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Na contramão da lógica, ouro sobe com juro americano em alta – veja como investir

9 de Setembro de 2026, 13:12

O comportamento do ouro quebrou, entre agosto e o início de setembro, uma escrita que sempre prevaleceu.

Em vez de o preço do metal cair quando os juros de longo prazo americanos passaram a subir rumo aos maiores níveis em 19 anos, a cotação sobe – desde o início de agosto, são 8% a US$ 4.425 a onça (31g).

Não é o natural. Com os títulos públicos americanos de 10 anos pagando quase 5%, e os de 30 anos acima de 5% (o que não se via desde 2007) , o normal é que dinheiro investido em outros ativos fluam para o porto seguro dos Treasuries.

Inclusive o ouro, que não paga juros.

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O que está acontecendo, então?

Há mais de um fator – e vamos ver adiante. Mas o grande agente que puxa a cotação do ouro são as compras dos Bancos Centrais. Foram 289 toneladas só no 2º trimestre de 2026. O volume é cinco vezes superior às 57 toneladas dos três primeiros meses do ano e 62% maior na comparação anual.

Por trás das compras está um movimento global que não é de hoje: a substituição de dólares por ouro nas reservas dos Bancos Centrais – inclusive no Brasil, que aumentou em 33% o volume de ouro em suas reservas desde 2024 – para 172 toneladas.

Substituição parcial. Só que mais do que suficiente para fazer preço . E porque substituir? Em grande parte, porque a dívida pública dos EUA é a maior desde a Segunda Guerra mundial (125% do PIB).

Quando isso acontece, aumenta o temor de que, em algum momento, o governo acabe emitindo moeda para aliviar a dívida – caso o faça, cria-se inflação. A moeda desvaloriza; e as reservas deixam de fazer sentido.

O ouro não tem esse problema. Ninguém tem o poder de “emitir” ouro. A força dele está na escassez.

Tem mais. As compras dos BCs elevam o preço. E o que acontece com ativos que sobem de preço? Investidores correm para eles. O preço sobe mais ainda.

Essas compras tinham perdido fôlego. Mas agora veio uma retomada firme, que cria um suporte para as cotações que o mercado não tinha no início do ano, reforça Mauriciano Cavalcante, especialista da corretora Ourominas.

O Goldman Sachs projeta a cotação do ouro em US$ 4,9 mil no fim de 2026 – o que daria ao metal um potencial de alta de 12% em dólar. “Ainda que sujeita a uma volatilidade maior e de mão dupla ao longo da trajetória”, acrescentam os analistas.

Vale notar que esse não é o auge do ouro. O boom mesmo foi entre 2025 e o começo deste ano, quando o ouro alcançou a máxima histórica de US$ 5,6 mil e acumulou uma valorização de 46% no ano.

Ou seja: queda de 21% desde lá. Ouro é renda variável, com todos os riscos de renda variável. Recomenda-se não ter mais de 3% da carteira investidos no metal amarelo.

A boa notícia, de qualquer forma, é que nunca foi tão simples investir em ouro.

ETFs facilitam acesso

A mais indicada é via ETFS – os fundos negociados em bolsa, que você compra e vende como se fossem ações.

No caso do ouro, há vários ETFs no Brasil que seguem o Índice Futuro de Ouro B3 (Ifgold B3).

Como acontece com quase toda commodity, o mercado futuro, com preços combinados para fechar o negócio numa data específica, é maior que o mercado à vista. Daí a existência desse índice, que acompanha os contratos futuros de ouro mais negociados na bolsa brasileira. Em agosto o Ifgold B3 apresentou um ganho de 10,11%.

Entre os ETFs que o acompanham, então o GLDI11, da Itaú Asset, e o GOLB11, do BTG Pactual, replicam o Ifgold B3.

O cardápio, de qualquer forma, varia bem. O OURO11, da XP Vista Asset, busca replicar o desempenho do ETF internacional IAU (iShares Gold Trust), indexado ao preço do ouro à vista.

Sempre vale lembrar: como a cotação do ouro é em dólar, você fica exposto ao câmbio. Uma eventual queda do dólar pode minar seu investimento, mesmo que a cotação do ouro suba.

Stablecoins de ouro

Outra possibilidade é usar stablecoins de ouro. São criptomoedas com lastro em ouro físico, que fica guardado em cofres de custodiantes terceirizados.

Cada unidade dessas stablecoins representa uma onça troy, a unidade fora do sistema métrico que o mercado adota, e que dá 31 gramas.

E as duas principais stablecoins de ouro do mercado são a PAX Gold (PAXG) e a Tether Gold (XAUT). Elas dominam 88,2% do mercado.

O ambiente clássico de negociação desses ativos são as corretoras de criptoativos (Mercado Bitcoin, Mynt, Foxbit etc.). Mas bancos tradicionais têm.

Intervenções dos EUA

De volta ao mundo macro. A escalada recente do ouro tem ainda apoio do comportamento intervencionista do Tesouro dos EUA, chefiado por Scott Bessent, o equivalente americano a Ministro da Fazenda.

Bessent realizou em momentos distintos em agosto duas intervenções. A primeira foi uma grande compra de ienes no mercado para evitar uma queda (ainda) maior da moeda japonesa.

O suporte foi dado para evitar que o país asiático tivesse, ele mesmo de fazer isso. Se fizesse, teria de tenha de recorrer a uma venda de reservas, ou seja, de Treasuries. Esse movimento poderia desvalorizar o dólar.

E mais recentemente, Bessent duplicou a recompra de títulos de longo prazo do Tesouro americano para US$ 4 bilhões. O movimento foi lido como uma tentativa de segurar a subida das taxas das Treasuries de 10 e 30 anos.

A perspectiva de um ciclo de intervenções constantes no mercado alimentou a demanda por ativos de proteção, como o ouro e até bitcoin e outras criptomoedas, conforme Christian Mueller-Glissmann, analista do Goldman Sachs.

Com o fim da Guerra do Irã, como ficam os investimentos? O que esperar da renda fixa e de ações

15 de Junho de 2026, 12:27

A reação positiva dos mercados no Brasil neste começo de semana diante do fim da Guerra do Irã, com queda do dólar e alta da bolsa, acompanha um movimento global. No curto prazo, a redução dos preços do petróleo vai ajudar o câmbio, reduzir a pressão inflacionária e melhorar as perspectivas para setores mais sensíveis aos juros. Mas, no médio prazo, o cenário não vai ser o mesmo de antes do conflito.

A tendência é que a bolsa retome o rumo das altas com ajuda de setores que se beneficiam desse cenário mais otimista, como varejo, construção civil, shopping centers e ações de companhias de menor porte, as small caps – ainda que o Ibovespa fique pressionado pela correção das ações da Petrobras, que respondem por 12% do índice e, com o fim da guerra, perde 4% nesta segunda-feira (15).

Juros futuros

Os juros futuros também caem, dado que passam a embutir menos prêmio de risco diante da perspectiva de alívio sobre os preços globais de energia. Isso significa que quem aproveitou os momentos mais críticos para aplicar em títulos com taxas elevadas, como IPCA + 8% ao ano ou um prefixado acima de 14% anuais, verá seu saldo em reais na carteira aumentar.

Mas a janela dos juros em patamares historicamente elevados ainda está aberta. O Tesouro IPCA+ 2032, por exemplo, ainda está com taxa acima de 8% ao ano, enquanto os papéis prefixados se mantêm acima de 14% ao ano.

Isso significa que, mesmo com o fim da guerra, a volatilidade dos títulos atrelados à inflação e dos prefixados deve se manter ao longo dos próximos meses. As incertezas continuam elevadas no lado doméstico, com ameaças de novas tarifas dos EUA e diante da aproximação das eleições.

Portanto, o investidor que busca travar os rendimentos deve estar preparado para o sobe-e-desce de taxas e preços de títulos. Por outro lado, quem pode manter os recursos aplicados no longo prazo, no mínimo até 2027, vai se beneficiar do juros nos maiores níveis em vários anos.

Na plataforma Tesouro Direto, os efeitos do acordo entre Estados Unidos e Irã sobre a guerra têm se traduzido em queda expressivas de taxas. O Tesouro Prefixado 2029, por exemplo, saiu de 14,97% no pico da semana passada, visto da quarta-feira (10), para 14,32% nesta segunda-feira (15). Esse recuo de taxas representa um ganho de 1,57% no valor do papel em uma semana.

O Tesouro IPCA+ 2032 também apresentou ganhos no seu valor com o recuo de taxas. O título saiu de um pico de inflação mais 8,36% no momento mais tenso da semana anterior para os atuais IPCA + 8,04%, com tendência de queda. A variação representou uma alta de 2,1% no saldo em reais.

No IPCA+2040, mais longo e, portanto, mais sensível a mudanças de taxa, a alta no saldo é de 6%.

Bolsa na berinda

A questão é o que vem depois desse alívio imediato. Mesmo que a guerra tenha durado pouco menos de quatro meses, o mundo já não é mais o mesmo de antes de fevereiro deste ano, quando eclodiu.

O movimento de diversificação internacional voltou a perder força entre abril e maio. Os investidores globais registraram só em maio vendas líquidas de R$ 13 bilhões na bolsa brasileira.

Ainda que o saldo no ano ainda seja positivo em R$ 43 bilhões, em maio e início de junho mais de R$ 22 bilhões deixaram o mercado acionário local.

E o que isso significa para os investidores? No caso da bolsa, o novo mundo pós-guerra pode manter ventos contrários ao movimento de entrada de recursos que sustentou várias quebra de recordes do Ibovespa no primeiro trimestre.

O momento, portanto, é ajustar estratégias. Uma forma de se precaver de oscilações mais intensas da bolsa daqui para a frente é se tornar mais seletivo na escolha dos papéis.

O setor de “utilities”, por exemplo, eleva o lado defensivo da carteira de renda variável. O nome em inglês se refere às empresas de utilidade pública, como saneamento e energia elétrica. Esse setor inclui nomes como Sabesp, Axia, Copel e Eneva.

São, em geral, negócios mais estáveis e com receitas previsíveis por serem reguladas. Grande parte das companhias também costuma aparecer com frequência nas listas de maiores pagadoras de dividendos.

Setor de tecnologia volta a decolar

Um dos principais ventos contras para a renda variável vem da retomada da “força gravitacional” das ações de tecnologia, em especial aquelas ligadas à cadeia de inteligência artificial. O repique recente ocorre em meio às notícias sobre novas ofertas iniciais de ações trilionárias.

O IPO da SpaceX, do bilionário Elon Musk, movimentou US$ 75 bilhões e levou a fabricante de foguetes e operadora do sistema de internet via satélite Starlink a um valor de mercado de US$ 1,75 trilhão.

A OpenAI, criadora do ChatGPT, deve ser a próxima. A companhia pode captar US$ 60 bilhões em uma abertura de capital no segundo semestre. Esse volume de recursos colocaria a companhia no seleto clube do trilhão, com um “valuation” de US$ 1 trilhão.

Outro mega IPO no horizonte é o da Anthropic, rival da OpenAI e dona da plataforma Claude.

As narrativas de inovação disruptiva — IA, computação avançada, infraestrutura espacial, defesa tecnológica — têm levado boa parte do dinheiro internacional de volta à órbita do mercado americano.

Juros das Treasuries

Outra mudança trazida pela guerra diz respeito ao nível dos juros de longo prazo americanos. Antes do conflito, a Treasury de 10 anos, principal referência nesse mercado, negociava a taxas levemente abaixo de 4% ao ano. No cenário atual, o retorno tem variado entre 4,4% e 4,5% anuais. Na manhã desta segunda feira, com o acordo de cessar-fogo digerido pelo mercado, a taxa operava em leve queda, a 4,45%.

O título mais longo do Tesouro americano, a Treasury de 30 anos, chegou a tocar o maior nível em 19 anos no fim de maio, aos 5,196%. Nesta segunda-feira (15), a taxa permanece perto de 5% ao ano, aos 4,994%. O rendimento atual se mantém no maior nível desde julho de 2007.

Na renda fixa, quando as taxas sobem significa que os preços dos títulos caíram. Com as altas atuais, a remuneração das Treasuries volta a patamares historicamente elevados. O avanço dos retornos passa a atrair mais capital ao mercado dos EUA e fortalece o dólar globalmente.

A alta das taxas vem a reboque das preocupações com a escalada da inflação global. A percepção é que a alta de preços criada pelo conflito não vai desaparecer automaticamente.

Há uma aceleração inflacionária “contratada” e espalhada pelas cadeias globais: fretes marítimos mais caros, seguros elevados, custos energéticos ainda represados e uma normalização da oferta de óleo e gás que ainda deve levar alguns meses. Mesmo com o petróleo em queda, parte desse choque vai contaminar os índices ao longo dos próximos trimestres e tirar a visibilidade futura da inflação.

E isso muda tudo nos mercados. Se antes da guerra os bancos centrais globais ainda administravam ciclos de cortes de juros, agora o caminho se inverteu: o Banco Central Europeu (BCE) subiu a taxa em 0,25 ponto percentual e outros BCs, como o Bando da Inglaterra (BoE) e o Banco do Japão (BoJ), já começam a sinalizar a possibilidade de subir as taxas nas próximas reuniões.

Volatilidade em alta na renda fixa brasileira

No médio prazo, portanto, a renda fixa brasileira pode ver a volatilidade voltar ao mercado de juros prefixados e atrelados à inflação. Se nesta segunda-feira predomina o alívio, daqui a alguns meses, no entanto, tudo pode mudar.

A perspectiva de freio no ciclo de queda de juros aqui e uma guinada lá fora vai afetar as taxas locais. Isso porque, diante das incertezas sobre as decisões dos BCs, os preços vão oscilar ao sabor do noticiário e das preocupações de investidores.

Para o investidor brasileiro, o importante é ter sangue frio. Quem aproveitou para travar taxas historicamente elevadas em títulos IPCA+, por exemplo, tende a ganhar com o chamado “carrego”, ou seja, pelo fato de manter o papel em carteira por um tempo mais prolongado ou até o vencimento.

Há, por exemplo, perspectiva de ganhos se a inflação subir mais do que o esperado. Mas também com uma queda de taxas em um cenário mais favorável. Quem tem mais tolerância ao risco pode, inclusive, aproveitar os momentos de estresse para travar novas taxas.

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