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Greg Abel, sucessor de Buffett, completa 100 dias à frente Berkshire. E as mudanças já começaram

19 de Abril de 2026, 08:59

Numa tarde fria de dezembro, a poucos dias de assumir o comando da Berkshire Hathaway, Greg Abel respondeu a perguntas de funcionários durante o almoço semanal da equipe.

Um deles perguntou se a companhia sairia de Omaha, Nebraska, sede da empresa durante décadas sob a liderança de Warren Buffett. Não, respondeu Abel – a mudança não aconteceria.

A ideia teria soado absurda em praticamente qualquer momento da gestão de Buffett. Mas o que muitos dos funcionários certamente pensavam é que mudanças estão a caminho.

Abel retomou o programa de recompra de ações, parado desde 2024, promoveu aliados que trabalharam próximos a ele, e passou a receber salário maior que o de Buffett, com a promessa de usar a maior parte para comprar ações da própria empresa.

Também ampliou a presença da Berkshire no Japão, comprando participação em uma seguradora local.

Conhecido por ser mais operacional que Buffett, Abel examina os negócios e o portfólio de ações da Berkshire com um olhar novo e mais crítico do que o de seu antecessor, afirmam pessoas a par do assunto. A expectativa é que ele aja com firmeza diante de companhias, posições acionárias e até executivos seniores que não atenderem às suas expectativas, segundo essas fontes.

Greg Abel
Greg Abel, CEO da Berkshire há pouco mais de três meses. Foto: WSJ

“Warren, Charlie e eu temos algumas diferenças, seja de estilo ou, obviamente, na maneira como abordamos as coisas”, disse Abel em entrevista, referindo-se a Buffett e a seu antigo sócio, o já falecido Charlie Munger. “Nossos valores fundamentais continuam sendo a base sobre a qual construímos a empresa”, completou.

Abel, de 63 anos, que assumiu como CEO em janeiro, prometeu preservar o que torna a Berkshire uma empresa tão singular: sua cultura e seus valores, uma operação de seguros dominante, um conglomerado de negócios sem relação entre si e um portfólio de ações gerido pelo próprio presidente-executivo.

Em vários dias da semana, Abel entra num carro que o espera em frente à sua casa em Des Moines, Iowa, e faz o trajeto de duas horas até Omaha. Ele não tem planos imediatos de se mudar para a cidade e deve continuar morando no Iowa pelo menos até o filho concluir o ensino médio, daqui a alguns anos, segundo pessoas a par do assunto.

Não é incomum que Abel esteja em estados diferentes no mesmo dia. Boa parte da sua semana de trabalho é passada cruzando o país em um jato executivo operado pela NetJets, subsidiária da Berkshire, para visitar os executivos das empresas do grupo.

Em sua primeira carta anual aos acionistas, divulgada em 28 de fevereiro, Abel deixou claro que há posições que considera “centrais”, como Apple, American Express, Coca-Cola e Moody’s. Fontes a par dos investimentos da Berkshire afirmam que Abel já se desfez das ações geridas por Todd Combs, que recentemente migrou para o JPMorgan Chase. Combs era um dos dois gestores de investimento recrutados por Buffett. Segundo essas fontes, é improvável que Abel contrate alguém para ajudá-lo a administrar o portfólio.

Funcionários e acionistas da Berkshire sabem que Abel sucederia Buffett desde que Munger deixou o anúncio escapar durante a reunião anual da empresa em Omaha, em 2021. Mas o momento exato da transição permaneceu um mistério após a morte de Munger, em novembro de 2023, e só foi revelado em maio do ano passado, quando Buffett, aos 95, declarou no mesmo palco que pretendia se aposentar no fim do ano.

“Foi aí que a transição realmente começou”, disse Abel.

No almoço de dezembro em Omaha, as outras perguntas dos funcionários eram menos pesadas; uma delas questionava se a chegada de Abel, um canadense apaixonado por hóquei, significaria rinques de gelo melhores na cidade. Quando o almoço acabou, a comida de Abel estava fria e praticamente intocada no prato de papel à sua frente.

Abel passou o último ano priorizando o aprendizado sobre o negócio de seguros da Berkshire e as reuniões com Ajit Jain, o cérebro por trás da operação. A expectativa é que Jain continue à frente da área de seguros, embora a empresa também tenha preparado um plano de sucessão para ele. “Ele provavelmente vai ficar na companhia pelo tempo que puder”, disse Buffett em entrevista.

O novo CEO também tem dado atenção aos líderes das subsidiárias, em especial à BNSF Railway, a ferroviária do grupo, e à Berkshire Hathaway Energy, onde foi presidente-executivo por muitos anos, segundo pessoas a par do assunto.

“Se eu penso nos meus primeiros 100 dias”, afirmou Abel, “o foco em excelência operacional não diminuiu.”

Buffett tem deixado claro, dentro e fora da Berkshire, que quem manda agora é Abel. Quando empresários enviam cartas a Buffett na esperança de fechar algum negócio, ele responde, mas encaminha cópia da resposta e da carta original para Abel. Embora Abel tenha mostrado sua primeira carta aos acionistas a Buffett antes da publicação, o fundador fez poucas alterações no texto, segundo pessoas a par do assunto.

Natural das Pradarias canadenses, Abel incorpora, em muitos aspectos, o charme do interior e a reputação de conciliador simpático que marcaram Buffett. Durante as Olimpíadas, torceu pela seleção masculina de hóquei do Canadá e pela feminina dos Estados Unidos — um gesto diplomático para não tomar partido. Continua treinador do time de hóquei do filho e cumprimenta com um toque de mãos todos os jogadores quando eles deixam o gelo.

Uma das diferenças entre Buffett e Abel, segundo quem conhece os dois, é que Abel não foge de confrontos. Buffett já afirmou que mantinha pessoas em cargos de gestão mesmo quando não atendiam a seus padrões, preferindo evitar os aspectos desagradáveis do trabalho. Abel, por sua vez, não hesita em fazer o necessário para melhorar o negócio — mesmo que isso signifique demitir alguém.

Apesar de ter reforçado que o prazo preferido de investimento da Berkshire é “para sempre”, se um negócio não atender às expectativas, uma venda não está descartada, segundo essas fontes. A Berkshire raramente se desfaz de subsidiárias integrais — vendeu o negócio de jornais em 2020 e encerrou a área têxtil em 1985.

Lawrence Cunningham, autor de vários livros sobre a Berkshire, contou que perguntou a Abel, em uma conversa há cerca de um ano, se ele pretendia seguir a tendência de Buffett e Munger de fazer vista grossa para subsidiárias de desempenho fraco.

“Ele disse: ‘Não vou fazer isso. Acredito em autonomia, acredito em descentralização. Mas, se houver quem esteja ficando para trás, vou apontar'”, contou Cunningham.

Enquanto Buffett ficava fora da operação, a menos que sentisse que as empresas não estavam no nível esperado, o estilo de Abel é agir preventivamente para deixar suas expectativas claras, afirmam pessoas a par dos negócios da Berkshire.

“Greg gosta de estar envolvido, então ele vai ser mais prático e mais atento aos detalhes do negócio”, afirmou Vicki Hollub, CEO da Occidental Petroleum, na qual a Berkshire tem participação relevante. “É um negociador duro, mas, repito, honesto e justo.”

Na carta anual, Abel afirmou que a Berkshire manterá sua “abordagem concentrada” nos investimentos em ações, citando as maiores posições como exemplo — com exceção de Bank of America e Chevron. O conglomerado não enxerga essas participações como centrais, segundo fontes a par do assunto.

Para muitos acionistas, o verdadeiro teste do valor de Abel será sua capacidade de usar o caixa recorde de US$ 373,1 bilhões da Berkshire em grandes aquisições.

“Só vou conseguir avaliar o quanto ele é bom quando chegar a próxima recessão profunda”, disse Chris Bloomstran, diretor de investimentos da Semper Augustus Investments, acionista antigo da Berkshire. “A missão que os acionistas devem dar ao Greg é: você tem de estar disposto a colocar US$ 300 bilhões para trabalhar. A expectativa é que ele faça isso — e de forma mais agressiva do que Warren fez nos últimos anos.”

Escreva para Krystal Hur pelo e-mail krystal.hur@wsj.com

Na Berkshire, conselheiros ganham só US$ 3 mil por ano e bônus em ações não existem. Por quê?

16 de Março de 2026, 19:16

Quando se trata de governança corporativa, a Berkshire Hathaway é um retorno aos anos 1960 — e um caso praticamente único entre as grandes empresas americanas.

Isso ficou evidente no proxy statement de 2026 divulgado pela companhia na noite de sexta-feira. O documento mostrou que praticamente nada na forma como a empresa é administrada deve mudar sob o comando do CEO Greg Abel, que sucedeu Warren Buffett no início de 2026.

O relatório reflete a filosofia de governança de Buffett, que controla a empresa desde 1965.

A Berkshire não concede remuneração em ações a executivos — ou a qualquer funcionário, aliás — e chega a afirmar que “nunca pretende” fazê-lo. Todos recebem em dinheiro. O salário de Buffett foi de US$ 100 mil em 2025, exatamente o mesmo valor que ele recebe há décadas. Já Abel e o chefe da divisão de seguros, Ajit Jain, receberam US$ 22 milhões cada, pagos integralmente em dinheiro.

Isso significa que não há espaço para os jogos financeiros comuns na indústria de software, onde a remuneração em ações — considerada despesa pelas normas contábeis GAAP — é frequentemente adicionada de volta ao lucro em cálculos de “lucro ajustado” questionáveis. Buffett sempre foi um crítico dessa prática.

A remuneração dos conselheiros da Berkshire também parece saída dos anos 1960. Os membros do conselho recebem US$ 900 por reunião presencial e US$ 300 por reunião telefônica. A maioria dos conselheiros ganhou US$ 3 mil no ano passado (foram quatro reuniões) ou US$ 7 mil no caso dos integrantes do comitê de auditoria, que recebem um adicional de US$ 1 mil por trimestre.

Warren Buffett – Ilustração: The Wall Street Journal

Nas empresas do índice S&P 500, em comparação, a remuneração média de um conselheiros ultrapassa US$ 250 mil por ano.

Fazer parte do conselho da Berkshire provavelmente traz mais prestígio do que o de qualquer outra grande empresa.

conselheiros como o gestor de investimentos Chris Davis já disseram que o cargo representa uma espécie de “confiança pública” e honra, considerando o enorme número de acionistas da companhia — perto de três milhões — e o esforço do conselho para preservar a cultura singular da empresa.

Ao contrário de praticamente todas as grandes companhias, a Berkshire não oferece seguro para conselheiros e executivos (D&O insurance). Isso significa que os conselheiros assumem riscos financeiros ao ocupar o cargo — embora muitos acreditem que a empresa os apoiaria em caso de processos movidos por acionistas.

A Berkshire também não utiliza fórmulas complexas de remuneração para executivos, como fazem a maioria das grandes empresas com instrumentos como bônus baseados em tempo ou em desempenho.

Em 2025, Buffett foi responsável por definir a remuneração dos principais executivos. O proxy afirma que ele tomou a decisão de forma “subjetiva”, com base em sua avaliação do desempenho deles e em outros fatores.

A Berkshire não utiliza consultores de remuneração. Buffett detesta esse tipo de serviço — e o mesmo acontecia com o vice-presidente histórico da companhia, Charlie Munger. Ambos afirmavam que esses consultores prejudicam os acionistas ao inflar os salários de executivos. Munger, que morreu em 2023, chegou a dizer que preferiria “jogar uma cobra venenosa dentro da camisa” a contratar um consultor desse tipo.

No início desta década, a Berkshire pareceu desconectada ao se recusar a considerar diversidade na escolha de membros do conselho. Hoje, porém, essa posição parece ter sido visionária, diante da reação contra políticas de DEI (diversidade, equidade e inclusão) que se espalhou por empresas americanas. A companhia afirma que não considera “diversidade, seja qual for a definição”.

Segundo a Berkshire, o perfil buscado em um conselheiro é de “pessoas com altíssimo nível de integridade, visão de negócios, mentalidade de dono, interesse genuíno pela empresa e que tenham mantido um investimento significativo em ações da Berkshire por pelo menos três anos.”

Parece que os conselheiros seguem essa última exigência de participação relevante em ações.

A conselheira Susan Decker, que está no conselho desde 2007, possui a menor participação entre os 13 membros: cerca de US$ 1,5 milhão em ações.

O conselheiro Howard Buffett, um dos dois filhos de Warren Buffett, possui cerca de US$ 8 milhões em papéis. Howard, de 71 anos, deve se tornar presidente do conselho após a morte do pai, hoje com 95 anos.

Foto de Greg Abel, um homem alto careca que está com um casaco azul escuro
Greg Abel, sucessor de Warren Buffett – Foto: Getty Images/Kevin Dietsch

A irmã dele, Susan Buffett, de 72 anos, também conselheira, possui cerca de US$ 17 milhões em ações.

O conselho da Berkshire já foi criticado por avaliadores externos por uma suposta falta de independência, já que Warren Buffett exerce grande influência sobre ele.

Outro ponto criticado é a idade média do conselho: todos os membros têm mais de 60 anos. Consultores também apontam como problema o longo tempo de mandato de vários conselheiros, algo que poderia gerar “entrincheiramento”.

A maioria dos acionistas da Berkshire, porém, provavelmente está muito satisfeita com o conselho e com a forma como a empresa opera.

A participação de Warren Buffett na companhia — cerca de 196 mil ações Classe A, além de uma pequena quantidade de ações Classe B — vale aproximadamente US$ 146 bilhões, com o papel Classe A sendo negociado por volta de US$ 745 mil nesta segunda-feira.

Isso representa 13,7% de participação econômica e 30,2% do poder de voto, já que as ações Classe A possuem direitos de voto superiores às Classe B.

O proxy da Berkshire também se destaca pela simplicidade: menos de 20 páginas, contra os documentos de mais de 100 páginas que a maioria das grandes empresas costuma publicar.

Abel, novo CEO da Berkshire, promete usar todo o salário para comprar ações da empresa

5 de Março de 2026, 10:46

A Berkshire Hathaway teve seu CEO, Greg Abel, afirmando que usará todo o seu salário líquido para comprar ações do conglomerado enquanto permanecer no cargo.

Com esse objetivo, Abel comprou nesta semana cerca de US$ 15,3 milhões em ações da empresa, segundo um documento regulatório. Ele disse que seu compromisso de continuar fazendo isso após a divulgação dos resultados anuais da companhia a cada ano deve resultar em “centenas de milhões” de dólares em recompras de ações ao longo de sua carreira.

A Berkshire também retomou na quarta-feira (4) o programa de recompra de ações. Em entrevista à CNBC, Abel afirmou que a decisão veio após executivos concluírem que o chamado “valor intrínseco” das ações estava acima do preço pelo qual elas vinham sendo negociadas no mercado.

As ações da Berkshire haviam caído no início da semana depois que a empresa divulgou seus resultados do quarto trimestre no sábado. O lucro operacional caiu 30% no período, impulsionado por uma queda de 54% no resultado de subscrição de seguros.

Os acionistas vinham analisando esses números em busca de sinais sobre como Abel conduziria a política de recompra de ações, já que o conglomerado havia deixado de realizar recompras por seis trimestres consecutivos.

Em sua primeira carta anual aos investidores na semana passada, Abel reafirmou a política de retorno ao acionista da Berkshire, descartando praticamente a possibilidade de pagamento de dividendos.

“Mantivemos a posição de que vamos reter um dólar se enxergarmos a oportunidade de criar mais de um dólar para nossos acionistas — e esse sempre foi o teste”, disse Abel. “Se não atendêssemos a esse critério, pagaríamos dividendos.”

A decisão de retomar as recompras não impedirá a Berkshire de buscar outras formas de usar sua enorme reserva de caixa, de US$ 373 bilhões, acrescentou Abel.

“Também existe a questão: ‘Devemos comprar ações?’ E, quando olhamos para empresas: ‘Devemos adquirir empresas inteiras?’ E ainda há ‘Devemos comprar participações acionárias?’”, afirmou. “Cada uma dessas opções, com o capital que temos, pode ser executada de forma independente. Portanto, quando estamos recomprando nossas ações, isso não tira espaço de nenhuma das outras decisões.”

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