Visualização normal

Received before yesterdayInvestNews

Guerra no Oriente Médio ameaça fertilizantes usados na soja

21 de Março de 2026, 13:15

A guerra no Oriente Médio provocou grandes disrupções na oferta global de nutrientes agrícolas à base de nitrogênio. Agora, uma ameaça potencialmente maior começa a surgir em outra frente importante do mercado de fertilizantes.

Desde o início do conflito, o foco tem estado na ureia, um fertilizante nitrogenado fundamental para culturas como o milho. Os preços do insumo dispararam à medida que a guerra bloqueia embarques pelo Estreito de Hormuz, levando produtores rurais a correr atrás de abastecimento. O que tem passado mais despercebido em meio ao caos é o risco para os fertilizantes fosfatados — essenciais para lavouras como a soja, uma das bases da produção mundial de alimentos.

O Oriente Médio responde por apenas cerca de um quinto do comércio global de três produtos-chave de fosfato, segundo o The Fertilizer Institute. Mas quase metade da oferta mundial de enxofre — que é transformado em ácido sulfúrico, insumo usado no processamento de fertilizantes fosfatados — vem de países do Oriente Médio vulneráveis a interrupções no Estreito de Hormuz.

Os efeitos ao longo da cadeia podem começar a se tornar “exponenciais” se o conflito durar muito mais tempo, à medida que os produtores consumirem seus estoques já existentes de enxofre e ácido sulfúrico, disse Andy Hemphill, analista do mercado de ácido sulfúrico na plataforma de preços de commodities ICIS.

Isso é uma má notícia para a oferta global de alimentos, que depende do fosfato para sustentar o crescimento de tudo, de soja a batata. O conflito já alimenta preocupações com inflação e segurança alimentar. Também representa uma nova ameaça aos agricultores americanos, que já vinham enfrentando anos de custos de produção elevados. Quase 80% do fósforo usado nos Estados Unidos é aplicado em lavouras de soja e milho, que depois são transformadas tanto em ração animal quanto em combustível.

@investnewsbr

Fertilizantes: a estratégia da Petrobras para reduzir a dependência externa do agro. petrobras fertilizantes agro

♬ som original – InvestNews BR – InvestNews BR

Mesmo antes da guerra, a oferta tanto de fosfato quanto de enxofre já estava apertada. Os preços do enxofre haviam disparado para níveis recordes, impulsionados em parte pela demanda da indústria de mineração, que usa ácido sulfúrico para extrair metais como cobre e níquel. As exportações russas foram limitadas pela guerra na Ucrânia e por uma proibição de exportações, enquanto a China reduziu os embarques de fosfato para priorizar o consumo doméstico.

A política comercial dos Estados Unidos adicionou mais pressão. Tarifas impostas em 2023 sobre o fosfato do Marrocos — ainda em vigor — e tarifas mais amplas implementadas no ano passado pelo presidente Donald Trump limitaram as importações.

“O fosfato já tinha problemas de sobra antes mesmo de a guerra começar. A guerra apenas piorou uma situação que já era ruim”, disse Josh Linville, vice-presidente da área de fertilizantes da corretora StoneX Group. “Eu diria até que ele está quase em situação pior do que a ureia e os nitrogenados hoje.”

Houve esforços para recompor estoques, especialmente de fosfato, depois que fertilizantes foram poupados de algumas tarifas no fim do ano passado, disse Veronica Nigh, economista-chefe do The Fertilizer Institute. Mas, segundo ela, o verdadeiro desafio está na oferta de enxofre. O conflito em Israel já havia elevado tanto os preços do insumo que parte da produção de fosfato acabou sendo paralisada.

Ilustração: João Brito

“O enxofre é usado em muitas coisas e, se estivermos num cenário de oferta restrita, fertilizantes podem não ser o primeiro destino desse enxofre”, disse Nigh. “Pode ser um problema mais prolongado.”

Os contratos de enxofre em Tampa — uma referência importante nos EUA, com liquidação trimestral — atingiram preço recorde no fim de janeiro, segundo dados da Bloomberg Green Markets desde 2012. Já os preços em Nova Orleans do fosfato diamônico, o fertilizante fosfatado mais usado do mundo, estão no maior nível em quase quatro meses.

Os produtores de fertilizantes tendem a ficar pressionados, já que compradores concorrentes, especialmente mineradoras, conseguem pagar mais, disse Faraz Ahmed, diretor da trading Montage Commodities, sediada nos Emirados Árabes Unidos. O impacto sobre os preços dos fertilizantes fosfatados pode aparecer já em abril, quando a Índia costuma aumentar as compras para sua produção doméstica — um movimento que pode empurrar o mercado para um “modo de pânico”, afirmou.

A situação reforça, nos Estados Unidos, os apelos por mais estabilidade nesse mercado. Os agricultores dependem de três grandes famílias de fertilizantes: nitrogenados, fosfatados e potássicos. Apenas esta última, majoritariamente abastecida pelo Canadá e aplicada junto com fosfato em lavouras de soja, está relativamente protegida do atual choque global de oferta.

Entidades do setor agrícola pressionam o governo americano a suspender as tarifas sobre fertilizantes do Marrocos, país que detém as maiores reservas mundiais de rocha fosfática. O argumento é que os preços elevados e os riscos geopolíticos já reduziram a necessidade de medidas protecionistas.

visualization

Essas tarifas — impostas em 2021, depois que a Mosaic, da Flórida, pediu ao Departamento de Comércio uma investigação — estão atualmente em revisão. A American Farm Bureau Federation pediu a Trump a suspensão temporária dessas taxas, enquanto uma coalizão com alguns dos maiores grupos agrícolas dos EUA solicitou na semana passada que a Mosaic e a JR Simplot retirassem seu apoio à manutenção das tarifas. Em 17 de março, as empresas enviaram cartas ao Departamento de Comércio informando que pretendem participar da revisão conduzida pelo órgão.

Enquanto isso, o problema de acessibilidade já reduz a demanda. David Delaney, CEO da produtora de fosfato Itafos, afirmou esperar uma queda de cerca de 20% no uso de fosfato nos Estados Unidos nos 12 meses encerrados em junho. As restrições de oferta podem aprofundar esse recuo — especialmente se os agricultores plantarem mais soja no lugar de milho, para escapar dos altos custos dos fertilizantes nitrogenados.

“Vai continuar apertado na primavera, no verão e no outono”, disse Delaney. “Com um corte de 20%, talvez haja produto suficiente para atravessar a primavera. Mas a gente termina a temporada com os estoques completamente zerados.”

Fertilizante da Amazônia: a arma do Brasil para diminuir a dependência da Rússia

7 de Novembro de 2025, 06:00

No coração da Floresta Amazônica, trabalhadores se preparam para escavar um poço vertical tão largo quanto um túnel de metrô, cerca de 800 metros de profundidade. Não é ouro nem petróleo o que está escondido em uma clareira gramada entre terras indígenas, mas fertilizante — algo, para este vasto país agrícola, possivelmente tão precioso quanto.

Com o acirramento das tensões no comércio global, o Brasil substituiu uma fatia crescente das exportações agrícolas dos EUA para a China, que passou a evitar a soja americana em resposta às tarifas do governo Trump. A imposição, pela administração Trump, de tarifas de 50% ao Brasil neste ano elevou as apostas para que o setor agrícola — em que o país é líder global — sustente a maior economia da América Latina em meio à guerra comercial.

Mas o fertilizante continua sendo o calcanhar de Aquiles do Brasil. O país importa cerca de 90% dos nutrientes de nitrogênio, fósforo e potássio de que precisa, principalmente da Rússia, cuja guerra na Ucrânia, somada às sanções ocidentais, tornou o abastecimento precário.
A solução está na maior floresta tropical do mundo.

A mineradora Brazil Potash Corp., sediada em Toronto, está investindo US$ 2,5 bilhões para construir uma mina subterrânea de potássio perto da cidade de Autazes, a poucos quilômetros das margens do Rio Madeira, explorando a vasta Bacia Potássica da Amazônia, uma das maiores do mundo.

Descoberta por acaso há mais de 50 anos, quando a estatal brasileira Petrobras perfurava em busca de petróleo, a camada alaranjada-rosada de cloreto de potássio se estende por cerca de 400 quilômetros sob a floresta — resquícios secos de um oceano antigo.

A produção na mina de Autazes, estimada em 2,4 milhões de toneladas por ano, está prevista para começar em 2030. Destinada inteiramente ao mercado brasileiro, essa oferta atenderia a cerca de um quinto da necessidade de potássio do país ao longo dos 30 anos de vida útil da mina. A bacia, por si só, possui reservas suficientes para levar o Brasil a ficar próximo da autossuficiência em potássio.

Um fornecimento dedicado de potássio ajudaria a blindar as safras brasileiras de choques geopolíticos como a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, quando os preços recordes do insumo provocaram pânico no cinturão agrícola do país. Em contrapartida, daria ao Brasil uma vantagem em momentos como o atual, quando tensões entre EUA e China estão redirecionando fluxos de comércio e elevando a demanda pelos produtos agrícolas brasileiros.

Barcaça transportando soja pelo rio Madeira, onde o potássio também deverá ser transportado futuramente. Foto: María Magdalena Arréllaga/WSJ

“Temos um presente de Deus aqui, e precisamos aproveitá-lo ao máximo”, disse Raphael Bloise, responsável pelo projeto no Brasil. A mineradora listada nos EUA planeja outro site em Fazendinha, perto do encontro do Rio Madeira com o Rio Amazonas, afirmou Bloise.

O Brasil precisa de mais fertilizante do que outros gigantes agrícolas para sustentar sua produção atual. Abençoado com um clima que permite o cultivo o ano todo, o país vê seus solos terem nutrientes rapidamente exauridos. O solo rico em argila também tem dificuldade em reter fertilizantes durante as chuvas intensas.

Investidores chineses já demonstraram interesse no projeto, que inclui um terminal portuário e uma linha de transmissão de 164 km. Em um possível acordo de swap, Pequim poderia se comprometer a adquirir potássio da mina em nome dos agricultores brasileiros em troca de entregas futuras garantidas de cultivos como soja e algodão, segundo a empresa. Mas a localização do projeto de Autazes, no estado do Amazonas, é ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição.

O Amazonas faz fronteira com Mato Grosso, o maior produtor de soja do Brasil e grande consumidor de fertilizantes — a cerca de 400 milhas (aproximadamente 640 km) através de densa floresta, ainda assim mais perto do que a Rússia.

Caminhões já transportam a safra de Mato Grosso para o norte, até barcaças fluviais com destino a portos no litoral atlântico do Brasil. Quando a mina abrir, eles poderão retornar às áreas agrícolas mato-grossenses carregados de potássio, em vez de vazios. “O Brasil é um exportador maciço de produtos agrícolas para a China, mas está exposto a todos esses riscos geopolíticos que afetam seu suprimento de fertilizantes — ter uma fonte segura de potássio no próprio quintal é essencial”, disse Matt Simpson, presidente-executivo da Brazil Potash.

Mas cavar um enorme buraco em uma das regiões mais sensíveis do mundo do ponto de vista ambiental e cultural não é tarefa fácil, disse Bloise, que passou boa parte da carreira no desenvolvimento de Carajás, a maior mina de minério de ferro do mundo, também localizada na Amazônia.

A Brazil Potash passou a última década travando batalhas judiciais e tentando conquistar do prefeito local ao padre da comunidade. A empresa finalmente obteve permissão para seguir adiante.

A companhia planeja minerar apenas em áreas fora das terras dos Mura, o povo indígena cujo território se sobrepõe a partes das jazidas de potássio. Os Mura inicialmente desconfiaram. Desde os tempos coloniais, tiveram de se defender de incursões violentas — primeiro dos colonizadores portugueses e, mais recentemente, de garimpeiros ilegais.

Hoje, cerca de 35 das 40 aldeias Mura na região apoiam a mina, conquistadas pelas promessas de um futuro melhor, segundo o Conselho Indígena Mura. A Brazil Potash investiu em uma escola e em um time de futebol locais e prometeu ajudar os Mura a ampliar a renda com piscicultura, agricultura em pequena escala e artesanato.

Em Urucurituba, a comunidade ribeirinha de cerca de 500 famílias mais próxima da mina, o saneamento precário tem levado a frequentes surtos de diarreia. O píer desaba quando o rio enche, e ataques de piratas se tornaram comuns à medida que o narcotráfico avança pela Amazônia. Não há presença policial e, embora a vila tenha um posto de saúde, médicos a visitam apenas a cada duas semanas.

“Não queremos isso para os nossos filhos”, disse Aldinelson Moraes Pavão, cacique Mura de Urucurituba, acrescentando que as comunidades indígenas também desejam o que o restante dos brasileiros deseja.
“Quem não quer tomar um copo de água gelada da geladeira, ter um carro ou dormir em um quarto com ar-condicionado?”, afirmou.

A mina toca no cerne do dilema do Brasil sobre o futuro da floresta e de seu povo, enquanto líderes mundiais se reúnem na Amazônia neste mês para a cúpula do clima da ONU.

Ambientalistas alertam que até mesmo a mineração legal pode estabelecer um precedente perigoso na Amazônia, abrindo caminho para desmatamento, grilagem de terras e conflitos sociais.

Críticos afirmam que a infraestrutura construída para minas industriais — como estradas de acesso, portos e linhas de transmissão — inevitavelmente atrai madeireiros ilegais, pecuaristas e garimpeiros cada vez mais para o interior da floresta. Policiar uma mata quase do tamanho dos EUA contíguos é quase impossível.

Outros argumentam que o Brasil precisa encontrar uma forma de sustentar as cerca de 30 milhões de pessoas — indígenas e não indígenas — que vivem em sua porção da Amazônia, muitas delas em pobreza extrema. A pecuária já devastou áreas vastas, privando comunidades indígenas e outras de meios de subsistência tradicionais. Em comparação com a agropecuária, a mineração deixa uma pegada relativamente pequena.

A Brazil Potash argumenta que produzir fertilizantes domesticamente poderia aliviar a pressão sobre florestas em todo o país, já que muitos agricultores desmatam novas áreas em vez de reutilizar lavouras antigas simplesmente por faltarem nutrientes para restaurar a fertilidade do solo.

Em Autazes, um município de cerca de 50 mil habitantes, a maioria das famílias depende de empregos públicos ou de programas de assistência social, disse o prefeito José Thomé Neto. A mina proposta criaria vários milhares de empregos durante a construção e a operação, além de até 30 mil empregos indiretos em toda a região, afirmou. Autoridades locais esperam que a população do município dobre ao longo dos 30 anos de vida útil da mina.

“Há uma enorme expectativa aqui”, disse Neto. “Este projeto vai contribuir para a segurança alimentar do nosso país e também para um novo modelo econômico para o estado.”

Escreva para Samantha Pearson em samantha.pearson@wsj.com

❌