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‘Mais vidas que um gato’: ações brasileiras lideram aposta do Bradesco BBI em LatAm

As ações brasileiras atravessam uma fase de impulso, apoiada por fatores simultâneos que, segundo o Bradesco BBI, configuram um ambiente atípico em relação a episódios anteriores de volatilidade.

O banco posiciona o país como sua principal aposta na América Latina, em um contexto de rotação global de capitais, ajustes macroeconômicos e catalisadores locais em desenvolvimento.

“As ações brasileiras têm ‘nove vidas’ e se beneficiam de forma quase única de uma confluência de fatores geopolíticos, macroeconômicos globais, locais e de mercados emergentes que acreditamos ainda terem potencial”, afirmaram os analistas Pedro Grimaldi e Ben Laidler.

A interpretação, que brinca com a noção das sete vidas atribuídas a um gato no imaginário popular, justifica o bom desempenho da bolsa em 2026.

Essa abordagem contrasta com os ciclos recentes marcados por correções — desde deteriorações fiscais até choques externos — nos quais o Brasil não conseguiu tirar proveito do cenário.

Agora, o banco sustenta que a dinâmica atual responde a um conjunto de fatores simultâneos que estão impulsionando os fluxos internacionais e reconfigurando as avaliações do mercado.

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Rotação global e avaliação: as três primeiras vertentes

O primeiro bloco identificado pelo Bradesco BBI foca no posicionamento global dos mercados emergentes, nos quais o Brasil figura como um dos principais beneficiários da realocação de capital.

Os analistas apontam que “o Brasil parece ser o maior vencedor global com um perfil de valor, cíclico e não tecnológico, juntamente com um elevado carry trade”, em linha com a rotação de ativos norte-americanos para os mercados internacionais.

A segunda vertente gira em torno da subponderação estrutural dos mercados emergentes nas carteiras globais. Segundo o relatório, “a subponderação global dos investidores em ações de mercados emergentes acumulou-se ao longo de quinze anos de baixo desempenho relativo”, uma lacuna que abre espaço para uma realocação progressiva para economias com maior liquidez e diversificação setorial, como o Brasil.

O terceiro eixo diz respeito ao valuation. Apesar das recentes altas, o mercado brasileiro mantém múltiplos moderados e, segundo os analistas, “o Brasil continua sendo um dos mercados de ações mais baratos do mundo, com um PER futuro de 10,2 vezes”.

Há também um rendimento por dividendo estimado em 5,3%, ao passo que as expectativas de lucros começam a ser revisadas para cima.

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Petróleo e geopolítica: a proteção externa

O segundo bloco agrupa fatores ligados ao ambiente geopolítico e às commodities, onde o Brasil se posiciona como beneficiário líquido. A quarta vertente se apoia no mercado energético.

O relatório destaca que “o Brasil é um duplo beneficiário macroeconômico e bolsista dos preços mais altos do petróleo”, após se consolidar como exportador líquido e aumentar sua produção em cerca de 60% na última década.

Além desse impulso, há também uma menor exposição a tensões internacionais, sendo que o quinto pilar está ligado ao posicionamento geopolítico relativo do país. Os analistas destacam que “o Brasil está longe das principais tensões geopolíticas atuais, com uma baixa proporção de exportações em relação ao PIB”, o que reduz sua vulnerabilidade diante de conflitos em outras regiões e reforça seu perfil defensivo dentro dos mercados emergentes.

Essa posição coincidiu com revisões para cima nas expectativas de lucros, impulsionadas em parte pelo setor energético, em um contexto em que o país combina exposição às commodities com uma estrutura econômica relativamente protegida contra choques externos.

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Moeda, taxas e política: catalisadores internos

O terceiro bloco reúne os impulsionadores macroeconômicos e locais. Neles, o sexto pilar gira em torno da moeda, onde o banco destaca que “o real tem sido uma das grandes modas vencedoras globais de um dólar mais fraco”, apoiado por diferenciais de taxas de juros elevados que reforçam o apelo do carry trade.

A sétima vertente está ligada à frente fiscal. Nesse plano, o relatório indica que “os déficits fiscais globais se ampliaram, tornando a comparação do Brasil menos desfavorável”, em um contexto em que a nova regra fiscal contribui para conter preocupações históricas.

A oitava vertente está ligada ao ciclo monetário. “O Brasil começou a reduzir as taxas a partir de 15% no mês passado, em um ciclo único, abrangente e com duplo impacto”, afirmam os analistas, com efeitos tanto nas valorizações quanto nos fluxos de investimento domésticos.

O nono elemento situa-se no plano político. De cara às eleições presidenciais de outubro, o relatório aponta para uma margem ainda não totalmente refletida nos preços.

Grimaldi e Laidler afirmam que veem “opcionalidade nas eleições de outubro, desde o peso desproporcional das empresas estatais até aos elevados rendimentos reais dos títulos”.

Com esse conjunto de fatores, o Bradesco BBI mantém o Brasil como sua principal aposta na América Latina, com foco em setores sensíveis às taxas, mercados de capitais, empresas estatais e crescimento estrutural.

Entre os riscos, o banco identifica uma eventual reversão estrutural do dólar ou o retorno dos temores de dominância fiscal, variáveis que condicionarão a sustentabilidade do atual ciclo de mercado.

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© Victor Moriyama

Os analistas do Bradesco BBI consideram que as ações brasileiras têm potencial significativo. (Foto: Victor Moriyama/Bloomberg)

Do peso argentino ao real: as moedas mais resilientes da América Latina com dólar forte

O dólar encerrou março com seu melhor desempenho mensal desde julho de 2025, consolidando uma recuperação impulsionada pela crescente aversão ao risco nos mercados globais.

A intensificação do conflito no Oriente Médio alterou a dinâmica energética e deteriorou as expectativas de crescimento, fatores que levaram os investidores a buscar refúgio na principal moeda de reserva mundial.

O Bloomberg Dollar Spot Index avançou cerca de 2,36% no mês, refletindo uma demanda sustentada por liquidez e segurança, enquanto ganhou cerca de 1% no trimestre, seu maior avanço para esse período desde o final de 2024.

A mudança no posicionamento do mercado foi significativa em relação às previsões do início do ano, quando predominavam apostas na desvalorização do dólar.

A interrupção no abastecimento energético, especialmente após o fechamento do Estreito de Ormuz, expôs a vulnerabilidade de economias como a Europa e o Japão, altamente dependentes de importações de petróleo e gás. Em contrapartida, a condição dos Estados Unidos como grande produtor de energia reforçou o atrativo relativo de sua moeda.

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Apesar desse cenário de volatilidade, as moedas da América Latina apresentaram um desempenho misto, influenciado tanto pela evolução das commodities quanto por fatores específicos de cada economia.

O colón da Costa Rica, o peso argentino e o real brasileiro se destacaram como as moedas mais resilientes da região, apoiadas por dinâmicas internas e um posicionamento favorável em relação aos fluxos externos.

“As moedas emergentes e da América Latina continuam expostas a eventos externos e à baixa tolerância geral ao risco, à medida que o conflito com o Irã persiste sem um fim claro à vista”, apontaram os analistas do BBVA. “O panorama geopolítico continua sendo crucial. Os mercados continuam descontando um prêmio de risco persistente no petróleo, ligado ao conflito em evolução entre os EUA e o Irã”.

As moedas que mais valorizam em 2026

O colón costarriquenho (USDCRC) consolidou-se como a moeda mais forte da América Latina, apoiado por fundamentos sólidos no cenário internacional. A moeda valorizou-se cerca de 7% no ano, atingindo níveis próximos a 465 por dólar, seu ponto mais alto em duas décadas, em um contexto de entrada abundante de divisas.

Por trás desse desempenho, destaca-se o dinamismo do setor de exportação, que em 2025 atingiu um recorde de US$ 23 bilhões.

A valorização da moeda, segundo o analista Daniel Suchar Gómez, responde a uma combinação de fatores externos fundamentais, impulsionados pelo dinamismo das vendas externas, pela recuperação do turismo e pelo crescimento sustentado do investimento estrangeiro direto, que “não parou de crescer na Costa Rica”, gerando uma entrada constante de dólares no mercado local.

Além desse impulso estrutural, há também um fator financeiro que ampliou a valorização da moeda. A atratividade das taxas de juros em colones incentivou a entrada de capitais, gerando pressões adicionais no mercado cambial e obrigando até mesmo o banco central a intervir para conter o avanço.

“Na Costa Rica, as taxas de juros têm estado muito altas e atraentes, então há muitos fluxos de dinheiro registrados no Banco Central”, diz Suchar.

Em seguida, vem o real (USDBRL), que encontrou suporte na política monetária, em um contexto em que o Banco Central do Brasil iniciou um ciclo de cortes nas taxas com cautela. A autoridade reduziu a Selic em 25 pontos-base, para 14,75%, mas manteve um tom conservador, condicionado pela incerteza global e pelo impacto do conflito no Oriente Médio sobre a inflação.

O real foi uma das moedas que mais valorizou no primeiro trimestre de 2026. (Foto: Tuane Fernandes)

Essa combinação de taxas ainda elevadas e cautela na flexibilização contribuiu para manter o atrativo relativo dos ativos em reais. A moeda valorizou 5,68% no trimestre.

“O real pode ficar um pouco mais protegido em um eventual novo cenário de aversão ao risco”, afirmou Brendan McKenna, economista do Wells Fargo, ao destacar que o Banco Central evitou cortes mais agressivos nas taxas.

O pódio do primeiro trimestre é fechado pelo peso argentino (USDARS), com alta de 5,04%. De acordo com Milo Farro, analista da Rava Bursátil, o desempenho respondeu a três elementos principais, entre eles uma menor demanda por cobertura após um cenário eleitoral mais favorável ao governo do que o previsto, o que reduziu a pressão de compra de moedas nos meses seguintes.

Paralelamente, o mercado recebeu um fluxo relevante de oferta de dólares, impulsionado por emissões de dívida corporativa e subnacional que ultrapassaram US$ 8 bilhões entre outubro de 2025 e março de 2026, operações que “geram fluxo de venda no Mercado Livre de Câmbio e contribuem para aliviar a pressão sobre a cotação do dólar”.

Além disso, a atratividade das taxas em moeda local manteve o interesse por ativos em pesos durante boa parte do início do ano.

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Moedas intermediárias

Entre as moedas que registraram ganhos, destacam-se o peso dominicano (USDDOP) e o peso colombiano (USDCOP). O primeiro subiu 4,64%, apoiado por um forte influxo de divisas, impulsionado pelo turismo, remessas e exportações, juntamente com altos níveis de reservas internacionais e estabilidade macroeconômica, o que gerou um excesso de dólares no mercado local.

O segundo, que encerrou o trimestre com um ganho de 2,83%, foi beneficiado pelos melhores preços do petróleo e apoiado pelas altas taxas de juros, após um aumento de 200 pontos-base nas duas últimas reuniões do banco central, atingindo níveis de 11,25%.

Nesse grupo também se destacam o lempira hondurenho (USDHNL) e o peso mexicano (USDMXN). Este último obteve ganhos modestos, mas foi afetado pela redução das taxas de juros para 6,75%, implementada pelo seu banco central, o que reduziu a atratividade relativa de seus ativos em moeda local.

Julio Ruiz, economista-chefe do Citi México, acrescentou que também “está se refletindo uma desvalorização devido ao conflito geopolítico”, explicada em parte pela vulnerabilidade energética do país, já que “o México tem uma balança comercial energética deficitária. Importa petróleo, mas também importa derivados como gás e gasolina”, o que implica que “um choque no preço do petróleo deterioraria a balança comercial e pressionaria a taxa de câmbio”.

Além disso, há o fortalecimento global do dólar como ativo de refúgio, uma vez que “o clima de incerteza, que se reflete no fortalecimento do dólar americano por ser considerado um ativo de baixo risco, também exerce pressão sobre a taxa de câmbio peso/dólar americano”.

“Observamos que a taxa de câmbio poderia ficar em torno de 18,1 pesos por dólar no 2º trimestre de 2026 devido ao conflito geopolítico, mas que poderia se valorizar para 17,8 pesos por dólar no final do ano, caso haja uma resolução do conflito (...) Embora o Banco Central tenha reduzido recentemente sua taxa de política monetária em 25 pontos-base, para 6,75%, sua orientação de política monetária indica que avaliará o ambiente financeiro e macroeconômico para determinar se é pertinente um novo corte na taxa de política monetária. Em outras palavras, avaliará a persistência do conflito e seus efeitos sobre a inflação antes de decidir por outro corte”

Julio Ruiz, economista-chefe do Citi México

Moedas em queda e impacto da guerra

Nem todas as moedas da região conseguiram avançar. O fortalecimento do dólar e o impacto que a guerra no Oriente Médio teve sobre as matérias-primas afetaram o desempenho de algumas moedas da América Latina.

A moeda que mais se desvalorizou no fechamento do primeiro trimestre foi o peso uruguaio (USDUYU), com uma queda de 3,95%.

Segundo Patrizio Drago, analista da Adcap Securities Uruguai, o ponto de inflexão foi o início do conflito no Oriente Médio no final de fevereiro, que impulsionou o fortalecimento global do dólar e a alta do petróleo.

Esse choque afeta particularmente o Uruguai por ser um importador líquido de energia, ao contrário de economias como a Colômbia ou o Brasil, ampliando a pressão cambial. Internamente, o panorama também não ajuda.

“A economia uruguaia vem mostrando sinais de estagnação há vários meses. No último trimestre de 2025, o crescimento foi de apenas 0,1% em relação ao trimestre anterior, e os indicadores antecipados sugerem que o início de 2026 não teria sido muito diferente”, acrescentou Drago. A isso se soma uma deterioração na confiança do mercado após mensagens ambíguas das autoridades, incluindo possíveis intervenções cambiais.

“Primeiro foi o ministro da Economia, que afirmou que o dólar estava ‘barato’ e mencionou a possibilidade de tomar algumas medidas, como emitir mais dívida em moeda nacional ou sugerir às empresas públicas que comprassem dólares a prazo. Em seguida, o presidente do Banco Central deixou entrever a possibilidade de intervir no mercado cambial para corrigir algumas supostas ‘anomalias’. Além das medidas concretas, esse tipo de mensagem geralmente não é bem recebido pelo mercado, pois gera incerteza”

Patrizio Drago, analista da Adcap Securities Uruguai

Após o caso do peso uruguaio, seguem-se o sol peruano (USDPEN), com uma queda de -3,31%, e o peso chileno (USDCLP), com uma queda de -2,78%. O sol peruano havia apresentado um comportamento inicialmente estável em janeiro, mas com uma clara desvalorização desde o final de fevereiro, em linha com a deterioração do cenário global. Segundo Fernando Ruiz, CEO da Kambista, o gatilho foi o conflito no Oriente Médio, que reconfigurou as expectativas do mercado.

O Peru, como importador de energia e altamente dependente de combustíveis para seu setor de mineração — principal gerador de divisas — sofreu uma dupla pressão: o encarecimento das importações e a saída de capitais para ativos de refúgio diante da incerteza global.

Em nível local, a moeda enfrenta ventos contrários adicionais: desaceleração econômica refletida nas expectativas do Banco Central de Reserva do Peru, impacto do fenômeno do Niño Costero e problemas de abastecimento de gás.

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“Além disso, por ser ano eleitoral, há sempre um certo grau de incerteza gerado pela campanha eleitoral, enquanto os investidores aguardam mais clareza sobre como serão os próximos anos no cenário político local”, disse Ruiz.

O peso chileno também é afetado por sua dependência dos combustíveis fósseis e pela fraqueza do cobre em um cenário de menor crescimento industrial global.

“Se a crise se agravar, o dólar poderá retomar rapidamente seu impulso de alta e buscar a faixa dos CLP$ 940. Em contrapartida, uma quebra clara dos CLP$920 abriria espaço para uma correção mais profunda, com os CLP$905 surgindo como meta de curto prazo”, disse Juan Ortiz, analista da XTB.

Derrocada do peso chileno está relacionada com dependência dos combustíveis fósseis e a fraqueza do cobre. (Foto: Shutterstock)

Nesse contexto, o desempenho das moedas no restante de 2026 continuará condicionado por uma variável dominante: a evolução do conflito geopolítico e seu impacto sobre o dólar e as commodities.

Com um mercado que reconfigurou rapidamente suas expectativas, desde cortes nas taxas até cenários de maior restrição monetária, as moedas emergentes permanecem sensíveis a mudanças abruptas no apetite pelo risco.

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Conflito no Oriente Médio afetou as expectativas de crescimento e levou investidores a procurar segurança na moeda americana

Cathie Wood vê América Latina resiliente a crises e atraente em cenário volátil

Uma das investidoras mais reconhecidas de Wall Street por suas apostas em tecnologias disruptivas acredita que a América Latina apresenta grandes oportunidades em um contexto global de incertezas.

Para Cathie Wood, fundadora da ARK Investment Management, empresas da região carregam uma vantagem estrutural por estarem mais acostumadas a operar em ambientes de volatilidade econômica e política — experiência que, segundo ela, se traduz em maior capacidade de adaptação e execução.

Segundo ela, empresários latino-americanos “tiveram que lidar com mais volatilidade do que os líderes ou equipes de gestão norte-americanos”, disse em entrevista à Bloomberg Línea.

Isso faz com que eles saibam administrar bem os ciclos de instabilidade graças à experiência acumulada em contextos macroeconômicos desafiadores.

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Cathie Wood visitou recentemente a Colômbia, o Peru e o Chile, três mercados que avançam na integração de suas bolsas e onde ela lançou sua oferta de fundos de investimento, e expôs sua visão sobre as oportunidades que vê na América Latina.

A chegada de seus ETFs marca o início de uma estratégia que busca oferecer instrumentos que reúnem empresas ligadas à inteligência artificial (IA), robótica, genômica e tecnologia financeira, dentro de um esquema para ampliar o acesso a ativos internacionais a partir de plataformas locais.

“Temos uma noção do interesse que os investidores latino-americanos têm pela inovação”, disse a investidora. “Sempre que vou a Miami e faço uma apresentação em uma conferência, muitas das pessoas que se aproximam de mim depois são da América Latina. Então, percebemos que há um grande interesse.”

Pontos fortes

A tese sobre a região parte da composição dos ativos oferecidos aos investidores, onde predominam os setores tradicionais.

Wood afirmou que “os mercados na América Latina têm grande peso nos setores bancário e de serviços públicos”, o que abre espaço para a introdução de ativos com baixa correlação com esses segmentos.

Cathie Wood durante o lançamento dos ETFs da ARK Invest na Bolsa de Valores da Colômbia.

Essa abordagem está alinhada com a chegada de seus ETFs à região, em parceria com a Capital Strategies, que possibilita a negociação desses instrumentos no Mercado Global Colombiano e seu equivalente no Peru, com planos de avançar nas próximas semanas no Chile. As três bolsas estão em processo de integração em um único mercado sob a liderança da nuam.

A gestora afirmou que sua proposta difere de uma exposição direta aos índices tecnológicos dos Estados Unidos e garante que suas “carteiras são muito diferentes do Nasdaq”, o que reforça a ideia de diversificação para os investidores locais.

Essa expansão ocorre em um momento em que sua empresa apresenta sinais mistos de desempenho, com o fundo de fintech que alcançou uma rentabilidade próxima a 30% em 2025, impulsionado por apostas em inteligência artificial, apesar de seu principal veículo acumular uma queda superior a 50% em cinco anos, em comparação com o avanço do Nasdaq 100.

Para Cathie Wood, o interesse dos investidores latino-americanos foi um fator determinante na decisão de expandir, juntamente com o papel cada vez mais relevante desempenhado pelas empresas de tecnologia surgidas na América Latina.

“Temos tanto Mercado Livre quanto Nubank em nosso fundo de fintechs. Portanto, conhecemos bem essas empresas e, como sabem, as equipes de gestão na América Latina sempre nos impressionaram. Acredito que uma das razões de seu sucesso reside na volatilidade macroeconômica e geopolítica”, afirmou a executiva.

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As duas empresas representam cerca de 5% de seu ETF ARK Blockchain & Fintech Innovation, que valorizou 49,49% nos últimos três anos.

Ela disse considerar expandir seus produtos para mais países da América Latina. “Quando nos comprometemos com uma região como a América Latina, gostaríamos de ter uma presença significativa em toda a região.”

Com essa projeção, ele acredita no surgimento de novas empresas latino-americanas em áreas ligadas à inovação, impulsionadas pela queda nos custos tecnológicos. Nesse ponto, ele introduz uma variável-chave ao destacar que “os custos de treinamento de inteligência artificial estão caindo 75% ao ano”, o que reduz as barreiras de entrada para esse tipo de empresa.

Bolha?

Além da América Latina, a discussão sobre uma possível bolha na inteligência artificial se instalou nos mercados paralelamente ao crescimento das avaliações das empresas de tecnologia, mas Wood estabelece uma diferença em relação a episódios anteriores.

Sua experiência durante o ciclo do final dos anos 90, durante a bolha das pontocom, serve como ponto de comparação. “Não compartilhamos essa preocupação de forma alguma”, afirmou.

Analistas do Goldman Sachs reconheceram que o mercado mostra sinais que “se assemelham a bolhas anteriores”, como o aumento das avaliações, a concentração e os fortes gastos de capital. Paralelamente, figuras como Ray Dalio alertaram que o boom das ações ligadas à IA está “em uma fase inicial de bolha”.

Lançamento dos ETFs da ARK Invest, de Cathie Wood, na Bolsa de Valores da Colômbia.

As big techs projetam um gasto de cerca de US$ 650 bilhões em inteligência artificial, enquanto o S&P 500 está sendo negociado a cerca de 22 vezes os lucros futuros, um sinal de que o mercado está caro em relação à sua média histórica.

Mas Wood vê um contraste entre o boom da IA e a bolha da internet. “Fui gestora de carteiras no final dos anos 90, então vivi a bolha, assim como muitas das pessoas mais experientes atualmente em nosso setor”, disse a empresária.

Com essa experiência, ela estabelece uma diferença entre o ciclo atual de investimento em inteligência artificial e o episódio das pontocom, quando a implantação de infraestrutura superou a capacidade de uso. Ela lembrou que, naquela época, a capacidade instalada excedia a demanda e os produtos ainda não estavam prontos para escalar, o que limitou a monetização desse investimento.

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Agora, ela descreve um ambiente em que a infraestrutura tecnológica é utilizada de forma intensiva desde o início. “Não acredito que haja nenhuma GPU no mundo sem uso; há escassez de GPUs. Essa é uma grande diferença, e vemos uma geração de receita surpreendente”, afirmou.

Esse dinamismo se reflete em métricas como o crescimento acelerado da receita em empresas do setor, como a OpenAI ou a Anthropic, em um cenário onde, segundo sua abordagem, o investimento já se traduz em fluxos reais.

“A receita recorrente anual da OpenAI passou, em pouco mais de dois meses, de US$ 20 bilhões para US$ 25 bilhões. Portanto, está sendo gerada receita real graças a todo o investimento atual”, afirmou.

Paralelamente, Wood analisa as preocupações com o crédito privado, afetado pelo aumento das taxas de juros que elevou o custo da dívida e deteriorou a capacidade de pagamento de algumas empresas, enquanto a menor liquidez do mercado dificulta a saída dos investimentos. Nessa frente, ele reconhece riscos específicos, embora descarte implicações sistêmicas.

A avaliação parte do tamanho do mercado, estimado em US$ 1,8 trilhão, e concentra-se na exposição do sistema financeiro tradicional, onde se destaca que “os bancos não estão muito expostos a ele”, em virtude da regulamentação adotada após a crise de 2008.

Essa limitação da exposição reduz a probabilidade de um evento comparável a episódios anteriores, embora identifique vulnerabilidades em fundos com exposição a software empresarial e alerte que “os fundos caros estão em apuros, especialmente aqueles que investiram em SaaS, pois acreditamos que a IA está revolucionando esse setor”.

Essas empresas enfrentaram uma mudança de narrativa provocada pela inteligência artificial sobre o valor do software tradicional.

Entre os investidores, existe o temor de que ferramentas de IA, especialmente os agentes capazes de executar tarefas completas como programação, análise ou gestão operacional, reduzam a necessidade de múltiplas aplicações de SaaS e corroam seu modelo de negócios baseado em assinaturas.

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Mais uma peça no jogo

O cenário geopolítico, marcado pelo conflito no Irã, introduz um fator adicional de volatilidade nos mercados, particularmente por meio do impacto nos preços do petróleo e nas expectativas de inflação.

O petróleo bruto ficou 40% mais caro no ano e bancos centrais como o da Austrália já tomaram a decisão de aumentar as taxas de juros diante do impacto nos preços. No entanto, Wood interpreta esse contexto como parte de um acúmulo de riscos que não impediram os mercados de se manterem em níveis elevados.

“Acreditamos que isso seja como mais algumas peças de um quebra-cabeça de preocupação. É surpreendente que, durante o último ano, apesar das tarifas nos Estados Unidos, da paralisação do governo americano e da guerra no Irã, o mercado ainda esteja próximo de sua máxima histórica”, disse a investidora.

No entanto, sua opinião sobre o conflito inclui uma avaliação de uma resolução rápida. “Nossa interpretação do que está acontecendo, conhecendo o presidente Trump, é que ele não quer uma guerra prolongada. Ele quer resolver a questão rapidamente e eliminar os riscos geopolíticos do sistema”, afirmou.

Nessa análise, ela também introduz o fator nuclear como elemento central no equilíbrio geopolítico e considera relevante a ausência de capacidades nesse frente por parte do Irã. Essa avaliação se estende a possíveis cenários no estreito de Ormuz, onde ela considera que uma interrupção total do tráfego implicaria uma resposta mais intensa por parte dos EUA e de Israel.

Ao mesmo tempo, ela observa uma redução na intensidade dos ataques recentes e sugere que “eles estão ficando sem tempo e sem munição”, em uma análise sobre a capacidade operacional do Irã no conflito.

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Opções de investimento

Dentro de sua estratégia de investimento, Wood identifica áreas em que a inteligência artificial se integra a setores físicos, em uma evolução que ela denomina “inteligência artificial incorporada”.

Nesse contexto, ela aponta a mobilidade autônoma como o principal vetor de crescimento, referindo-se a invenções como táxis-robô, drones e transporte autônomo.

“Acreditamos que é nesse setor que a receita crescerá mais rapidamente, chegando a bilhões de dólares nos próximos 5 a 10 anos, partindo praticamente do zero atual. E embora essa possa ser a maior aplicação da IA no mundo físico, a aplicação mais profunda está na área da saúde”, afirmou.

No âmbito da saúde, ela apresenta uma convergência entre tecnologias de sequenciamento e análise de dados que, segundo sua abordagem, permitirá avanços no diagnóstico precoce de doenças, com aplicações em diferentes tipos de câncer. “Seremos capazes de diagnosticar câncer no estágio um, inclusive câncer de pâncreas, ou talvez antes mesmo do estágio um”, disse ela.

Essa abordagem é complementada pela edição genética, na qual se destacam avanços em tratamentos que já geram receita com o tratamento de doenças específicas, o que reflete uma transição da pesquisa para a aplicação comercial. Para Wood, “não é uma questão de se ou quando isso vai acontecer, mas o porte dessa transição”.

No caso do bitcoin, ela mantém uma visão estrutural sobre seu papel dentro do sistema financeiro. A empresária, tradicionalmente, tem defendido uma das opiniões mais otimistas sobre o ativo digital em Wall Street, ao considerar que ele está em uma fase inicial de adoção institucional e pode se consolidar como uma nova classe de ativo global

Ela reafirmou essa visão durante a conversa, apesar de ter perdido quase 30% do seu valor ao longo de 2026. “Não mudamos nossa posição de que será o maior ativo dentro do ecossistema de ativos digitais, o maior criptoativo puro. E acredito que a queda tenha preocupado muita gente, mas essa queda, acreditem ou não, é muito mais branda do que a de outros mercados em baixa”, afirmou.

Wood interpreta esse ajuste como uma fase dentro da adoção institucional e descreve um processo de entrada gradual de investidores que buscam se posicionar em um ativo que ela define como uma nova categoria dentro do sistema financeiro global. Por isso, ela mantém seu cenário de avaliação ao lembrar que o “preço-alvo em nosso cenário otimista é de US$ 1,5 milhão”, em uma projeção que permanece inalterada dentro de sua estratégia.

Com esse conjunto de apostas, Wood traça um roteiro que combina a expansão geográfica com uma leitura estrutural das mudanças tecnológicas em curso. Sua passagem pela América Latina insere-se em uma estratégia que busca capturar uma maior demanda por ativos de inovação, em um ambiente onde a inteligência artificial, o software e os criptoativos redefinem a alocação de capital.

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© Bolsa de Valores de Colombia

Investidora disse ter notado um grande interesse por inovação entre investidores latino-americanos (Foto: Divulgação)

De Itaú a Petrobras: as apostas do maior fundo soberano do mundo na América Latina

A presença do fundo soberano da Noruega na América Latina se reflete em investimentos que espelham a estrutura de seu portfólio global e seu foco em empresas listadas em bolsa e dívida pública.

O maior fundo soberano do mundo, com ativos que superam US$ 2,03 trilhões, distribui seu capital em dezenas de países e setores. A América Latina representa uma fração menor do portfólio total, mas permite observar como o fundo busca exposição a bancos, energia, infraestrutura e consumo em mercados emergentes.

Em 2025, o fundo registrou um retorno de 15%. As ações contribuíram com 19,3%, enquanto a renda fixa registrou 5,4%. Os investimentos imobiliários não listados atingiram 4,4% e a infraestrutura de energia renovável obteve 18,1%.

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Nicolai Tangen, diretor-executivo do Norges Bank Investment Management, afirmou em comunicado que “o fundo entregou resultados muito sólidos em 2025. As ações de tecnologia, finanças e materiais básicos se destacaram e deram uma contribuição significativa ao retorno total”.

O portfólio manteve uma alocação de 71,3% em ações e 26,5% em renda fixa, enquanto os ativos imobiliários representaram 1,7% e a infraestrutura renovável, 0,4%.

Nesse contexto, as posições na América Latina se concentram em um conjunto limitado de países e empresas que refletem a estrutura dos mercados de capitais regionais.

Empresas da América Latina no portfólio

Os investimentos do fundo na América Latina somam US$ 15,877 bilhões distribuídos em seis países. Brasil e México concentram a maior parte da exposição, seguidos por Chile, Colômbia, Peru e Panamá. O fundo mantém 181 posições em ações na região e 33 investimentos em títulos.

Entre as maiores posições em renda variável, aparece o Itaú Unibanco (ITUB4) com um investimento de US$ 669 milhões, enquanto a Petrobras (PETR3; PETR4) concentra US$ 595 milhões.

No México, destaca-se o Grupo México (GMEXICOB) com US$ 430 milhões. O portfólio também inclui Cemex (CEMEXCPO) com US$ 287 milhões, Promotora y Operadora de Infraestructura (PINFRA) com US$ 278 milhões e Fomento Económico Mexicano (FEMSAUBD) com US$ 277 milhões.

No setor financeiro mexicano, figura o Grupo Financiero Banorte (GFNORTEO) com US$ 230 milhões.

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Essas posições refletem a preferência do fundo por empresas de grande capitalização em mercados líquidos da região. Brasil e México concentram a maior parte da exposição devido à profundidade de suas bolsas e à presença de empresas com operações regionais.

Na Colômbia, o fundo mantém investimentos em oito companhias que somam US$ 203 milhões. A maior posição corresponde ao Grupo Cibest (CIB) com US$ 174 milhões. O portfólio inclui ainda a Interconexión Eléctrica (ISA) com US$ 12,5 milhões, o Almacenes Éxito (EXITO) com US$ 6,7 milhões e a Cementos Argos (CEMARGOS) com US$ 4,8 milhões.

A presença de várias empresas vinculadas ao Grupo Empresarial Antioqueño (GEA) reflete a estrutura do mercado colombiano, onde conglomerados financeiros e de infraestrutura concentram parte relevante da capitalização de mercado.

O fundo mantém ainda posições em setores de consumo e serviços públicos com o objetivo de diversificar sua exposição.

Em renda fixa, o maior investimento corresponde a títulos do governo do México com US$ 1,544 bilhão. O portfólio inclui também dívida soberana da Colômbia por US$ 1,047 bilhão e títulos do governo do Peru por US$ 1,003 bilhão.

O Brasil aparece com US$ 562 milhões em títulos indexados à inflação, e o Chile com US$ 202 milhões em dívida pública. O portfólio inclui ainda títulos da Codelco por US$ 149 milhões e dívida corporativa da América Móvil (AMXL) por US$ 90 milhões.

Resultados globais

O desempenho global do fundo em 2025 foi impulsionado pelo comportamento dos mercados de capitais. O relatório anual aponta que as ações geraram retornos próximos a 19% e representaram o principal motor do portfólio.

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O setor de tecnologia produziu a maior contribuição ao retorno total. Em termos nominais, o segmento gerou US$ 82,3 bilhões. As empresas financeiras contribuíram com US$ 64,3 bilhões e o setor industrial com US$ 29,7 bilhões.

O relatório identifica ainda os setores com melhor desempenho dentro do índice global. Os materiais básicos registraram retornos superiores a 40%, impulsionados pela alta dos preços de metais industriais e preciosos. As ações financeiras registraram retornos próximos a 32% e as telecomunicações atingiram cerca de 31%.

As empresas que mais contribuíram para o resultado do fundo incluíram Alphabet (GOOGL), Nvidia (NVDA), Taiwan Semiconductor (TSM), Broadcom (AVGO), Microsoft (MSFT), Samsung, Alibaba (BABA), Eli Lilly (LLY), ASML (ASML) e Tencent. Essas empresas refletem o peso da tecnologia e da indústria de semicondutores dentro do portfólio global.

O relatório também destaca a concentração crescente do mercado de capitais. As dez maiores posições do portfólio de ações representam cerca de 20% da carteira. Esse fenômeno reflete o peso crescente das grandes empresas de tecnologia dentro dos índices globais.

O desempenho do mercado de renda fixa foi mais moderado. Os títulos geraram retornos próximos a 5%, pois o ambiente macroeconômico foi marcado por cortes de juros em algumas economias avançadas e por expectativas de maior gasto fiscal.

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