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Impasse com a Europa empurra Mercosul para outros acordos globais

21 de Dezembro de 2025, 09:26

Enquanto a União Europeia luta para concluir um acordo comercial com o Mercosul, concorrentes de olho no mercado consumidor da América do Sul e em seus vastos recursos minerais começam a se mexer.

Impulsionadas pelas tarifas de Donald Trump, as conversas entre o bloco sul-americano e parceiros como Emirados Árabes Unidos, Canadá e Índia ganham nova importância, enquanto uma UE dividida vacila após mais de um quarto de século de negociações. A perspectiva de rivais garantirem acesso preferencial aos mercados do Mercosul — inclusive a minerais críticos — está chamando a atenção de capitais de Londres a Tóquio.

“Estamos determinados a aprofundar nossos laços comerciais”, disse Yasushi Noguchi, embaixador do Japão no Brasil, em entrevista nesta semana. O Japão está “muito interessado em como isso vai se desenrolar” no acordo UE-Mercosul, já que empresas japonesas muitas vezes competem diretamente com as europeias, afirmou.

A impaciência com a UE veio à tona em uma reunião de líderes do Mercosul no sábado, depois que a resistência de agricultores europeus — especialmente na França e na Itália — voltou a provocar um adiamento.

“Sem vontade política e coragem de seus líderes, não será possível concluir uma negociação que já se arrasta há 26 anos”, disse o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva na cúpula que sediou no sábado. “Enquanto isso, o Mercosul continuará trabalhando com outros parceiros.”

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, era esperada no encontro para assinar o acordo UE-Mercosul. Ela cancelou a viagem de última hora depois que a UE não conseguiu reunir os votos necessários para aprová-lo.

Autoridades europeias agora miram uma ratificação em meados de janeiro. A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, que detém o voto decisivo, disse a Lula nesta semana que está confiante de que poderá apoiar o acordo se tiver mais tempo para angariar apoio interno.

O Mercosul, que reúne Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, já havia aceitado uma exigência de última hora da UE para incluir salvaguardas destinadas a proteger os agricultores europeus.

Países da UE como França e Polônia há muito se opõem ao acordo, argumentando que dar acesso à gigantesca indústria agrícola da América do Sul prejudicaria os produtores europeus.

A Bloomberg Economics estima que o acordo poderia gerar um impulso econômico de até 0,7% para os países do Mercosul até 2040, e de 0,1% para a Europa.

Ainda assim, a UE teria o maior ganho geopolítico ao ampliar sua presença em uma parte do mundo onde a China vem ganhando cada vez mais espaço, segundo a análise.

Fazendeiros protestam em Bruxelas, na Bélgica, contra o acordo entre União Europeia e Mercosul. Foto: Bloomberg

O acordo UE-Mercosul continua sendo o “Santo Graal” para a América do Sul. Ele criaria um mercado integrado de cerca de 780 milhões de consumidores e provavelmente impulsionaria setores como o agronegócio, ao mesmo tempo em que aumentaria os investimentos europeus na região.

Com as tarifas de Trump redesenhando o comércio global, a UE corre contra o tempo para buscar novas parcerias e expandir as antigas, numa tentativa de diversificar suas trocas comerciais.

Neste ano, o Mercosul assinou um acordo de livre-comércio com o bloco formado por Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein, conhecido como EFTA. O grupo espera concluir negociações com os Emirados Árabes Unidos e com o Canadá em 2026.

O bloco também quer iniciar em breve negociações com o Reino Unido, já abriu conversas com Vietnã e El Salvador e trabalha no desenvolvimento de um marco comercial com o Japão.

“Estamos dispostos a avançar, entendendo que a Europa tem seus próprios prazos para lidar com suas questões institucionais internas”, disse o chanceler paraguaio Rubén Ramírez a jornalistas na sexta-feira. “Mas, ao mesmo tempo, esses prazos não são infinitos.”

Acordo com o Mercosul vira prova de fogo para a ambição global da União Europeia

20 de Dezembro de 2025, 11:51

Ursula von der Leyen deveria assinar no sábado (20) o maior acordo de livre-comércio da história da União Europeia, consolidando o bloco como uma força geoeconômica global.

Em vez disso, a presidente da Comissão Europeia terá de encontrar uma forma de salvar o pacto com o Mercosul, tentando costurar apoio de última hora de países como a Itália, que ajudaram a adiar o acordo — mais uma vez — por temerem impactos negativos sobre seus setores agrícolas.

As negociações do tratado comercial — com Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai — se arrastam há 25 anos, irritando os países sul-americanos. O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva disse no início desta semana que agora era “agora ou nunca”.

Autoridades dizem que tentarão novamente assinar o acordo em 12 de janeiro, mas não há garantias.

O fracasso contínuo em ratificar o tratado é um golpe para a UE, que quer usar o acordo transatlântico como prova de que pode se afirmar como potência global. Bruxelas busca, em especial, mostrar que é capaz de sair da órbita da China e dos Estados Unidos, que vêm adotando relações comerciais cada vez mais tensas com a Europa.

Mulher loira em blazer claro posa diante de fundo azul com logo e nome "European Parliament".
Ursula von der Leyen Foto: Frederick Florin/AFP/Getty Images

“Este é o momento da independência da Europa”, disse von der Leyen no início da semana, antes de uma cúpula em que os líderes europeus discutiriam opções de financiamento para a Ucrânia, além do Mercosul.

A UE vê a China tanto como concorrente econômico quanto como rival sistêmico e vem lidando com uma escalada de tensões comerciais, que já levou os dois lados a impor tarifas sobre importações um do outro. No início deste ano, Pequim anunciou planos para apertar o controle sobre exportações de terras raras e outros materiais críticos, mostrando à UE o quão vulneráveis são suas indústrias.

E neste verão europeu, a UE aceitou o que considerou um acordo comercial desequilibrado com os EUA, concordando em impor uma tarifa de 15% sobre a maior parte de suas exportações, ao mesmo tempo em que se comprometeu a eliminar todas as tarifas sobre bens industriais americanos.

O acordo comercial UE-Mercosul poderia ajudar a Europa a escapar da deterioração de suas relações com os EUA e a China. O pacto criaria um mercado integrado de 780 milhões de consumidores, eliminaria gradualmente tarifas sobre produtos como automóveis e daria à Europa acesso facilitado à vasta produção agrícola e aos recursos naturais do Mercosul.

Mais do que isso, permitiria à UE construir laços econômicos e cadeias de suprimento para além dos EUA e da China. O acordo também mostraria à região que a Europa pode oferecer uma alternativa econômica crível às duas superpotências.

Deixar escapar a parceria com o Mercosul “certamente seria um erro de proporções épicas para as ambições da Europa de se posicionar como um ator relevante no cenário econômico global”, disse Agathe Demarais, pesquisadora sênior do European Council on Foreign Relations, um think tank.

Por enquanto, a UE não conseguiu reunir a maioria necessária para aprovar o acordo, principalmente por causa do temor arraigado de que a nova dinâmica comercial enfraqueça o setor agrícola europeu. Durante uma cúpula realizada na quinta-feira em Bruxelas, líderes do bloco enfrentaram milhares de agricultores em protesto, que queimaram pneus e despejaram batatas nas ruas.

Após o fim da reunião, no entanto, os líderes expressaram otimismo de que ainda seria possível avançar em janeiro.

Esperar mais três semanas é algo “tolerável” depois de 25 anos de negociações, disse von der Leyen a jornalistas. “Estou muito confiante de que vamos conseguir concluir.”

O destino do acordo pode depender da Itália. A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, afirmou que precisa de mais tempo para obter aprovação interna.

Fazendeiros protestam em Bruxelas, na Bélgica, contra o acordo entre União Europeia e Mercosul. Foto: Bloomberg

“Outras economias em desenvolvimento estão observando e vão levar em conta o quão difícil é fechar qualquer acordo com a UE”, disse Demarais.

Para Berlim e vários outros governos, porém, a líder italiana estaria tentando extrair o máximo possível de seu papel de fiel da balança, buscando mais concessões para o setor agrícola de seu país.

Lula disse que Meloni lhe contou que precisava apenas de mais alguns dias.

“Ela me explicou que não é contra o acordo. Está apenas enfrentando um certo constrangimento político por causa dos agricultores italianos”, disse Lula a jornalistas em Brasília, na quinta-feira. “Mas está confiante de que pode convencê-los a aceitar o acordo.”

Enquanto alguns esperam que a Itália acabe dando seu aval, diante dos benefícios potenciais para seus exportadores, outros são mais pessimistas.

“Se não houver assinatura até 20 de dezembro, então o acordo está morto, e isso terá consequências para a UE em futuras relações comerciais com países do mundo todo”, disse nesta semana Bernd Lange, presidente da comissão de comércio do Parlamento Europeu.

Na tentativa de destravar o acordo nesta semana, o Parlamento Europeu e as capitais do bloco concordaram em incluir novas salvaguardas para proteger os agricultores europeus de oscilações bruscas de preços ou importações.

Homem e mulher apertam as mãos à frente das bandeiras do Brasil e da UE.
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva cumprimenta presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em Bruxelas 17/07/2023 REUTERS/Yves Herman

Não funcionou. E, se o impasse continuar sem uma conclusão, os dois blocos podem voltar suas atenções para outros parceiros.

O Mercosul quer concluir um acordo com os Emirados Árabes Unidos e estuda possíveis parcerias com Canadá, Reino Unido e Japão. A UE, por sua vez, tenta fechar um acordo com a Índia, que também se arrasta há quase duas décadas.

“Se a UE quiser continuar sendo crível na política comercial global, decisões precisam ser tomadas agora”, disse o chanceler alemão Friedrich Merz ao chegar à cúpula em Bruxelas.

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