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Sakamoto: No Rio, deputados lutam para não deixar o povo escolher novo governador

24 de Abril de 2026, 18:35
O desembargador Ricardo Couto, atual governador do Rio de Janeiro. Foto: Divulgação

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

O governador do Rio de Janeiro continuará sendo o desembargador Ricardo Couto, presidente do Tribunal de Justiça, até que o Supremo Tribunal Federal decida se a eleição que preencherá a vaga deixada pela renúncia de Cláudio Castro será pelo voto indireto dos deputados estaduais ou direto do povo fluminense. Ou seja, o Rio ganhou mais tempo para evitar que sua democracia tão combalida leve mais um golpe.

A decisão é do ministro Cristiano Zanin, do STF, em resposta a uma ação do PSD do ex-prefeito Eduardo Paes. O deputado Douglas Ruas, aliado do ex-governador e nome escolhido pelo PL para disputar o Palácio Guanabara em outubro, foi eleito presidente da Assembleia e queria o cargo desde já. Ele e seus aliados dão como justificativa a linha sucessória. Mas, na prática, a razão é mais prosaica: facilitar a recondução do grupo que está no poder no Rio nas eleições gerais. O que ajudaria, inclusive, a candidatura presidencial do partido, que deve ser encabeçada pelo senador Flávio Bolsonaro.

Há duas semanas, o ministro Flávio Dino pediu vistas na ação em que o STF decidirá como será a escolha do governador-tampão do Rio. A renúncia de Castro, logo antes de ser cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (por desviar R$ 1 bilhão em grana pública a fim de contratar milhares de cabos eleitorais), tem sido vista como uma manobra para que seu grupo político decidisse o seu sucessor, aproveitando divergências de interpretação entre a legislação eleitoral e leis do estado.

Ou seja, o governador, que ia ser cassado exatamente por tentar manipular as eleições, como ato derradeiro de seu mandato, tentou manipular as eleições. A renúncia não foi um ato para afastar a sua inelegibilidade, que é garantida, mas para botar no Palácio Guanabara um aliado que, com o controle da máquina nas mãos, terá mais facilidade para buscar a reeleição em outubro. É uma clara tentativa de fraudar a lei, daí a disputa de posições no Supremo.

Com o tribunal fragilizado, dado o envolvimento de membros da corte com o caso Master, uma decisão que leve em conta essa tentativa de fraudar o cumprimento da lei será tratada por aliados de Castro como ingerência política. Ironicamente, isso seria, na verdade, uma tentativa de consertar a ingerência política do ex-governador e seus sócios.

Como já disse aqui um rosário de vezes, Castro deixou como legado um rombo de quase R$ 1 bilhão no RioPrevidência após o fundo injetar dinheiro no Master quando o banco já era visto como uma piada no mercado financeiro. Era dinheiro de aposentadorias de professor com burnout, enfermeira que segura plantão triplo e gari que limpa rua alagada.

Foi pai de algumas das operações policiais mais letais da história da região metropolitana do Rio de Janeiro. Foram 121 mortos na Penha e no Alemão no ano passado; 28 no Jacarezinho (maio de 2021); 23 na Vila Cruzeiro (maio de 2022); 16 no Complexo do Alemão (julho de 2022); 13 em São Gonçalo e Salgueiro (março de 2023); e 12 em Itaguaí e Vila Ibirapitanga (outubro de 2020).

E renunciou para não ser cassado no escândalo dos cargos secretos que sangraram os cofres públicos em mais de R$ 1 bilhão durante as eleições de 2022. Foram 24 mil pessoas contratadas com dinheiro público, via Fundação Ceperj e Universidade Estadual do Rio de Janeiro, para atuar como cabos eleitorais ilegais. Uma extensa investigação de Ruben Berta e Igor Mello, do UOL, em 2022, levou ao julgamento e revelou a engrenagem.

Cláudio Castro (PL), ex-governador do Rio de Janeiro. Foto: Divulgação

Castro seguiu à risca a velha lógica de políticos fluminenses, que tratam o Estado como propriedade privada e a população como figurante descartável. A chance de interromper essa lógica seria garantir que a última cartada de Castro não tivesse sucesso, possibilitando igualdade de condições para a definição do próximo governador.

O caso está longe de ser resolvido, uma vez que o ministro Luiz Fux, que também relata uma ação da Assembleia a favor de Douglas Ruas, ainda deve proferir o seu voto.

No fim das contas, a pergunta é simples (e, talvez por isso mesmo, tão incômoda): por que tanto medo do voto direto?

Se o grupo que hoje controla o poder no Rio acredita na própria gestão, deveria ser o primeiro a defender que a população decida. Mas não. Prefere o atalho, o conchavo, o arranjo de gabinete. Porque sabe que, nas urnas, o roteiro pode sair do controle.

O Rio de Janeiro precisa assumir o risco da própria escolha, com todos os erros e acertos que isso implica. Democracia não é um seguro contra tragédias, mas é o único instrumento que permite responsabilizar quem transforma o estado em balcão de negócios.

Negar o voto direto agora não é apenas proteger um grupo político. É dizer, em alto e bom som, que o povo fluminense não é confiável o suficiente para decidir seu próprio destino, mas é bom o bastante para pagar a conta.

E talvez seja justamente isso que mais assuste: quando a população deixa de ser figurante e resolve, finalmente, subir ao palco.

Bolsonaro deve ser mantido bem vivo. Por Moisés Mendes

15 de Março de 2026, 12:40
O ex-presidente, Jair Bolsonaro

Bolsonaro será protagonista da eleição, onde estiver, ainda vivo, na cadeia ou em casa, ou já morto e cremado. A velha direita, a Globo e as esquerdas não conseguiram se livrar do chefe da organização criminosa.

É incômodo para todos. Nunca um doente preso teve tanta influência nos destinos do país. Se ressuscitar amanhã e andar, Bolsonaro será um super-Deus da extrema direita.

Se ficar penando em casa, será visto como o líder que se submete ao flagelo de continuar vivo para salvar seu povo. Se morrer, será martirizado e a eleição pode virar uma nova confusão.

E aí se apresenta a dúvida que consome Alexandre de Moraes, o fascismo, o governo, Lula e a direita antiga: como lidar com Bolsonaro agora, se ele é mais do que um estorvo?

O filho Flávio fez um alerta inspirado nos gestos dos grandes humanistas: “Estão brincando com a vida do meu pai. Não dá mais para ficar com essa postura de achar que isso aqui é algum tipo de frescura, ou ficar com essa paranoia de que ele pode fugir”.

Flávio avisa que Bolsonaro não está fazendo mi-mi-mi e pede que ele deixe a Papudinha. O filho exige prisão “domiciliar humanitária em casa, onde ele pode ter cuidado permanente da família”.

É onde Bolsonaro pode ter, como acrescenta Flávio, cuidado permanente de um técnico de enfermagem. Bolsonaro pode ter em casa carinho, afeto e suporte como se continuasse no hospital.

Poderá dispor do que é decisivo para um paciente com problemas respiratórios. Terá muitos tubos de oxigênio. Porque é do que ele mais irá precisar. Ar, para continuar vivendo com suas deficiências pulmonares.

Flávio durante entrevista sobre a internação de seu pai, Jair Bolsonaro. Foto: reprodução

Bolsonaro não pode morrer com falta de ar. Não pode faltar nada a Bolsonaro, porque qualquer passo em falso de Moraes agora pode oferecer ao bolsonarismo o que muitos torcem para que aconteça, dentro inclusive das facções de extrema direita.

Os que imaginavam a viabilização de uma terceira via acreditavam que Bolsonaro condenado e preso deixaria de ser o que ainda é. Está preso, está doente e sai da cama à noite cambaleando. Mas está vivo. É preciso mantê-lo vivo.

Se o candidato ungido por Bolsonaro, que quase foi Tarcísio, fosse outro, é possível que as pesquisas indicassem um bolsonarismo competitivo. Mesmo sem o sobrenome da família.

Porque Bolsonaro ainda inspira, lidera e comanda. Tombaram todas as previsões em contrário, que o consideravam um morto político.

Caiado, Ratinho, Eduardo Leite e Zema não são nada no cenário em que o filho brilha. Uma figura que nunca foi citada como possível herdeiro, que não aparecia nas pesquisas, que não tem carisma, que não sabe falar e até ontem era apenas o operador financeiro da família.

Flávio parou de pé porque o pai disse: é ele. Esse pai está mal e deve ser protegido. A primeira providência hoje, a mais urgente, é não deixá-lo morrer.

É preciso mantê-lo vivo. Não por piedade, mas pelo que é determinado pelos cálculos políticos de quem ainda aposta na salvação da democracia. Depois da eleição, Bolsonaro estará liberado para morrer várias vezes.

(O autor desse artigo teve familiares próximos, amigos e vizinhos que morreram enquanto Bolsonaro debochava dos que sentiam falta de ar e lhes negava vacina e oxigênio.)

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