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O próximo Lehman pode ser cripto? O risco escondido nas stablecoins

8 de Janeiro de 2026, 17:49

As stablecoins – criptomoedas atreladas a outros ativos, como o dólar – cresceram rápido demais. Hoje, já somam um valor de mercado de cerca de US$ 317 bilhões, o equivalente a 10% dos US$ 3,1 trilhões da indústria de ativos digitais. Tradicionalmente, elas são usadas para trading. Porém, aos poucos, também vêm invadindo o sistema financeiro: aparecem em remessas internacionais, plataformas de pagamento, compra de títulos públicos e até em parcerias com gigantes como Visa e Mastercard.

É algo inovador sim – afinal, cripto é mais rápida, funciona 24 horas por dia e corta intermediários, reduzindo um bocado dos custos. Mas esse avanço todo também acende um alerta. Se essas moedas digitais estão com os braços espalhados por todo o sistema financeiro, um problema maior com seus emissores – risco inerente a qualquer empresa, especialmente num setor cuja regulação ainda está sendo construída – pode virar o estopim de um risco sistêmico. Ou seja, uma bela bagunça em escala global.

Risco sistêmico é quando o problema de uma parte do sistema tem efeito dominó e começa a derrubar o resto. Imagine um grande banco quebrando: outras instituições têm dinheiro aplicado nele, empresas dependem dele para operar, investidores entram em pânico, o crédito trava e a economia desacelera. Um exemplo clássico é a quebra do Lehman Brothers, em 2008, que tinha cerca de US$ 639 bilhões em ativos e espalhou a crise pelo mundo inteiro.

Cripto é igual? Não exatamente – mas a lógica do risco é parecida.

Se uma stablecoin grande quebrar (poucas dominam o mercado), o problema não fica restrito a ela: exchanges que usam essa moeda como base de negociação travam, fundos e empresas que guardam caixa nelas ficam com buracos no balanço e até o mercado de títulos públicos pode sentir o impacto, porque eles compõem parte do lastro delas. O filme é conhecido: pânico, vendas forçadas, contágio e crise de confiança.

“Elas (as stablecoins) se tornaram fundamentais para pagamentos, liquidação e liquidez internacional. Com o crescimento da tokenização e parcerias com bancos tradicionais, uma crise geraria um choque de liquidez imediato em empresas que as utilizam para capital de giro e pagamentos”, disse Gabriel Fioravante, professor da FIA Business School.

“Os sinais de contágio aparecem no volume investido e no interesse crescente de instituições como Morgan Stanley e Bank of America, além de empresas de pagamento como Visa, Mastercard e PayPal”, falou Humberto Aillón, professor da FIPECAFI.

Vamos por partes.

Risco de concentração extrema

Hoje, as duas maiores stablecoins mercado – a USDT e a USDC – concentram 82% do valor de mercado das stablecoins. A USDT, sozinha, abocanha pouco mais da metade – 58,68%. É uma gigante cripto. Isso cria um problema simples: se essas duas empresas tiverem problemas, quase todo o mercado sente. É o clássico problema de “too big to fail” no mundo cripto.

E não existe “banco central das stablecoins”. Em crises do sistema tradicional, essas entidades podem comprar títulos públicos, ativos privados, injetar liquidez no sistema, abrir linha de crédito etc. Mas no caso das stablecoins, não há nada disso.

Volatilidade e risco de corrida

Mesmo prometendo estabilidade, stablecoins podem perder a paridade se houver dúvidas sobre reservas ou governança. Em crises, investidores correm para sair ao mesmo tempo. Como nem todos conseguem resgatar direto no emissor, vendem no mercado com desconto, alimentando o pânico.

Isso já aconteceu.

A Tether, emissora da USDT, já perdeu a paridade em momentos de estresse. No fim do ano passado, a S&P Global Ratings, uma das principais agências de classificação de risco do mundo, rebaixou a capacidade da moeda de manter o vínculo com o dólar para a pior nota da escala, citando justamente falta de transparência e maior risco dos ativos.

Impacto no mercado de títulos públicos

Hoje, stablecoins já detêm cerca de 2% de todos os T-bills (títulos americanos de curto prazo), segundo relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) publicado no final do ano passado. Veja o caso da Tether. Seu último balanço mostra US$ 127 bilhões em treasuries – mais do que a Alemanha. É ótimo para o governo dos EUA, que tem cada vez mais compras de sua dívida. No entanto, apontou o FMI, isso também pode ser um problema.

Se continuarem crescendo, disse a entidade, eles podem distorcer o funcionamento desse mercado, pressionando os juros (rendimento) para baixo. Pior: em caso de corrida, o emissor teria de vender enormes volumes de títulos de uma vez, causando “fire sales” (venda forçada e apressada de ativos) e bagunçando mercados que são a base do sistema financeiro e da política monetária.

“Uma deterioração grave nesses mercados poderia potencialmente exigir a intervenção do banco central. Além disso, uma deterioração no mercado de títulos do Tesouro poderia impactar negativamente a capacidade do governo de captar recursos”, disse a entidade.

Concorrência com depósitos bancários

Se stablecoins se tornarem amplamente usadas fora do sistema bancário tradicional (por exemplo, em pagamentos ou reservas de valor), isso pode reduzir depósitos bancários – o que enfraquece uma fonte tradicional de financiamento para bancos, segundo o FMI. Essa perda de depósitos pode, em teoria, reduzir a capacidade dos bancos de emprestar à economia e aumentar o custo do crédito se os bancos tiverem que substituir esses depósitos por fontes de financiamento mais caras

Em países frágeis, stablecoins em dólar podem substituir a moeda local rapidamente. Isso poderia enfraquecer o controle do banco central sobre juros e liquidez, reduz a arrecadação de senhoriagem (o “lucro” que um governo obtém ao emitir dinheiro) e dificulta a política monetária, ainda segundo a entidade. E isso pode acontecer muito mais rápido do que a dolarização tradicional, porque stablecoins funcionam via celular e internet.

Regulação poderia dar um help?

A regulação normalmente chega depois da tecnologia – e no caso das stablecoins isso tem se confirmado. Regras e supervisão ainda variam muito entre países, o que pode ser um problema sério se algo der errado.

Alguns países e blocos já avançaram: exigem reservas um pouco mais transparentes, mecanismos de resgate e proteção ao cliente, e estabeleceram frameworks específicos para moedas digitais. No ano passado, os Estados Unidos publicaram a Genius Act, visto por analistas como um grande avanço para o setor. Também tem a regulamentação de mercados de ativos digitais europeia, a MiCA. Enquanto isso, outros países ainda estão no começo – ou sequer têm legislação clara.

Essa desigualdade, segundo o Banco Central Europeu (BCE), cria lacunas regulatórias que podem ser exploradas por emissores de stablecoins escolhendo operar em lugares com regras mais leves. Falando especificamenteo do bloco, a entidade disse seguinte:

“As discrepâncias globais entre as jurisdições constituem a principal fonte de risco das stablecoins para a zona do euro. Apesar das muitas semelhanças entre os diversos conjuntos de legislação, permanecem diferenças importantes em relação aos requisitos de reserva e se as taxas de resgate são permitidas ou não, por exemplo. Essas diferenças facilitam a arbitragem regulatória”.

O professor Humberto Aillón, da FIPECAFI, lembrou que, no Brasil, o Banco Central e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) vêm trabalhando com foco na segurança do investidor. A regulamentação foi publicada no fim do ano passado e aumentou as exigências de reservas, regras de custódia e governança, em linha com o marco legal dos criptoativos (Lei 14.478/22).

Ainda assim, por se tratar de uma classe de ativos relativamente nova e muito dependente de infraestrutura de blockchain e tecnologia, o consenso no mercado é que a regulação ainda tem bastante espaço para ajustes e melhorias, disse.

O lado A

Existe todo esse medo, mas nem tudo é problema – claro. Apesar dos riscos, as stablecoins resolvem problemas reais – como já foi falado muito por aqui e em vários veículos. Elas tornam pagamentos internacionais mais rápidos e baratos, podem ser usadas para viagem, reduzem intermediários, funcionam de domingo a domingo, e já estão sendo usadas por empresas e bancos para liquidação financeira.

Além disso, as firmas emissoras estão se mexendo e melhorando cada vez mais. “A transparência melhorou significativamente. Emissores como a Circle (dona da USDC) utilizam a BlackRock para gerir reservas, com auditorias regulares e verificáveis”, lembrou Fioravante, professor da FIA Business School. Contudo, falou, o mercado ainda cobra auditorias “em tempo real” para garantir que cada token tem 100% de cobertura em ativos seguros, e não em papéis comerciais de menor qualidade

O ponto, dizem especialistas, não é frear a tecnologia. É impedir que ela cresça rápido demais sem uma rede de proteção, como já aconteceu tantas vezes na história do sistema financeiro.

Stablecoins latinas movimentam R$ 25,6 bilhões; Brasil lidera o jogo

17 de Dezembro de 2025, 09:57

Enquanto todo mundo fala das stablecoins de dólar, um outro movimento acontece mais perto da gente. As versões latino-americanas estão ganhando cada vez mais espaço no cenário cripto.

Um estudo divulgado pela Iporanga Ventures nesta semana mostra que as stablecoins do Brasil, México e Colômbia já movimentaram, juntas, R$ 25,6 bilhões em 2025. A expectativa é que o total até o último dia do ano alcance R$ 32 bilhões.

Ainda é pouco se comparado à USDT – que sozinha tem volume diário cerca de três vezes maior do que isso -, mas o avanço chama atenção

E o Brasil é o grande destaque da região. Sozinhas, as stablecoins atreladas ao real brasileiro devem registrar um volume negociado de R$ 21,3 bilhões até o final do ano.

Hoje, o país conta com seis criptos ligadas à sua moeda oficial: BRZ, BRLA, cREAL, BBRL, BRL1 e BRLV. De acordo com o estudo, elas colocam o Brasil como o terceiro maior mercado do mundo em circulação e volume desse tipo de ativo, atrás apenas de tokens de dólar e de euro.

Detalhe: há mais uma cripto “brazuca” prestes a ser criada. Ontem, a B3 anunciou que deve lançar, ainda no primeiro semestre, a sua própria stablecoin. A moeda digital será lastreada em reais e criada para permitir a liquidação de ativos tokenizados dentro da bolsa.

Vale lembrar que esses criptoativos são lastreados, em grande parte, por títulos públicos – o que ajuda a ampliar a demanda por dívida soberana e entra, inclusive, no radar das discussões sobre financiamento do setor público.

Quem usa stablecoins latinas?

No fim do ano passado, investidores profissionais e as chamadas “baleias” (pessoas ou grupos com grandes volumes de ativos digitais) respondiam por 60% do volume movimentado. Os institucionais representavam apenas 5%, enquanto o varejo somava 35%.

Em 2025, esse cenário se inverteu. Hoje, 84% do volume já vem de investidores institucionais, 12% de profissionais e apenas 4% de varejo.

“Stablecoins locais estão se tornando uma ponte entre a economia latino-americana e o sistema financeiro global. Elas já movimentam bilhões de dólares – e dezenas de bilhões de reais -, estão sendo adotadas por instituições e começam a reescrever como câmbio e pagamentos acontecem on-chain”, disse Rodrigo Trindade, research lead da Iporanga Ventures.


Veja as cotações das principais criptomoedas às 9h50:

Bitcoin (BTC):  -0,12%, US$ 87.050,09

Ethereum (ETH): -0,68%, US$ 2.929,45

XRP (XRP): -0,81%, US$ 1,90

BNB (BNB): -0,92%, US$ 859,17

Solana (SOL): -0,44%, US$ 127,90

Outros destaques do mercado cripto

Stablecoins nos bancos dos EUA. O Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC), agência federal dos Estados Unidos, está desenvolvendo uma estrutura para que bancos regulados possam pedir autorização para emitir stablecoins de pagamento. Por enquanto, a proposta está em consulta pública e só depois deve virar regra. Mas a direção é clara: as stablecoins estão deixando de ser um experimento cripto para entrar, de vez, no sistema financeiro tradicional.

Fed mais amigável às criptos? O presidente dos EUA, Donald Trump, está avaliando possíveis substitutos de Jerome Powell, atual presidente do Federal Reserve (Fed). Nesta quarta (17), ele vai entrevistar Christopher Waller, diretor do banco central americano. Waller é visto como pró-cripto e já declarou apoio, no passado, especialmente às stablecoins e às finanças descentralizadas (DeFi).

Leilão público com tecnologia cripto. A blockchain também começa a avançar no setor público. O Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP) vai realizar, agora em dezembro, o primeiro leilão público usando essa tecnologia. O sistema foi desenvolvido pela empresa InspireIP. Todo o processo – edital, laudos, fotos, anexos, retificações e o histórico completo de alterações – foi registrado em uma estrutura cripto.

Quer saber mais sobre cripto? Assine o morning call do InvestNews!

Efeito pré-IOF: brasileiros movimentam mais de R$ 10 bi em stablecoins

9 de Dezembro de 2025, 10:16

A movimentação das stablecoins em dólar segue a todo vapor no Brasil. Em novembro, o volume total negociado dessas criptos nas exchanges locais somou R$ 10,7 bilhões, segundo dados divulgados na segunda-feira (8) pela plataforma Biscoint, do Bitybank.

A USDT, da Tether, continua na liderança: foram R$ 10,22 bilhões só no mês passado – praticamente o mesmo patamar de outubro. Já a USDC, da Circle, movimentou R$ 463 milhões, ligeiramente abaixo dos R$ 477 milhões do mês anterior.

O apetite dos brasileiros por esses tokens, apelidados de “cripto dólar”, vem crescendo nos últimos anos porque eles podem ser usados para operações de câmbio e ainda são isentos de IOF. Essa vantagem, no entanto, tem prazo para acabar: até maio de 2026.

A norma que muda o jogo foi publicada pelo Banco Central em novembro, quando a autarquia federal regulamentou o mercado de cripto e enquadrou as stablecoins dentro das regras de câmbio.

A Receita Federal – responsável por fazer a administração dos tributos federais – ainda não detalhou como exatamente será a cobrança do IOF, mas a expectativa é que publique algo nos próximos meses.

Bitcoin e Ethereum seguem firmes

Apesar da preferência por stablecoins, o volume de bitcoin e ethereum também permanece robusto.

O BTC movimentou R$ 4,84 bilhões em novembro, contra R$ 5,2 bilhões em outubro. O ethereum somou R$ 1,22 bilhão, ante R$ 1,57 bilhão no mês anterior.

Na manhã desta terça-feira (9), as duas maiores criptomoedas do mercado operam em baixa: bitcoin na casa dos US$ 90.630,70 e ethereum a US$ 3.130,78.

Andre Franco, CEO da Boost Research, disse que o mercado de criptomoedas apresenta uma expectativa de curto prazo neutra a levemente negativa.

“A aversão ao risco e a indefinição sobre o futuro da política monetária global exercem pressão sobre ativos mais voláteis, como as criptomoedas”.

Veja as cotações das principais criptomoedas às 10h:

Bitcoin (BTC):  -1,53%, US$ 90.630,70

Ethereum (ETH): -0,10%, US$ 3.130,78

XRP (XRP): -0,29%, US$ 2,08

BNB (BNB): -1,95%, US$ 888,08

Solana (SOL): -3,97%, US$ 132,91

Outros destaques do mercado cripto

Stablecoin de real levanta uma boa grana. A empresa brasileira Crown, responsável pela BRLV – uma stablecoin atrelada ao real -, recebeu um aporte de US$ 13,5 milhões (R$ 70 milhões) liderado pela Paradigm, uma das gigantes do mundo cripto. Com o caixa reforçado, a firma promete expandir a infraestrutura da BRLV, que já soma R$ 360 milhões em valor de mercado. Mais um sinal de que as stablecoins “made in Brazil” estão chamando atenção além do quintal.

Strategy engorda o caixa de BTC. A Strategy, maior tesouraria corporativa de bitcoin do mercado, abriu a carteira mais uma vez. A empresa informou que acrescentou 10.624 BTC ao portfólio – um investimento de US$ 926 milhões. Com isso, a companhia passa a deter 660.624 bitcoins, algo em torno de US$ 60 bilhões. O saldo equivale a cerca de 3% de toda a oferta máxima de 21 milhões de BTC previstos para existir no mundo.

ETF de ethereum com “dividendos”. A BlackRock deu mais um passo no universo cripto e entrou com um pedido nos EUA para lançar um ETF de ethereum com staking. O staking permite que investidores mantenham seus ETH bloqueados na blockchain para ajudar a validar transações – e, em troca, recebem recompensas em criptomoedas. Na prática, funciona como uma espécie de “dividendo” do mundo cripto.

Fantasma do lastro assombra a stablecoin USDT após rebaixamento pela S&P

27 de Novembro de 2025, 16:37

O fantasma que assombra a USDT – maior stablecoin do mercado cripto, emitida pela Tether – sempre foi a transparência e a qualidade de suas reservas. Desde o lançamento, em 2014, há dúvidas se o token é realmente sustentado por um lastro sólido, capaz de manter a paridade de 1 para 1 com o dólar americano.

Agora, esse fantasma voltou a aparecer.

A S&P Global Ratings, uma das principais agências de classificação de risco do mundo, rebaixou a capacidade da USDT de manter sua ligação com a moeda americana de 4 (“limitada”) para 5 (“fraca”) – a pior nota da escala. Segundo a agência, a estabilidade do ativo digital está cada vez mais vulnerável justamente por causa de dois fatores conhecidos: falta de transparência e maior exposição a ativos de risco.

Como era de se esperar, o CEO da Tether, Paolo Ardoino, não recebeu bem a classificação. Em suas redes sociais, ele acusou a “máquina de propaganda das finanças tradicionais” de ficar preocupada “quando qualquer empresa tenta desafiar a força da gravidade do sistema financeiro falido”. (No final do texto tem mais da resposta dele)

Vamos contar essa histórica por partes.

O problema nas reservas

O último relatório da Tether, publicado em 30 de setembro de 2025, diz que a empresa tinha US$ 181,2 bilhões em reservas para lastrear US$ 174,4 bilhões em USDT emitidos no mercado. Haveria, portanto, “sobrecolateralização” – ou seja, mais dinheiro em caixa do que tokens emitidos. Até aí, tudo bem.

O problema, porém, é a mudança na composição desse lastro.

A proporção de ativos considerados de risco aumentou, enquanto a de títulos seguros diminuiu. Esses papéis mais voláteis agora representam 24% do total, ante 17% de um ano atrás. Dentre eles, está o bitcoin, cuja participação nas reservas saltou de 3,9% para 5%.

A S&P alertou que uma queda acentuada no preço do bitcoin ou no valor de outros ativos de maior risco poderia deixar a a USDT potencialmente sublastreada (ou seja, sem lastro para sustentar seus tokens). “Acreditamos que a crescente participação de ativos arriscados expõe as reservas da USDT a maiores flutuações de mercado”, escreveu a agência.

Nos últimos dias, o bitcoin realmente sofreu uma significativa desvalorização desde seu pico histórico no início de outubro, chegando a perder quase 30% de seu valor. Embora tenha se recuperado parcialmente nesta quinta-feira (27), persistem as incertezas sobre uma retomada consistente.

A queda dos ativos seguros

A Tether é uma das maiores detentoras de títulos do Tesouro dos EUA, com uma carteira de US$ 130 bilhões – um montante que supera as reservas de países como Alemanha e Coreia do Sul. O ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, até comentou em evento recente que o Tesouro americano deve estar feliz da vida com as compras da cripto.

De acordo com o relatório, títulos americanos de curto prazo (com vencimento médio inferior a 90 dias), títulos lastreados em everse repo overnight (instrumentos de curtíssimo prazo super seguros) e outros ativos semelhantes representam 75% do caixa. No entanto, esse percentual é menor do que os 81% registrados no ano anterior.

Ou seja: a Tether aumentou em 7% a parcela de ativos de risco do caixa, enquanto diminiu 6% de produtos financeiros considerados seguros.

Quem são os custodiantes?

Outro ponto crítico destacado pela S&P é a falta de transparência. A agência menciona que, embora fontes públicas sugiram que uma instituição financeira dos EUA atue como custodiante desses títulos, os relatórios da Tether não divulgam informações sobre quem são esses custodiantes, contrapartes ou provedores de contas bancárias.

“A transparência sobre contrapartes, custodiantes e provedores de contas bancárias permanece limitada. A Tether não publica informações sobre essas entidades, o que poderia inflar os riscos caso a credibilidade de crédito delas seja fraca”, disse a agência.

A S&P também destacou que a Tether faz atestações trimestrais por meio da BDO Italia, um auditor independente. No entanto, concorrentes publicam relatórios mensais. Falou ainda que a empresa divulga regularmente números sobre reservas e passivos em seu próprio site, mas, diferente do relatório trimestral, eles não são auditados nem detalhados.

Além de ativos de risco e títulos do tesouro americano, as reservas da empresa incluem fundos do mercado monetário (4%) e caixa e depósitos bancários (menos de 0,5%).

“Sem reservas tóxicas”

Em resposta direta ao rebaixamento pela S&P, o CEO da Tether, Paolo Ardoino, não recebeu bem a classificação e criticou os modelos de classificação tradicionais, argumentando que eles historicamente levaram investidores a alocar recursos em empresas com “classificação de grau de investimento” que, mesmo assim, entraram em colapso.

Ele afirmou que a Tether construiu “a primeira empresa sobrecapitalizada na indústria financeira, sem reservas tóxicas” e que, apesar disso, permanece extremamente lucrativa. Disse ainda que “a Tether é a prova viva de que o sistema financeiro tradicional está tão falido que está a começar a ser temido pelos reis que estão nus”.

USDT já perdeu a paridade antes

Apesar das críticas do CEO, a stablecoin já perdeu a paridade com o dólar em diferentes momentos do passado – e esse é um dos riscos dessas criptomoedas.

Em abril de 2017, quando a Tether enfrentou problemas de liquidez e questionamentos sobre o lastro de suas reservas – agravados por dificuldades bancárias da exchange Bitfinex, sua parceira – o USDT chegou a ser negociado abaixo de US$ 0,91 em algumas exchanges, segundo a plataforma CoinMarketCap, refletindo a desconfiança do mercado.

No final de 2022, durante o colapso da corretora cripto FTX, a USDT voltou a escorregar: caiu para US$ 0,98 por algumas horas na manhã de 10 de novembro. Já em 15 de junho de 2023, a stablecoin oscilou de novo, chegando a US$ 0,997, após o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) sinalizar novas altas de juros.

Cartões de criptomoedas: o que saber antes de usar

10 de Novembro de 2025, 12:07

No princípio do mundo dos pagamentos digitais, era tudo Visa e Mastercard, basicamente. Mas uma revolução nada silenciosa começou a tomar uma parte do território dessas gigantes globais: as stablecoins.

As stablecoins são criptomoedas atreladas a outros ativos. Pode ser o dólar, o ouro, o real etc. Mas as que importam, as que têm público de fato, são as que seguem o valor da moeda americana, principalmente as duas maiores: USDT e USDC.

Guardadas em carteiras cripto, podem ser usadas em locais que aceitam ativos digitais. No Brasil, isso praticamente não existe, mas nos Estados Unidos, estabelecimentos como Gucci e AMC Theatres (a rede de cinemas) liberam o pagamento em criptos estáveis.

Ou seja, muita gente começou a deixar as maquininhas tradicionais de lado, reduzindo as taxas que iam para as bandeiras.

Ao perceberem esse cenário, em vez de gritarem aos quatro ventos que estavam perdendo espaço e sugerirem regras contra as criptomoedas, Mastercard e Visa decidiram se juntar ao setor de moedas digitais. E dessa união nasceram os cartões de criptomoedas de débito e crédito cripto.

Como esses cartões funcionam?

Hoje, há quase uma dezena de cartões de criptomoedas disponíveis em terras brasileiras. No geral, você carrega com criptomoedas e gasta em reais, em qualquer lugar que aceite pagamento por maquininha.

Vamos dar exemplos aqui de dois cartões de criptomoedas, explicando como funcionam, como pedir, quais as taxas etc. Não são recomendações, claro – é tudo para fins didáticos mesmo.

Binance Card – Crédito/Mastercard

Um dos últimos lançamentos, agora no início de outubro, foi o Binance Card, criado pela exchange Binance em parceria com a Mastercard. Ele é um cartão “híbrido”. Apesar de ter a bandeira crédito, não funciona como um cartão de crédito tradicional, e sim como um cartão pré-pago recarregável com criptomoedas.

Para usar, é preciso ter uma conta na corretora e solicitar o cartão pelo site ou aplicativo da Binance. O usuário deve manter criptomoedas – como bitcoin (BTC), ethereum (ETH), binance coin (BNB) ou stablecoins – em uma área específica da conta, chamada “Funding Account”. É desse saldo que o cartão “puxa” o valor das compras.

Também é possível permitir o uso das criptos que ficam na conta usada para trading, chamada “Spot Account”. Dentro da plataforma, você escolhe quais criptomoedas serão usadas primeiro nas transações. Exemplo: primeiro USDT, depois bitcoin, e em terceiro ethereum. É possível definir entre três e 12 moedas digitais.

A cada uso, ocorre uma conversão automática de cripto para real, com taxa de 0,9%. Essa cobrança é feita em todas as compras, e não no fechamento de uma fatura. Em cartões convencionais, vale lembrar, não existem taxas para o usuário (só para o comércio).

O cartão também tem limite mensal de gastos que varia conforme o nível de verificação de identidade do usuário (KYC), indo de R$ 50 mil a R$ 150 mil no mês. Ou seja, mesmo que o cliente tenha R$ 1 milhão em criptomoedas na conta, ele só poderá gastar até o teto definido pela Binance, o que é uma limitação em relação a um cartão de débito comum, que permite usar todo o saldo disponível.

Também é possível fazer saques em caixas eletrônicos. Os dois primeiros saques do mês são gratuitos; depois, cobram uma tarifa de US$ 1,50 por operação. Os cartões de débito comum não costumam cobrar saques.

Ripio Card- Débito/Visa

O Ripio Card é um cartão pré-pago de criptomoedas da plataforma Ripio, com bandeira Visa. Ele funciona de forma muito semelhante ao da Binance: você precisa ter criptomoedas em sua conta na corretora, que são convertidas automaticamente para reais no momento da compra.

A diferença é que o Ripio Card atua formalmente na modalidade débito (ou seja, na hora de passar na maquininha, você diz para o vendedor que o pagamento é no débito). Dá para usar cerca de 30 moedas digitais, incluindo, claro, bitcoin, ethereum e stablecoins.

Na hora da compra, a plataforma faz a conversão automática para reais com uma taxa de 0,5% por operação. Apesar de ser um cartão de débito, ele também tem limite: R$ 40 mil por dia.

Também há opção de saque em caixas 24 horas, com tarifa de R$ 6,90 por operação.

Vantagens

Talvez a principal vantagem desses cartões de criptomoedas seja em viagens internacionais – e a gente já falou sobre isso aqui. Eles não cobram imposto sobre operações financeiras (IOF). Outros cartões que cortam a tarifa são os oferecidos por OKX, Bitget Wallet e Crypto.com.

Alguns deles também eliminam ou têm um spread cambial menor – aquela margem que as instituições financeiras adicionam sobre a cotação do dólar. Em contrapartida, nos cartões tradicionais incidem IOF de 3,5%, somado a um spread que costuma variar entre 4% e 7%.

A taxa de conversão, entre 0,5% e 0,9% fica abaixo desses valores, portanto.

O ideal, de qualquer forma, é sempre usar stablecoins para “recarregar” os cartões. Se você converter diretamente a partir de bitcoins e outras criptos tradicionais, estará à mercê da volatilidade, já que o preço delas muda rápido: o bitcoin, por exemplo, chegou a US$ 126 mil em meados de outubro e hoje está na casa dos US$ 103 mil. Ou seja: o valor em reais pode variar brutalmente entre o momento em que você carrega o cartão e o momento da compra.

Veja tabela com alguns cartões cripto:

CartãoTipoBandeira
Crypto.com CardPré-pago (modo crédito)Visa
Binance CardPré-pago (modo crédito)Mastercard
KAST CardPré-pago (débito e crédito)Visa
OKXPré-pago (débito)Mastercard
Ripio CardPré-pago (débito)Visa
Bitget WalletPré-pago (crédito)Mastercard

Como as stablecoins de real ajudam a financiar – mesmo que um tiquinho – a dívida do governo

15 de Outubro de 2025, 15:18

Em um evento recente sobre criptomoedas em São Paulo, o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto brincou que o Tesouro dos Estados Unidos deve estar feliz da vida. O motivo: as stablecoins de dólar – criptomoedas atreladas à moeda americana – têm impulsionado a compra de Treasuries, os títulos públicos americanos. Pelas regras do país, esses ativos digitais precisam manter lastro em papéis seguros, na mesma proporção dos tokens emitidos. Só a Tether, emissora da stablecoin USDT, tem US$ 127 bilhões aplicados nesses papéis – o que a coloca entre as 20 maiores detentoras do mundo.

Esse movimento começa a aparecer também no Brasil – em escala muito menor, é verdade, mas sinalizando uma tendência parecida.

O país já tem seis stablecoins atreladas ao real: BRZ, BRLA, cREAL, BBRL, BRL1 e a BRLV, lançada nesta semana. Uma stablecoin brasileira, quando é emitida, também precisa ter a mesma quantidade em caixa. Ou seja, se uma empresa coloca R$ 1 no mercado, mantem esse mesmo valor guardado. Com exceção da cREAL, que é uma stablecoin algorítmica – modelo mais arriscado que, em vez de manter reservas em dinheiro, usa códigos de computador para controlar a oferta e a demanda -, as outras cinco têm parte do caixa em títulos públicos, algumas 100%.

Somadas, as stablecoins de real têm quase R$ 270 milhões aplicados em papéis do Tesouro, segundo dados levantados pelo InvestNews juntos aos emissores.

É um tiquinho ainda, claro: o valor representa 0,00331% da dívida pública federal, que chegou a R$ 8,145 trilhões em agosto, de acordo com o Tesouro Nacional. Também está longe da fatia das instituições financeiras, que detêm 31,80% (R$ 2,59 trilhões), da Previdência (23,49%, ou R$ 1,91 trilhão), dos fundos de investimento (21,28%, ou R$ 1,73 trilhão) e dos não residentes (9,83%, ou R$ 802 bilhões). Mas é algo compreensível. As stablecoins de real são recentes – a primeira delas surgiu em 2019 – e a moeda brasileira não tem o mesmo apelo internacional do dólar, por causa da instabilidade política e econômica do país.

Por dentro das stablecoins brazucas

A BRLV, apesar de ser a mais recente, chegou com a bola toda, com R$ 200 milhões de tokens emitidos, todos 100% lastreados em títulos do Tesouro. Segundo a empresa, esses papéis já foram subscritos – ou seja, o comprometimento financeiro já foi realizado. A empresa cripto foi impulsionada por uma rodada seed (nome dado a primeira captação formal de uma startup) de US$ 8,1 milhões liderada por investidores como Framework Ventures, Valor Capital Group e Coinbase Ventures.

Logo atrás vem a BBRL, emitida pelo Grupo Braza, com R$ 56 milhões em circulação, também todos lastreados em títulos públicos de curtíssimo prazo – as as Letras Financeiras do Tesouro (LFTs). “A escolha privilegia liquidez e segurança, garantindo conversibilidade imediata sem risco de marcação a mercado”, disse Caio Cansian, head de projetos da empresa.

A BRL1, criada pela exchange MB | Mercado Bitcoin, tem R$ 6,89 milhões em tokens emitidos, com 99,94% das reservas em Tesouro Selic, conforme informou a companhia. Além desses papéis, a cripto também tem lastro em operações compromissadas – transações de curtíssimo prazo que funcionam como empréstimos garantidos por títulos – e saldo em conta corrente, explicou Fabrício Tota, diretor de novos negócios do MB.

A stablecoin de real pioneira no Brasil, a BRZ, soma R$ 14 milhões em tokens emitidos. Para o lastro, a empresa mantém R$ 3,08 milhões em títulos públicos, cerca de 20% do total. O restante está dividido entre CDBs (20%), reais disponíveis em contas bancárias (40%) e USDT (20%), “utilizado como hedge cambial e instrumento de liquidez internacional”, disse João Almada, controller da Transfero, emissora do token.

Já a BRLA, da Avenia, tem R$ 40 milhões em stablecoins lastreadas no real, de acordo com Hector Fardin, CFO da empresa. São R$ 3 milhões em títulos públicos; o restante está em caixa, equivalentes de caixa e operações compromissadas de curtíssimo prazo.

Curva de juros e paridade

Um dos desafios das stablecoins, seja em real ou dólar, é manter a paridade com a moeda usada como lastro. No Brasil, esse equilíbrio pode ser mais difícil por causa da volatilidade da curva de juros – bem mais instável que em países como Estados Unidos ou membros da União Europeia. Mesmo assim, as stablecoins brasileiras ainda não registraram nenhum episódio de perda de paridade com o real.

Segundo Fabrício Tota, do MB, o motivo é que parte relevante dos títulos usados como lastro é de curto prazo e pós-fixada.

“No caso da BRL1, quase 100% das reservas são aplicadas em Tesouro Selic. Isso significa que, independentemente das oscilações na curva de juros futura, o valor e a liquidez das reservas não sofrem impacto relevante. A marcação a mercado desses papéis é praticamente estável, já que o prazo médio é muito curto e a remuneração acompanha exatamente o juro básico. Por isso, a paridade 1:1 com o real é mantida sem risco material de variação em função da curva.”

A marcação a mercado é a regra que obriga os investimentos – principalmente títulos e fundos – a terem seu valor atualizado diariamente de acordo com o preço que seriam vendidos hoje no mercado.

Brasileiro gosta de stablecoin – mas do lastreado em dólar

O brasileiro tem uma quedinha por stablecoins faz tempo – e esse interesse aumentou depois de o governo federal elevar, com ajudinha do ministro do STF, Alexandre de Moraes, o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), que encareceu a compra de moeda estrangeira. Mas, até agora, a preferência nacional é clara: o dólar digital.

Dados da Receita Federal mostram que, entre janeiro e junho deste ano, os brasileiros movimentaram R$ 210 bilhões em criptomoedas. Desse total, R$ 152,2 bilhões foram em USDT, a maior stablecoin em dólar do mercado – volume superior ao do próprio bitcoin (BTC), que registrou R$ 24,7 bilhões no período. Em terceiro lugar aparece o USDC, outro dólar digital, com R$ 9,1 bilhões movimentados.

Stablecoin para viagem: como funciona o ‘dólar digital’ e como usá-lo no exterior

15 de Outubro de 2025, 06:00

Comprar dólar para viajar ao exterior e usar cartão de crédito na gringa ficaram mais caros após o aumento da alíquota do imposto sobre operações financeiras (IOF) neste ano. Mas uma alternativa vem ganhando cada vez mais adeptos no Brasil: as stablecoins.

As stablecoins são criptomoedas atreladas a outros ativos, como dólar, euro, ouro, real. As maiores do mercado são ligadas à moeda americana – daí o apelido carinhoso de “dólar digital”. Juntas, essas moedas somam um valor de mercado de US$ 222 bilhões – o equivalente a três vezes o valor da Petrobras.

No Brasil, as stablecoins ainda não são enquadradas oficialmente como instrumentos de câmbio. Por causa disso, as operações com essas moedas ficam de fora da cobrança do IOF, o que tem barateado o uso em viagens internacionais.

Há três principais formas de usar stablecoin no exterior:

  • Stablecoin no cartão cripto

A forma mais simples de usar dólar digital é por meio dos cartões cripto, que funcionam como cartões pré-pagos com bandeiras Visa ou Mastercard. Corretoras como OKX, Bitget e Crypto.com oferecem versões próprias, assim como aplicativos como Kast Finance e RedotPay.

O processo é simples: o usuário compra stablecoins (como USDC ou USDT) em uma exchange ou banco digital, usando reais, e depois transfere os ativos para o cartão previamente adquirido. A partir daí, pode usar o saldo em qualquer estabelecimento que aceite a bandeira.

Esses cartões não têm IOF. Alguns também não cobram taxas nem spread cambial — aquela margem que as instituições financeiras adicionam sobre a cotação do dólar. Já nos cartões tradicionais (crédito, débito ou pré-pago internacional), há IOF de 3,38% mais um spread que costuma variar entre 4% e 7%.

Quem testou esse modelo foi Ricardo Natali, educador financeiro associado à ABEFIN (Associação Brasileira de Educadores Financeiros). Ele conta que, em uma viagem recente à Europa, usou um cartão cripto carregado com stablecoins para pagar cafés, passagens de metrô e compras do dia a dia.

Segundo Natali, a própria cotação do dólar é mais barata em stablecoins, justamente pela ausência de impostos. “Se fosse no cartão de crédito, eu teria gastado 15% a mais na compra da moeda norte-americana. Na prática, se gastasse R$ 1.000, pagaria R$ 150 a mais”, explicou. Com o cartão cripto, a compra do dólar comercial fica apenas entre 2% e 4% superior, dependendo da conversão e do provedor, disse.

  • Stablecoin na carteira

Outra forma é comprar stablecoins em uma exchange local e transferi-las para uma carteira cripto – um aplicativo em que é possível fazer a autocustódia dos ativos digitais e em que a responsabilidade pela segurança é totalmente do usuário. Algumas das carteiras mais conhecidas são MetaMask, Trust Wallet e Coinbase Wallet.

Muitos estabelecimentos no exterior já aceitam pagamentos em criptomoedas. Portanto, daria para pagar com stablecoins simplesmente abrindo o app e encostando na máquina do estabelecimento. Também seria possível sacar stablecoins convertidas em dólares em caixas eletrônicos específicos. Hoje, há 12.988 desses caixas nos EUA que permitem saques de USDT e USDC, segundo a plataforma CoinAtmRadar.

“Em caso de necessidade de dinheiro vivo, o saque em dólares pode ser feito em caixas eletrônicos internacionais (ATMs), com taxas simbólicas – muitas vezes gratuitas nas primeiras operações e, posteriormente, fixas em torno de US$ 1,50 por saque”, disse Felipe Martorano, analista da Levante Inside Corp.

  • Remessas internacionais

As stablecoins também vêm sendo usadas para envio de dinheiro ao exterior – e fica mais em conta também. Sarah Uska, analista de criptoativos do Bitybank, fez uma simulação comparando o envio tradicional, via sistema SWIFT, com o envio em stablecoin. O valor considerado foi R$ 5 mil.

Via SwiftStablecoin
IOF3,5%0%
TaxasMédia de US$ 20 por operação, mais spread de 1% a 2%Spread entre 0,1% e 1% e custo fixo de 0 a US$ 10
Prazo5 a 15 minutos2 a 5 dias úteis
Valor finalR$ 4.638R$ 4.969

Na simulação, a transação com stablecoins é cerca de 6,65% mais barata.

“Com o aumento do IOF, remessas tradicionais, como envios de dinheiro para familiares ou contas pessoais no exterior, o uso de stablecoins tende a crescer bastante. Isso porque transferências em USDT, por exemplo, ainda não sofrem esse imposto diretamente, além de evitar os custos elevados de spread cambial”, disse Sarah.

Crescimento no Brasil

O uso dessas moedas digitais disparou no país. Segundo a empresa de análise em blockchain Chainalysis, o Brasil movimentou US$ 318,8 bilhões em criptoativos entre julho de 2024 e junho de 2025 – e 90% desse volume corresponde a stablecoins.

O governo também acompanha o movimento de perto – e já estuda tirar uma casquinha. No fim do ano passado, o Banco Central abriu uma consulta pública para discutir a equiparação das stablecoins ao câmbio, e novas discussões foram abertas neste ano. Por ora, porém, as criptomoedas estáveis (outro nome aportugueizado para essas criptos) seguem fora de uma legislação específica.

Riscos

Apesar dos benefícios, as stablecoins também têm riscos. Um deles é o regulatório. Como se trata de um mercado ainda recente, as regras estão em construção em vários países – e eventuais mudanças podem afetar diretamente essas criptomoedas.

Outros dois pontos são o lastro e a confiança na empresa emissora. Em tese, cada stablecoin precisa ser totalmente coberta por ativos de valor equivalente. Ou seja, para cada token emitido em dólar, deve haver a mesma quantia em caixa, títulos públicos ou outros instrumentos financeiros seguros.

No passado, porém, a Tether – emissora do maior “dólar digital” do mercado, o USDT – enfrentou questionamentos sobre a solidez de suas reservas e chegou, em alguns momentos, a perder em um episódio em 2023 a paridade com o dólar americano.

Além das stablecoins lastreadas em ativos, existem as stablecoins algorítmicas, que mantêm a paridade por meio de mecanismos automáticos de oferta e demanda, sem reservas em dinheiro. O modelo, no entanto, é mais arriscado. Em 2022, por exemplo, uma delas – a TerraUSD (UST) – entrou em colapso, desencadeando uma das piores crises do mercado cripto.

Itaú BBA vê espaço para recuperação do bitcoin após ajuste no mercado, mas alerta para riscos da economia americana

3 de Outubro de 2025, 08:37

O mês de setembro foi de queda para o mercado de criptomoedas, contrariando a expectativa de alta. No novo relatório “Cenário Cripto” do Itaú BBA, os analistas Lucas Piza e Fabio Perina apontam que o setor passou por desvalorizações significativas, com o bitcoin e outras moedas se distanciando das suas máximas históricas. O documento indica que não há um movimento claro de recuperação no curto prazo, e a tendência de médio prazo do mercado segue indefinida.

Para o mês de outubro, porém, o mercado de criptoativos começa o mês em alta, impulsionado por um otimismo sazonal conhecido como “Uptober”. O bitcoin chegou a ser negociado perto dos US$ 120 mil nesta sexta-feira (3), o maior valor em sete semanas, após um período marcado por liquidações que apagaram bilhões de dólares em posições alavancadas no final de setembro.

Esse movimento de recuperação é reforçado por entradas constantes em fundos de índice (ETFs) de bitcoin nos Estados Unidos e por expectativas de um impulso de liquidez em meio à ameaça de paralisação do governo americano. Segundo analistas, a paralisação poderia atrasar a divulgação de dados econômicos importantes e redirecionar capital para ativos alternativos, como as criptomoedas.

Apesar do otimismo, o cenário ainda exige cautela. O relatório do Itaú BBA destaca que, para entrar em uma tendência de alta consistente, o bitcoin ainda precisa superar a barreira do preço de US$ 120 mil.

Desempenho das principais criptomoedas

Veja as cotações das principais criptomoedas às 8h45:

Bitcoin (BTC):  + 1,33%, US$ 120.314,01

Ethereum (ETH): + 2,14%, US$ 4.478,10

XRP (XRP): +1,51%, US$ 3,03

BNB (BNB): + 5,61%, US$ 1.104,29

Solana (SOL): + 2,14%, US$ 230,17

Outros destaques do dia:TRON (TRX): + 0,64%, US$ 0,3432

Principais notícias do setor cripto

Belo Horizonte se autodeclara “capital do bitcoin”. O prefeito de Belo Horizonte, Álvaro Damião (UB), sancionou nesta quinta-feira (2) a lei que concede ao município o título de “capital do bitcoin”. A proposta, de autoria do vereador Vile Santos (PL), busca consolidar a cidade como polo tecnológico de criptoativos, promovendo eventos, capacitação e iniciativas voltadas à inovação no setor. A legislação prevê estímulos para atrair investimentos, fortalecer a educação financeira e apoiar empreendedores e estudantes, com a meta de posicionar a capital mineira como referência nacional em adoção e desenvolvimento de soluções ligadas ao Bitcoin e demais criptoativos.

JPMorgan projeta bitcoin a US$ 165 mil. Segundo uma análise do JPMorgan, o bitcoin pode atingir o valor de US$ 165 mil até o final de 2025. Os analistas do banco consideram que o bitcoin está significativamente desvalorizado em relação ao ouro, ao ajustar a comparação pela volatilidade. A projeção de alta é impulsionada principalmente por investidores de varejo que, desde o final de 2024, têm direcionado seu capital para ETFs de bitcoin e ouro. Essa tendência é chamada de “debasement trade”, um movimento de busca por ativos que funcionem como reserva de valor em meio a preocupações com a economia global, como inflação, endividamento de governos e instabilidade geopolítica.

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