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Vestibular da Unicamp completa 40 anos de pioneirismo, transformações e inclusão
Exemplo de transformação constante, pioneiro em inclusão e sempre sintonizado com os rumos da sociedade. Com um evento especial realizado na quinta-feira (18), o Vestibular da Unicamp completou 40 anos. Em paralelo, a Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp (Comvest) também celebra quatro décadas. Para marcar as datas, foi inaugurado um memorial onde é possível reviver todos os passos de uma trajetória inovadora.
O evento, que teve a estreia do documentário “A Toda Prova: 40 anos do Vestibular Unicamp” (assista abaixo), contou com a presença do reitor, Paulo Cesar Montagner, do coordenador-geral da Universidade, Fernando Coelho, da pró-reitora de Graduação, Mônica Cotta, além de diretores que já passaram pela Comvest – incluindo o primeiro, Jocimar Archângelo –, professores, colaboradores e convidados.
Na década de 1980, a Unicamp inovou ao criar um sistema de ingresso nos cursos de graduação que representasse o espírito de uma universidade jovem, dinâmica e comprometida com o desenvolvimento educacional, social, científico, tecnológico e cultural do Brasil. No espírito de redemocratização da época, o Vestibular da Unicamp tornou-se referência ao propor um processo seletivo em que os conhecimentos científicos, o olhar crítico sobre os problemas do país e do mundo e a defesa da democracia e dos direitos humanos fossem parte do repertório exigido dos candidatos. Ao longo dos anos, várias políticas foram estabelecidas para assegurar o direito à educação superior para todos os grupos e, ao mesmo tempo, a pluralidade e a representatividade da população brasileira entre os novos alunos.
De acordo com o reitor, o evento celebrou quatro décadas de sucesso. “O Vestibular e a Comvest chegam aos 40 anos como algumas das iniciativas mais bem-sucedidas da história da Unicamp. Ao longo dessa trajetória, consolidaram-se como referências nacionais em avaliação educacional, contribuindo para aperfeiçoar os processos de seleção e ampliar o acesso ao ensino superior”, afirmou. “Mais do que selecionar candidatos, o Vestibular ajudou a fortalecer o projeto institucional da Universidade, combinando excelência acadêmica, inovação e inclusão. O trabalho da Comvest também é resultado da dedicação de gerações de profissionais que construíram um modelo respeitado em todo o país. Celebrar essa data é reafirmar nosso compromisso com a educação como instrumento de transformação social”, acrescentou Montagner.
O coordenador geral lembrou do ineditismo da iniciativa. “Celebrar os 40 anos do Vestibular é motivo de grande orgulho. Quando surgiu, sua proposta representava algo inédito no Brasil e, ao longo dessas quatro décadas, se consolidou como referência nacional pela credibilidade, inovação e compromisso com a inclusão”, apontou Coelho. “O Vestibular da Unicamp sempre se diferenciou por valorizar não apenas o conhecimento acumulado pelos estudantes, mas também sua capacidade de relacionar esse conhecimento com os desafios da sociedade. É um processo seletivo que dialoga com a realidade e estimula a reflexão crítica sobre temas contemporâneos. Além disso, a Comvest também tem um papel fundamental na construção de uma universidade cada vez mais diversa, aberta e comprometida com sua função pública”, completou.

Inovação
O atual diretor da Comvest, José Alves de Freitas Neto, lembrou que a celebração valoriza uma parte fundamental da identidade da Unicamp, já que o Vestibular é, para muitos estudantes, o primeiro contato com a Universidade. “Justamente por isso, a seleção sempre procurou refletir os valores que marcaram a trajetória da instituição: inovação, compromisso público, excelência acadêmica e atenção aos grandes temas da sociedade. Desde sua criação, o Vestibular da Unicamp se diferenciou por valorizar a leitura, a interpretação e a capacidade crítica dos candidatos”, comentou Freitas Neto.
Ainda de acordo com o diretor, mais do que medir conteúdos, a ideia é selecionar estudantes capazes de compreender o mundo em que vivem e de contribuir para sua transformação. “Ao longo dessas quatro décadas, a Comvest também foi protagonista de importantes avanços na inclusão, com iniciativas como as cotas raciais e o Vestibular Indígena. Essas políticas ampliaram a diversidade e enriqueceram a produção de conhecimento, sem abrir mão da qualidade acadêmica que caracteriza a Unicamp”, destacou.

Cotas
As cotas foram efetivamente implantadas na Universidade a partir do Vestibular de 2019. O sistema foi aprovado pelo Conselho Universitário (Consu) em maio de 2017, passando a destinar 50% das vagas para alunos de escolas públicas e 25% especificamente para candidatos pretos e pardos. A Unicamp também instituiu, naquele mesmo ano, o Vestibular Indígena. Ao longo dos anos, o programa tem passado por atualizações. Mais recentemente, a modalidade de seleção via Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) inclui reserva de vagas para pessoas trans, travestis e não-binárias.
Memorial
O Memorial recém-inaugurado traz arquivos, entrevistas, imagens e materiais que compõem um vasto acervo, físico e digital, da Comissão de Vestibulares da Unicamp e que, agora, passam a ser disponibilizados ao público, especialmente educadores, escolas e estudantes. Além de objetos como cartazes e provas antigas, o espaço conta com totens interativos com objetivo de proporcionar uma experiência imersiva aos visitantes.
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Assista ao documentário “A Toda Prova: 40 anos do Vestibular Unicamp”
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Economista Wilson Cano é homenageado com título de professor emérito post mortem
A trajetória do professor e economista Wilson Cano, falecido aos 82 anos, já seria exemplar por sua dedicação pioneira à Unicamp, sua produção intelectual com dezenas de obras publicadas e sua determinação inabalável em formar novas gerações de pensadores. Mas o acadêmico fez mais. Dedicado à defesa de um projeto de desenvolvimento de país voltado à redução das desigualdades e defensor da democracia mesmo durante um período de repressão política e social, ele apontou caminhos para o futuro.
Com a presença do reitor Paulo Cesar Montagner, familiares, colegas e alunos, Cano recebeu o título de professor emérito (post mortem) em cerimônia realizada na tarde de quarta-feira (17), no Auditório do Instituto de Economia (IE). O padrinho do homenageado foi o professor Cláudio Schuller Maciel.
Um dos principais nomes do pensamento econômico brasileiro, Cano graduou-se em economia pela PUC-SP em 1962. Doutorou-se na Unicamp em 1975, com a tese “Raízes da Concentração Industrial em São Paulo”. Em 1981, obteve a livre docência com a tese “Desequilíbrios regionais e concentração industrial no Brasil”. Já em 1986, passou a ser professor da Universidade. Ao longo do tempo, desempenhou diversos papéis de destaque. Foi um dos fundadores do Departamento de Planejamento Econômico e Social (Depes), que deu origem ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), e foi um dos pilares da consolidação do que hoje é o IE, onde permaneceu vinculado mesmo após sua aposentadoria, em 2011.


A produção intelectual de Cano inclui 20 livros, dezenas de artigos e capítulos de livros. Como docente, orientou 31 teses de doutorado e 33 dissertações de mestrado, formando gerações de economistas em todo o país. Reconhecido pelo rigor acadêmico e compromisso com a análise crítica da realidade brasileira, Cano dedicou sua carreira à compreensão dos desafios do desenvolvimento nacional. Até os últimos anos de vida, manteve intensa atividade intelectual, participando de pesquisas, seminários e debates sobre os rumos da economia brasileira. Como sempre dizia a também economista e colega Maria da Conceição Tavares: “O Cano é um tanque.”
Identidade
Durante a cerimônia, o reitor lembrou que o homenageado foi uma das pessoas que ajudaram a construir a identidade da Unicamp. “A concessão do título de professor emérito a Wilson Cano reconhece uma trajetória dedicada à produção do conhecimento, à formação de gerações de estudantes e à compreensão crítica do desenvolvimento brasileiro”, afirmou Montagner. “Defensor de uma universidade pública forte e socialmente comprometida, Cano deixou um legado que continua inspirando pesquisadores e estudantes. Esta homenagem expressa a gratidão da Unicamp por sua extraordinária contribuição à Universidade, à ciência econômica e ao país”, acrescentou.

O diretor do IE, Célio Hiratuka, ressaltou que Cano ajudou a consolidar uma tradição intelectual comprometida com a compreensão crítica da realidade brasileira, articulando economia, história e política de forma rigorosa e inovadora. “Sua obra permanece atual diante dos desafios econômicos e sociais do país. Ao preservar sua memória, reafirmamos valores que são centrais para o Instituto de Economia e para a universidade pública: o pensamento crítico, o compromisso com o desenvolvimento nacional e a busca permanente por uma sociedade mais justa”, apontou.
Gerações
Em seu discurso introdutório, Maciel afirmou que Cano marcou gerações de estudantes pela profundidade de suas análises e pelo rigor com que conduzia o ensino. “Suas aulas iam muito além da transmissão de conceitos econômicos. Ele buscava relacionar teoria, história e realidade, estimulando os alunos a compreenderem as origens das desigualdades, os processos de industrialização e os desafios do desenvolvimento brasileiro”, disse. “Mais do que transmitir conhecimento, Wilson Cano ensinava a pensar, a questionar e a interpretar a realidade em toda a sua complexidade”, detalhou.

Construtor
O filho mais velho do homenageado, Newton Cano, agradeceu a honraria e reforçou a ligação do pai com a Unicamp. “Receber esta homenagem em nome da minha família é motivo de grande emoção. Como filho de Wilson Cano e ex-aluno do Instituto de Economia, sei o quanto a Unicamp foi parte fundamental de sua vida e de sua realização profissional”, disse. “Meu pai tinha enorme orgulho de ter ajudado a construir o Instituto de Economia e de dedicar sua trajetória ao ensino, à pesquisa e à formação de gerações de estudantes. Mais do que um grande economista, foi alguém que nos ensinou valores que carregamos até hoje: o respeito às pessoas, a defesa da igualdade e o compromisso com uma sociedade mais justa. Ao reconhecer sua trajetória, a Unicamp homenageia não apenas um professor e pesquisador de referência, mas também um de seus construtores. Nossa família recebe esse reconhecimento com profunda gratidão”, finalizou.
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AmazonFACE reúne pesquisadores em Manaus e avança para fase experimental
Prestes a iniciar a etapa experimental que elevará artificialmente a concentração de dióxido de carbono (CO₂) sobre parcelas da floresta amazônica, o AmazonFACE reuniu em Manaus sua comunidade científica, formada por aproximadamente 150 pesquisadores de mais de dez países. Ao longo de cinco dias, entre 8 e 12 de junho, os participantes discutiram resultados científicos já obtidos e planejaram os próximos passos do programa.
O encontro ocorreu em um momento decisivo. Após cerca de 15 anos dedicados à construção das bases científicas e da infraestrutura necessária para sua implementação, o AmazonFACE se prepara para iniciar sua operação principal, que permitirá investigar como a floresta amazônica responderá ao aumento das concentrações atmosféricas de CO₂ previstas para as próximas décadas.
“Essa foi a última reunião do comitê antes de começarmos o experimento de fato. Foi um momento importante para alinharmos o planejamento científico e estarmos prontos para esse desafio”, comenta David Lapola, coordenador científico do AmazonFACE.
O cientista ressaltou o amadurecimento alcançado pelo programa e a crescente integração entre as diferentes áreas de pesquisa que o compõem: carbono, água, nutrientes, biodiversidade, socioambiental e modelagem ecossistêmica.
A agenda incluiu discussões sobre cooperação internacional com outros experimentos FACE em andamento no mundo, como o BIFoR FACE, no Reino Unido, e o EucFACE, na Austrália.
“Além disso, temos a oportunidade única de iniciar o experimento avaliando o efeito combinado do aumento do CO₂ com uma seca como a que se avizinha com o El Niño”, acrescenta Lapola, que também coordena o Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura da Unicamp (Cepagri) – uma das 23 unidades que compõem a Coordenadoria de Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa (Cocen).
O El Niño é associado a períodos de menor chuva e temperaturas mais elevadas em partes da Amazônia. Projeções climáticas indicam que o fenômeno poderá atingir grande intensidade nos próximos meses, o que adiciona ao programa a oportunidade de observar como a floresta responde simultaneamente à escassez de água e ao aumento das concentrações de CO₂.


CO₂ em campo: estruturas prontas para a fase experimental
Um dos destaques do encontro foi a visita técnica ao sítio experimental do AmazonFACE, localizado em uma área do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), a cerca de 80 quilômetros de Manaus. No local, os participantes acompanharam o avanço das estruturas necessárias para o início da fase experimental.
Entre os equipamentos instalados estão seis tanques de armazenamento de CO₂ líquido, as cabines de controle e a rede de tubulações que conecta o sistema aos anéis experimentais.
A partir dos tanques, o gás percorre uma rede de distribuição até as cabines de controle, onde é processado e enviado às torres instaladas ao redor de cada anel experimental.
Com 35 metros de altura, essas estruturas liberam o ar enriquecido com CO₂ acima da copa das árvores, reproduzindo as concentrações atmosféricas projetadas para meados do século, sem isolar a floresta de suas condições naturais de luz, chuva e temperatura.
A atividade foi guiada por David Lapola, pelo coordenador científico do AmazonFACE no Inpa, Beto Quesada, e pelo gerente de operações do programa, Bruno Takeshi Portela.
Segundo Portela, a implantação da infraestrutura exigiu soluções desenvolvidas para as condições amazônicas. “Nada aqui é simplesmente uma solução comercial. Cada componente precisou ser projetado para atender aos desafios de operar uma instalação dessa escala no meio da Amazônia”, explicou.
“O AmazonFACE produzirá evidências inéditas sobre a capacidade da Amazônia de continuar absorvendo carbono em um mundo com concentrações crescentes de CO₂. Essa é uma das grandes incertezas da ciência climática global”, destacou o cientista britânico Richard Betts, que acompanhou a visita.
Em conferência realizada anteriormente, Betts havia mencionado a chamada “hipótese da Sininho (Tinkerbell)”, uma referência bem-humorada à ideia de que primeiro é necessário imaginar para depois realizar o sonho.
A imagem lúdica foi resgatada no contexto do fascínio despertado pelo contato direto com a infraestrutura: “O sonho do experimento AmazonFACE hoje é realidade, como vocês podem ver”, declarou Quesada.


Diversidade de saberes e integração
Desde sua concepção, o AmazonFACE busca integrar à pesquisa científica os conhecimentos e as experiências das populações que vivem na Amazônia, em especial os povos indígenas. O encontro deste ano refletiu esse compromisso ao reunir um grupo cada vez mais diverso de participantes, ampliando a pluralidade de perspectivas presentes no projeto.
De acordo com Beto Quesada, essa diversidade contribui diretamente para a construção do conhecimento produzido pelo projeto, ao trazer novas perguntas, interpretações e perspectivas sobre a floresta.
“Não se trata apenas de incluir pessoas na pesquisa, mas de reconhecer que diferentes formas de conhecimento são fundamentais para compreender a Amazônia e responder aos desafios que ela enfrenta”, esclarece.
Segundo o colíder da área Socioambiental do AmazonFACE, Marko Monteiro, professor do Instituto de Geociências da Unicamp, o encontro marcou uma mudança de patamar para o projeto também no sentido de consolidação geral das equipes.
“Foi um encontro de virada em termos de concretizar ações e constatar que as áreas estão muito mais consolidadas”, afirmou. Para ele, o amadurecimento das diferentes frentes de pesquisa se refletiu também no crescimento das pessoas envolvidas. “Como consequência do progresso do projeto como um todo, a equipe cresceu muito”, observou.
O evento serviu ainda para aproximar pesquisadores que até então mantinham contato principalmente à distância. “Foi também uma oportunidade para muitas pessoas se conhecerem pessoalmente”, concluiu.
A avaliação é compartilhada por Simone Vieira, pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais da Unicamp (Nepam) e líder do projeto temático da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) vinculado ao AmazonFACE. Segundo ela, o encontro ajudou a fortalecer a articulação entre as diferentes frentes de pesquisa do programa.
“Essa reunião foi muito importante para que os diferentes grupos pudessem trocar experiências e alinhar os próximos passos”, destacou.


Ciência e decisões públicas em diálogo
A valorização da diversidade também se refletiu na oficina “Analisando a interface entre ciência(s) e políticas públicas no experimento AmazonFACE”, realizada com metodologias participativas para entender de que forma as comunidades, cientistas e tomadores de decisão veem o futuro da coprodução de saber.
As abordagens utilizadas são chamadas de “Três Horizontes” e “Diagramas de Loop Causal”, as quais, combinadas, são identificadas pela sigla 3H-CLD, pelo seus nomes em inglês. A ideia é conciliar a construção de cenários futuros com a análise das relações de causa e efeito que moldam os desafios do presente.
Assim, ao longo da atividade, os participantes foram convidados a imaginar futuros desejados para a coprodução de saberes entre ciência, conhecimentos indígenas e saberes locais, identificar os principais obstáculos para alcançar esses cenários e propor estratégias para fortalecer essa articulação nos próximos anos.
Segundo Taís Sonetti González, uma das responsáveis pela oficina, as mudanças climáticas são complexas demais para serem compreendidas a partir de uma única perspectiva.
“Metodologias participativas permitem aproximar diferentes formas de conhecimento, experiências e visões de futuro, criando espaços de diálogo essenciais para que a ciência produza não apenas evidências robustas, mas também conhecimento socialmente relevante, acionável e conectado às realidades dos territórios”, afirma.
Para ela, iniciativas como essa são particularmente importantes em um projeto com a dimensão do AmazonFACE, pois contribuem para fortalecer as conexões entre ciência, sociedade e políticas públicas.
Maíra Padgurschi, colíder da área Socioambiental do AmazonFACE e pesquisadora no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), enfatiza que o programa está ainda mais robusto depois que passou a contar com dois grandes projetos de fomento: um temático da Fapesp e o edital Pró-Amazônia do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Para ela, o encontro significou uma importante interação entre as áreas. “As pessoas estavam muito abertas à troca e à escuta. É notável ver como cresce o reconhecimento da importância da área socioambiental. Nenhuma pesquisa ou pergunta científica é isolada; ela está conectada ao todo.”
O AmazonFACE conta com apoio do governo britânico e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) do Brasil. A coordenação científica é realizada pelo Inpa, pela Unicamp e pelo Met Office (serviço nacional de meteorologia do Reino Unido). O programa também tem financiamento da Fapesp e do CNPq.
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Ranking QS classifica Universidade como a 2ª melhor do Brasil
A Unicamp manteve a segunda posição no ranking das melhores universidades do Brasil, segundo a edição 2027 da pesquisa elaborada pela consultoria britânica Quacquarelli Symonds (QS) World University Rankings, divulgada nesta quinta-feira (18). A edição avaliou 8.808 instituições de 106 países. Desse total, 1.504 universidades foram classificadas no ranking mundial. No Brasil, 22 instituições foram avaliadas e classificadas. A base de dados utilizada pelo ranking contemplou aproximadamente 21 mil publicações científicas, 222 mil citações, 1,6 milhão de indicações acadêmicas e 600 mil indicações de empregadores.
A pontuação geral da Unicamp foi de 47,9 pontos em uma escala de 0 a 100. O desempenho relativo indica que a Universidade se posiciona acima de 81,6% das instituições classificadas no ranking mundial.
Entre os principais destaques positivos da Unicamp, estão indicadores como o de reputação acadêmica, no qual a Universidade alcançou pontuação de 80,1, ocupando a 98ª posição mundial nesse quesito e a 2ª posição no Brasil.
A Universidade também foi bem no indicador “rede internacional de pesquisa”, obtendo pontuação de 81,9, com índice de 56,5, o que supera a média mundial de 41,0. No item sustentabilidade, a Unicamp alcançou pontuação de 81,1, mantendo-se em posição de destaque no Brasil, também em 2º lugar nacional.

Já no indicador “citações por docente”, a Universidade obteve pontuação de 29,7, alcançando a 2ª posição nacional. Esse resultado indica bom desempenho relativo no contexto brasileiro em termos de impacto acadêmico da produção científica.
“A posição da Unicamp no QS World University Rankings 2027 reafirma a presença da Universidade entre as instituições brasileiras de maior projeção internacional. O resultado é especialmente relevante, porque o QS combina distintas dimensões da atuação da universidade, como reputação, impacto da pesquisa, internacionalização e sustentabilidade”, disse o assessor da Pró-Reitoria de Desenvolvimento Universitário (PRDU), Renato Garcia. “Nesse conjunto de indicadores, a Unicamp demonstra consistência institucional, com destaque para sua reputação acadêmica, sua rede internacional de pesquisa e sua contribuição para a agenda de sustentabilidade,” acrescentou.
“O desempenho da Unicamp no QS WUR 2027 confirma a solidez da Universidade como uma instituição pública de excelência, reconhecida nacional e internacionalmente pela qualidade de sua pesquisa, pela formação de recursos humanos altamente qualificados e pelo impacto de suas atividades na sociedade”, disse o pró-reitor de Desenvolvimento Universitário, Fernando Sarti. “Os resultados positivos em indicadores como reputação acadêmica, rede internacional de pesquisa e sustentabilidade mostram que a Unicamp tem conseguido combinar excelência acadêmica com compromisso público, mantendo-se como uma das principais universidades do país e da América Latina”, finalizou.
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No envelhecimento, perda dentária e inflamações gengivais podem impactar saúde e autoestima
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USP
- Lipedema pode atingir até 12% da população feminina adulta no Brasil e ainda é confundido com obesidade
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China reconhece o agronegócio brasileiro como livre de febre aftosa
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Unicamp
- Centro de Pesquisa lança série de workshops para impulsionar produção de biocombustíveis no estado de São Paulo
Centro de Pesquisa lança série de workshops para impulsionar produção de biocombustíveis no estado de São Paulo
Há décadas, o estado de São Paulo é o maior produtor de etanol de cana-de-açúcar do país, sendo responsável por quase metade de toda produção do biocombustível nacional. Porém, passados 50 anos do Proálcool, o setor enfrenta um período sem evoluções significativas, no qual a produtividade da cana se encontra estagnada, a sazonalidade da produção impacta fortemente o mercado, e as secas prolongadas aumentam os riscos para as 170 usinas sucroalcooleiras do interior paulista.
Nesse cenário, o Centro de Ciência para o Desenvolvimento do Etanol (CCD Etanol) foi elaborado para, ao longo de cinco anos, investigar novos modelos de produção do biocombustível, ampliar a integração entre a pecuária e a agricultura, reduzir as emissões de gases de efeito estufa e proporcionar abertura para produtos até então inexistentes no estado de São Paulo, tendo o milho como matéria-prima principal. Assim, com os modelos estudados, o grão seria processado tanto na entressafra da cana quanto ao longo de todo o ano, permitindo a operação das indústrias sem pausas, com mais empregos, maior arrecadação de ICMS e menor necessidade de estocar etanol.
“Esse modelo já representa cerca de 23% da produção nacional de etanol, concentrada no Centro-Oeste, mas no estado de São Paulo ainda não existe nenhuma usina produtora”, destaca Luís Augusto Barbosa Cortez, pesquisador responsável pelo projeto.
O primeiro encontro será o workshop “Disponibilidade de bagaço nas usinas do setor sucroalcooleiro do estado de São Paulo”, que ocorrerá em 24 de junho de 2026, das 9 às 15 horas, no Auditório da Faculdade de Engenharia Química (FEQ) da Unicamp. De acordo com Cortez, o objetivo deste evento é reunir especialistas e pesquisadores do setor sucroalcooleiro para discutir os desafios e as oportunidades relacionados à oferta, à demanda e aos usos estratégicos do bagaço de cana-de-açúcar.

Viabilidade econômica das usinas
Segundo Cortez, com o desenvolvimento das pesquisas do CCD, a introdução do etanol de milho em São Paulo e com os resultados dessa inserção, o Brasil terá a oportunidade de mostrar ao mundo seus avanços. “Hoje, o mundo agrícola enxerga o Brasil como uma potência em expansão, e nós enxergamos o biocombustível como um derivado da agricultura. Então, as pesquisas, os eventos e workshops que serão realizados pelo CCD Etanol têm como objetivo justamente conquistar esse mercado para que o Brasil tenha a oportunidade de se inserir nele com destaque”, explica.
Tanto para o setor público quanto para o privado, o propósito do CCD é claro: demonstrar a viabilidade econômica das usinas “flex” e “flex-full” e indicar se é mais vantajoso produzir o grão localmente ou trazê-lo de estados como Mato Grosso, Goiás e Paraná. “Atuamos fazendo a interface entre as diferentes frentes, as empresas privadas que têm interesse nesse assunto, os governos e nós como instituição de ensino”, afirma o pesquisador. “Trabalhamos no meio de campo para entender como o tema precisa ser desenvolvido e, principalmente, como podemos disseminar esse conhecimento e informar os resultados para o mundo.”
Como forma de facilitar as discussões e as relações entre setores, além de contribuir para a apresentação de dados e resoluções, o projeto irá realizar uma série de eventos e workshops sobre os diferentes eixos da pesquisa, que cobrem os principais desafios e oportunidades do setor sucroenergético paulista.
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Eleições no Peru são marcadas por indefinição e incertezas quanto ao futuro do país
Comissão internacional da The Lancet busca ampliar acesso à medicina de precisão
Frequentemente associada a exames sofisticados e tratamentos de alto custo, a medicina de precisão ainda é vista como uma realidade restrita a centros altamente especializados. Uma nova comissão internacional criada pela revista científica The Lancet, intitulada “The Lancet Commission on Precision Health”, pretende mudar essa percepção. O grupo reúne mais de 20 especialistas de diversos países, entre eles Iscia Lopes-Cendes, docente da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp e pesquisadora do Instituto Brasileiro de Neurociências e Neurotecnologia (Cepid-Brainn), sediado na Unicamp.
Lopes-Cendes, especialista em medicina genômica e em tecnologias aplicadas às neurociências, é uma das duas representantes da América Latina no grupo, que conta também com o psiquiatra Christian Kieling, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Segundo ela, o objetivo da comissão é formular recomendações para que estratégias de saúde de precisão possam ser incorporadas de forma equitativa a sistemas de saúde em todo o mundo.
Nesse processo, destaca, o Brasil pode desempenhar um papel importante. “Vejo o Brasil como tendo uma grande responsabilidade de fazer a coisa certa, porque somos uma vitrine para os outros países da América Latina e para os países do Sul Global.”
De acordo com Lopes-Cendes, o país ocupa uma posição estratégica por reunir características que podem transformá-lo em referência. “Podemos fazer essa implementação com equidade porque, desde que isso ocorra no Sistema Único de Saúde (SUS), que tem uma capilaridade enorme, isso vai chegar para todos os brasileiros.”

A pesquisadora ressalta que a combinação entre um sistema público universal, a crescente integração de bases de dados em saúde e a experiência acumulada em políticas de prevenção coloca o Brasil em posição privilegiada para testar modelos que posteriormente possam ser reproduzidos em outras regiões do mundo.
“Pelas características do Brasil, um país que produz muita estatística e está nesse momento de transição para um patamar mais elevado de desenvolvimento, existe um grande interesse internacional no que acontece aqui. Pode ser que estudos de caso brasileiros sejam publicados no âmbito da comissão. Nosso sistema de saúde é muito organizado do ponto de vista dos registros e da produção de dados, e isso permite desenvolver trabalhos muito interessantes”, completa.
A comissão foi criada para enfrentar um desafio crescente dos sistemas de saúde. Embora avanços científicos tenham demonstrado que fatores genéticos, ambientais, comportamentais e sociais influenciam o surgimento das doenças e a resposta aos tratamentos, a maior parte da assistência médica ainda é baseada em médias populacionais e protocolos padronizados. A chamada saúde de precisão busca justamente incorporar essa diversidade. “Decidimos justamente não chamar a comissão de medicina de precisão, mas de saúde de precisão, porque podemos recomendar ações relacionadas ao estilo de vida, ao comportamento e até a políticas públicas”, explica.
Segundo Lopes-Cendes, a abordagem só poderá cumprir seu potencial se for adaptada a diferentes realidades econômicas e sociais. “Essa é outra área em que o Brasil pode contribuir muito. Temos estratégias de prevenção muito bem estabelecidas no SUS. Um exemplo são as equipes de Saúde da Família, que vão às casas, fazem diagnóstico, acompanham as pessoas e atuam antes que elas precisem procurar uma unidade de saúde. Quando a equipe vai à casa da pessoa, ela vê o que a pessoa come, observa as condições do ambiente, entende o contexto social. Tudo isso é informação importante.”
Ao longo dos próximos anos, o grupo realizará revisões sistemáticas da literatura científica e analisará experiências já implementadas em diferentes países. O objetivo não é produzir pesquisas originais, mas identificar as estratégias que funcionaram e as que fracassaram para elaborar recomendações destinadas a governos, gestores de saúde e pesquisadores. “Queremos evitar que governos e sistemas de saúde precisem reinventar a roda. Vamos mostrar até onde o conhecimento chegou e propor recomendações.”

Lopes-Cendes destaca ainda que a comissão busca preservar sua independência em relação a interesses econômicos. Segundo a pesquisadora, a The Lancet adota critérios rigorosos tanto para a seleção dos integrantes quanto para a captação de recursos. “O objetivo é evitar ao máximo a impressão de que grupos com interesses econômicos específicos estejam influenciando o trabalho”, ressalta.
Os resultados deverão ser divulgados ao longo dos próximos três anos em uma série de documentos e artigos científicos publicados pela The Lancet, abordando áreas como câncer, doenças cardiometabólicas, saúde mental e doenças neurológicas.
Diretrizes fortalecem pesquisa
O avanço da medicina de precisão depende não apenas de novas tecnologias, mas também da qualidade das pesquisas produzidas na área. Com esse objetivo, um grupo internacional de especialistas publicou, em 2024, um conjunto de diretrizes voltadas à padronização de estudos sobre medicina de precisão.
Batizado de BePRECISE, o documento foi elaborado por 23 pesquisadores e publicado na revista científica Nature Medicine. A iniciativa surgiu após uma análise de centenas de estudos que identificou falhas frequentes na forma como resultados científicos são apresentados, dificultando a comparação entre pesquisas e a aplicação prática das descobertas.
As recomendações propõem critérios mais rigorosos para a descrição de métodos, resultados e impactos clínicos, além de enfatizar a necessidade de incluir populações historicamente sub-representadas na pesquisa científica. O objetivo é garantir que os benefícios da medicina de precisão alcancem diferentes grupos sociais e não apenas populações de países mais ricos.
Segundo os autores, a medicina de precisão tem potencial para tornar diagnósticos, tratamentos e estratégias de prevenção mais eficazes ao considerar características biológicas, ambientais e comportamentais dos pacientes. Para que esse potencial se traduza em benefícios concretos para a população, porém, é necessário produzir evidências científicas mais consistentes, transparentes e representativas da diversidade populacional.
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Unicamp cria Rede de Microscopia e inaugura equipamento para pesquisas avançadas


Integrar unidades de pesquisa, equipamentos e especialistas, ampliando a eficiência no uso de recursos públicos e fortalecendo a produção científica em benefício da sociedade. Esses são os pilares da recém-criada Rede de Microscopia da Unicamp (RMU). Em paralelo, a Universidade apresenta nesta sexta-feira (12) o seu novo microscópio eletrônico de transmissão de alta resolução – iniciativa que recebeu R$ 15 milhões da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Desse total, R$ 13,3 milhões foram destinados à compra do microscópio. O restante, R$ 1,7 milhão, foi utilizado na adaptação da infraestrutura necessária para sua instalação.
O equipamento – modelo Jem F200 Cold Feg, de 3,4 metros de altura e 1,7 toneladas –, foi obtido graças ao esforço conjunto de várias unidades da Unicamp e da Pró-Reitoria de Pesquisa, que foi coordenado pelo professor Rubens Caram Jr., da Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM). A aquisição é resultado de uma trajetória iniciada ainda na década de 2010, marcada por vários insucessos na busca de recursos, que agora se concretiza a partir de uma iniciativa do corpo de pesquisadores e da diretoria do Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW), por meio de várias gestões – dos diretores Pascoal Pagliuso, Mônica Cotta e Marcos Oliveira.
A proposta vitoriosa reuniu aproximadamente 50 docentes e pesquisadores de 11 unidades: os já mencionados IFGW, “instituição-sede”, e FEM; o Instituto de Química (IQ), o Centro de Componentes Semicondutores (CCSNano), a Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA), a Faculdade de Ciências Médicas (FCM), a Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC), a Faculdade de Engenharia Química (FEQ), a Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP), o Instituto de Biologia (IB) e o Instituto de Geociências (IG). Integram a equipe especialistas em microscopia eletrônica avançada, entre eles o professor Daniel Ugarte, coordenador técnico-científico do projeto, e o professor Diego Muraca, ambos do IFGW.
O microscópio está instalado no Laboratório Multiusuário de Microscopia Eletrônica (LM2E), em um prédio do IFGW que passou por uma ampla reforma. Uma das etapas mais complexas foi a construção de uma base especial de concreto, com cerca de um metro de profundidade, destinada a reduzir vibrações que poderiam comprometer as imagens geradas.
“A estruturação de espaços multiusuários de pesquisa, como a Rede de Microscopia da Unicamp, representa uma iniciativa estratégica da Universidade para ampliar o acesso à infraestrutura científica e aumentar sua visibilidade junto à comunidade acadêmica e aos parceiros externos. A criação e o fortalecimento desses espaços vêm sendo incentivados pela PRP, uma vez que o sucesso dessas iniciativas pode contribuir para o desenvolvimento de modelos sustentáveis de custeio, manutenção e renovação do parque instrumental da Universidade”, afirma Ana Frattini, pró-reitora de Pesquisa.

Para a professora do IQ Daniela Zanchet, que também atua como coordenadora da RMU, a criação do grupo e a incorporação do novo microscópio representam um importante avanço para a infraestrutura de pesquisa da Unicamp, ampliando as possibilidades de investigação científica multiusuária e fortalecendo a excelência acadêmica.
“O conceito de rede vai além da praticidade. Diante do aumento dos custos e da sofisticação dos equipamentos científicos, compartilhar infraestrutura tornou-se uma necessidade para garantir o melhor aproveitamento dos investimentos realizados em pesquisa”, aponta Zanchet. “A microscopia exige não apenas equipamentos de alto valor, mas também profissionais altamente qualificados para operá-los e interpretar os resultados. Nem sempre quem precisa do equipamento sabe onde ele está disponível, e nem sempre os recursos são utilizados da forma mais otimizada possível quando se olha para a Universidade como um todo”, comenta a coordenadora.
Ainda de acordo com Zanchet, a troca de experiências entre especialistas de diferentes áreas é um dos principais ganhos da iniciativa. A RMU reúne pesquisadores e técnicos de campos diversos, como biologia, física, geociências, química, engenharia e odontologia, criando oportunidades para novas colaborações e soluções inovadoras.
“A ciência ganha muito quando compartilhamos diferentes expertises. Temos pesquisadores trabalhando com diferentes tipos de materiais, como polímeros, catalisadores, rochas, ligas metálicas, materiais biológicos, entre outros. Essa interação amplia nossa capacidade de enfrentar problemas complexos e encontrar soluções que talvez não surgissem dentro de uma única unidade”, afirma.
Além dos benefícios para a pesquisa, Zanchet destaca que a sociedade também é diretamente favorecida. Para ela, a integração dos equipamentos permite otimizar o uso dos recursos públicos, aumentando a eficiência da infraestrutura existente e acelerando a geração de conhecimento. “A sociedade investe na universidade e espera resultados. Precisamos mostrar que estamos utilizando esses recursos da forma mais responsável possível. As redes permitem justamente isso: conectar as pessoas certas aos equipamentos mais adequados, promovendo mais eficiência e melhores resultados”, diz.

Formação
Para Mônica Cotta, ex-diretora do IFGW e pró-reitora de Graduação da Unicamp, o fato de a RMU reunir informações sobre os microscópios disponíveis, seus recursos e formas de agendamento pode acabar com a subutilização de estruturas de alto custo e propiciar o fortalecimento da formação de estudantes e pesquisadores. A ampliação na capacidade de formação de recursos humanos qualificados em técnicas de microscopia eletrônica é uma das metas da RMU. “Isso representa uma mudança cultural. As principais universidades do país possuem centros ou redes de microscopia avançada, mas a Unicamp ainda não contava com um microscópio eletrônico de transmissão desse porte”, ressalta. “A RMU pode servir de modelo para futuras iniciativas de integração de infraestrutura científica na Universidade, ampliando a cooperação entre áreas de pesquisa e fortalecendo a capacidade da Unicamp de planejar novos investimentos estratégicos em equipamentos de grande porte”, diz.
A estratégia já apresenta resultados concretos. Além do microscópio eletrônico de transmissão em instalação, a articulação entre diferentes unidades da Unicamp contribuiu para a aprovação de uma nova iniciativa, desta vez, pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Serão cerca de R$ 7 milhões para a aquisição de um segundo microscópio eletrônico. O novo instrumento é considerado um “microscópio de entrada”, necessário para atender rapidamente ao grande volume de análises rotineiras de alta resolução espacial (nanométrica) nas diversas áreas do conhecimento da comunidade da Unicamp e da região. O equipamento também ampliará o alcance na formação de recursos humanos qualificados.
Zanchet afirma que a expectativa é ampliar ainda mais a infraestrutura da RMU nos próximos anos, com novos projetos voltados para áreas específicas como materiais biológicos e metalurgia. “O objetivo é consolidar um planejamento de médio e longo prazo para a microscopia na Unicamp e, futuramente, contribuir para a construção de redes em escala estadual e nacional”, conta.


Comunidade acadêmica
Coordenador do projeto que tornou realidade a instalação do microscópio eletrônico de transmissão de alta resolução, Caram ressalta que a aquisição desse microscópio atende a uma demanda antiga da comunidade científica da Unicamp. O equipamento, considerado uma das “joias” da Universidade, também permitirá avanços em áreas como ciência dos materiais, nanotecnologia, semicondutores, metalurgia e saúde. Submetido em 2022 no âmbito do edital de Equipamentos Multiusuários da Fapesp, o projeto foi um dos maiores aprovados pela Fundação. Após um processo de seleção de fornecedores e de tramitação da compra, o equipamento foi entregue em setembro de 2025 e ainda passa por etapas de instalação e testes.
Embora a Universidade já possua diversos microscópios eletrônicos de varredura distribuídos em diferentes unidades, faltava um equipamento de transmissão de última geração, tecnologia considerada essencial para análises mais avançadas. “Isso representa uma mudança de patamar na qualidade das investigações científicas realizadas na Universidade. Até então, muitos grupos dependiam de equipamentos localizados em outras instituições, em São Carlos ou Belo Horizonte, por exemplo. Em alguns casos, estudantes e pesquisadores precisavam viajar centenas de quilômetros para realizar análises necessárias para projetos e publicações científicas. Com a chegada do novo microscópio, a expectativa é ampliar a autonomia da Unicamp e acelerar o desenvolvimento de pesquisas estratégicas”, explica Caram.
Concluída a instalação, os testes finais e o treinamento no novo microscópio continuarão nos próximos meses. “A expectativa é que, gradualmente, toda a comunidade acadêmica da Universidade possa acessar a nova estrutura, considerada uma das mais avançadas do país para investigação científica em escala atômica”, garante o professor.
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Trump, Fifa e a corrosão da democracia

Os dias que antecederam a abertura da 23ª edição da Copa do Mundo – a maior da história em número de participantes – transformaram o que era apenas uma incômoda expectativa em episódios explícitos de racismo, xenofobia e autoritarismo. Autoproclamado líder do que chama de “mundo livre”, o governo dos Estados Unidos passou a adotar medidas que o afastam progressivamente das noções mais amplas de democracia e contraria frontalmente o espírito de união global preconizado pela Fifa – a federação internacional de futebol, organizadora do evento. Especialistas ouvidos pelo Jornal da Unicamp veem corrosão da democracia e cumplicidade da Fifa.
Ao utilizar prerrogativas de soberania e segurança nacional de maneira peculiar, o presidente Donald Trump restringiu deslocamentos de delegações, barrou profissionais credenciados pela Fifa ou submeteu criadores de conteúdo originários de países considerados suspeitos a constrangimentos, num movimento jamais visto nos quase 100 anos de existência do mundial de futebol.
Trump expandiu de forma significativa a lista de nações sujeitas a restrições de entrada no país. A relação de países com bloqueios parciais ou totais para vistos de turismo de curta duração subiu de 19 para 39 nações. Paralelamente às regras de turismo, os EUA suspenderam o processamento de vistos de imigrante para cidadãos de 75 países, atingindo inclusive o torcedor comum, com visto de turista.
Na primeira semana de junho, a menos de 15 dias do início da competição, a delegação do Irã foi formalmente informada sobre uma pesada restrição de permanência nos Estados Unidos. Os jogadores foram liberados, mas sob condições estritas.
O Departamento de Segurança Interna dos EUA concedeu os vistos apenas para os atletas na última hora, determinando que entrem e saiam do território norte-americano estritamente nos dias das partidas. Eles não receberam permissão de residência contínua ou pernoite comum nos EUA durante o torneio.
Diversos membros da comissão técnica e dirigentes de alto escalão – incluindo Mehdi Taj, o presidente da Federação de Futebol do Irã – tiveram seus vistos negados. A seleção iraniana, que planejava se alojar em Tucson, no Arizona, acabou sendo acolhida pelo governo mexicano e teve de montar sua base emergencial em Tijuana.
Senegal
A delegação do Senegal foi submetida a uma rigorosa revista ainda na pista do aeroporto logo após desembarcar na Carolina do Norte. Imagens do procedimento viralizaram e geraram debate público, sobre o tratamento desigual adotado na chegada das delegações, já que os europeus foram liberados sem que passassem pelo processo.
O Haiti, por sua vez, teve de alterar seus uniformes porque a Fifa considerou haver “mensagens políticas” na camisa. O desenho continha uma bandeira e a ilustração da Batalha de Vertières, travada em 1803, decisiva para a independência do país após conflito com a França.
Árbitro
O árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, de 34 anos, foi barrado na imigração americana ao desembarcar no Aeroporto de Miami (EUA). Ele foi convocado pela Fifa para apitar jogos no Mundial depois de ter sido eleito o melhor árbitro da África em 2025. As autoridades de fronteira consideraram o profissional “inadmissível” após checagem de antecedentes e o impediram de ingressar no país, determinado o retorno à Somália. Artan seria o primeiro árbitro da história da Somália a apitar em uma Copa do Mundo. Deportado, foi recebido com festa ao voltar para casa.
Iraquiano
Considerado o principal astro da seleção iraquiana, o atacante Aymen Hussein foi submetido a grande constrangimento ao tentar entrar nos Estados Unidos. Foi detido e interrogado por cerca de sete horas por autoridades de imigração no aeroporto de Chicago. Hussein acabou liberado, mas o fotógrafo oficial da delegação, Talal Salah, não conseguiu autorização para entrar.
Influenciadores
A alfândega americana adotou uma prática radical e decidiu proibir a entrada de pessoas criadoras de conteúdo para redes sociais ou da mídia alternativa. Para as autoridades, produzir conteúdo que pode ser monetizado em solo americano com visto de turista é considerado trabalho ilegal.
Democracia
Para o professor do Instituto de Economia (IE) da Unicamp Marcelo Proni – que, entre outras linhas de pesquisa, tem estudos na área de economia do esporte –, o movimento do presidente americano corrói a democracia.

“Discordo dos que acham que, hoje, os EUA não podem mais ser chamados de democracia. Os EUA têm instituições fortes e que vão resistir ao Trump. O Trump vai passar”, aponta. “Mas eu diria que, hoje, a democracia nos EUA está ameaçada. Do ponto de vista formal, os EUA são uma democracia, mas uma democracia que está vivendo ataques sistemáticos, que está sendo erodida”, afirma.
Para Proni, a submissão da Fifa aos ditames do governo Trump criou uma “situação esquizofrênica”.
“Idealmente, a Copa é uma celebração dos princípios civilizatórios que fundamentam a convivência pacífica entre as nações, inclusive a valorização da diversidade étnica e cultural. Mas o governo dos EUA impôs restrições claramente discriminatórias”, disse.
Segundo o docente, embora o presidente da Fifa, Gianni Infantino, pregue um mundo sem fronteiras, ele silencia diante de medidas hostis contra membros da comunidade que a Fifa deveria representar. “Infantino age como um CEO de uma grande corporação interessada em garantir os ganhos bilionários do seu negócio”, diz.
Contradição
Professor do Departamento de Sociologia e da Pós-Graduação em Sociologia da Unicamp, Michel Nicolau Netto chama a atenção para uma contradição. De acordo com ele, Trump se apropria da ideia de soberania para impor uma política discriminatória, antidemocrática. Com isso, subverte a tradição segundo a qual a Fifa passa a ter direito de ocupação de determinados espaços do país-sede, onde aplica regras próprias.
As regras em vigor definem que antes mesmo de um país ser anunciado como sede, o governo e as cidades candidatas precisam assinar o Host Agreement (Acordo de Sede). Trata-se de um contrato de adesão pelo qual o país aceita os termos da Fifa. Na Copa de 2018, na Rússia, por exemplo, a Fifa interveio e determinou que o governo russo suspendesse a exigência de visto para a entrada no país.

Só que Trump ignorou essa tradição e, em nome da soberania do país, adotou as restrições que julgou necessárias. Mesmo diante de violações às regras da própria entidade, a Fifa preferiu não oferecer qualquer oposição.
“Mas a Fifa sempre fez isso. Sempre foi maleável. Sempre se adaptou a governos autoritários”, disse o professor. “Já promoveu jogos de Copa sobre mortos pela ditadura da Argentina; já sentou com governos sanguinários do Oriente Médio, realizou Copa na Rússia onde havia discursos fortemente intolerantes aos homossexuais ou em lugares onde havia claras violações de direitos das mulheres”, acrescentou.
Netto adverte, porém, que o comportamento de hoje do presidente norte-americano pode abrir um precedente perigoso e pode se tornar uma nova prática dos países que vão sediar as futuras competições organizadas pela Fifa.
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Pesquisa traz alerta sobre desigualdade na distribuição de escolas médicas em São Paulo
Dissertação de mestrado defendida na Unicamp chama a atenção sobre temas relevantes na educação médica brasileira: a rápida expansão dos cursos de Medicina, o impacto da distribuição de unidades por regiões e a qualidade da formação dos profissionais da saúde. O estudo, realizado pelo médico e pesquisador Guilherme Frayha, sob orientação da professora Eliana Amaral, no programa de Pós-Graduação em Educação para as Profissões da Saúde da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), analisou o perfil das escolas médicas do estado de São Paulo entre 2013 e 2025, período marcado por forte crescimento impulsionado por políticas públicas como o Programa Mais Médicos.
Os resultados mostram que o número de cursos e vagas aumentou de forma expressiva, especialmente após 2013. No entanto, essa expansão ocorreu de maneira concentrada: novas escolas foram predominantemente instaladas em regiões já mais desenvolvidas do estado e, em sua maioria, vinculadas a instituições privadas. Esse padrão reforça um paradoxo importante – embora haja aumento no número absoluto de médicos em formação, a expansão não necessariamente contribui para reduzir desigualdades regionais no acesso à saúde.
Outro ponto diz respeito à qualidade da formação. O estudo identificou que escolas médicas com maior tempo de funcionamento e aquelas de natureza pública apresentaram melhor desempenho nos principais indicadores regulatórios do país, como o Enade 2023 e o Conceito Preliminar de Curso (CPC). Por outro lado, instituições privadas tiveram avaliações mais positivas no que diz respeito à infraestrutura, a partir das respostas diretas dos estudantes, evidenciando o impacto das diferentes dimensões dos indicadores na percepção do que se identifica como qualidade de formação.

Expansão
A pesquisa também reforça um debate crescente no cenário nacional: expandir vagas não é suficiente. Para o autor do estudo, é fundamental que políticas de crescimento da educação médica estejam alinhadas às necessidades do sistema de saúde e às características regionais, garantindo não apenas maior oferta de profissionais, mas também formação de qualidade e responsabilidade social. Além disso, o estudo destaca que a expansão desarticulada de políticas efetivas de fixação de profissionais tende a limitar o impacto dessas estratégias, visto que o aumento no número de formados, por si só, não assegura sua permanência em regiões de maior vulnerabilidade, nem contribui, de forma consistente, para a redução das desigualdades na distribuição da força de trabalho médica.
Ao utilizar o estado de São Paulo como um “laboratório” – por sua dimensão, diversidade socioeconômica e complexidade do sistema de saúde –, o estudo oferece evidências com potencial de aplicação em outros contextos, inclusive internacionais.
Mais do que avaliar se há “médicos demais” ou se foram “mal formados”, a pesquisa propõe uma reflexão mais profunda sobre como a qualidade da formação, mensurada pelo desempenho dos estudantes e do curso em avaliação externa, pode ser garantida em diferentes regiões, ao mesmo tempo em que se busca ampliar acesso a profissionais médicos em regiões com menores índices de desenvolvimento. “Este estudo oferece evidências para um debate que tem mobilizado a sociedade e se propõe a contribuir para as políticas públicas de provimento e fixação de médicos”, afirma a professora Eliana Amaral.

Pressão
Frayha demonstra preocupação com o impacto do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) e de avaliações semelhantes sobre o processo formativo. Para ele, embora as provas tenham importância como ferramenta de monitoramento, há risco de que a pressão por desempenho transforme a formação médica em uma preparação voltada exclusivamente para exames teóricos. “O movimento está sendo contrário ao esperado. Em vez de pressionar por uma melhor formação médica, as escolas começam a focar na preparação para provas”, comenta.
Ainda de acordo com o pesquisador, isso pode reduzir a valorização das atividades práticas, consideradas fundamentais na formação médica. “A prática clínica supervisionada é um dos pilares do ensino médico e há um risco de substituição desse processo por treinamentos voltados a questões objetivas. A vivência prática do aluno é fundamental. O bom desempenho em uma prova não necessariamente representa um bom médico”, reforça.
Frayha também critica o caráter punitivo atribuído à divulgação pública dos resultados das avaliações. Para ele, a reprovação social sobre instituições e estudantes pode provocar distorções no ensino e transferir aos alunos responsabilidades que deveriam ser compartilhadas entre escolas, poder público e órgãos reguladores.
Outro ponto levantado pelo pesquisador foi a dificuldade de acesso a dados consolidados sobre o ensino médico no Brasil. De acordo com Frayha, diferentes bases oficiais apresentam números divergentes sobre a quantidade de escolas médicas em funcionamento no país. Enquanto uma planilha obtida por ele no sistema e-MEC apontava 427 escolas em abril deste ano, outras fontes mencionam números próximos de 467 instituições. “Sem dados confiáveis, não se consegue fazer gestão”, aponta Frayha, que agora pretende aprofundar os estudos sobre expansão e qualidade das escolas médicas no Brasil no doutorado.

Desafio
Amaral, por sua vez, ressalta que há um desafio delicado em ampliar o acesso à formação em regiões menos desenvolvidas ao mesmo tempo que se garante que os estudantes tenham experiências clínicas adequadas. “O perfil esperado do médico hoje é muito amplo. As diretrizes curriculares nacionais exigem um profissional capaz de atuar desde a atenção primária até situações mais complexas e especializadas”, comenta a professora.
As novas diretrizes para os cursos de medicina, atualizadas em 2025, reforçam a necessidade de uma formação abrangente, baseada em experiências práticas supervisionadas. Para a professora, isso exige não apenas infraestrutura física, mas principalmente profissionais preparados para orientar os estudantes durante a formação clínica. “O grande problema não é apenas construir uma escola com laboratórios modernos. Se não houver estrutura clínica e docentes qualificados para supervisionar os alunos, a formação fica comprometida”, explica.
O estudo de Frayha mostra que as regiões do estado com menos escolas médicas também apresentam menor desenvolvimento econômico e menor estrutura de saúde. Isso dificulta a presença de preceptores, especialistas e hospitais capazes de sustentar a formação médica completa. Apesar disso, Amaral destaca que cidades menores podem, sim, desenvolver cursos de qualidade quando há planejamento pedagógico e envolvimento institucional. Como exemplo, ela cita a experiência da escola médica de Caicó, no interior do Rio Grande do Norte, estruturada com forte acompanhamento pedagógico e participação ativa do corpo docente.
A orientadora ainda chama a atenção para a necessidade de políticas mais amplas para reduzir os chamados “vazios assistenciais” – regiões com carência de profissionais de saúde. Segundo ela, abrir escolas médicas não é suficiente para resolver o problema da distribuição de médicos. “Hoje se sabe que o médico tende a se fixar no local onde faz graduação e residência. Mas, se já é difícil garantir estrutura adequada para a graduação, isso se torna ainda mais complexo na residência médica”, diz.
Outra questão é o avanço das instituições privadas no processo de expansão dos cursos. De acordo com Amaral, a abertura de novas escolas ocorreu majoritariamente em regiões com maior capacidade econômica, onde há estudantes capazes de arcar com mensalidades elevadas.
Projeto Rever
Ao mesmo tempo, cresce a preocupação nacional com a qualidade da formação médica. Amaral participou recentemente de uma reunião do projeto Rever, iniciativa da Associação Brasileira de Educação Médica com apoio do Ministério da Saúde, Ministério da Educação e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). O projeto reúne coordenadores de cursos de medicina e representantes de órgãos públicos para discutir estratégias de qualificação do ensino médico no país. Entre as ações desenvolvidas, estão materiais de orientação para coordenadores e professores responsáveis pela implementação das diretrizes curriculares nacionais. Para a professora da Unicamp, a discussão sobre medicina precisa ultrapassar a lógica individual e mercadológica. “A formação em saúde é um bem público. O compromisso de qualidade não é apenas com o estudante, mas com toda a sociedade”, ressalta.
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Unicamp inaugura sistema de iluminação inteligente que reduz consumo de energia em 70%

A Unicamp inaugurou, em seu campus no distrito de Barão Geraldo, nesta segunda-feira (8), um novo sistema de iluminação pública inteligente. Resultado de um investimento de R$ 5 milhões obtido por meio do Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel), o modelo reduz em cerca de 70% o consumo e pode gerar uma economia de até R$ 1 milhão por ano à Universidade.
Liderado pelo professor Luiz Carlos Pereira da Silva, da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC), que também coordena o programa Campus Sustentável, ligado à Diretoria Executiva de Sustentabilidade (DExS), o projeto substituiu aproximadamente 2.500 luminárias antigas, baseadas em tecnologia de vapor de sódio, por equipamentos de LED de alta eficiência energética.
A inauguração oficial ocorreu em um evento na Casa do Lago e foi seguida por uma visita técnica a diferentes pontos do campus. O reitor Paulo Cesar Montagner participou da atividade. “A Unicamp vem colhendo resultados positivos com a implantação de sistemas de iluminação inteligente. Essa iniciativa integra um conjunto de ações que inclui veículos elétricos e projetos de geração de energia sustentável, consolidando a Universidade como referência nacional em pesquisa aplicada. Esses avanços representam a construção de um novo paradigma para a instituição e podem servir de modelo para outras universidades e centros tecnológicos do país”, afirmou.
Telegestão
Além da economia, o novo sistema incorpora tecnologias de telegestão que permitem monitorar e controlar remotamente cada luminária. Sensores conectados enviam informações em tempo real para uma plataforma digital, possibilitando acompanhar o consumo individual, identificar falhas instantaneamente e otimizar a manutenção da rede.

Outra inovação é a possibilidade de ajustar a intensidade da iluminação ao longo da noite, reduzindo o consumo em horários de menor circulação de pessoas, sempre dentro dos parâmetros estabelecidos pelas normas técnicas.
O novo sistema também permite transformar a rede de iluminação em uma multiplataforma de dados. Entre as novas aplicações estão radares para monitoramento do fluxo de veículos nas guaritas do campus, por exemplo, e a integração de sensores capazes de coletar dados ambientais e de segurança. A infraestrutura ainda permite a instalação de câmeras de monitoramento e sensores acústicos para diferentes aplicações urbanas.
“A ideia é transformar a Unicamp em um laboratório vivo de pesquisa, desenvolvimento e demonstração de tecnologias voltadas à iluminação pública e às cidades inteligentes. A Universidade pode se tornar uma referência dessa área no país. Além de reduzir o consumo de energia e os custos operacionais, o sistema produzirá uma grande quantidade de dados que poderão ser utilizados em pesquisas de graduação, pós-graduação e projetos de inovação”, afirmou Silva.
Meio ambiente
Em relação ao impacto ambiental, o novo conjunto de iluminação implantado no campus de Barão Geraldo utiliza duas diferentes temperaturas de luz (tonalidade da cor emitida por uma fonte luminosa, sem relação com o calor físico da lâmpada): 4 mil Kelvin nas vias e avenidas, onde a segurança viária é prioridade, e 3 mil Kelvin nas áreas de mata, consideradas mais suscetíveis. Quanto menor a temperatura, mais amarelada é a luz.

“Essa atual temperatura de 4 mil Kelvin é conhecida como branco neutro e é uma das mais utilizadas em projetos de iluminação pública. Embora seja considerada mais confortável que os modelos anteriores, se diferencia dos tons amarelados que marcaram sistemas antigos, como as luminárias de vapor de sódio”, explicou o professor da FEEC, afirmando estar atento às possíveis mudanças de padrões.
“A expectativa é que futuras revisões normativas incentivem o uso de temperaturas ainda mais baixas, como 2,7 mil Kelvin em vias urbanas e 2,2 mil Kelvin em áreas ambientais. Entretanto, a indústria ainda não possui escala de produção suficiente para oferecer essas soluções”, comentou Silva.
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BI0S aponta gargalos da infraestrutura de dados da agropecuária brasileira
A inteligência artificial entrou de vez no vocabulário da agricultura. Mas, por trás da promessa de eficiência, automação e previsão, há perguntas decisivas que ainda carecem de respostas concretas. Que dados sustentam essas ferramentas? Como transformar modelagem em decisão prática no campo? O que a IA realmente acrescenta à pesquisa agroclimática?
Essas são algumas das questões discutidas nesta entrevista com Jurandir Zullo Junior, pesquisador do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri/Unicamp) e coordenador da Trilha Agro do BI0S. Na conversa, ele fala de infraestrutura de dados, sensoriamento remoto, mudanças climáticas, soberania tecnológica e dos limites de uma inovação que, para ser transformadora de fato, precisa encarar o território como ele é: desigual, heterogêneo e cheio de contradições entre promessa tecnológica e realidade no campo.

A Trilha Agro do BI0S se apresenta como uma frente de apoio à tomada de decisão na agropecuária, do curto ao longo prazo. Como essa formulação se traduz, metodologicamente, em agenda de pesquisa?
Ela se traduz menos como uma agenda fechada e mais como uma estrutura aberta para responder a problemas concretos. No projeto original, havia objetivos gerais, mas, na prática, assim que o centro foi aprovado, começaram a chegar demandas. Então a agenda foi se constituindo nesse encontro entre grandes temas e necessidades reais do setor.
A robótica é um bom exemplo. Ela já aparecia como frente possível, mas ganhou corpo quando começaram a surgir demandas muito específicas, ligadas à falta de mão de obra e à mecanização de determinadas culturas. No caso do cacau, isso apareceu com força. Então o método acaba sendo esse: ouvir o problema, reunir grupos que têm competências diferentes e testar se aquilo pode virar pesquisa aplicada com utilidade concreta. Não é a tecnologia procurando um uso qualquer. É o problema que demanda pesquisa e inovação.
O BI0S aponta a ausência de dados organizados e acessíveis como uma das barreiras centrais do setor. Quais são hoje os principais gargalos de infraestrutura de dados para a agropecuária brasileira?
O primeiro gargalo é a heterogeneidade. São dados de naturezas muito distintas, produzidos por instituições diferentes, em escalas diferentes, e que muitas vezes não conversam entre si. O segundo é a conectividade. Às vezes se fala em agricultura digital como se o território estivesse plenamente integrado, mas isso não corresponde ao que existe no campo brasileiro. E o terceiro gargalo, que nem sempre aparece no debate público, é a manutenção.
Não basta ter base aberta ou plataforma robusta. O problema é fazer aquilo continuar vivo, atualizado e confiável. Você consegue, às vezes, um grande esforço inicial de agregação, mas depois parte dos bancos deixa de ser alimentada, ou passa a operar com ritmos muito diferentes de atualização. O sistema envelhece rápido. Infraestrutura de dados não é só armazenamento; é governança, continuidade e curadoria.
Nesse ponto, houve avanços institucionais importantes. A Lei de Acesso à Informação consolidou o princípio de que o acesso à informação pública é a regra, e a Fapesp passou a exigir planos de gestão de dados em modalidades e chamadas específicas. Mas entre a norma e o uso efetivo ainda existe uma distância considerável, especialmente quando entram em cena bases pulverizadas, redes desiguais e dados privados.
Quando se fala em “agricultura baseada em dados”, de que dados estamos falando? Climáticos, agronômicos, territoriais, econômicos, sanitários? Onde estão hoje os maiores vazios?
Estamos falando de tudo isso ao mesmo tempo. Dados climáticos, meteorológicos, de solo, de relevo, de manejo, de produtividade, de mercado, de logística e, em alguns casos, até de cenário internacional. Dependendo da cultura, o que acontece fora do país pesa diretamente na decisão produtiva aqui dentro.
O problema é que, em geral, esses dados não nascem integrados. Cada sistema costuma responder a uma finalidade específica. A economia agrícola olha uma coisa. A agrometeorologia olha outra. O agrônomo trabalha com outro conjunto. Então, mais do que ausência de dados, o que existe é uma dificuldade de articulação entre eles.
Por isso eu diria que o maior vazio hoje está menos na coleta bruta e mais na mediação. Falta interface. Falta tradução. Falta um modo de fazer esses bancos conversarem e devolverem algo utilizável para quem precisa decidir. O dado existe em muitos casos. O que não existe com a mesma solidez é a ponte entre o dado e a decisão.
Em sua trajetória no Cepagri, o senhor acompanhou a evolução do uso de sensoriamento remoto e agrometeorologia no país. O que a IA acrescenta de novo ao setor?
Ela acrescenta muito quando o problema é volume. No sensoriamento remoto, por exemplo, houve uma explosão na quantidade de imagens disponíveis. Antes, você trabalhava quase de forma artesanal. Hoje isso ficou inviável. A IA ajuda a extrair padrão, automatizar leitura, trabalhar com séries temporais longas e encontrar sinais que o olho humano, sozinho, não conseguiria tratar em escala.
Na climatologia acontece algo parecido. Não só aumentou o volume de dados como cresceu muito a diversidade de modelos e cenários. Então a IA e outras técnicas de processamento ajudam a selecionar, comparar e identificar comportamentos relevantes.
Agora, ela vira reembalagem, quando aparece como se bastasse despejar dados numa máquina e esperar uma resposta. Não é assim. Você continua precisando de método, de modelo adequado e de alguém que conheça profundamente o domínio do problema. A IA ajuda a lidar com a massa de informação. Ela não substitui, por si só, o conhecimento acumulado da área.
No debate atual, às vezes parece que modelo preditivo basta. Por que a observação em campo, a curadoria dos dados e a validação empírica continuam centrais?
Porque dado não chega puro ao modelo. Mesmo o dado de satélite, que hoje é central, não é uma medida direta da realidade. Ele depende de calibração, de modelagem e de comparação com rede de superfície. Sem isso, você corre o risco de tratar como evidência uma informação que ainda é, na melhor das hipóteses, uma aproximação.
A IA pode ajudar muito a detectar anomalias, filtrar volumes enormes de informações e até acender alertas. Mas alguém ainda precisa dizer o que é plausível, o que é erro, o que merece ser revisto. Chuva negativa está errada. Um valor extremo fora de padrão precisa ser checado. Quanto maior o volume de dados, mais importante fica a curadoria especializada.
A imagem que eu gosto de usar é a de tentar beber água de um hidrante. Não falta água; falta capacidade de tomar aquilo de forma útil. Com os dados acontece algo parecido. O desafio não é apenas captar. É separar, qualificar, interpretar e transformar em critério de decisão.
No caso do CacauClima, um dos desafios é monitorar por satélite sistemas agroflorestais mais complexos, como a cabruca. O que esse caso revela sobre os limites da IA quando o território não se comporta de forma padronizada?
Revela um limite importante: o território real é mais complexo do que o modelo gostaria que fosse. Sistemas como a cabruca não têm o comportamento visual e fenológico de uma plantação homogênea. Isso dificulta a leitura quando você depende apenas de um tipo de imagem ou de uma lógica muito padronizada de classificação.
Nesses casos, a saída não é abandonar a IA. É usá-la melhor. Integrar diferentes dados, combinar imagem óptica com radar, trazer variáveis ambientais e, quando possível, incorporar informação de campo. Às vezes, uma variável externa aparentemente simples, como data de plantio ou de colheita, melhora muito o desempenho do modelo.
Esse tipo de situação mostra que nenhuma tecnologia resolve tudo sozinha. O sensoriamento remoto tem limites. A IA também. O ganho aparece quando se aceita a complexidade do território em vez de tentar forçá-lo a caber numa leitura simplificada.
O senhor diria que hoje o principal desafio da IA no agro é algorítmico, institucional ou epistemológico?
Hoje, eu diria que o desafio maior é institucional e epistemológico, mais do que algorítmico. Algoritmo tem muita gente desenvolvendo. O problema é outro: frequentemente a solução aparece antes do problema real.
Você vê isso bastante. Desenvolve-se uma ferramenta sofisticada e depois se tenta encaixar nela alguma aplicação. Nem sempre a pessoa parte de um caso concreto. Nem sempre volta para o território para perguntar se aquele resultado faz sentido na prática. Então o risco é produzir uma solução elegante, mas sem aderência real.
É por isso que estruturas como o BI0S são interessantes. Porque colocam quem desenvolve método para conversar com quem vive o problema. Esse atrito é produtivo. Ele evita que a IA fique girando em torno de si mesma.
A Trilha Agro busca gerar soluções tanto para grandes produtores quanto para a agricultura familiar. Como evitar que a digitalização do campo reproduza assimetrias já existentes?
Primeiro, reconhecendo que essa assimetria existe e que o mercado, por si só, tende a olhar mais para quem tem escala, capital e capacidade de internalizar tecnologia. Grandes empresas conseguem montar suas redes, contratar soluções privadas, adaptar infraestrutura. Quem está em condições mais limitadas corre o risco de ficar à margem.
Por isso instituições públicas, universidades e agências de fomento precisam ter esse cuidado como premissa. Nem toda demanda que chega deve ser incorporada só porque tem recurso ou porque parece inovadora. É preciso perguntar a quem isso atende, quem fica de fora e como adaptar soluções para contextos produtivos diferentes.
Se a digitalização não enfrentar essa questão, ela pode apenas sofisticar desigualdades antigas com uma linguagem nova. O problema não desaparece porque ganhou uma camada de inteligência artificial.
Em projetos voltados à adaptação climática, como equilibrar previsão, incerteza e utilidade prática? Em que ponto uma projeção deixa de ser ciência e passa a ser especulação?
Ela deixa de ser robusta quando perde vínculo com o território e com a validação. Não basta ter uma projeção tecnicamente sofisticada. É preciso saber que modelo está sendo usado, se ele é adequado para aquela região, se já foi comparado com observação e se conversa com a escala da decisão que se quer tomar.
Na climatologia isso ficou muito claro. Hoje existe uma quantidade muito maior de modelos disponíveis. Então a escolha do modelo virou um problema científico em si. Não se trata de selecionar o cenário que confirma sua hipótese, mas de construir critérios para saber quais modelos representam melhor aquele sistema regional.
Ao mesmo tempo, utilidade prática importa. O CPTEC (Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos), por exemplo, mantém aplicações públicas de monitoramento, previsão do tempo e previsão climática, mas acesso não elimina a necessidade de interpretação. Uma projeção útil é aquela que assume a incerteza, explicita seus limites e ainda assim ajuda a orientar decisão. Quando essa base some, o risco é produzir apenas especulação bem embalada.
A agenda de IA aplicada ao campo levanta questões de soberania tecnológica. O Brasil está construindo capacidade própria ou ainda depende de plataformas, infraestruturas e padrões externos?
Ainda depende bastante, sobretudo quando a conversa envolve infraestrutura pesada, equipamentos e a dimensão espacial da coleta de dados. Na formação de pessoal, no desenvolvimento de algoritmos e em parte do ecossistema de inovação, houve avanço. Mas, quando se sobe a escala e se olha para satélites, plataformas estratégicas e capacidade industrial, a dependência continua importante.
Ao mesmo tempo, seria errado dizer que nada foi construído. O Amazônia-1, lançado em 2021, foi o primeiro satélite de observação da Terra projetado, integrado, testado e operado exclusivamente pelo Brasil. E o desenvolvimento conjunto do CBERS-5 com a China foi apresentado pelo governo brasileiro como um passo para colocar o país em um grupo muito restrito de nações com essa capacidade, com foco em aplicações meteorológicas e ambientais.
Então eu diria que o Brasil está num meio do caminho. Há capacidade científica, há quadros qualificados, há algumas infraestruturas importantes e há esforços institucionais relevantes. Mas ainda existe dependência externa em pontos estratégicos da cadeia. E isso importa muito quando se fala em clima, agricultura e dados, porque a soberania tecnológica não é um luxo: ela interfere diretamente em quem coleta, quem processa, quem distribui e quem controla a informação que orienta decisões no território.
Jaqueline Nichi é jornalista e socióloga. Doutora em Ambiente e Sociedade pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam/Unicamp) e bolsista de Jornalismo Científico (Mídia Ciência/Fapesp) no Centro de Pesquisa Aplicada em Inteligência Artificial (BI0S/Unicamp).
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Lume Teatro pesquisa a finitude e o post mortem para novo espetáculo

Em busca das histórias e dos rituais que cercam a morte, integrantes do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais da Unicamp, o Lume Teatro, percorreram cemitérios, velórios e hospitais em diferentes regiões do país. A morte passou a ser vivida não como abstração, mas como experiência cotidiana, a partir de relatos de coveiros, profissionais de cuidados paliativos e doulas da morte na pesquisa que vai resultar em um novo espetáculo, previsto para estrear no início de 2027.
As atrizes e pesquisadoras Ana Cristina Colla e Raquel Scotti Hirson, integrantes do Lume
desde 1994 e docentes do Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena, do Instituto de
Artes (IA), contam que viajaram pelo Brasil para investigar rituais, cuidados e ofícios que
cercam a finitude humana. “A pesquisa de campo faz parte do nosso modo de trabalho. É a maneira que encontramos para responder às perguntas que o próprio espetáculo vai nos fazendo”, afirma Colla.
A pesquisa integra parte do projeto temático “Pedagogias, Processos e Arquivos da Presença”, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e o projeto do Programa de Incentivo a Novos Pesquisadores – iniciativa da Unicamp em conjunto com o Fundo de Apoio ao Ensino, à Pesquisa e à Extensão (PIN-Faepex) –, “Olhares para a invisibilidade da morte em pesquisa de campo nas artes cênicas”.
O projeto, que também conta com os atores e pesquisadores Renato Ferracini e Jesser de Souza, começou a ganhar força depois de um trabalho anterior, dedicado ao estudo da doença de Alzheimer. A reflexão sobre envelhecimento, fragilidade e memória acabou conduzindo o grupo para questões relacionadas à finitude. Em seguida, vieram a pandemia e a experiência coletiva de conviver com a morte em escala global.

“O tema da morte passou a nos atravessar de uma maneira muito forte”, diz Colla. “Começamos a nos perguntar que vida é essa que estamos vivendo e o que existe por trás desse lugar que hoje é quase um tabu. Ao mesmo tempo que queremos viver cada vez mais, falamos muito pouco sobre a morte.”
Um dos primeiros movimentos foi acompanhar equipes de cuidados paliativos em Campinas. O grupo esteve tanto no Serviço de Cuidados Paliativos do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp quanto no Serviço de Atendimento Domiciliar (SAD), programa municipal que oferece assistência a pacientes em suas próprias residências. “Passamos a acompanhar as visitas dos profissionais às casas das pessoas, e isso abriu um mundo para nós”, lembra Colla. “É um trabalho muito bonito, porque traz um olhar mais humano para esse momento final da vida.”
À margem
Ao ampliar o campo da investigação para o período posterior à morte, o grupo passou a conversar com coveiros, funcionários de funerárias, tanatopraxistas, jardineiros e trabalhadores responsáveis pela manutenção dos túmulos. Um dos personagens mais marcantes dessa trajetória foi Osmair Cândido, o “Fininho”, coveiro aposentado de São Paulo, formado em Filosofia. “Ele é uma figura muito interessante, porque reúne esses dois universos”, conta Hirson. “Tem toda a experiência prática da profissão, mas também um olhar filosófico sobre a morte.”

O primeiro contato com Fininho aconteceu durante uma apresentação teatral. Depois vieram novas conversas, visitas e uma ida ao Cemitério da Vila Formosa, em São Paulo. “Quando falamos que nossa pesquisa se chamava ‘Invisibilidades da Morte’, ele respondeu imediatamente: ‘Invisibilidade é um nome bonitinho para a academia. O que a gente sofre é desprezo’”, recorda Colla. “Ele nos chamou a atenção para a condição dessas pessoas que trabalham diariamente com a morte e que muitas vezes permanecem à margem do olhar social”, completa.
Ao longo da pesquisa, o grupo também se aproximou de jardineiros e cuidadores de túmulos. “São pessoas que conhecem profundamente aqueles espaços”, afirma Hirson. “Às vezes elas sabem quais flores uma família costuma levar, quais túmulos recebem visitas frequentes, quais foram abandonados. Em muitos casos, o cuidado permanece porque essas próprias pessoas criam vínculos afetivos com quem está enterrado ali.”
Norte a Sul
Desde julho de 2025, a pesquisa percorreu diferentes regiões do país para conhecer profissionais e espaços ligados ao tema. Entre as viagens realizadas, a ida a Manaus (AM) foi uma das experiências mais impactantes. As pesquisadoras visitaram o Cemitério Nossa Senhora Aparecida, ampliado às pressas durante o período mais crítico da pandemia de covid-19. “Lá, vimos um espaço que precisou crescer muito rapidamente para receber o enorme número de mortos daquele momento”, relata Hirson.
A visita revelou uma dimensão concreta da tragédia vivida na cidade. “O cuidador do cemitério nos explicou que, em muitos casos, as marcações são simbólicas. Nem sempre a localização indicada corresponde exatamente ao local onde a pessoa foi enterrada. Aquilo nos marcou profundamente”, lembra Colla.
Em Porto Alegre (RS), as pesquisadoras conheceram as chamadas “doulas da morte”, do projeto AmorTSer, profissionais que acompanham pacientes e familiares durante processos de fim de vida, oferecendo acolhimento emocional e orientação prática. Segundo Colla, elas atuam de forma semelhante às doulas do nascimento, mas estão voltadas para a despedida.
Hirson explica que essas profissionais ajudam tanto no acolhimento emocional quanto nas questões práticas que surgem nesse período. “Quando alguém morre, as pessoas frequentemente não sabem o que fazer. Vai cremar? Vai enterrar? Como conseguir os documentos? Que providências precisam ser tomadas? Existe uma desorientação muito grande”, afirma.
Para elas, os cemitérios observados durante a pesquisa revelam muito mais do que práticas funerárias. “O cemitério é quase uma microcidade, ali aparecem as diferenças de classe, as áreas mais cuidadas, as mais abandonadas, as ruínas, os afetos. É um retrato muito potente da sociedade”, ressalta Colla.
Espetáculo em construção
Apesar do grande volume de material acumulado, as artistas afirmam que ainda estão em busca da forma cênica capaz de reunir todas essas experiências. O desafio envolve articular relatos de campo, histórias pessoais, registros documentais, reflexões filosóficas e experiências de luto. “Estamos no meio de um nó”, resume Colla. “Temos materiais de naturezas muito diferentes, experiências humanas muito fortes e muitas perguntas ainda sem resposta.”
O desafio agora é transformar esse percurso por hospitais, cemitérios e histórias de luto em uma experiência poética capaz de falar sobre a morte sem perder de vista a vida. “Estamos tentando encontrar uma forma que permita abordar esse tema com profundidade, mas também com delicadeza.”
Espetáculo SerEstando Mulheres atravessa uma trajetória
Além da pesquisa para o projeto, a atriz Ana Cristina Colla segue apresentando o espetáculo solo SerEstando Mulheres, atração deste mês dentro do projeto Lume em Casa, nos dias 20 e 21 junho, às 20h, na sede do grupo (Rua Carlos Diniz Leitão, 150, em Barão Geraldo, Campinas).
A programação integra as comemorações dos 60 anos da Unicamp e o projeto Palco DCult, iniciativa da Diretoria de Cultura (DCult), vinculada à Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (ProEEC). A entrada é gratuita, com parte dos ingressos reservados pela plataforma Sympla e parte com retirada uma hora antes do início das atividades.

Criado em 2012, SerEstando Mulheres nasceu quando a atriz completava duas décadas de trabalho no Lume e participava de encontros nacionais e internacionais de mulheres artistas. Naquele momento, conta, o tema do feminino atravessava intensamente suas reflexões. “Olhei para trás e vi quantas mulheres já tinham passado pelo meu caminho, quantas eu tinha encontrado em cena ou fora dela. Foi daí que nasceu o desejo de reuni-las.”
O espetáculo reúne personagens construídos ao longo de diferentes processos criativos do grupo. Estão ali mulheres encontradas em pesquisas de campo realizadas no interior de Goiás, Tocantins e Amazonas, personagens inspirados em pessoas em situação de rua observadas em São Paulo e no Rio de Janeiro e figuras ficcionais criadas em sala de ensaio.
Mais do que revisitar espetáculos antigos, explica Colla, o trabalho procura revelar as histórias dessas mulheres e os atravessamentos que elas produziram em sua própria trajetória. “O que costura tudo não é a técnica, nem o espetáculo de onde elas vieram. O que costura é aquilo que me atravessa. São mulheres muito diferentes, mas que de alguma maneira passaram a fazer parte de mim.”
Embora tenha surgido a partir de uma proposta de desmontagem – prática comum nas artes da cena em que artistas revisitam seus próprios processos criativos –, SerEstando Mulheres tomou outro caminho. Em vez de revelar bastidores ou técnicas de criação, Colla decidiu colocar as personagens no centro da narrativa. “Não queria mostrar como elas foram construídas. Queria trazer essas mulheres para perto”, afirma.
Ao final da apresentação, a atriz sintetiza essa ideia em uma frase que se tornou uma espécie de marca do espetáculo: “Essa sou eu vestida de todas essas mulheres.”
Com estrutura simples – um tapete, um tambor, uma cadeira e poucos adereços –, a montagem foi concebida para circular com facilidade. “Queria um espetáculo que coubesse numa mala”, afirma. A escolha permitiu que o espetáculo percorresse diferentes países ao longo dos últimos anos, como México, Cuba, Argentina, Costa Rica e Portugal, além de circular por diversas regiões do Brasil, incluindo presídios femininos, praças e espaços alternativos.
Para Colla, uma das descobertas mais bonitas dessa trajetória foi perceber como aquelas personagens encontravam eco em públicos muito distintos. “Essas mulheres acabam encontrando outras mulheres em cada lugar por onde passam. As histórias são diferentes, mas existe alguma coisa que se reconhece.”
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Poluição nos oceanos já atinge até mar profundo
A vida em números: Unicamp celebra legado e avanços da biomatemática

Os professores colocados lado a lado para uma foto no hall de entrada do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (Imecc), da Unicamp, formam uma verdadeira seleção. Juntos, eles transformaram a frieza dos cálculos e tabelas em ações práticas e políticas públicas que orientam governos e salvam vidas pelo Brasil afora. Há 40 anos, inspirados na ideia de “jogar diferente com os números”, eles perceberam que uma improvável parceria entre matemáticos e biólogos daria jogo e, melhor, resultados positivos. Assim, passaram a se dedicar ao time da biomatemática.
À biologia cabe apresentar os fenômenos complexos da vida. A matemática os organiza em padrões mensuráveis e analisáveis. O resultado disso é uma área interdisciplinar que aplica ferramentas, modelos e teorias para estudar, simular e prever fenômenos e sistemas biológicos. O objetivo aqui é traduzir vários aspectos da vida em equações e gráficos, permitindo testar cenários, analisar dinâmicas de populações e compreender a incidência e avanço de doenças, por exemplo.
Em 1980, a ideia de criar um dos primeiros grupos brasileiros dessa vertente de pesquisa surgiu, ainda como possibilidade. A forma de ação foi sendo dada a partir de trabalhos de iniciação científica com alunos da graduação, orientados pelo professor Rodney Bassanezi que, de acordo com uma reportagem jornalística da época, seguiu à risca o objetivo de “derrubar barreiras que sempre tornavam difíceis as interações entre matemáticos e biólogos”.

A partir de 1986, o mesmo Bassanezi, em parceria com os colegas João Frederico Meyer, Laércio Vendite, Laécio Carvalho de Barros, Wilson Castro Ferreira Júnior e Estevão Esmi Laureano – mais recentemente, a equipe ganhou o reforço da professora Jaqueline Godoy Mesquita – formaram o grupo que é considerado referência da biomatemática no país.
Outro impulso para que o trabalho avançasse foi uma série de palestras realizadas na Universidade, em junho de 1989, pelo israelense-estadunidense Lee Segel, professor do Instituto Weizmann, de Israel. Ele consolidou o caminho para que a biomatemática se expandisse na Unicamp. O próprio Segel se autodefinia como um “pregador em busca de seguidores”.
Nesta época, uma das pesquisas desenvolvidas na Universidade observava a dinâmica do crescimento de tumores cancerígenos e sua resistência às drogas quimioterápicas. O trabalho era feito em parceria com o Hospital da Mulher Prof. Dr. José Aristodemo Pinotti – Caism. Tratava-se da continuação de uma pesquisa desenvolvida pelo professor Laércio Vendite, também da Unicamp, em sua tese de doutorado realizada em Trento, na Itália.
Juntamente com um grupo de oncologistas italianos, Vendite desenvolveu um modelo matemático para analisar a resistência adquirida pelas células tumorais após certo tempo de tratamento com quimioterápicos. A partir do tamanho inicial do tumor era possível saber que fração dele passava a ser resistente à droga. Através de simulações sobre velocidade de crescimento do tumor, taxa de mutação e de destruição das células cancerígenas pelo medicamento, o modelo matemático determinava o momento em que o tratamento deixava de fazer efeito e havia a necessidade da troca das drogas utilizadas, otimizando as ações.
A sintonia entre duas áreas, aparentemente, tão distantes chamou a atenção da sociedade ao redor e de outros estudantes naquele final de década. De acordo com reportagem do jornal Folha de S. Paulo, publicada em junho de 1989, dos então 11 mestrandos admitidos pelo Departamento de Matemática Aplicada da Unicamp, oito haviam escolhido a área da biomatemática.
Ao longo dessas quatro décadas, o grupo contribuiu para o desenvolvimento de modelos matemáticos aplicados a problemas reais da sociedade. O impacto da propagação de epidemias, dinâmica populacional, desenvolvimento de medicamentos, controle de pragas agrícolas, poluição ambiental, previsão da eficácia de tratamentos, genética e hereditariedade, além de aplicações em sistemas biológicos e médicos são alguns dos muitos exemplos. Nesse contexto, é interessante destacar que a matemática não serve apenas para “resolver contas”, mas para identificar padrões; fazer previsões; reduzir incertezas e apoiar decisões.
Lógica Fuzzy
Com um olhar um pouco mais apurado sobre o trabalho desenvolvido, é importante mencionar a utilização da chamada Lógica Fuzzy nos levantamentos feitos pela equipe do Imecc. Ela foi apresentada ao mundo em 1965 pelo engenheiro e cientista da computação azerbaijano-americano Lotfi Zadeh, que lecionava na Universidade da Califórnia, em Berkeley (EUA). O professor criou um método que permitia ao computador entender e processar informações com base na linguagem e raciocínio humanos, que não vivem apenas de certezas absolutas. A Lógica Fuzzy permite que a análise de uma máquina possa avaliar e atuar com certos graus de imprecisão, exatamente como o cérebro faria. Estamos falando de algo que, hoje, pode ser aplicado ao funcionamento da Inteligência Artificial.

Em paralelo, para reforçar as infinitas possibilidades da biomatemática, o grupo tem trabalhado em conjunto com a Faculdade de Ciências Médicas (FCM) no diagnóstico de câncer de próstata. “A partir de trabalhos acadêmicos, foi produzido um software para predizer o estadiamento (processo médico que avalia a localização, tamanho e extensão de uma doença no corpo) da doença”, explica o professor Barros.
Outro trabalho diz respeito aos riscos de incêndios florestais, que são calculados a partir de variáveis físicas (altitude, tipologia florestal, presença de estradas e cursos d’água). Tal indicador envolve modelos de Machine Learning e a já mencionada Lógica Fuzzy para que, a partir dos dados reais georreferenciados, seja possível identificar localidades em uma determinada região que possuem uma maior propensão à ocorrência dos incêndios florestais, otimizando as tomada de decisão pelo Poder Público.
O professor Estevão Esmi, há uma década no grupo, também utiliza a Lógica Fuzzy em trabalhos em parceria com a FCM, já tendo desenvolvido desde um sistema de auxílio para diagnóstico de endometriose até questões envolvendo UTIs para gestantes de alto risco. “Atualmente, tenho trabalhado na elaboração de um sistema computacional baseado em aprendizagem de máquina que auxilie na elaboração assertivas de laudos de Transtorno do Espectro Autista”, conta ele.
Com tantas vertentes de atuação, o professor Barros menciona que, além da formação de um grande número de pessoas nessa área ao longo de 40 anos da biomatemática, um dos sólidos legados do grupo são os materiais didáticos – livros e uma revista -, que pode ser acessada pelo link: https://www.ime.unicamp.br/~biomat/revistas.htm.
Representatividade
Os anos passaram e novos integrantes surgiram, como a professora Jaqueline Godoy Mesquita, atual presidente da Sociedade Brasileira de Matemática e da Unión Matemática da América Latina e Caribe. Ela é a única mulher do grupo até o momento. “A representatividade é extremamente importante. Recentemente, tivemos a aprovação de mais uma mulher em um concurso na área de Matemática Aplicada, e espero muito que ela venha integrar o grupo, fortalecendo ainda mais essa presença feminina. Embora tenhamos observado avanços importantes, ainda existe uma sub-representação significativa. A presença de mulheres em espaços de pesquisa, liderança e tomada de decisão é fundamental porque gera identificação e inspira novas gerações”, comenta ela. “A biomatemática também pode, e deve, ser um espaço de representatividade, mostrando às jovens estudantes que elas pertencem a esse universo e podem ocupar qualquer posição que desejarem”, reforça a professora.
Pandemia
Jaqueline Mesquita lembra que, durante a pandemia do coronavírus, modelos matemáticos foram aplicados para apoiar decisões relacionadas a quarentenas, prever ondas de contágio e entender a dinâmica da propagação da covid. “Mas a biomatemática vai muito além da área da Saúde. Hoje, diante de desafios como as mudanças climáticas e o aquecimento global, ela também pode ser uma grande aliada para modelar fenômenos ambientais, estudar impactos em ecossistemas, prever cenários futuros e contribuir para soluções sustentáveis. É uma área que está diretamente conectada à melhoria da qualidade de vida e ao enfrentamento de problemas que afetam toda a sociedade”, aponta.
Futuro
De acordo com o professor Laércio Vendite, a biomatemática evoluiu de maneira muito significativa nas últimas quatro décadas graças também à tecnologia. “No início, muitos estudos trabalhavam com modelos mais teóricos e com capacidade computacional bastante limitada. Hoje, temos acesso a grandes volumes de dados, computadores muito mais potentes e ferramentas capazes de analisar sistemas biológicos extremamente complexos em tempo real”, explica ele. “Essa evolução aproximou ainda mais a biomatemática de áreas como medicina, genética, epidemiologia e neurociência, ampliando suas aplicações práticas na sociedade”, explica.

O colega Laécio de Barros acredita que o legado da biomatemática é bastante animador. “Assim como diversas áreas da Matemática Aplicada, acreditamos que a nossa também irá, naturalmente, lançar mão de novas tecnologias na busca de tratar temas ligados à vida de modo geral; podendo ir da psicologia às questões de conforto ambiental. Falo desses dois porque já fomos consultados por especialistas das áreas, sobre a possibilidade de auxiliá-los de alguma forma”, conta.
Nesse contexto, a Inteligência Artificial passou a ter um papel cada vez mais importante. A IA permite, por exemplo, processar quantidades consideráveis de dados biológicos e médicos, identificar padrões difíceis de serem percebidos por métodos tradicionais e tornar os modelos biomatemáticos mais precisos e rápidos. “Atualmente, biomatemática e Inteligência Artificial caminham de forma bastante integrada em diversas pesquisas, especialmente em áreas como diagnóstico médico, previsão de epidemias, medicina personalizada e desenvolvimento de medicamentos”, detalha Vendite.
Ainda segundo ele, mais do que substituir os modelos matemáticos clássicos, a IA surge como uma ferramenta que amplia a capacidade de análise e abre novas possibilidades para a pesquisa científica. A tendência é que a biomatemática tenha um papel cada vez mais estratégico no futuro, principalmente em áreas que exigem previsão, análise de grandes volumes de dados e tomada de decisões rápidas.
Medicina personalizada
Na Saúde, por exemplo, a expectativa é avançar na chamada “medicina personalizada”, em que modelos matemáticos poderão ajudar a indicar tratamentos mais adequados para cada paciente, considerando características genéticas e clínicas específicas.
Também há um grande potencial em áreas como mudanças climáticas, preservação ambiental, agricultura sustentável e estudo do envelhecimento populacional.
“No fundo, a biomatemática tende a se consolidar como uma ponte entre os dados e as decisões. Em um mundo cada vez mais complexo, ela oferece ferramentas para transformar informações dispersas em conhecimento útil para a ciência e para a sociedade”, aponta Vendite.
Recentemente, o Imecc recebeu um evento científico na área de biomatemática reunindo pesquisadores de diversas partes do mundo, como Bulgária, Canadá, Chile, Estados Unidos, Espanha, Índia, Itália, Polônia, Portugal, República Tcheca e Turquia. “Isso demonstra não apenas a qualidade científica desenvolvida aqui, mas também a capacidade da Unicamp de promover conexões internacionais e fortalecer colaborações em escala global”, atesta a professora Jaqueline Mesquita, deixando claro que ela e seus companheiros de time continuam avançando no campo da Ciência, e rápido.
Europa é o ‘berço’
A Europa é o berço da disciplina, mas ela ganhou o formato que conhecemos hoje na década de 1920, com o desenvolvimento independente das equações de predação pelo biofísico nascido na Ucrânia, Alfred James Lotka, e pelo matemático italiano Vito Volterra. Já como disciplina acadêmica formal, a primeira pós-graduação em biomatemática foi iniciada em 1947, nos Estados Unidos, na Universidade de Chicago, pelo biofísico russo Nicolas Rashevsky.
Conferência
Uma conferência realizada na segunda quinzena de maio no Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (Imecc) celebrou Martin Bohner, matemático de reconhecimento internacional e professor da Missouri University of Science and Technology. Bohner é amplamente conhecido por seu papel pioneiro no desenvolvimento das equações dinâmicas em escalas temporais, teoria que unifica equações diferenciais e de diferenças e impactou pesquisas em diversas áreas do conhecimento.
Autor de mais de 350 artigos e sete livros, Bohner também exerceu importante liderança acadêmica como editor de periódicos científicos e presidente da International Society of Difference Equations. Esta conferência celebrou seus 60 anos e homenageou uma carreira marcada pela excelência científica, colaboração e profunda contribuição à comunidade matemática internacional.
Aplicações da Matemática
- Epidemiologia: uso de modelos matemáticos para prever a propagação de doenças infecciosas e planejar estratégias de vacinação ou contenção;
- Ecologia: análise de interações entre espécies, dinâmica de crescimento populacional e preservação de espécies ameaçadas;
- Genética e Evolução: estudo de mutações, frequência de genes em populações ao longo do tempo e heredogramas utilizando probabilidade e estatística;
- Biomedicina e Farmacologia: simulações de como medicamentos se espalham no organismo e cálculo da dosagem ideal para tratamentos;
- Fisiologia: modelagem matemática do funcionamento de órgãos específicos, como a forma que o sangue flui no sistema circulatório ou os impulsos elétricos no coração.
Fonte: Imecc
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Morre o filósofo Edgar Morin, formulador da teoria da complexidade

O filósofo e sociólogo francês Edgar Morin, um dos mais influentes intelectuais do século 20 e formulador da teoria da complexidade, morreu aos 104 anos, na sexta-feira (29), em Paris. Autor de uma obra que atravessa áreas como filosofia, sociologia, educação, ciência e política, Morin deixou uma contribuição decisiva para a compreensão dos desafios contemporâneos.
O pensador defendia a reabilitação do princípio da “desordem” na ciência e questionava a crença nas verdades absolutas. Em uma de suas reflexões mais conhecidas, escreveu que “toda vida é um navegar num oceano de incertezas, atravessando algumas ilhas ou arquipélagos de certezas”, frase que sintetiza uma das ideias centrais de seu pensamento e a busca por compreender a complexidade da experiência humana.
Nascido em Paris, em 8 de julho de 1921, como Edgar Nahoum, Morin participou da Resistência Francesa durante a ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial. Foi nesse período que adotou o sobrenome pelo qual se tornaria conhecido internacionalmente. Formado em Direito, História e Geografia pela Sorbonne, sua obra mais conhecida é O Método, série de seis volumes publicada entre 1977 e 2004, na qual desenvolve a teoria da complexidade.
Segundo Morin, os fenômenos não podem ser compreendidos de forma isolada, pois estão inseridos em sistemas interligados e sujeitos a relações de dependência, incerteza e transformação permanente. Ao longo de mais de sete décadas de produção intelectual, publicou cerca de 80 livros. Entre os mais conhecidos estão Ciência com consciência, Terra-Pátria e Os sete saberes necessários à educação do futuro, obra elaborada a convite da Unesco e amplamente difundida em debates educacionais em diversos países.
Para Morin, o primeiro desafio do conhecimento era admitir suas próprias limitações. “O conhecimento não se constrói sem o risco de erro. Mas o erro desempenha papel positivo quando é reconhecido, analisado e superado”, escreveu.
Defensor de uma ciência aberta ao diálogo entre diferentes áreas do conhecimento, Morin acreditava que os grandes problemas da humanidade não poderiam ser resolvidos por disciplinas isoladas. Sua proposta de um pensamento capaz de conectar saberes transformou-se em referência para pesquisadores, educadores e formuladores de políticas públicas em todo o mundo.
Mesmo após completar 100 anos, Morin manteve intensa atividade intelectual. Em suas últimas entrevistas, insistia na necessidade de uma consciência planetária capaz de enfrentar desafios globais como as mudanças climáticas, as desigualdades sociais e as crises democráticas. Também alertava para a ilusão de um progresso inevitável, lembrando que “nenhuma conquista histórica é irreversível”.
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Na Unicamp, Banco Mundial defende reabilitação do papel do Estado na política industrial

O Banco Mundial, que defendeu durante décadas políticas de liberalização econômica e maior protagonismo do mercado, reabilitou a política industrial em seu relatório “Industrial Policy for Development: Approaches in the 21st Century” [Política Industrial para o Desenvolvimento: Abordagens no Século 21], divulgado em março. Essa mudança de posicionamento, em meio a um cenário de desaceleração econômica, avanço do protecionismo e disputa tecnológica global, esteve no centro dos debates do seminário “Política Industrial para o Desenvolvimento: O Banco Mundial em Transformação”, realizado nesta sexta-feira (29 de maio), no Instituto de Economia (IE) da Unicamp.
O evento reuniu Marcos Chiliatto, diretor executivo do Banco Mundial no Brasil, egresso do IE, e os coautores do relatório, a portuguesa Ana Margarida Fernandes e o norte-americano Tristan Reed.
Chiliatto destacou que a mudança de posição da instituição representa uma revisão importante de um modelo predominante desde os anos 1990, no contexto do chamado Consenso de Washington. “Naquela época, o Banco Mundial tinha uma posição muito reticente com relação à política industrial. Existe um documento clássico publicado em 1993, chamado “O Milagre do Leste Asiático”. A própria ideia de ‘milagre’ já carregava uma interpretação de que o sucesso asiático não vinha da política pública, mas de condições muito específicas, difíceis de reproduzir”, explica.
Segundo ele, a leitura predominante naquele período era de que experiências de industrialização conduzidas pelo Estado, como as observadas no Leste Asiático, tinham baixa possibilidade de replicação em outros países e alto risco de fracasso. “O banco recomendava que os países não seguissem esse caminho, defendendo que eles deveriam se concentrar em estabilidade macroeconômica e deixar que os mercados produzissem o desenvolvimento”, completa.
Chiliatto destaca que essa posição sempre encontrou resistência em instituições como a Unicamp. “O Instituto de Economia sempre teve uma tradição crítica. Por isso, fiz questão de apresentar o relatório na Unicamp, que teve professores que ajudaram a construir uma perspectiva própria latino-americana sobre desenvolvimento”, afirma.
No relatório, o diagnóstico é de que a visão anterior “envelheceu mal como um disquete”. “[O novo relatório é] basicamente um reconhecimento de que as evidências acumuladas ao longo dos últimos 30 anos mostram que vários países — ricos e em desenvolvimento — fizeram política industrial com resultados importantes.”

Segundo ele, o estudo mapeou experiências em mais de 180 países e concluiu que a política industrial tem maior possibilidade de ser replicada do que se imaginava nos anos 1990. “Os professores da Unicamp certamente dirão que essas evidências já existiam antes. Mas o importante é que agora o Banco Mundial reconhece isso institucionalmente.”
Chiliatto comparou o papel da instituição ao de um banco de desenvolvimento. “O Banco Mundial funciona, em certa medida, como um BNDES global. Ele oferece financiamento de longo prazo para infraestrutura, energia e políticas públicas, mas também leva conhecimento e experiências acumuladas em diferentes países.” Como exemplo, cita a parceria da instituição na criação do Bolsa Família. “Quando o presidente Lula lançou o programa, o Banco Mundial participou do desenho da política, da concepção e da construção do Cadastro Único. Depois, essa experiência brasileira foi levada para vários países africanos”, conta.
Segundo o diretor, países emergentes como Brasil, México, Colômbia e Indonésia passaram a defender que o Banco Mundial também pudesse atuar como parceiro em estratégias de política industrial. “Se o banco podia colaborar em políticas sociais, por que não poderia colaborar também em política industrial? Essa demanda foi crescendo ao longo do tempo.” Para Chiliatto, o novo relatório representa justamente essa mudança institucional. “É uma revisão importante. Quando novas evidências mostram que uma posição estava equivocada, é preciso revê-la. Na ciência, é assim que funciona.”
“O relatório recebe críticas tanto de economistas heterodoxos quanto ortodoxos. Muitos dizem que essa mudança ainda é tímida, e essa crítica faz sentido. O banco continua insistindo na importância de fundamentos como educação, infraestrutura, estabilidade macroeconômica e responsabilidade fiscal”, destaca. Ainda assim, Chiliatto considera que a mudança já representa um passo significativo. “O fato de o Banco Mundial reconhecer explicitamente que políticas industriais podem funcionar e serem replicáveis já é uma transformação institucional importante.”
Atento ao tema
A economista Ana Margarida Fernandes, uma das coautoras, destaca a relevância de debater o relatório, que levou cerca de um ano e meio para ser elaborado. “É importante mostrar que o Banco Mundial está atento. Foi um processo longo, de muita análise de dados, estudos e evidências.”
Segundo ela, o objetivo foi reunir e analisar sucessos e fracassos de políticas industriais em diferentes países nas últimas décadas. “Escrevemos este relatório para poder informar melhor os países emergentes sobre o que pode funcionar, o que pode correr bem e quais são as possibilidades.”
O Brasil contou com uma série de apresentações do relatório, no Ministério da Fazenda, em Brasília, em uma conferência sobre política industrial no Rio de Janeiro, e na Fundação Getulio Vargas (FGV), em São Paulo, antes do seminário na Unicamp. “Houve perguntas difíceis, algumas críticas também, mas estamos satisfeitos com o fato do Banco Mundial tratar deste tema”, afirmou.
O economista norte-americano Tristan Reed, coautor do relatório, lembrou que um dos principais objetivos do estudo foi entender, a partir de evidências recentes, quais instrumentos de política industrial realmente funcionam. Segundo ele, durante muito tempo o debate ficou excessivamente concentrado em subsídios ou proteção tarifária, quando, na prática, políticas industriais envolvem um conjunto muito mais amplo de instrumentos, como qualificação profissional, infraestrutura, financiamento, apoio à inovação, universidades e instituições de pesquisa. “Muitas vezes, os maiores impactos não vêm apenas de incentivos fiscais, mas da construção de capacidades produtivas e tecnológicas ao longo do tempo”, afirma.
O economista observou ainda que políticas industriais eficazes exigem coordenação institucional e continuidade. Segundo ele, países que conseguiram avançar tecnologicamente combinaram apoio estatal com metas claras de desempenho, competição entre empresas e mecanismos de avaliação. “O importante não é simplesmente proteger setores, mas criar condições para que empresas aprendam, inovem e se tornem competitivas”, completa.


Reed aponta que “transformações estruturais levam tempo. Construir capacidades tecnológicas, formar mão de obra qualificada e consolidar novos setores produtivos não acontece rapidamente.”
Segundo o economista, o relatório procura justamente oferecer um conjunto de evidências práticas para orientar governos na formulação dessas políticas. “A questão hoje não é mais se os países devem ou não fazer política industrial, mas como desenhar políticas mais eficazes, adaptadas às capacidades e aos objetivos de cada economia”, concluiu.
Orientações práticas
O relatório reabilita a política industrial ao analisar o crescimento global mais lento, a transformação do mercado de trabalho, o avanço da automação, o aumento do protecionismo e a disputa tecnológica entre países. O texto traz orientações práticas, baseadas em evidências de mais de 60 economias, e identifica abordagens específicas para que os governos utilizem a política industrial com diferentes objetivos: gerar divisas, criar empregos, reduzir a poluição ou fortalecer a segurança e a resiliência.
O documento identifica 15 instrumentos de política industrial, organizados em três grupos: insumos públicos direcionados, incentivos de mercado e intervenções macroeconômicas. Entre eles estão parques industriais, programas de qualificação profissional, apoio à exportação, subsídios empresariais, exigências de conteúdo local, compras governamentais e incentivos à inovação.
Os dados apresentados mostram que, entre as economias de renda média-alta, os subsídios totais às empresas representam atualmente uma média de 4,2% do Produto Interno Bruto (PIB), o valor mais alto já registrado. Em outras palavras, a política industrial nunca desapareceu: os governos a praticaram enquanto o Banco Mundial pregava o contrário.

Um dos pontos centrais do relatório é a crítica ao uso indiscriminado de medidas protecionistas. Em um dos trechos mais enfáticos, os autores afirmam que muitos governos ainda utilizam “marretas” quando deveriam trabalhar com “bisturis”, ao comparar tarifas amplas e subsídios generalizados com instrumentos mais precisos e direcionados. O texto defende ainda que políticas industriais tenham prazo definido e sejam constantemente avaliadas. A recomendação é de que governos retirem incentivos quando empresas não atingirem metas de desempenho, inovação e competitividade.
Ao final, o documento sintetiza a nova posição do Banco Mundial em uma formulação pragmática: a questão já não é mais decidir se governos devem ou não fazer política industrial, mas descobrir quais instrumentos funcionam em cada contexto e como evitar desperdício de recursos públicos.
O relatório está disponível online
Acúmulo histórico de reflexão sobre o tema
Na abertura, o diretor do IE, Célio Hiratuka, lembrou a tradição do Instituto nos estudos sobre o tema. “[Estou] feliz pela presença de especialistas”, destacou. O professor do IE André Biancarelli, organizador do seminário, ressaltou que a realização do debate na Unicamp carrega um peso simbólico. “Aqui existe um acúmulo histórico de reflexão sobre desenvolvimento, indústria e papel do Estado. A Unicamp sempre teve economistas que defendem políticas industriais mesmo quando isso virou quase um palavrão nos anos 1990”, diz.
Professores do IE ligados ao debate desenvolvimentista brasileiro, como Mariano Laplane e Renato Garcia, também participaram do evento. Laplane apontou que o relatório representa uma inflexão importante e reconhece algo que diversos pesquisadores do campo do desenvolvimento já vinham apontando há décadas: mercados, sozinhos, não conseguem produzir as transformações estruturais necessárias para reduzir desigualdades e ampliar capacidades produtivas.


“Há hoje um reconhecimento maior de que políticas públicas, coordenação estatal e instituições têm papel decisivo nos processos de desenvolvimento”, afirmou. Laplane também chamou atenção para os desafios enfrentados por países em desenvolvimento diante das novas disputas tecnológicas e da reorganização da economia mundial. “Construir capacidades produtivas exige tempo, coordenação institucional e investimentos contínuos em ciência, tecnologia e educação”, afirmou.
O professor do IE Renato Garcia ressaltou que o debate sobre o tema faz parte de uma trajetória histórica. Ele foi aluno do economista Wilson Suzigan, referência nacional nos estudos sobre desenvolvimento industrial, falecido em abril, na disciplina Política Industrial e Desenvolvimento, hoje ministrada por ele no Instituto de Economia. “Foi ali que aprendi que política industrial é, antes de tudo, uma política de desenvolvimento”, diz.


“O professor Suzigan sempre defendia que os países ricos criticavam a política industrial no discurso, mas continuavam utilizando instrumentos de apoio tecnológico, científico e produtivo”, lembra. Garcia observa que o novo relatório reconhece que políticas industriais podem impulsionar inovação, produtividade e geração de empregos, desde que sejam usadas com objetivos claros, capacidade técnica e mecanismos de avaliação.
Garcia destaca que o novo relatório incorpora parte desse debate acumulado ao reconhecer que não existe um modelo único. “O relatório reconhece algo que aqui sempre foi debatido: desenvolvimento não acontece sem estratégia, instituições e política pública”, completa.
FOTO DE CAPA

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Unicamp aprova criação do Centro de Pesquisas para Sustentabilidade

Em sessão realizada no dia 26 de maio, o Conselho Universitário da Unicamp (Consu) aprovou por unanimidade a criação do Centro de Pesquisas para Sustentabilidade (CPqS). A nova estrutura será resultado da fusão entre o Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação (NEPA) e o Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam), três unidades com trajetória consolidada em áreas complementares.
O novo centro nasce com a missão de reunir competências já consolidadas na Universidade para produzir conhecimento e apoiar respostas aos desafios contemporâneos em diferentes escalas, do local ao global.
“Apresentamos essa proposta ao conselho por entendermos que é um projeto maduro que trará ganhos importantes à Universidade. A aprovação, em sessão histórica, representa não apenas uma reorganização administrativa, mas a consolidação de uma estratégia baseada na integração de competências e na produção de conhecimento orientado a problemas complexos”, declara Raluca Savu, coordenadora da Coordenadoria de Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa da Unicamp (Cocen).
A partir da publicação da deliberação, a Cocen terá prazo máximo de 18 meses para conduzir a implantação do CPqS e organizar as etapas necessárias para o início de seu funcionamento.

Foto: Lúcio Camargo

Foto: Lúcio Camargo
“A sustentabilidade do planeta será pauta no mundo por, pelo menos, algumas décadas. Este centro vai monitorar e projetar cenários em diferentes escalas espaciais e temporais, buscando soluções inovadoras e inclusivas para o enfrentamento das crises planetárias”, complementa Savu.
O novo centro será organizado em quatro grandes áreas de pesquisa: Clima, biodiversidade e sistemas socioecológicos; Agricultura, produção, sistemas alimentares e bem-estar; Governança, políticas públicas e transformações sociais; e Cultura e comunicação para a sustentabilidade.
A partir desses eixos, reunirá estudos sobre diferentes temas, incluindo modelagem climática e de ecossistemas, impactos do clima na agricultura, sensoriamento remoto, segurança alimentar e nutricional, desenvolvimento de produtos alimentícios, educação ambiental, memória, patrimônio, direitos humanos e arqueologia pública.
Na avaliação das coordenações das três unidades de pesquisa envolvidas, a integração deve ampliar a capacidade da Unicamp de produzir conhecimento interdisciplinar e aproximar ainda mais a pesquisa da sociedade.
Até a posse da primeira coordenação do novo centro, Cepagri, NEPA e Nepam seguirão em funcionamento. A extinção formal das três unidades será realizada somente após essa etapa.
A proposta prevê um prédio próprio em terreno já reservado ao Cepagri, próximo ao Museu Exploratório de Ciências.
Construção coletiva
“Está posto pela ciência que a sustentabilidade é uma questão de sistemas complexos cujas partes se retroalimentam”, declara Cristiana Seixas, coordenadora adjunta do Nepam.
Seixas conta que a criação do CPqS resultou de uma articulação “de baixo para cima”, construída a partir do diálogo entre os envolvidos. “Foi muito trabalhoso e levou quase quatro anos desde que surgiu a ideia até este dia histórico de aprovação no Consu”, afirma.



Essa articulação ganhou impulso entre 2022 e 2023, no contexto do Edital Convergências Cocen, iniciativa idealizada por Ana Carolina de Moura Delfim Maciel, então coordenadora do órgão, para estimular projetos conjuntos entre Centros e Núcleos Interdisciplinares da Unicamp em torno de grandes desafios contemporâneos.
Embora o edital previsse inicialmente convergências em torno de projetos específicos de pesquisa, as dinâmicas revelaram afinidades mais amplas entre Cepagri e Nepam, abrindo caminho para uma aproximação acadêmica e institucional mais estrutural. Em 2025, o NEPA entrou formalmente na articulação.
O processo envolveu 25 reuniões com pesquisadores e funcionários das três unidades. Versões preliminares da proposta também foram discutidas com a coordenação e o corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Sociedade, atualmente sediado no Nepam e vinculado ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH).
“Sem dúvida, as três unidades já eram muito conceituadas, mas entendemos que o CPqS será maior que a soma dessas unidades e potencializará ainda mais pesquisa, formação de recursos humanos e extensão universitária”, complementa Seixas.

O coordenador do Cepagri, David Lapola, observa que o CPqS formaliza uma aproximação já existente na prática. “O novo Centro nasce da convergência entre trajetórias que já dialogavam há décadas dentro da Universidade.”
Segundo Lapola, a criação do Centro responde a uma demanda própria da ciência contemporânea. “Do ponto de vista científico, faz muito sentido aumentar o nível de interdisciplinaridade das pesquisas. A sustentabilidade exige isso. Basta olhar para os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas), que são profundamente interdisciplinares.”
Já Alline Tribst, coordenadora do NEPA, destaca que o Núcleo leva ao CPqS uma trajetória de mais de 40 anos em pesquisas sobre alimentação, abrangendo temas como segurança alimentar, desenvolvimento de processos e políticas públicas.
Para Tribst, a aproximação com as áreas de clima e meio ambiente abre novas possibilidades para pesquisas sistêmicas sobre sistemas alimentares sustentáveis, adaptação às mudanças climáticas e soluções voltadas à mitigação dos impactos das crises planetárias.
“A expectativa das equipes de pesquisa e dos servidores em relação à fusão é positiva, especialmente pela perspectiva de maior integração entre áreas complementares, de fortalecimento institucional, de ampliação de projetos e de criação de uma estrutura mais moderna e colaborativa”, relata Tribst.
Do Convergências ao CPqS
O Projeto Convergências foi inspirado em uma missão acadêmica realizada por Maciel em Paris, em 2022, no Institut Convergences Migrations, sediado no Campus Condorcet.
“Voltei profundamente impactada por aquele modelo organizacional, que reúne centenas de pesquisadores de diferentes instituições e áreas do conhecimento em torno de temas complexos e estratégicos para a sociedade”, relata.
A experiência motivou um mapeamento das possíveis convergências temáticas entre os Centros e Núcleos Interdisciplinares da Cocen, tomando como referência os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
“O resultado foi surpreendente: identificamos inúmeras possibilidades de investigação conjunta que ainda eram pouco exploradas”, relembra Maciel.
A partir desse diagnóstico, a Cocen promoveu workshops e dinâmicas com pesquisadores, docentes e dirigentes dos Centros e Núcleos, movimento que levou ao primeiro Edital Convergências.
“Isso posiciona a Unicamp num patamar de excelência, alinhando-se às mais bem-sucedidas experiências internacionais. Essa iniciativa vai impactar a sociedade mediante a condução de pesquisas orientadas pelos grandes desafios contemporâneos que, seguramente, vão oferecer respostas transformadoras”, avalia Maciel.
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CEM transforma dados urbanos em ferramenta para pesquisas e políticas públicas
Unicamp lidera ranking de depósito de patentes entre universidades de SP

Pelo terceiro ano consecutivo, a Unicamp lidera o ranking de maiores depositantes de pedidos de patente entre as universidades paulistas, segundo a classificação divulgada pelo Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (Inpi), nesta semana. Na lista geral do Ranking de Depositantes de 2025, a Unicamp avançou uma posição em relação ao ano anterior, ocupando o quinto lugar no país, entre empresas privadas e outras instituições públicas de ensino e pesquisa.
A Universidade, por meio de sua Agência de Inovação Inova Unicamp, registrou 73 dos 1.957 depósitos de patente de invenção que compõem o ranking. O número manteve a curva de crescimento que levou a um aumento de mais de 80% no acumulado de três anos. No topo da lista também aparecem a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), com 94 e 84 depósitos de pedido de patente, respectivamente, além da Universidade de São Paulo, com 65 pedidos.
“A permanência da Unicamp entre os destaques do ranking do Inpi reflete o amadurecimento de ações estratégicas contínuas da Inova”, disse Renato Lopes, diretor-executivo da Inova Unicamp.
“Esse crescimento expressivo no acumulado de três anos demonstra que nossa proximidade com docentes, pesquisadores e alunos tem gerado resultados sólidos e sustentáveis”, acrescentou.
Ecossistema
O ranking do Inpi, baseado nos resultados de 2025, apontam o destaque do ecossistema universitário paulista, que conta com instituições como a Unicamp, a USP, a Universidade Estadual Paulista (Unesp) e a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Juntas, elas somaram 189 depósitos, com quatro pedidos em codepósito entre elas.
O impacto positivo das universidades e dos institutos de ciência e tecnologia na proteção da propriedade intelectual e inovação se traduz em números expressivos na lista do Inpi, visto que o setor de Educação responde por 20,9% dos participantes do ranking.
Um dos trunfos d a Inova Unicamp para manter presença e relevância no cenário de proteção da propriedade intelectual são as formas de conexão com a comunidade interna.
Em 2025, a Agência lançou uma disciplina de propriedade intelectual e inovação para a pós-graduação, com objetivo de capacitar os alunos para o uso estratégico do sistema patentário e ampliar o potencial de transformação das pesquisas acadêmicas em soluções que possam ser aplicadas na sociedade.
Além disso, oferece as oficinas Busca de Anterioridade em Bases de Patentes e Mentorias Individuais em Propriedade Intelectual, que ajudam alunos, docentes e pesquisadores a verificar se seus resultados de pesquisa são passíveis de algum tipo de proteção (patente, registro de programa de computador, cultivar etc.).
No último ano, a Agência também ampliou as atividades com a implementação do InovaLab, um programa de aproximação com laboratórios, unidades, centros e núcleos de pesquisa da Unicamp. Seu objetivo principal é fomentar a inovação, identificar oportunidades de proteção e transferência de tecnologias e conectar a comunidade acadêmica a oportunidades de conexão com empresas interessadas em parcerias de pesquisa.
“O resultado visto no ranking do Inpi, com a Unicamp entre os maiores depositantes de patentes do país, é resultado de uma atuação contínua voltada à consolidação da cultura de proteção da propriedade intelectual no cotidiano da comunidade acadêmica”, avalia a supervisora de propriedade intelectual na Inova, Elisama Campelo.
A Inova Unicamp foi criada em 2003 com o objetivo de identificar oportunidades e promover atividades que estimulam a inovação e o empreendedorismo, ampliando o impacto do ensino, da pesquisa e da extensão em favor do desenvolvimento socioeconômico sustentado.
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Canabidiol ganha espaço no esporte como aliado na recuperação muscular
Casa de Sérgio Buarque de Holanda resgata universo íntimo do historiador

Na Rua Buri, número 35, no bairro do Pacaembu, em São Paulo, um casarão em estilo normando evoca memória, história e resistência. Foi ali que o historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) viveu entre 1957 e 1982 e escreveu parte de sua obra. A casa volta a ocupar simbolicamente seu lugar de encontro intelectual, nesta sexta-feira (29 de maio), às 14h, com a abertura do “Ciclo Buarqueano”, cujo primeiro evento, “A casa do historiador: Sérgio Buarque na Rua Buri”, reúne exposição e palestras.
A iniciativa, realizada no contexto das comemorações dos 60 anos da Unicamp, reconstrói, entre livros, fotografias, documentos e lembranças, o ambiente do autor de Raízes do Brasil (1936), cujo acervo está, desde 1983, preservado na Universidade, dividido entre o Arquivo Central do Sistema de Arquivos da Unicamp (Siarq/Unicamp) e a Biblioteca de Obras Raras (Bora).
O evento busca ampliar as ações culturais e acadêmicas desenvolvidas na residência, que atualmente sedia atividades formativas da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. “É o primeiro passo de uma articulação entre a Universidade, o Arquivo Público do Estado de São Paulo e a Secretaria Municipal para ampliar a oferta de ações culturais e acadêmicas no local”, destaca o curador da exposição, Thiago Nicodemo, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e diretor do Arquivo Público do Estado de São Paulo.

Nicodemo dedicou cerca de 15 anos ao estudo da obra de Sérgio Buarque e lançou dois livros sobre o historiador, Urdidura do Vivido – Visão do Paraíso e a Obra de Sérgio Buarque de Holanda nos Anos 1950 (Edusp, 2008) e Alegoria Moderna – Crítica Literária e História da Literatura na Obra de Sérgio Buarque de Holanda (Unifesp, 2014), além de Uma introdução à história da historiografia brasileira 1870-1970 (FGV, 2018), que também aborda sua obra.
“O Sérgio sempre foi uma referência intelectual muito forte para mim. Não apenas pela interpretação do Brasil que ele construiu, mas também pela maneira como articulava história, literatura, cultura e vida pública”, diz. “Sempre sonhei em conectar o acervo com a casa de uma forma orgânica, que respeitasse a memória do autor, mas apontasse também para o futuro”, afirma.
A proposta é estabelecer uma “cooperação técnica” para transformar a casa em um espaço permanente de pesquisa, memória e circulação pública de conhecimento. “Essa casa não é apenas um imóvel histórico. Ela concentra experiências intelectuais, políticas e afetivas e ajuda a entender não só a obra, mas o ambiente de sociabilidade intelectual que marcou sua trajetória”, ressalta.

Co-curador da exposição, Luccas Maldonado, doutor em História pela Unicamp, destaca que os arquivos de Sérgio Buarque tiveram papel decisivo na consolidação das humanidades dentro da universidade. Para ele, o projeto envolve ainda a discussão sobre a democratização do acesso. “Não é apenas estudar os arquivos, mas pensar em como utilizá-los e organizá-los.”
Nas primeiras visitas ao local para o projeto, Nicodemo foi acompanhado pelo jornalista e escritor Fernando Morais que, durante sua gestão como secretário estadual de educação, em 1982, foi o primeiro a propor preservar a residência e fazer dela um centro de pesquisas para professores da rede pública. O espaço só foi adquirido formalmente pela Prefeitura de São Paulo em 2007.
A casa de 450 m² ocupa quase todo o terreno da Rua Buri. Há jardins na frente e nos fundos, onde as cinzas do historiador foram depositadas. A residência ficou conhecida pela circulação de artistas, pesquisadores, estudantes, jornalistas e amigos. Entre os frequentadores, estavam Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Antonio Candido, Caio Prado Júnior, Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso e Chico Buarque, um dos sete filhos do casal Sérgio e Maria Amélia.
Há relatos de festas que atravessavam madrugadas, mas a casa também foi espaço de escuta, abrigo e resistência durante a ditadura militar. Com o telefone grampeado, a família criou códigos para avisar sobre prisões e perseguições políticas.
O Ciclo Buarqueano terá continuidade em agosto, quando a historiadora Lilia Schwarcz coordenará uma mesa em celebração aos 90 anos de Raízes do Brasil.
Acervo precioso
O acervo de Sérgio Buarque de Holanda na Unicamp é um dos conjuntos documentais mais importantes da Universidade, com manuscritos, cartas, fotografias e documentos pessoais reunidos no Siarq, e livros, periódicos, prêmios e móveis de sua biblioteca na Bora.
Janaína Santos, coordenadora do Siarq, destaca que a abertura do Ciclo Buarqueano “demonstra como os arquivos e as instituições de pesquisa e de educação podem se articular”. Para ela, a parceria entre a Unicamp, o Arquivo Público do Estado e a Secretaria Municipal de Educação pode gerar inúmeras possibilidades de cooperação.
“Exposições, atividades de extensão, visitas mediadas, ações pedagógicas, seminários, projetos de pesquisa e iniciativas voltadas à formação de estudantes e professores e à aproximação de públicos mais amplos dos arquivos e da produção de conhecimento, por exemplo”, afirma.


Santos destaca que o Siarq, em conjunto com a Bora, é central nesse processo. “A Unicamp abriga um patrimônio de enorme valor histórico, intelectual e cultural, que vem sendo preservado, organizado e disponibilizado à pesquisa ao longo dos anos. Nesse sentido, o Siarq e a Bora contribuem não apenas como guardiões desse legado, mas também como agentes ativos em sua difusão”, completa.
A coordenadora da Bora, Danielle Thiago Ferreira, lembra que a chegada da coleção de Sérgio Buarque de Holanda à Unicamp contribuiu para a criação e a consolidação de estruturas voltadas à preservação de coleções especiais, tanto na Bora quanto no Siarq.

Para Ferreira, participar da ocupação simbólica da casa da Rua Buri representa também uma forma de devolver ao público a memória do espaço. “Queremos deixar esse legado. Não apenas a memória do historiador, mas também da própria casa e do que ela significou”, afirma. Para a exposição, livros com anotações do historiador e imagens da antiga biblioteca do intelectual vão recriar parte do ambiente original do casarão.
A coordenadora da Bora destaca ainda que a coleção de Sérgio Buarque permanece entre as mais procuradas por pesquisadores. “Muitas obras têm dedicatórias, grifos e anotações feitas por ele. Isso é muito importante para quem pesquisa, porque permite acompanhar como ele lia e dialogava com os textos”, explica.
No Siarq, parte dessa memória é organizada em fichários, que também serão apresentados no evento. A supervisora técnica Telma Murari lembra que o acervo, inicialmente incorporado à biblioteca da Unicamp, passou gradualmente para o Arquivo, ajudando a fortalecer a estrutura dedicada à preservação de arquivos pessoais e institucionais. “Quando começou o trabalho de difusão dos arquivos, a Universidade passou a receber muitos outros acervos importantes. Isso ajudou a fortalecer o órgão que existe hoje”, afirma.
PROGRAMAÇÃO
14h30: Abertura do Ciclo Buarqueano, com Thiago Nicodemo
15h: 40 anos do acervo de Sérgio Buarque de Holanda na Unicamp: balanço e perspectivas – Danielle Thiago Ferreira e Janaína Andiara dos Santos
15h30: Acervos em disputa: uma análise da memória buarqueana – Luccas Maldonado e Thiago Nicodemo. Mediação: Leopoldo Waizbort
Quando a Rua Buri virou cinema
Antes de voltar a receber visitantes com o evento “A casa do historiador: Sérgio Buarque na rua Buri”, o casarão do Pacaembu foi revisitado pelo cinema. Em 2002, o diretor Nelson Pereira dos Santos (1928-2018), de filmes como Vidas Secas e Memórias do Cárcere, lançou Raízes do Brasil, cinebiografia dedicada ao historiador. O filme transformou a residência da Rua Buri em uma espécie de território afetivo da história intelectual brasileira.

Parte das filmagens foi realizada na própria casa da família e parte na Unicamp. O documentário mistura imagens históricas do Brasil, fotografias da família, cenas do cotidiano da casa e leituras de trechos de Raízes do Brasil. Em uma das cenas, Sérgio Buarque surge caminhando pela casa, em um de seus raros registros em vídeo. O filme também recupera a atmosfera de encontros que marcou o endereço durante décadas como um espaço frequentado por intelectuais, músicos, estudantes e jornalistas, com conversas sobre literatura e política que atravessavam a madrugada.
Ao mesmo tempo em que revisita a trajetória intelectual do autor, o filme constrói um retrato íntimo de Sérgio Buarque: o pai, o avô, o anfitrião cercado de amigos, o homem que atravessou o modernismo, a universidade e os anos da ditadura sem abandonar a crença em um pensamento brasileiro independente.
Os depoimentos ajudam a compor esse retrato. Amigos próximos como Antonio Candido e Paulo Vanzolini aparecem ao lado de filhos e netos do historiador. Em uma das entrevistas mais marcantes, Maria Amélia, companheira de Sérgio Buarque por décadas, relembra episódios da vida familiar com humor e delicadeza. Entre os narradores do documentário está Zeca Buarque, neto do historiador, que cursou História na Unicamp e foi assistente de direção do longa.
Em 2004, o cineasta falou sobre o documentário em entrevista à TV Unicamp. Confira
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Unicamp
- Rede de pesquisadores inicia o mais amplo estudo sobre as condições de trabalho já feito no Brasil
Rede de pesquisadores inicia o mais amplo estudo sobre as condições de trabalho já feito no Brasil

Membros do comitê gestor do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia, Trabalho, Inclusão e Equidade (INCT-Trabalho), órgão ligado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CPNq), deram início ao mais amplo diagnóstico sobre as condições dos trabalhadores já realizado no Brasil. O grupo, que se reuniu no final da semana passada na Unicamp, projeta lançar até 2030 pesquisas, seminários, atividades de interlocução com a sociedade e uma série de publicações, incluindo livros virtuais, artigos e capítulos acadêmicos voltados ao debate sobre inclusão, equidade social, precarização e desvalorização do trabalho.
Dividida em oito eixos temáticos (veja quadro), a iniciativa reúne cerca de 60 pesquisadores brasileiros e 38 estrangeiros, de países da América Latina, Europa e Canadá, todos articulados em torno de uma rede interdisciplinar de estudos. As atividades prometem apresentar um diagnóstico aprofundado da situação atual do trabalho no país, avançar na reflexão teórico-metodológica referente aos estudos desse setor e propor diretrizes para futuras políticas públicas relacionadas ao tema.
Além disso, os integrantes do INCT querem promover mais visibilidade e qualificação do debate público sobre o tema do trabalho e contribuir para seu reposicionamento na agenda nacional. O grupo prevê a implementação de um programa de pesquisa próprio, articulado a uma interlocução ativa com atores sociais estrategicamente posicionados no mundo do trabalho.
Integram o comitê gestor os professores da Unicamp José Dari Krein, do Instituto de Economia (IE), e Andréia Galvão, professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política do IFCH; além deles, participam também Renata Dutra, da Universidade de Brasília (UnB), Adalberto Cardoso, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), José Ricardo Ramalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Maria Aparecida Bridi, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), coordenadora-adjunta do grupo, e Roberto Veras de Oliveira, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), coordenador dos trabalhos.
Avaliação
O projeto parte da avaliação de que o país enfrenta uma crise marcada por mudanças econômicas, sociais, tecnológicas e ambientais que afetam especialmente as classes trabalhadoras. Segundo os pesquisadores, fatores como a financeirização da economia, a reorganização produtiva global e a crise ambiental se somam a problemas históricos brasileiros, como informalidade, desigualdade estrutural e fragilidades institucionais.
“Temos muitos desafios. A reunião nos ajudou a avançar no planejamento das atividades, na divisão do trabalho entre o comitê gestor e os pesquisadores e na definição de mecanismos e critérios para promover a maior integração dos eixos. Almejamos produzir dados novos, quantitativos e qualitativos, por meio de pesquisas sobre as transformações nas relações e condições de trabalho. Isso requer analisar de modo sistemático uma série de fatores que interferem nesse processo”, afirma Andréia Galvão, citando o papel do Estado em seus diferentes níveis, as políticas de desenvolvimento de diferentes governos, o papel do empresariado e a atuação dos sindicatos e movimentos que lutam por direitos sociais e trabalhistas, além das questões tecnológicas, ambientais e demográficas, com recorte de gênero, raça e idade.

“O planejamento das atividades nos ajuda na condução das pesquisas coletivas, na realização do trabalho analítico, mas também a dimensionar nossa capacidade de intervenção no debate público sobre esses temas. Ele visa a realizar pesquisas coletivas no interior de cada um dos eixos, o que requer atribuir tarefas muito precisas a seus participantes, para que todos possam se engajar”, acrescenta ela.
O professor José Dari Krein lembra que o INCT é resultado de uma articulação construída ao longo de mais de uma década e fortalecida a partir da criação da Rede de Estudos e Monitoramento Interdisciplinar da Reconfiguração do Trabalho (Remir Trabalho), formada inicialmente para acompanhar os desdobramentos da reforma trabalhista no Brasil.
“O projeto parte da premissa de que o trabalho continua sendo um elemento estruturador da vida social e que sua centralidade precisa ser reposicionada diante das mudanças econômicas, tecnológicas e culturais das últimas décadas. O diagnóstico desenvolvido pelo grupo considera fatores como o avanço da inteligência artificial, da automação e da internet das coisas, além das transformações provocadas pela globalização, mudanças climáticas e aumento da precarização das relações de trabalho”, comenta Krein. “Esse conjunto de mudanças ampliou a insegurança social e reduziu mecanismos de proteção aos trabalhadores.”
Precarização
O INCT foi criado para analisar as transformações contemporâneas do mundo do trabalho no Brasil e seus impactos sobre a sociedade. Reunindo pesquisadores de diferentes áreas, a iniciativa busca compreender fenômenos como a precarização do trabalho, a flexibilização das relações trabalhistas, os efeitos das novas tecnologias e o aprofundamento das desigualdades sociais. Os oito eixos temáticos que serão trabalhados nos livros virtuais correspondem a situações críticas do mundo do trabalho contemporâneo.
Ações
O INCT adota uma estrutura de governança colegiada e em rede para coordenar suas atividades de pesquisa, formação e interlocução social. A organização foi concebida para integrar diferentes áreas do conhecimento e dar suporte à amplitude temática e territorial do projeto.
OS EIXOS DA PESQUISA
1 – A incapacidade de as políticas de desenvolvimento gerarem melhorias de renda consistentes e duradouras para as classes trabalhadoras
2 – A persistência das desigualdades sociais e sua articulação com os padrões de trabalho
3 – As implicações das transformações demográficas sobre o mundo do trabalho
4 – A tendência de flexibilização do trabalho e a desconstrução dos direitos laborais
5 – Os efeitos das inovações organizacionais e tecnológicas nas dinâmicas ocupacionais e nas relações de trabalho
6 – As implicações da crise ambiental e da transição energética para o trabalho
7 – As fragilidades das lutas das classes trabalhadoras por direitos
8 – As inconsistências das políticas de inclusão laboral e de promoção da equidade
Fonte: INCT-Trabalho

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Projeto sobre máscaras e tradição valoriza saberes populares brasileiros
A troca de saberes com mestres da cultura popular é o ponto de partida do projeto “Máscara, Festa e Cena: Manifestações Tradicionais Brasileiras”, cuja primeira edição teve início na quinta-feira, 21. Em dois dias de evento, oralidade e memória se conectam à formação acadêmica em uma troca de experiências sobre tradições populares.
Realizada pelo Grupo de Pesquisa TeCe:ETC em parceria com o Departamento de Artes Cênicas do Instituto de Artes (IA), a iniciativa propõe ampliar os referenciais trabalhados na graduação. O primeiro convidado é Mestre Aguinaldo Silva, artista popular de Condado (PE), reconhecido por sua atuação nas manifestações culturais Cavalo Marinho e no Maracatu Rural.

A professora responsável pela disciplina de máscaras nas artes cênicas, Erika Velloso Lemos Schwarz, afirma que a proposta surgiu da necessidade de trazer para a Universidade referências que extrapolam os modelos tradicionalmente ensinados nas escolas de teatro. ““Tenho buscado trazer referências latino-americanas e brasileiras para a disciplina. São saberes corporificados, territoriais e ancestrais de pessoas que produzem conhecimento e arte para além de uma formação apenas intelectual ou técnica”, explica.
Para a professora, a presença de mestres populares provoca uma revisão dos referenciais tradicionalmente valorizados na formação artística. Segundo ela, muitas vezes, o ensino das máscaras no teatro é centrado em tradições europeias, enquanto manifestações brasileiras permanecem à margem dos currículos acadêmicos. “Existe uma herança muito forte franco-italiana, e a ideia é ampliar essas referências”, afirma.
De acordo com Schwarz, nesse primeiro encontro, o trabalho desenvolvido com os estudantes envolve tanto a história das máscaras quanto a experiência prática de confecção e utilização desses objetos em cena. “A máscara esconde e revela ao mesmo tempo. Você cobre o rosto, mas revela o corpo, o movimento.”
O objetivo é que o programa tenha continuidade, reunindo mestres de diferentes manifestações populares brasileiras. “É um projeto que está relacionado com preservação da memória, mas também com a valorização do corpo que pesquisa e produz conhecimento”, completa.


A aproximação entre universidade e cultura popular tem mobilizado pesquisas de pós-graduação. A pesquisadora do IA Adrielly Monticelli estuda as máscaras no teatro e destaca que o contato com mestres populares amplia as possibilidades de investigação artística. “Quando falamos de máscara, a referência costuma ser muito eurocentrada. Trazer um mestre da cultura popular para dentro da universidade cria uma troca muito rica. É importante que esses conhecimentos circulem”, afirma. “Uma pessoa sai do seu território para compartilhar aquilo que construiu ao longo da vida. Isso transforma a pesquisa.”
Monticelli conheceu o trabalho de Mestre Aguinaldo durante estudos ligados ao teatro de máscaras em Santo André (SP) e pretende visitar Pernambuco para assistir ao Cavalo Marinho em seu território de origem. “Assistir fora já é potente, mas viver isso no lugar onde pertence é outra experiência.”
Folguedo e fantasia
Na Zona da Mata Norte de Pernambuco, entre os intervalos do trabalho nos canaviais, nasceu o folguedo Cavalo Marinho, que mistura teatro, música, dança, poesia e improviso a partir de 76 personagens, entre humanos, animais e seres fantásticos. Nas apresentações, o enredo é conduzido pela música executada por um conjunto conhecido como “banco”, formado por rabeca, pandeiro, bagé, ganzá e reco-reco.
Mestre Aguinaldo Silva, professor visitante e Notório Saber em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia (BA), é dançarino, tocador e brincador de Cavalo Marinho desde os 12 anos de idade. Seu primeiro papel foi o de “dama”, personagem masculino vestido com roupas femininas. “Foi difícil no começo. Cidade pequena, eu tinha medo da reação dos colegas. Mas fui me acostumando e segui dentro da brincadeira”, contou.
Com o passar dos anos, tornou-se galante, contramestre e depois mestre do grupo fundado pelo pai. Hoje, aos 60 anos, carrega uma tradição familiar que já chega à quinta geração. “A gente precisa passar isso pra não deixar morrer.”
Atualmente, na função de professor universitário, sente orgulho de mostrar sua tradição. “Ver no olhar dos alunos como eles ficam encantados com as histórias do Cavalo Marinho, com a dança, com os movimentos das figuras, é muito importante”, destacou. “É uma vivência muito grande levar isso para dentro da universidade. Os alunos querem saber, perguntam, se interessam. O que for do meu saber, eu passo. Quanto mais a gente compartilha, mais a cultura continua viva.”
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Projeções indicam consolidação de um El Niño nos próximos meses
A estratégia chinesa de soberania alimentar e seus reflexos no Brasil
Grupos pedem urgência na aprovação do fim da escala 6×1

O Brasil viveu um aumento de produtividade do trabalho de 12% entre os anos de 2012 e 2024. Esses ganhos, no entanto, não estão sendo repassados para os trabalhadores. O custo médio da hora trabalhada no país é considerado baixo, contabilizando U$ 6,31 em 2022. No Chile, por exemplo, que já pratica a jornada de 40 horas semanais, esse valor é de U$ 13,35.
Os dados apresentam um cenário favorável e podem cobrir os custos com a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais e o fim da escala 6×1 (6 dias de trabalho e um dia de descanso) — em discussão no Congresso Nacional. Isso é o que defendem os participantes do seminário “Redução da Jornada de Trabalho e Fim da Escala 6×1”, realizado no Instituto de Economia (IE) da Unicamp na última sexta-feira (15).
O evento reuniu pesquisadores, membros do governo federal, do Legislativo, centrais sindicais e movimentos sociais, que reforçaram a urgência da aprovação das mudanças na lei trabalhista.
Conforme o professor José Dari Krein, do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) do IE, o objetivo era apresentar argumentos em diferentes perspectivas — econômicas, sanitárias, sociais, históricas, jurídicas e outras — e promover o diálogo intersetorial. “Há uma série de questões que os setores mais conservadores estão colocando no debate e que podem criar problemas para essa bandeira efetivamente avançar, então é preciso ter certa vigilância sobre o debate”, apontou Krein.
As discussões tiveram como base o “Dossiê sobre Redução da Jornada de Trabalho e Fim da Escala 6×1”, composto por 36 artigos produzidos por 56 pesquisadores. Além das questões econômicas, os artigos mostram que mais de mais de 90% dos trabalhadores que trabalham na escala 6×1 relatam danos à saúde física e mental. Mulheres, pretos e pardos e aqueles que ganham até dois salários mínimos são a maioria dos trabalhadores na escala 6×1, evidenciando desigualdades sociais na disponibilidade de tempo livre fora do trabalho.
Isso impacta, também, a capacidade de qualificação: 40% dos jovens entre 14 e 29 anos disseram ter abandonado os estudos por conta do trabalho. Ademais, 40% dos trabalhadores nessa escala têm apenas o ensino médio completo.
De acordo com Krein, as pesquisas apontam que as mudanças trabalhistas melhorariam índices de saúde, educação, igualdade e democracia e teriam caráter civilizatório. Ouça o áudio.
Baixa produtividade exige investimento tecnológico
Para o secretário-executivo do Ministério do Trabalho e Emprego, Francisco Macena, não se pode jogar a culpa da baixa produtividade das empresas na carga horária dos trabalhadores, mas na baixa digitalização dos empreendimentos. “Se a gente discutir, através de políticas públicas, como aumentar a produtividade fazendo essa transformação tecnológica, podemos reduzir a jornada de trabalho para 36 [horas semanais] com ganhos de produtividade. Isso vale para todos os setores da economia”, disse.
Macena ressaltou, ainda, que os custos provenientes das mudanças são absorvidos pela produtividade, e que as empresas deixam de contabilizar outros custos relevantes. No caso da construção civil, por exemplo, “o custo da burocracia de licenciamento para poder realizar uma obra representa, hoje, 15,3% do custo da obra”.
Ele comentou quais os setores econômicos mais afetados pela possível mudança:
O argumento de que pequenas e médias empresas serão as mais afetadas, pois possuem grande parte da força de trabalho na escala 6×1, não é a realidade do mercado, disse o secretário. “Temos 941 mil CNPJs que trabalham com escala 6×1; e 1,9 milhão de CNPJs de pequenas e médias empresas que já estão na escala 5×2”, exemplificou.
A expectativa do governo, corroborada pelos participantes do seminário, é da aprovação das 40 horas semanais, com pelo menos dois dias de descanso remunerado por semana (escala 5×2), sem período de transição e sem redução salarial.
Porém, Macena admitiu a possibilidade de um prazo maior para a efetivação da redução da jornada de trabalho, como defende parte dos membros do Congresso Nacional. “Se o Senado demorar para votar, e tivermos uma transição de 30, 60 ou 90 dias, a mudança pode ocorrer no ano que vem, mas nós queremos ainda este ano.”
O escalonamento, contudo, diminuiria o impacto positivo das mudanças, defendeu Cássio Calvete, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenador do site Democracia e Mundo do Trabalho em Debate.
Mudança pode gerar novos empregos
Marilane Teixeira, professora e pesquisadora do Cesit/IE, explicou que o processo de adaptação das empresas à nova jornada pode levar à reorganização dos processos de trabalho e ao aumento de contratações, principalmente em setores como comércio e serviços:
Teixeira também mencionou o alto custo dos processos de contratação e demissão, considerando a alta rotatividade do mercado de trabalho atual. “Temos que analisar se compensa manter o custo social dessa jornada [6×1] — que causa adoecimento, alta rotatividade e sobrecarga de trabalho — diante de uma redução da jornada de trabalho que vai criar mais mais qualidade de vida, diminuir a rotatividade, os adoecimentos e os afastamentos do trabalho.”
A pesquisadora também ressaltou os efeitos positivos para os trabalhadores sem carteira assinada. Nesse caso, a jornada de 40 horas semanais funcionará como referência para os acordos de trabalhos informais, além de auxiliar a incluir uma parcela dessa população em novos postos de trabalho formais.
Pejotização ameaça direitos
O coordenador do Fórum das Centrais Sindicais, Clemente Ganz Lúcio, disse haver a expectativa de que o Congresso vote a matéria até junho. Reforçou, ainda, a importância da pressão popular para concretizar essa demanda. Mas alertou para o risco de a oposição tentar descaracterizar as conquistas por meio de emendas:
Lúcio chamou a atenção para a discussão em andamento no Supremo Tribunal Federal (STF), por meio do Tema 1.389, que avalia a licitude da contratação de trabalhador autônomo ou pessoa jurídica (PJ) para a prestação de serviços, a chamada “pejotização”.
“São milhares de trabalhadores que, hoje, trabalham como subordinados a uma empresa como PJ. Se as pessoas se transformarem em PJ, o direito à jornada de trabalho de 40 horas morre, porque uma empresa não tem férias, não tem salário, não tem licença-maternidade… Tudo aquilo que a CLT [Consolidação das Leis do Trabalho] define como direito do trabalhador vai por terra.” O coordenador defendeu que o debate seja levado ao Poder Legislativo para reverter a “pejotização” em curso.
Mobilização popular inseriu demanda na agenda pública
O movimento social Vida Além do Trabalho (VAT) é considerado um dos principais responsáveis por popularizar a demanda pelo fim da escala 6×1, que foi alçada na agenda pública a partir da mobilização dos trabalhadores. “Não precisamos apenas de descanso, precisamos de tempo para viver. A escala 6×1 limita muito a vida”, destacou o coordenador estadual do VAT no Rio de Janeiro, Lucas de Oliveira. Segundo ele, o medo de perder o emprego afasta muitos trabalhadores da luta.
No áudio, Oliveira fala sobre a origem do movimento e ressalta que o VAT expressa um desejo da classe trabalhadora.
Psicólogo e sanitarista, Oliveira coordena os Grupos Terapêuticos Vida Além do Trabalho e afirmou que, através dos relatos dos participantes, observa os efeitos do desgaste mental e físico gerado pelo trabalho. O espaço é aberto a todos os trabalhadores e tem encontros remotos quinzenais. “Trabalhamos conceitos como transtornos mentais relacionados ao trabalho, lesão por esforço repetitivo e doenças ósseas moleculares.”
O seminário foi organizado por Ana Cláudia Moreira Cardoso, Cássio da Silva Calvete, José Dari Krein e Sadi Dal Rosso, com participação do site Democracia e Mundo do Trabalho em Debate, Associação Brasileira de Estudos do Trabalho (Abet), Cesit, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (FCE/UFRGS), Núcleo Nordeste para a constituição da Rede de Estudos e Monitoramento da Reforma Trabalhista (Remir), Grupo de Estudos e Pesquisas para o Trabalho da Universidade de Brasília (GEPT/UnB), FES e Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.
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USP
- Consumo de cigarros eletrônicos, que continuam sendo vendidos como inofensivos, cresce entre jovens
Consumo de cigarros eletrônicos, que continuam sendo vendidos como inofensivos, cresce entre jovens
Oftalmologista transforma recomeços e memórias em literatura

“O inalcançável é sempre azul”, afirma a epígrafe de Clarice Lispector na abertura do livro Azul, da oftalmologista Mônica Alves, professora da Faculdade de Ciências Médicas (FCM). Durante muito tempo, a escrita ocupou um espaço silencioso na vida da médica. Não havia projeto literário, ambição editorial ou planos de publicação. O que existia eram cadernos repletos de anotações, frases surgidas na madrugada e pensamentos registrados entre um compromisso e outro. Esses pequenos textos, escritos como quem tenta organizar o que sente, transformaram-se em seu livro de estreia, lançado no início deste ano.
O que estava guardado em um território íntimo ganhou um novo lugar. “Escrevia muito para mim mesma. Nunca imaginei que pudesse virar um livro”, conta Alves. Foi em um contexto de reconstrução, quando foi obrigada a uma reorganização completa da rotina, que sua escrita deixou de ser apenas um hábito silencioso. “Sempre adorei ler e acho que quem lê, de alguma forma, acaba escrevendo. Minha vida inteira foi do lado de lá, como leitora”, destaca. “Agora é estranho, e bonito, perceber que as pessoas podem entrar neste lugar tão íntimo que é a minha escrita.”
Durante a pandemia, enquanto escrevia parte dos textos, a médica enfrentava o fim do casamento e, simultaneamente, dois concursos decisivos na Unicamp. O primeiro, para livre-docência, já vinha sendo preparado há anos. O segundo apareceu de maneira inesperada após a morte de um professor do departamento, abrindo uma vaga de docente aguardada havia quase uma década. “Eu estava devastada emocionalmente”, lembra. “E, ao mesmo tempo, precisava escrever tese, preparar provas, organizar toda a vida profissional.”
Foi justamente nesse contexto de instabilidade que a escrita ganhou ainda mais espaço. Paralelamente à carreira acadêmica, a oftalmologista passou a frequentar oficinas de escrita criativa organizadas durante a pandemia por um grupo de amigas, reunidas inicialmente em torno de encontros femininos que misturavam culinária, leitura, meditação e conversa. As reuniões virtuais abriram espaço para exercícios literários e novas experimentações com a linguagem. “Aprendi a escrever para além do que eu só sentia”, afirma. “A misturar histórias, criar personagens, transformar sentimentos em outra coisa.”
Embora profundamente pessoal, Azul incorpora essa experiência: parte dos textos nasceu diretamente da intimidade, mas outra surgiu dos exercícios de escrita criativa. “Tem muito de mim, mas também tem invenção, mistura e deslocamento.”
Ao mesmo tempo, ela começou a digitalizar os inúmeros textos espalhados em cadernos. Aos poucos, percebeu que havia construído um arquivo extenso. O material foi enviado para amigas próximas, entre elas a livreira Adriana Haddad, da livraria Candeeiro, em Campinas, e a psicanalista e artista plástica Gabriela Sampaio Monteiro, que enxergaram ali um livro. Em um processo coletivo, afetivo e artesanal, o projeto ganhou forma, com ilustrações de Monteiro e com a chegada do escritor e poeta Diego Pansani, do Lume Teatro, que entrou na história para acompanhar a organização e edição dos textos. A diagramação e o projeto gráfico são de Henrique Pasti.
A autora define Azul como um conjunto de “fragmentos”. “Alguns textos se aproximam da poesia, outros lembram pequenas narrativas ou anotações confessionais”, afirma. O livro foi organizado em três partes – Cobalto, Celeste e Turquesa – como variações emocionais de um mesmo azul. A cor que dá nome ao livro vem de uma lembrança antiga. Na adolescência, a autora assistiu ao filme A Liberdade É Azul (1993), primeiro longa da Trilogia das Cores, do cineasta polonês Krzysztof Kieślowski. “Fiquei obcecada pelo filme. Assisti várias vezes, ouvia a trilha sonora, decorei falas”, lembra.
Décadas depois, sentiu vontade de rever a obra. “Foi completamente diferente tantos anos depois”, diz. “Agora, eu assistia como uma mulher madura, que também tinha passado por perdas e mudanças, assim como a protagonista do filme, vivida pela atriz Juliette Binoche.”

Ao começar a organizar os textos, Alves percebeu que o azul já aparecia de maneira espontânea em tudo: nas imagens evocadas pela escrita, nas ilustrações, na atmosfera melancólica e delicada dos fragmentos e até no arquivo original enviado ao editor, digitado em letras azuis.
Durante a leitura final do livro, feita em voz alta ao lado do editor, dois textos ganharam significados inesperados. Um deles revelou-se uma homenagem involuntária à avó. O outro passou a carregar a memória de uma amiga inseparável desde os tempos da faculdade de medicina em Juiz de Fora, que morreu após enfrentar um tumor cerebral. “Terminei de ler e entendi imediatamente que aquele texto era para ela”, conta.
Mineira de Frutal, no Triângulo Mineiro, Alves deixou a cidade natal ainda adolescente para estudar medicina na Universidade Federal de Juiz de Fora. Depois, fez residência médica em oftalmologia, pós-graduação na Unicamp e acabou construindo toda a carreira acadêmica na instituição. Hoje, atua como professora da FCM, pesquisadora e especialista em doenças da superfície ocular, especialmente olho seco – condição que estuda há cerca de 25 anos. Coordena pesquisas, orienta estudantes e mantém consultório em Campinas.
Nesse cotidiano marcado pela exigência técnica da medicina, a literatura acabou surgindo como uma espécie de contraponto. “A medicina exige uma objetividade de muita dureza”, afirma. “A escrita me reconecta com outras sensibilidades.”
Produzido de forma independente, Azul pode ser encontrado na livraria Candeeiro https://www.livrariacandeeiro.com.br/, conhecida pelos encontros literários e pela atmosfera intimista. No lançamento, em fevereiro, a sessão de autógrafos virou também festa de aniversário da autora. “Tinha bolo, vinho, amigos, leitores. Foi muito bonito”, lembra.
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Ópera criada por compositor da Unicamp revisita Camões
Cinco séculos depois do nascimento de Luís Vaz de Camões, um compositor brasileiro decidiu devolver o poeta português ao palco, não como monumento histórico, mas como presença viva, atravessada por dúvidas, conflitos humanos e questões contemporâneas. Professor sênior da Unicamp, Jônatas Manzolli, vinculado ao Núcleo Interdisciplinar de Comunicação Sonora (NICS), estreia nesta quinta-feira, 21 de maio, em Coimbra, Portugal, a ópera Camões e Cassandra: canto(s) da condição humana.
A obra reúne música, teatro, poesia, vídeo, paisagens sonoras e tecnologia em uma experiência cênica construída como uma passagem entre passado e presente. “A ideia não era fazer uma homenagem estática”, afirma Manzolli.“Eu queria trazer Camões para a universidade e para o hoje, fazer com que ele dialogasse com questões contemporâneas.”
Apresentado no Teatro Gil Vicente, o espetáculo de uma hora e 45 minutos de duração tem direção geral de Artur Pinho Maria. A ópera encerra a sétima edição do Ciclo de Teatro e Artes Performativas da Universidade de Coimbra e mobiliza mais de cem participantes entre coro, orquestra, elenco e equipe técnica. Em cena estarão quatro solistas, o Coro Sinfônico Inês de Castro, a Orquestra Inês de Castro e a Cooperativa Bonifrates, com a presença virtual dos seus atores.
A semente do projeto surgiu depois de um trabalho anterior realizado por Manzolli em Coimbra, que envolveu poesia e paisagens sonoras. Após a apresentação, pesquisadores ligados ao Centro de Estudos Camonianos comentaram que as comemorações dos 500 anos do poeta começariam sem que ninguém tivesse criado uma ópera dedicada a ele. “Fiquei com aquilo na cabeça”, relembra. “Eu já tinha escrito óperas antes, uma para os 50 anos da Unicamp e outra baseada em Macunaíma. Sempre achei a ópera uma linguagem muito poderosa”, conta.
“Em Coimbra, há toda uma tradição em torno de Camões. O Centro de Estudos Camonianos guarda, inclusive, uma das primeiras cópias de Os Lusíadas (1572). Quando fui a Lisboa, passei pelo Mosteiro dos Jerónimos e veio a ideia: ‘E se os restos mortais de Camões não estiverem mesmo aqui?’. Essa questão, que atravessa séculos, foi o ponto de partida dramático.”

Palavras e música
A protagonista do espetáculo é Cassandra Tágides, interpretada pela soprano Ana Freitas, uma pesquisadora universitária que decide investigar novos indícios sobre o paradeiro dos restos mortais do poeta. À medida que insiste na hipótese, passa a enfrentar resistência acadêmica e isolamento. “Não quer dizer que esteja certa ou errada, ela quer respostas. Hoje existe muita pressão contra o método científico, e eu quis trazer essa questão para a obra”, conta o compositor.
Do lado oposto está o personagem António Atento, interpretado pelo tenor Pedro Rodrigues, um especialista em Camões, que a questiona: por que mexer nisso agora? Para que investigar?
Inspirada na estrutura da ópera barroca e do drama grego, a obra incorpora um coro acadêmico com 12 cantores que comenta os acontecimentos, ironiza conflitos e acompanha a jornada da protagonista. “O coro ora é irônico, ora funciona como narrador. Em certos momentos pergunta: por que ela está sozinha? O que está procurando? Em outros, debate quem tem razão”, destaca Manzolli.
Na abertura de cada um dos quatro atos, Cassandra começa a receber cartas imaginárias enviadas por personagens do universo camoniano. O coro chega a questionar a pesquisadora por “consultar os mortos”, reforçando o jogo entre imaginação, pesquisa histórica e fabulação presente em toda a obra.
A primeira carta vem de Calíope, musa da filosofia e da inspiração artística. Depois aparecem Leonor, personagem da lírica camoniana, e Dinamene, figura amorosa associada a uma jovem chinesa ou macaense por quem o poeta teria se apaixonado no século 16. Segundo a tradição, ela morreu em um naufrágio enquanto Camões salvava o manuscrito de Os Lusíadas.
Também marcam presença Vasco da Gama, imortalizado em Os Lusíadas, obra que celebra a expedição do capitão que descobriu o caminho para a Índia, e Inês de Castro, figura histórica, interpretada pela mezzo-soprano Gisela Sachse, que ocupa papel importante na narrativa e tem um solo chamado O canto da minha solidão, criando um paralelo entre personagens separadas por séculos, mas atravessadas por inquietações.
Camões só aparece no final, mas, durante o espetáculo, seus poemas, interpretados por atores, são revividos em paisagens sonoras. No desfecho, o poeta entra em cena interpretado pelo barítono Rui Silva.

Legado
Ao longo da narrativa, a obsessão inicial pelos restos mortais perde força diante da dimensão simbólica de Camões. Um dos momentos decisivos ocorre quando Vasco da Gama sugere à protagonista que talvez o mais importante não esteja na materialidade dos ossos, mas na permanência humana e cultural do poeta. “A ópera começa com a questão dos restos mortais, mas tenta caminhar para aquilo que realmente importa”, resume Manzolli. “Camões não está nos ossos. Está na obra, no legado, no que representa para todos nós.”
Segundo o compositor, a leitura proposta pela montagem procura se afastar da imagem monumental frequentemente associada ao autor de Os Lusíadas. Em vez da grandiosidade épica, a obra enfatiza a dimensão lírica e existencial da poesia camoniana. “Camões escreveu sobre o desconcerto do mundo, sobre poder, sofrimento, transformação. Isso continua extremamente atual”, afirma.
Manzolli optou por não musicar diretamente os poemas de Camões. Os textos são declamados e acompanhados por paisagens sonoras eletroacústicas, vídeos e projeções visuais desenvolvidos em parceria com Amílcar Cardoso, do Departamento de Engenharia Informática da Universidade de Coimbra. “Quis preservar a força da palavra.”
Na trilha sonora, o compositor buscou diálogos entre tradição e contemporaneidade. A instrumentação combina guitarra portuguesa e harpa, cravo barroco e vibrafone, além de incorporar instrumentos típicos e orquestra de cordas. “A proposta foi trazer o passado para conversar com o presente”, destaca. “Para a percussão, pesquisei em Coimbra as tunas, grupos de estudantes que tocam e dançam nas ruas. Fui até eles, vi quais instrumentos utilizavam e incorporei essas sonoridades.”
A obra foi criada a partir de um libreto original em colaboração com Paula Santos, da Cooperativa Bonifrates. Manzolli conta que escreveu texto e música simultaneamente. “Ficou muito amarrado, foi quase um trabalho de tapeçaria. Levei cerca de um ano e meio nesse processo. No final do ano passado a ópera já estava pronta e depois passamos a trabalhar mais a questão do financiamento e da produção”, completa.
Depois da estreia em Coimbra, o compositor gostaria de encenar o espetáculo na Unicamp, aproximando ainda mais os diálogos entre Brasil, Portugal e a tradição da língua portuguesa. “Camões pertence à lusofonia inteira”, afirma. “Ele é universal.”

Os ossos de Camões: um mistério histórico
A dúvida em torno dos restos mortais de Luís de Camões (1524–1580) atravessa séculos e ajuda a alimentar a trama da ópera criada por Jônatas Manzolli. Oficialmente, o autor de Os Lusíadas está sepultado no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, onde um túmulo monumental homenageia o poeta desde o século 19. No entanto, historiadores e pesquisadores questionam se os ossos depositados ali pertencem realmente a Camões.
Segundo registros históricos, o poeta teria sido enterrado inicialmente na Igreja de Sant’Ana, em Lisboa, em uma sepultura simples. O local foi destruído durante o terremoto de 1755, que devastou a capital portuguesa. A transferência dos supostos restos mortais para o Mosteiro dos Jerónimos ocorreu apenas em 1880, nas celebrações pelos 300 anos da morte do escritor. Na época, a própria comissão responsável pela trasladação admitiu incertezas sobre a autenticidade das ossadas encontradas.
Apesar das dúvidas, pesquisadores destacam que o valor simbólico do túmulo permanece intacto. Mais do que os restos mortais, afirmam estudiosos da obra camoniana, o legado de Camões está na permanência de sua poesia e na influência que exerceu sobre a língua portuguesa.
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Unicamp
- Estudo revela alta incidência de dor na colocação de DIU e expõe falhas em políticas de planejamento familiar no Brasil
Estudo revela alta incidência de dor na colocação de DIU e expõe falhas em políticas de planejamento familiar no Brasil
Uma pesquisa realizada no Ambulatório de Planejamento Familiar do Hospital da Mulher Professor José Aristodemo Pinotti (Caism), da Unicamp, revelou que a dor durante a inserção do dispositivo intrauterino (DIU) – método contraceptivo de longa duração – é mais frequente e intensa do que apresentam as diretrizes do Ministério da Saúde. De acordo com a pasta, menos de 5% das usuárias teriam dor moderada a severa. O estudo acadêmico, por sua vez, eleva essa marca para 81%.
Foram analisadas mais de 7 mil inserções, entre 2022 e 2024. O objetivo foi compreender como ocorre a dor durante o procedimento, quantas pessoas a experimentam e em quais níveis. Mais que a discrepância de resultados, a pesquisa ainda aponta duas questões negligenciadas no Brasil: a política de planejamento familiar e o respeito aos direitos da mulher.

O artigo “Dor na inserção de DIU em um centro brasileiro”, publicado no jornal científico International Journal of Gynecology and Obstetrics, surgiu a partir da tese de mestrado da psicóloga e terapeuta sexual Ana Luiza Savi, mestra em Saúde Reprodutiva e Sexual pela London School of Hygiene and Tropical Medicine, no Reino Unido. Todas as etapas foram co-orientadas pelos professores Luis Bahamondes, emérito da Unicamp desde 2003, com quatro décadas de experiência no Caism; e Cássia Juliato, titular do Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Universidade. Em Londres, a orientadora foi a professora Judith Lieber.
“O artigo mostra que as mulheres se queixam de dor na colocação do DIU, algo que historicamente já sabíamos, mas que foi ignorado. Essa dor já é apontada desde a década de 1960. Quando comecei a colocar DIU, em 1971, isso já era conhecido. O que havia era muito menos respeito pelas pacientes. A resposta à dor era: ‘aguente um pouco’. Ao longo dos últimos 50 anos, as mulheres passaram a entender que têm direitos e que precisam reivindicar um melhor atendimento”, afirma Bahamondes.
Ainda de acordo com o professor, o problema é que a maioria das estratégias para reduzir essa dor não funciona de forma eficaz e isso precisa ficar claro para a paciente. “Por outro lado, há grande variabilidade. Há mulheres que não sentem absolutamente nada e outras que sentem muita dor. Assim, o limiar é diferente para cada pessoa. O artigo mostra que a maioria das mulheres relata dor. E as estratégias para tratá-la, em sua maioria, não funcionam. Portanto, devemos manter o foco em encontrar uma estratégia válida”, acrescenta o professor.

Dia a dia
A pesquisa foi realizada a partir de dados clínicos coletados no dia a dia do Caism, referência internacional em planejamento familiar. A dor foi medida imediatamente após o procedimento, com base em uma escala de zero a dez, e posteriormente classificada em leve, moderada ou severa. Apesar de ser um método contraceptivo altamente eficaz — com taxas de falha de duas em cada mil usuárias — o DIU ainda é pouco utilizado no Brasil. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde indicam que apenas 4% das pessoas recorrem ao método, enquanto aproximadamente 40% utilizam pílulas anticoncepcionais. Entre os fatores que ajudam a explicar essa baixa adesão estão dificuldades de acesso, falta de informação, de capacitação dos médicos, dificuldades para que enfermeiros também possam realizar a aplicação dos DIUs e, principalmente, o medo da dor.
“A dor na inserção é uma barreira real e já documentada na literatura científica. Muitas pessoas não recebem informações adequadas sobre o que esperar, e há evidências de que profissionais de saúde podem subestimar essa experiência”, explica a pesquisadora Ana Luiza Savi.
Outro ponto levantado pelo estudo é a possível ausência de estratégias adequadas para o manejo da dor. Embora existam opções como analgésicos, anti-inflamatórios e antiespasmódicos, nem sempre essas medidas são adotadas de forma sistemática. Para a pesquisadora, os resultados reforçam a necessidade de revisão das recomendações e de ampliação do debate sobre a experiência das usuárias.
“A dor não é um evento raro, como muitas vezes se apresenta oficialmente, mas sim algo comum. Reconhecer isso é fundamental para melhorar o acolhimento e o cuidado oferecido”, diz, ressaltando que o objetivo do estudo não é desencorajar o uso do DIU, mas contribuir para uma experiência mais consciente e confortável. “É um método muito eficaz e seguro, mas precisamos considerar a experiência das pessoas. Melhorar essa experiência pode, inclusive, ampliar sua adoção. Compreender o processo de decisão das usuárias é essencial para o sucesso de políticas públicas”, acredita Savi.
O uso de um método contraceptivo não depende apenas de sua eficácia, mas de como ele se encaixa na vida das pessoas. A decisão, vale lembrar, envolve crenças, rotina, acesso à informação e experiências anteriores, reforça a pesquisadora.

Negligenciada
Para Bahamondes, o grande problema é que o Brasil não possui uma política robusta de planejamento familiar. Historicamente, essa área tem sido negligenciada. De acordo com o professor, o país não tem uma direção nacional estruturada, ao contrário de outros países com grandes populações. “Isso reflete em falhas de gestão, logística e distribuição de insumos, além da falta de capacitação de profissionais. Há situações em que os DIUs estão prestes a vencer em depósitos de diversas cidades e acabam sendo enviados às pressas para nós. Centros, como a Unicamp, assumem grande parte dessa demanda”, conta o professor. “Tudo isso indica que não há uma política consistente para ampliar o acesso ao DIU e outros métodos. Falta capacitação, planejamento e monitoramento”, reforça.
Por fim, a pesquisa abre caminho para novos estudos em diferentes regiões e contextos. Os resultados apontam claramente para a necessidade de maior atenção à dor e ao acolhimento nos serviços de saúde.
Ministério da Saúde
Sobre a diferença de percepção entre a pesquisa acadêmica e as diretrizes governamentais, o Ministério da Saúde afirma que “a experiência de dor durante a inserção do dispositivo intrauterino é variável entre as usuárias e não deve ser minimizada, reafirmando o compromisso com a atualização contínua de suas diretrizes e a qualificação da assistência no SUS pautada nas evidências científicas”. A pasta ainda garante priorizar a adoção de práticas centradas na usuária, que incluem o manejo adequado da dor, capacitação profissional e a garantia de um cuidado respeitoso e seguro, fundamentado na escuta qualificada, oferta de informações claras e no estrito respeito à autonomia das mulheres.
Unicamp tem papel histórico no planejamento reprodutivo e saúde da mulher
A despeito dos resultados apresentados na dissertação da psicóloga e terapeuta sexual Ana Luiza Savi, o professor emérito da Unicamp e ex-chefe do Ambulatório de Planejamento Familiar do Caism, da Unicamp, Luis Bahamondes, ressalta que é importante reconhecer o trabalho sério, ético e pioneiro desenvolvido há décadas pelos profissionais envolvidos na promoção do planejamento reprodutivo e dos direitos das mulheres na Universidade.
Segundo ele, o debate sobre a dor na inserção do DIU é legítimo, necessário e deve estimular avanços na assistência, no acolhimento e nas estratégias de manejo da dor. “Contudo, a intensidade dessa experiência varia amplamente. Aspectos como paridade, idade, histórico obstétrico, presença ou ausência de cesarianas, ansiedade, medo, experiências ginecológicas prévias e fatores individuais relacionados à sensibilidade à dor podem influenciar significativamente a percepção do procedimento”, explica. “É importante ressaltar que, em nenhum momento, se nega que a inserção de um DIU possa causar dor. No Caism, diferentes estratégias vêm sendo estudadas e aplicadas na tentativa de minimizar o desconforto durante a inserção do DIU. Os resultados demonstram que, embora algumas intervenções apresentem significância estatística, isso nem sempre se traduz em benefício clínico relevante para as pacientes. Há a sedação, porém, para isso há todo um processo de avaliação anestésica, disponibilidade de centro cirúrgico, custos e riscos inerentes à sedação, tornando a inserção de DIU mais burocrática e arriscada”, acrescenta o professor.
Pioneiro
Bahamondes ressalta que os atendimentos no Caism têm burocracia mínima, visto que o Ambulatório de Planejamento Familiar é o único porta aberta da instituição (não necessitando de agendamento pelo sistema CROSS). “A Unicamp desempenha um papel histórico e fundamental na assistência à saúde da mulher. O Ambulatório de Planejamento Familiar é pioneiro no país desde 1976 e oferece métodos contraceptivos de alta eficácia, incluindo DIU de cobre, DIU hormonal e implantes contraceptivos. Atualmente, mais de 40 mil mulheres são atendidas anualmente, sendo que a grande maioria relata satisfação com o atendimento recebido e com os métodos utilizados”, completa o professor.
(Texto atualizado em 19/5/2026)
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Haitianos entre fronteiras, recomeços e ações solidárias

Quando 120 haitianos ficaram retidos por mais de dois dias no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas, em março deste ano, o doutorando do Instituto de Geociências (IG) Guerby Saintè recebeu um telefonema pedindo ajuda. A maior parte do grupo havia desembarcado no Brasil com documentação irregular e permanecia confinada em uma área do aeroporto, à espera de análise das autoridades migratórias.
“Eles falavam: ‘chegamos aqui e parece que estamos presos’”, relata o pesquisador haitiano, que passou horas em Viracopos atuando como intérprete e articulador junto à Defensoria Pública e a órgãos de imigração. “Muitos estavam assustados, sem entender direito o que estava acontecendo.”
A cena sintetiza uma realidade que se tornou recorrente nos últimos anos: a intensificação do fluxo migratório de haitianos ao Brasil em busca de segurança, trabalho e estabilidade diante do agravamento da crise no Haiti. O Ministério das Relações Exteriores estima que, no Brasil, a comunidade haitiana é de cerca de 200 mil pessoas. Segundo o Itamaraty, entre 1º de janeiro e 9 de abril de 2026, foram emitidos 9.575 vistos para haitianos, entre humanitários e de reunião familiar.
As redes de acolhimento organizadas pelos próprios imigrantes se tornaram fundamentais para receber os recém-chegados. Guerby e outros colegas haitianos criaram, em 2024, a Associação de Integração Social e Cultural (AISC), que reúne atualmente nove membros na comissão organizadora e está em fase final de legalização. Embora ainda não tenha vínculo institucional formal com a Unicamp, conta com a participação de estudantes e pesquisadores da Universidade e pretende ampliar parcerias com áreas ligadas aos direitos humanos e à extensão universitária.

A associação oferece apoio para regularização documental, emissão de CPF, orientação junto à Polícia Federal (PF), encaminhamento profissional e cursos gratuitos de português para estrangeiros. As aulas, ministradas de forma voluntária, atendem atualmente mais de 30 pessoas. “Muita gente chega aqui sem falar a língua e isso dificulta tudo: conseguir trabalho, entender documentos, se localizar”, explica Guerby. “Criamos um curso básico de português para ajudar na inserção dessas pessoas. Passamos por isso quando chegamos, então sabemos a dificuldade que é desembarcar em outro país sem falar a língua, sem entender os documentos e sem saber para onde ir.”
Além das ações de acolhimento, a associação também pretende ampliar os espaços de debate sobre a realidade haitiana. No domingo (17 de maio), a AISC realizará, em Barão Geraldo, a Festa da Bandeira Haitiana, data simbólica para a comunidade do país caribenho, celebrada todo dia 18 de maio. O evento reunirá pesquisadores haitianos para discutir identidade, migração, saúde mental e os impactos sociais da crise humanitária no país. A programação inclui ainda apresentações culturais de música e dança haitianas.
Só ‘bom dia’
A trajetória de Guerby se cruza com a própria história recente do acolhimento de haitianos na Unicamp. Ele chegou ao Brasil em 2011, inicialmente como intercambista em um programa apoiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), criado após o terremoto que devastou o Haiti em 2010. Na época, falava apenas algumas palavras em português. “Sabia só ‘bom dia’”, lembra, sorrindo. “Cheguei sozinho, mas junto de um grupo grande de haitianos que também vieram estudar.”

Na Unicamp, cursou bacharelado e licenciatura em Geografia, concluiu o mestrado e atualmente desenvolve doutorado no Laboratório de Geografia dos Riscos e Resiliência (Geoplan). Sua pesquisa investiga vulnerabilidade territorial, urbanização e soberania no Haiti, analisando os impactos das intervenções internacionais e das desigualdades históricas.
Ao longo dos anos, muitos dos estudantes haitianos que chegaram à Universidade seguiram trajetórias semelhantes. Alguns tornaram-se pesquisadores e professores universitários; outros migraram para diferentes regiões do Brasil ou para outros países. Hoje, segundo Guerby, oito haitianos seguem vinculados à Unicamp entre estudantes e pesquisadores.
Primeiro país negro independente das Américas, o Haiti, com população estimada em 12 milhões de habitantes, enfrenta há décadas crises políticas, instabilidade institucional, desastres naturais e sucessivas intervenções internacionais. Nos últimos anos, o avanço de grupos armados sobre Porto Príncipe agravou ainda mais a situação. “Hoje vivemos em um território praticamente controlado por gangues”, afirma o pesquisador. “Grande parte da capital está ocupada, as pessoas têm dificuldade para circular, trabalhar e frequentar a escola. Muita gente sai porque sente que a própria vida está ameaçada.”
A questão do Haiti está presente na sua produção acadêmica. Em artigo publicado na revista GeoUSP, da Universidade de São Paulo (USP), o pesquisador argumenta que o país se tornou um exemplo das limitações enfrentadas por Estados vulneráveis diante das grandes potências internacionais e das sucessivas intervenções externas. Segundo Guerby, a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), encerrada em 2017 após 13 anos de atuação, não conseguiu resolver os problemas estruturais do país.

“A soberania não existe na prática”, afirma. “O Haiti segue com os mesmos problemas que existiam antes das intervenções, com novas marcas no espaço e na busca incessante da soberania e do controle de seu próprio território e sua população.”
Guerby acompanha de longe e com apreensão a situação da família que permaneceu no Haiti. Os pais morreram, mas os irmãos continuam lá. Voltar tornou-se cada vez mais difícil, tanto pelas restrições migratórias quanto pelo agravamento da violência. “Ninguém deixa seu país sem motivo.”
Acolhimento humanitário x obstáculos
O antropólogo Omar Ribeiro Thomaz, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), esteve no Haiti em diversas ocasiões entre o fim dos anos 1990 e 2014, desenvolvendo pesquisas sobre pobreza, violência, desigualdade e organização social.
Em sua avaliação, o ocorrido em Viracopos não foi um mero episódio de irregularidade, e sim resultado de uma política que, ao mesmo tempo em que anuncia acolhimento humanitário, impõe obstáculos quase intransponíveis a quem tenta chegar legalmente ao Brasil, com dificuldade de acesso a vistos humanitários e ausência de políticas mais efetivas de acolhimento. “O Brasil diz que facilita, mas na prática dificulta. Existe uma burocracia enorme para obtenção de vistos e regularização”, diz.

O professor destaca que a experiência construída pela Unicamp após o terremoto de 2010 tornou-se uma das iniciativas mais bem-sucedidas de acolhimento acadêmico no país, em 2011. “Recebemos 48 estudantes haitianos em situação de grande vulnerabilidade social, e 47 concluíram a graduação. Muitos seguiram para o mestrado e doutorado”, ressalta.
Segundo Thomaz, a iniciativa só foi possível graças à mobilização de diferentes setores da Unicamp. Ele cita o apoio do então pró-reitor de Graduação, Marcelo Knobel, e das professoras Eliana Amaral e Silvia Santiago, da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), além do envolvimento de docentes e funcionários de várias unidades. “Sem essa articulação institucional, não teria sido possível receber e acompanhar esses estudantes”, diz.
De acordo com o professor, o acolhimento envolveu desde cursos intensivos de português até apoio acadêmico e auxílio para adaptação à vida no Brasil. “Foi um trabalho difícil, mas mostrou que é possível construir políticas concretas de internacionalização e acolhimento”, diz. O professor destaca, porém, que experiências desse tipo ainda permanecem isoladas no Brasil.
Thomaz chama a atenção para o potencial pouco aproveitado dos haitianos que vivem hoje no Brasil. Segundo ele, muitos chegam com formação técnica ou universitária, mas encontram barreiras para validar diplomas e exercer suas profissões. “São pessoas qualificadas, com experiência, que poderiam contribuir muito mais. O Brasil desperdiça conhecimento e mão de obra ao dificultar processos de reconhecimento profissional.”
“Você não ouve falar de criminalidade haitiana ou de redes ligadas ao crime. É uma comunidade extremamente trabalhadora, organizada e comprometida com a própria sobrevivência coletiva”, completa.
Apesar da gravidade da crise na capital, Porto Príncipe, Thomaz ressalta que outras regiões do Haiti continuam funcionando de maneira precária, mas ativa, sustentadas principalmente pelo mundo rural e pelas redes familiares da diáspora haitiana espalhada pelo mundo. “O Haiti segue funcionando porque existe uma enorme capacidade de organização e sobrevivência da própria população”, afirma.
Segundo Thomaz, o enfraquecimento do interesse internacional sobre o Haiti contribui para o isolamento do país. “As tragédias internacionais acabam deixando de mobilizar atenção, mesmo quando o sofrimento continua acontecendo”, diz.
O professor defende que o Brasil avance em políticas mais efetivas de acolhimento, integração profissional e cooperação internacional voltadas ao Haiti. Para ele, a reconstrução do país não passa por grandes intervenções militares, mas pelo fortalecimento gradual de instituições locais, educação e serviços públicos. “A solução não virá do espetáculo ou de grandes operações. Ela passa por reconstrução institucional, formação de pessoas, fortalecimento da saúde, da educação e da própria capacidade de organização da sociedade haitiana”, ressalta.
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A ciência que pulsa para se transformar em experiência
A ciência que pulsa para se transformar em experiência
A ciência que pulsa para se transformar em experiência
Entre museus, coleções e espaços interativos, Unicamp amplia o acesso ao conhecimento e aproxima o público da produção científica

Diante do brilho metálico de um minério, da geometria quase perfeita de um cristal ou do impacto silencioso de um meteorito, a ciência deixa de ser apenas explicação para se transformar em experiência. No Instituto de Geociências (IG) da Unicamp, o conhecimento começa pelo espanto: cores, formas e texturas despertam a curiosidade e convidam o visitante a olhar a Terra de outra maneira. É nesse momento que algo se desloca. Aprender já não é apenas compreender, mas fazer pulsar o sentir.
Na Unicamp, essa passagem ganha forma em uma rede de museus, praças, coleções e espaços interativos que expandem os limites da divulgação científica. São lugares onde o conhecimento se abre ao público e se deixa atravessar por diferentes olhares — especialmente os de estudantes da educação básica, mas também de visitantes que chegam movidos pela curiosidade.

No Instituto de Geociências, a coleção “Mundo dos Minerais” transforma a visita em um percurso sensorial e de descoberta. Entre vitrines de minerais coloridos, fósseis, meteoritos e mapas geológicos, o espaço aproxima o visitante das geociências por meio do encantamento e da observação. Idealizado pela professora Maria José Mesquita, coordenadora de extensão do instituto, o ambiente foi pensado para provocar perguntas e estabelecer pontes entre ciência e cotidiano.
Logo na entrada, as cores vibrantes dos minerais acionam a curiosidade: por que cada um apresenta uma tonalidade diferente? A partir daí, o visitante é conduzido a conceitos como incidência da luz, cristalografia, formação do solo e estrutura interna dos átomos. “Essa capacidade de se maravilhar com alguma coisa é um start para a educação”, afirma Mesquita. “A pessoa chega aqui por outro motivo e, de repente, se impressiona com esse universo.”

A proposta se apoia na educação não formal. Muitas vezes, os visitantes chegam ao prédio para um evento ou palestra e interrompem o caminho diante das vitrines. “É uma experiência espontânea, de descoberta”, diz a coordenadora.
O espaço também tem se consolidado como ferramenta de aproximação com escolas e, frequentemente, desperta vocações. “Muitos estudantes dizem que o interesse pela área começou em uma visita como essa ou por causa de um professor. Aqui eles percebem que é possível estudar isso, entender o que está sob os nossos pés”, afirma Mesquita.
Se no IG a ciência se manifesta pela materialidade da Terra, em outros espaços da Universidade ela se desdobra em diferentes formas de experiência. Para o professor Guilherme Marcom, coordenador do Museu Exploratório de Ciências da Unicamp, essa vocação está no próprio modo como a Universidade se compreende. “A Unicamp é um espaço onde essas múltiplas características científicas, acadêmicas e culturais estão envolvidas dentro desse processo”, afirma. “Não como espaços fechados, mas como espaços abertos ao debate e ao conhecimento.”
No Museu Exploratório, a ciência se apresenta como convite ao fazer, indo além da observação. Em oficinas, exposições e atividades interativas, conceitos ganham corpo. O visitante aciona, experimenta, erra, tenta novamente. E, nesse percurso, deixa de ocupar o lugar de espectador para assumir, ainda que por instantes, o papel de quem investiga.
Segundo Marcom, o espaço foi concebido justamente para essa vivência coletiva do conhecimento. “Os museus são espaços onde a gente tem esse reflexo do que é uma universidade, no sentido de ser um espaço coletivo, de vivência, onde as pessoas possam frequentar, se sentir bem e experimentar a produção do conhecimento.”

Criado em 2005, o museu nasceu fora do campus, na Lagoa do Taquaral, e, desde 2007, ocupa a área atual, originalmente pensada como instrumento de pesquisa astronômica. Essa origem permanece impressa na proposta do espaço, que aproxima ciência, cultura e diferentes modos de olhar o céu.
Do lado de fora, a experiência se expande. Na Praça Tempo-Espaço, o céu é parte do experimento e o tempo se torna visível. A passagem das horas se desenha no chão, o movimento da Terra se revela em gestos lentos, quase coreografados. Integrada ao museu, a praça transforma o pôr do sol em ponto de encontro e converte o cotidiano em laboratório aberto. Ao longo do ano, o espaço recebe cerca de 10 mil crianças e adolescentes de escolas públicas e privadas, além do público espontâneo que circula pelo campus.

Se no Museu Exploratório a ciência convida ao gesto e à experimentação, em outros espaços da Universidade o conhecimento ganha a forma da memória e do acervo. No Museu de Diversidade Biológica da Unicamp, o tempo se acumula em forma de coleção. São milhares de exemplares de animais e plantas organizados ao longo de décadas de investigação. Entre vitrines e coleções, o visitante percorre vestígios da vida e do trabalho científico, um contato direto com a biodiversidade, que, ao mesmo tempo, revela método, rigor e história.
Essa experiência, no entanto, não se limita ao campus de Campinas. Na Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP), a ciência se entrelaça à memória. O Museu de Odontologia reúne mais de 20 mil itens dos séculos 19 e 20 e convida o visitante a percorrer a história da área por meio de instrumentos, imagens e ambientes que recriam antigos consultórios. Já em Limeira, na Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA), o movimento é outro: a ciência se abre ao questionamento. Em disciplinas como Biologia e Cultura, estudantes de diferentes cursos atravessam fronteiras entre áreas do conhecimento e refletem sobre os próprios fundamentos da ciência.
O que aproxima todas essas experiências é uma escolha: não simplificar o conhecimento, mas torná-lo próximo. Entre experimentos, paisagens, minerais, fósseis e encontros, a Universidade se revela como um território de aprendizagem em movimento. Um lugar onde a ciência pode ser vista, tocada e, sobretudo, vivida.



Conhecimento que atravessa o tempo
Se nos museus e coleções o conhecimento se oferece ao espanto e à experiência, nas bibliotecas e arquivos ele ganha outra temporalidade: a da permanência, da memória e da reflexão. Na Unicamp, esse percurso se sustenta em uma ampla rede de bibliotecas, centros de memória e arquivos que acompanham a vida acadêmica e preservam a história institucional e intelectual da Universidade. Mais de 1,4 milhão livros ocupam as estantes das bibliotecas universitárias e, no centro desse sistema, está a Biblioteca Central Cesar Lattes (BCCL), que, ao lado das coleções seccionais, acompanha o cotidiano de estudantes, docentes e pesquisadores.
Na Biblioteca Central, o conhecimento também se constrói no tempo da pausa. Entre estantes e áreas de estudo, ambientes de convivência e relaxamento convidam à permanência: lugares para ler, descansar, reorganizar ideias ou simplesmente permanecer entre uma aula e outra.
No conjunto, destaca-se a Biblioteca de Obras Raras (Bora), onde o tempo ganha outra espessura. Ali, livros e documentos de valor histórico e patrimonial são preservados como testemunhos materiais do pensamento e da cultura, acessíveis à consulta, mas protegidos pela sua singularidade. Na Bora, a integração com eventos culturais tem atraído um público cada vez mais diversificado.




Ao seu redor, outras bibliotecas revelam a diversidade de percursos do conhecimento: no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), na Faculdade de Educação (FE) e no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), o pensamento crítico e a produção intelectual encontram abrigo; no Instituto de Artes (IA), o acervo dialoga com diferentes linguagens e expressões artísticas.
Nas áreas biomédicas, bibliotecas como as da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), da Faculdade de Educação Física (FEF) e do Instituto de Biologia (IB) sustentam pesquisas voltadas à vida, ao corpo e à saúde. Já no campo das exatas e tecnológicas, unidades como o Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW), o Instituto de Química (IQ), o Instituto de Geociências (IG), o Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (Imecc) e a Biblioteca da Área de Engenharia (BAE) reúnem acervos especializados que acompanham o avanço científico e tecnológico.
Mas é nos arquivos que a Universidade revela outra camada: a da memória. O Centro de Memória Unicamp (CMU), o Arquivo Edgard Leuenroth (AEL), o Sistema de Arquivos da Unicamp (Siarq) e centros de documentação como o Cedae e o CLE preservam documentos, manuscritos e registros que narram tanto a história da Universidade quanto processos sociais, políticos e culturais mais amplos. Aqui, o conhecimento não apenas se acumula, ele circula, permanece e atravessa o tempo.
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Normas sociais contribuem para definir tamanho e peso ideais para mulheres, aponta estudo
O peso considerado ideal é um fenômeno social capaz de alterar a percepção das mulheres sobre o próprio corpo e peso corporal, influenciando decisões a respeito da própria saúde. Enquanto a magreza é associada a virtudes como disciplina, saúde e bem-estar, corpos gordos ou com peso considerado fora do padrão são vistos como indicadores de caráter, de uma “falha moral” ou de falta de força de vontade.
Estas são as principais conclusões de um estudo do sociólogo guatemalteco Miguel Contreras, realizado no Hospital da Mulher prof. dr. José Aristodemo Pinotti (Caism) da Unicamp, que acaba de ser publicado na edição regional para as Américas da prestigiosa publicação médica The Lancet.
Tese de doutorado aprovada na Faculdade de Ciências Médicas (FCM), o trabalho mostra que o estigma e o preconceito em torno do peso influenciam a autopercepção das mulheres e que, por isso, o dano à saúde não vem apenas dos efeitos biológicos da gordura acumulada, mas da forma como a sociedade discrimina, marginaliza e exclui pessoas com base no tamanho de seus corpos ou no peso corporal.
“Eu tive a curiosidade de pensar sobre como o estigma e o preconceito sobre o peso afetam o cotidiano e, principalmente, o exercício dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres”, explicou o pesquisador. “Fiz uma conjunção entre a sociologia fenomenológica, evidências das ciências médicas e ciências da saúde”, acrescentou.
“A sociologia fenomenológica explora e explica os fenômenos sociais a partir das ideias, das crenças e das percepções, para compreender os significados das ações sociais. Trata-se de uma questão não só de o que as pessoas acham, mas também o que as pessoas sentem”, afirma.


A pesquisa
A pesquisa de campo ocorreu entre fevereiro e novembro de 2024, no Ambulatório de Planejamento Familiar do Caism. Foram utilizadas duas técnicas qualitativas para a obtenção dos dados: conversas individuais com seis participantes e discussões em grupo coordenadas por uma moderadora. Foram selecionadas mulheres que se identificaram com o convite para participar da investigação.
O artigo critica duramente o sistema de saúde por utilizar parâmetros como o índice de massa corporal (IMC) e recomendações imprecisas como “mudanças de estilo de vida”. O autor afirma que essa abordagem ignora as barreiras sistêmicas e o impacto social do estigma e preconceito relacionados ao peso, o que pode afastar as mulheres dos cuidados de saúde realmente necessários. “O IMC não é uma ferramenta válida para falar sobre o estado de saúde”, defende.
A pesquisa mostra que, além do critério moral – pelo qual não teria suficiente força de vontade para mudar a própria condição, a mulher se vê obrigada a viver sob constante autovigilância. “As mulheres não precisam de alguém as criticando o tempo todo para se sentirem estigmatizadas”, diz o estudo. Elas internalizam o olhar da sociedade, e isso transforma atividades cotidianas, como comer, vestir-se ou sentar-se, em fontes de ansiedade e objeto de monitoramento incessante.

Na pesquisa de Contreras, a roupa aparece como prova de fracasso e controle social, uma ferramenta de punição social. O fato de uma roupa não servir não é visto como um problema do fabricante que definiu um público-alvo limitado, mas como um símbolo de derrota pessoal e transgressão das normas. Isso, lembra o pesquisador, leva à internalização do estigma e do preconceito.
Neoliberalismo
Contreras observa que sua abordagem tem como base a proposta teórica do “salutarismo” (healthism), um conceito que critica a elevação da saúde a valor supremo da vida, ao mesmo tempo em que a responsabilidade pelo bem-estar ou não de cada um é atribuída a comportamentos individuais, moralizando a saúde ao associar doença a preguiça e fracasso. Além disso, estende as práticas médicas à vida cotidiana (por meio do controle obsessivo do estado de saúde). Isso cria e promove o estigma e o preconceito de peso ao estabelecer que a magreza é o padrão de saúde.
Segundo ele, essa abordagem ganhou força a partir dos anos 1980, quando o neoliberalismo começou a destruir os sistemas de saúde pública. “Precisavam transferir a responsabilidade do Estado, e o peso também foi usado como métrica de quão responsável pela própria saúde a pessoa é”, explica o pesquisador. “O peso começa a ser utilizado como uma métrica não apenas médica, mas também moral”, reforça.
O artigo conclui ainda que, embora a obesidade seja classificada como doença crônica, a sociedade ainda a vê apenas como um “fator de risco” ou irresponsabilidade pessoal. Isso leva à patologização de corpos maiores ou de peso não hegemônico, mesmo quando não há doença presente.

Para Contreras, as questões relacionadas ao peso devem ser tratadas como um “determinante social de saúde” (DSS), ou seja, as condições em que as pessoas nascem, crescem, vivem, trabalham e envelhecem.
No artigo, ele defende que a prática clínica muitas vezes reduz riscos de saúde a “escolhas pessoais”, negligenciando fatores sistêmicos como a gordofobia e estigma e preconceito sobre o peso, alimentados por ideais neoliberais que igualam magreza a virtude moral.
Assim, o estigma e o preconceito moldam a vida cotidiana, as ações sociais e as decisões de saúde das mulheres.
O estudo realizado na Unicamp teve a orientação das professoras Maria José Osis e Ximena Ramos Sala e foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
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Pesquisa expõe como sistemas de reconhecimento facial reproduzem desigualdades sociais
Antes de reconhecer alguém diante da câmera, um sistema de inteligência artificial (IA) precisa decidir se aquele rosto “existe”. É justamente nesse momento, anterior à identificação, que, segundo a cientista da computação Ana Carolina Silva das Neves da Hora, mais conhecida como Nina da Hora, começam os apagamentos produzidos pelas tecnologias de reconhecimento facial, tema de sua tese de mestrado, Do Rosto ao Vetor: Epistemicídio Computacional no Reconhecimento Facial, defendida nesta segunda-feira (11), no Instituto de Computação (IC).
Orientada pela professora Sandra Avila, do IC, e coorientada pela antropóloga Marisol Marini, da Universidade de São Paulo (USP), a tese teve na banca examinadora a socióloga Angela Figueiredo, da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), e o pesquisador Virgílio Almeida, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
A pesquisa combina reflexão teórica e experimentos computacionais para analisar desigualdades em arquiteturas de detecção facial amplamente utilizadas em sistemas de IA. Da Hora propõe o conceito de “epistemicídio computacional”, inspirado nos trabalhos da filósofa Sueli Carneiro sobre o apagamento de sujeitos negros na produção do conhecimento. O trabalho multidisciplinar reúne computação, antropologia, artes visuais, estudos raciais e filosofia.
A pesquisadora auditou arquiteturas de detecção facial utilizando uma base criada pela Meta, dona do Facebook, do Instagram e do WhatsApp, a partir de vídeos enviados por pessoas de países como Brasil, Índia, Síria e Indonésia. Os resultados revelaram desigualdades profundas nos processos de detecção facial. “O dano já começa antes, quando o sistema sequer detecta aquele rosto como um rosto válido”, explica.
Em um dos experimentos, pessoas acima de 85 anos tiveram apenas 44% de taxa de detecção, enquanto grupos mais jovens alcançaram índices superiores a 90%. Em outros casos, determinados grupos simplesmente desapareciam dos sistemas. “Tivemos grupos com 0%. Normalmente, quando aparece um 0%, você roda o sistema de novo e tenta corrigir. Mas quis investigar por que aquelas pessoas tinham desaparecido”, diz.


Segundo Da Hora, os sistemas simplificam realidades complexas ao transformar diversidade humana em categorias rígidas. “É como se não existissem variações. Ou você é branco ou você é negro. Mas nós sabemos que isso não representa países como o Brasil.”
Mais do que erros técnicos, a pesquisadora vê nesses resultados a materialização de escolhas políticas e históricas. “A etapa do reconhecimento só acumula problemas. Primeiro, o sistema precisa decidir que existe um rosto ali.” Em muitos casos, afirma, nem mesmo a autodeclaração das pessoas é suficiente. “Quando eu mando um vídeo dizendo quem eu sou, pessoas do outro lado podem dizer que eu não sou aquilo que estou dizendo. E, às vezes, a palavra delas vai valer mais.”
Segundo a pesquisadora, o problema não está apenas na precisão técnica. “A questão não é fazer a tecnologia funcionar melhor”, afirma. “É perguntar por que estamos insistindo em tecnologias que transformam pessoas em padrões de vigilância.”
Da Hora vê a expansão dessas tecnologias como parte de uma transformação maior nas formas de controle social e circulação da informação. “O reconhecimento facial e as inteligências artificiais são vendidos como solução para tudo. Mas, muitas vezes, o que elas produzem é exclusão e aprofundamento de desigualdades. Eu queria entender o que se perde quando você transforma o rosto de uma pessoa em vetor matemático”, afirma.
“Você olha para um rosto e tenta resumir aquela pessoa a medidas, padrões e probabilidades. Só que ali existe história, contexto e identidade”, destaca.
Além da dissertação, a pesquisadora tem novos trabalhos acadêmicos. Um deles, intitulado Frankenstein em Processo: Epistemicídio Computacional no Reconhecimento Facial, será apresentado em junho, no Canadá, em uma conferência mundial sobre justiça algorítmica. No artigo, ela aproxima a lógica dos sistemas de reconhecimento facial da figura do personagem Frankenstein. “Você pega retalhos e monta uma pessoa”, explica. “Fragmenta o rosto e tenta contar a história de alguém apenas a partir daquilo.”

Ativismo e ética
Prestes a completar 31 anos, Nina da Hora se tornou uma das vozes mais conhecidas da discussão sobre tecnologia e racismo algorítmico no país. Colunista da MIT Technology Review Brasil, pesquisadora do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getúlio Vargas (FGV), integrante da comissão de tecnologia do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e fundadora do Instituto da Hora, ela construiu uma trajetória que atravessa ciência, ativismo e divulgação tecnológica.
Em poucos anos, acumulou reconhecimentos importantes. Em 2022, recebeu o CUBS Sabiá Award, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, pela pesquisa sobre racismo algorítmico no reconhecimento facial. Antes disso, entrou para a lista Forbes Under 30 e foi incluída entre as 100 mulheres mais relevantes do mundo em ética em inteligência artificial.
Embora hoje seja conhecida nas redes como “hacker antirracista”, a pesquisadora explica que sua trajetória passou menos pela invasão de sistemas e mais pela cibersegurança. Ela trabalhou com análise de hardware e investigação técnica de códigos, especialmente em projetos ligados às urnas eletrônicas e à transparência eleitoral nas eleições de 2022. “Eu trabalhei mais com hacker ético”, afirma. “Depois, os caminhos me levaram para a inteligência artificial e ‘hacker’ acabou virando mais um apelido”, conta.
Essa preocupação atravessa também sua atuação pública. Depois de integrar a Comissão de Transparência das Eleições de 2022, Da Hora volta a colaborar com o TSE, agora em discussões ligadas à inteligência artificial, plataformas digitais e regulação tecnológica. Ela acredita que as próximas eleições brasileiras serão profundamente impactadas pelo avanço da IA generativa. “Essa vai ser a eleição da inteligência artificial”, afirma. “Nós já temos dificuldade de diferenciar o que é real e o que não é. Isso vai aumentar muito nas campanhas.”
Segundo Da Hora, embora o TSE tenha aprovado regras para limitar determinados usos de IA durante o período eleitoral, ainda existem poucas ferramentas capazes de detectar manipulações em larga escala. “A disputa agora também acontece no campo da confiança”, observa. “As pessoas vão olhar vídeos, imagens, áudios, e muitas vezes não vão saber se aquilo aconteceu de verdade.”
Outro eixo importante de sua atuação está no Instituto da Hora, organização criada em 2020 para discutir direitos digitais, IA e soberania tecnológica a partir de perspectivas antirracistas. O instituto mantém projetos voltados à formação de jovens periféricos em segurança da informação e apoio a pessoas LGBTQIAPN+ interessadas em pesquisa e tecnologia. “A gente trabalha muito nesse momento do ‘pré’ e do ‘durante’ tentando ajudar as pessoas a chegar nesses espaços e permanecer neles.”


Fora do roteiro
Quando chegou à Unicamp, vinda da Baixada Fluminense (RJ), Da Hora carregava a sensação de estar em um território que, durante muito tempo, parecia não lhe pertencer. “Tinha um roteiro muito mais simples para a minha vida”, afirma. “Fazer pesquisa na Unicamp não fazia parte do roteiro.”
A pesquisadora aprendeu programação ainda adolescente no computador de uma tia e com materiais emprestados por amigos da mãe, a professora Ana Cláudia, que prestigiou a defesa do mestrado na Unicamp.
Antes de chegar ao curso de graduação em Ciência da Computação, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), conciliou estudos, trabalho e longos deslocamentos diários. Na faculdade, o choque social foi imediato. “Eu vivia em outra realidade, as pessoas perguntavam, por exemplo, por que eu trabalhava.”
Na Unicamp, o estranhamento voltou em outra escala. “É outro mundo ao quadrado”, afirma. “A Unicamp, para mim, tem uma diversidade muito maior do que outros espaços por onde passei. Ela é um mundo de oportunidades.”
Entre uma conferência internacional, experimentos computacionais e debates públicos sobre tecnologia, a pesquisadora tenta administrar a dimensão mais íntima de tudo o que conquistou nos últimos anos. “Se eu pudesse traduzir meu sentimento, é uma mistura de muito orgulho do que eu fiz e o medo de perder. Fiquei em alerta durante esses três anos.”
Depois da defesa, planeja descansar por algumas semanas antes de decidir os próximos passos do doutorado, possibilidade já discutida por grupos da própria Universidade. Enquanto fala sobre o futuro, Da Hora retorna várias vezes à ideia do improvável. Não como exceção individual, mas como abertura de caminhos. “Hoje eu encontro estudantes chegando na computação com os olhos brilhando”, conta. “E eu penso muito nisso, porque eu também não imaginava que conseguiria chegar aqui.”
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Pterossauros para jovens exploradores
Resultado de uma dissertação de mestrado em Ensino e História de Ciências da Terra defendida no Instituto de Geociências (IG) da Unicamp, o livro “Pterossauros para jovens exploradores” apresenta de forma didática a família desses lagartos alados, muitas vezes confundidos com dinossauros. Com orientação de Fresia Soledad Ricardi Torres Branco, a pesquisadora Cristiane Vigilato da Paixão desenvolveu um material didático como ferramenta para o ensino de paleontologia na educação básica. O livro, de 66 páginas, reúne os frutos de sua dissertação e 13 modelos de pterossauros para serem recortados e montados em formato de móbile.
Paixão é formada em Biologia pela Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP) e, durante a graduação, foi orientada por Ariel Milani Martine, que a coorientou no mestrado. Além do livro, junto a uma equipe, a pesquisadora elaborou um móbile, pendurado no teto do hall do IG, que foi pensado como uma árvore filogenética, com representantes das 13 famílias de pterossauros estudadas.
O livro, que traz as mesmas espécies do móbile, também apresenta conceitos de paleontologia e de evolução, mostrando onde esses seres habitavam e onde hoje são encontrados seus fósseis. “Há um pouco de biologia e de geologia”, explica Paixão. Segundo orientadora Fresia Ricardi, “um banner explicativo com QR Code ficará disponível na entrada principal do prédio para que as pessoas possam conhecer os pterossauros”. O material foi registrado na Biblioteca Nacional e tem direitos autorais reservados.


Ariel Martine foi responsável pela pintura dos pterossauros; Pábulo Matheus Domiciano, doutorando em Geociências no IG, fez as ilustrações; Bruno Belila Rusinelli elaborou os mapas do livro. Paixão ficou responsável por vetorizar os desenhos do mobile em AutoCad, que foram cortados no Laboratório Plasma, do Instituto de Física Gleb Wataghin.
Para produzir o móbile e imprimir o livro, a equipe coordenada por Fresia Ricardi obteve apoio da Pró-Reitoria de Pós-Graduação da Unicamp e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). “A coordenação do Programa de Pós-Graduação em EHCT colaborou para o sucesso da submissão do projeto de extensão junto à Capes”, reforça a orientadora. Assim, além da impressão do móbile em destaque no hall do IG, foi possível imprimir 200 exemplares que serão distribuídos. Uma versão online está disponível na Biblioteca Digital da Unicamp.
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Olimpíada Nacional em História do Brasil elege como tema as mulheres na ciência
Uma competição feita de documentos, imagens, mapas, debates e perguntas sobre o país e seu passado mobiliza um número recorde de 64.187 equipes espalhadas por escolas de todos os estados brasileiros. A 18ª Olimpíada Nacional em História do Brasil (ONHB), promovida pela Unicamp, iniciou sua nova edição nesta segunda-feira (5) com o tema “Mulheres cientistas, mulheres na ciência”, escolhido a partir da proposta do Ministério da Ciência e Tecnologia para 2026, que vai atravessar as diferentes fases da competição.
“Todo ano escolhemos um eixo de reflexão”, afirma a coordenadora da ONHB, a historiadora Cristina Meneguello, professora do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH). “Neste ano vamos discutir, em diferentes momentos da prova, o lugar das mulheres na ciência. Abraçamos a proposta por considerar a temática fundamental. Mais do que recuperar trajetórias do passado, o tema convida os participantes a refletir sobre a dimensão histórica das mulheres na ciência e, ao mesmo tempo, a lançar o olhar para o presente, para as cientistas em formação, as que já atuam na área, ou aquelas que sonham em um dia tornarem-se cientistas.”

O professor Luiz Estevam de Oliveira Fernandes, também do IFCH e da coordenação do projeto, ressalta que a escolha do tema é mais do que oportuna: “É um debate muito importante para nossa sociedade, na qual as cientistas ainda estão subvalorizadas no acesso às posições mais altas da carreira ou no peso da dupla jornada enfrentada, para cuidar da casa e da família”, afirma.
Criada em 2009 por docentes do Departamento de História do IFCH, a ONHB transformou-se em um projeto nacional. Do total de equipes inscritas em 2026, 22.455 pertencem ao ensino fundamental e 41.732 ao ensino médio. O número representa um salto significativo em relação à edição anterior, que contou com 57.100 equipes, um crescimento que impressiona a coordenação. “A cada edição a gente se surpreende”, afirma a historiadora. “No ano passado foram cerca de 225 mil participantes e, desta vez, chegamos a 250 mil. Nosso projeto é hoje o maior projeto de divulgação científica em ciências humanas do país e, sem dúvida, a maior ação de extensão da Unicamp em alcance na educação básica.”
Debate coletivo
A primeira fase da ONHB segue aberta até sábado (9), às 23h59. Depois dela, os participantes enfrentarão outras quatro etapas online até a grande final presencial, marcada para 29 e 30 de agosto, na Unicamp.
As provas combinam questões de múltipla escolha e tarefas investigativas construídas a partir da análise de documentos históricos, fotografias, obras de arte, mapas, notícias, relatos e diferentes tipos de fontes. História do Brasil, literatura, geografia, patrimônio cultural, arqueologia e atualidades se cruzam em uma proposta interdisciplinar que privilegia interpretação e construção de argumentos.
“O formato aproxima os estudantes da prática da pesquisa acadêmica”, diz Meneguello. “As questões trabalham interpretação, contextualização histórica e colaboração. A gente percebe que a Olimpíada desperta talentos.”
Entre as novidades da edição de 2026 está a entrada oficial dos estudantes do 7º ano. Antes, a participação era restrita aos alunos do 8º e 9º anos do Ensino Fundamental e de todo o Ensino Médio. A mudança responde a uma demanda antiga das escolas e dos próprios estudantes. “Na prática, os alunos do sétimo ano já acompanhavam as provas informalmente. Agora, eles passam a receber certificado e entram mais cedo em contato com a Olimpíada.”
Outra mudança importante é a criação de uma etapa estadual online, que premiará estudantes com medalhas de ouro e prata em cada estado. A ideia amplia o reconhecimento dos participantes e cria novas formas de valorização regional. “Nosso sonho era criar uma fase estadual presencial, mas seria impossível corrigir esse volume de provas”, conta a coordenadora. “Mesmo online, ela é importante porque amplia o reconhecimento dos estudantes e valoriza o desempenho regional.”


Após as etapas online, cerca de 1.200 estudantes participarão da grande final. E é durante a cerimônia de encerramento que eles descobrem, diante dos colegas e professores, quem receberá as medalhas nacionais. “Tem choro, comemoração, abraços. Depois de 18 anos, eu ainda me emociono”, ressalta a coordenadora.
Desde 2024, estudantes de escolas públicas participam gratuitamente da edição escolar da olimpíada. Em paralelo, a ONHB mantém a modalidade “ONHB Aberta para Todos”, criada em 2021 e destinada ao público com mais de 12 anos. A competição é realizada com apoio do Departamento de História da Unicamp, do Serviço de Apoio ao Estudante (SAE) e da Associação Nacional de História (Anpuh). A organização reúne docentes universitários, estudantes de graduação, mestrandos e doutorandos.
A ONHB também integra o programa Vagas Olímpicas da Unicamp. Dependendo do desempenho na competição, estudantes podem disputar vagas em cursos de graduação sem necessidade de vestibular. Hoje, as medalhas da ONHB são aceitas em 53 cursos de graduação em São Paulo.
Estratégia de financiamento
Neste ano, a Olimpíada enfrentou um cenário de incerteza financeira. Pela primeira vez, desde sua criação, não houve abertura do edital do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) destinado às olimpíadas científicas. “O edital sempre foi fundamental para nós”, afirma Meneguello. “Não foi apenas a nossa olimpíada que ficou sem recursos. Isso afetou todas as olimpíadas científicas do país.”
Segundo ela, a equipe precisou recorrer a emendas parlamentares e ampliar estratégias de financiamento para garantir a continuidade do projeto. “Quando você mantém um projeto há 18 anos, não pode deixá-lo morrer por falta de verba”, resume. “É um projeto bonito demais. No curso de História da Unicamp, por exemplo, quando pergunto no primeiro dia de aula quem participou da olimpíada, quase todo mundo levanta a mão.”
Calendário da ONHB 2026
Primeira fase: de 4 a 9 de maio
Segunda fase: de 11 a 16 de maio
Terceira fase: de 18 a 23 de maio
Quarta fase: de 25 a 30 de maio
Quinta fase (final estadual e semifinal nacional): de 8 a 13 de junho
Divulgação das equipes classificadas para a final nacional presencial: 19 de junho
Divulgação das equipes medalhistas estaduais: 26 de junho
Envio dos certificados de premiação estadual: a partir de 15 de outubro
Grande final presencial na Unicamp
Prova: 29 de agosto
Cerimônia de premiação: 30 de agosto
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Qualidade de vida que pulsa pelos caminhos ao ar livre
Qualidade de vida que pulsa
pelos caminhos ao ar livre
Praças convidam a pequenas pausas, e áreas verdes servem de abrigo, respiro e oportunidade para praticar atividade física

Para quem chega, é o corpo que percebe primeiro. Ao cruzar as entradas da Unicamp no campus de Barão Geraldo, mais do que prédios e salas de aula, entre a natureza e o movimento, são os caminhos arborizados que convidam a pequenas pausas. Nesse instante inaugural, antes de oferecer conhecimento, a Universidade pulsa como abrigo e respiro.
Em meio ao concreto, o campus se afirma como uma “ilha verde”. Vista do alto, a área da Unicamp se desenha como uma natureza que resiste; ao nível do chão, esse traço se transforma em experiência, com saguis nas copas das árvores e o canto das aves que, por instantes, suspende o ruído da cidade. Ao longo do dia, a Universidade se reinventa nos usos. Os parques se tornam trajetos de caminhada e corrida no final da jornada diária; bicicletas cruzam as vias em fluxo contínuo e, sob as árvores, grupos se reúnem em piqueniques improvisados.
Parte desse cenário é resultado de um trabalho contínuo de gestão ambiental, que envolve desde o cuidado com animais até o planejamento das áreas verdes e a preservação da biodiversidade. O prefeito universitário, Juliano Finelli, ressalta que, além de garantir o funcionamento do campus, a Prefeitura foca na qualidade de vida da comunidade. “A nossa preocupação é oferecer um ambiente acolhedor, seguro e agradável, onde as pessoas possam viver o campus, circular, estudar, trabalhar e conviver.”




Entre institutos e vias, a vegetação compõe um mosaico de origens diversas, com espécies da Mata Atlântica e do Cerrado, que convivem com árvores trazidas de outros territórios ao longo das décadas. Ipês que explodem em cor, jerivás que se erguem esguios, pitangueiras e mangueiras, além de muitas outras árvores frutíferas, oferecem frutos e sombra.
Maria Gineusa de Medeiros e Souza, coordenadora da Divisão de Meio Ambiente da Prefeitura Universitária, destaca que a Universidade mantém um levantamento sistemático da fauna e flora. Mas ressalta que, mais do que infraestrutura, o campus também desperta vínculos afetivos. “As árvores, por exemplo, compõem uma paisagem que carrega histórias.”
Pelo menos 17 mil árvores ocupam ruas, praças e unidades de ensino que, junto com os cerca de 500 mil metros quadrados de áreas de preservação ambiental, fazem da natureza uma presença constante que molda o clima, o ar e a forma como se habita o espaço. Segundo a coordenadora de serviços das áreas verdes da Prefeitura Universitária, Camila Alonso Santos, as áreas de preservação permanente estão consolidadas, mas exigem cuidados e planejamento. “Esses espaços são essenciais para a fauna silvestre, que circula por todo o campus. A diversidade de árvores e de abrigo também favorece a permanência da fauna, mesmo em um ambiente urbano.”
Da fauna silvestre, aves, insetos e pequenos mamíferos encontram abrigo e alimento nas áreas verdes. Nas partes preservadas e no entorno, surgem sinais de presenças mais discretas: veados, cachorros-do-mato e até rastros de passagem da tão temida onça, já flagrada pelas câmeras de monitoramento. Mais do que apenas refúgio, o campus é um corredor ecológico que permite que a vida circule.


Floresta urbana
Aproximadamente 10 mil árvores do campus já foram cadastradas em um sistema acessível ao público, por meio do site Floresta Urbana Dentro do projeto está o Pomar da Unicamp, criado em outubro de 2025 pelo servidor público e ambientalista Helio Cavalheri Jr., com o apoio da Prefeitura Universitária. Mais do que um simples catálogo, a plataforma foi concebida como uma ferramenta de educação ambiental, voltada à divulgação das espécies frutíferas existentes no campus.
Antes de se tornar projeto, site e mapeamento, no entanto, tudo começou pelo encantamento. Para Cavalheri Jr., a relação com a Unicamp nasceu do olhar, e esse olhar foi imediatamente atraído pelas árvores. Quando ingressou pela primeira vez na Universidade, em 2012, o que mais o impressionou não foram os prédios ou as vias do campus, mas a quantidade e a diversidade de espécies encontradas pelo caminho, especialmente as frutíferas. “Assim que eu pisei aqui, a primeira coisa que me encantou foi a diversidade gigantesca de espécies, muitas das quais eu só tinha visto em livro.” O fascínio nasceu nos trajetos mais simples, nas caminhadas até o Restaurante Universitário, durante o horário de almoço.
Cavalheri Jr. deixou a Universidade em 2016, mas, sete anos depois, estava de volta e retomou sua pesquisa pessoal, que deu origem ao projeto Floresta Urbana. O trabalho, iniciado de forma independente, ganhou continuidade e avança sistematicamente, mapeando as árvores do campus de Barão Geraldo e se estendendo aos campi de Limeira e Piracicaba.

Em uma das primeiras ações do projeto, Cavalheri Jr. transformou a curiosidade em experiência compartilhada. Criou plaquetas com QR codes e as instalou junto às árvores, de modo que qualquer pessoa pudesse, ao apontar o celular, descobrir a história daquela espécie — seu nome, origem, se era nativa ou exótica, e até se oferecia frutos comestíveis. O gesto, inicialmente feito de forma artesanal e com recursos próprios, tornou-se o embrião do sistema de mapeamento que hoje se expande pelo campus.
Entre todas as espécies, são as frutíferas que ocupam um lugar especial em sua memória e em sua paixão. Ao descrever a ameixa-da-mata, por exemplo, ele prefere traduzi-la em experiência: o sabor, diz, lembra uma mistura de jabuticaba com pitanga. Esse vínculo também se expressa no cuidado cotidiano. Preocupado com árvores que vinham sendo danificadas pela roçadeira durante a manutenção das áreas verdes, ele decidiu agir por conta própria, abrindo espaço ao redor dos troncos e protegendo espécies nativas e frutíferas.
Mais do que frutos, ele enxerga nessas árvores uma forma de educação ambiental e de pertencimento. “Quando a pessoa sabe que aquela é uma espécie frutífera, nativa, importante para os pássaros e para os mamíferos, ela passa a olhar diferente”, afirma. Ao percorrer o campus, Cavalheri Jr. observa não apenas a presença das árvores, mas a vida que elas sustentam. Frutíferas como grumixama, cajá-manga, tamarindo, abiu e ameixa-da-mata atraem pássaros, saguis e outros animais. “Onde tem fruta, tem vida.”

Os vários modos de habitar o espaço


A natureza convida à pausa, e o corpo em movimento prolonga essa experiência. Caminhar, correr ou pedalar deixam de ser apenas deslocamento para compor os modos de habitar o espaço. É nesse território entre o cotidiano e suas possibilidades que a Diretoria de Esportes da Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (Proeec) busca atuar.
Mais do que ampliar a oferta de atividades, o desafio está em transformar a relação da comunidade com o campus e fazer com que ele seja vivido também como lugar de cuidado e bem-estar. “A ideia é que as pessoas se apropriem do campus como um espaço para prática de atividade física e lazer”, destaca o diretor de Esportes da Proeec, Renato Barroso da Silva.

“O campus não é só um lugar para estudar e ir embora. Ele pode ser um espaço de convivência, de qualidade de vida. Hoje, esse uso já existe, mas de forma dispersa, e permanece como gesto individual, não plenamente incorporado à cultura universitária”, ressalta.
O engajamento segue como um dos principais desafios. “Não é falta de interesse, mas muitas vezes as pessoas não se veem nesses espaços ou não sabem que podem participar”, avalia. Apesar das dificuldades, a expectativa é de avanço gradual na consolidação de uma política esportiva mais abrangente na universidade. “Estamos construindo isso aos poucos, tanto do ponto de vista institucional quanto cultural”, conclui.

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Projeto leva diversidade da música popular brasileira à Itália
Quatro professores do curso de música do Instituto de Artes (IA) embarcam para a Itália levando na bagagem um projeto inédito que mistura performance, escuta e reflexão crítica em torno da música popular brasileira, tratada como campo de criação, história e pensamento. A iniciativa reúne a cantora Regina Machado, a pianista Thaís Nicodemo, o baterista Leandro Barsalini e o contrabaixista José Alexandre Carvalho em uma programação que inclui aulas, concerto e palestras em Frosinone e Roma, nos dias 25 e 29 de maio.
O ponto de partida foi um convite simples, quase pontual, feito para Machado pela cantora e professora italiana Susanna Stivali: ministrar aulas de canto no Conservatorio di Musica Licinio Refice di Frosinone, a cerca de uma hora de Roma. Mas a ideia se expandiu. “Eu recebi o convite e pensei: vou, claro, mas podemos fazer algo maior. A proposta acabou se tornando uma semana inteira dedicada à música popular brasileira, fora dos formatos já estabelecidos de congressos e eventos acadêmicos”, conta.
No conservatório de Frosinone, onde o ensino musical se organiza com estatuto de universidade e forte ênfase na performance, o encontro se dará sobretudo no território do som. Pela manhã, cada professor trabalhará com os alunos em seu instrumento; à tarde, as vozes e os instrumentos se reúnem em torno de um repertório construído em conjunto, na experiência compartilhada do fazer musical. No dia 27, esse percurso se abre ao público em forma de concerto, incorporando também os alunos italianos.
A escolha do repertório reflete uma preocupação central do projeto: apresentar a diversidade da música popular brasileira para além dos recortes mais difundidos internacionalmente. Obras de Tom Jobim, Gilberto Gil, Chico Buarque e Cartola estão previstas, mas não como fim em si mesmas. “Lá fora, a principal referência ainda é a bossa nova, porque ela teve uma internacionalização muito forte”, observa Machado. “Mas a gente quer ampliar esse horizonte, mostrar outros gêneros, como o samba e o baião. A ideia é fazer uma espécie de amostragem dessa música que se consolidou ao longo do século 20 e que hoje é matéria de estudo.”


Essa ideia de “matéria” como algo que se investiga, se transmite e se transforma atravessa todo o projeto. Em Roma, onde os professores participam de atividades na La Sapienza Università di Roma, a música se desloca para a palavra. Ali, o grupo chega como convidado do professor e pesquisador Luca Bacchini, ligado a um departamento dedicado aos estudos interculturais e brasileiros. “O professor que nos convidou é um brasilianista com vários trabalhos sobre a canção brasileira. É um campo de estudo consolidado”, aponta Machado.
Cada docente da Unicamp apresentará uma palestra, expandindo em reflexão aquilo que se experimenta na prática. Machado enfocará a voz, suas formas, suas sonoridades, aquilo que se construiu historicamente e ainda ressoa. “A voz na canção brasileira foi se definindo ao longo do século 20 e isso constitui uma linguagem, uma estética, um campo de pesquisa”, explica.
Barsalini aponta a bateria como eixo para pensar uma tensão mais ampla. “Quero discutir a relação entre tradição e modernidade a partir da presença da bateria, observar como ela aparece em diferentes momentos históricos e o que isso revela sobre transformações da linguagem.”
Se a bateria tensiona, o piano, na leitura de Thaís Nicodemo, atravessa. “Eu penso o piano como um mediador cultural”, define. Historicamente associado a espaços de prestígio e à tradição europeia, o instrumento, no Brasil, desce às ruas, sobe o morro, infiltra-se no samba. “Ele cria uma ponte entre universos distintos”, afirma. “Não está apartado da música popular, pelo contrário, participa ativamente de sua construção, muitas vezes como elemento de modernização.”
Na base de tudo, sustentando e articulando essas camadas, está o trabalho de Carvalho, que abordará o acompanhamento, sobretudo no samba e no choro. “Quero mostrar como os instrumentos constroem essa base para que a música aconteça”, explica.
As quatro abordagens, distintas em seus focos, convergem em um ponto essencial: a recusa de separar prática e pensamento. “A gente trabalha com a ideia de que a performance e a reflexão crítica caminham juntas”, ressalta Barsalini. “Isso faz parte da própria história da música popular brasileira.”
Essa convergência também resulta de uma formação comum, construída ao longo de décadas na Unicamp. “Somos fruto de um trabalho que começou há 15, 20 anos, com professores que criaram grupos de pesquisa e trouxeram uma leitura mais crítica e multidisciplinar da música”, acrescenta o baterista.


Memória e afirmação
No contexto dos 60 anos da Unicamp, comemorados em 2026, a viagem assume também um caráter simbólico, como um gesto de memória e afirmação. Ao levar essa perspectiva para fora do país, o grupo reafirma a própria história da Universidade, que, em 1989, criou o primeiro curso de graduação em música popular em uma universidade pública brasileira. “Não é trivial”, lembra Machado. “É o reconhecimento de que essa música tem uma importância cultural enorme, não só para o Brasil, mas para o mundo.”
Ao longo do tempo, o curso foi se transformando, equilibrando diferentes demandas e visões. Se, em sua origem, privilegiava a formação crítica de músicos já atuantes, incorporou progressivamente a dimensão da performance e expandiu sua atuação para a pós-graduação. “A performance está consolidada”, observa Barsalini. “Agora a gente busca fortalecer novamente a formação crítica.”
A música popular brasileira se constrói muitas vezes fora dos modelos formais de ensino, em práticas coletivas, na oralidade e na circulação entre espaços. “Ela envolve a roda, a convivência, a troca”, diz Nicodemo. “E nem sempre isso se encaixa nas estruturas tradicionais da universidade.” Há lacunas a serem enfrentadas, como a presença tímida de instrumentos ligados às tradições populares, como pandeiro e cavaquinho, no ambiente acadêmico. “São caminhos que ainda precisamos abrir”, reconhece Barsalini.
Se a viagem aponta para esses desafios, ela também revela possibilidades. O interesse pela música brasileira no exterior, concordam os professores, é intenso e consistente. “Às vezes maior do que aqui”, observa Machado. O departamento que os recebe em Roma é um exemplo desse campo de investigação que se consolida fora do país, impulsionado por pesquisadores e artistas que veem na canção brasileira um território fértil de análise.
A expectativa é que o projeto não se encerre em si mesmo. Já há articulações para a vinda de professores italianos à Unicamp e para a construção de programas de intercâmbio que incluam estudantes. “A ideia é criar um fluxo. Levar e trazer, estabelecer vínculos”, completa Carvalho.
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A representação nipo-brasileira na cultura vista pela literatura de Oscar Nakasato
Quem conta o Brasil – e, sobretudo, quais histórias permanecem à margem das narrativas mais difundidas no país – é uma das questões que atravessam as reflexões do escritor e professor Oscar Nakasato. Ao iniciar, em maio, uma residência artística no Instituto de Estudos Avançados (IdEA) da Unicamp, o autor retoma um tema recorrente em sua obra: a presença ainda restrita de experiências nipo-brasileiras na literatura e em outras formas de produção cultural. Para ele, essa ausência não é casual, mas sintoma de um processo mais amplo de construção do imaginário nacional.
Segundo Nakasato, embora haja sinais de mudança nos últimos anos, a incorporação desse universo permanece limitada e desigual, especialmente quando se observa sua circulação em diferentes linguagens. A literatura, o cinema e a televisão ainda oferecem poucos espaços consistentes para personagens e narrativas nipo-brasileiras, o que contribui para uma visibilidade fragmentada. “Que o universo nipo-brasileiro faça parte do audiovisual, do cinema, da televisão, enfim, isso ainda é bastante incipiente”, afirma, ao destacar que essa lacuna atravessa não apenas a produção artística, mas também os circuitos de difusão cultural.

Essa condição, para o autor, evidencia os limites históricos da representação no Brasil, onde determinadas experiências permanecem sub-representadas mesmo quando possuem relevância social e histórica. A presença japonesa no país, iniciada no início do século XX e profundamente enraizada em diferentes regiões, nem sempre se traduz em protagonismo narrativo. Nesse sentido, a escassez de personagens nipo-brasileiros aponta para uma seleção implícita do que merece ser contado — e do que tende a ser silenciado ou secundarizado.
Ao mesmo tempo, Nakasato reconhece que há um movimento gradual de ampliação dessas narrativas, impulsionado por novas produções e por uma maior diversidade de vozes no campo cultural. Ainda que esse avanço seja desigual, ele indica uma abertura crescente para histórias que antes encontravam pouca ressonância nos espaços mais visíveis. Trata-se, segundo o escritor, de um processo em construção, que depende tanto da produção de novas obras quanto da transformação dos critérios de legitimação no campo artístico.
A discussão sobre representação se articula diretamente com a questão da identidade, especialmente quando se observam as mudanças nas novas gerações de descendentes de japoneses no Brasil. Para Nakasato, a relação com a cultura de origem tornou-se mais difusa, marcada por distanciamentos e reinterpretações. “Grande parte dos nipo-brasileiros hoje se reconhece absolutamente como brasileira”, afirma, ao indicar que elementos da cultura japonesa persistem, mas de forma mais fragmentada e menos central na vida cotidiana.
Essa reconfiguração não implica o desaparecimento da identidade nipo-brasileira, mas sua transformação ao longo do tempo, em diálogo com processos históricos, sociais e culturais mais amplos. A identidade, nesse sentido, deixa de ser compreendida como uma herança estática e passa a ser vista como um campo dinâmico, atravessado por deslocamentos, negociações e ressignificações. Essa perspectiva permite compreender a experiência nipo-brasileira para além de estereótipos, reconhecendo sua complexidade e suas múltiplas camadas.
Essas questões estão no centro de Nihonjin, romance publicado há mais de uma década e responsável por projetar nacionalmente a obra de Nakasato. Ao revisitar o livro, o autor observa que os dilemas de pertencimento que estruturam a narrativa permanecem atuais, ainda que se manifestem de maneiras distintas no presente. A obra, que acompanha a trajetória de uma família de imigrantes japoneses no Brasil, articula memória individual e experiência coletiva para explorar os conflitos e as tensões envolvidos na construção da identidade.


Memória e ficção em Nihonjin
Desde sua publicação, Nihonjin tem sido lido não apenas como um relato sobre a imigração japonesa, mas como uma reflexão mais ampla sobre deslocamento, adaptação e pertencimento. Nesse sentido, o romance dialoga com outras experiências migratórias e com os desafios de inserção em contextos culturais distintos. Para Nakasato, essa dimensão mais ampla contribui para a permanência da obra, que continua a suscitar interpretações à medida que novas gerações se deparam com questões semelhantes sob outras circunstâncias.
O interesse do autor por essas temáticas se estende a seus projetos mais recentes, entre eles um novo romance centrado na experiência dos chamados decasséguis (brasileiros descendentes de japoneses que migraram para o Japão em busca de trabalho). Nesse caso, a narrativa se volta para o retorno ao Brasil e para o sentimento de deslocamento que acompanha esse movimento. “O protagonista é alguém que passa décadas no Japão e, ao voltar, sente-se perdido. É a questão da identidade mesmo”, explica, ao indicar a persistência do desenraizamento.
A experiência dos decasséguis, segundo o escritor, evidencia uma forma particular de deslocamento, marcada por uma dupla pertença que nem sempre se resolve de maneira harmoniosa. Ao retornar ao Brasil, esses indivíduos frequentemente se veem entre dois mundos, sem se reconhecer plenamente em nenhum deles. Essa condição liminar reforça a ideia de que a identidade é um processo em constante construção, influenciado por trajetórias individuais e por contextos históricos mais amplos.
Na elaboração de suas narrativas, Nakasato recorre a uma combinação de memória pessoal, experiência familiar e pesquisa histórica, articulando diferentes níveis de realidade na construção ficcional. “É uma história que inventei, mas com base na memória da minha família e na memória coletiva”, afirma. Esse procedimento permite ao autor criar personagens e situações que, embora fictícios, dialogam diretamente com experiências compartilhadas por diferentes grupos.
Entre memória e história
O trabalho com a memória envolve também a recuperação de episódios históricos pouco difundidos, como momentos de preconceito e exclusão enfrentados por imigrantes japoneses no Brasil, especialmente durante períodos de tensão internacional. Ao trazer esses elementos para a ficção, o autor contribui para ampliar o conhecimento sobre aspectos menos visíveis da história nacional, ao mesmo tempo em que problematiza como esses episódios são lembrados — ou esquecidos.
A circulação dessas narrativas por outras linguagens amplia ainda mais seu alcance e potencial de impacto. A adaptação de Nihonjin para o audiovisual, por meio da animação Eu e meu avô japonês, exemplifica esse processo. Para Nakasato, não se trata de reproduzir a obra original, mas abrir espaço para transformações que respondem às especificidades de cada linguagem. “Mais do que uma adaptação, foi uma inspiração”, afirma.
Esse trânsito entre literatura e audiovisual possibilita atingir públicos distintos e explorar novas formas de narrar experiências já abordadas em outros contextos. Ao mesmo tempo, reforça a ideia de que a representação da identidade nipo-brasileira não se esgota em um único formato, podendo se expandir por diferentes meios e linguagens. Essa multiplicidade contribui para diversificar as formas de percepção e interpretação dessas narrativas.
Ao abordar a presença ainda incipiente de personagens nipo-brasileiros na produção cultural, Nakasato chama a atenção para um problema que ultrapassa o campo literário e se insere em uma discussão mais ampla sobre representação no Brasil. A ampliação dessas narrativas, segundo ele, depende não apenas da produção de novas obras, mas também da disposição do público e das instituições em reconhecer e valorizar essas histórias.
Nesse contexto, a literatura surge como um espaço privilegiado para tensionar as formas estabelecidas de representação e para abrir caminho a outras perspectivas. Ao colocar em circulação experiências historicamente menos visíveis, ela contribui para ampliar o repertório simbólico do país e para complexificar a compreensão sobre sua diversidade. Mais do que preencher lacunas, trata-se de reconfigurar os modos de narrar e de perceber a realidade brasileira.

Confira a programação completa:
13 de maio, 19h
Palestra de abertura: A incipiência de personagens nipo-brasileiros na produção ficcional
Anfiteatro do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp (IEL) | R. Sérgio Buarque de Holanda, 571
14 de maio a 01 de julho, diversos horários
Oficina de criação literária (ficção) com Oscar Nakasato | turma A
Instituto de Estudos Avançados da Unicamp (IdEA) | Av. Oswaldo Cruz, 301, Cidade Universitária
14 de maio a 01 de julho, diversos horários
Oficina de criação literária (ficção) com Oscar Nakasato | turma B
Instituto de Estudos Avançados da Unicamp (IdEA) | Av. Oswaldo Cruz, 301, Cidade Universitária
15 de maio, 14h
Conversa com Lúcia Hiratsuka: O que se diz com palavras e traços
Anfiteatro do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp (IEL) | R. Sérgio Buarque de Holanda, 571
02 de junho, 09h
Debate e exibição da animação “Eu e meu avô japonês”
Espaço Cultural Casa do Lago da Unicamp | Avenida Érico Veríssimo, 1011, Cidade Universitária Zeferino Vaz
03 de junho, 19h
Anfiteatro do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp (IEL) | R. Sérgio Buarque de Holanda, 571
02 de julho, 19h
Mesa redonda: identidade nipo-brasileira na cultura
Anfiteatro do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp (IEL) | R. Sérgio Buarque de Holanda, 571
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Arte que pulsa para tocar corações e mentes
Arte que pulsa para tocar corações e mentes
Entre espetáculos, encontros e percursos cotidianos, Universidade transforma a experiência cultural em parte da própria produção de conhecimento

No caminho entre uma aula e outra, o estudante, quase sem perceber, desacelera. Um som escapa de um ensaio ao longe, uma arte em uma parede atrai a vista, uma escultura no jardim interrompe o olhar automático de quem só queria chegar. O trajeto se transforma, e já não é apenas deslocamento, mas encontro. Na Universidade, a cultura não se limita a salas, palcos ou horários. Ela circula, ocupa os intervalos, faz pulsar corações e mentes. Mas essa rede de experiências não alcança todos da mesma maneira e nem sempre é compreendida em toda a sua diversidade. Ainda existem distâncias: de acesso, de repertório e, muitas vezes, de reconhecimento.
À frente da Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura da Unicamp (Proeec), a pró-reitora Sylvia Furegatti, escultora e professora de Artes Visuais no Instituto de Artes (IA), destaca que o próprio formato do campus de Barão Geraldo favorece a dinâmica da articulação entre cultura e extensão, que tem sido um dos eixos centrais da gestão, inclusive nos campi de Limeira e Piracicaba. “Trabalhamos para que essas dimensões se encontrem. Um projeto de saúde pode ter aspectos culturais, assim como uma ação cultural também dialoga com a sociedade”, explica.
A presença da arte no espaço cotidiano é uma frente em expansão. “A ideia é criar encontros inesperados”, aponta. Projetos como o Arte no Campus e o jardim de esculturas do Instituto de Artes (IA) buscam integração ao percurso diário. Mais do que montar instalações permanentes, a proposta é pensar o espaço como algo vivo, “um lugar de atravessamento, de convivência, de novas interações”.

No ano passado, o Arte no Campus entrou em uma nova fase, com a instalação de duas obras de artistas mineiros: uma escultura de ferro de Leandro Gabriel, no centro da revitalizada praça Milton Santos, e a peça “Sentinela”, de Jorge dos Anjos, produzida com chapa de aço, que passou a ocupar um espaço no gramado do Restaurante Universitário (RU).” O campus de Limeira será o próximo a receber uma escultura, ainda em 2026”, adianta a pró-reitora.
Iniciativas como o Cine Cult e o Palco DCult ampliam o acesso a diferentes linguagens, tanto em espaços fechados quanto em áreas abertas do campus. A proposta, segundo Furegatti, é criar uma agenda diversa e contínua, capaz de oferecer múltiplas possibilidades de escolha ao público. “A Universidade precisa ter uma programação maior do que a capacidade individual de absorção. As pessoas escolhem, se identificam com uma linguagem, e isso também faz parte da experiência cultural.”
Essa lógica se desdobra em diferentes escalas, da formação de estudantes e produção artística interna à circulação de obras e artistas externos. Editais, parcerias e eventos de maior porte contribuem para projetar a Unicamp em circuitos mais amplos, ao mesmo tempo em que fortalecem a produção local, tanto em Barão Geraldo quanto nos campi de Limeira e Piracicaba. A Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA), por exemplo, organiza todos os anos o evento Primavera Cultural e Literária, cuja terceira edição, em novembro do ano passado, teve como objetivo a democratização da cultura em Limeira, além do incentivo à leitura e a integração com a comunidade.

“Trabalhamos com um sentido bastante ampliado de cultura”, destaca Eduardo Okamoto, que comanda a Diretoria de Cultura (DCult) da Unicamp. “Ela envolve as artes, mas também o comportamento, o convívio, as formas de estar junto.” É nesse território ampliado que a cultura se conecta diretamente à produção de conhecimento. “A inovação se produz no ambiente da cultura”, observa Okamoto. “A gente precisa de imaginação para pensar o novo, e essa imaginação se alimenta dos encontros, muitas vezes fora dos laboratórios.”
Esses encontros nem sempre são planejados. Podem surgir, por exemplo, no impacto de um concerto da Orquestra Sinfônica da Unicamp, no corpo em movimento ao participar de uma oficina, na atenção silenciosa diante de uma cena teatral. São momentos breves, às vezes quase invisíveis, mas que deixam marcas. “A pessoa volta diferente”, resume o diretor. “A cultura fertiliza o pensamento.”
Em um tempo marcado por distâncias e fragmentações, “precisamos reconstruir o convívio”, afirma Okamoto. “A cultura pode ser esse espaço seguro onde as pessoas se encontram e voltam a dialogar. Sentar-se em uma plateia, dividir o silêncio, reagir junto. Gestos simples que, pouco a pouco, reconstroem o tecido coletivo.”
No centro desse movimento, o Teatro de Arena se destaca como ponto de convergência. Aberto, atravessado por fluxos, ele, materializando uma ideia simbólica: a de que o coração da vida universitária pode ser um espaço de encontro e expressão. “É curioso pensar que o centro da nossa ‘pólis’ é um teatro”, ressalta.
Entre palcos e passagens, entre o previsto e o inesperado, a cultura na Unicamp não se impõe, ela acontece. E, ao acontecer, desloca, provoca, transforma. Como um gesto quase invisível que, de repente, muda a forma de ver, de pensar, de estar no mundo.


Paredes que falam
Nos corredores, escadarias e fachadas do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), as paredes falam. Grafites, pichações, murais e inscrições espontâneas formam camadas de memória, expressão e conflito que transformam o campus em um espaço vivo de leitura e pertencimento.
“A parede é incontrolável. Gostamos de falar que as paredes têm ouvidos, mas, no caso das nossas, elas têm boca e falam muito. As paredes falam aquilo que está pulsando fora do controle da Universidade”, destaca Josianne Cerasoli, professora do IFCH.


Ao percorrer o prédio, a sensação é de que cada parede acumula tempos distintos. Uma palavra reaparece em outro muro. Um símbolo resiste sob novas camadas de tinta. Um desenho conhecido ressurge em outro corredor. “É muito interessante passar pelas paredes não tentando fazer um juízo de valor, mas buscando de fato dialogar com aquilo que elas estão dizendo”, observa Cerasoli. “Elas expressam muita coisa. São muitos tempos colocados nessas mesmas paredes, então são muitas vozes.”
Durante eventos como o Universidade de Portas Abertas (UPA), as paredes do IFCH também se tornam pontos de identificação para os visitantes, especialmente os mais jovens. “Os adolescentes chegam impactados pelas paredes”, relata a professora. “Muitos reconhecem os artistas que estão ali, especialmente nas manifestações ligadas ao hip-hop. Dizem: ‘Esse fulano eu conheço’. E se surpreendem ao perceber que podem estar ao lado da arte de alguém que admiram.” Para Cerasoli, esse encontro ajuda a aproximar a Universidade da comunidade. “Olhar para as paredes sem o sentido de ficar isolado do mundo pode abrir portas.”
Um projeto desenvolvido no Instituto propõe justamente esse exercício: desacelerar o olhar e perceber as intervenções urbanas como linguagem, história e presença. A iniciativa, que surgiu a partir de uma disciplina voltada ao patrimônio e se tornou uma ação de extensão, envolveu o mapeamento e a investigação das obras espalhadas pelo prédio.
“O trabalho de extensão surgiu como um desdobramento da disciplina de patrimônio”, explica Luana Espig Regiani, doutoranda do IFCH, que contou com os estudantes Kelly Leme de Proença e Max Nascimento da Silva, autores do trabalho que deu origem ao projeto. “A ideia começou com o mapeamento dos murais do IFCH e, a partir disso, percebemos que o trabalho iria além, porque o Instituto tem essa característica muito forte de ser um museu a céu aberto, com tantas manifestações artísticas.”

A partir do mapeamento inicial, os estudantes e pesquisadores passaram a identificar, catalogar e investigar as histórias por trás das obras: os eventos em que foram produzidas, os artistas envolvidos e os sentidos que circulam entre elas. “Trabalhamos na identificação, no mapeamento e na seleção dessas obras para entender quais histórias estavam por trás delas, em que eventos foram feitas e quem são os artistas”, explica Regiani.
Entre as obras mapeadas, um dos murais de maior impacto é o que dialoga com a cultura e a luta indígena, funcionando também como memorial. “Essa obra traz também uma homenagem a uma aluna indígena do campus que faleceu e que está representada ali”, contou Regiane. Segundo Regiani, a obra mobiliza diferentes leituras e provocações. “Para a comunidade indígena, ele tem uma questão muito forte de representatividade e reconhecimento.”

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Marcos Nobre lança livro ‘Os arquivos da Teoria Crítica’
Nesta quarta-feira (29), o professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp Marcos Nobre lança o livro Os arquivos da Teoria Crítica. O evento ocorre no Sesc Campinas, às 19h30. A obra, organizada por Nobre e pela professora da Universidade de Paris 1 Panthéon-Sorbonne Isabelle Aubert, reúne análises de pesquisadores sobre os arquivos de intelectuais da Teoria Crítica, corrente de pensamento fundada oficialmente em 1934 pelo Instituto de Pesquisa Social (IPS). O evento terá um debate entre Marcos Nobre e a professora Taisa Palhares, também do Departamento de Filosofia da Unicamp, mediado pelo doutorando Raphael Concli.
O livro foi publicado em 2025 pela Edições Sesc e conta com ampla contribuição de intelectuais brasileiros. Em entrevista ao Jornal da Unicamp veiculada em novembro, Nobre abordou o legado dos intelectuais da Teoria Crítica, que sofreram perseguição do nazismo e precisaram fugir da Alemanha diante das ameaças. “Com a chegada de Hitler ao poder, o Instituto teve que se mudar para Genebra, depois para Paris e depois para Nova Iorque. Ele foi fugindo da guerra, e, com isso, perdeu-se muita coisa, porque os nazistas depredaram a sede do Instituto em 1933. Um novo prédio foi construído a partir de 1950, quando o Instituto retornou para a cidade de Frankfurt”, disse o professor.

No entanto, Walter Benjamin, Max Horkheimer, Jürgen Habermas e diversos outros intelectuais do Instituto buscaram salvar o que podiam. Em Os arquivos da Teoria Crítica, a análise desses documentos oferece um panorama sobre o pensamento dos intelectuais.
Entre os 24 capítulos, destaca-se a contribuição de Jürgen Habermas, que morreu em março deste ano, aos 97 anos. “Habermas foi muito solícito com a gente, permitiu que publicássemos duas cartas. e nós ficamos muito contentes de ter a possibilidade de mostrar o tipo de material que se pode encontrar nos arquivos dele”, recordou Nobre na entrevista.
Ao Jornal da Unicamp, o professor também destacou a pluralidade de perspectivas na Teoria Crítica e seu fio condutor: a prática orientada para a emancipação. “Quando a Teoria Crítica nasce, na década de 1930, ela nasce com esse espírito da união de teoria e prática. Ao mesmo tempo, para que fosse mantida a pluralidade de perspectivas e de posições dentro do Instituto, não seria possível defender uma forma específica de prática, porque isso restringiria o pensamento e a pesquisa. Essa é uma noção de tolerância em que se pensa: nós estamos orientados para a prática dirigida para e pela emancipação, mas não para uma prática determinada de um partido, de um determinado grupo”.
Leia mais:
Os 100 anos de uma teoria voltada à emancipação

Serviço:
Lançamento do livro Os arquivos da Teoria Crítica
Onde: Sesc Campinas (Rua Dom José I, 270/333 – Bonfim)
Data: 29/4 (quarta-feira)
Horário: 19h30
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Livro de coleção internacional celebra Walter Carnielli e contribuição brasileira à lógica
O lançamento do livro Walter Carnielli on Reasoning, Paraconsistency, and Probability [Walter Carnielli sobre o raciocínio, a paraconsistência e a probabilidade], 32º volume da coleção Outstanding Contributions to Logic, da editora alemã Springer, uma das mais prestigiadas do mundo acadêmico, marca um momento de inflexão para a lógica desenvolvida no Brasil. A obra reúne contribuições de 19 pesquisadores de diferentes países em torno da produção científica do lógico-matemático Walter Carnielli, professor titular do Departamento de Filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e pesquisador-sênior da Unicamp, vinculado ao Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE).
Mais do que uma homenagem individual, o livro se insere em um movimento mais amplo de reconhecimento da ciência brasileira e amplia a visibilidade internacional de uma tradição de pesquisa construída ao longo de décadas no país, destaca o professor. “O livro não é uma homenagem a mim apenas, é uma homenagem à lógica brasileira”, afirma Carnielli, autor, entre outros títulos, de Computabilidade: funções computáveis, lógica e os fundamentos da matemática, ganhador do Prêmio Jabuti, e de Pensamento crítico: o poder da lógica e da argumentação, escritos em parceria com o matemático norte-americano Richard L. Epstein.
A coleção da Springer reúne livros dedicados a nomes de grande impacto na área, e a inclusão de Carnielli marca um feito inédito: é a primeira vez que um pesquisador fora do eixo hegemônico é homenageado na série. “Nem América Latina, nem África, nem outros países do Sul Global tinham sido contemplados antes”, conta.

Para o professor, esse dado evidencia uma desigualdade estrutural no sistema científico internacional. “Conseguir esse espaço mostra que é possível romper essa barreira. De certa forma, eu furei essa bolha”, diz. A “bolha”, nesse caso, refere-se a uma estrutura consolidada de produção e circulação do conhecimento, na qual centros acadêmicos do Hemisfério Norte concentram visibilidade, prestígio e capacidade de influência.
Carnielli ressalta que pesquisadores de outras regiões frequentemente enfrentam mais obstáculos para alcançar reconhecimento equivalente, mesmo quando produzem contribuições relevantes. “É muito mais difícil para quem está fora desse eixo ganhar espaço”, aponta.
O livro foi organizado por Henrique Antunes, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), e Alfredo Roque Freire, da Universidade de Brasília (UnB), ambos ex-alunos de doutorado de Carnielli, e por Abílio Rodrigues, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e colaborador de longa data. A organização do volume levou quatro anos. “Foi um trabalho enorme. Coordenar autores de vários países, revisar textos e estruturar o livro demandou um esforço coletivo muito grande”, afirma. A obra apresenta análises críticas, desenvolvimentos teóricos e novas propostas a partir das ideias de Carnielli e de seus colaboradores. “Não é uma coletânea de elogios. É um debate científico de alto nível”, ressalta.
Cada capítulo dialoga com aspectos específicos da produção do pesquisador, abrangendo temas como lógicas paraconsistentes e não clássicas, computabilidade, teoria da probabilidade, filosofia da lógica e filosofia da ciência, por exemplo. Entre os destaques está a discussão sobre a relação entre a lógica contemporânea e a tradição aristotélica. Um dos textos propõe uma “ruptura radical” com essa ortodoxia. “Não se trata de jogar fora a lógica clássica, mas de estendê-la. Na matemática e na lógica, quase nunca se abandona o que foi construído. O que fazemos é ampliar”, afirma.
Para ilustrar essa ideia, ele recorre a uma analogia com a música brasileira. “A bossa nova não destruiu a música clássica nem o samba tradicional. Ela incorporou elementos e criou algo novo. Gosto de dizer que o Brasil está fazendo a ‘bossa nova da lógica’.”
Além de reunir os artigos, o livro inclui a participação direta de Carnielli, responsável por comentar cada uma das contribuições, estabelecendo um diálogo com os autores e aprofundando o debate. A obra traz ainda uma autobiografia intelectual, na qual o pesquisador revisita sua trajetória acadêmica, suas influências e os caminhos que levaram à consolidação da lógica paraconsistente no Brasil.
Escrito integralmente em inglês, o livro foi concebido para circulação internacional e já está disponível na plataforma Amazon. Com mais de 600 páginas, a obra se projeta como referência para pesquisadores da área e para novas gerações interessadas em lógica, filosofia e ciência da computação.
Ao olhar para o conjunto de sua trajetória, Carnielli vê no lançamento um momento de síntese. “Eu considero esse livro uma coroação de um trabalho coletivo de décadas”, afirma. “Se não fosse o ambiente da Unicamp, do Centro de Lógica, dos alunos e colaboradores, nada disso existiria.”

Escola brasileira de lógica
A publicação recupera e projeta especialmente o desenvolvimento da lógica paraconsistente, uma área iniciada no Brasil a partir dos trabalhos do matemático Newton da Costa (1929–2024), e de forma independente na Polônia.
Um dos pilares dessa trajetória é o Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE), criado no início dos anos 1970 a partir de uma iniciativa liderada pelo filósofo Oswaldo Porchat Pereira, que trouxe para a Unicamp a proposta de um espaço dedicado à pesquisa em lógica, filosofia e fundamentos da ciência, em um momento em que essas áreas ainda eram incipientes no Brasil. “O centro surgiu com a proposta de investigar não apenas a lógica formal, mas também seus fundamentos filosóficos e históricos, um enfoque inovador para a época”, lembra Carnielli, cuja trajetória está diretamente ligada ao CLE. Ele atuou desde os primeiros anos, participou da consolidação do centro, foi diretor da instituição durante 11 anos e hoje segue como professor e pesquisador-sênior, mantendo atividades na pós-graduação e orientação de alunos.
O CLE se consolidou como um dos principais polos de pesquisa em lógica na América Latina, formando gerações de pesquisadores. Foi nesse ambiente que a lógica paraconsistente encontrou espaço para se desenvolver e ganhar projeção. “Se não fosse este espaço, este grupo, este ambiente, esse trabalho não existiria”, destaca.
A lógica paraconsistente propõe uma inflexão conceitual importante em relação à tradição clássica. Enquanto a lógica tradicional, herdada em grande parte da filosofia aristotélica, não admite contradições, levando sistemas inconsistentes ao colapso, a abordagem paraconsistente permite trabalhar com elas de forma controlada, sem comprometer a racionalidade. “A ciência clássica não consegue lidar com contradições. Se você introduz uma, o sistema ‘explode’. A lógica paraconsistente, ao contrário, permite que você continue raciocinando de maneira rigorosa mesmo na presença de contradições”, explica.
Essa possibilidade aproxima a formalização lógica do modo como os seres humanos efetivamente pensam e tomam decisões, com profundos reflexos em várias áreas da ciência. No cotidiano, contradições são frequentes, com informações conflitantes, interpretações divergentes ou dados incompletos e, ainda assim, o raciocínio não colapsa. “É uma lógica mais humana, e mais realista, no sentido de que consegue lidar com situações concretas”, observa.
Ao longo das últimas décadas, essa abordagem deixou de ser apenas uma proposta teórica para se tornar uma ferramenta relevante em diversas áreas. Aplicações em computação, linguística, inteligência artificial, filosofia da ciência, teoria da probabilidade e fundamentos da matemática demonstram o alcance do campo.
Na Unicamp, esse desenvolvimento ganhou novo impulso com a reestruturação da teoria e a criação de uma vertente conhecida como lógicas da inconsistência formal, que sistematiza e amplia propostas anteriores.
“O que fizemos aqui foi retomar uma ideia que estava, de certa forma, dispersa, e reorganizá-la. A partir disso, conseguimos integrar diversas contribuições internacionais e dar maior consistência ao campo”, explica. “O resultado foi a consolidação de uma escola brasileira de lógica, que formou pesquisadores e se expandiu por diferentes universidades do país, como a Universidade de Brasília (UnB) e as Federais da Bahia (UFBA), de Santa Catarina (UFSC), do Paraná (UFPR) e de Minas Gerais (UFMG)”, completa.
Esse movimento também contribuiu para a internacionalização da área. Hoje, pesquisas em lógica paraconsistente e não clássica desenvolvidas no Brasil dialogam com centros nos Estados Unidos, Alemanha, Israel, Japão, Bélgica, França, Itália, Austrália, Nova Zelândia, México, Argentina e China. “A área cresceu e o grupo brasileiro ganhou projeção. Isso foi um trabalho coletivo, de muitos anos.”
Foto de capa:

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Se existem lugares que estão no DNA do Brasil, a feira livre é um deles. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem cerca de 9 mil delas em funcionamento atualmente, distribuídas em 3.961 municípios, alcançando 71,5% do país. Disposto a incentivar o público universitário a frequentar esses locais, um grupo de estudantes do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), da Unicamp, deu início ao projeto de extensão “Cadê a feira?”, que busca mapear e descrever cada um desses pontos de comércio popular e tradicional em Campinas. Valorizar a agricultura familiar é outro foco do grupo com este trabalho.
O que era para ser uma ação entre colegas, transformou-se em um projeto a serviço da comunidade em geral. Surgido em 2024 dentro das disciplinas de extensão universitária, alunos das Ciências Sociais passaram a combinar pesquisa acadêmica com ações práticas de resgate destes espaços, que vão além da compra de alimentos.
Atualmente, a iniciativa tem uma página no Instagram — kdafeira.unicamp —, onde é possível saber os bairros, dias e horários das feiras, além do que cada local oferece. “Hoje, entendemos que o projeto tem um caráter de utilidade pública, porque facilita o acesso à informação. Queremos conectar feirantes a consumidores”, explica o estudante Pedro Montefusco Neto, integrante da iniciativa.
Além de reunir dados, o grupo busca resgatar o papel das feiras como espaços de convivência. Mais do que locais de compra, elas são vistas como ambientes de socialização e de troca entre pessoas de diferentes origens. “Queremos recuperar essa cultura de frequentar a feira não só pelo consumo, mas pela experiência social”, comenta o estudante.

O projeto também tem investido em ações educativas. Entre elas, a participação em eventos universitários com atividades interativas sobre os caminhos dos alimentos até o consumo e a organização de exibições de documentários sobre alimentação e indústria alimentícia. Na edição mais recente do programa Unicamp de Portas Abertas (UPA), por exemplo, o grupo montou literalmente uma banca de feira para chamar a atenção dos visitantes.
Para ampliar este verdadeiro raio-x das feiras, o grupo do IFCH realiza um trabalho de campo que envolve um mapeamento a partir de dados públicos (site da Prefeitura de Campinas, por exemplo), a verificação das informações e visitas presenciais. Pedro Neto conta que, em alguns casos, feiras existentes no portal do município, na verdade, não existem. Por isso, a importância desse contato presencial pelas regiões da cidade.
Durante as idas aos locais, eles conversam com feirantes e consumidores, registram imagens em foto e vídeo, além de coletar dados sobre o funcionamento e o perfil dos trabalhadores. Outra ação do grupo foi a criação de localizações no Google para feiras que ainda não estavam registradas digitalmente.
Barão Geraldo
Por enquanto, as atividades estão concentradas em Campinas, principalmente por questões logísticas. O levantamento mais detalhado até agora foi feito na feira de Barão Geraldo, distrito de Campinas, onde os estudantes aplicaram questionários para compreender aspectos econômicos e históricos dos feirantes. Ainda de acordo com Pedro Neto, o perfil dos trabalhadores é diverso, e nem todos são produtores diretos. “É comum que muitos sejam revendedores, o que também faz parte da dinâmica atual. Por isso, além da agricultura familiar, também valorizamos a economia local como um todo”, afirma ele.
Questionado sobre a percepção de que as feiras estariam desaparecendo, o estudante avalia que elas continuam ativas, mas perderam visibilidade. A concorrência com supermercados, que oferecem maior praticidade, é apontada como um dos principais desafios. “As feiras não sumiram. O que mudou foi o acesso e o hábito das pessoas”, acredita.
Outro ponto observado é o perfil do público. A frequência ainda é majoritariamente composta por pessoas de uma faixa etária mais alta, habituadas culturalmente a frequentar esses espaços, o que reforça a necessidade de atrair novos consumidores. Para os integrantes do grupo, o objetivo central é manter viva uma prática cultural que resiste às transformações urbanas. “A feira é um espaço importante de convivência e de resistência. Fazer com que as pessoas saibam que ela existe já é um passo muito grande”, conclui.

Vida própria
A professora Artionka Capiberibe, coordenadora da graduação em Ciências Sociais (2024-2026) do IFCH, lembra que o projeto “Cadê a Feira?” surgiu em sala de aula como parte de uma disciplina de extensão e rapidamente ganhou vida própria. A proposta inicial evoluiu para um trabalho mais profundo de interação com feirantes e frequentadores.
“A partir desse diagnóstico, passaram a atuar em diálogo com os trabalhadores locais, respeitando o princípio fundamental da extensão universitária: a construção conjunta com a comunidade”, aponta a professora. “A experiência prática também revelou aos alunos a complexidade do cotidiano dos feirantes, muitos dos quais exercem múltiplas atividades além da feira. Esse contato direto contribuiu para desconstruir visões simplificadas e ampliar a compreensão sobre as dinâmicas sociais e econômicas envolvidas”, acrescenta.
Capiberibe faz questão de ressaltar que a “curricularização” da extensão universitária tem provocado mudanças significativas na formação de estudantes, ao estimular o contato direto com a sociedade e a aplicação prática do conhecimento acadêmico. “Na área de Ciências Sociais, essa transformação tem se materializado em uma série de projetos que conectam universidade e comunidade de forma contínua e colaborativa”, diz ela.
O “Cadê a Feira?” é apenas uma entre diversas iniciativas desenvolvidas no âmbito das disciplinas de extensão. Projetos como o “Falacine”, que leva sessões de cinema nacional a escolas públicas, o “Iranti”, voltado à realização de oficinas com mulheres idosas, e o “Humanidades em Cena”, que articula teoria social e produção teatral, demonstram a diversidade de propostas e públicos alcançados.
Ainda de acordo com Capiberibe, diferentemente de atividades acadêmicas tradicionais, os projetos de extensão não se encerram em um semestre. Estruturados em ciclos de disciplinas, eles permitem continuidade e aprofundamento ao longo do tempo, além de favorecer a participação coletiva — tanto entre estudantes quanto com os grupos externos envolvidos.
“Mais do que aplicar conhecimentos, os alunos relatam transformações pessoais ao longo do processo. Em muitos casos, a expectativa de levar algo à comunidade dá lugar à percepção de troca e aprendizado mútuo. A vivência prática, marcada pelo diálogo e pela adaptação às realidades encontradas, reforça o papel social da universidade pública”, comenta a professora.
Com iniciativas que seguem ativas desde 2024, os projetos indicam que a extensão pode ir além de uma exigência curricular, consolidando-se como um eixo estruturante da formação universitária. Ao romper os muros da academia, essas experiências contribuem para formar profissionais mais conscientes, engajados e preparados para atuar em contextos diversos.

Praça de alimentação
Rogério Chiminazzo, presidente do Sindicato dos Feirantes e Ambulantes de Campinas, valoriza a iniciativa surgida na Unicamp e acredita que ela pode reaquecer um estratégico setor comercial da cidade. “Também sou feirante e considero esse trabalho maravilhoso, justamente por atrair a atenção dos jovens. Atuo há seis anos em feiras noturnas e, hoje, elas estão ainda mais completas com verduras, peixe, espetinhos, milho, chope, pastel, crepe, hambúrguer, cookie e até acarajé. Tem muita coisa. É praticamente uma praça de alimentação. Queremos fazer isso também com as feiras diurnas”, conta.
Documentário
Como parte complementar desse universo ligado à alimentação, o IFCH exibe, no próximo dia 30, a partir das 18h, no Auditório Marielle Franco (Rua Cora Coralina, 100, na Unicamp), o documentário “Comida de Mentira”, de Rafael Mellin e Chica Andrade. Após a exibição, haverá uma roda de conversa sobre o filme. O evento é promovido pelo projeto “Cadê a Feira?”. A obra revela como a indústria dos ultraprocessados, movida pelo lucro a qualquer custo, quer reprogramar a alimentação de milhões de pessoas, comprometendo a saúde e ameaçando ecossistemas inteiros. A produção é do Coletivo Bodoque e Pajú Entretenimento.
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Unicamp
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Estágio de pós-doc no exterior fortalece parcerias em estudos sobre erosão costeira no Mediterrâneo
O pós-doutorando do Departamento de Geografia do Instituto de Geociências (IG) Luca Lämmle retornou de um estágio de um ano no Departamento de Geologia da Universidade de Patras, na Grécia, onde foi recebido por Pavlos Avramidis. Sob supervisão do professor do IG Archimedes Perez Filho no IG, Lämmle pesquisou ambientes de transição de áreas estuarinas e deltaicas localizadas na foz do rio Pineios, no oeste do Peloponneso, Grécia. Também realizou atividades de campo junto à Universidade de Napoli Federico II, na Itália, por dois meses, quando pesquisou a foz do rio Volturno, localizado na região Campania, no sul do país. Seus estudos buscaram compreender como as pressões antrópicas nas bacias hidrográficas — incluindo urbanização, agricultura e barragens — impactam o sistema costeiro. O foco principal recai sobre a erosão costeira progressiva, que ameaça áreas urbanas no Mediterrâneo, configurando um desafio crescente para a gestão pública.


Financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Lämmle conta que seu primeiro contato com Avramidis, coordenador do Laboratório de Sedimentologia da universidade grega, ocorreu durante seu doutorado em Geografia no IG. Em 2023, o coordenador consolidou parceria com o Laboratório de Geomorfologia (Geomorfo), coordenado por Perez Filho, quando participou de um workshop internacional.
Resultados dos estudos na Grécia
Segundo Lämmle, “é possível apontar que o principal problema das áreas estudadas até então é que estão passando por um processo de erosão costeira com intensidade progressiva, associada às alterações no fluxo hidrossedimentar dos rios, reduzindo sua capacidade de transportar sedimentos até a costa”. Esses sedimentos deveriam chegar às praias e manter o equilíbrio na área de foz, mas a perda de energia dos rios diminui o fluxo de sedimentos até a foz. Esse déficit nas praias faz com que as ondas avancem sobre o continente para recompor o material ausente, o que caracteriza o fenômeno da erosão costeira.
O pesquisador aponta que, “dentre as principais atividades de uso relacionada a tais alterações, está a presença de barragens, que possuem grande capacidade de reter sedimentos e de alterar o fluxo de vazão fluvial”. Praias urbanas próximas a essas áreas também foram analisadas por Lämmle. Dois artigos já foram publicados e outro está em avaliação: um no periódico Anthropocene Coasts e outro no Land.

Durante a execução do projeto, o pós-doc do IG propôs um evento no formato de reunião científica aqui no Departamento, intitulado “II Meeting on Tropical and Subtropical transitional environments“. “O objetivo do evento foi consolidar as colaborações internacionais vinculadas ao projeto, e o encontro contou com membros do Laboratório de Geomorfologia da Unicamp, além de professores de universidades italianas, americanas, alemãs e gregas”, destaca Lämmle.
O pesquisador também participou de palestras na Universidade de Genova (Itália), na Universidade de Napoli Federico II (Itália) e na Universidade da Basilicata (Itália), que permitiram estreitar relações acadêmicas para ampliar a colaboração internacional do grupo do Geomorfo-Unicamp.
Eventos internacionais
Durante seu estágio na Grécia, o pós-doc do IG participou de eventos internacionais, como o Congresso Internacional de Geomorfologia, na Nova Zelândia, em que divulgou resultados parciais em apresentação oral e coordenou uma sessão temática do eixo de Geomorfologia Antropogênica, juntamente com o Francesco Faccini, professor da Universidade de Genova, e Alessia Pica, da Universidade de Roma La Sapienza.
Lämmle participou ainda de uma atividade de campo na China, no delta do rio Yangtze, no State Key Laboratory of Estuarine and Coastal Research. Esse laboratório é o principal centro de estudos estuarinos e costeiros da China, sendo vinculado ao Ministério da Educação e estando hospedado na East China Normal University (ECNU). O pós-doc ministrou a palestra “Transitional environments under anthropogenic pressures: current challenges and future directions”.

Prêmios e títulos
Os estudos de Lämmle tem rendido prêmios internacionais. Um deles ocorreu durante seu estágio na Grécia. Concedido em junho de 2025, para participar da “Giornate di Studi autunnali AIGeo” realizada em Florença (Itália), no formato de conferência científica, o pós-doc ficou em primeiro lugar entre os geomorfólogos de destaque.
No final de 2025, Lämmle recebeu o título de cidadão honorário de Belmonte, na Bahia, por reconhecimento aos trabalhos em desenvolvimento sobre erosão costeira no município, que está localizado na foz do rio Jequitinhonha. “A sessão solene ocorreu em 15 de dezembro de 2025, mas, em decorrência da realização do estágio no exterior, não pude participar pessoalmente, e o título foi recebido por um familiar”, explica.


Convite
Lämmle é membro de corpo editorial de três revistas internacionais. “Submissões resultantes de pesquisas do IG são muito bem-vindas, uma vez que vários professores já publicam nessas revistas”, aponta o pós-doc.
Para saber mais sobre as revistas, acesse:
Anthropocene Coasts (Springer)/Associate Editor
Quaternaty International (Elsevier)/ Editorial Board member
Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology (Elsevier)/ Editorial Board member
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Impacto não será traumático para municípios, garante mentor da reforma tributária
A reforma tributária que entrou em vigor este ano —e que se estenderá até 2033 — não provocará perdas relevantes de receita aos municípios brasileiros. A garantia foi dada nesta quinta-feira (23) pelo economista Bernard Appy, que foi secretário Extraordinário da Reforma Tributária do Ministério da Fazenda — órgão que elaborou a proposta votada no Congresso. Em seminário promovido pelo Instituto de Economia (IE) da Unicamp em parceria com a Prefeitura de Campinas — que reuniu representantes de municípios da região —, Appy afirmou que o novo modelo traz grandes vantagens na comparação com o sistema anterior.
“Com certeza não haverá nenhum impacto traumático sobre a arrecadação dos municípios. Isso posso garantir”, afirmou ele a uma plateia de estudantes, professores e secretários de finanças de mais de uma dezena de municípios paulistas, que lotou o auditório Zeferino Vaz. “No curto prazo, não haverá nenhuma perda relevante, e, no longo prazo, será preciso pensar em alternativas, mas que não sejam voltar para o sistema tributário atual, que é muito ruim”, disse.

Segundo Appy, o novo sistema reduzirá desigualdades. “Hoje, no Brasil, há casos de municípios em que a diferença de receita per capita de ISS e quota parte do ICMS chega a 200 vezes. Com a reforma, isso cairá para 15 vezes”, diz.
A reforma começou, na prática, este ano, como uma espécie de teste, antes da substituição definitiva de cinco tributos. Desse total, três são federais: o Programa de Integração Social (PIS), a Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). O Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) é administrado pelos estados; e o Imposto sobre Serviços (ISS), pelos municípios.
A reforma prevê que esses cinco tributos começarão a ser extintos em 2027, mas haverá uma alíquota de teste em 2026. O PIS, a Cofins e o IPI darão origem à Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS). O ICMS e o ISS darão origem ao Imposto sobre Bens e Serviços (IBS). A soma da CBS e do IBS resultará no IVA Dual.
Neste ano de 2026, haverá uma alíquota de teste de 0,9% de CBS e 0,1% de IBS, que serão deduzidas dos tributos atuais. A partir de 2027, os cinco tributos sobre o consumo serão gradualmente extintos, enquanto as alíquotas de CBS e de IBS subirão.

Situação dos municípios
O prefeito de Campinas, Dario Saadi, disse que os municípios estão preocupados com a reforma. De acordo com ele, as prefeituras assumiram encargos que antes eram atribuições das esferas estadual ou federal. “Hoje temos responsabilidade até com a segurança. A criação das Guardas Municipais mostra isso. Os gastos com o transporte coletivo são cada vez maiores e, cada vez mais, cobertos pelos cofres municipais. Isso sem contar com aumentos progressivos nas despesas com a saúde. Hoje 90% dos programas sociais são mantidos pelas prefeituras”, reclamou. “Quem vai garantir que os municípios conseguirão manter uma arrecadação que seja capaz de fazer frente a esses encargos?”, questionou.
Financiamento das universidades públicas
Bernard Appy lembrou no seminário que a reforma também definiu a fonte de financiamento das universidades públicas. “As universidades públicas, como é o caso das estaduais paulistas, são financiadas por uma parte da receita do ICMS. A emenda constitucional 132, que introduziu a reforma tributária, mantém essa vinculação, tendo como base o IBS estadual, que substituirá o ICMS. Portanto, na prática, a reforma tributária não afeta o financiamento das universidades”, disse ele.
O pró-reitor de Desenvolvimento Universitário da Unicamp, Fernando Sarti, reconhece que as receitas que estavam vinculadas ao ICMS antes da reforma permanecem vinculadas, mas lembra que isso não é suficiente. Para Sarti, é preciso discutir a alíquota e a previsão do financiamento em lei específica.

“Hoje temos 9,57% do ICMS , mas precisaremos negociar. O que nos preocupa é que poderemos ter perdas significativas. Manter a vinculação ajuda, mas o que nos deixaria mais tranquilos é ter uma sinalização sobre a alíquota e a constitucionalização da medida, já que, hoje, dependemos de lei orçamentária que, a cada ano, precisa ser aprovada na Assembleia Legislativa”, argumenta. “Sem dúvida, a vinculação é uma garantia, mas não é suficiente”, advertiu.
O encontro contou também com a presença do 1° vice-presidente do Comitê Gestor do IBS e secretário de Finanças de São Paulo, Luis Felipe Vidal Arellano; da secretária da Fazenda do Rio de Janeiro, Andrea Riechert Senko, do presidente do Fórum de Secretárias e Secretários municipais de Fazenda e Finanças da Frente Nacional de Prefeitos (FNP) e secretário de Finanças de Campinas, Aurílio Caiado, e do professor do IE Geraldo Biasoto Jr. O seminário teve ainda, as presenças do diretor do IE, Celio Hiratuka e da secretária de Desenvolvimento Econômico, Tecnologia e Inovação de Campinas, Adriana Flosi.
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Decisões econômicas em meio a incertezas do mercado exigem maior cautela e embasamento
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Bem-estar e turismo: uma relação mais complexa e importante do que aparenta ser
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Unicamp
- Pesquisa aponta problemas de pele em crianças e adolescentes que utilizam dispositivos para controlar diabetes
Pesquisa aponta problemas de pele em crianças e adolescentes que utilizam dispositivos para controlar diabetes
A equipe da Endocrinologia Pediátrica do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp participou de uma pesquisa internacional sobre o uso de dispositivos tecnológicos como sensores de glicose e bombas de insulina para controlar a glicemia de crianças e adolescentes. O estudo envolveu 22 centros de diabete pediátrica no mundo e foi realizado com mais de 1.700 crianças e adolescentes com a doença.
Durante quatro semanas foram coletados dados das crianças e adolescentes que utilizavam esses dispositivos, incluindo fatores demográficos, problemas de pele visíveis, tipo de dispositivo e produtos utilizados. A pesquisa mostrou que problemas de pele estavam presentes em 52% dos usuários de bomba de insulina, em comparação com 30% dos usuários de sensor de glicose. Eczema foi encontrado em 9% dos participantes tanto nos locais de aplicação da bomba de insulina quanto nos locais de aplicação do sensor de glicose.

Cicatrizes, feridas e lipodistrofias foram mais frequentes nos locais de aplicação da bomba de insulina do que nos locais de aplicação do sensor de glicose. Tanto a xerose cutânea (pele excessivamente seca, áspera e descamativa) quanto a queratose pilar (acúmulo de queratina nos folículos pilosos) estiveram fortemente associadas a quase todos os tipos de problemas de pele, aumentando o risco de duas a cinco vezes.
De acordo com Mariana Zorron, endocrinologista pediátrica do HC da Unicamp, esse estudo trouxe evidências sobre as complicações cutâneas associadas ao uso de tecnologias na prática clínica. Ainda segundo a especialista da Unicamp, os problemas de pele são uma preocupação séria que limita o uso de dispositivos para diabetes em crianças e adolescentes, aumentando, consequentemente, o risco de complicações.
“O desenvolvimento de dispositivos mais amigáveis, a conscientização da família sobre os cuidados com a pele e a identificação precoce dos fatores de risco como pele seca ou queratose pilar são necessários para garantir que todas as crianças e adolescentes com diabetes possam usar esses dispositivos de forma eficaz em longo prazo”, comenta Zorron.
Os resultados foram constam do artigo Skin-Pedic: A Worldwide Assessment of Skin Problems in Children and Adolescents Using Diabetes Devices [uma avaliação mundial de problemas de pele em crianças e adolescentes usando dispositivos para diabetes] do qual Zorron é uma das autoras. O estudo também teve a participação das médicas e médicos-residentes da equipe da endocrinologia pediátrica do HC da Unicamp.
O artigo foi selecionado para o Anúário 2025 da Conferência Internacional sobre Tecnologias e Tratamentos Avançados para o Diabetes (ATTD, na sigla em inglês). A apresentação aconteceu durante a edição de 2026 do ATTD, ocorrido no mês de março, em Barcelona, na Espanha.

Inovação no cuidado
O ATTD é um dos principais congressos internacionais dedicados à inovação no cuidado do diabetes, especialmente no campo das tecnologias avançadas. Seu Anuárioreúne os artigos científicos mais relevantes e impactantes da área, selecionados e analisados criticamente por especialistas internacionais.
“A inclusão deste estudo no Anuáriodo ATTD reforça sua relevância científica e impacto clínico, além de destacar a inserção do HC da Unicamp em redes internacionais de pesquisa e sua contribuição para o avanço da inovação em diabetes pediátrico”, diz Zorron, que também integra o Conselho Consultivo da Sociedade Internacional para o Diabetes Pediátrico e Adolescente (ISPAD) no triênio 2023–2026.
A ISPAD é a principal organização global dedicada à melhoria do cuidado de crianças, adolescentes e jovens com diabetes, atuando na promoção do conhecimento científico, educação e melhores práticas assistenciais. Seu Conselho Consultivo tem papel estratégico no apoio às iniciativas e diretrizes da sociedade.
Matéria publicada originalmente no site do HC Unicamp.
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Nova cátedra propõe modernização de indicadores de atividade científica
A Unicamp foi agraciada com um novo projeto ligado ao São Paulo Excellence Chair (SPEC), modalidade de auxílio à pesquisa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) que busca atrair cientistas reconhecidos que atuam no exterior para coordenar projetos em universidades ou institutos de pesquisa paulistas. Rodrigo Costas, do Centre for Science and Technology Studies (CWTS), da Leiden University (Países Baixos), será o pesquisador responsável pelo projeto Multi-Observatório de Ciência, Tecnologia e Dinâmica de Inovação (MultiObs), que será desenvolvido junto ao Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) do Instituto de Geociências (IG), em parceria com a Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) e do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp.
Junto ao exponencial crescimento da produção de conhecimento, vem ocorrendo um avanço nos métodos de medi-lo. A ausência de mecanismos precisos de automonitoramento em sistemas de ciência, tecnologia e inovação (CTI) gera lacunas nos ecossistemas de conhecimento que comprometem a resposta a desafios sociais e científicos urgentes. Assim, o objetivo do projeto é desenvolver, ao longo de cinco anos, um amplo programa de pesquisa para criar e aplicar métodos para produzir evidências e conhecimento para um monitoramento mais amplo e útil dos sistemas de CTI.

Os indicadores mais comuns atualmente usados dependem de bases de dados fechadas e que falham em capturar a complexidade da relação contemporânea entre ciência e sociedade. Assim, o projeto desenvolverá uma matriz que amplia a base de dados utilizada e diversifica os resultados e interpretações possíveis. “O projeto está motivado por demandas urgentes que existem no mundo acadêmico de mudanças de como medimos, monitoramos e avaliamos ciência, tecnologia e inovação”, afirma Costas.
Segundo o pesquisador, a maior ambição do projeto é mudar como se mede a ciência e incorporar uma maior diversidade de bases, muito além da Web of Science e Scopus, introduzindo a visão dos próprios stakeholders, tais como agências de financiamento, indústria e organizações políticas. Assim, propõe-se a implementação de um monitoramento cocriado e contextualizado em uma nova abordagem, propondo uma matriz que amplia a base dados utilizada e diversifica os resultados e interpretações possíveis, com participação dos stakeholders, especialmente com foco no Sul Global. O objetivo é tornar visíveis as atividades científicas que ainda permanecem invisíveis, especialmente da América Latina e de outras regiões em desenvolvimento, cujas dinâmicas são muitas vezes ignoradas pelas bases, análises e rankings internacionais.
“Como queremos mudar essa forma de fazer cientometria, trabalharemos para desenvolver uma infraestrutura de dados que seja mais democrática e que permita aos usuários trabalhar em grande escala com esses dados, em que se sintam empoderados para discutir e questionar os indicadores que se propõem”, diz Costas. “O trabalho dedica-se a conectá-los e beneficiá-los dessa interconexão de bases de dados”, completa.
O design geral do programa pode ser visualizado como uma estrutura de árvore, com uma base enraizada em uma ampla infraestrutura de Big Data, cujos ramos temáticos florescem em um living lab dedicado ao monitoramento de CTI. A infraestrutura de dados engloba bancos de dados interconectados que permitem responder a perguntas de pesquisa. Os ramos temáticos abordam desafios específicos de políticas de CTI e servem como campo de teste. O living lab é o elemento mais inovador do projeto que servirá para apontar respostas aos ramos temáticos combinando dados, marcos teóricos e abordagens participativas com os stakeholders.


Para a execução do projeto, haverá uma estreita colaboração entre sete pesquisadores principais, que supervisionarão os ramos temáticos do projeto. Sérgio Salles-Filho, do LagGeopi-Unicamp, supervisionará, junto a Costas, a infraestrutura de big data e o living lab. Salles atuará com Cassidy Sugimoto, do The Georgia Institute of Technology (Estados Unidos) na supervisão do ramo temático dedicado às dinâmicas de política científica e diplomacia em CTI – em julho, a pesquisadora assumirá a direção da escola de Humanidades e Ciências Sociais da Carnegie Mellon University. Adriana Bin, da FCA, e Ismael Ràfols, ligado à Cátedra Unesco, à Leiden University e ao INGENIO (um centro misto do Consejo Superior de Investigaciones Científicas e da Universitat Politècnica de València, na Espanha), supervisionarão o eixo temático referente a financiamento e dinâmica das forças de trabalho. Costas e Germana Barata (Labjor) supervisionarão o ramo temático dedicado a comunicação pública e dinâmicas societárias. Nicolas Vonortas, da The George Washington University (Estados Unidos) e Sérgio Queiroz, do DPCT-Unicamp, supervisarão o eixo dedicado a tecnologia, inovação e dinâmicas regionais.
Para Sergio Salles, “a nova cátedra SPEC representa uma contribuição substantiva para os estudos sociais da ciência, tecnologia e inovação, ampliando e disponibilizando em acesso aberto amplas e originais bases de dados e construindo análises que devem criar evidências de utilidade para os principais stakeholders do sistema de CTI no Brasil e para a sociedade como um todo”.
O projeto espera produzir uma infraestrutura de computação em nuvem pública; criar indicadores específicos para temas complexos e subestimados; além de produzir materiais educacionais, resumos de políticas e resultados acadêmicos. O MutiObs conta com 13 pesquisadores associados, diferentes parceiros nacionais e internacionais, e prevê a realização de conferências internacionais, workshop e hackatons.
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Aborto legal é direito à dignidade para vítimas de violência sexual
Aborto legal é direito à dignidade para vítimas de violência sexual
OMS preconiza informações sobre interrupção da gravidez e atendimento seguro às mulheres
A assistente social Bárbara Regina Daolio está preparada para receber as mais diversas situações no Ambulatório de Violência Sexual do Hospital da Mulher Prof. Dr. José Aristodemo Pinotti – Caism Unicamp, mas alguns dias são mais difíceis que outros: “A pessoa mais jovem que eu atendi foi uma menina de 10 anos. Ela ficou grávida de um conhecido da família, que vivia no mesmo ambiente. A criança nem entendia o que, de fato, estava acontecendo”, lamenta.
O Código Penal Brasileiro permite a realização do aborto em três situações: gravidez decorrente de estupro e estupro de vulnerável (o que inclui relações sexuais com menores de 14 anos), risco de morte para a mulher em decorrência da gestação, e casos de anencefalia fetal.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os sistemas de saúde de cada país devem se adequar e garantir informações sobre os casos em que a interrupção da gravidez seja permitida e possibilitar atendimento humanizado e digno às mulheres nessa condição antes, durante e depois do aborto.
Para José Paulo de Siqueira Guida, professor do Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp e coordenador do Ambulatório de Violência Sexual do Caism, oferecer esse procedimento, amparado pela lei, é um ato de respeito ao ser humano. “É constante vermos medidas para tentar impedir [a prática do aborto nas situações previstas em lei], mas aqui nós buscamos entender que isso não é uma questão política, mas um direito humano da nossa paciente”, diz ele. “Não me coloco como uma pessoa a favor do aborto; ninguém é a favor disso. O que buscamos fazer é reduzir os danos de algo que foi muito ruim, como a violência sexual, e a partir disso buscar meios para que a pessoa volte à sua vida normal”, aponta o médico.

Guida ressalta a importância de um debate honesto sobre o tema: “Temos que ser pragmáticos. Muitas pessoas são contra o aborto, mas não veem problema em minimizar a violência sexual. O aborto [fora dos casos previstos na legislação] é proibido no Brasil, mas ele é realizado. Se você tiver dinheiro, faz com segurança em clínicas particulares de bairros nobres. Se não tiver, recorre a locais clandestinos, e a chance de morrer existe. Isso é algo muito linear: quem tem dinheiro não morre”, afirma.
O coordenador do Ambulatório de Violência Sexual do Caism informa que as pacientes de 12 e 13 anos de idade, por exemplo, são vítimas habituais de abuso familiar (por pai ou padrasto), sem distinção de classe social. “Eu, particularmente, acho que crimes sexuais são falhas muito graves de caráter. Como é possível uma pessoa achar que tem poder sobre outro corpo? Sempre é uma história difícil”, afirma.
Gestação
Daolio também vê com preocupação o aumento do número de atendimentos de mulheres agredidas durante a gestação. “Cada pessoa chega aqui de uma forma, mas o que percebemos em todas elas é a sensação de culpa. Existe a revolta em se reconhecer enquanto vítima de uma violência que ela não provocou. Mas a sociedade questiona muito a roupa usada, o fato de a mulher sair à noite e consumir bebida alcoólica, por exemplo. Sempre procuramos trabalhar na responsabilização do agressor e não na culpabilização da vítima”, esclarece a profissional.





Atendimento multidisciplinar oferece espaço protegido para as mulheres
Lidar com a saúde da mulher requer um trabalho multidisciplinar que garanta atendimento rápido, orientação, discrição e, tão importante quanto, afeto. José Paulo Guida mostra que o hospital oferece um espaço protegido para receber as pacientes.
“Fazemos a prevenção de HIV e das diversas infecções transmissíveis; prevenir gravidez e possíveis agravos também. A saúde mental é um ponto importante. E quanto mais rápido essa mulher chega, maior é a chance de a gente intervir rapidamente e evitar complicações”, afirma o médico.
Nos casos que envolvem violência, a atuação é feita com bastante cuidado e respeito à história de cada paciente. Até mesmo um momento de troca de experiências é incentivado. Muitas vezes, esse ambiente permite que situações internalizadas apareçam. “A gente tem buscado fazer algum tipo de interação de grupo, e essa troca entre as mulheres fortalece demais essa liberdade para falar”, afirma o médico. “Os residentes e alunos de graduação são treinados para perguntar ativamente. São mulheres que chegam com alguma lesão que pode ser a ponta do iceberg”, acrescenta Guida.
Boletim de Ocorrência
O registro de boletins de ocorrência é incentivado como uma forma de garantir direitos à paciente, mas isso não é obrigatório para nenhuma forma de atendimento. O prontuário é um meio de prova que pode ser utilizado após ordem judicial, e o Caism conta com toda uma cadeia de custódia para garantir a validade jurídica dos elementos colhidos nos atendimentos iniciais. “O laudo da agressão é uma prova muito consistente. Já houve casos em que agressores acabaram sendo condenados em função de material que foi coletado. Enfim, o registro do BO por aqui pode ser mais um canal de proteção”, opina o médico.






Distância e deslocamento são desafios para as mulheres mais vulneráveis
Guida aponta um desafio que o Caism tentará enfrentar de forma mais efetiva a partir de agora: a distância física do hospital em relação aos bairros mais carentes de Campinas e região.
A questão é fundamental porque é na periferia que está a maior parte dos registros – e consequente, maior subnotificação – dos casos de violência contra a mulher.
“A gente sabe que Campinas é uma cidade muito grande e que, talvez, as mulheres em maior vulnerabilidade estejam em locais mais distantes do distrito de Barão Geraldo, onde o Caism está localizado. A distância é um impeditivo para elas. Sair de um lugar tão distante é difícil. O ideal, realmente, é que as políticas sejam descentralizadas”, avalia Guida.
O médico afirma que representantes do Caism têm mantido conversas com diversas Prefeituras para que haja um atendimento inicial mais assertivo nas Unidades Básicas de Saúde. “A mulher que chega aqui no Caism é aquela que conseguiu superar uma barreira, que passou pelo estupro, pela violência sexual. Ela teve coragem de chegar até aqui. Não é uma decisão fácil. Talvez mulheres mais vulneráveis ainda não estejam chegando, e a gente precisa pensar de que forma podemos fazer isso. O caminho mais adequado seria conseguirmos treinar mais gente para atender mais locais. Estamos falando do estado de São Paulo inteiro”, afirma.
Por outro lado, Guida lembra que há mulheres que não têm coragem de ir a unidades perto da suas casas porque temem encontrar conhecidos do bairro que trabalhem ali, ou serem vistas por algum vizinho que faça comentários. “Por isso, temos essa missão de não colocar barreiras no atendimento”, comenta o médico, fortalecendo o compromisso assumido há 40 anos pelo Caism de ser um território livre e seguro no atendimento à mulher.


Homens trans e mulheres lésbicas são alvos do chamado ‘estupro corretivo’
Homens trans têm procurado o Caism em busca de atendimento após serem vítimas de violência. De acordo com Guida, em alguns casos esses pacientes são vítimas do chamado “estupro corretivo”, ato criminoso cometido para tentar controlar o comportamento sexual ou social da vítima. Mulheres lésbicas também são alvo. O desafio do hospital é ser uma referência de empatia e segurança para todas as pessoas, independentemente de sua orientação sexual ou expressão de gênero. “A questão do estupro corretivo tem surgido tanto para homens trans quanto para mulheres lésbicas. É muito cruel”, lamenta o médico.
Outra preocupação do médico é com as mulheres transexuais, cuja presença no Caism é mais reduzida. “Recebemos poucas mulheres trans e sabemos que essa é uma população extremamente vulnerável. A expectativa de vida de uma mulher trans no Brasil é de 35 anos devido à violência. Essas mulheres não têm chegado aqui, e a gente não sabe onde elas são atendidas”, comenta o coordenador do Ambulatório.

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Pesquisa busca reduzir incerteza na datação de rochas que registram a história da Terra
A datação de rochas sedimentares – que registram a maior parte da história da Terra – ainda opera com incertezas que podem chegar a 10% da idade medida, o que, em escalas geológicas, representa de milhões a dezenas de milhões de anos. Reconstruir com maior exatidão eventos-chave da evolução do planeta é o desafio que um projeto conduzido por pesquisadores do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp, no âmbito do Centro de Estudos de Petróleo e Energia (Cepetro) – com financiamento da Petrobras – busca enfrentar, aprimorando métodos para datar diretamente essas rochas, com maior confiabilidade.
O avanço na datação de rochas sedimentares tem implicações diretas para a compreensão de alguns dos principais eventos da história da Terra. Com maior precisão temporal, torna-se possível testar hipóteses sobre mudanças globais na composição da atmosfera, episódios de glaciação em escala planetária, o surgimento e a expansão da vida multicelular e a duração e a dinâmica de grandes extinções.
Hoje, muitos desses eventos são reconstruídos a partir de correlações entre registros geológicos distribuídos em diferentes regiões do mundo. Sem uma datação precisa, ainda há incertezas sobre a sincronia desses fenômenos.
“As rochas sedimentares são o principal arquivo da história da Terra, e estamos começando a conseguir datá-las diretamente de forma sistemática”, afirma o geólogo Bernardo Tavares Freitas, coordenador da pesquisa.

Um limite histórico
Durante décadas, a geocronologia – área que estuda a idade das rochas – apoiou-se principalmente em minerais de origem ígnea, que funcionam como “relógios naturais” mais estáveis: ao se formarem, eles aprisionam elementos radioativos que, ao longo do tempo, transformam-se em outros elementos em ritmo conhecido, permitindo calcular sua idade.
Já as rochas sedimentares, organizadas em camadas que funcionam como páginas da história do planeta, sempre representaram um desafio. Seus minerais possuem baixos teores desses elementos radioativos e são mais suscetíveis a alterações ao longo do tempo, o que dificulta a obtenção de idades precisas.
Sem datação direta, a ciência avançou apoiada principalmente em fósseis – usados para identificar e correlacionar camadas (bioestratigrafia) – e em outros métodos indiretos, capazes de indicar a ordem dos eventos, mas não exatamente quando eles ocorreram.
Nova fronteira científica
Nos últimos anos, avanços tecnológicos passaram a permitir a datação de minerais carbonáticos, como calcita e dolomita, formados dentro das próprias rochas sedimentares.
Isso representou uma mudança importante: em vez de depender de eventos externos, como erupções vulcânicas, os pesquisadores passam a atribuir idades diretamente às camadas que registram os processos geológicos.
O desafio, no entanto, permanece. Esses minerais apresentam baixa concentração de urânio e alta sensibilidade a alterações químicas, o que gera resultados frequentemente complexos. “Em muitos casos, você obtém várias idades diferentes e precisa entender o que, de fato, representa a história daquele sistema”, explica Freitas.

Do dado ao método
O projeto desenvolvido na Unicamp, cujo foco é reduzir incertezas na exploração de petróleo, busca justamente aumentar a precisão e a confiabilidade dessas datações. O objetivo é entender por que alguns resultados são consistentes e outros não, um ponto central para consolidar a técnica como ferramenta científica mais robusta.
Para isso, a equipe combina múltiplas técnicas de análise – incluindo microscopia eletrônica, mapeamentos espectrais e isotópicos – para construir um retrato detalhado da composição e da textura das rochas. Esses dados são integrados por meio de algoritmos que buscam identificar padrões associados à qualidade dos resultados geocronológicos.
A expectativa é que esse cruzamento permita, no futuro, prever quais amostras têm maior potencial de gerar idades confiáveis e, assim, direcionar o uso de análises mais complexas e destrutivas – com potencial para reduzir incertezas na exploração de petróleo. Ao mesmo tempo, os avanços metodológicos desenvolvidos no projeto podem ampliar a capacidade de datação de rochas sedimentares em diferentes contextos, com implicações que vão além da indústria de energia e alcançam a própria compreensão da história da Terra.
O projeto tem duração prevista de quatro anos, com conclusão estimada para 2029, e reúne uma equipe multidisciplinar, com cerca de dez pesquisadores, entre docentes, pós-doutorandos e alunos de pós-graduação, além de especialistas vinculados ao Laboratório Nacional de Luz Síncrotron e a diferentes laboratórios do IG. A iniciativa conta com investimento de aproximadamente R$ 8,5 milhões em pesquisa e desenvolvimento, além de cerca de R$ 1,5 milhão em infraestrutura.
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Unicamp
- Pioneira da análise do discurso no Brasil, Eni Orlandi recebe título de professora emérita da Unicamp
Pioneira da análise do discurso no Brasil, Eni Orlandi recebe título de professora emérita da Unicamp
Base cultural, identidade e sensação de pertencimento. A língua une, constrói a realidade de um povo e se transforma com o passar do tempo. Ela é viva. Nesse campo, a linguista Eni de Lourdes Puccinelli Orlandi é reconhecida como uma das principais responsáveis pela consolidação da análise de discurso no Brasil. Nascida em 1942, na cidade de São Paulo, a pesquisadora construiu uma trajetória acadêmica marcada pelo pioneirismo e pela articulação entre linguagem, sociedade e ideologia. Em uma cerimônia realizada no auditório do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), na quarta-feira (15), ela foi homenageada com o título de professora emérita da Unicamp.
O reitor Paulo Cesar Montagner foi o responsável pela entrega do diploma à professora. Para ele, títulos eméritos, como o conferido à professora Orlandi, reforçam o papel da Unicamp na valorização de trajetórias acadêmicas que impulsionaram decisivamente o desenvolvimento científico e a formação do pensamento crítico no país. “É importante valorizar aqueles que contribuíram para a construção da história da instituição. Iniciativas como a concessão de títulos honoríficos representam não apenas uma homenagem individual, mas também o reconhecimento coletivo de trajetórias que fortaleceram a produção científica e intelectual. São pessoas que engrandecem o nome da universidade e que, neste momento, tornam-se verdadeiros embaixadores da Unicamp”, afirmou o reitor.

O coordenador-geral da Universidade, Fernando Coelho, também prestigiou a cerimônia. Ele destacou o caráter simbólico do título de emérito, que classificou como um dos mais altos níveis de reconhecimento acadêmico. “A honraria celebra não apenas a excelência na produção científica, mas também a capacidade de formar gerações de novos pesquisadores e consolidar campos de conhecimento”, disse.
Silêncio
Formada em Letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara, em 1964, a professora Orlandi concluiu o mestrado e o doutorado em Linguística pela USP, com parte de sua formação realizada também na Universidade de Paris/Vincennes. Já percorrendo a carreira acadêmica, em 1979 ela se transferiu para a Unicamp, onde desenvolveu grande parte de sua produção intelectual.
Na Universidade, ela foi responsável por introduzir no país a análise de discurso de base materialista, inspirada nos trabalhos do filósofo francês Michel Pêcheux. Também fundou o Laboratório de Estudos Urbanos (Labeurb), consolidando um espaço interdisciplinar dedicado à investigação das relações entre linguagem e cidade. Mesmo após sua aposentadoria, em 2002, continuou atuando como professora colaboradora e pesquisadora.
Com uma produção extensa, que inclui 14 livros autorais, participação em 28 obras coletivas e 133 artigos em periódicos científicos, a pesquisadora também se destacou ao aprofundar o estudo do silêncio na linguagem. Em 1993, recebeu o Prêmio Jabuti na área de Ciências Humanas pelo livro As formas do silêncio, no qual define o silêncio como elemento constitutivo do discurso, fundamental para a produção de sentido. Para Orlandi, o silêncio não representa ausência, mas sim uma dimensão simbólica que permite a interpretação e a abertura do dizer.


Além da produção teórica, sua trajetória é marcada pela formação de um grande número de pesquisadores. Ela orientou dezenas de dissertações e teses, contribuindo para a expansão da análise de discurso no Brasil e na América Latina. Entre esses pesquisadores que contribuem para a multiplicação e consolidação do legado da mais nova professora emérita da Unicamp está Mônica Graciela Zoppi Fontana, diretora associada do IEL, uma das madrinhas de Orlandi no evento. “Cheguei ao Brasil para fazer minha pós-graduação; sou formada na Universidade de Buenos Aires, na Argentina, onde nasci. Desde o primeiro semestre eu fui aluna da professora Eni Orlandi. Depois, participei dos projetos de pesquisa e fui sua colega no departamento. É uma imensa honra e alegria estar nesse momento homenageando a professora que, para mim, é um exemplo e sempre será. Este reconhecimento institucional é muito importante pelo trabalho que ela tem feito e pela enorme formação de pesquisadores e pesquisadoras que estão atuando hoje em todo o Brasil graças ao seu trabalho”, disse Fontana.
Outra madrinha foi Cláudia Castellanos Pfeiffer, pesquisadora do Labeurb. “Estou muito emocionada neste momento de reconhecimento. Faço parte de um grupo enorme de pesquisadores formados por Eni Orlandi. É a valorização da trajetória de alguém que tem uma contribuição acadêmica em muitas dimensões”, ressaltou.

Redes sociais
Pouco antes do início da cerimônia, onde fez seu discurso oficial de agradecimento, a pesquisadora comentou sobre as transformações contemporâneas no campo da linguagem, especialmente diante do impacto das redes sociais. Segundo ela, as mudanças são profundas e afetam diretamente as formas de significação e interação social. “A linguagem está em constante transformação, e isso altera o modo como as pessoas vivem e se relacionam”, explicou.
Para Orlandi, essas transformações não devem ser classificadas como positivas ou negativas, mas compreendidas como parte de processos históricos e sociais mais amplos. Nesse contexto, ela destacou o papel central das novas gerações na renovação da linguagem. “Os jovens são agentes fundamentais dessas mudanças, apropriando-se da linguagem de maneiras diferentes e impulsionando novas formas de expressão”, concluiu a mais nova embaixadora da Unicamp.
Presenças
Também estiveram presentes à cerimônia o professor Eduardo Roberto Junqueira Guimarães, marido de Eni Orlandi e coordenador do Labeurb, Petrilson Alan Pinheiro, diretor do IEL, o professor Lauro José Siqueira Baldini, padrinho da homenageada, Angela de Noronha Bignami, secretária-geral da Unicamp e o professor emérito Carlos Vogt, reitor entre 1990 e 1994, ex-diretor do IEL e atual coordenador do Laboratório em Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), além de diversos outros integrantes da comunidade acadêmica e alunos que tiveram suas carreiras e vidas impactadas pelo trabalho de Eni Orlandi.
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A memória que resiste entre palavras e imagens
Cinco décadas após o golpe militar que instaurou uma das ditaduras mais violentas da história da Argentina, em março de 1976, palavras e imagens se tornam, cada vez mais, um espaço de memória e testemunho, um movimento “ainda estamos aqui”. Para a escritora argentina Nora Strejilevich, 74 anos, sobrevivente do período, as artes são instrumentos decisivos nesse trabalho de permanência: “Cabe a nós ativar a memória.”
Em 1977, Strejilevich foi presa e torturada no centro clandestino de detenção Club Atlético, em Buenos Aires. Após a libertação, viveu um longo exílio em diferentes países, experiência que se tornou matéria central de sua produção literária e acadêmica. Atualmente professora emérita da Universidade Estadual de San Diego, na Califórnia (EUA), a autora construiu uma obra dedicada à reflexão sobre a violência de Estado. “Para mim, a escrita é uma forma de resistência ao apagamento histórico.”
Seu romance-testemunho “Uma Só Morte Numerosa”, publicado originalmente em 1996, está sendo lançado pela primeira vez em português, pela Balaio Editorial. A autora esteve na Unicamp a convite do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) para participar da Jornada Internacional “A literatura de Nora Strejilevich aos 50 anos do golpe militar na Argentina”. Para ela, o lançamento no Brasil adquire um significado ainda mais forte por ocorrer em um momento de reativação dos debates públicos sobre memória democrática. “Demorou muito tempo, mas chegou no momento certo.”
Mais do que narrar uma experiência pessoal, o livro é construído por fragmentos, imagens, vozes e sobreposições. Memórias da infância, o desaparecimento do irmão, a prisão, a tortura e o exílio reaparecem como flashes de uma lembrança que nunca se fecha por completo. Strejilevich destaca que essa escolha formal não foi apenas estética e que responde diretamente à natureza da memória e à dificuldade de elaborar a experiência do trauma. “A estrutura do livro tenta imitar o funcionamento da memória, em que uma palavra leva a uma lembrança e essa lembrança puxa outra”, explica.

A autora ressalta que a lógica do texto se aproxima da montagem cinematográfica, em que imagens, palavras e tempos distintos se sobrepõem. “O livro tem uma construção quase visual, como acontece na montagem do cinema. Nós escrevemos livros que contam a história de uma forma diferente, mas a literatura não chega a públicos tão amplos. O cinema alcança muito mais pessoas do que a literatura”, afirma.
O cinema argentino, destaca, já tem uma tradição consolidada na abordagem da ditadura e de suas reverberações sociais. Filmes como “A História Oficial”, que rendeu o primeiro Oscar para o país, em 1986, e mais recentemente títulos como “O Segredo dos seus Olhos”, também premiado com o Oscar de filme internacional em 2009, e Argentina, 1985, entre outros, trouxeram para o centro da narrativa os dramas e as feridas de um passado doloroso. Para a escritora, esse conjunto de obras não apenas narra acontecimentos históricos, mas amplia a transmissão da memória entre gerações. “Se a história chega ao cinema, ela pode alcançar muitas vidas, um público muito maior, algo que a literatura, lamentavelmente, não consegue sozinha”, diz.
Em um tempo marcado pela circulação veloz de conteúdos e pelo predomínio das plataformas de streaming, Strejilevich vê no audiovisual “uma potência”. Cita o impacto recente do filme “Ainda Estou Aqui”, premiado com o Oscar no ano passado, que reforça o papel do cinema como catalisador do debate público sobre a violência de Estado, o trauma familiar e os silêncios históricos. “É uma forma de fazer essas histórias seguirem vivas”, ressalta.
Após ser libertada, a escritora viveu em diferentes países, como Canadá e Estados Unidos, e mais recentemente retornou à Argentina. “Meu coração e minha imaginação vivem na Argentina. É lindo pertencer a um lugar e viver ali, eu gosto disso, mas quando as circunstâncias políticas mudam e cercam a própria vida, isso é doloroso”, afirma. “Hoje, prefiro ir e voltar, não ficar de forma fixa.”
Depois do Brasil, seu próximo destino é a Itália. “Uma Só Morte Numerosa”, que já foi adaptada para o teatro nos Estados Unidos, em 2001, com o nome “A Single, Numberless Death”, será encenada em Roma. “A adaptação em inglês me impressionou muito. Agora, vai acontecer na Itália, em uma parceria com a dramaturga Ita Scaramuzza”, adianta.

A política, hoje
Ao comentar sua relação com a Argentina de hoje, Strejilevich diz que tem dificuldades diante das atuais circunstâncias políticas. Para a escritora, a eleição de Javier Milei evidenciou transformações profundas na circulação das ideias e no debate público, especialmente entre as novas gerações. “Foi uma surpresa muito grande que um personagem como Milei ganhasse. Parecia uma piada.”
Segundo ela, parte desse fenômeno pode estar relacionada à forma como as redes sociais passaram a moldar o debate político e a recepção da informação. “Passamos a um mundo de comunicação virtual, fragmentado, onde já não há espaço para o debate de ideias. Circulam imagens breves, frases curtas, e isso começa a organizar a maneira como as pessoas pensam”, disse.
A autora observa que esse ambiente favorece discursos simplificadores. “O diálogo, o debate e a conversa desapareceram”, lamenta. Para ela, o ambiente digital enfraqueceu os espaços de elaboração crítica e de escuta e essa lógica afeta, inclusive, a linguagem política e a capacidade de transmissão da experiência histórica.
Para Strejilevich, o empobrecimento da linguagem tem como consequência mais grave o enfraquecimento do diálogo como prática democrática. “O debate era justamente o que permitia avançar o pensamento”, destaca.
Ao comentar a circulação de discursos violentos nas plataformas digitais, ela é enfática ao afirmar que não é possível enfrentar esse cenário reproduzindo a mesma lógica. “Não podemos imitá-los. Não podemos entrar por essa via.” A escritora, porém, não defende um afastamento das redes, mas a necessidade de ocupar criticamente esse espaço. “Esse mundo já existe, não podemos negá-lo. O que precisamos é criar outras formas de circulação dentro desse mesmo espaço.”
Mas Strejilevich ressalta que, apesar das ameaças, o trabalho construído em torno da memória, da verdade e da justiça permanece como um patrimônio coletivo difícil de ser apagado. ““Pensávamos que memória, verdade e justiça eram intocáveis, que jamais seriam colocadas em questão e, de repente, temos um governo que questiona diretamente esse piso”, diz. Ainda assim, avalia que a força social construída ao longo das últimas décadas continua atuando como resistência. “Ele pode querer barrar, mas isso volta. Não terminará, porque a memória está muito viva na sociedade.”

Memória e presente
Ao reunir reflexão acadêmica, testemunho literário e memória histórica, a passagem de Strejilevich pela Unicamp reafirma o papel da Universidade como espaço de elaboração crítica do passado e de defesa da memória democrática. Para a organizadora do evento, Amanda Lacerda, doutoranda em Teoria e História Literária pelo IEL, o debate sobre as ditaduras latino-americanas está longe de se restringir ao campo da história. “Falar de memória é falar do presente”, destaca.
Lacerda pesquisa livros contemporâneos sobre as ditaduras do Brasil, Chile e Argentina, com ênfase nas narrativas da chamada “geração dos filhos” — autores que herdaram os traumas, os silêncios e as perguntas deixadas por aquele período.
A reflexão, segundo ela, torna-se ainda mais urgente em um momento em que discursos autoritários voltam a circular com força no debate público, muitas vezes esvaziando a complexidade histórica em slogans e revisionismos.
O evento, que marcou o cinquentenário do golpe argentino de 1976, reuniu pesquisadores da Unicamp, da Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC-SP) e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), além da participação especial da escritora argentina.
No encerramento houve o lançamento do livro de Strejilevich em português, projeto que nasceu de uma rede acadêmica construída entre pesquisadores brasileiros e argentinos, em especial a partir do trabalho de Lacerda e do historiador Leonardo Claudiano, da PUC-SP.
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Uma antropologia marcada por grafias, imagens e movimento
Nem toda pesquisa é feita somente de palavras. Algumas se desenham em imagens, outras se desdobram em mapas, filmes ou cadernos visuais. Há investigações que pedem voz, gesto, superfície e movimento. É nesse território em que a antropologia se aproxima da arte, da literatura e do cinema que o Laboratório Antropológico de Grafia e Imagem (La’grima), vinculado ao Departamento de Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), construiu um caminho marcado pela experimentação.
Criado em 2015, o grupo realiza, de 15 a 17 de abril, o “Simpósio 10 anos do La’grima: contribuições das grafias nas experimentações antropológicas”, que vai reunir pesquisadores, docentes, estudantes e convidados em torno de uma pergunta que atravessa toda a história do laboratório: de quantas formas o conhecimento pode ser produzido, narrado e compartilhado?

Ao longo de sua primeira década, o La’grima dedicou-se à investigação das grafias e das imagens. Para Fabiana Bruno, pesquisadora e uma das coordenadoras do grupo, o laboratório se consolidou como um ponto de experimentação sobre as formas de produzir conhecimento. “As grafias funcionam menos como um tema e mais como uma forma de pensar a pesquisa”, afirma. “A antropologia é uma disciplina historicamente muito pautada pela escrita e pela descrição e o laboratório ajudou a ampliar essa perspectiva.”
A pesquisadora conta que sua linha de pesquisa, por exemplo, são as fotografias de família. “Entendendo a fotografia não apenas como superfície imagética, mas em relação à oralidade, à memória e a outras formas de grafia. A escrita antropológica também é central e não é vista em oposição às imagens, mas sempre em relação com elas”, explica.
Com programação híbrida, o evento será realizado no Auditório Fausto Castilho, no prédio de graduação do IFCH, com transmissão online pelo canal do Instituto no YouTube. A programação reúne debates e uma mostra das produções do La’grima, que podem ser conhecidas no arquivo digital “Grafia em Linha”
A abertura do simpósio será conduzida pela professora e pesquisadora Suely Kofes, coordenadora do laboratório desde sua criação, com a mesa “A gente pintava nas pedras a voz e o que dava santidades às nossas palavras era a canção do ver: grafias e linhas, dez anos depois”.

Formas de narrar
Para a pesquisadora Daniela Feriani, integrante do grupo desde sua fundação, uma das marcas mais fortes dessa trajetória é justamente a abertura a formas não convencionais de escrita e pesquisa. Ela destaca que essa experimentação aparece não apenas no conteúdo das pesquisas, mas também em sua forma material, com trabalhos que extrapolam a estrutura linear da página, incorporando superfícies, imagens, desenhos e dispositivos visuais como parte do próprio processo de pensamento.
Feriani, pesquisadora dos temas demência e neurodivergência, ressalta que cada vez mais teses e dissertações vêm experimentando com as grafias. “Sem perder o rigor científico, buscamos uma linguagem que possa alcançar públicos mais amplos, seja por meio de uma escrita mais poética, ensaística, visual ou audiovisual”, afirma. “Um filme, por exemplo, é muito mais acessível do que um artigo acadêmico.”
“Durante o meu pós-doutorado, eu mesma criei um site com materiais de pesquisa, justamente pensando em como apresentar esses materiais imagéticos para além de uma escrita meramente acadêmica. É uma forma de fazer com que a pesquisa chegue a outros lugares”, completa a pesquisadora.
Feriani cita exemplos do que é desenvolvido no La’grima, como o projeto “Sala de Cinema”, com exibição de filmes com teor etnográfico. “Escolhemos um filme para debater. Assistimos à obra, promovemos a discussão e, quando possível, convidamos o autor ou diretor para participar”, conta. Ela também destaca os seminários de leitura, em que uma obra ou um tema é escolhido para debate. “Neste semestre, por exemplo, estamos trabalhando com o tema dos sonhos”, conta.
Já a professora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) Mariana Petroni, também da equipe de pesquisadoras do La’grima, destaca a abertura permanente ao novo como uma das principais conquistas do laboratório. “O fato de ser um laboratório de experimentação nos permite incorporar novas linguagens e mudanças sem perder o compromisso com o rigor científico e antropológico”, observa. “Se deixarmos de experimentar, perdemos a nossa essência.”
Atualmente em Salvador, Petroni mantém projetos em diálogo com o grupo e ressalta a força da rede construída ao longo da década. Segundo ela, a experiência do La’grima tem possibilitado intercâmbios entre universidades e novas formas de produção de conhecimento, especialmente em pesquisas ligadas à fotografia, imagem e antropologia visual.
“Minha pesquisa trabalha com fotografias indígenas feitas por indígenas e sobre indígenas, nesse diálogo das grafias, no sentido de compreender tanto a produção quanto a imagem em si, sempre com uma perspectiva antropológica”, completa.

Novas gerações
A equipe do La’grima tem observado um interesse crescente das novas gerações pelo laboratório. “Estudantes de graduação têm buscado o grupo para pensar pesquisas que dialoguem com cinema, imagem, desenho e outros modos de escrita. Também tem sido muito interessante perceber o interesse crescente dos estudantes mais jovens, especialmente da graduação”, conta Bruno.
A coordenadora ressalta que, além dos bolsistas, muitos estudantes colaboradores procuram o laboratório pelo interesse nas questões das grafias. “Eles querem pensar pesquisas de iniciação científica a partir das imagens, de outros modos de escrita e até da produção de filmes. Sentimos uma força muito grande nesse interesse das novas gerações.”
Bruno destaca ainda que a trajetória do La’grima foi marcada por uma ampla rede de interlocução com outros centros de pesquisa, no Brasil e no exterior. Entre os chamados “laboratórios primos”, com os quais o grupo mantém diálogo constante, estão o Sensolab, da Universidad Javeriana, em Bogotá, na Colômbia, o Laboratório de Imagem e Som em Antropologia (Lisa), da Universidade de São Paulo (USP), o Núcleo de Antropologia Visual (Navisual), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e o Grupo de Estudos e Pesquisas Rastros Urbanos, da Universidade Federal do Ceará (UFC). “Essas parcerias são fundamentais para a troca de produções e para a circulação de pesquisadoras e pesquisadores entre instituições”, afirma.
Para ela, a experimentação “é, sobretudo, carregar perguntas” e refletir sobre o modo de compartilhar informação para torná-la mais acessível. “Não somos um laboratório de respostas prontas. O La’grima reflete teórica e epistemologicamente sobre o fazer antropológico, e aí reside também um futuro. Temos um chão sólido de questões e, ao mesmo tempo, um horizonte aberto”, completa.
Acesse o La’grima
Acesse o Arquivo digital Grafia em Linhas
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Agressores transformam redes sociais em ‘armadilhas’ para mulheres
Agressores transformam redes sociais
em ‘armadilhas’ para mulheres
Caism, há 40 anos referência de atendimento a vítimas de violência sexual e doméstica, registra aumento de casos e desafio é ampliar ação nas periferias
Perfis falsos atraem a atenção, geram uma confiança ilusória e, ao final, surge a armadilha que abre caminho para todo tipo de ameaça, agressão e abuso. As redes sociais são um território livre para predadores sexuais atacarem mulheres e meninas. “Democrática”, a violência não escolhe idade, lugar ou condição econômica, apesar de as vítimas pretas e pobres serem os registros mais comuns nas estatísticas. O impacto é tão devastador que alguns profissionais de saúde afirmam que é comum pacientes apresentarem traumas aliados a hipervigilância, ansiedade e amargos flashbacks – um quadro que se encaixa na descrição do transtorno de estresse pós-traumático, semelhante àquele vivenciado por veteranos de guerra.
Esta realidade é cada vez mais comum entre os atendimentos no Hospital da Mulher Prof. Dr. José Aristodemo Pinotti (Caism-Unicamp), que há 40 anos é referência no atendimento e acompanhamento de vítimas de violência sexual. Ali, as pacientes — 50% das quais são menores de 18 anos — têm acompanhamento por seis meses após sofrerem a violência sexual. Mesmo entre as demais pacientes que buscam o local para atendimentos diversos, até 15% trazem algum registro de violência.

“As redes sociais estão virando uma armadilha para a mulher. Temos visto um número significativo delas que começa a ter algum contato com uma pessoa pela internet, marca um encontro e percebe que não era nada daquilo. Identidade fake do outro lado, a conversa vai evoluindo e, de repente, ela chega lá e é estuprada”, afirma José Paulo de Siqueira Guida, professor do Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) e coordenador do Ambulatório de Violência Sexual do Caism.
O uso das redes sociais como isca para a violência sexual é um fenômeno que ainda desafia os profissionais da saúde. “Isso é uma coisa que a gente está colocando no nosso radar. Há 25 anos, não tínhamos aplicativos. Estamos tentando levantar dados de forma mais consistente até para, depois, poder ajudar as autoridades a terem dimensão de que isso é um problema que está acontecendo. É um novo desafio”, acrescenta o médico.
As consequências de vários desses contatos virtuais que, cada vez mais, se transformam em pesadelos reais acabam sendo registradas no Caism, e sua frequência vem crescendo. “Podemos até comparar como algo em uma escala de catástrofe. Muitas chegam em um estado de apatia, vulnerabilidade, precisando de um lugar de cuidado. A nossa tentativa, o tempo inteiro, é oferecer esse espaço”, afirma Mariana Santos, psicóloga assistencial e supervisora do treinamento na área da Ginecologia do Caism.

“Temos casos que se assemelham ao transtorno de estresse pós-traumático. Muitas desenvolvem esse quadro, que é mais grave e com maior risco de repercussão social, emocional, de distanciamento da rotina e contato com as pessoas. Elas enfrentam a perda da rotina, não conseguem estudar ou trabalhar, passam a viver em um isolamento”, relata a psicóloga.
A profissional, que é responsável por acompanhar as condições emocionais das pacientes, destaca o papel negativo das redes sociais nos últimos anos. “A gente percebe que são ambientes de abuso. Identificamos isso aqui, inclusive, em alguns estudos que produzimos. A violência gerada pelo contato em redes sociais, dos chamados ‘conhecidos virtuais’, aparece nos dados de nossos levantamentos”, confirma Santos.
Sua colega Laíse Potério, supervisora do setor de Psicologia, com quatro décadas de atuação no Caism e muitos momentos de dor e alegria vividos ali, confirma os novos casos que têm chegado. “A busca para conhecer alguém em aplicativos de relacionamentos leva à violência e ao abuso. Eles acontecem nesses encontros marcados. Virou armadilha mesmo”, aponta.
Resgate
Ândria Cléia Alves, supervisora de seção do Serviço Social do Caism, confirma que as novas formas de relacionamento trouxeram com elas as velhas situações de exploração do corpo e mente das mulheres. “A violência sexual, aquela que atendemos com maior frequência aqui, tem envolvimento de um companheiro, parente, ex-namorado ou conhecido da família, mas também temos essas abordagens através das redes sociais. São pessoas que criam um perfil falso, um vínculo de confiança, e depois cometem o crime. É uma questão de oportunidade”, conta.
Alves está há mais de duas décadas no hospital e convive, ao lado de uma equipe especializada, com a missão de resgatar mentes destruídas pela exposição à violência sexual. “A mulher que vem para o Caism traz todo o seu histórico de vida, e as violências física e doméstica fazem parte disso. Muitas ocorrências são subnotificadas porque, muitas vezes, a mulher não consegue dizer o que está acontecendo, pois existe uma dependência emocional e financeira. Há ameaças a ela e aos filhos. Então, a gente vai acompanhando a situação dessas pessoas. Queremos fortalecer essas mulheres para que, nas próximas ações, elas possam sair dessa situação.”



A subnotificação das pessoas vivendo em situação de violência é o grande desafio para dimensionar, de fato, o problema social que ganhou ares de epidemia nos últimos tempos. Apenas em 2025, foram registrados 1.568 feminicídios no Brasil, de acordo com levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Um crime é considerado feminicídio quando a vítima é morta pelo simples fato de ser mulher. Em 2015, quando essa tipificação penal foi adotada, o Brasil registrou 535 mortes. Uma década depois, o número cresceu 316%.
Ândria Cléia Alves reforça a questão dos diversos perfis de pacientes: existe a mulher que reconhece a violência sofrida, mas não tem condições de sair da relação naquele momento; as que justificam picos de agressividade dos companheiros provocados pela bebida ou drogas; e há aquelas que naturalizam a situação e não percebem que são vítimas. Existem aquelas que sofrem graves ameaças e têm medo de contar e morrer. A inconformidade do ex-parceiro com o fim da relação, associada a um comportamento violento, são as maiores causas de feminicídio no Brasil.
“Precisamos sempre ter respeito pelo momento delas. Eu tenho como voltar para minha casa e saber como me reorganizar, mas algumas mulheres não têm isso; elas enfrentam o medo de não serem protegidas”, lamenta a supervisora do Caism. “Vivemos sob a cultura do estupro, que busca apontar justificativas para o que acontece com a mulher: a roupa que usa, o horário em que está na rua… Há uma inversão do senso comum. Isso é grave porque você naturaliza a violência e a enxerga como algo que a mulher causou. Na realidade, uma mulher pode estar em qualquer lugar a qualquer momento”, acrescenta Alves.

Como se não bastasse, em algumas ocasiões, as vítimas chegam acompanhadas pelos próprios agressores. “Quando vejo que a pessoa é muito misógina, chamo um médico ou um enfermeiro para atender junto. Daí, o cara baixa a bola. Mas foram poucas vezes que aconteceu isso, porque aqui dentro eles costumam manter o papel de bom moço”, conta a supervisora. “Se a mulher determinar que o acompanhante não entre, não adianta espernear, ele ficará do lado de fora. Pode ter certeza, ele jamais chamará a polícia”, comenta ela.
Ainda de acordo com Alves, sempre foi difícil ocupar o papel de mulher na sociedade. Elas são colocadas em um lugar onde existe a necessidade de proteção porque aos homens tudo é permitido. “Penso que há um movimento de ódio contra a mulher. Tem relação com o que vivemos nos últimos anos. Houve um movimento de desmobilização, falta de investimento em políticas públicas para a mulher. Todo esse trabalho precisou ser reconstruído”, diz a profissional do Caism.

Cartilha
Em 2023, o hospital lançou “Violência contra a Mulher – Cartilha para profissionais de saúde na atenção pré-natal e pós-natal”, das autoras Odette del Risco Sánchez, então doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Tocoginecologia da FCM, Ândria Cléia Alves, assistente social, Fernanda Garanhani de Castro Surita, professora da FCM. O objetivo do material, que é distribuído gratuitamente, é pontuar questões relevantes para os profissionais da saúde sobre a violência contra a mulher, disponibilizar referências para aprofundar o conhecimento sobre o tema e disponibilizar os serviços existentes na região para oferecer os encaminhamentos necessários.
A abordagem deste tema dentro do serviço permite que as mulheres possam identificar as instituições de saúde como espaços acolhedores e de proteção.
Além dessa espécie de guia de atendimento, os profissionais do Caism também adotam a conduta de fazer com que as vítimas contem suas histórias apenas uma vez, tudo para que elas não revivam os chamados “gatilhos” de sofrimento. Outra iniciativa é incluir um protocolo de questões em todos os tipos de atendimento, para identificar situações menos evidentes. Algumas perguntas são: Está tudo bem em sua casa, com seu companheiro? Você está com problemas no relacionamento familiar? Você acha que os problemas em casa estão afetando sua saúde?
Morte
Além da dificuldade de lidar com histórias sempre complexas, há ainda uma dor maior: a derrota para a morte. “Já aconteceu de perdermos alguém. Não vou entrar em detalhes, mas era uma pessoa que já vinha de um processo crônico de violência doméstica. O sentimento é horroroso, muito difícil. Foi uma pessoa que lutou bastante, teve toda uma rede envolvida e cuidados, mas, mesmo assim, a gente não conseguiu”, lamenta a supervisora do Serviço Social. “Tem circunstâncias que independem dos serviços. Em alguns momentos, a gente fica em uma situação de impotência diante de algumas coisas que não vão mudar completamente… Sabemos que alguns casos vão dar certo e outros não, por isso não podemos naturalizar ou perder a força de nos indignarmos diante das situações de violência”, observa Alves.

Basta!
A psicóloga Laíse Potério incorpora essa mentalidade de que o apoio às mulheres vai além dos atendimentos. “Estou aqui desde o princípio, e todos os casos nos atravessam de alguma forma, porque a gente é mulher, mãe, filha. Essa violência é sempre um divisor de águas mesmo. A vida da mulher nunca mais será igual”, diz ela. “Chega, basta! Não dá para você ter um filho ou uma filha e não discutir essas questões com eles hoje em dia ou esperar que a escola faça isso. Falta um letramento sobre educação sexual. Nossa sociedade está doente”, desabafa Potério.
Ela conta que algumas mulheres têm necessidade de contar o ocorrido, como uma saída terapêutica. Já outras não têm mais estrutura para isso. São adolescentes e mulheres trazendo uma culpa enraizada, como se o ocorrido tivesse sido provocado por elas, através de um comportamento ou da escolha de uma roupa. Buscar ajuda e passar pelos procedimentos e exames necessários já é um desafio. “Quando a vítima chega aqui, esse reviver é avassalador. Os mecanismos de esquecimento precisam ser remexidos, e isso é extremamente doloroso. Algumas dizem que não vão contar para a família porque temem o julgamento, a vergonha, o ataque à reputação e a visão distorcida do ocorrido. Outras começam a tomar muitos banhos para tirar uma sujeira que está, na verdade, na alma”, afirma a psicóloga. “Elas vêm desesperadas e, ao vivenciar uma escuta empática, mudam. Ao final, buscam um longo abraço. É a sensação de não estar sozinha. As mulheres estão tendo acesso à informação e tentando buscar outros caminhos”, afirma Potério, com a experiência de quem sabe que, enquanto existir empatia, a batalha não estará perdida.


Tecnologia que permite avanços é a mesma que fomenta agressões

Com o crescimento acelerado dos aplicativos e sites de relacionamento, aliado a uma vida cada vez mais conectada nas redes sociais e ao avanço das tecnologias de geração de conteúdo por inteligência artificial, os cuidados ao se expor nesse ambiente precisam ser redobrados. Um dos principais pontos de atenção é a dependência emocional: pessoas mal-intencionadas frequentemente buscam indivíduos em situação de vulnerabilidade, explorando carência e fragilidade emocional. Por isso, antes de iniciar qualquer interação, é fundamental cuidar de si, fortalecer a autoestima e encontrar satisfação na própria vida, reduzindo a chance de manipulação por terceiros.
Mesmo ao se sentir preparada para um relacionamento — seja uma amizade virtual ou algo mais sério —, a cautela continua sendo indispensável. Perfis falsos criados com o uso de tecnologias generativas (que utilizam dados, textos, imagens, vídeos, áudios e códigos verdadeiros para criar algo diferente) são cada vez mais comuns, exigindo atenção a sinais suspeitos, como perfis excessivamente perfeitos ou comportamentos inconsistentes.
Nunca compartilhe dinheiro, dados pessoais sensíveis ou informações que possam comprometer sua segurança. Em chamadas de vídeo, observe possíveis falhas, como desalinhamento entre voz e imagem ou irregularidades faciais. Caso decida encontrar alguém presencialmente, avise pessoas de confiança, escolha locais públicos e movimentados e, se possível, vá acompanhada. Adotar essas precauções não é exagero, mas sim uma forma responsável de preservar sua segurança. ![]()
Stephane de Freitas Schwarz é doutoranda em Ciência da Computação, na Unicamp, na área de Análise Forense, e pesquisadora do Laboratório de Inteligência Artificial (Recod.ai).

Feminicídio é epidêmico no país, diz ministra das Mulheres
Assistente social e professora universitária aposentada, Márcia Lopes, ministra das Mulheres, defende a regulamentação das mídias sociais como forma de combate à violência digital que afeta meninas e mulheres no Brasil. Durante uma agenda em Campinas, ela se mostrou alarmada com a escalada do feminicídio no País.
“É muito importante que todas as políticas públicas olhem para esse fenômeno para, inclusive, analisar, dimensionar e entender o que tem ocorrido. O Ministério da Saúde, por exemplo, está tomando uma série de medidas, e uma delas é a solicitação junto à Organização Mundial da Saúde para incluir o feminicídio como um item do CID (Classificação Internacional de Doenças)”, afirmou a ministra, concordando que há uma epidemia de violência de gênero no País.

“A violência não nasce do nada. Precisamos investir na educação, na formação, romper ciclos históricos de machismo e misoginia. Se, daqui a alguns anos, tivermos profissionais de todas as áreas com outra formação, certamente essa realidade de banalização da violência vai se modificar. Por isso, queremos mais mulheres na política. Defendemos paridade: 50% de mulheres nos espaços de poder. Isso faz diferença. Sabemos que o mundo vem de uma raiz patriarcal, machista e misógina. Por isso a nossa luta é grande”, comentou Lopes.
A ministra citou o Pacto Brasil contra o feminicídio, lançado em fevereiro em todo o território nacional, que representa um compromisso entre o Executivo, Legislativo e Judiciário para agilizar o enfrentamento da violência contra a mulher. A meta é reduzir a impunidade e acelerar medidas que fortaleçam as redes de proteção. (Colaborou Daniela Prandi)

OS REDPILLS E A ‘MACHOSFERA’

Hoje, vemos a proliferação de conteúdos misóginos, como os chamados “redpills”, que não só reforçam estereótipos violentos, mas também normalizam o ódio, a desumanização e até a legitimação da violência contra mulheres.
Ao mesmo tempo, temos um cenário em que a juventude tem se mostrado mais conservadora do que gerações anteriores, algo que pesquisas recentes vêm apontando. O que se observa é que os mais jovens têm concordado mais com visões tradicionais sobre gênero, muitas delas baseadas em desigualdade e violência contra as mulheres.
A questão é que esse conservadorismo, combinado com a misoginia presente em parte da Geração Z, tem forte influência do ambiente digital. Por meio dos conteúdos da chamada “machosfera”, jovens encontram espaços que não só reforçam essas visões como também legitimam e incentivam comportamentos violentos contra mulheres. O caso recente de estupro coletivo em Copacabana, em que um dos suspeitos se apresentou à polícia usando uma camiseta com o lema de um influenciador “redpill”, evidencia como esses conteúdos transbordam para a vida real.
O que circula na internet impacta diretamente os comportamentos fora dela, influencia atitudes, molda relações e, no caso dos conteúdos “redpill”, alimenta todas as formas de violência contra a mulher: física, sexual, psicológica e moral. Esse cenário é agravado por características próprias do ambiente digital, como a velocidade de disseminação, o alcance maciço e a sensação de anonimato, que reduz barreiras para comportamentos agressivos.
Nesse contexto, é fundamental fortalecer políticas de formação e proteção para esses jovens. Estamos falando de pessoas em formação, expostas a um ambiente ainda pouco regulado e insuficientemente monitorado. É necessário avançar na regulação, tanto para proteger crianças e adolescentes no ambiente digital, através de iniciativas como o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) digital, quanto para garantir a retirada de conteúdos criminosos e a responsabilização de quem os produz e dissemina. ![]()
Beatriz Schroeder, pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública
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Aborto legal é direito à dignidade para vítimas de violência sexual
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Livro que revela heróis anônimos do projeto Brasil: Nunca Mais é lançado em evento no IFCH
Contar o que ainda não tinha sido contado. Com esse objetivo em mente, o jornalista e escritor Camilo Vannuchi revisitou os bastidores do projeto Brasil: Nunca Mais, que resultou no livro homônimo lançado em 1985 e se tornou um marco do final do período de repressão militar, iniciado em 1964. No livro-reportagem “Nunca Mais: Os bastidores da maior denúncia contra a tortura já feita no Brasil” (editora Discurso Direto), lançado durante evento nesta quarta-feira, dia 8, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, Vannuchi lista 444 torturadores e 242 centros de tortura, além de revelar como, de forma quase improvisada, heróis anônimos conseguiram sustentar a maior denúncia contra a tortura já realizada no país.
“Quem foram as pessoas que, longe dos holofotes e sob risco permanente, trabalharam para impedir que a memória da tortura e da violência de Estado desaparecesse com o fim da ditadura militar? Quem copiou, microfilmou, organizou e escondeu os documentos?”, questiona Vannuchi, filho de Paulo de Tarso Vannuchi, preso político encarcerado durante cinco anos durante a ditadura militar, e primo de Alexandre Vannucchi Leme, estudante torturado e morto em 1973, cuja trágica história ele conta no livro “Eu só disse meu nome”, lançado em 2024.

O encontro, intitulado Memória e Democracia, promovido pelo IFCH e pelo Arquivo Edgard Leuenroth (AEL), da Unicamp, onde parte fundamental desse acervo se encontra preservada, reuniu Vannuchi, o diretor do arquivo, Mário Medeiros, que mediou o evento, a pesquisadora Magali Cunha, do Instituto de Estudos da Religião (Iser), e o professor do IFCH Marcelo Ridenti. Ao abrir a mesa, o autor ressaltou o simbolismo de discutir o tema no AEL, “guardião desta memória”.
Pontinha do iceberg
Vannuchi destaca que o livro “Brasil: Nunca Mais” sintetizou, em pouco mais de 300 páginas, um relatório de cerca de 6 mil páginas a partir da análise de mais de 1 milhão de páginas de processos da Justiça Militar. “Ele foi feito nos últimos dez meses de um projeto de seis anos. O livro ‘Brasil: Nunca Mais’ é uma pontinha do iceberg.”
Ao revisitar o tema, primeiro em um podcast e agora em livro, ambos com o título “Nunca Mais”, o autor reconstruiu a rede humana que sustentou a operação: advogados, religiosos, arquivistas, técnicos de microfilmagem, militantes e funcionários que trabalharam em absoluto sigilo entre 1979 e 1985. Trata-se de uma investigação que trouxe à luz personagens menos conhecidos, que atuaram longe do protagonismo público e cuja participação foi decisiva para a preservação da memória.
Com 236 páginas, o livro reconstrói o trabalho sigiloso conduzido por uma equipe de cerca de 30 pessoas ao longo de cinco anos. Entre eles estão Abel de Alencar, responsável por fotocopiar as milhares de páginas dos processos, e José do Egito Sombra, encarregado de microfilmar, página por página, parte fundamental do acervo. Vannuchi também resgatou o papel de Alê Corazza, responsável pela tesouraria e pela logística financeira da operação clandestina, além de Anivaldo Padilha (pai do ministro da Saúde, Alexandre Padilha), cuja interlocução com o Conselho Mundial de Igrejas, em Genebra (Suíça), foi decisiva para a obtenção de recursos internacionais que mantiveram o projeto em funcionamento.
Paralelamente à atuação pública de nomes centrais do projeto Brasil: Nunca Mais, como d. Paulo Evaristo Arns, o reverendo Jaime Wright e a advogada Eny Raimundo Moreira, atuavam, em segredo, para levar a empreitada adiante, um grupo se encarregou da missão de salvar os processos políticos antes que fossem destruídos. Um dos episódios mais emblemáticos revelados pelo jornalista diz respeito ao modo como os recursos enviados da Suíça chegavam ao Brasil. Para preservar o sigilo da operação, a equipe utilizava um código para avisar sobre a vinda do dinheiro: “Chegaram os chocolates”.

Segundo o autor, o dinheiro era trazido de forma discreta por integrantes da articulação internacional, muitas vezes escondido em roupas e pertences pessoais. “Era um dinheiro não contabilizado”, relata. O escritor também descobriu como foi realizado o transporte clandestino dos microfilmes para Genebra, onde se formou uma cópia de segurança do acervo. “Iam escondidos no sapato, na bolsa, na cueca. Se tudo desaparecesse aqui, haveria uma cópia preservada.”
Vannuchi ressalta que a dimensão técnica da operação foi gigantesca: 707 processos analisados, milhares de questionários preenchidos manualmente e uma base de dados construída antes da era digital. “Foi esse trabalho que permitiu identificar 444 agentes envolvidos na tortura, desmontando a narrativa de que a violência teria sido episódica ou resultado de excessos individuais. Não eram casos isolados. Era uma estrutura institucionalizada”, afirma.
Ao trazer a discussão para o presente, o autor destaca que a memória não pode ser tratada como assunto exclusivamente histórico. “Não é para falar do passado. É para falar do presente e do futuro.” Ao mencionar denúncias recentes de tortura no sistema prisional e episódios de violência policial, afirma: “A impunidade de ontem é o salvo-conduto para a violência de hoje”.
Vannuchi confirma que a história do projeto Brasil: Nunca Mais vai ganhar uma adaptação para o cinema. “Tem um filme sendo feito. Antes do meu projeto, eles já estavam há seis anos trabalhando no roteiro e me procuraram. Estou ajudando com consultoria de pesquisa para não ter erros históricos”, conta. A adaptação, segundo ele, deverá enfatizar o caráter de suspense e espionagem da operação clandestina que deu origem ao acervo. “Essa história já nasceu como thriller, como filme de espionagem”, destaca.
A verdade, somente a verdade
Durante o evento no IFCH, a pesquisadora Magali Cunha ampliou a discussão ao recuperar um aspecto pouco conhecido da história do projeto: o papel decisivo de setores evangélicos na resistência democrática e na viabilização do Brasil: Nunca Mais. Para ela, o projeto foi “nossa primeira Comissão da Verdade”.
Segundo ela, o protagonismo contemporâneo de igrejas e lideranças religiosas intensificou o apagamento de uma memória histórica fundamental. “Muita gente não sabe que igrejas evangélicas tornaram possível o acervo. A participação do pastor presbiteriano Jaime Wright, que buscava pelo irmão desaparecido, Paulo Stuart Wright, foi fundamental.”

Cunha destaca que, em articulação com o Conselho Mundial de Igrejas, em Genebra, e com d. Paulo Evaristo Arns, então cardeal-arcebispo de São Paulo, Wright ajudou a estruturar a rede que trouxe recursos ao Brasil e possibilitou a operação clandestina.
Já o professor Marcelo Ridenti, do Departamento de Sociologia do IFCH, relembrou sua relação pioneira com o acervo e como utilizou a documentação do projeto Brasil: Nunca Mais ainda nos anos 1980, antes de sua ampla disponibilização pública. Segundo ele, o trabalho foi fundamental para a tese que resultaria no seu livro “O Fantasma da Revolução Brasileira”.
Ridenti ressalta que o projeto permitiu não apenas a leitura qualitativa dos depoimentos, mas também a construção de uma base estatística sem precedentes sobre os perseguidos pelo regime. Com apoio do setor de informática da Universidade Estadual de Londrina (UEL), onde era professor, organizou tabelas e quadros quantitativos sobre idade, sexo, ocupação profissional e filiação política dos processados. “Foi um trabalho monumental.”
Entre os resultados, destaca a forte presença da juventude entre os processados. “A maior parte dos perseguidos era muito jovem, com até 25 anos”, conta. Outro dado relevante foi a possibilidade de identificar a participação das mulheres nas organizações políticas e de analisar comparativamente diferentes perfis sociais. Esses levantamentos, afirma, permitiram compreender as bases sociais da oposição política ao regime e se tornaram referência para estudos posteriores sobre repressão e resistência. “O projeto Brasil: Nunca Mais fez um trabalho fabuloso: preservar a memória para que essas histórias sigam vivas.”
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A linguagem ao alcance de todos
Não é preciso ser linguista para ler, apreciar e absorver o conteúdo do livro Língua como poder simbólico, de Claire Kramsch, o primeiro da série Estudos Linguísticos, que dá início à Coleção Linguística Contemporânea, da Editora da Unicamp. A professora emérita da Universidade da Califórnia, em Berkeley (EUA), faz análises de temas atuais – quase sempre polêmicos – como Donald Trump e os usos que ele faz das mídias sociais, sob a perspectiva do poder simbólico da língua no cotidiano das pessoas.
“A língua pode informar ou enganar, seduzir ou insultar, fazer com que nos apaixonemos ou acabar com a nossa reputação. O que há na língua que lhe dá esse poder?”, escreve Kramsch no texto de agradecimento do livro, mencionando sua apresentação da disciplina Língua e Poder, ministrada por ela ao longo de 12 anos, que deu origem ao livro. As aulas sobre o funcionamento da língua eram dirigidas a estudantes de diferentes áreas com o objetivo de “envolver e inflamar as mentes de não especialistas”, como foi proposto pelo programa Disciplinas de Descobertas da Universidade.
De acordo com a professora Anna Bentes, do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, coordenadora da coleção, o livro retoma e aprofunda o conceito de poder simbólico do sociólogo e filósofo francês Pierre Bourdieu como mecanismo capaz de “construir a realidade social por meio da criação e do uso de símbolos que dão sentido ao mundo”.

Acessível ao leigo
“No livro, Kramsch amplia o conceito de poder simbólico e fala da nossa capacidade de construção, por meio da linguagem, das relações e das interações”, diz a coordenadora da Coleção Linguística Contemporânea. “Nos últimos mais de cem anos, desde que Ferdinand Saussure fundou a Linguística, em 1916, nós, do campo dos estudos da linguagem, mostramos a importância das teorizações produzidas nesse campo. Hoje, há uma influência muito grande dos estudos da linguagem em várias áreas, mas muitas vezes não temos livros que sejam acessíveis para o público de fora da área”, afirma Bentes.
A série Estudos Linguísticos, que integra a nova coleção da Editora da Unicamp, prevê a publicação de quatro obras de formação, com o objetivo de “entender a natureza social da linguagem e sua centralidade”. Serão títulos traduzidos, cujos processos são mais caros e mais demorados do que publicações de autores brasileiros. A cada dois anos deve ser publicado um novo título. “Primeiro é preciso pagar os royalties, depois a tradução, a revisão da tradução e a publicação. Essa série vai demorar cerca de oito anos.” Já na série Temas de Linguagem e Sociedade, que também compõe a Coleção Linguística Contemporânea, as obras serão de autores brasileiros com o foco de tornar os estudos da linguagem mais conhecidos e divulgados.

“Nós escolhemos a produção de obras que apresentem uma linguagem de mais fácil acesso para o público de não especialistas do campo e temas interdisciplinares ou multidisciplinares”, diz Bentes. Não por acaso, a coleção começou a série Estudos Linguísticos com Língua como poder simbólico, de Claire Kramsch. Para a coordenadora, um dos valores do livro é não privilegiar a teoria. “Ela trata de fenômenos concretos e mais atuais. É um título que vai interessar e dialogar com muitas áreas. A coleção tem como princípio fundamental esse diálogo com outras áreas do conhecimento.”
Para além da comunicação
Com exceção da obra de Bourdieu, não há no Brasil nenhum título cujo tema central relacione língua e poder simbólico, afirma a professora. “Nós temos a capacidade de compreender o mundo de forma linguística. A obra contribui para entender melhor o poder da nossa compreensão por meio das línguas naturais”, reafirma Bentes.
Logo no início do livro, a autora chama a atenção para a importância da língua. “Tem gente que acha que a língua é uma coisa que usamos apenas como meio de comunicação”, escreve Kramsch. E complementa: “Não é apenas isso”. A professora Bentes acrescenta: “Os usos linguísticos e, portanto, as línguas têm o poder de influenciar os outros.”

Mídias sociais
Sobre as mídias sociais, Kramsch escreve que, “de maneira idealista”, elas se propõem apenas a “conectar as pessoas ao redor do mundo”, mas na prática são “criadoras de dependência, ansiedade e alienação, além de minarem a própria democracia”. A autora situa as mídias sociais na história contemporânea: “A propaganda política grosseira da Guerra Fria foi substituída pelas chamadas ‘tecnologias de persuasão’, muito mais sutis, do Facebook e do Google”.
Kramsch fala do “paradoxo do poder simbólico da língua”, que nos dá “o poder de organizar e classificar as coisas no mundo, mas também tem o poder de disciplinar e restringir o nosso conhecimento”. Já nas suas considerações finais, a autora conclui que não é novidade “que as pessoas não necessariamente querem dizer o que dizem nem dizem o que querem, mas, com a mídia social, as incertezas de significado de hoje aumentaram exponencialmente”.
Verdade
A verdade foi substituída por uma multiplicidade de opiniões nas redes sociais, e esse contexto implodiu e fragmentou a ideia de apenas uma verdade, diz o livro. “Não existe uma única visão de mundo, uma única perspectiva, uma única verdade. A verdade é sempre perspectivada”, acrescenta a professora Bentes.
Conhecimento não é o mesmo que informação. Esse é também um dos temas do livro. “O que as pessoas estão aprendendo na internet, que elas pensam que é conhecimento, é misconnaissance, na definição de Bourdieu, de um tipo de conhecimento desvirtuado ou equivocado, aquilo que você acha que conhece, mas não conhece”, explica a professora da Unicamp. “É um conhecimento que parece ser da ordem natural das coisas porque a pessoa nem sequer questiona. É como se fosse um consenso”, explica Bentes.

Violência masculina
Mesmo a construção de consensos leva muito tempo. A professora cita o exemplo do consenso de que determinadas práticas civis das mulheres brasileiras não podem mais ser, hoje em dia, determinadas pela autoridade masculina. “No início do século XX, era um consenso que as mulheres tinham que ser tuteladas pelos homens. Isso mudou. Passa-se a ter outro consenso, o de que as mulheres podem ter independência. Mas hoje vemos a tentativa de retomada daquele consenso anterior de que a mulher precisa ser tutelada ou de que não pode dissolver o seu relacionamento amoroso; se isso acontece, ela corre o risco de sofrer um feminicídio ou outros tipos de agressão. Temos que nomear isso: mais que violência contra a mulher, trata-se de violência masculina”, pontua Bentes.
“Eles vão forjando isso por meio de blogs e sites, em que isso vai sendo dito, como no caso de estudantes que elegiam a garota ‘estuprável’, escrevendo em uma mídia. A norma social fez com que eles apagassem, mas a polícia recuperou.” As pessoas têm o poder simbólico na medida em que têm o poder de interpelação, diz a professora. Isso acontece tanto na dimensão micro (do uso de símbolos linguísticos) quanto macro (dos usos e abusos do poder simbólico), conforme teoriza a autora do livro.
Donald Trump
Kramsch também traz temas atuais, como a política do presidente norte-americano, Donald Trump, descrito por Kramsch como uma pessoa que “faz uso abusivo do poder simbólico da língua”. Ela reconhece no livro que a figura do presidente causou forte impacto em suas análises.
“A atual situação política dos Estados Unidos afetou fortemente a maneira como vejo as questões discutidas neste livro. Os excessos verbais de Trump (uso abusivo da linguagem) que desafiam as normas e rompem com a verdade e esmagam atos de fala criam um clima de ‘incerteza e ansiedade simbólica’, mas também proporcionam o aumento da conscientização dos usuários de línguas e dos usuários de sistemas digitais sobre os efeitos paradoxais da língua como ação simbólica em nossas trocas verbais diárias.”
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Carrancas perdem valor folclórico e ganham sentido artístico
Relações sociais ajudam idosos a combater solidão na era das redes digitais
“O que diminui crime não é prisão, é política pública”
Pesquisa da Unicamp dá origem a memorial nacional sobre a pandemia
A partir de uma pesquisa que nasceu na Unicamp, os anos da pandemia, que tanto alteraram a vida coletiva e deixaram marcas profundas na história recente, foram preservados na plataforma Memorial Digital da Pandemia de Covid-19, lançado neste 7 de abril, Dia Mundial da Saúde. O portal reúne, organiza e disponibiliza registros científicos, institucionais, culturais e sociais produzidos ao longo da crise sanitária no Brasil. Mais do que um site de consulta, o projeto consolida uma política pública de memória.
A trajetória que desemboca no lançamento do memorial começou ainda nos primeiros meses de 2020, quando a pandemia impôs uma experiência inédita de perdas, isolamento, cuidado coletivo e reorganização da vida cotidiana. No Centro de Humanidades Digitais (CHD) da Unicamp, uma pergunta passou a orientar a pesquisa coordenada pelo professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e atual coordenador do Arquivo Público do Estado de São Paulo, Thiago Nicodemo: como preservar as fontes que, no futuro, permitiriam contar a história da pandemia?

“O projeto nasceu na Unicamp, literalmente em um fundo de garagem”, lembra Nicodemo. Uma ideia que começou como investigação acadêmica mobilizou estudantes e pesquisadores da Universidade e, seis anos depois, se transformou em uma infraestrutura pública de preservação digital. “Percebemos que, no meio das catástrofes, grupos sociais se articulam para produzir e armazenar memórias sobre sua identidade.”
Desde 11 de março de 2020, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o estado de pandemia, milhões de pessoas em todo o mundo passaram a registrar suas experiências diante de um acontecimento tão incerto quanto traumático. No Brasil, esse movimento também se fez presente: a população documentou o cotidiano do isolamento, as perdas, as formas de cuidado, a mobilização coletiva e as desigualdades aprofundadas pela crise sanitária.
Foi a partir dessa realidade que o CHD passou a mapear as múltiplas formas de registro. “Eu percebi que havia um grande fenômeno da memória no mundo contemporâneo”, destaca Nicodemo. Dessa reflexão surgiu o Coronarquivo, projeto desenvolvido pelo CHD como um “arquivo de arquivos” dedicado a mapear iniciativas de memória da pandemia em todo o país.
Ao longo da pesquisa, foram identificadas mais de 120 iniciativas, envolvendo universidades, museus, escolas, coletivos, movimentos sociais, comunidades indígenas, associações de moradores e organizações da sociedade civil. O trabalho revelou um fenômeno significativo: grande parte das memórias da pandemia estava sendo produzida fora dos arquivos públicos tradicionais. Fotos, vídeos, relatos, mensagens, postagens em redes sociais e documentos diversos passaram a ser organizados por grupos comunitários, pesquisadores e cidadãos comuns, frequentemente de forma voluntária e criativa.
“O potencial disso é infinito, porque nos permite criar soluções de memória que deem conta da escala e da diversidade do mundo digital”, afirma Nicodemo. Segundo ele, o projeto articula uma dimensão clássica das humanidades com a experimentação tecnológica e a resolução de problemas sociais concretos. “É ciência, porque resolve um problema real, existente na sociedade.”


Solução de memória
Mais do que um repositório de documentos, o memorial oferece acesso gratuito a depoimentos, entrevistas, produções artísticas, fotografias, mapas, registros sonoros e filmográficos, documentos normativos, publicações científicas e referências bibliográficas relacionadas à pandemia, além de permitir a incorporação contínua de novas coleções.
Essa abundância de registros, no entanto, também evidenciou um problema central: a fragilidade do ambiente digital. Computadores quebram, HDs deixam de funcionar, senhas são esquecidas, plataformas deixam de existir e formatos se tornam obsoletos.
“Sem infraestrutura adequada, uma parte significativa dessa memória corria o risco de desaparecer”, ressalta. “O projeto não é apenas um repositório. É uma solução de memória.”
O acervo contempla documentos formais e informais, individuais e coletivos, relacionados às diferentes experiências da Covid-19 no Brasil. Estão presentes registros produzidos por povos indígenas, comunidades periféricas, movimentos sociais e grupos historicamente marginalizados, tornando visíveis dimensões muitas vezes apagadas da crise sanitária, como desigualdade social, racismo, violência de gênero e violações de direitos.
Para Nicodemo, preservar essas memórias é também uma forma de enfrentar a cultura brasileira do esquecimento. “O Brasil tem uma tradição de não processar suas feridas”, afirma. “Foi assim com a ditadura, foi assim com a escravidão, e há o risco de acontecer o mesmo com a pandemia. O memorial é parte do processo de reconhecimento e elaboração do que aconteceu.”
Segundo ele, embora exista um certo esgotamento social em relação ao tema, consequência dos anos em que a pandemia ocupou integralmente o cotidiano, o trabalho de memória continua sendo indispensável. “É um evento que matou 700 mil pessoas no país e não pode ser subestimado”, diz. “A memória é um trabalho terapêutico para quem foi diretamente envolvido, mas também é uma responsabilidade coletiva.”
Desde 2021, a equipe do CHD também vem realizando entrevistas de história oral com responsáveis por arquivos digitais sobre a Covid-19 no Brasil e outros países da América Latina, ampliando o escopo da pesquisa e consolidando uma rede internacional de preservação.
Os resultados desse percurso foram sistematizados em diversos artigos acadêmicos e no livro Por uma história da Covid-19: iniciativas de memória da pandemia no Brasil, organizado por Ian Kisil Marino, pesquisador do projeto, e por Nicodemo, publicado em 2023.
Em 2024, Marino defendeu, no IFCH, a tese “Arquivando a pandemia: transformação digital e luta pela memória na América Latina”, para a obtenção do título de doutor em História, na área de Dinâmicas e Linguagens Políticas. No mesmo ano, Nicodemo defendeu a tese de livre-docência “Arquivo Digital: história e memória diante dos desafios do século XXI”, também no IFCH.

Dimensão institucional
A partir de 2024, a iniciativa ganhou dimensão institucional. Em março daquele ano, o Ministério da Saúde realizou, em Brasília, o Seminário Memorial da Pandemia de Covid-19, marco importante para a formalização do projeto.
O encontro resultou na assinatura de um memorando de entendimento entre os ministérios da Saúde e da Cultura, consolidando a criação do memorial no Centro Cultural do Ministério da Saúde. A iniciativa do CHD contou ainda com a parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).
Entre 2024 e 2025, o diálogo entre as instituições levou à construção do modelo. Para o professor, a experiência também projeta novos caminhos para a Universidade. “Tecnologia não é algo fora das humanidades. Ela precisa estar dentro desse campo, de forma crítica e experimental”, afirma. “Isso tensiona o papel da Universidade para o futuro.”
O modelo já desperta interesse para outras aplicações, como a preservação de memórias relacionadas a guerras, mudanças climáticas e saberes tradicionais de comunidades indígenas em diferentes países. “É uma área híbrida de conhecimentos que a sociedade demanda cada vez mais”, afirma. “A Universidade precisa formar gente nesses saberes híbridos.”
Além do ambiente digital, o projeto prevê ações de difusão, como exposições itinerantes em diferentes capitais e uma mostra permanente no Centro Cultural do Ministério da Saúde, no Rio de Janeiro.
No site, já está disponível uma mostra fotográfica com imagens em preto e branco produzidas pelo fotojornalista e historiador Carlos Erbs Jr., que ilustram essa reportagem. O fotógrafo acompanhou a crise sanitária desde os primeiros momentos e percorreu as ruas do Rio de Janeiro para registrar os efeitos das medidas de isolamento social, as ações de órgãos públicos, iniciativas da sociedade civil, os gestos de solidariedade e a tensão vivida pelos profissionais da linha de frente. As fotos integram o livro Vidas importam – Memória visual da pandemia COVID-19 no Rio de Janeiro (Editora iVentura, 2021).


Serviço:
Lançamento do Memorial Digital da Pandemia de Covid-19
Data: 7 de abril de 2026
Horário: 16h30
Local: Centro Cultural do Ministério da Saúde (CCMS)
Praça Marechal Âncora, 95 – Centro, Rio de Janeiro (RJ)
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Unicamp
- Consu aprova título de Professor Emérito ‘Post Mortem’ a Lauro Kubota e a Oswaldo Luiz Alves
Consu aprova título de Professor Emérito ‘Post Mortem’ a Lauro Kubota e a Oswaldo Luiz Alves
Órgão máximo de deliberação da Unicamp, o Conselho Universitário (Consu) aprovou, nesta terça-feira (31), a concessão do título de Professor Emérito “Post Mortem” a dois professores do Instituto de Química (IQ). O Departamento de Química Orgânica indicou Oswaldo Luiz Alves, e o Departamento de Química Analítica, Lauro Tatsuo Kubota.
O professor Lauro Kubota nasceu em 20 de junho de 1964 em Goioerê, no estado do Paraná. Ele foi referência no Brasil na área de Química Analítica, especialmente em Eletroquímica, Biossensores, Dispositivos de Análise e Materiais Avançados para Sensoriamento. Suas linhas de pesquisa alinhavam inovação (novos materiais, plataformas de baixo custo, dispositivos portáteis) com aplicações relevantes. Sua produção científica alcançou alta visibilidade, tendo recebido mais de 24 mil citações (índice h = 85) no Google Scholar. Em 2025, integrou a lista dos 106 cientistas mais influentes do mundo.
Concluiu a graduação em Química na Universidade Estadual de Londrina-PR em 1986. Em 1993, obteve o doutorado em Química pela Unicamp. Após estágio de pós-doutorado na Lund University, na Suécia, e um período como docente na Faculdade de Ciências da Unesp-Bauru, ingressou na Unicamp em 1994 como professor assistente.
“Sua preocupação com a democratização do acesso à tecnologia, por exemplo, com plataformas em papel ou dispositivos portáteis de baixo custo para análise, engajou suas equipes em projetos com grande alcance social. Esse fator coloca em clara evidência a atuação de um professor que não apenas produziu ciência de qualidade, mas também contribuiu para formar pessoas e impactar o meio social”, diz o relatório elaborado pela comissão especial constituída para analisar a proposta de entrega da honraria e que contou com os professores Fernando Galembeck, José Geromel e Mário Saad. Kubota faleceu no dia 4 de outubro de 2024, aos 60 anos de idade.


Trajetória marcada pela inovação
Primeiro estudante negro do curso de Química da Unicamp, Oswaldo Luiz Alves construiu uma trajetória marcada pela inovação.
Sua atuação em inovação tecnológica resultou no depósito de 31 patentes, uma delas licenciada para a indústria. Destaca-se aqui o fato de que sua primeira patente foi depositada junto ao INPI em 1991, antes do início do movimento de inovação tecnológica na academia e da constituição, pela Unicamp, de sua Agência de Inovação, ocorrida em 2003.
Devido às suas conquistas nessa área, Oswaldo recebeu várias vezes da INOVA o Prêmio “Inventores Unicamp” – em 2009, 2011, 2017, 2018, 2020 e 2021, sendo o de 2011 na categoria “Tecnologia Absorvida pelo Mercado”.
“A Unicamp teve o privilégio de contar, por várias décadas, com um educador e cientista da grandeza de Oswaldo Luiz Alves, pesquisador exemplar que deixou sua marca na ciência brasileira e mundial e cuja carreira se notabilizou não somente por grandes conquistas científicas, mas também por sua personalidade generosa e afetuosa, sempre pronta a acolher e inspirar as gerações mais jovens”, diz o relatório da comissão especial, formada pelos professores Álvaro Crósta, Christiano Lyra Filho e Everardo Magalhães Carneiro.
“Acima de tudo, Oswaldo Luiz Alves foi um ser humano digno e ético que valorizou a importância da ciência, da cultura e das artes – grande apreciador da música que era, em especial do jazz – na formação das pessoas, além de se dedicar à inclusão acadêmica e social de pessoas oriundas de realidades historicamente excludentes”, continua o relatório.
Oswaldo Luiz Alves morreu em julho de 2021 em consequência de problemas cardíacos.
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Denise Stoklos revisita espetáculo “Mary Stuart” no Palco DCult
Um palco quase vazio, uma cadeira, um foco de luz e a presença absoluta da atriz. Foi a partir dessa economia de elementos cênicos que Denise Stoklos construiu o espetáculo “Mary Stuart”, um de seus maiores sucessos. A artista revisita a obra, que estreou há quase quatro décadas, em uma nova temporada. O espetáculo chega à Unicamp com apresentação gratuita no dia 9 de abril, às 20h, na Adunicamp, como parte da programação do Palco DCult, da Diretoria de Cultura da Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (Proeec).
Montada originalmente em 1987, em Nova York (EUA), no circuito experimental do qual fazia parte o teatro La MaMa, “Mary Stuart” percorreu dezenas de países e foi apresentada em diferentes idiomas. A remontagem, em cartaz desde o ano passado em São Paulo, integra as celebrações dos 75 anos de vida e 57 de carreira de Stoklos, que construiu uma trajetória de sucesso com 27 espetáculos solos autorais e sete livros publicados.

Sozinha no palco, a atriz interpreta duas figuras históricas centrais da monarquia europeia: Mary Stuart, rainha da Escócia, e Elizabeth I, da Inglaterra. A disputa entre as primas, que culminou na execução de Mary no século 16, surge na encenação como uma metáfora potente para investigar tensões universais, como poder, opressão, liberdade e os mecanismos que atravessam as estruturas políticas e humanas ao longo do tempo
Para Stoklos, revisitar a peça traz novos sentidos, já que a permanência do espetáculo no tempo comprova sua atualidade. “Essa questão da luta pelo poder é constante e parece que, nestes nossos tempos, há ainda mais questões em torno desse tema, o que torna o espetáculo atual, infelizmente”, diz. Mesmo após quase quatro décadas, a encenação permanece próxima da concepção original. “Estou fazendo dentro do que foi concebido, com pequenas mudanças aqui ou ali.”
A artista destaca a força da linguagem cênica construída na montagem. “É um espetáculo físico, com uma presença grande de corpo. São 50 minutos com cenas que vêm acompanhadas de voz, texto, gestos e movimentos”, afirma. “Foi incrível perceber que ele comunica da mesma forma como quando esteve em temporadas de estreia, apesar de o mundo estar tão diferente.”
Foi durante o processo de criação da peça que ela sistematizou os princípios do Teatro Essencial, uma proposta que rejeita o excesso de elementos cênicos e privilegia a presença do ator. “Fui criando justamente durante o processo deste espetáculo. Nele, trabalho com três elementos fundamentais: o corpo, a voz e o pensamento, esse elemento abstrato que organiza e cria a dramaturgia.” Depois, vieram obras como “Casa”, “Des-Medeia”, “Calendário da Pedra”, “Desobediência Civil” e “Preferiria Não”, entre outros. “Esses três elementos foram os que me mostraram que eu poderia, a partir daí, construir outros trabalhos.”
A proposta do Teatro Essencial nasceu da ideia de valorizar a atuação. “Um teatro sem cenário ainda é teatro. Sem figurino, sem iluminação e sem música, ainda é teatro. Mas o que não pode faltar é o ator”, afirma. “É ele o centro da comunicação teatral, com seu corpo, sua voz e sua mente organizando a cena”, explica. “Era uma proposta original e muito brasileira, com essa energia miscigenada. Isso me deu aceitação em muitos países, onde me apresentei diversas vezes”, relembra.

Acostumada a trabalhar com repertório, a artista explica que a retomada da obra ocorre em meio a outros projetos. “Fui fazendo outras peças e apresentando esses trabalhos. Também fiquei um tempo dando aulas online, o que me afastou um pouco dos palcos, mas eu nunca parei”, conta.
Mais recentemente, a artista tem buscado fortalecer sua relação com o público. “Tenho apresentado peças que me dão uma receptividade muito boa, então isso me anima a fazer mais”, diz. Atualmente em cartaz no Teatro Estúdio, em São Paulo, “Mary Stuart” também tem circulado por outras cidades. Apresentá-la na Unicamp, segundo ela, tem um significado especial. “Eu sei da importância da Universidade, do curso de Artes Cênicas. Então, para mim, está sendo um privilégio.”
Para Stoklos, esse retorno à obra da década de 1980 tem proporcionado um encontro especial com as novas gerações. “Muitos jovens estão tendo a oportunidade de ver agora, e isso me deixa extremamente feliz.”
A artista destaca o interesse em dialogar com públicos mais jovens. “Tenho duas netas adolescentes, então fico muito interessada nessas gerações. Quero me comunicar com elas e, se esse teatro fizer sentido, me deixa ainda mais contente, porque é um trabalho de uma vida.”
Serviço:
Palco DCult apresenta “Mary Stuart” com Denise Stoklos
Dia 9 de abril, às 20h
Entrada gratuita (Haverá distribuição de senhas 1 hora antes do espetáculo)
Auditório da Adunicamp – Av. Érico Veríssimo, 1479, Cidade Universitária Zeferino Vaz
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Unicamp
- Entre memórias, corpos e territórios, formandos de Artes Visuais expõem múltiplas linguagens
Entre memórias, corpos e territórios, formandos de Artes Visuais expõem múltiplas linguagens

Experimentação, linguagem, emoção, memória, território, pertencimento e as percepções do tempo estão entre as inspirações das obras da exposição coletiva “Cartografias do Comum – Experimentações da Arte em Projeto”, dos formandos de 2025 da graduação em Artes Visuais do Instituto de Artes (IA) da Unicamp. A mostra, inaugurada nesta quarta-feira (25), pode ser vista até 1º de maio na Galeria de Artes do IA (Gaia), no térreo da Biblioteca Central Cesar Lattes.
O professor do IA Sérgio Niculitcheff, coordenador da galeria, destaca a diversidade de linguagens da exposição, que reúne os trabalhos de conclusão de curso, chamados de “projetos experimentais”. “Como é arte, há uma dimensão maior de experimentação. Há pinturas, gravuras, esculturas, instalações, história em quadrinhos e vídeo, por exemplo.”.
A exposição, realizada anualmente, representa uma oportunidade para os artistas apresentarem suas criações à comunidade. Além da mostra, o evento também gera um catálogo anual, que reúne o trabalho de todos os 33 formandos. “É um registro importante, com indicação dos orientadores e pequenos textos sobre as obras”, explica o professor.

Inspiração e interação
A memória, ou a sua perda, é o ponto de partida da obra do formando Filipi Macarini, que produziu um trabalho sensível a partir da relação com o avô e das questões ligadas ao Mal de Alzheimer. Em vídeo e objetos, ele investiga a fragilidade das lembranças e o impacto da doença não apenas em quem a vive, mas também ao redor. “Percebi que não é só a pessoa que sofre, mas todos à volta.”
“Meu avô era lenhador, carvoeiro, e sempre comia com uma colher”, lembra. Com essas três informações, criou peças de madeira com desenhos a carvão de colheres que, aos poucos, vão se apagando. “As colheres mais nítidas simbolizam a memória afiada que ele tinha, e as desgastadas evocam seu esquecimento progressivo”, explica.
A formanda Vandora Bonfim, nascida na Bahia e criada em Campinas, inspirou-se na memória e na vivência de sua mãe, vendedora ambulante. Sua instalação, que dialoga com a escultura, trata de memória, informalidade e pertencimento através de caixas de isopor empilhadas e enfeitadas com fitas com expressões típicas dos camelódromos, confeccionadas por ela. “São frases comuns, como formas de chamar o cliente ou tratar do preço, como ‘fala, campeão’ e ‘três por dez’, por exemplo. Isso vem da minha infância, de crescer nesse ambiente”, conta Bonfim, que pretende se tornar professora de artes e pesquisadora após fazer o mestrado e o doutorado.
Já a formanda Gabriela Gomes, que apresenta a obra “Diante da promessa”, aposta em um objeto-escultura, um “colar-porta”, que veste como uma experiência poética. A artista aciona aberturas e trancas e surgem inscrições que evocam pensamentos do cotidiano que sugerem sentidos abertos e inacabados. “São frases criadas durante o processo, sobre território e sentimentos”, explica. Entre as frases, escolhe uma: “Os dias vão pra nunca mais, mesmo assim tanta coisa fica.”
Cores e técnicas
Entre os trabalhos expostos, a pintura aparece como campo de investigação cromática e técnica na obra de Felipe Menani, com trabalhos desenvolvidos a partir do uso de spray e de experimentações com estêncil, técnica de pintura que utiliza um molde vazado, muito associado à linguagem do grafite e da arte urbana.
“Foi um processo de descobrimento. Ao longo do curso, a gente passa por várias áreas e acaba se identificando mais com algumas linguagens”, conta. Inspirado também pela serigrafia e pela gravura, o artista usou materiais inusitados, como rendas, para criar texturas e desenhos.
A relação entre existência e tempo marca o trabalho de Beatriz Lumo, autora de uma pintura em grandes dimensões. “A ideia é pensar que estamos vivos no presente, atravessados ao mesmo tempo por maravilhas e agonias”, explica. A artista, que já desenvolve a pesquisa desde a iniciação científica, pretende dar continuidade ao trabalho em programas de pós-graduação e residências artísticas.



Identidade e trajetória
Isabelle Gomes apresenta um vídeo que articula corpo, espiritualidade e identidade a partir do projeto “Ter sede em águas salgadas: manifesto de uma lésbica do interior de São Paulo”, que resultou em um documentário de cerca de 28 minutos que será apresentado na Gaia no dia 8 de abril, às 15h.
Na mostra, um trecho do documentário da formanda, que é de Americana (SP), antecipa seu trabalho, que utiliza os elementos fogo e água como metáforas de sua trajetória. “O fogo aparece nos momentos mais difíceis, ligados à lesbofobia que ainda enfrento. A água é o que me resgata, me acalma e me dá força”, resume.
Mareh Vilella discute corpo, linguagem e dissidência na obra “Poéticas da carne: da língua bovina ao corpo queer”, uma ação performática registrada em vídeo, acompanhada de letras confeccionadas em cerâmica. “Eu parto do lugar da casa, do cuidado e do comer, e relaciono isso com a palavra e com o corpo”, explica.
Serviço:
Coletiva “Cartografias do Comum – Experimentações da Arte em Projeto”. A exposição reúne 33 formandos: Adriely Correia, Amanda Lima, Artur Strauch, Beatriz Lumo, Bianca Paiva, Carolina Avelina, Caos Haru, Cleiton Olympio, Enrico Scudeler, Felipe Menani, Fernanda Rocha, Filipi Macarini, Gabriela Germini Abreu, Gabriela Gomes, Giulia Urbano, Giuliana Takahira, Guilherme Gomes, Helena Rybka, Isabel Brentani, Isabelle Germano, Isabelle Gomes, Julia Roma, Laura Fernandes, Laura Marissa Pérez Henríquez, Lavínia Machado, Lucas Braco, Mareh Vilela, Pedro Mishima, Pedro Seebregts, Tania Sayri, Thayná Vitória Tinarelli e Vandora Bonfim.
Galeria de Artes do IA (Gaia), no térreo da Biblioteca Central Cesar Lattes – Rua Sérgio Buarque de Holanda, s/nº, no campus da Unicamp, em Barão Geraldo, Campinas.
Até 1º de maio, das 9h às 17h, de segunda a sexta-feira, exceto feriados.
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Unicamp tem nove cursos em ranking dos melhores do mundo
Nove cursos oferecidos pela Unicamp estão na lista dos 100 melhores do mundo em suas respectivas áreas, segundo o ranking da consultoria britânica Quacquarelli Symonds (QS) divulgado nesta quinta-feira (26). Três desses cursos aparecem entre os 50 melhores das suas especialidades: Odontologia (26º lugar), Engenharia de Petróleo (38º) e Antropologia (42º) (veja a lista completa no quadro abaixo).

O ranking da QS identifica as melhores universidades do mundo em áreas específicas de estudo e avalia o desempenho das universidades em cinco grandes áreas do conhecimento: Artes e Humanidades, Engenharia e Tecnologia, Ciências da Vida e Medicina, Ciências Naturais, e Ciências Sociais e Administração. Essas áreas são subdivididas em 55 disciplinas.
“A Unicamp possui nove disciplinas no ranking das 100 melhores do mundo, o que revela sua posição de liderança no cenário brasileiro e de destaque no cenário internacional”, disse o pró-reitor de Desenvolvimento Universitário, Fernando Sarti.
Os resultados gerais da Unicamp mostram que a área de Engenharia e Tecnologia mantém a melhor classificação (112ª posição) e a maior pontuação (73,9, de um máximo de 100) dentro da universidade, considerando a média ponderada de todos os indicadores avaliados. A Engenharia de Petróleo é um dos destaques da área, na 38ª posição entre os 100 melhores cursos mundiais dessa área, enquanto Engenharia Química aparece na 79ª colocação.
Entre as cinco grandes áreas abrangidas no ranking, Ciências Naturais também se destaca, com nota 73,5, em 156º lugar no seu ranking (veja dados gerais no quadro abaixo).

Em outras áreas a Universidade registrou avanços. Línguas Modernas (que agrupa cursos de idiomas e literaturas, dentro da área de Artes e Humanidades) saltou da 90ª posição no ranking de 2025 para a 75ª nesta edição.
Na área de Ciências Sociais, Antropologia deu um salto significativo, saindo da faixa dos 51-100 melhores colocados em 2025 para a 42ª posição mundial em 2026. Em Ciências Naturais houve uma melhora expressiva em Matemática (da 122ª para a 88ª posição), Física e Astronomia (ambas agora na 126ª posição).
Metodologia
Os rankings são calculados com base em cinco indicadores principais, cujos pesos variam conforme a disciplina: reputação acadêmica, reputação entre empregadores, citações por artigo, impacto da pesquisa e rede internacional de pesquisa.
O peso de cada indicador utilizado varia de acordo com a área e a disciplina avaliada.
Para esta edição, a QS analisou a reputação e a produção científica de 6.277 instituições em todo o mundo, 1.074 a mais do que no ranking de 2025, confirmando a crescente importância dada a classificações desse tipo.

A avaliação partiu de informações de 16,4 milhões de artigos acadêmicos (base Scopus), e nas avaliações de 151 mil acadêmicos e aproximadamente 100 mil empregadores de todo o mundo.
“Um dos grandes destaques desta classificação é que a Unicamp permanece nas posições de liderança entre as 200 melhores universidades do mundo em todas as grandes áreas do conhecimento, mesmo com o crescimento do número de universidades participando deste ranking”, disse o assessor docente da Pró-Reitoria de Desenvolvimento Universitário (PRDU), Renato Garcia.
Quadro 1 (Fonte QS):

Quadro 2:

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Ações que limitam poderes do STF aumentam quando este se torna incômodo para a classe política
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Novo estudo indica avanço do vírus Oropouche em todas as regiões do Brasil
Um novo estudo publicado nesta terça-feira (24) pela revista Nature Medicine aponta o avanço do vírus Oropouche – transmitido aos humanos pela picada dos mosquitos maruins (Culicoides paraensis), frequentemente chamados de porvinha – na América Latina e Caribe. Conduzido por uma equipe de pesquisadores do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, Universidade de São Paulo (USP), Universidade de Kentucky (EUA) e Fundação Hospitalar de Hematologia e Hemoterapia do Amazonas (Hemoam), o levantamento estima que 9,4 milhões de infecções ocorreram entre 1960 e 2025 nesta região do planeta, sendo 5,5 milhões apenas no Brasil.

De rápida proliferação em áreas de solo úmido que podem ir da Floresta Amazônica até a Mata Atlântica, hoje o vírus está presente em todos os estados brasileiros, mas a pesquisa identifica Manaus (AM) como um epicentro para a disseminação do Oropouche. Entre o final de 2023 e meados de 2024, a porcentagem da população com anticorpos contra o vírus (indicando infecção passada) aumentou de 11,4% para 25,7%, com base em estimativas de estudos sorológicos realizados com doadores de sangue. A alta densidade populacional e o transporte aéreo provavelmente facilitaram a disseminação para áreas anteriormente não afetadas. Viagens à Europa e América do Norte também têm gerado os chamados casos importados nessas regiões.
Os pesquisadores discutem que o desmatamento pode estar relacionado à reemergência do vírus. A destruição de áreas naturais aumenta o contato entre humanos e vírus que circulam na floresta, um processo que facilita a “transposição” de patógenos do ambiente silvestre para populações humanas e, a partir daí, sua disseminação.
“A sazonalidade do Oropouche coincide com a estação chuvosa amazônica, que oferece condições ideais para a reprodução desses maruins”, explica o professor José Luiz Proença Modena, da Unicamp. Ao analisar dados de anticorpos, a equipe reconstruiu a história da transmissão do Oropouche na capital amazonense, constatando que o surto de 2023–2024 praticamente reproduziu um surto documentado entre 1980–1981. Ambos atingiram o pico durante a estação chuvosa (dezembro a abril).

“Pacientes em regiões remotas da Amazônia frequentemente enfrentam tempos de deslocamento superiores a 24 horas para chegar a uma unidade de saúde. Isso significa que muitos casos provavelmente não foram diagnosticados, permitindo que o vírus circulasse ‘silenciosamente’ até atingir um grande centro urbano como Manaus”, comenta o professor William M. de Souza, da Universidade de Kentucky.
Um segundo estudo, publicado também nesta quarta-feira pelo mesmo grupo de pesquisa, dessa vez na revista Nature Health, demonstra que o Oropouche ocorre predominantemente em áreas rurais, em contraste com a dengue, chikungunya e zika. A equipe chegou à conclusão de que essa divergência epidemiológica é impulsionada pelas diferentes ecologias dos vetores. Os maruins necessitam de ambientes com alta umidade em áreas rurais, enquanto os mosquitos Aedes aegypti estão concentrados em ambientes urbanos.
Os autores argumentam que as estratégias atuais de controle de vetores, focadas em mosquitos urbanos como o Aedes, são insuficientes para controlar a transmissão do Oropouche. As políticas de saúde pública também devem se adaptar para incluir vigilância específica em comunidades rurais e áreas próximas a florestas. Neste caso, estudos soroepidemiológicos contínuos são fundamentais para compreender o impacto das doenças arbovirais (transmitidas por mosquitos) na população e orientar estratégias de saúde pública para controlar a transmissão.
Sem vacina, por enquanto
O Oropouche ganhou atenção após ressurgir na Amazônia brasileira no final de 2023 e provocar mais de 30 mil casos em vários países da América Latina e do Caribe. O vírus pode causar uma doença febril semelhante à dengue; casos graves podem levar a doenças neurológicas, complicações materno-fetais e morte. Atualmente, não há vacinas licenciadas nem medicamentos antivirais disponíveis.
Identificado no Brasil desde a década de 1960, o Oropouche sempre esteve associado a surtos na Região Norte do país, especialmente com grandes surtos em cidades como Belém e Santarém. Por décadas, no entanto, foi tratado como uma arbovirose típica de áreas rurais e de floresta. Com a intensificação da mobilidade, especialmente por transporte aéreo, o vírus passou a circular com mais rapidez, saindo da Amazônia e alcançando outros pontos.

Apesar da expansão geográfica, a transmissão do Oropouche continua dependente de condições ambientais específicas. O vetor se desenvolve em locais com solo úmido e matéria orgânica, comuns em regiões de mata ou áreas agrícolas. Plantações como banana, café e mandioca ajudam a manter essa umidade, criando ambientes ideais para a reprodução do inseto. Por isso, o vírus costuma se concentrar em áreas periurbanas, nas bordas das cidades. Em Campinas, já foi registrada a presença de potenciais vetores, espécies de culicoides, nos distritos de Sousas e Barão Geraldo, por exemplo. Esse fator é crucial para entender o avanço da doença: não se trata de um vírus urbano clássico, como a dengue, mas de uma arbovirose que encontra “pontes ecológicas” para chegar às cidades.
Os estudos mostram que surtos podem ocorrer de forma rápida. Em Manaus, por exemplo, 14% da população foi infectada em apenas cinco a seis meses, durante o período de chuvas. Antes do surto, cerca de 11% da população já tinha anticorpos contra o vírus. Esse número subiu para 25% após um ano, indicando ampla exposição. A análise por idade revelou outro dado importante: a maioria das pessoas com imunidade prévia tinha mais de 45 anos. Modelagens apontam que essas infecções ocorreram durante um grande surto há mais de 40 anos, no início da década de 1980.
De acordo com a pesquisa, o padrão se repete: crescimento rápido de casos em poucos meses, sempre associado ao período chuvoso, o que sugere um comportamento cíclico da doença.



Mais eficiente
Outro fator que preocupa os pesquisadores é a evolução do vírus. O Oropouche pode sofrer rearranjos genéticos quando diferentes variantes infectam uma mesma célula, gerando novas versões. Essas novas variantes podem se replicar com mais eficiência ou escapar parcialmente da imunidade adquirida anteriormente.
A doença causada pelo vírus é semelhante à dengue, com febre alta, dores no corpo e mal-estar. Também pode haver sensibilidade à luz e aumento da frequência urinária. Em alguns casos, os sintomas podem retornar após uma melhora inicial. O maior alerta, no entanto, está nas complicações neurológicas. O vírus pode atingir o sistema nervoso central e causar desde alterações leves, como perda de equilíbrio, até quadros graves e potencialmente fatais de meningite e encefalite.
A diferença entre o número estimado de infecções e os casos confirmados está ligada, principalmente, às dificuldades de acesso à saúde em regiões remotas. Na Amazônia, o deslocamento até um hospital pode levar dias, muitas vezes por barco ou estradas precárias. Isso impede o diagnóstico adequado e contribui para a subnotificação. Quando o vírus chega a regiões com melhor infraestrutura, passa a ser mais facilmente detectado, o que reforça a percepção de que ele está se expandindo.
O desafio de fortalecer a vigilância

O caso do Oropouche reforça um ponto central: doenças antes consideradas regionais podem rapidamente ganhar escala nacional e até internacional. Os pesquisadores alertam que o desafio agora é fortalecer a vigilância, especialmente em áreas remotas, e investir na prevenção. Também destacam a importância de melhorar as condições de vida das populações amazônicas, que são as primeiras a detectar novos surtos.
Os estudos que revelaram a nova dimensão do Oropouche também já impactaram políticas públicas. Hoje, o vírus passou a ser incluído nos protocolos de testagem, inclusive em locais onde dengue, zika e chikungunya já circulam. “O Brasil possui um sistema robusto de vigilância de arboviroses, com milhões de testes realizados por ano, considerado referência internacional. Mesmo assim, há espaço para aprimorar a detecção precoce, especialmente em regiões de difícil acesso”, afirma Souza.
A pesquisa foi apoiada pelo Wellcome Trust, Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil, Euroimmun e Instituto Todos pela Saúde.
Acesse os artigos publicados na Nature Medicine e Nature Health:
Ecological and demographic drivers of Oropouche virus transmission
Transmission dynamics of Oropouche virus in Latin America and the Caribbean
Leia mais:
Imunidade materna protege fetos contra danos do Oropouche
Foto de capa:

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Trabalho na terceira idade pode ser chave para envelhecer com mais saúde e propósito
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Unicamp
- Ministra das Mulheres reforça importância da educação no enfrentamento à violência de gênero
Ministra das Mulheres reforça importância da educação no enfrentamento à violência de gênero
A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, participou nesta sexta-feira (20), na Casa Laudelina de Campos Melo, na Vila Padre Anchieta, em Campinas, do lançamento da cartilha “Maternagem e o Mundo do Trabalho: conheça seus direitos”, produzida pela Associação de Docentes da Unicamp (Adunicamp) em parceria com a LBS Advogadas e Advogados. A publicação reúne informações sobre direitos trabalhistas e políticas de proteção social para “pessoas que gestam, maternam e exercem o cuidado”.
Lopes ressaltou o caráter inclusivo da cartilha, resultado de um processo coletivo que envolveu docentes, pesquisadoras, diversos coletivos da Universidade e profissionais do Direito. “A publicação está muito completa, porque se dirige a todas as mulheres: idosas, com deficiência, quilombolas, indígenas, trans. É um material muito bem elaborado, com linguagem simples e acessível. Queremos que o Brasil conheça essa cartilha e que ela chegue às escolas, para que desde cedo se compreenda a relação entre maternagem, trabalho e prevenção da violência”, afirmou.

A ministra, que é professora aposentada da Universidade Estadual de Londrina (UEL), reforçou que o enfrentamento à violência contra a mulher exige ações integradas, mas tem na educação seu eixo estruturante. “Nós precisamos investir na prevenção. E a prevenção começa na formação, na escola, na universidade”, afirmou. “Precisamos investir na formação para romper ciclos históricos de machismo e misoginia.”
Para Lopes, “a violência não nasce do nada. A maternagem, como está na cartilha, não é algo isolado, é um processo político, histórico e social. Se conseguirmos levar esse conteúdo para as escolas, para as comunidades, para os espaços de formação, vamos transformar essa realidade”.
A ministra ressaltou o papel da universidade pública na construção e difusão de políticas voltadas aos direitos das mulheres. “As instituições de ensino superior têm responsabilidade direta nesse processo, a partir da integração entre ensino, pesquisa e extensão. No ensino, os currículos precisam incorporar o tema dos direitos das mulheres e da violência de gênero. Na pesquisa, a universidade tem potencial para produzir conhecimento que responda às realidades locais. E, na extensão, ela precisa estar inserida na vida da comunidade.”
O Ministério das Mulheres tem intensificado suas mobilizações e, no próximo dia 25, promoverá um encontro nacional entre universidades e institutos federais com o objetivo de implementar políticas de prevenção e acolhimento para estudantes e servidoras. A proposta inclui medidas como núcleos de apoio, ampliação de direitos e inserção dos temas de gênero nos currículos acadêmicos. “Se, daqui a alguns anos tivermos profissionais de todas as áreas formados com outra visão, certamente essa realidade de banalização da violência vai se modificar”, afirmou.



Inclusão e compromisso social
A professora Silvia Gatti, presidente da Adunicamp e uma das organizadoras da cartilha, destacou o caráter coletivo e o compromisso social da iniciativa. “A maternagem amplia o entendimento do que é ser mãe. Há mulheres que não tiveram filhos, mas exercem o cuidado. Essa cartilha nasce desse olhar mais abrangente”, afirmou.
Para ela, o principal desafio agora é garantir a circulação do material, que também está disponível online. “Não queremos uma cartilha na prateleira. Queremos que ela chegue às periferias, às mulheres que muitas vezes não têm acesso à internet. Vamos promover encontros ao longo do ano para discutir esses direitos.”



A tiragem inicial contou com apoio do Ministério das Mulheres, sindicatos e da própria Unicamp, com previsão de ampliação. “É uma construção em andamento. Quanto mais diversidade incorporarmos, mais completa ela será”, disse.
A professora Maria José Mesquita, do Instituto de Geociências (IG), também uma das organizadoras da cartilha, explicou que o projeto nasceu de uma parceria entre a Unicamp e a LBS Advogadas e Advogados. “Começamos com reuniões abertas e fomos ampliando o grupo. Discutimos desde o nome — optamos por ‘maternagem’ por ser mais amplo — até incluir diferentes experiências: mulheres indígenas, mães de crianças trans, maternidade no cárcere, população em situação de rua”, relatou.
Segundo ela, os encontros também deram espaço para relatos de violência, incorporados de forma anônima na publicação. “Foi uma construção muito rica, que reflete a complexidade dessas experiências.”

Uma das autoras, a advogada Luciana Barreto, explicou que a proposta inicial era produzir um material sobre direitos trabalhistas, mas o projeto foi ampliado ao longo do processo. “A CLT é muito pouco diante das necessidades das pessoas que gestam. A cartilha aborda também violência obstétrica, trabalho informal, mulheres trans e mulheres em situação de rua, entre outras realidades”, afirmou. Segundo ela, o objetivo é garantir que a informação chegue a quem precisa. “Um direito escrito não significa que ele é cumprido. Por isso, a cartilha precisa estar na mão das mulheres.”
As ilustrações da cartilha foram desenvolvidas pela estudante Luara Souza, do curso de Ciências Sociais e ativista do Núcleo de Consciência Trans da Unicamp, que definiu o processo como uma experiência coletiva. “Foi um momento de troca muito sensível. A partir dos relatos e das conversas, consegui traduzir em imagens o que é a maternagem como prática social”, explicou.
Ao todo, são dez ilustrações, além da capa, inspirada na ideia de que o cuidado é uma responsabilidade compartilhada. “A maternagem não pode ser solitária. É uma prática que envolve toda a sociedade.”
Acesse a versão online da cartilha “Maternagem e o Mundo do Trabalho: conheça seus direitos“
O simbolismo da Casa Laudelina de Campos Melo
A escolha da Casa Laudelina de Campos Melo como local do lançamento da cartilha foi simbólica para a ministra das Mulheres, Márcia Lopes. “Estar aqui é uma emoção, pelo que representou essa mulher aguerrida e pelo que representa esse grupo de mulheres resistentes, que ocupam esse espaço com legitimidade”, disse.
Laudelina de Campos Melo (1904-1991), natural de Poços de Caldas (MG), foi uma pioneira líder sindical e ativista negra. Ao se mudar para Campinas, nos anos 1950, criou a primeira escola de balé e piano voltada a crianças negras e também o concurso Pérola Negra, primeiro baile de gala nacional onde mulheres negras eram as protagonistas. Na década de 1980, com a promulgação da atual Constituição, criou em Campinas o primeiro sindicato das empregadas domésticas do Brasil.

Cleusa Silva, dirigente da Casa Laudelina de Campos Melo, que está sendo reestruturada em um imóvel público no Conjunto Habitacional Padre Anchieta, destacou que a presença da ministra também simboliza um processo histórico. “Assumimos o compromisso de não deixar essa história desaparecer. Este espaço será um centro de memória, formação e fortalecimento das mulheres”, comentou.
A secretária municipal de Políticas para as Mulheres de Campinas, Alessandra Herrmann, também apontou a importância do evento. “É um espaço que já foi muito potente e que precisa ser reativado. A presença do Governo Federal, do município e da sociedade civil é fundamental para isso.”
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Documentário ‘Nãsêpôtiti, rio, terra e luta Panará’ inicia nova temporada de exibições
O mês de março de 2026 dá continuidade à temporada de exibições do documentário Nãsêpôtiti, rio, terra e luta Panará, produzido pela Associação Iakiô e pela Secretaria Executiva de Comunicação (SEC) da Unicamp. No dia 25, às 14h, o clube Geo Leitura, do Instituto de Geociências (IG), apresentará o documentário e fará, em seguida, uma roda de conversa com os realizadores da SEC, com a perspectiva de que membros da Associação Iakiô participem de modo remoto. Um dia depois, a exibição será feita no Museu da Cidade (Parque Taquaral), retomando a programação cancelada em 2025 por problemas estruturais, provocados por uma forte chuva. Dia 7 de abril, às 14h30, o documentário também será apresentado na Casa do Lago, integrando a mostra audiovisual Entre Territórios: memória, presença e resistência, que será realizada nos dias 6 e 7 de abril, dentro da programação de cinema da Diretoria de Cultura (DCult) da Unicamp.
Em dezembro de 2025, o documentário também foi lançado na aldeia Panará Nãsêpôtiti, em Altamira, no Pará, onde foi apresentado pela professora Cassiana Montagner, coordenadora do Laboratório de Química Ambiental do Instituto de Química (IQ). Montagner lidera a pesquisa interdisciplinar sobre a contaminação das águas do rio Iriri, afluente do rio Xingu, que banha o território Panará. Em 2023, foi convidada pela Associação Iakiô a integrar a pesquisa iniciada pela geógrafa e doutoranda do IG Zaira Moutinho, que exigia a análise química da água do rio Iriri. Moutinho estuda os impactos do avanço dos grandes conglomerados agrícolas nos recursos hídricos, monitorando o uso e ocupação do solo e as consequências da aplicação de agrotóxicos nas propriedades cada vez mais próximas da terra indígena. As mortandades de peixes no rio Iriri têm sido associadas à contaminação das águas, supostamente provocada pelo manejo inadequado desses produtos.
A pesquisa, até 2025 cofinanciada pela ONG Conservação Internacional-Brasil, sofreu um forte golpe em dezembro passado, quando foi anunciado o fim do repasse de recursos por parte de uma das empresas patrocinadoras, a HP. Este e outros projetos de pesquisa abrangendo a fauna e a flora do território indígena Panará, realizados por pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA), precisaram ser interrompidos, afetando, inclusive, o pagamento de bolsas para os jovens Panará que faziam a observação e a coleta de dados na floresta.
A exibição do documentário na Unicamp e fora dela é agora um importante instrumento para fazer ecoar a história do povo Panará, permeada desde sempre pelas ameaças e pelos desafios perpetrados pelos não indígenas, seja por meio do garimpo, da agricultura ou da pecuária. Além disso, persiste a necessidade de aprofundar a pesquisa no rio Iriri, para identificar as causas dos vários episódios de mortandade de peixes e demais problemas que a aproximação com as grandes fazendas do agronegócio impõe.
O documentário Nãsêpôtiti, rio, terra e luta Panará é resultado de um pedido do líder Akã Panará para que as ameaças ao território indígena e sua cultura chegassem ao maior número possível de pessoas, principalmente às autoridades governamentais. A narrativa é dividida em 8 capítulos e apresenta, por meio dos depoimentos de anciãos e anciãs, as transformações sofridas pelo rio Iriri e as consequências para a cultura e a vida nas aldeias. O documentário tem ainda a participação das pesquisadoras da Unicamp, de ex-membros da Associação Iakiô e de um dos diretores do Instituto Socioambiental.
Nãsêpôtiti, rio, terra e luta Panará
Dia 25/03 (quarta-feira), às 14 horas – Auditório Milton Santos – Instituto de Geociências (IG) da Unicamp.
Dia 26/03 (quinta-feira), às 19 horas – Museu da Cidade – Av. Dr. Heitor Penteado, 2.145, Parque Taquaral, Campinas.
Dia 07/04 (terça-feira), às 14h30 – Casa do Lago – Unicamp – Mostra audiovisual Entre Territórios: memória, presença e resistência.
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Projetos de educação midiática atuam no enfrentamento à desinformação
A desinformação se tornou um dos principais desafios contemporâneos com a expansão das redes sociais. O ambiente digital mudou a forma como a informação circula e intensificou a disseminação das narrativas manipuladas e dos discursos de ódio. Diante desse cenário, o Observatório da Desinformação da Unicamp tem intensificado suas ações de enfrentamento a partir de projetos de educação midiática, como o lançamento, em breve, de três cartilhas sobre o tema e um projeto piloto que será implantado nas escolas públicas de Campinas.
O objetivo é ajudar estudantes, professores e comunidades a compreenderem de forma crítica o funcionamento das mídias e a circulação de conteúdos no ambiente digital, destaca a pesquisadora do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE), Claudia Wanderley, uma das coordenadoras do Observatório, que funciona de forma colaborativa e descentralizada. “Muitos dos conflitos vêm da dificuldade de lidar com a diferença.”

As cartilhas, com temas que abordam noções básicas de educação midiática, letramento em mídia, estratégias e desafios, fazem parte de um projeto maior, a Olimpíada Brasileira de Educação Midiática (Obem). “Todo esse material está em fase de publicação e deve ser disponibilizado gratuitamente ao público”, acrescenta.
Enquanto aguarda a confirmação da data de realização da Olimpíada, um projeto piloto está sendo organizado nas escolas públicas de Campinas ligadas ao Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid). A professora da Faculdade de Educação (FE), Nima Spigolon, uma das coordenadoras do grupo, destaca que o objetivo é ajudar estudantes e professores a lidar com a grande quantidade de informação digital que circula no cotidiano escolar. “Hoje todos produzem e compartilham informação. Precisamos aprender a fazer isso de forma crítica e segura.”
Uma das estratégias discutidas no projeto é a criação de redes de apoio dentro das escolas para ajudar os estudantes a avaliar informações. “Bibliotecários, orientadores pedagógicos, professores e gestores podem atuar com os alunos”, explica.

“O material que preparamos aborda desde o pensamento crítico e avaliação de fontes até a relação entre emoção e informação”, destaca o biólogo e professor da Universidade Federal do Acre (Ufac), Ewerton Machado, também coordenador do Observatório. “Temos livros conceituais e também materiais pedagógicos para ajudar professores e alunos a trabalhar com educação midiática.”
Além das ações com escolas e comunidades, o grupo, que produz boletins que analisam casos de desinformação em diferentes contextos, pretende disponibilizar parte dos materiais produzidos em plataformas abertas, como a Wikimedia. “A ideia é ampliar o acesso público ao conhecimento”, destaca Wanderley.
Informação como um direito
O Observatório, que mantém parceria com Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), funciona como um núcleo para que pesquisadores interessados possam estudar o tema a partir de diferentes áreas do conhecimento. Para a professora de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), Josianne Cerasoli, uma das articuladoras do projeto, o ponto de partida é reconhecer a informação como um direito. “Buscamos entender como esse direito está sendo ameaçado hoje e o que a Educação pode fazer diante disso”, afirma.
O grupo nasceu a partir de uma articulação com o Observatório de Direitos Humanos da Unicamp e, além da produção acadêmica, aposta no diálogo com a sociedade, especialmente por meio de iniciativas de formação e extensão.
Segundo Cerasoli, o objetivo não é atuar diretamente na checagem de informações, mas compreender as condições sociais e culturais que favorecem a disseminação da desinformação. “O que nos interessa é entender como as relações humanas criam espaço para que a desinformação tenha um papel tão desarticulador quanto vemos hoje”, explica.
Para a historiadora, a dinâmica das plataformas digitais intensifica processos que já fazem parte da história política. “Processos de exclusão política sempre passam pela mobilização de sentimentos”, afirma.
“As bolhas parecem algo novo, mas trabalham em um campo que politicamente já está disponível há muito tempo”, continua Cerasoli, que destaca que os processos de exclusão política frequentemente começam com a construção de distanciamento emocional entre grupos. “Primeiro se corta a empatia. Depois, começam a surgir imagens negativas do outro, que levam ao desprezo, à indiferença e, em casos extremos, ao ódio”, explica.



Esse processo encontra nas plataformas digitais um ambiente favorável à amplificação. Cerasoli cita estudos sobre patentes registradas por empresas de tecnologia que exploram justamente a dimensão emocional das interações online. “Nos últimos anos, mais da metade das patentes do Facebook mencionam emoção ou sentimento. Isso mostra o quanto essas plataformas operam diretamente sobre nossas reações emocionais.” Para ela, compreender essa dimensão é essencial para pensar estratégias de enfrentamento da desinformação.
Conhecimentos tradicionais
Outro eixo do trabalho do Observatório envolve a colaboração com o povo Paiter Suruí, em Rondônia, parceria que existe há cerca de uma década. Segundo Machado, a proposta, hoje, busca ampliar o diálogo entre conhecimentos tradicionais e debates globais. “A ideia é que eles possam falar sobre a floresta e sobre o conhecimento que possuem a partir da própria perspectiva.”
Inicialmente voltado à organização do conhecimento tradicional da comunidade, o projeto passou a incluir discussões sobre desinformação em temas como floresta e mudanças climáticas.
Uma das iniciativas mais recentes é a criação de uma MIL City — (MIL é a sigla em inglês de “letramento em mídia e informação”) na Aldeia Lapetanha. A proposta é transformar a comunidade em uma referência internacional em educação midiática indígena. “Será a primeira aldeia MIL do mundo”, destaca.
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Unicamp
- Agricultura orgânica é resposta para insegurança alimentar e mudanças climáticas, aponta ministra Marina Silva
Agricultura orgânica é resposta para insegurança alimentar e mudanças climáticas, aponta ministra Marina Silva
A agricultura orgânica é a resposta brasileira para minimizar dois dos maiores desafios enfrentados pelo mundo nas últimas décadas: a insegurança alimentar e as mudanças climáticas. Essa é a percepção de Marina Silva, ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, que participou da abertura do 1º Congresso Técnico-Científico de Agricultura Orgânica, organizado pelo Instituto Brasil Orgânico (IBO) com apoio da Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri), da Unicamp. O evento acontece até quinta-feira (19) no Centro de Convenções da Universidade.
“A agroecologia e a cultura orgânica são promotores de processos regenerativos da Terra; de preservação da biodiversidade. Ao mesmo tempo, são altamente necessários ao combate à desigualdade”, afirmou a ministra. “Nosso maior ativo é o clima equilibrado. Sem isso, o que eu vou fazer com a tecnologia e com essa quantidade de terra? Isso só se resolve com o enfrentamento da mudança do clima, e vocês, produtores orgânicos, também são uma solução. Os produtos que vêm da agricultura orgânica são mais resilientes aos processos de mudança do clima”, reforçou ela.


A ministra também apontou que incentivar políticas de financiamento, assistência técnica e suporte podem resultar em uma maior produção e, consequentemente, em alimentos chegando à mesa com preços mais acessíveis. “É muito importante que haja políticas públicas, de assistência técnica e crédito acessível para que essa produção chegue à mesa das pessoas por um preço cada vez menor. Quando você tem o suporte para alavancar essas atividades, o desdobramento é reduzir os custos. Mesmo assim, hoje já é bastante acessível. Existe, às vezes, uma tentativa de dizer que a agricultura orgânica é só de elite, mas não. É possível diminuir os custos dessa produção e ampliar o acesso”, disse.
Em sua fala de abertura, a ministra lembrou que, nesta semana, o governo federal lançou o Plano Nacional sobre Mudanças do Clima, que contará com um orçamento de R$ 27,5 bilhões. Ela ainda mencionou o Plano Nacional de Transformação Ecológica, de 2023, iniciativa do Ministério da Fazenda em parceria com outras pastas. “As mudanças climáticas precisam ser protagonistas na questão eleitoral este ano. No Brasil, onde temos seca na Amazônia e chuva demais no Rio Grande do Sul, cada vez mais os sistemas alimentares podem ser comprometidos, a segurança energética também. A população tem que ficar muito atenta a quem vai debater o tema da mudança climática com o compromisso de fazer o enfrentamento”, comentou. “As mudanças climáticas são um problema em todos os níveis, tanto para a segurança alimentar quanto para a questão energética, além de trazer riscos às nossas próprias vidas. No Brasil, com 8 milhões de quilômetros quadrados, tem lugar para todo mundo, desde que seja algo sustentável. O que não podemos é continuar comprometendo as condições em que a vida nos foi dada”, completou a ministra.


O papel da Ciência
Ao final, Marina Silva ressaltou o papel da Ciência e da pesquisa como parceiras na busca por políticas públicas que protejam de fato a população. “Cada vez mais, vamos precisar fazer políticas públicas a partir de dados e evidências. Tanto aqueles que são aportados pela academia, que vêm da pesquisa básica e aplicada, quanto aqueles que vêm da observação das pessoas, sejam agricultores familiares, populações tradicionais, pescadores e coletores, como temos em várias regiões do Brasil. Sem conhecimento é impossível, nestes tempos tão incertos e com tantos desafios, diminuir recursos e esforços para alcançar os melhores resultados. No Ministério, nós sempre fizemos política pública com base em dados e evidências. Seja em relação a desmatamentos, enfrentamento à desertificação ou resíduos sólidos, todas as nossas políticas têm um lastro técnico-científico de diferentes setores”, afirmou.
Política de Sustentabilidade
O coordenador-geral da Unicamp, Fernando Coelho, também esteve presente representando o reitor Paulo Cesar Montagner. Segundo ele, o evento acontece em um momento muito importante para a Universidade. “Estamos implementando a nossa política de sustentabilidade agora. Pensar em agricultura orgânica é discutir uma perspectiva de futuro, e esse é o papel da universidade pública: conversar com a sociedade”, comentou.
Roberto Donato, diretor executivo de Sustentabilidade da Unicamp, também enalteceu essa troca de ideias. “Temos aqui uma oportunidade de fazer uma discussão séria sobre um tema sensível para a sociedade brasileira, que é a produção de alimentos com qualidade, saúde e de forma ambientalmente correta”, apontou.

Produtor orgânico
O congresso ainda recebeu o ator Marcos Palmeira, também produtor orgânico destacado. “Meu interesse de estar aqui é criar laços entre os produtores. Um evento como este mostra a nossa dimensão, estimula a chegada de mais interessados”, disse. “Aqui, a gente fala sobre alimentar o mundo realmente. É importante que todos os envolvidos com o agro no Brasil venham procurar pesquisas que minimizem o uso de insumos químicos em sua produção. Espero que isso se popularize, com mais produtores e consumidores; que esta sala fique pequena no ano que vem. Temos um orgulho enorme das universidades públicas”, completou.
Economia verde
O “Congresso Técnico Científico de Agricultura Orgânica” tem como meta reunir, debater e disseminar trabalhos científicos e técnicos desenvolvidos por instituições de referência como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), universidades, institutos estaduais de pesquisa e profissionais do setor. O evento surge como uma iniciativa para ampliar a visibilidade e o protagonismo do setor na agenda da economia verde.
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Neste início de ano, SP registra o primeiro caso de sarampo: a doença está de volta?
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USP
- CNE vota proibição do uso de IA para correções de questões dissertativas sem o “olhar” de um professor
CNE vota proibição do uso de IA para correções de questões dissertativas sem o “olhar” de um professor
Cientistas discutem novas técnicas para enfrentar o câncer
Cientistas brasileiros e estrangeiros de diversas áreas se reúnem nesta semana na Unicamp para discutir novas técnicas e abordagens contra o câncer, uma doença que deve registrar 781 mil novos casos por ano no Brasil até 2028, segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional do Câncer (INC) no início de fevereiro.
O 3º Congresso CancerThera acontece nesta quinta e sexta (dias 12 e 13) no auditório da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), com a participação de especialistas em áreas como medicina, química e física, entre outras. Neste ano, o tema do encontro é “Os desafios da pesquisa translacional no Teranóstico em câncer”. Teranóstico é a junção de conceitos de terapia e diagnóstico, e a ideia é debater formas de levar os avanços obtidos em pesquisa acadêmica até o paciente..
De acordo com hematologista Carmino de Souza, pesquisador responsável pelo Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) CancerThera e presidente do Congresso, o encontro abre espaço para o debate sobre os mais recentes avanços no desenvolvimento de radiofármacos e metalofármacos (medicamentos de precisão nos quais as propriedades físico-químicas de um metal são usadas para realizar tarefas moleculares). Além disso, o seminário vai discutir estratégias diagnósticas e terapêuticas inovadoras para os cuidados de pacientes oncológicos.

“A função do Congresso é dar oportunidade para que todos os envolvidos no Cepid possam ver as atividades de pesquisa que estão sendo desenvolvidas e os respectivos resultados. Alguns são preliminares, outros, mais definitivos”, disse Souza.
“Não estamos falando apenas de irradiação. No casos de câncer de pele, por exemplo, a gente praticamente não falou de irradiação no sentido nuclear. Nós falamos de fotodinâmica, falamos de novos fármacos, falamos de metais”, observa. A fotodinâmica é uma técnica medicinal que utiliza a interação entre luz e um fármaco sensível à luz para destruir células doentes de forma extremamente precisa.
“Quando você conhece o inimigo e sabe quantos são, onde estão e aonde vão, você escolhe as armas com as quais vai lutar”, afirma. “No câncer é a mesma coisa”, argumenta.
Carmino de Souza diz que o seminário também discutirá a chamada “medicina personalizada”, na qual o tratamento é individualizado com base em características próprias de cada organismo.
Cepid CancerThera
Instalado na Unicamp em maio de 2023, o Centro de Inovação em Câncer com Ênfase em Metais e Teranóstico (CancerThera) tem como tarefa desenvolver atividades de pesquisa, inovação e difusão do conhecimento para a criação de novos fármacos e radiofármacos baseados em metais para diagnóstico e tratamento do câncer, incluindo novos usos para radiofármacos já conhecidos.
Além disso, o centro agrega pesquisadores de diversas áreas do conhecimento, incluindo oncologia clínica, onco-hematologia, química, medicina nuclear, farmácia, estatística, biologia e física, adotando um modelo inovador no país para se transformar numa instituição de classe mundial no estudo do câncer.
Tipos de câncer mais incidentes
Homens
Próstata (30,5%) – Cólon e reto (10,3%) – Pulmão (7,3%) – Estômago (5,4%) – Cavidade oral (4,8%)
Mulheres
Mama (30,0%) – Cólon e reto (10,5%) – Colo do útero (7,4%) – Pulmão (6,4%) – Tireoide (5,1%)
Fonte: INC
Alerta
➔ 781 mil novos casos de câncer estimados por ano no Brasil em cada ano do triênio 2026-2028.
➔ 518 mil casos anuais da doença, excluídos os tumores de pele não melanoma.
➔ O câncer se aproxima das doenças cardiovasculares como principal causa de mortes no Brasil.
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