é o primeiro destinado especificamente para a cafeicultura.

A Cooxupé é hoje uma das associações mais importantes do setor na América Latina. Conta com aproximadamente 20 mil membros produtores. Segundo a associação, Minas Gerais é responsável por grande parte da safra nacional e, dessa produção, cerca de 50% é entregue pelo Sul de Minas. No total, o estado tem uma área cultivada superior a 1 milhão de hectares. De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), 99% desse espaço é voltado à produção do café arábica, para o qual a ferramenta do Cepagri foi desenvolvida.

O pesquisador João Paulo da Silva, que integra a equipe de desenvolvedores, diz que a principal preocupação no processo de adaptação da ferramenta para o café foi a busca pela identificação mais precisa dos efeitos da atividade no carbono estocado no solo.

“Isso demandou um trabalho bastante importante de coletas de dados específicos, como a coleta de amostra no campo em diferentes extratos das propriedades de café”, explica Silva.

João Paulo da Silva, da equipe de desenvolvedores: coletas de dados específicos
João Paulo da Silva, da equipe de desenvolvedores: coletas de dados específicos

“Depois, tivemos de submeter essas amostras a análises laboratoriais para entendermos a dinâmica desse carbono no solo em diferentes situações; em extratos de um cafezal, pontos relacionados ao relevo e em diferentes idades da planta”, conta ele.

Em seguida, o grupo fez o cruzamento de dados levantados nas propriedades com o banco de dados que a Cooxupé havia construído ao longo dos anos. Segundo Silva, a cooperativa dispõe de grande volume de dados sobre análise de solo e, a partir disso, foi possível estabelecer uma taxa de variação do carbono no solo.

Necessidade

Renata Gonçalves conta que o projeto de desenvolvimento da ferramenta integra o programa da Cooxupé denominado Protocolo de Sustentabilidade Gerações, que visa promover boas práticas agrícolas tendo como metas a sustentabilidade econômica, social e ambiental.

Gonçalves explica que muitos anos atrás, quando o Cepagri e a Embrapa começaram a trabalhar com o tema de mudanças climáticas, os pesquisadores alertaram que o café teria problemas com o aumento da temperatura. “Se a temperatura sobe muito, por exemplo, na época do florescimento, são grandes as chances de abortamento floral”, lembrou a pesquisadora.

Segundo ela, os eventos extremos, como calor extremo, granizo, geadas muito fortes ou secas prolongadas, têm ocorrido com maior frequência nessas áreas. Com isso, os produtores registraram grandes perdas nos últimos anos. “Foi aí que começaram a pensar em mudanças no manejo”, disse Gonçalves.

Cafeicultor durante colheita do café; parceria com a Cooxupé, no sul de Minas Gerais
Cafeicultor durante colheita do café; parceria com a Cooxupé, no sul de Minas Gerais

Além da questão ambiental, os produtores começaram a ter maior preocupação com a produção também pelo viés econômico. “As empresas compradoras, hoje, estão exigindo que a produção seja mais sustentável. Precisam que os produtores promovam mitigação de GEE para que possam continuar comprando e exportando o café”, revela.

Sabor

De acordo com os pesquisadores do Cepagri, o manejo sustentável das plantações de café tem potencial para, inclusive, impactar positivamente o sabor da bebida.

João Paulo da Silva lembra que a matéria orgânica tem uma função muito importante no comportamento do solo. É o elemento que, segundo ele, vai melhorar a capacidade de troca catiônica do solo – aumentando a quantidade de nutrientes disponíveis no solo para a planta absorver e utilizar em seus processos fisiológicos de crescimento e desenvolvimento de frutos.

Os eventos, como calor extremo, granizo, geadas muito fortes ou secas prolongadas, têm ocorrido com maior frequência nessas áreas
Os eventos, como calor extremo, granizo, geadas muito fortes ou secas prolongadas, têm ocorrido com maior frequência nessas áreas

“Se a gente tiver um solo com mais matéria orgânica, teremos menor necessidade de aplicação de adubo para a obtenção de uma bebida de mais qualidade. Com isso, a gente está reduzindo custo de produção e melhorando a qualidade da bebida”, disse o pesquisador.

“Desta técnica de diminuir a adubação e deixar mais matéria orgânica no solo é que vem a maioria dos cafés premiados deles”, finaliza Renata Gonçalves.

Multiplicadores

Os pesquisadores do Cepagri observam que a partir de agora haverá um trabalho de formação de multiplicadores. Técnicos vão ser treinados pela Associação para disseminar as funcionalidades da ferramenta junto aos produtores rurais.

Também participaram do projeto os pesquisadores do Cepagri, Priscila Coltri, Eduardo Assad, Jurandir Zullo Junior e Maria Leonor Lopes Assad.

Foto de capa:

Os pesquisadores do Cepagri observam que a partir de agora haverá um trabalho de formação de multiplicadores
Os pesquisadores do Cepagri observam que a partir de agora haverá um trabalho de formação de multiplicadores

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Sinfônica e estudantes de Canto Popular apresentam ‘Milton, Coração do Brasil’

“Todo artista tem de ir aonde o povo está”. O espírito da clássica canção segue mais vivo do que nunca na Orquestra Sinfônica da Unicamp, que volta aos palcos do Teatro de Arena da universidade nesta segunda-feira (2), em um espetáculo gratuito, a partir das 19h. Já na terça-feira (3), às 20h, é a vez do Teatro Municipal “Losso Netto”, em Piracicaba, receber a apresentação também aberta ao público. O concerto “Milton, Coração do Brasil”, é recheado com as obras imortais do cantor e compositor Milton Nascimento, que receberam novos arranjos especialmente para estas apresentações. Em abril do ano passado, Milton recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Unicamp.

A Orquestra será regida pela maestrina Cinthia Alireti, que também assina a direção artística. Fazendo da cultura uma ponte de integração e transformação, os concertos contam com a participação de docentes e alunos do curso de Canto Popular do Instituto de Artes (IA) da Unicamp.

Concerto conta com obras imortais de Milton Nascimento, que receberam novos arranjos
Concerto conta com obras imortais de Milton Nascimento, que receberam novos arranjos

A direção de voz e roteiro é da professora Regina Machado, docente do Departamento de Música do IA. A coordenação de arranjos – desenvolvidos pelos alunos de pós-graduação em Música – é de Paulo Tiné. José Alexandre no contrabaixo, Leandro Barsalini na bateria e Theo Alves na guitarra são os instrumentistas convidados. As apresentações fazem parte da celebração dos 60 anos da Unicamp.

“É o encontro da tradição europeia, baseada na orquestra, com a rica diversidade da grande música popular brasileira. O espetáculo ainda valoriza a integração da comunidade acadêmica com a sociedade. Estão todos convidados a participar. É uma porta aberta para todos que quiserem viver essa experiência”, afirma a professora.

As apresentações fazem parte do projeto Palco DCult, ação cultural organizada pela Diretoria de Cultura (DCult), órgão da Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (Proeec).

A docente do IA Regina Machado
A docente do IA Regina Machado
A maestrina Cinthia Alireti
A maestrina Cinthia Alireti

Educação

Desde 1982, ano de sua fundação, a Orquestra Sinfônica da Unicamp tem como um de seus principais objetivos projetar e realizar performances artísticas que vão desde concertos a espetáculos multimídia, de óperas a gravações, com importante e significativo destaque aos programas de educação e formação de público.

Confira vídeo da apresentação realizada em setembro/2025

Serviço:

Concerto: “Milton, Coração do Brasil”
Dia: 2 de março
Hora: 19h
Local: Teatro de Arena Unicamp
Endereço: Rua Elis Regina, s/nº, Praça do Ciclo Básico

Piracicaba/SP
Dia: 3 de março
Hora: 20h
Local: Teatro Municipal Dr. Losso Netto
Endereço: Av. Independência, 277 – Alto, Piracicaba

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Redução de jornada deve gerar 4,5 milhões de novos empregos, aponta estudo

A redução da jornada de trabalho de 44 para 36 horas semanais resultaria na criação de até 4,5 milhões de novos empregos e elevaria em cerca de 4% os níveis de produtividade no Brasil. Essas projeções constam de um levantamento realizado pela economista Marilane Teixeira, pesquisadora do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) do Instituto de Economia (IE) da Unicamp, e que integra um diagnóstico feito por especialistas para medir os impactos da medida na economia e no país.

Chamado de “Dossiê 6×1”, o documento conclui que o Brasil “está pronto para trabalhar menos”, contrariando projeções do mercado segundo as quais a mudança poderia provocar queda no produto interno bruto (PIB) e agravar os níveis de insolvência das empresas. O estudo rebate, ainda, a ideia de que o brasileiro trabalha menos que a média mundial.

O dossiê é composto por 37 artigos, escritos por 63 autores, entre professores, pesquisadores, membros do Judiciário, auditores fiscais do Trabalho e representantes sindicais. Também participaram da elaboração 18 pareceristas. O material está sendo publicado semanalmente de forma simultânea em 19 sites, incluindo o do IE.

Confira o dossiê publicado.

A pesquisadora do Cesit Marilane Teixeira: Brasil está pronto para trabalhar menos
A pesquisadora do Cesit Marilane Teixeira: Brasil está pronto para trabalhar menos

Realizado por pesquisadores do Cesit com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o estudo mostra que aproximadamente 21 milhões de trabalhadores do país cumprem jornada superior às 44 horas semanais previstas na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Indica também que 76,3% das pessoas ocupadas no Brasil têm jornadas superiores a 40 horas semanais, sendo que 58,7% de todos os empregados trabalham entre 40 e 44 horas semanais. Para a especialista, essas são evidências de que o brasileiro está entre os que mais trabalham no mundo.

Marilane Teixeira lembra que existem nichos de trabalhadores, em áreas como a educação, saúde, serviço público e indústria, com jornadas inferiores a 44 horas semanais, mas faz uma ressalva:

“Não é desse contingente que estamos falando. Existe uma parcela de 18% da força de trabalho que faz entre 45 horas e 49 horas semanais, ou 58,7% que fazem entre 40 e 44. Se a redução já é possível em vários segmentos, por que no comércio e serviços ela não pode ocorrer?”, questiona a professora.

O diagnóstico feito pela economista mostra, ainda, que cerca de 4,5 milhões de pessoas estão na chamada subocupação. “Elas gostariam de trabalhar mais, mas não encontram vaga de emprego”, diz.

“Além disso, temos um nível de informalidade muito alto, que, em geral, ultrapassa em muito as 44 horas. Há, ainda, os casos de horas extras. A partir das reformas trabalhistas de 2017, abriu-se a possibilidade de pagamento de horas extras com banco de horas, e não em remuneração”, lembra. “Esse argumento de que o Brasil já trabalha pouco, definitivamente, não serve”, afirma a economista.

Pessoas participam de ato em defesa do fim da jornada 6x1, em São Paulo (SP), 15/11/2024 (Foto: Letycia Bond/Agência Brasil)
Pessoas participam de ato em defesa do fim da jornada 6×1, em São Paulo (SP), 15/11/2024 (Foto: Letycia Bond/Agência Brasil)

 Jornada 6×1

A redução da jornada deverá ser votada no Congresso ainda neste semestre. Uma das propostas em tramitação proíbe a chamada escala 6×1 (um dia de descanso a cada seis de trabalho), substituindo-a pela 4×3 (quatro de trabalho e três de folga a cada semana). De acordo com o estudo, essa mudança atingiria diretamente 76 milhões de trabalhadores.

Caso a redução seja para 40 horas semanais, na escala 5×2 –como querem determinados setores do Congresso –,- ainda assim a alteração afetaria a vida de aproximadamente 45 milhões de trabalhadores. A última mudança nesse sentido ocorreu há quase 38 anos, com a Constituição de 1988, quando a jornada legal no Brasil caiu de 48 horas semanais para as atuais 44 horas.

O estudo avalia as repercussões da mudança de jornada no consumo das famílias, nas políticas públicas para redução de desigualdades entre raças e gêneros e nas taxas de adoecimento do trabalhador.

“Em 2024 tivemos meio milhão de afastamentos por doenças psicossociais em decorrência das condições desfavoráveis do ambiente de trabalho”, argumenta a professora. “E estamos falando do emprego formal. Não se trata da outra metade da classe trabalhadora que está no trabalho por conta própria ou na informalidade e que também está submetida a condições de trabalho extenuantes e estressantes”, diz ela.

“Portanto, o fim da escala 6×1, é um grito, um pedido de socorro. Esses trabalhadores querem viver além do trabalho e querem direito ao lazer”, advertiu.

Desoneração

A professora da Unicamp lembra que o setor empresarial, com muita frequência, recorre ao Estado brasileiro quando precisa enfrentar mudanças estruturais. Em geral, vai em busca de isenções, incentivos ou desonerações.

 “Isso é histórico. Faz parte do perfil da classe dominante do Brasil”, diz ela “Ela não quer ceder nem um milímetro sequer. Não quer perder absolutamente nada”, acrescenta.  “Mas o governo não tem de ceder em absolutamente nada, porque esse setor ganhou muito nas últimas décadas. O que temos de fazer agora é reverter esses ganhos justamente em benefício do trabalhador”, recomenda.

Segundo ela, reclamações e previsões pessimistas também aconteceram quando da implantação de políticas como a do salário mínimo, a instituição do 13º salário e outros temas que envolvem a luta por direitos trabalhistas, como o registro dos empregados domésticos.

Trabalhadores e movimentos sociais fazem manifestação pelo fim da escala de trabalho 6 x 1 e pela taxação dos super-ricos, na Praça XV, no Rio de Janeiro, em julho de 2025 (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil?
Trabalhadores e movimentos sociais fazem manifestação pelo fim da escala de trabalho 6 x 1 e pela taxação dos super-ricos, na Praça XV, no Rio de Janeiro, em julho de 2025 (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil?

País pronto

Para o grupo de economistas e pesquisadores, o Brasil está pronto para a redução da jornada. Teixeira lembra que a última mudança ocorreu justamente na década de 1980, em uma conjuntura muito mais desfavorável que a de hoje.

“Nos anos 80, a economia brasileira andava de ré. Foi uma década considerada perdida, com queda do PIB, taxa de desemprego alta, inflação elevada, dívida externa.  Do ponto de vista econômico, um desastre e, mesmo assim, se reduziu a jornada para 44 horas semanais”, pondera.

“Nem por isso as empresas quebraram, nem por isso gerou-se desemprego. Não há estudo que aponte que a redução da jornada para 44 horas semanais nos anos 80 implicou queda do PIB ou taxa de desemprego mais alta”, desafia.

“Então não vai ser agora, com avanços tecnológicos, num contexto de pleno emprego, com crescimento econômico e o nível de tecnologia que temos, que não vai ser possível no Brasil reduzir para 40 horas”, argumenta.

Ela lembra que a produtividade do trabalho cresceu a uma taxa média anual de 6,5% entre os anos 1990 e 2000. Isso se deu com investimentos em tecnologia, formação do trabalhador e reorganização das empresas.

Um outro fator chama a atenção da pesquisadora. “As pessoas já não querem mais trabalhar com jornadas tão extensas. Hoje, muitas empresas já estão usando a jornada 5×2 como atrativo”, disse ela.

A professora diz ser um erro imaginar que a redução vai provocar paralisia na economia.  “Eles (mercado) fizeram um cálculo como se a economia fosse paralisada durante três dias e funcionasse só em quatro, o que não é verdade”, argumenta.

Trabalhadores e movimentos sociais fazem manifestação pelo fim da escala de trabalho 6 x 1 e pela taxação dos super-ricos, na Praça XV, no Rio de Janeiro, em julho de 2025 (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)
Trabalhadores e movimentos sociais fazem manifestação pelo fim da escala de trabalho 6 x 1 e pela taxação dos super-ricos, na Praça XV, no Rio de Janeiro, em julho de 2025 (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

O que é a PEC 8/25

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 8/25 prevê a adoção da jornada semanal de quatro dias de trabalho, com  descanso. O texto acaba com a escala 6×1 (seis dias de trabalho e um de descanso) e limita a duração do trabalho normal a 36 horas semanais. Atualmente, a Constituição estabelece que a carga de trabalho será de até oito horas diárias e 44 horas semanais.

A proposta também faculta a compensação de horários e a redução de jornada, mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho.

A PEC 8/25 será analisada pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados quanto à sua legalidade, juridicidade e constitucionalidade. Se admitida, será examinada por uma comissão especial a ser criada, antes de ser votada em dois turnos pelo plenário.

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Caminhada e clima de festa nas boas-vindas da Calourada 2026 

Caminhada teve início na Praça da Paz e seguiu até o Ginásio Multidisciplinar
Caminhada teve início na Praça da Paz e seguiu até o Ginásio Multidisciplinar

A Unicamp recebeu na manhã desta segunda-feira (23 de fevereiro) os calouros de 2026 com uma caminhada que começou na Praça da Paz e terminou no Ginásio Multidisciplinar, no campus de Barão Geraldo. Durante o percurso, houve muita confraternização com os veteranos e clima de festa para os ingressantes, que ganharam um kit de boas-vindas com uma camiseta, uma caneca e um vale-refeição para seu primeiro almoço no Restaurante Universitário, além de muita informação sobre a Universidade. 

O coordenador-geral da Unicamp, Fernando Coelho, ressaltou que este é um dos momentos mais importantes do ano na Universidade. “É um dia importantíssimo, porque marca o início de um ano letivo em que completamos 60 anos de existência. É, portanto, um dia de festa”, disse ele na cerimônia de recepção no Ginásio Multidisciplinar. “Quero que vocês saibam que estão chegando a uma das melhores universidades públicas do país e uma das mais importantes da América Latina. Aproveitem”, acrescentou.

Da esquerda para a direita, o coordenador-geral da Unicamp, Fernando Coelho, a pró-reitora de Graduação, Mônica Cotta e o coordenador da Comvest, José Alves: clima de festa
Da esquerda para a direita, o coordenador-geral da Unicamp, Fernando Coelho, a pró-reitora de Graduação, Mônica Cotta e o coordenador da Comvest, José Alves: clima de festa

O reitor da Unicamp, Paulo Cesar Montagner deu as boas-vindas aos estudantes “de todos os campi” e fez uma exortação. “Desfrutem. A Unicamp é uma universidade pública. Fortíssima na pesquisa, tem ensino de excelência e grandes programas de extensão, Portanto, vivam intensamente a experiência de viver numa universidade”, disse ele.

Segundo o coordenador-geral, nos últimos anos, a Unicamp tem avançado em muitas direções, seja nas diferentes formas de acesso, na implementação de programas cada vez mais vigorosos de inclusão e permanência e na busca pela excelência acadêmica, “sempre pensando na diversidade e na integração”. Ele também agradeceu aos pais de alunos, “que confiaram seus filhos à Universidade”.

A pró-reitora de Graduação, Mônica Cotta, que acompanhou a caminhada, também destacou a importância da celebração. “Para quem está chegando, a recomendação que faço é: aproveite. A Universidade é um espaço maravilhoso, que dá liberdade para fazer e descobrir muitas coisas. Corram atrás, é uma oportunidade única. E eu também tenho uma palavra aos pais: que eles fiquem tranquilos, porque na Unicamp não temos trotes violentos e vamos fazer o nosso melhor para cuidar bem de todos os nossos estudantes.”

A concentração dos ingressantes aconteceu no Ginásio Multidisciplinar, onde receberam um kit de boas-vindas, além de muita informação sobre a Universidade
A concentração dos ingressantes aconteceu no Ginásio Multidisciplinar, onde receberam um kit de boas-vindas, além de muita informação sobre a Universidade

O coordenador da Comissão do Vestibular (Comvest), José Alves de Freitas Neto, diz que a festa de recepção é a coroação de um longo e complexo processo que começou com a inscrição para o vestibular. “Se a gente pensar nos 80 mil que fazem inscrição pelos processos próprios (da Universidade) e os mais de 100 mil pelo Provão Paulista, nós estamos falando de um processo que selecionou 3.600 alunos. Portanto, desejamos que esses selecionados tenham uma temporada de sucesso e de muito estudo, porque é importante para o aluno saber que está ocupando uma vaga numa universidade pública e tem de valorizar essa grande conquista”, afirmou.

Marcela Santander, assessora da Pró-Reitoria de Graduação (PRG) e responsável pelo  comitê organizador da calourada, enfatizou a importância de apresentar a Universidade aos novos alunos. “Mostramos que há toda uma estrutura pronta e que o estudante vai receber acolhimento em todos os momentos de sua trajetória acadêmica. Também reunimos todas as entidades estudantis para apresentar seus projetos e dar as boas-vindas, além de promover apresentações de esportes praticados na Universidade”, completou. 

Sonhos e expectativas

Natural de Feira de Santana, na Bahia, Enzo Machado chegou a Campinas há uma semana para se preparar para sua nova jornada. Calouro da Engenharia Elétrica, disse que sempre teve vontade de estudar na Unicamp. “Pesquisei antes sobre o curso e a Universidade, vi tudo o que ela oferece, e aumentou a vontade de vir para cá. Nestes primeiros dias, conheci bastante gente e já encontrei lugar para morar, mas ainda estou me estabelecendo. Agora, finalmente, as aulas vão começar”, afirmou. 

Da esquerda para a direita, Karina Vazo, Enzo Machado e Larissa Costa Amaral: nova jornada

Larissa Costa Amaral, que mora em Campinas e tem 20 anos, é caloura do curso de Midialogia e comemorou a realização de um sonho. “Eu tentei o vestibular antes, mas não passei. Estou muito feliz de ter conseguido. Era realmente o meu sonho fazer esse curso. Estou com muitas expectativas para conhecer um mundo novo.” 

Karina Vazo, de Jundiaí, caloura de Economia, contou que conheceu a Universidade durante o Unicamp de Portas Abertas (UPA). “Sempre quis estudar Economia na Unicamp e vim duas vezes na UPA, a primeira durante o Ensino Médio e a segunda já no cursinho pré-vestibular. As minhas expectativas são as melhores, quero curtir o curso e a Universidade. Vou continuar morando em Jundiaí e pegar o ônibus fretado”, contou. 

Grupo de aprovados no Profis: oportunidade
Grupo de aprovados no Profis: oportunidade

O grupo formado pelos estudantes Gabriely Muniz, Giovanna Laura, Ana Carolina Macena, Jaciel Lima e Lorraine Silva entrou no clima da comemoração. Aprovados no Programa de Formação Interdisciplinar Superior (ProFIS) da Unicamp, curso superior gratuito de dois anos, voltado a alunos que concluíram o ensino médio em escolas públicas de Campinas, eles já fazem planos. No ProFIS, após o curso, os alunos podem ingressar na graduação da Unicamp sem vestibular. “Estamos com a mente aberta, queremos conhecer todos os cursos para decidir melhor”, afirmou Muniz. “Esse é o ponto positivo do ProFIS, essa oportunidade de a gente optar pelo curso certo para cada um”, completou Silva. 

Piracicaba e Limeira

No campus de Piracicaba, a Faculdade de Odontologia (FOP) também recebeu seus calouros nesta segunda-feira. Já no campus de Limeira, que recebe cerca de um terço dos ingressantes da Unicamp neste ano, as atividades de recepção serão nesta terça-feira, com atividades esportivas e culturais e estandes para informações e participação dos grupos estudantis. No período da manhã, haverá atividades na Faculdade de Tecnologia (FT) e, no período da tarde, a celebração será na Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA).

Durante o percurso, houve muita confraternização com os veteranos e clima de festa para os ingressante
Durante o percurso, houve muita confraternização com os veteranos e clima de festa para os ingressante
Durante o percurso, houve muita confraternização com os veteranos e clima de festa para os ingressante
Caminhada teve início na Praça da Paz e seguiu até o Ginásio Multidisciplinar com várias

Confira mais informações sobre a Calourada 2026.

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Durante o percurso, houve muita confraternização com os veteranos e clima de festa para os ingressante
Durante o percurso, houve muita confraternização com os veteranos e clima de festa para os ingressantes

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Série de vídeos apresenta serviços da Universidade aos calouros

A recepção aos calouros que ingressam na Unicamp em 2026 começa na próxima segunda-feira (23). Mas antes disso, como parte das boas-vindas, quando a Universidade completa 60 anos, os alunos ingressantes já podem conferir nas redes sociais uma série de vídeos apresentando os serviços que a instituição oferece para facilitar a rotina dos estudantes.

Quanto custa e como é comer no Restaurante Universitário (RU) são informações apresentadas em um dos vídeos, que estão sendo publicados no Instagram e Youtube. Os conteúdos também incluem coisas que todo calouro e caloura precisa saber para facilitar seu dia a dia na Unicamp.

Além disso, os calouros também são informados sobre as bolsas e auxílios oferecidos através da política de permanência estudantil, que têm inscrições abertas até 10 de maio. Outro vídeo apresenta uma novidade deste ano: a entrega de um Kit Ingressante contendo uma camiseta, uma caneta, um “vale-bandejão” e uma sacola reutilizável.

Leia mais:

Unicamp se prepara para receber os calouros

Assista aos vídeos:

Como é comer no Restaurante Universitário

6 coisas que todo calouro (a) precisa saber

Prazo para solicitar bolsas e auxílios termina dia 10/3

Confira o kit Ingressante

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Socióloga e economista Sabrina Fernandes é a nova cientista residente do IdEA

O Instituto de Estudos Avançados da Unicamp (IdEA) receberá a socióloga e economista Sabrina Fernandes como Cientista Residente, fortalecendo sua agenda de debates transdisciplinares sobre economia política, ecologia política e transição ecológica justa. Com trajetória acadêmica internacional e ampla inserção no debate público, a pesquisadora desenvolverá atividades que articulam produção intelectual, análise crítica e diálogo com a comunidade acadêmica e a sociedade.

Sabrina Fernandes comandará a residência cientística Policrise planetária e o desafio da transição entre os dias 16 de março a 16 de maio. A socióloga vem à Unicamp através do Programa “Cesar Lattes” do Cientista Residente.

Fernandes nasceu em Goiânia, Brasil, em 1988. Economista de formação, possui mestrado em Economia Política e doutorado em Sociologia pela Carleton University, no Canadá. Sua trajetória acadêmica combina formação interdisciplinar em economia e sociologia com atuação internacional em centros dedicados à análise crítica das transformações políticas, econômicas e ecológicas contemporâneas.

Atualmente, é chefe de pesquisa do Alameda Institute, organização criada para promover pesquisas engajadas e críticas sobre a transição para longe de uma era de catástrofes. Nos últimos anos, foi bolsista de pós-doutorado no Centro de Estudos Latino-Americanos Avançados da Universidade de Guadalajara, no México, e no Grupo Internacional de Pesquisa sobre Autoritarismo e Contra-estratégias da Rosa Luxemburg Stiftung, na Alemanha. Também exerceu nomeações de pesquisa sênior na Universidade de Brasília, na Universidade de Viena e na Freie Universität Berlin.

Sabrina Fernandes: trajetória acadêmica internacional e ampla inserção no debate público
Sabrina Fernandes: trajetória acadêmica internacional e ampla inserção no debate público

Produção intelectual e obras publicadas

A produção intelectual de Sabrina Fernandes circula em português, inglês, espanhol e outras línguas, abrangendo campos como sociologia, economia política e ecologia política. Em 2019, lançou Sintomas Mórbidos, pela Autonomia Literária, obra dedicada à análise da fragmentação política no Brasil e que se tornou best-seller na área. Seu segundo livro, Se quiser mudar o mundo, publicado pela Editora Planeta, já está em sua sétima edição.

Além da autoria de livros, Sabrina é responsável por novas edições comentadas de obras de Karl Marx e Friedrich Engels no Brasil, publicadas pelo Grupo Editorial Record. Essas edições incluem introdução, revisão técnica e notas originais para títulos como Manifesto Comunista, O 18 de Brumário de Luís Bonaparte e o box especial com os três volumes de O Capital.

Atuação editorial, comunicação pública e transição ecológica

A economista também atua no campo editorial e no debate público internacional. É ativista do Pacto Ecossocial do Sul da América Latina e integra o comitê editorial do NACLA Report, onde co-organizou uma edição especial sobre capitalismo verde e América Latina. Foi editora colaboradora da revista Jacobin nos Estados Unidos e editora-chefe da versão impressa da Jacobin Brasil.

Nos últimos anos, direcionou seu trabalho ativista, de pesquisa e de publicação para combater a despolitização e promover uma transição ecológica justa e internacionalista. Foi pioneira do projeto de comunicação digital Tese Onze, que integrou pesquisa acadêmica e comunicação ativista, alcançando mais de 400 mil assinantes em diferentes plataformas online, incluindo podcast e clube do livro. Participa frequentemente de entrevistas e publica artigos em veículos de grande audiência, especialmente como colunista do The Intercept Brasil, além de atuar como palestrante em diversos países.

Sua trajetória articula pesquisa acadêmica, produção editorial e comunicação pública, consolidando uma atuação que conecta economia política, sociologia e debates contemporâneos sobre transição ecológica e transformação social.

Matéria publicada originalmente no site do Idea.

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Projeto propõe pedagogia inovadora no ensino de lutas e artes marciais para crianças

O tatame como espaço de acolhimento a partir de uma pedagogia para o ensino de lutas mais inovadora, inclusiva e baseada no respeito mútuo. Este é o foco do projeto  “(Re)pensando os caminhos entre universidade e comunidade no campo das Lutas, Artes Marciais e Esportes de Combate: proposta de inovação no ensino de crianças baseada no Tactical Games Approach”, da Faculdade de Educação Física (FEF), aprovado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) dentro do programa “Primeiros Projetos”.

Com duração de três anos, o projeto de extensão terá concessão de bolsas para um pesquisador de pós-doutorado, dois mestrandos e dois bolsistas de iniciação científica. A maior parte dos recursos, de pouco mais de R$ 600 mil, será destinada à formação desses pesquisadores, explica o professor da FEF e coordenador do projeto, Luiz Gustavo Bonatto Rufino, que é faixa-preta de jiu-jitsu.

Uma das ações centrais será o oferecimento de um curso de extensão gratuito para treinadores e professores de lutas que atuam com crianças, independentemente da modalidade ou da formação em Educação Física. “Após essa formação inicial, os pesquisadores acompanharão esses profissionais em seus próprios contextos de atuação, como academias, clubes e projetos sociais, fortalecendo a relação entre universidade e comunidade”, destaca Rufino.

“O objetivo não é a Universidade dizer o que deve ser feito, mas construir junto”, completa o professor, que ressalta que o projeto prevê “escuta ativa dos treinadores, valorizando seus saberes e experiências”. A proposta é reunir representantes de modalidades — como judô, jiu-jitsu, karatê, boxe e esgrima, entre outras — para fomentar a troca de experiências.

O coordenador do projeto, Luiz Gustavo Bonatto Rufino e a professora Mariana Simões Pimentel Gomes: oferecimento de um curso de extensão gratuito para treinadores e professores de lutas que atuam com crianças
O coordenador do projeto, Luiz Gustavo Bonatto Rufino e a professora Mariana Simões Pimentel Gomes: ensino de lutas baseado no respeito mútuo

Também integrante do projeto, a professora de educação física adaptada Mariana Simões Pimentel Gomes, igualmente faixa-preta de jiu-jitsu, enfatiza que o objetivo é construir alternativas pedagógicas que ampliem o acesso, valorizem a diversidade corporal e promovam experiências mais significativas para as crianças. “A ideia partiu da constatação de que o ensino tradicional das modalidades de luta ainda é marcado por modelos conservadores, hierarquizados e pouco inclusivos, voltados majoritariamente a um perfil específico de praticante”, explica.

A professora destaca que sua trajetória pessoal influenciou diretamente essa abordagem. Filha de um faixa-preta de jiu-jitsu e irmã de uma pessoa com deficiência, ela relata que desde cedo percebeu como o ensino das lutas era direcionado apenas a determinados corpos. “Eu queria ensinar de outra forma, romper com a ideia de que a luta é só para um tipo de pessoa”, afirma. Essa inquietação levou à criação, ainda na graduação, da escolinha de lutas da FEF, um projeto de extensão voltado a crianças da comunidade.

Rufino ressalta que sua experiência pessoal com o jiu-jitsu também foi determinante para sua trajetória acadêmica. Ele conta que iniciou a prática ainda criança, após enfrentar dificuldades de comportamento na escola, e que a modalidade teve impacto direto em sua formação pessoal e profissional. “As lutas me levaram à Educação Física e à universidade”, relata.

Jogos e táticas

Entre os principais eixos do projeto está a busca por ressignificar o ensino baseado apenas na repetição técnica de golpes por abordagens que valorizem jogos, situações-problema e princípios táticos comuns às diferentes lutas. “A ideia é que crianças compreendam, desde cedo, aspectos como movimentação, percepção do outro e tomada de decisão”, continua Rufino.

“Geralmente, a criança aprende um movimento e o repete muitas vezes. Depois, na hora da luta, não sabe quando realizar, como se movimentar ou como reagir ao oponente”, ressalta. “A alternativa apresentada é começar pela lógica da luta: entender que o alvo é móvel e que, ao mesmo tempo em que se ataca, também se é alvo.”

Estudantes participam de aula de lutas na FEF; uma das ações centrais do projeto é o oferecimento de um curso de extensão gratuito para treinadores e professores de lutas que atuam com crianças
Estudantes participam de aula de lutas na FEF; uma das ações centrais do projeto é o oferecimento de um curso de extensão gratuito para treinadores e professores de lutas que atuam com crianças

Ao transpor princípios estruturais das lutas para jogos e situações pedagógicas, o projeto busca tornar o aprendizado mais significativo. A ideia é ensinar desde o início conexões e compreensões que, tradicionalmente, só seriam adquiridas muitos anos depois — muitas vezes, apenas na faixa-preta. “Queremos formar praticantes mais conscientes, mais completos e mais autônomos sobre o que estão fazendo”, afirma.

Os docentes também chamam atenção para o alto índice de evasão nas modalidades de luta. Embora muitas pessoas iniciem a prática, poucas permanecem até níveis mais avançados. Para eles, isso está diretamente relacionado a modelos pedagógicos excludentes. “A história que se conta é a de quem chegou à faixa-preta, mas pouco se fala de quem ficou pelo caminho”, observa o professor.

Mais do que desempenho competitivo, o foco está na formação humana. O trabalho enfatiza consciência corporal, autoestima e inclusão. “Todo corpo é potente — seja gordo, magro, alto, baixo, feminino ou masculino. O tatame pode ser um espaço de descoberta e transformação”, destaca Gomes.

A professora enfatiza ainda a necessidade de combater práticas de intimidação, assédio e exclusão, especialmente em relação a mulheres, pessoas LGBTQIA+ e pessoas com deficiência. “Ainda engatinhamos em muitas questões, especialmente de gênero e diversidade. Se você for a uma academia hoje, verá poucas mulheres proporcionalmente. E pessoas LGBTQIA+ muitas vezes não se sentem acolhidas. A luta precisa ser para todos — mas isso exige um olhar atento, não pode ser só discurso”, destaca.

“O tatame precisa ser um espaço de acolhimento, não de temor, assédio ou silenciamento. É possível aprender respeito sem medo. Nem todo mundo vai gostar de lutar, e está tudo bem. Mas todos devem ter o direito de experimentar e se sentir acolhidos”, completa.

Além da produção de artigos científicos, o projeto prevê a elaboração de um material didático voltado ao campo profissional. A expectativa é que esse material contribua para a continuidade das reflexões e das transformações propostas, mesmo após o término da pesquisa. “Publicamos muitos artigos, mas eles nem sempre chegam ao campo profissional. Por isso, o curso vai gerar um material didático em linguagem acessível, que permita interação com os profissionais. Queremos construir relações de diferentes formas e documentar isso para que outras pessoas possam continuar”, destaca a professora.

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Arte circense é tema de seminário internacional e espetáculos

A Unicamp recebe, de 19 a 25 de fevereiro, a Semana de Verão de Pesquisa Circense, um seminário internacional imersivo que espalhará a arte do circo pelo campus de Barão Geraldo. “Será uma semana inteira de atividades, e vamos circular bastante. Apesar de ser um evento fechado, queremos ter alguns momentos de interação com o público, para que as pessoas saibam o que está acontecendo”, adianta Marco Antonio Coelho Bortoleto, professor da Faculdade de Educação Física (FEF) e coordenador do Grupo de Pesquisa em Circo (Circus) da Unicamp, importante referência na área.

Segundo Bortoleto, a proposta do encontro surgiu a partir de um seminário promovido pelo Circus em dezembro de 2024. “A maioria dos congressos é realizada em poucos dias e com agendas muito cheias. A ideia foi criar um encontro diferente, mais intenso, com um grupo menor de pesquisadores reunidos por mais tempo para discutir temas de forma aprofundada”, explica.

O professor da FEF e coordenador do Grupo de Pesquisa em Circo, Marco Antonio Bortoleto: momentos de interação com o público
O professor da FEF e coordenador do Grupo de Pesquisa em Circo, Marco Antonio Bortoleto: momentos de interação com o público

O evento tem como eixo central a elaboração de uma carta de recomendações, que será construída coletivamente no último dia e tornada pública. O documento reunirá diretrizes e sugestões para o avanço da pesquisa e das políticas relacionadas ao circo, tanto no Brasil quanto internacionalmente. Para isso, quatro grandes temas orientam as discussões: as escolas e processos de formação em circo; o papel dos festivais e eventos culturais; a dramaturgia circense; e o circo social, área que utiliza o circo como ferramenta de transformação social e na qual o Brasil tem destaque internacional.

De acordo com Bortoleto, a expectativa é que o documento reverbere em redes, instituições e organizações representadas pelos participantes. “Muitos deles atuam como representantes de associações, redes e centros de formação em seus países. A ideia é que esse material circule e ajude a orientar ações futuras”, afirma.

Com mais de 20 anos de atuação, o Circus conta com intensa produção acadêmica, com livros, artigos e orientações de mestrado e doutorado e atua na formulação de políticas públicas, em assessorias institucionais e em ações interdisciplinares que articulam arte, educação, saúde e assistência social.

Para o coordenador, o crescimento do interesse pelo tema é evidente. “Nunca houve tantas escolas, artistas e pesquisadores quanto hoje. Em um mundo cada vez mais tecnológico, o circo se destaca por reconectar as pessoas com o corpo, com a experiência direta e por dialogar com diferentes áreas do conhecimento. Pensamos o circo como arte, mas também como um campo que dialoga com educação, transformação social e saúde”, destaca.

O evento é realizado pela FEF, pelo Instituto de Artes e pela Pró-reitoria de Extensão, Esporte e Cultura
O evento é realizado pela FEF, pelo Instituto de Artes e pela Pró-reitoria de Extensão, Esporte e Cultura
O evento é realizado pela FEF, pelo Instituto de Artes e pela Pró-reitoria de Extensão, Esporte e Cultura

“Nosso trabalho é multidisciplinar e buscamos que seja transdisciplinar. Ao longo da semana, teremos palestras com profissionais de diversas áreas, como uma neurocientista que falará sobre a contribuição do circo para o desenvolvimento humano, além de representantes de redes internacionais de formação em circo. Temos pessoas das artes, da educação, da educação física, da assistência social e da saúde”, afirma. “A pesquisa em circo hoje tem muitas vertentes. É um cenário bastante promissor”, completa.

O evento, realizado pela FEF, pelo Instituto de Artes (IA) e pela Pró-reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (Proeec), selecionou 15 participantes. “Abrimos uma chamada pública, até porque o financiamento é público. A chamada foi divulgada em português, espanhol, inglês e francês. Distribuímos nas listas e nos espaços que conhecemos e, para nossa surpresa, tivemos 50 inscrições”, continua Bortoleto.

A coordenação organizou os participantes em três grupos. “O primeiro é formado por pesquisadores da Europa e da América do Norte, como Espanha, Canadá e Estados Unidos. Selecionamos cinco pesquisadores da América Latina e teremos cinco brasileiros, de diferentes regiões.”

No penúltimo dia do seminário, 24 de fevereiro, haverá uma performance na hora do almoço, em frente ao Restaurante Universitário. “Convidamos dois artistas para realizar essa apresentação. Além disso, em outros dois dias da semana iremos a eventos em Mogi Mirim e em São Paulo. Na Capital, vamos ao Centro de Memória do Circo, um dos melhores espaços de acervo sobre circo que temos para uma palestra aberta ao público”, completa.

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A Semana de Verão de Pesquisa Circense acontece entre os dias 19 e 25 de fevereiro pelo campus de Barão Geraldo
A Semana de Verão de Pesquisa Circense acontece entre os dias 19 e 25 de fevereiro pelo campus de Barão Geraldo

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Terrae Didatica, revista editada no Instituto de Geociência, atinge conceito de excelência na Capes

A revista Terrae Didatica — editada no Instituto de Geociências (IG) da Unicamp pelo docente Celso Dal Ré Carneiro, fundador da revista — atingiu o conceito A3 do Qualis Capes no novo sistema de avaliação das publicações científicas brasileiras, que entrou em vigor em 2025. A faixa A é reservada a periódicos de excelência. Trata-se de um importante reconhecimento, que atesta a qualidade da publicação e sua visibilidade. Além disso, o conceito obtido aumenta substancialmente as chances de a revista ser contemplada em editais concorridos do CNPq.

Lançada oficialmente em fins de 2005, a revista possui dois registros de ISSN: um para a versão impressa, que foi interrompida no final de 2016 por falta de recursos, e outro para a online, que sempre predominou nas consultas, devido à facilidade de acesso. Ao longo dos anos, a Terræ Didatica, editada ininterruptamente desde sua criação, ampliou a periodicidade e a quantidade de artigos científicos publicados. Entre 2005 e 2009, a revista publicou um número por volume; entre 2010 e 2013, passou a dois números por volume, alcançando três entre 2014 e 2017. Já em 2018, o periódico passou a ser trimestral, quando se fundiu com a Terræ, outra revista científica do IG. Desde que adotou o padrão contínuo de publicação, em 2019, a revista acelerou a difusão dos artigos aceitos. O número de publicações por volume é expressivo: foram 551 artigos e outras comunicações de 2005 até o final de 2025. Em pouco mais de 20 anos, a revista recebeu 794 contribuições. Isso significa que cerca de 30% das submissões foram rejeitadas por diferentes motivos.

O corpo de consultores editoriais Terrae Didatica é altamente qualificado, sendo formado por especialistas de diferentes áreas. “Essa característica, fundamental para que o material recebido seja avaliado da forma mais abrangente e isenta possível, exige tempo e dedicação dos consultores”, destaca Carneiro. “Agradecemos a todos eles pelo fato de colaborarem com a revista sem qualquer remuneração”, reforça. O periódico adota o regime duplo-cego, em que os autores desconhecem os nomes dos avaliadores durante a avaliação, e o avaliador tem dificuldade para identificar os autores. “Caso os pareceristas permitam ser identificados, os autores saberão os nomes de quem avaliou seus trabalhos. Muitas vezes eles agradecem pelas sugestões recebidas”, explica o editor-chefe. Esse trabalho “requer muita atenção aos detalhes, mas, ao mesmo tempo, exige um olhar de conjunto, para garantir que a revista permaneça aberta a quaisquer autores capazes de produzir trabalhos de boa qualidade, sem discriminação”, completa.

O professor Celso Dal Ré Carneiro, fundador da revista: periódico de excelência
O professor Celso Dal Ré Carneiro, fundador da revista: periódico de excelência

Historicamente, cerca de 20% dos trabalhos publicados a cada ano pela revista estão relacionados ao Programa de Pós-Graduação em Ensino e História de Ciências da Terra (PPG-EHCT) do IG. A proporção pode ser considerada saudável, pois representa uma endogenia relativamente modesta. No volume 21, publicado em 2025, 11 dos 47 trabalhos estão relacionados a professores, estudantes ou ex-alunos do PPG-EHCT. Além disso, a comunidade nacional aceita bem os campos e temas de interesse abordados pela revista, resultantes de pesquisas originais e inéditas, de cunho acadêmico ou técnico-profissional, nas áreas de Ciências da Terra, Geologia, Geografia, História da Ciência, Educação, Ensino e outros campos relacionados às Ciências do Ambiente. Terræ Didatica também tem veiculado em suas páginas informações e relatos das atividades do Fórum Nacional de Cursos de Geologia.

Carneiro lembra que muitos fatores interferem nas avaliações da Capes, como a regularidade e pontualidade da publicação; o devido respeito a prazos ágeis de publicação; a qualidade do corpo editorial; o rigor na avaliação; a atualidade das contribuições; a inexistência (ou baixíssima incidência) de erros de formatação ou ortografia; a diversidade de fontes de indexação; a abrangência do público-alvo; a baixa endogenia; os temas abordados. “O conceito A3 é meritório e, de certa forma, justo, prevalecendo para todas as áreas de avaliação da Capes, uma vez que a revista foi assim classificada pela área-mãe (Área 46-Ensino)”, afirma.

O cenário de coexistência das revistas comerciais e das revistas de acesso livre mudou com a internet. “As editoras comerciais tiveram de se adaptar, mas continuam a ‘vender’ o acesso à maioria dos artigos que publicam, enquanto ‘douram a pílula’ ao oferecer alguns deles no formato open-access”, comenta Carneiro. Terrae Didatica sempre se manteve no padrão de revistas de acesso livre (open-access journals). Foi uma das primeiras revistas que passaram a ser veiculadas pelo Portal de Periódicos Eletrônicos Científicos (PPEC) da Unicamp, cuja proposta é abrigar, em uma única plataforma, todos os periódicos editados e produzidos no âmbito da Universidade. O PPEC, que é uma iniciativa da Coordenadoria Geral da Universidade (CGU) gerenciada pelo Sistema de Bibliotecas (SBU), sugere que as revistas organizem toda a sua publicação em modalidade contínua. A revista do IG opera somente por volume desde 2019, sem subdivisão em fascículos.

Origens de Terrae Didatica

Carneiro descreve como se deu, entre 2004 e 2005, a criação da revista. “Alguns anos depois da criação dos cursos de graduação em Geologia e Geografia da Unicamp, o professor Bernardino Figueiredo, que havia sido diretor do Instituto e sempre foi um entusiasta da ciência, reuniu um grupo de docentes dos quatro departamentos do IG com a finalidade de lançar uma revista que publicasse os resultados das pesquisas do Instituto. O projeto era ambicioso, pois todos os artigos deveriam ser redigidos em inglês e a distribuição seria nacional e internacional.” Assim surgiu a revista Terræ, que passaria a ocupar o lugar deixado pelos extintos Cadernos do IG, apesar dea proposta ter sido acolhida com algum ceticismo pelos docentes, pois a obtenção de recursos poderia dificultar sua publicação. “Graças ao apoio de ex-alunos, em pouco tempo a Petrobras se dispôs a publicar um anúncio na contracapa, gerando uma receita que equilibraria os orçamentos”, conta Carneiro.

Meses depois, Figueiredo lançou a ideia de uma outra publicação periódica, predominantemente em português, com a intenção de divulgar os trabalhos e pesquisas do IG no campo educacional. A denominação seria Terræ Didatica, para vincular uma revista à outra. Assim, em 2005, a revista foi criada, mesmo com recursos escassos, com a missão de ser um veículo de difusão e de intercâmbio de artigos educativos, materiais didáticos e recursos de ensino-aprendizagem que atendessem ao público das áreas ambiental e de Ciências da Terra.

Em 2018, ocorreu a fusão com a Terræ, o queampliou o espectro temático da publicação, até então restrito ao segmento educacional. “O novo perfil possibilita acolher artigos resultantes de pesquisas científicas, educacionais ou mistas e abre a alternativa de compor conjuntos temáticos com resultados de investigações relevantes no plano internacional”, destaca o editor-chefe. A revista aceita artigos inéditos resultantes de pesquisas científicas ou educacionais; sínteses, reflexões, relatos ou análises críticas de projetos e propostas relacionados às Ciências da Terra; números temáticos ou monográficos sintetizando resultados de um ou mais grupos de pesquisa, além de materiais didáticos originais e recursos de ensino, em meio eletrônico. Entre esses últimos, são aceitos textos de apoio, sínteses, aplicações práticas e experimentos educativos; análises de mapas e outros documentos das Geociências que divulguem ou abordem aspectos do conhecimento regional ou mesmo global; relatórios de projetos, workshops, simpósios, congressos e qualquer outra atividade relevante relacionada às Ciências da Terra; traduções de textos altamente relevantes para o avanço das Geociências; e relatos de pesquisas científicas, educativas e propostas de desenvolvimento de pesquisas inovadoras em qualquer área das Ciências da Terra.”

Convite

Carneiro convida os autores a submeterem suas contribuições, tal como no editorial da edição de 2026:

Terræ Didatica está aberta para acolher contribuições de excelente qualidade, sempre com foco nas Geociências ou em campos multidisciplinares de pesquisa geocientífica e/ou de aplicação geoeducacional. A revista consolidou-se perante a comunidade nacional e internacional das Ciências da Terra, sendo escolhida, tanto por pesquisadores mais jovens quanto pelos experientes, para divulgar resultados de investigações originais e inéditas. Esperamos expandir a penetração da revista em 2026, ao mesmo tempo em que reiteramos a confiança no valor inestimável da difusão de ciência de boa qualidade.”

Interessados em enviar artigos podem entrar em contato com o editor-chefe da revista pelo email cedrec@unicamp.br.

Foto de capa:

A revista foi lançada oficialmente em fins de 2005
A revista foi lançada oficialmente em fins de 2005

O post Terrae Didatica, revista editada no Instituto de Geociência, atinge conceito de excelência na Capes apareceu primeiro em Jornal da Unicamp.

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Unicamp se prepara para receber os calouros

No ano em que completa seis décadas de existência, a Unicamp preparou uma festa especial para receber os calouros de 2026. A Pró-Reitora de Graduação (PRG) planejou uma série de atividades culturais, pedagógicas e de orientação,  nas quais os novos alunos terão oportunidade de conhecer colegas e professores, além de estabelecer contato com os órgãos de apoio da Universidade onde receberão informações sobre matrículas, bolsas, auxílios e programas de permanência estudantil. 

O programa de recepção aos calouros deste ano será realizado nos dias 23 e 24 de fevereiro e traz como novidade o Kit Boas Vindas, nome adotado pela PRG para um conjunto de ações voltadas aos ingressantes. 

A pró-reitora de Graduação, Mônica Cotta: projeto-piloto do kit boas vindas
A pró-reitora de Graduação, Mônica Cotta: projeto-piloto para reforço de conteúdo (Foto: Lúcio Camargo)

O  destaque do kit é um projeto-piloto em que a Universidade oferece apoio pedagógico aos novos alunos. Num trabalho conjunto com o Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (Imecc), a PRG preparou o curso de Pré-Cálculo (Rumo à Matemática). Trata-se de um curso de extensão na modalidade difusão produzido pelo Imecc, com apoio técnico do Grupo Gestor de Tecnologias Educacionais da Unicamp (GGTE) e da Escola de Extensão da Unicamp (Extecamp). O curso é gratuito e à distância, no horário que melhor convier ao aluno.

Segundo a PRG, o objetivo do curso é reforçar para o estudante os conteúdos de ensino médio que são pré-requisitos importantes para as disciplinas de matemática no ensino superior, em especial Cálculo I e Geometria Analítica e Vetores. 

A pró-reitoria avalia que, com isso, o estudante chegará à sala de aula mais bem preparado e com maior possibilidade de sucesso acadêmico, reduzindo os índices de retenção e evasão. 

O Kit Boas-Vindas traz, ainda, uma série de vídeos que apresentam a universidade aos estudantes e falam dos serviços que a instituição oferece.

Os calouros serão recebidos no Ginásio com a entrega do kit ingressante
Os calouros serão recebidos no Ginásio com a entrega do kit ingressante (Foto: Antonio Scarpinetti)

Engenharia Civil e Arquitetura

Como parte do programa de recepção aos calouros, a Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (Fecfau) da Unicamp vai entregar um kit de desenho aos ingressantes. De acordo com a direção da unidade, o material tem como objetivo oferecer suporte adequado aos alunos para o desenvolvimento das disciplinas de desenho ao longo da graduação, contribuindo para a adaptação acadêmica e a qualificação do processo formativo desde o ingresso.

A entrega dos kits ocorrerá em 3 de março, às 19h, numa atividade organizada pela coordenação do curso. Segundo a direção, a medida evidencia o compromisso da Universidade com a permanência e o sucesso acadêmico dos estudantes.

Os novos alunos do curso de arquitetura vão receber também um kit desenho – composto por uma ecobag, um jogo de esquadros, um conjunto de canetas, lapiseira, um compasso e uma prancheta A3 com régua. O coordenador da Faculdade de Arquitetura, Rafael Urano, lembra neste ano a prova de habilidade específica – quando havia prova de desenho de criatividade, memória e desenho técnico (geométrico) –  foi retirada do vestibular. O coordenador ressaltou, no entanto, que grande parte do curso tem o desenho como um de seus principais fundamentos e é importante que o aluno tenha familiaridade com a matéria. A entrega do kit vai ocorrer no dia três de março.

Atividades da Calourada 2025; programa de acolhimento não registra há vários anos trotes violentos
Atividades da Calourada 2025; programa de acolhimento não registra há vários anos trotes violentos
Atividades da Calourada 2025; programa de acolhimento não registra há vários anos trotes violentos (Foto: Lúcio Camargo)

Primeiros dias

Pró-reitora de Graduação, a professora Mônica Cotta diz se lembrar até hoje dos primeiros dias na Unicamp, na primeira metade da década de 1980, quando foi aprovada no vestibular para o curso de Física. “Foi o início de uma jornada que mudou minha vida e espero que mude também a de cada aluno que passar por aqui”, disse a professora. “Porque a Unicamp não é apenas um curso de graduação. Trata-se de um espaço de vivência, de convivência, de pluralidade de ideias e de saberes”, acrescentou. “E a gente espera que você, novo aluno, venha para cá para aproveitar tudo isso.”

A pró-reitora lembrou que, ao longo dos anos, a Unicamp consolidou uma extensa rede de apoio ao estudante em áreas como moradia estudantil,  aprendizagem, carreira e apoio à saúde. O objetivo principal dessa rede, observou Cotta, é justamente garantir que o estudante consiga se manter na Universidade e concluir o curso.

A caminhada sai da praça da Paz em direção ao Ginásio Multidisciplinar; a concentração está marcada para as 8h30, no dia 23
A caminhada sai da praça da Paz em direção ao Ginásio Multidisciplinar; a concentração está marcada para as 8h30, no dia 23 (Foto: Antonio Scarpinetti)

Caminhada 

O programa de acolhimento aos novos alunos começa com uma caminhada promovida pela Diretoria de Esportes da Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (Proeec). A caminhada sai da praça da Paz em direção ao Ginásio Multidisciplinar. A concentração está marcada para as 8h30.

Os calouros serão recebidos pelas baterias da Unicamp, no Ginásio, com mensagens de boas-vindas apresentadas pelo reitor Paulo César Montagner, pelo Coordenador-Geral da Universidade, professor Fernando Coelho, pela pró-reitora de Graduação, e por outros representantes da administração central da Universidade

No Ginásio acontecerá a entrega do Kit Ingressante – uma camiseta com a arte da Calourada e uma cor escolhida especialmente para o ano de ingresso; uma caneca para uso nos restaurantes universitários, onde não há mais copos plásticos, além de um “vale-bandejão” para a primeira refeição na Universidade. O kit conta ainda com uma sacola reutilizável, para carregar as peças com conforto.

A comissão organizadora da Calourada 2026 instalou no Ginásio um totem de foto para que cada aluno possa registrar seu primeiro dia na Universidade. Haverá ainda  estandes de grupos estudantis, divulgandoas atividades extracurriculares desenvolvidas por associações atléticas, centros acadêmicos e alunos veteranos..

A comissão organizadora lembra que cada curso prepara uma programação de recepção para apresentar seus espaços, incluindo coordenações, secretarias e direção. As comissões de recepção e os mentores de cada unidade ou curso farão contato com os calouros para garantir que cada novo aluno possa aproveitar as atividades.

Cada curso prepara programação para de recepção para apresentar seus espaços
Cada curso prepara programação para de recepção para apresentar seus espaços (Foto: Antonio Scarpinetti)

A PRG lembra que a Calourada é uma ação de acolhimento e, por conta disso, há vários anos não há registro de trotes violentos. Ainda assim, abriu um telefone para denúncias: (19) 3521-6000.

Almoço

A Universidade vai oferecer um almoço gratuito no Restaurante Universitário (RU), que fica em frente à Diretoria Acadêmica (DAC). O evento é uma ótima oportunidade para conhecer diferentes órgãos da Universidade, como a Prefeitura do Campus, a Secretaria de Vivência dos Campi (SVC), a Agência de Inovação da Unicamp (Inova), o Hemocentro, a Centro de Saúde da Comunidade (Cecom), os Sistemas de Bibliotecas, a Diretoria Executiva de Apoio e Permanência Estudantil (Deape) e muitos outros.

Ingressantes são recepcionados no campus de Piracicaba; ônibus de Piracicaba no dia 23 para caminhada
Ingressantes são recepcionados no campus de Piracicaba; ônibus de Piracicaba no dia 23 para caminhada (Foto: César Maia/FOP)

Piracicaba

A Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP), da Unicamp, também terá uma programação especial para receber os novos alunos. Haverá ônibus de Piracicaba para Campinas no dia 23, mas os estudantes podem comparecer diretamente à praça da Paz para a caminhada. Outras informações podem ser obtidas pelo e-mail da Coordenadoria de Graduação – gradfop@unicamp.br.

Dia 24: Limeira

Os campi Limeira recebem cerca de um terço dos ingressantes da Unicamp neste ano. Por isso, as atividades de recepção da organização central acontecerão na própria cidade. Serão celebrações por campus, com totem de fotos para registrar o primeiro dia, atividades esportivas e culturais, estandes para informações e participação dos grupos estudantis.

No período da manhã, a comitiva de boas vindas passa pelo campus da Faculdade de Tecnologia (FT). No período da tarde a celebração se dá com os estudantes da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA).

Acesse para mais informações sobre a Calourada 2026.

Foto de capa:

Unicamp se prepara para receber os calouros
O programa de recepção aos calouros deste ano será realizado nos dias 23 e 24 de fevereiro (Foto: Antonio Scarpinetti)

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Unicamp terá Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para discutir práticas solidárias e sustentáveis

Diante de um cenário de aprofundamento da desigualdade social e de ocorrências de tragédias naturais provenientes das alterações climáticas, um novo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) sediado na Unicamp, que começa a operar em março deste ano, pretende apresentar às gerações mais jovens alternativas de organização socioeconômica mais solidárias e sustentáveis, focadas no bem-estar social e na saúde ambiental. O Instituto também se propõe a fomentar a cidadania participativa e democrática por meio da criação de um aplicativo que permite a comunicação entre governo e cidadãos.

O Instituto de Informação para uma Economia Solidária e Sustentável (INE2S) está instalado no Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE), o primeiro e único Centro Interdisciplinar de Pesquisa da Unicamp a sediar um INCT. Os centros de pesquisa interdisciplinar da Unicamp são subordinados à Coordenadoria de Centros e Núcleos interdisciplinares de Pesquisa (Cocen), responsável hoje por 23 centros e núcleos.

O INE2S, que tem duração prevista de cinco anos, foi aprovado na última chamada do programa, realizada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) em 2024, cujos resultados foram divulgados em 2025. O Instituto foi contemplado com cerca de R$ 10 milhões em recursos.

O vice-coordenador do INCT, Alfredo Pereira (à esquerda), o vice-diretor do CLE Fábio Bertato e a coordenadora do INE2S Itala D'Ottaviano
O vice-coordenador do INCT, Alfredo Pereira (à esquerda), o vice-diretor do CLE Fábio Bertato e a coordenadora do INE2S Itala D’Ottaviano

A interdisciplinaridade é um dos pontos fortes da proposta, que apresenta características incomuns para um INCT. A ideia do projeto nasceu dentro de um grupo interdisciplinar que atua no CLE desde o final da década de 1980, o Grupo Interdisciplinar Auto-Organização, que trabalha temas como teoria de sistemas, auto-organização, informação e complexidade – sob o comando da professora Itala D’Ottaviano, coordenadora do novo INCT.

“Arriscamos duplamente [na apresentação da proposta], porque, além de ser um tema de ponta, uma novidade, também submetemos [a proposta] na área de filosofia – e a grande maioria dos INCT aprovada, em geral, está nas áreas de biológicas e de exatas”, explica D’Ottaviano, que celebra a aprovação do projeto com uma nota alta na seleção.

Outro diferencial é a abordagem extensionista do projeto, uma vez que prevê contato direto com a comunidade a partir da criação de núcleos em diferentes cidades. Até o momento, já existem nove núcleos organizados em Campinas, Botucatu, Marília, São Carlos, Limeira, Rondonópolis, Belém, Rio de Janeiro, Terra Indígena Canauanim e Bonfim (RR), além de outros em análise.

Esses grupos trabalharão diferentes temas em parceria com escolas locais, em especial com as turmas de ensino médio, aproveitando vocações regionais e as áreas de pesquisas dos participantes.

O público-alvo do projeto envolve desde comunidades indígenas, ribeirinhos, comunidades urbanas socialmente vulneráveis, entre outras. “Vamos abarcar várias áreas importantes que afetam questões sociais, de sustentabilidade, minorias, questões de gênero, preservação da vida senciente, desigualdade, questões de etnia e outras”, afirma D’Ottaviano.

O INE2S está instalado no Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência, o primeiro e único centro a sediar um INCT
O INE2S está instalado no Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência, o primeiro e único centro a sediar um INCT

Pesquisa-ação

O vice-coordenador do INE2S, Alfredo Pereira, que é docente da Universidade Estadual Paulista (Unesp), explica que a motivação é conscientizar os estudantes a respeito de novas perspectivas de empreendedorismo que não visem apenas o lucro e o ganho pessoal, incentivando-os a criar iniciativas de geração de emprego e renda e de auto-organização popular.

“Os jovens estão sem perspectivas. A humanidade vive duas crises. Uma delas é a desigualdade e a falta de oportunidades com a introdução da inteligência artificial. A outra é a ambiental, que gera a necessidade de mudarmos o modelo econômico e termos práticas mais sustentáveis”, argumenta Pereira.

Para o desenvolvimento do trabalho, o INCT planeja utilizar a metodologia da pesquisa-ação, que combina a investigação de um tema com o diálogo com a sociedade. “Estamos muito animados com a possibilidade de trazer a nossa expertise – que é mais teórica, mais ligada ao pensamento crítico, à complexidade – e fazer essa ponte com o concreto, a ação. E não tem ninguém que conhece melhor os problemas locais do que a comunidade, então essa troca é fundamental”, destaca Fábio Bertato, pesquisador, vice-diretor do CLE e tesoureiro do INE2S.

Bertato pontua, ainda, que essa ponte teoria-prática exige formação dos participantes. Nesse contexto, os envolvidos nos núcleos participarão anualmente de ações de capacitação ofertadas pelo Instituto, tanto presenciais quanto virtuais. O projeto conta, também, com verba para a disponibilização de 200 bolsas em diferentes níveis, podendo contemplar desde alunos do ensino médio, professores municipais até pós-doutorandos.

“O INCT estar sediado em um centro de pesquisa coaduna com os objetivos da Universidade de potencializar suas ações com a sociedade. Isso dá um grau ainda maior de institucionalidade para todo o processo”, destaca o secretário executivo do INCT, Marcelo Phaiffer.

Apesar de os institutos estarem instalados fisicamente em instituições brasileiras de excelência, os trabalhos são interconectados com várias regiões e pesquisadores. O INE2S é composto por cerca de 30 pesquisadores de diferentes instituições. Além do CLE, também da Unesp – Campi Marília e Botucatu; Universidade de São Paulo (USP); universidades federais de São Carlos (UFSCar), de Rondonópolis (URF, no Mato Grosso), do Pará (UFPA), de São João del Rei (UFSJ, MG), de Uberlândia (UFU), do Paraná (UFPR), do Mato Grosso do Sul (UFMS), de Minas Gerais (UFMG), da Paraíba (UFPB) e de Pernambuco (UFPE).

Além da interlocução direta com a juventude, o INCT também atuará na divulgação de informações via redes sociais
Além da interlocução direta com a juventude, o INCT também atuará na divulgação de informações via redes sociais

Cidadania

Além da interlocução direta com a juventude, o INCT também atuará na divulgação de informações via redes sociais. “Vamos agir circulando informações que mostrem essas possibilidades, a fim de incentivar as novas gerações a se tornarem empreendedoras, dentro do chamado empreendedorismo social”, esclarece Pereira.

Somado a isso, o docente destaca como um dos resultados principais do INCT a criação de um canal de comunicação “de baixo para cima” entre o povo e os governantes. Por meio de um aplicativo, a ser desenvolvido e vinculado ao sistema informatizado governamental, os cidadãos poderão enviar suas demandas e reinvindicações. Essas informações serão compiladas e organizadas em relatórios, com o auxílio da inteligência artificial, e encaminhadas para a esfera pública pertinente.

“Não existe, hoje, uma ferramenta para a população, continuamente, participar [da gestão pública] por meio das suas avaliações, sugestões e solicitações. Acreditamos que a inteligência artificial pode ser usada em prol da democracia. Essas informações fornecerão subsídios para que a sociedade possa cobrar condutas mais eficazes e eficientes dos governantes”, afirma Pereira.

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Unicamp terá Insitituto Nacional de Ciência e Tecnologia para discurtir práticas solidárias e sustentáveis
O Instituto também se propõe a fomentar a cidadania participativa e democrática por meio da criação de um aplicativo que permite a comunicação entre governo e cidadãos

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Núcleo de Segurança Farmacêutica analisa fraudes em alimentos e eficácia de remédios

O Núcleo de Segurança Farmacêutica da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Unicamp reúne três laboratórios de alta complexidade em áreas distintas – análise de alimentos, genética e toxicologia – para darem suporte técnico aos órgãos públicos que fiscalizam a segurança de alimentos e remédios. O projeto começou a tomar forma em 2019, quando os professores da FCF Rodrigo Catharino, Patricia Moriel e José Luiz da Costa participaram de um edital do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP).

“Ficamos sabendo do edital a duas horas do prazo de encerramento, foi uma correria”, lembra Moriel. “Foi sem pretensão. A gente achou que não ia dar certo, mas era uma grande oportunidade que juntava várias linhas diferentes, e decidimos tentar”.

Os professores os professores da FCF, José Luiz da Costa (à esquerda), Patricia Moriel e Rodrigo Catharino: edital do Ministério da Justiça e Segurança Pública para compra de equipamentos
Os professores os professores da FCF, José Luiz da Costa (à esquerda), Patricia Moriel e Rodrigo Catharino: edital do Ministério da Justiça e Segurança Pública para compra de equipamentos

“Com as expertises diferentes de cada um, submetemos a proposta, que podia ter somente três parágrafos, apresentamos os orçamentos dos equipamentos que queríamos e que já tínhamos feito anteriormente, e deu certo”, continua Moriel.

“Não imaginávamos que o projeto seria aprovado”, diz Costa. “Costumo dizer que jogamos na loteria e ganhamos”, brinca Catharino.

Em 2020, em plena pandemia, os três receberam seus equipamentos e colocaram as máquinas para funcionar. O montante de R$ 9 milhões veio do Fundo de Defesa de Direitos Difusos (FDD), gerido pelo Ministério da Justiça, uma ferramenta financeira que concentra recursos de multas e condenações judiciais para financiar projetos.

Catharino, hoje coordenador do Núcleo, comanda um laboratório voltado à análise de alimentos, Moriel atua na área de genética, e Costa trabalha com toxicologia. Embora estejam localizados em espaços físicos distintos dentro da Unicamp, os três laboratórios compartilham o mesmo objetivo: atuar de forma integrada na promoção da segurança farmacêutica em prol da sociedade.

Os equipamentos para montagem do Núcleo chegaram em 2020, em plena pandemia
Os equipamentos para montagem do Núcleo chegaram em 2020, em plena pandemia
Os equipamentos para montagem do Núcleo chegaram em 2020, em plena pandemia
Os equipamentos para montagem do Núcleo chegaram em 2020, em plena pandemia
Os equipamentos para montagem do Núcleo chegaram em 2020, em plena pandemia

“Foi o nosso compromisso com o projeto aprovado: gerar um novo senso de estabilidade e segurança. Não é apenas fazer análises pontuais, mas criar um conceito que ajude as pessoas a se sentirem realmente seguras em relação aos produtos farmacêuticos que utilizam no dia a dia”, afirma Costa, que também coordena o Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox), localizado no Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp. “O Núcleo, portanto, funciona como um ‘fiel da balança’, garantindo suporte técnico.”

Moriel, por sua vez, destaca que nem todos os pacientes respondem da mesma forma a um medicamento e que reações adversas ou falta de eficácia podem estar relacionadas a fatores genéticos. “O trabalho do laboratório consiste em analisar genes ligados ao metabolismo de fármacos”, explica.

Já no laboratório coordenado por Catharino destacam-se equipamentos de alta resolução, que permitem identificar, em poucos minutos, a composição química de amostras extremamente complexas. “Esse tipo de análise nos permite identificar adulterações, fraudes e também valorizar produtos de pequenos produtores, ganhando impacto social e comprovando a qualidade e a autenticidade do que a agricultura social e ecológica hoje produz”, afirma. “Em muitos casos, trata-se de situações em que há suspeita de fraude ou adulteração, mas não existe outro laboratório público acessível para esse tipo de avaliação.”

O Laboratório de Farmácia Clínica, coordenado por Patrícia Moriel estuda os genes que estão relacionados com as enzimas
O Laboratório de Farmácia Clínica, coordenado por Patrícia Moriel, estuda os genes que estão relacionados com as enzimas

Análise farmacogênica

No Laboratório de Farmácia Clínica, Moriel explica que o objetivo é entender a razão de algumas pessoas responderem a certos medicamentos e outras não. “Buscamos respostas, e é aí que entra a genética”, diz. “Mas é claro que a genética não vai responder a tudo, porque quando uma pessoa tem uma reação adversa ou há inefetividade, são muitos fatores que estão ali embutidos, como interação medicamentosa, uma questão ambiental ou até mesmo estar tomando o remédio de maneira errada.”

“No laboratório, fazemos a análise farmacogenômica, que é estudar os genes que estão relacionados com as enzimas e os transportadores que metabolizam os fármacos. Com o projeto, ampliamos nossa capacidade de execução de testes com dois equipamentos, um PCR de tempo real e um sequenciador genético”, completa.

A partir de parcerias com o Hospital de Clínicas e outros hospitais públicos brasileiros, o projeto tem ampliado sua atuação. “Hoje, um dos nossos maiores problemas é que a farmacogenética conhecida vem da Europa e dos Estados Unidos. Mas nós somos muito diferentes geneticamente, somos uma população totalmente miscigenada. Nosso estudo ganha mais importância porque a gente está analisando usuários do SUS [Sistema Único de Saúde]”, completa. “Os dados gerados refletem a realidade da população brasileira, o que contribui para o avanço da chamada medicina personalizada no contexto nacional.”

Moriel cita ainda a implementação de testes farmacogenéticos no HC para pacientes em tratamento oncológico com medicamentos de alto risco. “Esses testes, hoje realizados de forma rotineira, ajudam a prevenir reações adversas graves e já beneficiaram centenas de pacientes, além de embasar teses de doutorado e outras pesquisas acadêmicas. Desde a implantação do laboratório, tivemos cinco teses de doutorado defendidas que usaram nossos equipamentos para pesquisas com pacientes. Então, se cada tese analisou de 100 a 150 pacientes, podemos calcular uma média de 800 pacientes já beneficiados”.

José Luiz Costa é responsável pelo Laboratório de Toxicologia Analítica, espaço de referência que atende órgãos públicos, empresas e a sociedade civil
O professor José Luiz Costa é responsável pelo Laboratório de Toxicologia Analítica, espaço de referência que atende órgãos públicos, empresas e a sociedade civil

Papel estratégico

No Laboratório de Toxicologia Analítica, Costa ressalta o papel estratégico do trabalho de análise. “Quando há um crime, a polícia faz a análise. Mas, quando existe apenas uma suspeita, uma dúvida ou uma necessidade do governo, muitas vezes não há um laboratório disponível para esse tipo de teste. Surgimos como esse espaço de referência, capaz de atender órgãos públicos, empresas e a sociedade civil”, explica o professor, que leciona as disciplinas de Toxicologia e Análises Toxicológicas na FCF.

Entre os trabalhos realizados recentemente, destacam-se as análises de metanol relacionadas aos casos de contaminação em bebidas alcoólicas registrados no ano passado. Esses exames foram feitos no próprio laboratório, utilizando equipamentos específicos de alta complexidade. “Os casos diminuíram após a retirada dos estoques contaminados, mas ainda existe preocupação com novos surtos, especialmente em períodos como o Carnaval, quando há maior consumo de bebidas alcoólicas. Situações semelhantes já ocorreram no Natal, como o surto registrado na Bahia”, lembra. O laboratório recebe amostras regularmente da Secretaria de Saúde do estado de São Paulo, que envia materiais para análise de metanol duas vezes por semana.

O laboratório conta com um equipamento de cromatografia líquida de alta eficiência (HPLC), muito usado no controle de qualidade farmacêutico. “As amostras, como comprimidos, são diluídas e inseridas em frascos específicos antes de serem injetadas no equipamento para análise. Esse tipo de sistema é semelhante ao utilizado na indústria farmacêutica, mas em menor escala”, explica.

No Laboratório Innovare de Biomarcadores, de responsabilidade de Rodrigo Catharino, as análises incluem café, maionese, carne, óleos, metanol e outros produtos
No Laboratório Innovare de Biomarcadores, de responsabilidade de Rodrigo Catharino, as análises incluem café, maionese, carne, óleos, metanol e outros produtos

Relevância na saúde pública

No Laboratório Innovare de Biomarcadores, Catharino destaca que as tecnologias são capazes de separar e caracterizar substâncias em níveis de precisão raramente disponíveis fora de grandes centros de pesquisa. As aplicações e análises realizadas são diversas e incluem itens como café, maionese, cogumelos, carne, óleos, metanol em bebidas, suplementos alimentares e outros produtos, totalizando mais de 23.000 análises em 50 projetos diferentes em poucos anos.

“Em um país com histórico recente de problemas envolvendo bebidas contaminadas com metanol, suplementos adulterados e alimentos fraudados, o trabalho do Núcleo ganha relevância não apenas para a saúde pública, mas também para a economia. Quando uma commodity como o café é adulterada e vendida a preços muito baixos, isso impacta diretamente a imagem e a competitividade do produto brasileiro no mercado internacional”, afirma.

Muitas análises são motivadas por questões que emergem no debate social ou ganham destaque na imprensa. “Casos de suplementos que não contêm o que prometem no rótulo, medicamentos vendidos como naturais, mas que escondem fármacos sintéticos em sua composição, e alimentos adulterados fazem parte das investigações e, em alguns casos, os resultados servem de subsídio para alertas às autoridades e órgãos de fiscalização”, afirma.

“Apoiados pelo conceito de segurança, conseguimos obter informações importantes de cosméticos, bebidas e vírus, por exemplo, dispondo da inteligência artificial em nossos desenvolvimentos e culminando na criação de sensores à base de grafeno em parcerias. Assim se desenvolve o núcleo de segurança, com um olhar que se baseia nas tecnologias analíticas de ponta, para o desenvolvimento e criação de novos conceitos e produtos que geram segurança social no futuro”, completa.

Os serviços prestados pelo Núcleo variam conforme a complexidade da análise, o tipo de amostra e a demanda envolvida
Os serviços prestados pelo Núcleo variam conforme a complexidade da análise, o tipo de amostra e a demanda envolvida

Ampliação do acesso

Os serviços prestados pelo Núcleo variam conforme a complexidade da análise, o tipo de amostra e a demanda envolvida. Algumas avaliações são rápidas, enquanto outras exigem mais tempo, preparo e alto custo tecnológico. Ainda assim, a proposta é ampliar o acesso e tornar o Núcleo mais conhecido pela comunidade.

Além da consolidação institucional, entre os próximos passos do Núcleo estão a criação de um site e a ampliação das parcerias com outros setores da Unicamp, da indústria e do poder público. Uma segunda fase do projeto está prevista até o fim de 2026, com a ampliação das atividades e do alcance das ações.

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Núcleo reúne três laboratórios de alta complexidade para darem suporte técnico aos órgãos públicos que fiscalizam a segurança de alimentos e remédios
O Núcleo reúne três laboratórios de alta complexidade para darem suporte técnico aos órgãos públicos que fiscalizam a segurança de alimentos e remédios

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Deserto avança no Nordeste brasileiro, aponta mapeamento desenvolvido em doutorado

O fenômeno da desertificação vem avançando no Brasil, principalmente nos estados do Nordeste. Novas áreas têm apresentado um risco potencial para o crescimento do fenômeno, em função das mudanças climáticas e da intensificação das ações humanas no manejo do solo. É o que aponta a pesquisa de doutorado desenvolvida no Instituto de Geociências (IG) da Unicamp por Mariana de Oliveira.

Oliveira estudou o fenômeno da desertificação como membro do grupo de pesquisas coordenado pelo professor Marcos César Ferreira, do IG. O grupo cria modelos de risco para detecção e análise de problemas ambientais e vem observando como os fenômenos climáticos afetam solos, vegetação e recursos hídricos. 

O estudo, realizado durante o doutorado de Oliveira, criou um modelo de risco da desertificação nas condições geográficas brasileiras, utilizando o método de regressão logística,  com base em dados empíricos, mapas e imagens de satélite. Foi mapeada a probabilidade de ocorrência da desertificação a partir de cinco variáveis geográficas de risco (temperatura terrestre, manejo do solo, vegetação, média de chuvas e densidade populacional).  A pesquisa identificou uma provável nova mancha do fenômeno em uma área ainda não mapeada no Ceará e novas áreas de risco à desertificação no estado do Ceará.

Para Flávio Rodrigues do Nascimento, coordenador do Departamento de Combate à Desertificação do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), a metodologia desenvolvida no estudo contribui para o monitoramento das áreas degradadas e para o diagnóstico mais preciso daquelas mais suscetíveis ao avanço da desertificação.

Assista ao programa Vida em Pesquisa:

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