Ivan Vilela aproxima saber popular e academia em residência no Instituto de Estudos Avançados
O que separa o conhecimento legitimado pela academia daquele produzido e transmitido fora dela ao longo de gerações? É a partir dessa questão que Ivan Vilela inicia, em setembro, uma residência artística de três meses no Instituto de Estudos Avançados da Unicamp (IdEA). Professor da Universidade de São Paulo (USP), o violeiro, compositor e pesquisador participa do Programa Hilda Hilst” do Artista Residente entre 14 de setembro e 14 de dezembro de 2026.
O projeto, intitulado A Horta e o Mato, parte de uma metáfora para discutir diferentes formas de produção e transmissão do conhecimento. Na horta, cada espécie cultivada é conhecida, nomeada e organizada. Fora dela está aquilo que genericamente se chama de “mato”. Para Vilela, algo semelhante ocorre quando o conhecimento sistematizado pela escrita se torna o principal parâmetro para reconhecer aquilo que merece ser preservado e estudado.
É nesse território menos sistematizado –formado pela oralidade, pela música, pelas práticas comunitárias, pelo corpo e pela memória – que o pesquisador pretende concentrar parte das atividades desenvolvidas na Unicamp. Para Vilela, a música ocupa um lugar privilegiado nesse processo: além de manifestação artística, ela preserva experiências, modos de vida e narrativas de grupos que nem sempre encontraram espaço nos registros escritos da história.
“A escrita é fundamental para a preservação e a socialização do conhecimento, mas ela pode virar uma armadilha quando se torna um cânone exclusivo”, afirma Vilela.
Violeiro com 17 discos gravados e trajetória dedicada tanto à criação musical quanto à pesquisa, Ivan Vilela foi também o idealizador do primeiro curso superior de viola caipira da USP, implantado no campus de Ribeirão Preto. Durante a residência na Unicamp, promoverá aulas-espetáculos, oficinas, debates e outras atividades voltadas à relação entre música, cultura e diferentes formas de conhecimento.

O conhecimento que passa pela escuta
Uma das atividades previstas, a aula-espetáculo História e cultura no som da viola, sintetiza a proposta da residência ao combinar reflexão e execução musical. Em vez de apresentar a música apenas como objeto de análise, Vilela pretende utilizá-la como parte do próprio processo de produção e transmissão do conhecimento.
“A música amacia e azeita o conhecimento. Ela entra por caminhos que não passam exclusivamente pela racionalidade estrita”, afirma. Segundo o pesquisador, quando conceito e performance aparecem juntos, outras dimensões da experiência também são mobilizadas no processo de compreensão. “A pessoa se permite participar daquela reflexão de forma mais intensa, pois está acionando também a sua dimensão afetiva e emocional.”
A proposta está relacionada a uma crítica que atravessa as pesquisas de Vilela: a predominância da visão e do registro escrito sobre outras formas de apreensão do conhecimento. Na música, essa diferença se torna particularmente evidente. Uma partitura pode registrar notas, ritmos e estruturas, mas não reproduz integralmente aspectos ligados à interpretação, à intenção e ao contexto no qual determinada prática musical se desenvolveu.
“Uma partitura te dá a estrutura melódica, mas não traduz o estilo, a intenção ou a estética. Você só entende o som escutando e vivenciando o ambiente”, afirma.
Para o pesquisador, reconhecer a escuta e a oralidade como formas de conhecimento não significa negar a importância da escrita. A questão é ampliar as possibilidades utilizadas para compreender manifestações culturais que historicamente se desenvolveram fora dos ambientes formais de produção intelectual.
Viola, memória e encontro
A viola ocupa posição central nessa reflexão. Mais do que objeto de pesquisa ou instrumento de trabalho do músico, ela é compreendida por Vilela como uma mediadora entre pessoas, grupos sociais e diferentes formas de transmissão cultural.
O pesquisador aponta as orquestras de viola espalhadas pelo estado de São Paulo como exemplo dessa capacidade de aproximação. Segundo ele, existem mais de 250 conjuntos desse tipo, nos quais “você verá reunidas pessoas de idades, classes sociais e níveis de escolaridade completamente diferentes, que dificilmente se encontrariam em outra situação. E quem promove esse encontro é a viola.”
Essa dimensão social também ajuda a explicar o valor documental que Vilela atribui à música popular. Em sociedades nas quais parcelas significativas da população permaneceram durante muito tempo distantes da cultura escrita, canções e práticas musicais também funcionaram como meios de registrar experiências, conflitos, modos de vida e transformações sociais.
“Até meados do século 20, a criação de gêneros como o samba e a música caipira estava no domínio criativo dos pobres e dos negros. Era a resistência e a narrativa de quem não escrevia a história oficial”, diz.
É nesse sentido que a música assume, para Vilela, o papel de cronista da sociedade. Aquilo que nem sempre chegou aos documentos oficiais permaneceu registrado em versos, melodias, modos de tocar e práticas transmitidas entre gerações. Levar esses repertórios para a universidade, argumenta o pesquisador, não pressupõe substituir uma forma de conhecimento por outra. A proposta é colocar essas diferentes formas de conhecimento em diálogo.
“A universidade é o templo do saber escrito, e isso tem um valor extraordinário na racionalização do mundo. No entanto, o Brasil só será compreendido na sua plenitude quando aceitarmos somar ao modo escrito esses outros modos orais de existir e criar. Não se trata de excluir nada, mas de somar”, afirma Vilela.

Um novo ouvido para o Clube da Esquina
A residência também traz para a Unicamp outra vertente da trajetória de Vilela: sua pesquisa sobre o Clube da Esquina, desenvolvida desde 1992. O pesquisador investiga as características harmônicas, estéticas e culturais do movimento mineiro associado a músicos como Milton Nascimento.
Vilela chama a atenção para procedimentos harmônicos, formas de arranjo e combinações de elementos de diferentes tradições musicais que identifica como algumas das inovações introduzidas pelo grupo.
“O Clube da Esquina criou soluções harmônicas e estéticas que impressionaram o jazz internacional, o rock progressivo e a world music”, afirma. Nas atividades dedicadas ao tema, Vilela pretende combinar audição e análise para investigar essas características e discutir como elas contribuíram para a singularidade do movimento.
A proposta se conecta ao argumento que percorre toda a residência: para compreender determinadas formas de produção cultural, não basta transformá-las em objetos escritos. É necessário também ouvi-las, observar seus contextos de circulação e reconhecer os conhecimentos produzidos pelas comunidades que as mantiveram vivas.
Entre a “horta” dos conhecimentos sistematizados e o “mato” dos saberes que permaneceram à margem dos registros formais, Vilela propõe não uma escolha, mas um encontro. Durante os três meses de residência no IdEA, a música será o território dessa aproximação – e também uma forma de revisitar histórias, experiências e conhecimentos que nem sempre encontraram lugar nos registros escritos.

Programação (sujeita a alteração)
- 17/09 às 18h30 | Abertura da residência | Aula-espetáculo “História e cultura no som da viola”
- Auditório do Instituto de Artes da Unicamp
- 05/10 a 09/10, das 14h às 16h | Oficina para alunos de graduação e pós-graduação em Música do IA
- Instituto de Artes
- atividade restrita aos alunos
- 05/11 às 09h | Seminário IdEA | participação no Seminário dos Grupos de Estudos Temáticos do IdEA
- Centro de Convenções da Unicamp
- 05/11 a 26/11, das 14h às 17h | Nada ficou como antes | encontros sobre o “Clube da Esquina”
- Instituto de Estudos Avançados da Unicamp (IdEA)
- 03/12 às 19h | Mesa | Música popular em pauta: dilemas e perspectivas
- Auditório do Instituto de Artes da Unicamp
- 10/12 às 14h | Café com IdEA, edição especial com Ivan Vilela
- Instituto de Estudos Avançados da Unicamp (IdEA)

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