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O não-dito virou habilidade. O problema é o que fazemos com ele

30 de Abril de 2026, 18:15

Esta semana voltou a circular um vídeo do Jensen Huang, CEO da NVidia, em que ele fala que a pessoa mais inteligente no trabalho é a que consegue “inferir os não-ditos”.

A frase parece simples, quase óbvia, mas fala de uma habilidade que muita gente vem tentando desenvolver no dia a dia e que gera consequências que quase nenhuma empresa tá a fim de bancar. Vamos destrinchar isso com calma.

Quando se fala em “não-dito”, costuma-se pensar em algo que alguém percebeu e preferiu não falar ou guardou segredo. Isso existe, mas tem um outro tipo de não-dito que não passa por escolha. Ele não chega a virar fala e, ainda assim, aparece.

A psicanálise nos ajuda a entender e captar essa escuta mais profunda, que está ao nível inconsciente — das pessoas e nas dinâmicas dos grupos — e que organiza muitas coisas no trabalho.

Se você amplia um pouco o olhar, a antropologia aponta para algo parecido quando fala de cultura. Todo grupo funciona a partir de regras que não estão escritas, mas que todo mundo aprende, porque não precisam ser explicadas o tempo todo.

No trabalho, isso aparece com clareza. Existe o que está formalizado — meta, processo, valor, ritmo, tipo de cobrança — e existe o que de fato organiza as coisas, e essas duas camadas nem sempre coincidem.

Mas é justamente aqui que mora a tensão. Esses não-ditos têm função dentro dos grupos. O psicanalista Wilfred Bion, que estudou fenômenos de grupos, descreve como, diante de pressão, incerteza ou conflito, os grupos entram em modos de funcionamento voltados à própria preservação. Entre eles, a dinâmica de luta-fuga.

Na autopreservação luta-fuga, o grupo precisa seguir, então a tensão não pode ser trabalhada diretamente. Ela é simplificada ou contornada. Outra coisa ocupa o lugar, e o ponto principal não entra em discussão, porque mexer nele desorganiza o funcionamento do grupo. Ainda assim, continua ditando o que acontece de bom e ruim por ali.

Esses não-ditos não são, por si só, um problema. Eles fazem parte do funcionamento de qualquer empresa. Nem tudo precisa ser dito o tempo todo, e nem todo silêncio produz consequência.

O problema começa quando esse não-dito passa a apoiar situações que geram desgaste, conflito e, por consequência, sofrimento psíquico.

A discussão sobre Saúde Mental avançou muito nas empresas. Ganhou espaço, entrou na agenda e passou a ser tratada com mais seriedade.

Ainda assim, uma parte do sofrimento psíquico continua se repetindo, porque as ações não atingem a causa e, muitas vezes, nem chegam a encostar nela.

Quando eu penso nessa habilidade, vou além do que sugere Huang. Eu penso muito nessa ideia de colocar as empresas no divã. Não como ferramenta clínica, mas como mudança de ponto de partida e de consequência: sair do sintoma e chegar na causa, a partir daí, mexer naquilo que efetivamente está sustentando  a organização do trabalho que adoece.

E eu sei que é justamente aqui que a coisa complica. Em alguns momentos, essa escuta coloca em jogo o modo de funcionamento do trabalho atual e que não muda sem um certo custo.

Acredito que tão difícil quanto a habilidade de “inferir os não-ditos” é a de bancar mudanças que deixam de reorganizar os mesmos problemas e passam, de fato, a interromper o que os produz.

Até porque não se trata apenas de lideranças corajosas e habilidosas, mas de um pacto ético e institucional do sistema como um todo.

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IA e carreira: o risco de um trabalho sem aprendizado

20 de Março de 2026, 17:50

No início de março, saiu esse relatório sobre os impactos da IA no mercado de trabalho. Como se a gente precisasse de mais uma comprovação do fim do nosso futuro. Pessimismos ou brincadeiras à parte, o fato é que esse relatório da Anthropic trouxe 5 grandes insights:

  1. IA ainda está mais ajudando do que substituindo;
  2. O impacto varia muito por profissão;
  3. A adoção da IA está acontecendo extremamente rápido;
  4. Ainda não há evidência clara de desemprego causado por IA;
  5. A grande mudança deve surgir nos empregos de entrada.

Grandes novidades? Nenhuma! Mas olhando para além do que o relatório diz e que, convenhamos, é muito conveniente para a própria empresa de IA, temos um caminho importante para traçar a partir desses insights.

Como pesquisadora em Saúde Mental no trabalho, meu olhar segue em uma direção: o fim das tarefas de aprendizado. Se a gente pensar que a maior parte das profissões tem uma estrutura pedagógica informal, ou seja, começam por meio de tarefas simples, repetitivas e operacionais, o fato de que a IA tem executado tudo isso para os colaboradores pode ser bem preocupante.

Para alguns economistas, esse fenômeno tem sido chamado de deskilling pipeline collapse ou “colapso da formação de competências”. E isso gera três efeitos possíveis: 1) o mercado fica mais elitizado e entram somente pessoas que já chegam preparadas; 2) há uma concentração de expertise com menos especialistas em um futuro próximo e 3) profissões são redesenhadas desde a base.

Mas vale uma provocação: será que esse “colapso da formação de competências” é, de fato, um problema para as empresas hoje em dia? Acho que não, afinal, automatizar tarefas básicas reduz custo, aumenta produtividade e traz um ganho evidente.

O problema está no futuro mesmo. O que hoje aparece como eficiência pode, no médio prazo, virar escassez. As empresas podem estar trocando um problema por outro, sem ainda medir o custo dessa escolha.

E como isso conversa com a saúde mental dos nossos guerreiros? Bom, se a IA elimina justamente o espaço de experimentação e aprendizado do trabalho, ela pode afetar também a formação das profissões e dos profissionais. E não é só isso, é também uma questão de formação psíquica. Explico.

O Christophe Dejours é um psicanalista que há anos estuda o impacto do mercado de trabalho na psique humana e ele diz que o trabalho tem duas dimensões: tarefa prescrita (o que mandam fazer) e trabalho real (o que se aprende fazendo).

É justamente nesse trabalho real que as pessoas desenvolvem inteligência prática, constroem identidade profissional e aprendem coisas objetivas e subjetivas. Então, quando a IA toma conta desses processos aparentemente inofensivos, o maior impacto não é a eliminação de empregos, mas o processo pelo qual aprendemos a trabalhar.

O ponto central aqui é que o trabalho não é apenas remuneração. Para Dejours, ele tem uma função psíquica fundamental, pois é um espaço onde a pessoa experimenta, erra, ajusta, evolui, recebe reconhecimento.

Em outras palavras: o trabalho é responsável por produzir autoestima, pertencimento e tantos outros sentimentos importantes para o ser humano — desde que haja espaço para um reconhecimento, claro.

Se as tarefas iniciais desaparecem com a IA, o sujeito perde esse processo gradual e as consequências podem ser bem desastrosas. Não só para o mercado de trabalho, mas para a sociedade como um todo.
Do ponto de vista do trabalho, acontece o óbvio: o medo da irrelevância gera hiperprodutividade defensiva, comparações constantes e receio de tomar decisões. Disso tudo para um burnout, não é preciso muito.

Quando o percurso natural do trabalho se encurta ou desaparece, surge também uma realidade injusta: profissionais sendo exigidos em níveis mais complexos sem terem passado pelo percurso que ensina justamente essa complexidade.

A questão talvez não seja apenas se a IA vai acabar com os empregos, mas o que acontece com a gente quando o trabalho deixa de ser um lugar de aprendizagem e, portanto, de formação? O que acontece com toda uma sociedade ;e impactada por isso? Vale refletir.

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