Após momentos emocionantes, que ficarão para sempre na memória dos quatro astronautas da missão Artemis 2, é hora de pegar o rumo de casa. A cápsula Orion, levando a bordo Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen, deixou a zona de influência lunar nesta terça-feira (7).
De acordo com a NASA, isso ocorreu às 14h23 (horário de Brasília), momento em que a nave deixou de ser puxada principalmente pela gravidade da Lua, começando oficialmente o trajeto de volta à Terra, que passou a exercer a maior influência sobre sua trajetória.
We anticipate that the Orion spacecraft has now departed the lunar sphere of influence — this is when the gravitational pull of the Moon is stronger than the gravitational pull of Earth.
The Artemis II crew are headed home. Splashdown will take place on Friday, April 10. pic.twitter.com/uZC3YZf45N
Após uma chamada direta com a tripulação da Estação Espacial Internacional (ISS), os astronautas da Artemis 2 passaram cerca de meia hora conversando com Kelsey Young, líder científica da missão em solo, para compartilhar suas impressões sobre o sobrevoo lunar.
A conversa abordou tanto o que eles viram da Lua quanto detalhes do processo científico, como o reflexo da luz da Terra nas janelas e no interior da Orion e o brilho da fita laranja usada na espaçonave para proteger e organizar equipamentos eletrônicos, que influenciaram a coleta de dados durante a missão.
Depois da reunião, os tripulantes iniciaram períodos de folga escalonados para descansar e recuperar energia, preparando-se para realizar as tarefas finais antes da tão aguardada reentrada na atmosfera da Terra.
Se tudo sair conforme o planejado pela NASA, às 22h03, os propulsores da Orion serão acionados para a primeira de três manobras de correção de rota da nave de volta à Terra. Durante essa operação, Koch e Hansen acompanharão os sistemas da espaçonave e verificarão cada etapa do procedimento, garantindo que a cápsula siga corretamente o trajeto rumo ao planeta.
Astronautas da missão Artemis 2 a bordo da cápsula Orion – Imagem: NASA
Dia do sobrevoo histórico na Lua foi marcado por emoção
Na segunda-feira (6), sexto dia da missão Artemsi 2, a nave Orion realizou um sobrevoo histórico, passando pelo lado oculto da Lua. A tripulação a bordo teve visões inéditas do satélite, observando regiões que nenhum ser humano jamais havia contemplado de perto.
Mesmo antes desse feito inesquecível, o dia já foi de fortes emoções, com a tripulação sendo despertada por uma mensagem gravada do veterano da NASA Jim Lovell, falecido em 2025. Participante das icônicas missões Apollo 8, que contornou a Lua pela primeira vez, e Apollo 13, que até então havia alcançado a maior distância da Terra já percorrida por humanos, ele deixou palavras especiais para a tripulação da Artemis 2. Confira a mensagem aqui.
E isso foi apenas o começo. Pouco antes das 15h, mais precisamente às 14h56. a missão superou o recorde de cerca de 400 mil km de distância da Terra atingido em 1970 pela Apollo 13. Em torno de 10 minutos mais tarde, os astronautas iniciaram oficialmente suas observações lunares, o que se estendeu ao longo de aproximadamente sete horas.
“Da cabine da Integrity [nome dado à cápsula Orion pela tripulação], aqui, enquanto ultrapassamos a maior distância já percorrida por humanos a partir do planeta Terra, fazemos isso honrando os esforços e feitos extraordinários de nossos antecessores na exploração espacial humana”, disse Wiseman. “Continuaremos nossa jornada ainda mais longe no espaço antes que a Mãe Terra consiga nos trazer de volta a tudo o que nos é caro, mas, acima de tudo, escolhemos este momento para desafiar esta geração e a próxima a garantir que este recorde não dure muito tempo.”
Uma das primeiras imagens da Terra obtidas durante a missão Artemis 2 – Imagem: NASA
Hansen informou aos controladores da missão que a tripulação da Artemis 2 gostaria de nomear oficialmente duas crateras na Lua. Uma delas deve receber o nome de Integrity, em referência à cápsula Orion da missão, localizada entre a bacia Orientale e a cratera de impacto Ohm. A outra, de Carroll, em homenagem à falecida esposa do comandante Wiseman.
“Existe uma formação em um ponto muito especial da Lua, na fronteira entre o lado visível e o lado oculto. Ela fica exatamente no lado visível, e em certos momentos poderemos avistá-la da Terra”, disse, com a voz embargada. Os astronautas foram vistos enxugando as lágrimas, e, ao final da mensagem, os quatro se abraçaram enquanto o Centro de Controle confirmava por rádio a nomeação das crateras, na presença das filhas e familiares de Wiseman.
Pontos importantes foram atingidos com a Orion “em silêncio”
Quando a Orion passou atrás da Lua, bloqueando temporariamente os sinais de rádio com a Terra, a comunicação foi interrompida por cerca de 40 minutos, como já era previsto pela NASA. Um pouco antes da perda do contato, os astronautas presenciaram o Earthset (o “pôr da Terra”). A imagem desse momento de “despedida” do planeta foi publicada esta manhã pela NASA nas redes sociais, entrando para a galeria de registros mais icônicos da exploração espacial humana.
Ready… set… Earth! 🌎 As Artemis II flew around the far side of the Moon, the crew captured a new view of home. These images show Earthset, when Earth dips below the lunar horizon. Parts of Australia & Oceania are visible, while the dark side of Earth is experiencing nighttime. pic.twitter.com/gVgFwFQPgZ
Durante esse período sem comunicação, a espaçonave chegou à sua maior aproximação da Lua, a cerca de 6.546 km de altitude. Pouco depois, os astronautas atingiram o ponto mais distante da Terra em toda a missão: 406.771 km, a maior distância já percorrida por seres humanos.
Ao concluir a passagem pelo lado oculto da Lua, a tripulação pôde ver o Earthrise (o “nascer da Terra”), com o planeta ressurgindo no horizonte lunar – lembrando a cena da emblemática foto feita pela Apollo 8 há quase sete décadas. Nesse momento, a comunicação com o controle da missão foi restabelecida.
“Earthrise”, famosa foto tirada por William Anders, em 1968, mostrando a Terra “nascendo” na superfície lunar – Crédito: William Anders/NASA
Artemis 2 viu eclipse solar exclusivo
Para encerrar o dia mais importante da missão, sem contar o lançamento e o retorno à Terra, os astronautas da Artemis 2 tiveram a oportunidade de observar um eclipse solar total de uma perspectiva inédita. Eles foram as únicas quatro pessoas no mundo a testemunhar o fenômeno.
O eclipse não foi visível da Terra porque a posição do Sol, da Lua e do planeta não permitia. Do ponto de vista da Orion, a Lua cobriu totalmente o Sol, oferecendo à tripulação um espetáculo único e exclusivo.
O fenômeno começou por volta das 21h35. A Lua parecia enorme e bloqueava completamente o disco solar. Assim, os astronautas puderam observar a coroa solar, camada externa do Sol que normalmente não é visível por causa do brilho intenso da estrela.
Com duração de cerca de 53 minutos, o evento foi muito mais longo do que os eclipses totais vistos da Terra, que costumam levar menos de sete minutos. A equipe foi instruída a descrever detalhes da coroa solar, como formas, cores e variações de brilho. Essas observações vão ajudar cientistas a estudar melhor os processos do Sol.
A NASA estuda uma nova forma de apoiar a criação de estações espaciais comerciais para substituir a Estação Espacial Internacional (ISS). A mudança foi apresentada durante o evento Ignition, na terça-feira (24), quando a agência também revelou iniciativas para uma base lunar e uma missão de propulsão nuclear rumo a Marte em 2028.
Atualmente, a NASA financia empresas privadas no programa Destinos Comerciais em Órbita Terrestre Baixa (CLD, na sigla em inglês). Essas empresas recebem recursos iniciais para desenvolver suas estações e aguardam a segunda fase do programa, quando a agência poderia oferecer financiamento adicional antes de contratar serviços dessas futuras instalações.
Em resumo:
NASA propõe nova estratégia para estações espaciais comerciais;
Programa atual ainda não garante viabilidade econômica;
Agência considera comprar módulo central acoplado à ISS;
Módulo permitiria expansão gradual de estações comerciais privadas;
A meta é substituir a ISS até 2030 de forma segura.
Estação Espacial Orbital Reef, projeto da Blue Origin. Créditos: Sierra Space/Blue Origin
Desafios financeiros das estações espaciais comerciais
O objetivo do CLD era que a NASA fosse apenas mais um cliente, junto com outras agências e empresas. Mas o mercado ainda não se consolidou como esperado. Faltam estudos independentes que comprovem a viabilidade econômica de uma estação comercial sustentada apenas por apoio parcial da NASA.
“Há interesse de investidores, mas não existem dados independentes que confirmem a sustentabilidade econômica dessas estações”, disse Dana Weigel, gerente do programa da ISS. Segundo o site Spacenews, ela afirmou que o mercado não amadureceu no ritmo previsto: pesquisas indicam que ainda faltam cerca de 10 anos para atingir um cenário mais estável.
Outra preocupação é a capacidade das empresas em lidar com operações complexas de uma estação espacial. Amit Kshatriya, administrador associado da NASA, destacou que a indústria ainda não tem experiência nem recursos suficientes para gerenciar a logística exigida. Além disso, o orçamento da agência não permite apoiar duas estações simultaneamente.
“O caminho original é cheio de riscos”, afirmou Weigel. Por isso, a NASA estuda duas alternativas: continuar o programa CLD como está ou assumir um papel mais ativo no desenvolvimento de uma estação comercial.
Na segunda opção, a agência compraria um módulo central que seria acoplado à ISS. Ele forneceria serviços básicos como energia, propulsão, suporte à vida e portas de acoplamento para módulos comerciais adicionais. Mais tarde, todo o conjunto poderia se separar da ISS, formando uma estação independente, possivelmente levando alguns módulos da estação atual.
Segundo Weigel, um módulo central adquirido pela NASA funcionaria como base para expansão de módulos comerciais. Isso permitiria que a indústria amadurecesse e a demanda crescesse após a separação da ISS.
Conceito apresentado pela NASA em evento realizado na terça-feira (24) propõe que a agência adquira um módulo acoplado à ISS que poderia servir como núcleo de uma estação comercial. Créditos: NASA/Tradução Gemini
O projeto não é totalmente novo. Há dez anos, a NASA já ofereceu uma porta de acoplamento da ISS para módulos comerciais. Em 2020, a Axiom Space recebeu essa porta e planeja usá-la em seu módulo central para sua própria estação. Weigel enfatizou, porém, que o novo módulo central não será exclusivo de nenhum fornecedor, buscando atrair interesse amplo da indústria.
A agência pretende avançar rapidamente com essa alternativa. Dependendo do retorno da indústria a uma solicitação de informações, a NASA pode lançar uma minuta de pedido de propostas para o módulo central em poucos meses.
Ilustração artística da estação espacial que a empresa Axiom Space planeja instalar na órbita da Terra. Crédito: Axiom Space
Além disso, a NASA quer estimular a demanda comercial com mais missões privadas de astronautas à ISS. Atualmente há uma por ano, mas a ideia é subir para duas, permitindo que empresas vendam o assento reservado ao comandante da missão, incluindo a venda para a própria agência.
Mesmo com as mudanças, a NASA não pretende prolongar a vida da ISS indefinidamente. Os planos atuais preveem desativar a estação em 2030, embora um projeto de lei no Senado possa estender esse prazo até 2032. “Nossa missão é avançar para estações comerciais até 2030”, afirmou Weigel. “Não mudamos o objetivo, apenas a forma de chegar lá.”
O administrador da agência, Jared Isaacman, reforçou: “Ninguém defende manter a ISS para sempre. Queremos fazer a transição de forma correta, avaliando todas as opções agora.”
Com essa estratégia, a NASA busca garantir que a sucessão da ISS aconteça de forma segura, sustentável e economicamente viável, abrindo caminho para a expansão de estações espaciais de propriedade e operação comercial no futuro próximo.
Na última semana, a Netflix lançou a série “Emergência Radioativa”, que vem chamando a atenção do público e da crítica. Ambientada em Goiânia, Goiás, a produção acompanha médicos e físicos em uma corrida contra o tempo para conter um desastre radiológico e salvar vidas. A trama é inspirada no acidente real com o Césio-137, ocorrido em 1987, que chocou o Brasil. Todos os episódios foram disponibilizados na quarta-feira (18).
Logo no fim de semana de estreia, a série alcançou o Top 1 no Brasil e o Top 2 global, aparecendo ainda no Top 10 de diversos países, como Portugal. A popularidade gerou debates nas redes sociais, comparações com Chernobyl e discussões sobre a verossimilhança dos fatos, com críticos elogiando a direção e as atuações, mas questionando a fidelidade histórica.
Comparações no X entre “Emergência Radioativa” e “Chernobyl”. Créditos: Captura de tela/X
O ponto central da série é o acidente radiológico de Goiânia ocorrido em setembro de 1987. Um aparelho de radioterapia abandonado no Instituto Goiano de Radioterapia foi aberto de forma indevida. O equipamento continha uma cápsula de Césio-137 de alta radioatividade, que acabou sendo espalhada pela cidade, provocando contaminação em diversas pessoas.
Segundo a Secretaria de Saúde de Goiás, a cápsula tinha 50,9 TBq (1.375 Ci) de radioatividade e continha cloreto de césio, um composto altamente solúvel. O Césio-137 é um isótopo radioativo artificial com comportamento químico semelhante ao potássio. Ele pode se acumular em animais, plantas e, consequentemente, no corpo humano.
Escombros do Instituto Goiano de Radioterapia, localizado no Centro de Goiânia. Crédito: CRCN-CO/CNEN
Como o material radioativo contaminou a população
Após a violação do aparelho, pedaços do material radioativo se espalharam pelo ambiente em forma de pó azul brilhante. Esse pó acabou em casas, depósitos de ferro-velho e até distribuído entre parentes e amigos, que não sabiam do perigo. O interesse pelo chumbo presente no aparelho também contribuiu para a venda e a circulação do material.
O contato com o Césio-137 causou sintomas graves nas primeiras horas: náuseas, vômitos, diarreia, tontura e queimaduras. Algumas pessoas procuraram hospitais locais. A situação só foi identificada corretamente quando a esposa do dono do ferro-velho levou o material à Divisão de Vigilância Sanitária, que confirmou a radioatividade.
Sucata do aparelho de radiologia nas ruínas do Instituto Goiano de Radioterapia. Crédito: CRCN-CO/CNEN
As principais formas de exposição ao produto foram a inalação de partículas, ingestão de alimentos contaminados e irradiação externa. Segundo Luiz Antonio Andrade de Oliveira, professor do Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), elementos radioativos superpesados demoram décadas para se desintegrar, emitindo radiação continuamente.
No caso do Césio-137, a meia-vida é de cerca de 33 anos. Isso significa que uma amostra do elemento leva esse tempo para reduzir sua radioatividade à metade. “A recomendação principal é não manipular esse tipo de substâncias. Se houver contato com a pele, lavar abundantemente com água e sabão. Se inalado ou ingerido, a situação é mais complicada”, explicou Oliveira em entrevista ao Olhar Digital.
O professor detalha que, em acidentes como o de Goiânia, sinais visíveis – como o brilho azul do Césio – ajudam na identificação. Mas, na maioria das situações, a exposição passa despercebida. “Naquele caso, as pessoas que ingeriram o Césio em elevada concentração foram tratadas em hospitais com substâncias para tentar retirar o Césio-137 do organismo. Mesmo assim, muitas delas morreram.”
Ele compara o episódio brasileiro a um caso nos EUA, em 1995, quando um adolescente tentou montar um reator nuclear caseiro. “No caso do rapaz dos EUA, como ele lidava com pequenas quantidades de material radioativo, não se esperaria algo tão dramático. Em pequenas doses, os efeitos aparecem depois de muito tempo”.
Vista aérea do ferro-velho que comprou o material e repassou para outros depósitos, dando início à corrente de contaminação radioativa. Imagem: Yosikazu Maeda via Secretaria de Estado de Saúde de Goiás
Governo monitorou milhares de vítimas
Em Goiânia, no total, foram monitoradas 112.800 pessoas, das quais 249 apresentaram significativa contaminação interna e/ou externa, sendo que em 120 delas a contaminação era apenas em roupas e calçados, e as mesmas foram liberadas após a descontaminação.
As outras 129 passaram a receber acompanhamento médico regular. Destas, 79 com contaminação externa receberam tratamento ambulatorial; dos outros 50 radioacidentados com contaminação interna, 30 foram assistidos em albergues em semi-isolamento, e 20 foram encaminhados ao Hospital Geral de Goiânia. Destes últimos, 14 em estado grave foram transferidos para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, onde quatro deles foram a óbito, oito desenvolveram a Síndrome Aguda da Radiação (SAR), 14 apresentaram falência de medula óssea e um sofreu amputação do antebraço.
Medição de radioatividade na população. Imagem: Arquivo da Secretaria de Estado de Saúde de Goiás
No total, 28 pessoas desenvolveram em maior ou menor intensidade, a Síndrome Cutânea da Radiação (as lesões cutâneas também eram ditas “radiodermites”). Os casos de óbito ocorreram cerca de quatro a cinco semanas após a exposição ao material radioativo, devido a complicações esperadas da SAR – hemorragia (dois pacientes) e infecção generalizada (também dois pacientes).
Para realizar o monitoramento sobre os efeitos da exposição à radiação ionizante nas pessoas que foram vítimas do acidente, o governo goiano criou, em fevereiro de 1988, a Fundação Leide das Neves Ferreira. Foram definidos grupos de monitoramento dos pacientes, de acordo com normas internacionais, que consideram como critérios de classificação a gravidade das lesões cutâneas e a intensidade da contaminação interna e externa, e que determinou a metodologia dos protocolos de acompanhamento médico.
A avaliação da contaminação externa usou análises cromossômicas, enquanto a contaminação interna foi medida em excretas e com detectores próximos ao corpo. A técnica de contagem de corpo inteiro (monitoração in vivo) e análise de excretas (monitoração in vitro) permitiu estimar a dose de radiação recebida.
Descontaminação de áreas na Rua 57. Ao fundo, a entrada do Mercado Central de Goiânia. Crédito: CRCN-CO/CNEN
Desastre do Césio-137 transformou os protocolos de segurança
O acidente gerou 3.500 m³ de lixo radioativo, armazenado em contêineres de concreto. O repositório definitivo está em Abadia de Goiás, a 23 km de Goiânia, sob responsabilidade do Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste, da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). O local realiza monitoração e controle ambiental contínuo.
O episódio também deixou lições valiosas para a ciência e para a sociedade. Ele reforçou a necessidade de conhecer os riscos ao lidar com elementos radioativos, priorizando ética e responsabilidade. O aprendizado vai além da física ou química: envolve cuidado com a vida humana e a preservação do meio ambiente.
Em resumo, o acidente com o Césio-137 marcou Goiânia e o Brasil. Ele transformou protocolos de segurança, inspirou estudos científicos e permanece vivo na memória coletiva. “Emergência Radioativa” cumpre o papel de relembrar essa história, ao mesmo tempo em que educa e alerta sobre os perigos da radiação.
Um estudo publicado na revista Nature Astronomy relata que um buraco negro recém-formado foi lançado pelo espaço a cerca de 180 mil quilômetros por hora. Esta foi a primeira vez que cientistas conseguiram medir não só a velocidade, como também a direção desse movimento após a fusão que deu origem ao objeto.
O fenômeno foi identificado a partir do sinal chamado GW190412, gerado pela colisão entre dois buracos negros de massas diferentes. Esse tipo de evento produz ondas gravitacionais – ondulações no espaço-tempo que carregam informações detalhadas sobre a dinâmica da fusão.
Uma fusão de buracos negros gera ondas gravitacionais. Crédito: LIGO/T. Pyle
A pesquisa buscou responder a uma questão central: com que intensidade um buraco negro é “empurrado” após uma fusão e para onde ele segue. Esse impulso, conhecido como recuo, acontece porque as ondas gravitacionais são emitidas de forma desigual, criando uma espécie de desequilíbrio que lança o objeto na direção oposta.
O trabalho foi liderado por Juan Calderón-Bustillo, da Universidade de Santiago de Compostela. Segundo ele, é possível reconstruir essa trajetória analisando as características do sinal captado. Isso permite transformar dados complexos em um mapa tridimensional do movimento do buraco negro.
Para alcançar esse nível de detalhe, os cientistas analisaram componentes mais sutis das ondas gravitacionais, chamados de modos de ordem superior. Esses sinais adicionais variam conforme o ângulo de observação e ajudam a determinar como o objeto se desloca em relação à Terra.
Evento com massas diferentes amplia precisão das medições
De acordo com um comunicado, o evento GW190412 foi considerado especial porque envolveu buracos negros com massas muito diferentes. Essa assimetria intensificou os sinais mais fracos e forneceu as informações necessárias para calcular não apenas a velocidade, mas também a direção do movimento com maior precisão.
A velocidade estimada ultrapassa 50 quilômetros por segundo, valor suficiente para que o buraco negro escape de ambientes densos, como aglomerados globulares. Nesses locais, a gravidade costuma manter os objetos unidos, mas um impulso dessa magnitude pode expulsar o remanescente para o espaço.
Esse tipo de ejeção tem consequências importantes. Ao deixar seu ambiente de origem, o buraco negro pode deixar de participar de novas fusões naquele local, alterando a dinâmica de formação de sistemas mais massivos ao longo do tempo.
A direção do recuo também influencia os efeitos observáveis após o evento. Se o objeto atravessar regiões com grande quantidade de gás, pode gerar um brilho temporário. Em áreas mais vazias, esse fenômeno tende a ser muito mais discreto ou até imperceptível.
Buraco negro é lançado a 180 mil km/h após fusão, com velocidade e direção medidas pela primeira vez. Crédito: Imagem gerada por IA/ChatGPT
Pesquisadores projetam avanços em estudos de buraco negro
Os pesquisadores também analisaram a relação entre o movimento do buraco negro e o momento angular do sistema, que indica a orientação da órbita antes da fusão. Essa combinação de dados permite entender melhor a geometria do evento e transformar um sinal complexo em uma trajetória clara.
O avanço se baseia em anos de estudos que mostraram que esses impulsos não são apenas teóricos, mas podem ser medidos diretamente nas ondas gravitacionais. Trabalhos anteriores já indicavam como extrair essas informações, mas agora foi possível obter um retrato mais completo do fenômeno.
Desde a primeira detecção de ondas gravitacionais em 2015, esse campo da astronomia tem evoluído rapidamente. Cada novo evento registrado amplia a capacidade dos cientistas de entender colisões cósmicas e o comportamento dos objetos resultantes.
No futuro, os pesquisadores pretendem combinar dados de ondas gravitacionais com observações de luz para identificar possíveis sinais associados a esses recuos. Regiões como núcleos galácticos ativos, ricos em gás, são consideradas ideais para esse tipo de investigação.
Os resultados indicam que as ondas gravitacionais se tornaram ferramentas essenciais para mapear o universo. Elas permitem não apenas detectar fusões de buracos negros, mas também acompanhar como esses objetos se movem após eventos extremos.
Com a melhoria dos detectores e o aumento do número de observações, os cientistas esperam construir um mapa cada vez mais detalhado desses movimentos. Isso deve ajudar a esclarecer como buracos negros crescem, interagem e evoluem ao longo da história do cosmos.
Astrônomos identificaram pela primeira vez gelo seco – formado por dióxido de carbono congelado – em uma nebulosa planetária. A descoberta foi feita com observações do Telescópio Espacial James Webb (JWST), da NASA, considerado o observatório mais avançado da atualidade para estudar o Universo em luz infravermelha.
O objeto analisado foi a nebulosa NGC 6302, um sistema cósmico bastante complexo. Os resultados do estudo foram disponibilizados no repositório científico arXiv e ainda aguardam revisão por outros especialistas para publicação. Segundo os pesquisadores, esta é a primeira vez que gelo seco é detectado nesse tipo de estrutura espacial.
Em resumo:
James Webb detecta gelo seco na nebulosa planetária NGC 6302;
Conhecida como Nebulosa da Borboleta, a estrutura fica a 3.400 anos-luz da Terra;
Análise identificou dióxido de carbono congelado no anel de poeira;
Descoberta sugere regiões protegidas onde gelo pode sobreviver.
Localização do gelo de dióxido de carbono em NGC 6302 identificado pelo JWST. Crédito: NASA/ESA/CSA/STScI; Charmi Bhatt (Western University) et al.
Nebulosa da Borboleta apresenta química sofisticada
Nebulosas planetárias surgem quando estrelas semelhantes ao Sol chegam ao final de suas vidas. Nesse estágio, a estrela expulsa grandes quantidades de gás e poeira para o espaço, formando uma espécie de casulo em expansão. Embora não sejam muito comuns, esses objetos ajudam cientistas a entender melhor a composição do material presente entre as estrelas.
A NGC 6302 é conhecida popularmente como Nebulosa da Borboleta, devido ao formato de suas nuvens luminosas. Ela fica a cerca de 3.400 anos-luz da Terra, na constelação de Escorpião. A estrutura possui dois grandes lóbulos brilhantes e um denso anel de poeira no centro, chamado de toro, que divide a nebulosa ao meio.
A região central da Nebulosa da Borboleta e seu toro empoeirado, fotografados pelo James Webb, que consegue ver através de grande parte da poeira e revelar detalhes inéditos. Créditos: ESA/Webb/NASA & CSA/M. Matsuura/ALMA (ESO/NAOJ/NRAO)/ N. Hirano e M. Zamani (ESA/Webb)
Observações anteriores já indicavam que esse ambiente abriga uma química sofisticada. Estudos detectaram, por exemplo, a presença do cátion metil, uma molécula importante em reações químicas orgânicas. Também foram identificados hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, compostos ricos em carbono encontrados em diversos ambientes cósmicos.
Essas pistas levaram uma equipe liderada pela astrônoma Charmi Bhatt, da Universidade de Western Ontario (Canadá), a investigar mais profundamente a nebulosa. Para isso, os cientistas utilizaram o Instrumento de Infravermelho Médio (MIRI) do Webb, capaz de detectar sinais químicos invisíveis a telescópios comuns.
As análises revelaram marcas espectrais características do dióxido de carbono. Além do gás, os pesquisadores encontraram evidências claras da presença do mesmo composto na forma congelada, ou seja, gelo seco, localizado principalmente no toro de poeira que circunda a região central da nebulosa.
Em geral, nebulosas planetárias possuem intensa radiação ultravioleta emitida pela estrela central, um ambiente hostil para moléculas frágeis e para a formação de gelo. Por isso, encontrar gelo seco nesse cenário indica que existem regiões protegidas onde essas substâncias podem sobreviver.
Os pesquisadores também observaram que a relação entre dióxido de carbono em forma de gás e de gelo na nebulosa é diferente da encontrada em sistemas estelares jovens. Isso sugere que o gelo pode se formar ou ser transformado de maneiras distintas em estrelas que já estão em fases avançadas de evolução.
Os autores destacam que novas observações com alta resolução serão essenciais para entender melhor como esses gelos se formam e se preservam. Investigações futuras poderão revelar se esse tipo de química é comum em outras nebulosas planetárias espalhadas pela Via Láctea.
Duas picapes e um SUV de três marcas pertencentes ao grupo Stellantis entraram em recall no Brasil por risco de incêndio. A campanha envolve os modelos Fiat Toro (2025 e 2026), Jeep Commander (2025 e 2026) e Ram Rampage (2025).
Segundo a empresa, foi identificada uma possível falha na conexão da tubulação responsável pelo retorno do combustível. O defeito pode causar vazamentos em situações específicas. Caso o combustível entre em contato com partes quentes do veículo, existe a possibilidade de ignição. Em casos extremos, essa situação pode provocar incêndio.
Além dos modelos citados, três veículos comerciais também fazem parte do recall. São eles: Fiat Ducato, Citroën Jumper e Peugeot Boxer (todos do ano/modelo 2026) – carros bastante utilizados para transporte de cargas e passageiros.
Fiat Toro (2025 e 2026) é um dos veículos envolvidos na campanha de recall. Crédito: Divulgação/site oficial da Fiat
Tudo de retorno do combustível deve ser trocado
A orientação da Stellantis é que os proprietários procurem uma concessionária autorizada para agendar a verificação. O atendimento começa nesta segunda-feira (16). Caso seja identificado algum problema, o componente será substituído gratuitamente.
Ainda de acordo com a empresa, o reparo consiste na troca do tubo de retorno do combustível. O procedimento é simples e leva cerca de duas horas para ser concluído. Todo o serviço será realizado sem custo para os proprietários.
Não foi divulgado o número total de unidades afetadas pela campanha. Mesmo assim, é recomendado que os proprietários verifiquem a situação do veículo para evitar riscos.
O Peugeot e-208 (2020 a 2023), elétrico já fora de linha no Brasil, também entrou em recall por um defeito no funcionamento da buzina. Crédito: Stellantis
Outro modelo que entrou em recall foi o Peugeot e-208 (2020 e 2023), carro totalmente elétrico da marca (que já saiu de linha no Brasil). Nesse caso, o problema está relacionado ao funcionamento da buzina. Segundo a Stellantis, a buzina pode apresentar volume abaixo do mínimo exigido pelas normas de segurança. Isso significa que o alerta sonoro pode não ser ouvido com facilidade no trânsito.
Os donos desses veículos devem procurar uma concessionária para agendar a verificação. Se necessário, será feito um reparo gratuito no sistema da buzina. O serviço é rápido e deve levar aproximadamente uma hora para ser concluído.
Clique aqui e confira os comunicados de recall de cada modelo para verificar os intervalos de chassis dos veículos afetados na campanha.
Pesquisadores do Instituto Federal do Ceará (IFCE) investigam uma possível descoberta de petróleo no interior do estado. O caso ocorre no município de Tabuleiro do Norte, onde um agricultor encontrou um líquido escuro ao perfurar o solo em busca de água em novembro de 2024.
Diante da suspeita, técnicos da Agência Nacional do Petróleo (ANP) estiveram pela primeira vez no sítio onde a substância foi encontrada. A visita da equipe aconteceu na quinta-feira (12) e teve como objetivo examinar o local onde surgiu o material semelhante ao petróleo.
Em resumo:
Agricultor encontra líquido escuro ao cavar poço no Ceará;
Suspeita de petróleo leva técnicos da ANP ao local;
Profundidade de 40 metros surpreende especialistas da área;
Testes preliminares indicam semelhança com petróleo da região;
Análises futuras devem confirmar a origem e possível valor econômico.
Imagine encontrar petróleo no quintal da sua casa! Crédito: Imagem gerada por IA/ChatGPT
De acordo com os técnicos, o episódio causou surpresa porque o líquido apareceu a apenas 40 metros de profundidade. Para padrões da indústria petrolífera, trata-se de um poço considerado raso, já que explorações comerciais costumam atingir milhares de metros abaixo da superfície.
O dono da propriedade é o agricultor Sidrônio Moreira, de 63 anos. Ele decidiu perfurar poços no terreno porque enfrenta dificuldades para obter água encanada. A ideia era garantir abastecimento para a casa e para os animais criados na propriedade.
Durante a perfuração do primeiro poço, no entanto, em vez de água surgiu um líquido preto, espesso e com cheiro semelhante ao de combustível. A aparência levantou a suspeita de que poderia se tratar de petróleo ou algum tipo de hidrocarboneto.
Segundo o superintendente da ANP, Ildeson Prates Bastos, existe um fenômeno chamado exsudação, quando hidrocarbonetos chegam naturalmente à superfície. No entanto, ele explicou que esse não parece ser o caso registrado no sítio, pois o material surgiu após uma perfuração feita pelo agricultor.
Outro aspecto que despertou atenção dos especialistas foi a profundidade do poço. Na exploração de petróleo, as perfurações geralmente avançam por camadas muito mais profundas do subsolo até alcançar reservatórios onde o combustível fica acumulado.
A família decidiu comunicar o caso à ANP em julho de 2025 e passou a aguardar uma avaliação técnica.
Família de Sidrônio Moreira filmou a descoberta do possível petróleo na propriedade. Crédito: Reprodução Redes Sociais
Líquido possui características semelhantes às do petróleo
Durante a ida ao sítio, os técnicos da agência realizaram apenas uma inspeção visual do local e conversaram com os moradores. Nenhuma amostra foi coletada diretamente no poço nesse primeiro momento. Mesmo assim, os especialistas levaram uma amostra recolhida anteriormente por pesquisadores do IFCE, que acompanham o caso desde o início das investigações.
Testes preliminares feitos pelo instituto indicaram que o líquido possui características físico-químicas semelhantes às do petróleo encontrado em campos produtores do Rio Grande do Norte.
A propriedade fica em uma área ligada à Bacia Potiguar, região conhecida pela produção de petróleo entre Ceará e Rio Grande do Norte. Embora o município não faça parte de um bloco oficial de exploração, existem campos petrolíferos ativos nas proximidades.
Segundo especialistas, essa proximidade geológica aumenta a possibilidade de que o líquido seja realmente um hidrocarboneto. Ainda assim, apenas análises laboratoriais mais detalhadas poderão confirmar a origem da substância.
Enquanto os estudos continuam, a ANP orientou a família a isolar a área do poço e evitar contato com o material. A recomendação existe porque alguns hidrocarbonetos podem ser tóxicos. Além disso, o agricultor não deve abrir novos poços por enquanto. Perfurações inadequadas poderiam provocar vazamentos e até contaminar o lençol freático da região.
Apesar do espanto inicial, a ANP afirma que já recebeu relatos semelhantes em outras ocasiões. Em alguns casos, a presença de petróleo foi confirmada. Em outros, tratava-se apenas de pequenas acumulações sem valor comercial.
Caso a presença de petróleo seja confirmada, isso não significa que a área será explorada imediatamente. Primeiro será necessário avaliar o tamanho da jazida e se a extração seria economicamente viável.
Possível petróleo encontrado na propriedade do senhor Sidrônio Moreira em Tabuleiro do Norte, Ceará. Crédito: Instituto Federal do Ceará
Mesmo que a exploração ocorra no futuro, o agricultor não se tornará dono do petróleo encontrado em seu terreno. Pela legislação brasileira, os recursos minerais do subsolo pertencem à União. No entanto, o proprietário pode receber uma compensação financeira caso a produção comercial seja autorizada. Esse repasse pode chegar a até 1% do valor da produção, dependendo de diversos fatores técnicos.
Enquanto aguarda a conclusão das análises, a família continua enfrentando o problema que motivou a perfuração: a falta de água. A residência fica em uma área rural onde o abastecimento é irregular. Segundo familiares, o fornecimento por adutora nem sempre é suficiente para todo o mês. Por isso, muitas vezes é necessário comprar água transportada por caminhões-pipa.
A perfuração do primeiro poço custou cerca de R$15 mil, valor obtido por meio de empréstimo e economias da família. Mesmo após encontrar o líquido escuro, Moreira decidiu tentar novamente. Ele mandou perfurar um segundo poço, mais raso, mas também não encontrou água. Desde então, a família aguarda orientações das autoridades sobre como proceder.
Nos próximos meses, a ANP deve realizar análises mais detalhadas para identificar a composição do líquido e avaliar o potencial da área. Somente após esses estudos será possível confirmar se a substância encontrada é realmente petróleo.
Dando início à “turnê mensal” de março pelos planetas do Sistema Solar, a Lua visita Mercúrio, Marte e Vênus esta semana. E os dois primeiros encontros serão no mesmo dia – e às escondidas!
Essas movimentações são as chamadas conjunções – quando dois ou mais astros compartilham a mesma ascensão reta (coordenada astronômica equivalente à longitude terrestre).
Tudo começa na manhã de terça-feira (17). De acordo com o guia de observação astronômicaInTheSky.org, às 11h07 (pelo horário de Brasília), a Lua se aproxima de Mercúrio. Como eles vão atingir o ponto mais alto no céu durante o dia e não estarão a mais de 8° acima do horizonte ao amanhecer, esse encontro não será observável.
Configuração do céu no dia da conjunção entre a Lua, Mercúrio e Marte. Crédito: Solar System Scope
O mesmo acontece em relação ao “date” da noite. A Lua passa por Marte às 18h52, momento em que o par estará abaixo da linha do horizonte, portanto, inacessível. Eles atingem o ponto mais alto no céu à luz do dia, o que impede a observação.
Embora a conjunção com Vênus, na sexta-feira (20), também seja impossível de assistir, devido à posição dos corpos envolvidos (abaixo do horizonte), o par pode ser observado ainda bem próximo no fim de tarde – ainda que não seja uma tarefa fácil.
Isso porque eles se tornam visíveis a partir das 18h26, do lado oposto ao pôr do Sol, mas muito baixos no céu (apenas cerca de 8º acima do horizonte oeste). A Lua estará com magnitude -8,9 e Vênus com -3,9, estando ambos na constelação de Peixes. Quanto mais brilhante um objeto parece, menor é o valor de sua magnitude (relação inversa). O Sol, por exemplo, que é o corpo mais brilhante do céu, tem magnitude aparente de -27.
Registrada em 7 de outubro de 2007, esta imagem do céu antes do amanhecer mostra Vênus no canto superior direito, ao lado da Lua crescente. Crédito: Jay Ouellet via APOD NASA
O último planeta a receber a visita da Lua em março é Júpiter, no dia 26. No mês que vem, ela se encontra com Mercúrio e Marte novamente no mesmo dia (15), Saturno (16), Vênus (19) e Júpiter (22). Essa série de conjunções que a Lua faz mensalmente ocorre porque ela orbita a Terra aproximadamente no mesmo plano em que os planetas orbitam o Sol, chamado plano da eclíptica.
Uma colaboração internacional entre pesquisadores de 10 universidades descobriu a estrela GDR3_526285, relatada em um artigo publicado no ano passado no periódico científico The Astrophysical Journal Letters. Trata-se de um “fóssil” de 13 bilhões de anos que coloca em xeque as atuais hipóteses sobre a formação dos primeiros objetos do Universo.
Localizada na periferia da Via Láctea, a 80 mil anos-luz da Terra, essa estrela possui uma das menores quantidades de metais (elementos além do hidrogênio e hélio) já observadas, sendo uma descendente direta dos astros que surgiram logo após o Big Bang.
Com menos de 1/50.000 (ou 0,002%) da concentração de metais do Sol, GDR3_526285 é tão pobre em elementos pesados que os pesquisadores sequer conseguiram detectar o carbono em sua composição.
Descoberta foi liderada por brasileiro
Liderada pelo brasileiro Guilherme Limberg, graduado e doutorado pelo Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP) e atual pesquisador de pós-doutorado no Instituto de Cosmologia Física da Universidade de Chicago, nos EUA, a descoberta prova que estrelas podem se formar com quase nenhum metal. Isso significa que existe um mecanismo físico de resfriamento de gases ainda não identificado que possibilita sua criação.
Guilherme Limberg, que já participou do Olhar Espacial, é o convidado do programa desta sexta-feira (13). Crédito: Olhar Digital
A equipe sugere que o fenômeno ocorre pelo “dust cooling“: o resfriamento de nuvens gasosas através de trocas térmicas com grãos de poeira, o que permitiria a produção de estrelas mesmo com baixa metalicidade.
Quer saber mais sobre esse e outros “fósseis” do Universo primordial? Então, não perca o Programa Olhar Espacial desta sexta-feira (13), que tem a honra de receber Limberg para um bate-papo sobre essa descoberta incrível.
Como assistir ao Programa Olhar Espacial
Apresentado por Marcelo Zurita, presidente da Associação Paraibana de Astronomia – APA; membro da SAB – Sociedade Astronômica Brasileira; diretor técnico da Bramon e coordenador nacional do Asteroid Day Brasil, o programa é transmitido ao vivo, todas às sextas-feiras, às 21h (horário de Brasília), pelos canais oficiais do veículo no YouTube, Facebook, Instagram, X (antigo Twitter), LinkedIn e TikTok.
Pesquisadores descobriram que compostos de enxofre derivados do alho podem afetar diretamente o processo de envelhecimento. Um estudo publicado na revista Cell Metabolism relata que camundongos machos que receberam esses compostos viveram mais e mantiveram força, memória e controle da glicose por mais tempo.
A pesquisa sugere que alimentos comuns podem conter sinais biológicos capazes de modular como o corpo envelhece.
No fígado dos animais, os efeitos apareceram primeiro: menos gordura acumulada e respostas à insulina mais eficientes. No Centro Andaluz de Biologia Molecular e Medicina Regenerativa em Sevilha (CABIMER), na Espanha, Alejandro Martín-Montalvo identificou que os compostos do alho ativam sinais de enxofre nas células. Isso não só prolongou a vida, mas também manteve os animais ativos, fortes e com memória preservada.
Será que consumir alho faz envelhecer mais devagar? Não é bem por aí. Crédito: New Africa – Shutterstock
Embora os resultados sejam promissores, eles ainda vêm de estudos com ratos. Mesmo assim, a manutenção de funções físicas e cognitivas torna difícil considerar a descoberta apenas uma curiosidade de laboratório.
Compostos de alho melhoram saúde celular
O alho libera moléculas de enxofre quando cortado ou mastigado. Duas dessas moléculas se destacam por gerar sulfeto de hidrogênio, um gás sinalizador natural do corpo. Nos ratos, ele protegeu células de danos e ajustou vias relacionadas ao metabolismo energético. Como humanos possuem sistema de sinalização parecido, o mecanismo parece relevante, mas a dosagem segura ainda é incerta.
Mais importante do que prolongar a vida é manter a qualidade dela. Chamado de “expectativa de saúde”, esse conceito mostra que os animais que receberam os compostos desde 20 semanas de idade viveram em média 877 dias, contra 787 dias dos ratos do grupo de controle. Ou seja, 11,4% a mais de vida, com preservação de movimento, memória e controle da glicose.
O efeito sobre a glicose foi rápido: os ratos mostraram respostas mais eficientes à insulina e picos menores de açúcar após testes. Com o tempo, precisaram de menos insulina para manter níveis estáveis, indicando maior sensibilidade celular. Isso é importante, já que o envelhecimento tende a gerar resistência à insulina.
A suplementação com compostos de alho (DAD/DAT) promove a longevidade e melhora a saúde metabólica através da persulfidação de proteínas mediada pelo sulfeto de hidrogênio (H₂S). O estudo demonstra benefícios significativos em camundongos e humanos, incluindo melhor função neurocognitiva, redução da fragilidade e controle lipídico aprimorado. Crédito: Silva, A.M., et al.
No fígado, as gotículas de gordura diminuíram de tamanho, facilitando sua queima pelas células. Mesmo em dietas ricas em gordura, os compostos do alho impediram acúmulos prejudiciais. Em vez de apenas reduzir peso corporal, eles remodelaram a gordura, protegendo órgãos antes que surgissem danos visíveis.
Dentro das células, os compostos alteraram a persulfidação, um marcador de enxofre que modifica proteínas, e reduziram a atividade de vias associadas ao envelhecimento acelerado. Tecidos hepáticos mostraram menos inflamação, um fenômeno conhecido como meta-inflamação, ligado a problemas metabólicos.
A equipe também analisou amostras de sangue de 288 pessoas com doenças crônicas. Níveis mais altos de proteínas ligadas ao enxofre estavam associados a maior força de preensão e menores triglicerídeos. O estudo não prova causa e efeito, mas a semelhança entre humanos e ratos reforça a relevância biológica da pesquisa.
Apesar do entusiasmo, existem limitações claras. Apenas ratos machos foram testados; fêmeas podem reagir de maneira diferente. Exames pós-morte mostraram aumento em casos de câncer de fígado, possivelmente por maior tempo de vida, já que animais mais velhos têm mais chance de desenvolver tumores. Isso impede qualquer recomendação direta de suplementos.
Martín-Montalvo alerta que o alho de cozinha comum não substitui os compostos usados no estudo, que foram purificados e administrados em dietas controladas. Ele ressalta que mais pesquisas são necessárias em humanos e modelos animais antes que qualquer recomendação seja segura. Hoje, mais da metade dos idosos não tem qualidade de vida ideal, e compreender esses mecanismos é um passo importante.
O que emerge é um panorama do envelhecimento influenciado por metabolismo, inflamação e sinalização celular. Estudos futuros devem definir doses seguras, incluir mulheres e confirmar se efeitos similares podem ser obtidos em humanos. A pesquisa abre caminho para uma abordagem mais ampla de como retardar o envelhecimento sem comprometer a saúde e o bem-estar.
Um satélite da NASA deve cair na Terra nesta terça-feira (10), após quase 14 anos em órbita. A espaçonave é a Van Allen Probe A, que pesa cerca de 600 kg. Ela foi lançada em agosto de 2012 ao lado de sua “irmã gêmea”, Van Allen Probe B, em uma missão científica voltada ao estudo dos cinturões de radiação que cercam o planeta.
Essas regiões, conhecidas como cinturões de Van Allen, concentram partículas energéticas presas pelo campo magnético da Terra. Elas são influenciadas pela atividade do Sol e podem afetar satélites, astronautas e sistemas tecnológicos usados no dia a dia, como comunicações, navegação e redes elétricas.
Em resumo:
Satélite Van Allen Probe A deve cair na Terra esta noite;
Missão estudou cinturões de radiação ao redor do planeta;
As duas sondas (A e B) superaram a duração prevista da missão;
Reentrada na atmosfera destruirá quase toda a espaçonave;
Risco de destroços atingirem pessoas é extremamente baixo.
Representação artística das sondas Van Allen nos cinturões de radiação da Terra. Crédito: NASA/Goddard
Sobre a missão Van Allen Probe
As duas sondas foram desativadas em 2019, após cumprirem seus objetivos científicos. Mas, mesmo inoperantes, continuaram orbitando o planeta. Segundo a Força Espacial dos Estados Unidos, a reentrada na atmosfera terrestre da Van Allen Probe A está prevista para ocorrer por volta das 20h45 de segunda-feira (9), no horário de Brasília, com margem de erro de até 24 horas.
Durante a descida, a maior parte da espaçonave deve se desintegrar ao atravessar a atmosfera. O atrito com o ar provoca temperaturas extremamente altas, capazes de destruir grande parte da estrutura do satélite. Ainda assim, alguns fragmentos podem sobreviver à reentrada.
Crédito: NASA / Goddard Space Flight Center Scientific Visualization Studio
NASA garante: risco de alguém ser atingido por satélite é mínimo
Felizmente, o risco para a população é considerado muito baixo. De acordo com a NASA, a chance de alguém ser atingido por destroços é de aproximadamente 1 em 4.200. Esse cálculo leva em conta que cerca de 70% da superfície da Terra é coberta por oceanos. Por isso, a maior probabilidade é que eventuais fragmentos caiam no mar ou em regiões remotas e pouco habitadas.
A missão das sondas Van Allen deveria durar apenas dois anos, mas os equipamentos continuaram funcionando por muito mais tempo. A sonda B operou até julho de 2019, enquanto a sonda A seguiu ativa até outubro daquele ano.
Mesmo após o fim das operações, os dados coletados continuam sendo analisados por cientistas. As informações ajudam pesquisadores a compreender melhor o clima espacial e seus efeitos sobre satélites e tecnologias usadas na Terra.
Neste domingo, 8 de março, é celebrado o Dia Internacional da Mulher. Vale destacar também que, em 11 de fevereiro, foi comemorado o Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência. As duas datas, próximas no calendário, reforçam um debate que vai além das homenagens: como se constroem, na prática, as trajetórias de meninas e mulheres que escolhem a ciência?
Tradicionalmente, essa época do ano é marcada por balanços estatísticos que tentam traduzir a presença feminina em gráficos de barras e tabelas de produtividade. Pergunta-se, com frequência: quantas mulheres estão na graduação? Quantas chegam ao doutorado? Quantas, enfim, ocupam as cadeiras de liderança em universidades e centros de pesquisa de prestígio?
No Brasil, as mulheres já são maioria na graduação e na pós-graduação, mas sua presença diminui significativamente nos níveis mais altos da carreira acadêmica. Crédito: Imagem gerada por IA/Gemini
Embora esses números sejam bússolas fundamentais para embasar políticas públicas e revelar desigualdades persistentes, eles são silenciosos sobre o “como” – registram a chegada ou a desistência, mas raramente explicam o percurso sinuoso e os obstáculos que não aparecem nos editais.
Como destaca Fernanda Staniscuaski, docente e pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a presença feminina na ciência costuma ser tratada quase exclusivamente como uma questão de volume. A solução mais citada nos fóruns acadêmicos é ampliar o acesso e garantir a representatividade. No entanto, focar apenas na quantidade simplifica um problema que envolve estruturas muito mais profundas e subjetivas.
“Quando observamos com atenção as experiências concretas de mulheres e meninas na ciência, o que aparece não é apenas uma questão de quantidade, mas de forma”, explica Fernanda. Para ela, é preciso analisar como essas mulheres são recebidas, avaliadas e, principalmente, reconhecidas. O sentimento de pertencimento, por exemplo, é o combustível invisível que influencia a decisão de continuar ou abandonar a carreira.
Cientista é profissão “de homem”?
O acesso à ciência nunca foi um terreno plano. As desigualdades educacionais, econômicas e regionais começam a desenhar o destino das cientistas ainda na infância. Nem todas as estudantes têm o privilégio de tocar em um microscópio, visitar feiras científicas ou ter professores que alimentem sua curiosidade contra a maré das expectativas sociais. O peso do que é considerado “profissão de homem” ou “profissão de mulher” ainda atua como um filtro primário, moldando escolhas antes mesmo do primeiro vestibular.
Essa realidade é sentida de forma nítida por quem percorre o interior do Brasil. Amanda Tosi, mestre e doutora em geologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e integrante do grupo “As Meteoríticas”, relata que, em suas palestras pelo país, a barreira cultural ainda é o primeiro grande muro. “As mulheres, fora das grandes cidades, ainda são educadas e direcionadas para serem donas de casa. Além disso, vi em algumas escolas adolescentes, quase que crianças ainda, levando seus filhos para as aulas. Para mim, uma realidade ainda chocante”, desabafa a geóloga.
A pesquisadora Amanda Tosi, doutora em geologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e especialista em meteoritos, acredita que uma trajetória justa para mulheres na ciência só será possível quando a base mudar. Crédito: Arquivo pessoal
Ela acredita que uma trajetória justa só será possível quando a base mudar: “Enquanto mulheres tiverem essa ‘obrigação’ na sociedade, e se tiver tempo, poderem fazer uma graduação e seguir uma carreira, elas nunca terão trajetórias justas e sustentáveis”.
Mesmo para quem consegue furar essa bolha inicial, o caminho não se torna mais fácil. No Brasil, embora as mulheres já sejam maioria na graduação e na pós-graduação, essa presença sofre uma erosão severa conforme sobe a hierarquia acadêmica. É o que os especialistas chamam de “efeito tesoura”: a participação feminina diminui drasticamente nos níveis de liderança e em áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).
Para Lorrane Olivlet, engenheira biomédica e mestranda em medicina e saúde pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), além de divulgadora científica dedicada à astronomia e ao setor espacial, existe um abismo entre o diploma e a cadeira de decisão. “Há uma diferença clara entre acesso à formação e acesso ao poder de decisão. É estatístico que muitas mulheres se formam nessas áreas, mas poucas irão ocupar um cargo de liderança ou diretoria”. Ela descreve esse fenômeno como um “filtro invisível” que ignora a alta qualificação técnica em prol de preconceitos enraizados no setor espacial e na engenharia.
Estruturas acadêmicas impõem regras invisíveis
A carreira acadêmica é uma maratona de obstáculos baseada em avaliações constantes. Publicações, projetos aprovados e metas de produtividade funcionam como peneiras sucessivas. Fernanda ressalta que as dificuldades são muitas vezes sutis, mas acumulativas. A sobrecarga de tarefas administrativas, a menor visibilidade em projetos de peso e a necessidade constante de “provar” competência geram um desgaste que os colegas homens raramente experimentam.
Lorrane Olivlet reforça o assédio que as mulheres cientistas sofrem tanto nos ambientes reais quanto virtuais. Crédito: Arquivo pessoal
Maria Elisabeth Zucolotto, mestre em geologia e doutora em engenharia de materiais pela UFRJ e uma das maiores autoridades em meteoritos no país, viveu décadas enfrentando essas regras que parecem mudar de acordo com quem joga. Ela recorda que, logo após a formação, a maternidade e as pressões domésticas a deixaram para trás em relação aos colegas que seguiram direto para o mestrado.
Mas os obstáculos eram também institucionais. “Meu orientador não quis [me contratar] porque eu ‘não precisava’, já que meu marido ganhava bem”, conta Elisabeth, revelando como a autonomia financeira feminina era vista como um acessório, e não um direito profissional.
A desvalorização intelectual é outra faceta desse jogo desigual. Ela relata um episódio emblemático de quando começou a trabalhar com uma técnica inovadora chamada Difração de Elétrons Retroespalhados (EBSD, na sigla em inglês).
Após apresentar um trabalho, Elizabeth foi desencorajada por órgãos de fomento com o argumento de que “não sabia nada do que estava sendo tratado”. Anos depois, um cientista alemão escreveu sobre o mesmo tema e foi aclamado, tornando-se a única referência citada, inclusive por brasileiros. “Não sei se isso acontece por eu ser brasileira, por eu ser mulher, ou por ambos”, reflete a pesquisadora, expondo a ferida da invisibilidade que atinge mulheres cientistas no Sul Global.
Essas barreiras de credibilidade muitas vezes surgem como ataques diretos à capacidade de conciliar a vida pessoal com a intelectual. Josina Nascimento, astrônoma do Observatório Nacional (ON) há mais de 45 anos e atual gestora da Divisão de Comunicação e Popularização da Ciência (DICOP), recorda um momento tenso durante sua entrevista de mestrado. “Um dos professores me perguntou: ‘como é que você pode pensar em fazer um mestrado aqui tendo quatro filhos?’. Eu respondi que, caso achassem impossível, eu faria as matérias como ouvinte para provar que daria conta”. Josina obteve grau máximo em quase todas as disciplinas, apesar das tentativas de reprovação por parte do docente que havia posto sua capacidade em dúvida.
Rosaly Lopes, cientista sênior da NASA e vice-diretora no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), traz uma perspectiva diferente, mas que reforça a importância do suporte. Embora afirme não ter sofrido grandes obstáculos diretos por ser mulher, creditando isso à sua postura de “seguir em frente” e ao apoio de mentores homens, ela admite que a descrença alheia era a norma quando era jovem. “As barreiras eram muito maiores quando eu era menina e o pessoal não acreditava que eu ia ser uma astrônoma ou uma cientista. Talvez por teimosia, eu não prestei muita atenção nisso”, conta.
Mulheres e a eterna balança entre carreira e maternidade
Como vemos, um dos pontos de inflexão mais críticos na carreira de uma pesquisadora é a parentalidade. O modelo dominante de excelência científica valoriza a disponibilidade contínua e a produção sem hiatos. Nesse sistema, qualquer pausa é vista como perda de fôlego ou falta de comprometimento.
Maria Elizabeth Zucolotto com um grupo de estudantes em uma aula sobre meteoritos, assunto do qual ela é referência mundial. Créditos: Panmela Oliveira/Dcom/Fapemig
Estudos do movimento Parent in Science mostram que a maternidade é um ponto de inflexão importante na trajetória de pesquisadoras. Após o nascimento dos filhos, é comum ocorrer queda temporária na produtividade, o que entra em choque com um sistema que raramente ajusta prazos e expectativas.
Amanda resume o dilema: “Fazer ciência não é fácil, pois demanda tempo, dedicação, estudo constante… da mesma maneira é a maternidade. Então, fazer ciência e ser mãe presente, acredito ser um dos maiores desafios da mulher”.
Já Elisabeth sentiu o peso do tempo no currículo. Ela levou cerca de 15 anos para concluir o ciclo até o doutorado devido aos cuidados com os filhos. Quando finalmente terminou, as bolsas para recém-doutores eram voltadas para quem havia feito uma trajetória linear e rápida. “Eu não tive acesso porque as bolsas eram direcionadas a quem concluía da graduação ao doutorado em poucos anos”, explica.
Josina reforça que essa sobrecarga é física e estrutural. “O timão da família está nas mãos das mulheres. Para conseguir conciliar tudo, passei muitos anos dormindo zero ou, no máximo, duas horas por noite. Somente assim pude me dedicar ao Observatório Nacional, à carreira científica e ao mestrado e doutorado sendo mãe dedicada”, revela. Para ela, a mudança mais urgente é que os cuidados com a família sejam oficialmente levados em conta em todas as instâncias da ciência. “Naquela época, eu não podia pedir prazo para cuidar de um filho com bronquite. Não tinha chance”.
Essa “punição” pelo tempo dedicado ao cuidado mostra que a ciência, embora busque a verdade universal, ainda ignora a biologia e a dinâmica social das mulheres. Recentemente, medidas como a inclusão da licença-maternidade no currículo Lattes e a extensão de prazos em editais surgiram como avanços. No entanto, Fernanda adverte que muitas dessas ações ainda são pontuais e não alteram o cerne do que é considerado “excelência”.
A astrônoma Josina Nascimento, do Observatório Nacional, enfrentou dúvidas sobre sua capacidade de fazer mestrado por ter quatro filhos. Crédito: Arquivo pessoal
Ambiente digital amplia ataques contra cientistas mulheres
Para a nova geração de cientistas, os conflitos ganharam novas arenas, como o ambiente digital. Lorrane, que atua fortemente na divulgação científica, relata que o simples ato de exaltar o protagonismo feminino gera reações agressivas. “Produzi uma série de vídeos sobre ‘invenções femininas’ e recebi bastante hate e muitos comentários tentando invalidar os dados. Isso revela como ainda existe resistência quando o protagonismo feminino na ciência é evidenciado”, afirma.
Além do assédio virtual, ela aponta para a persistência de problemas graves nos corredores das universidades, como o assédio moral e sexual. “Quase todas as mulheres cientistas com quem eu já conversei tiveram problemas relacionados a assédio nas universidades”, diz a especialista, enfatizando que a segurança física e psicológica é um pré-requisito para qualquer trajetória sustentável. Ela conecta o debate de gênero na ciência a uma questão ainda mais urgente: a luta contra o feminicídio e a violência estrutural, que são a face mais cruel da desvalorização da mulher na sociedade.
Referências femininas inspiram novas gerações na ciência
A trajetória de mulheres na ciência não se faz apenas de resiliência, mas de uma persistente ocupação de territórios historicamente hostis. A presença de modelos femininos atua como um corretor de rota, permitindo que novas pesquisadoras projetem suas carreiras em horizontes que a cultura e a estrutura acadêmica, por vezes, tentam interditar. Para as entrevistadas, as vozes que as antecederam não são apenas nomes em livros, mas faróis que validam suas próprias ambições.
Na visão de Elisabeth, o pilar de sustentação é Marie Curie, que desafiou a proibição do ensino superior para mulheres na Polônia e acabou por revolucionar a física e a química modernas. A “meteorítica” vê na polonesa a personificação da resiliência acadêmica: “O que faz dela um exemplo tão forte é a combinação de impacto científico e barreiras sociais. Ela não só venceu: ajudou a mudar as regras do jogo para mulheres na ciência”.
Para Rosaly, o divisor de águas foi o impacto visual da representatividade. Ao deparar-se com um registro de Frances “Poppy” Northcutt, a única mulher a atuar na sala de controle da missão Apollo, ela entendeu que aquele ambiente, até então estritamente masculino, também era um lugar possível para si. “Aquilo me inspirou muito. Eu pensei: se ela conseguiu, eu também vou conseguir”, recorda, evidenciando como a imagem de uma pioneira em um centro de comando foi o estopim para sua própria carreira sênior na NASA.
Essa influência atravessa gerações e se manifesta até nas decisões mais íntimas. Amanda encontrou em Valentina Tereshkova, a primeira mulher a orbitar a Terra em voo solo, a coragem necessária para desbravar a geologia e o estudo de meteoritos. A admiração pela cosmonauta foi tamanha que ela batizou a própria filha em sua homenagem, vendo na russa um símbolo de capacidade técnica e ousadia: “Ela é a prova de que todas as mulheres podem ser o que elas desejarem, inclusive astronautas”.
Ao ver a foto da única mulher na sala de controle das missões Apollo, Rosaly Lopes percebeu que aquele espaço também poderia ser seu – inspiração que ajudou a impulsionar sua trajetória até se tornar cientista sênior da NASA. Crédito: Arquivo Pessoal
O reconhecimento também se volta para quem abre portas no presente. Josina destaca o trabalho de Patricia Spinelli, pesquisadora do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST), que conduz o Programa Meninas da instituição. “Ela tem feito muito pela ciência e pela popularização da ciência com resultados maravilhosos”.
Lorrane também busca inspiração em rostos conhecidos no dia a dia da pesquisa. Ela credita sua trajetória ao suporte de mulheres como Paola Barros Delben, uma das primeiras cientistas antárticas que conheceu, e Alessandra Abe Pacini, que validou seus primeiros passos na divulgação científica. “Foi uma das primeiras que acreditou no meu trabalho e me mostrou possibilidades na área”.
Rompendo barreiras e fazendo a ciência acontecer
Barreiras históricas, culturais e institucionais ainda ditam os rumos que as mulheres percorrem, exigindo resiliência e estratégias de suporte contínuo. A maternidade, o assédio estrutural e a invisibilidade profissional não são apenas obstáculos individuais, mas reflexos de um sistema que ainda precisa se adaptar para reconhecer talentos independentemente de gênero. Ao analisar essas estruturas, fica evidente que políticas públicas e iniciativas institucionais devem ir além de números e metas: é necessário revolucionar a forma como a ciência recebe, avalia e valoriza quem a ela se dedica.
Ao mesmo tempo, as histórias de Amanda, Elisabeth, Josina, Lorrane e Rosaly mostram que inspiração, redes de apoio e modelos de referência podem fazer toda a diferença. Cada exemplo de superação evidencia que é possível conquistar espaços historicamente hostis e construir trajetórias sólidas e significativas.
Mais do que apenas reconhecer o passado, celebrar essas conquistas é abrir portas para que novas gerações de meninas e mulheres se sintam confiantes para sonhar alto, dedicar-se à pesquisa e transformar a ciência. Quando todos – e todas – têm espaço para criar, descobrir e liderar, o conhecimento avança de verdade. Cada mulher que segue em frente inspira e fortalece outras ao seu redor, mostrando que a mudança já está acontecendo e que o futuro da ciência será mais justo e plural.
Um estudo publicado esta semana na revista Nature Communications descreve um sistema estelar extremamente incomum formado por quatro estrelas organizadas em uma estrutura rara conhecida como configuração 3+1.
Nesse tipo de arranjo, três estrelas permanecem próximas umas das outras, enquanto uma quarta orbita o grupo completo. Astrônomos identificaram agora a versão mais compacta já observada desse tipo de sistema, um achado que ajuda a compreender melhor como sistemas múltiplos se formam e evoluem no Universo.
Em resumo:
Estudo revela raro sistema estelar quádruplo em configuração 3+1;
Três estrelas são mais próximas, e uma quarta orbita todo o grupo;
Sistema TIC 120362137 foi detectado pelo satélite TESS;
É o sistema quádruplo mais compacto já identificado;
Sistema estelar 3+1 foi detectado por caçador de exoplanetas da NASA
Denominado TIC 120362137, o sistema foi detectado pelo Satélite de Pesquisa de Exoplanetas por Trânsito (TESS), da NASA, missão dedicada principalmente à busca de exoplanetas. As três estrelas centrais ocupam uma região muito pequena do espaço, equivalente aproximadamente à órbita de Mercúrio ao redor do Sol. Já a quarta estrela gira em torno desse trio a uma distância um pouco menor que a órbita de Júpiter no Sistema Solar.
Sistemas formados por vários corpos de massas semelhantes costumam ser gravitacionalmente instáveis, o que torna descobertas como essa especialmente valiosas. Segundo os pesquisadores, trata-se do sistema quádruplo mais compacto já identificado com essa organização hierárquica. Além disso, os cientistas conseguiram separar as assinaturas de luz (chamadas linhas espectrais) de cada uma das quatro estrelas, algo raro em sistemas tão complexos.
Com essas informações, os astrônomos puderam estudar cada estrela individualmente. Isso permitiu estimar propriedades importantes como massa, raio, temperatura, idade e o tempo que cada uma leva para completar uma órbita. O par mais interno, por exemplo, gira uma em torno da outra a cada 3,28 dias. Uma dessas estrelas possui cerca de 75% da massa do Sol, enquanto a outra tem aproximadamente 36%.
Esse par interno é orbitado por uma terceira estrela um pouco maior, com cerca de 48% da massa solar, que completa sua volta a cada 51,3 dias. Já a quarta estrela, com massa muito próxima à do Sol, orbita o trio inteiro em um período de cerca de 1.045 dias. Apesar das distâncias relativamente pequenas entre os astros, o sistema demonstrou ser surpreendentemente estável.
Ilustração da arquitetura e das dimensões físicas reais do sistema estelar quádruplo compacto TIC 120362137. Crédito: Borkovits, T., Rappaport, SA, Chen, HL. et al.
Para entender melhor esse equilíbrio, os pesquisadores também realizaram simulações computacionais que projetam o futuro do sistema. Os cálculos indicam que, quando as estrelas evoluírem e passarem pela fase de gigante vermelha, elas perderão grande quantidade de massa. Nesse processo, as três estrelas internas provavelmente acabarão se fundindo e formando uma única anã branca.
Esse estágio final, no entanto, ainda está muito distante no tempo. Os cientistas estimam que a transformação completa do sistema levará cerca de 9,4 bilhões de anos. Quando isso ocorrer, o resultado deverá ser um par de anãs brancas orbitando uma à outra com um período aproximado de 44 dias.
Segundo os pesquisadores, sistemas binários de anãs brancas observados hoje podem ter se originado de estruturas muito mais complexas no passado, como esse raro arranjo quádruplo. Entretanto, após bilhões de anos de evolução estelar, quase não restariam pistas de que esses sistemas já foram parte de configurações tão exóticas quanto o recém-descoberto TIC 120362137.
Após 25 meses de atividade no espaço, a missão SpIRIT, da Austrália, foi oficialmente encerrada. O projeto marcou um avanço importante para o setor espacial do país. Liderado pela Universidade de Melbourne, em parceria com a Agência Espacial Italiana (ASI), o nanossatélite superou a expectativa inicial de operação, prevista para dois anos.
Pequeno, do tamanho de uma caixa de sapatos, e pesando 11,5 kg, o SpIRIT completou cerca de 16 mil voltas ao redor da Terra. Ao longo desse período, percorreu algo em torno de 690 milhões de quilômetros – o que é comparável à distância entre a Terra e Júpiter. O satélite enviou mais de 400 imagens ao planeta e registrou centenas de outras para pesquisas realizadas a bordo.
Representação artística do satélite SpIRIT, da Austrália, que percorreu 690 milhões de km ao redor da Terra antes de se aposentar. Crédito: Universidade de Melbourne
Em resumo:
Missão SpIRIT se encerra após 25 meses no espaço;
Satélite percorreu 690 milhões de quilômetros;
Projeto testou tecnologias espaciais australianas;
Instrumento HERMES estudou raios X e gama;
Dados e legado impulsionam futuras missões.
SpIRIT impulsiona tecnologia australiana
De acordo com um comunicado, a missão teve como principal objetivo testar tecnologias desenvolvidas na Austrália. O projeto demonstrou a eficiência de sistemas autônomos, comunicações avançadas e controle térmico em órbita. Além disso, contribuiu para fortalecer a indústria espacial local e ampliar a experiência técnica de pesquisadores e empresas do país.
Um dos destaques foi o instrumento HERMES, fornecido pela ASI, que permitiu a realização de estudos com raios X e raios gama, fenômenos associados a eventos extremos no universo, como a morte de estrelas massivas ou a fusão de estrelas de nêutrons. Apenas nos últimos meses de 2025, o satélite coletou mais de 180 horas de dados científicos.
Segundo a professora Michele Trenti, investigadora principal da missão, o projeto representa uma conquista relevante para a equipe e seus parceiros. Ela destaca o apoio das agências espaciais da Austrália e da Itália e defende que o legado do SpIRIT deve beneficiar futuras iniciativas científicas.
Uma selfie da sonda SpIRIT em órbita sobre o Oceano Pacífico com as ilhas do Havaí ao fundo, 5 de agosto de 2025. Crédito: Universidade de Melbourne
O chefe da Agência Espacial Australiana (ASA), Enrico Palermo, avaliou que o impacto da missão vai além dos resultados técnicos. Para ele, o investimento ajudou a consolidar a posição da Austrália como parceira confiável em projetos espaciais internacionais. Já o líder da ASI, Teodoro Valente, ressaltou o avanço tecnológico alcançado com o desempenho do instrumento HERMES.
Diversas empresas australianas participaram do consórcio responsável pela missão. Entre elas, Inovor Technologies, Neumann Space, Nova Systems e SITAEL Austrália, que contribuíram com plataforma, sistema de propulsão, estação terrestre e engenharia de sistemas, respectivamente.
Em janeiro, o satélite começou a apresentar falhas técnicas e perda intermitente de comunicação. Após análises, a equipe concluiu que não seria possível restabelecer contato estável, encerrando oficialmente a fase operacional em órbita.
A expectativa é que o SpIRIT reentre na atmosfera e se desintegre até agosto, sem gerar detritos espaciais. Agora, os pesquisadores concentram esforços na análise dos dados coletados e na publicação dos resultados. As experiências adquiridas servirão de base para o desenvolvimento de novas tecnologias espaciais australianas, incluindo aplicações em sensoriamento remoto e computação em órbita.
Uma imagem impressionante capturada pelo Telescópio Espacial Hubble, da NASA em parceria com a Agência Espacial Europeia (ESA), foi divulgada nesta terça-feira (10). O registro mostra a Nebulosa do Ovo, em um show de luzes e sombras criadas por poeira recém-ejetada da estrela central, revelando detalhes nunca antes vistos dos estágios finais de um astro.
Localizada a cerca de 1.000 anos-luz da Terra, na constelação de Cisne, a nebulosa esconde sua estrela central em uma nuvem densa de poeira, parecendo uma “gema” dentro de uma “clara” escura. Segundo a NASA, somente o Hubble consegue mostrar a complexidade dessa estrutura.
Em resumo:
Hubble registrou a Nebulosa do Ovo, revelando detalhes do colapso estelar;
Estrutura jovem e próxima mostra estrela central escondida em densa poeira;
Feixes de luz e padrões simétricos indicam influência de estrelas companheiras;
Observações ajudam cientistas a entender a morte de estrelas e a formação de sistemas.
O Telescópio Espacial Hubble obteve a imagem mais nítida já registrada da Nebulosa do Ovo. Crédito: NASA, ESA, Bruce Balick (Universidade de Washington)
Essa é a nebulosa pré-planetária mais próxima e jovem já registrada. Esse tipo de estrutura é formado quando estrelas semelhantes ao Sol liberam suas camadas externas até se tornarem nebulosas planetárias. Apesar do nome, não tem relação com planetas.
Nebulosa do Ovo está fase de em transição
Estudar a Nebulosa do Ovo ajuda a entender o estágio final da vida das estrelas. A luz da estrela escapa por um “olho” polar na poeira e ilumina o disco expelido há algumas centenas de anos. Essa fase dura apenas alguns milhares de anos, tornando a observação única.
Feixes gêmeos de luz atravessam lóbulos polares e arcos concêntricos mais antigos. A forma dessas estruturas indica que outras estrelas companheiras podem estar escondidas no disco de poeira, influenciando os movimentos.
Estrelas como o Sol perdem suas camadas externas ao esgotar o hidrogênio e hélio. O núcleo quente ioniza o gás ao redor, formando conchas brilhantes observadas em nebulosas planetárias, como a da Borboleta e da Hélice. A Nebulosa do Ovo ainda está em transição, antes de se tornar uma nebulosa planetária.
Imagem da Nebulosa do Ovo obtida pelo Hubble em 1996. Crédito: Raghvendra Sahai e John Trauger (JPL), equipe científica do WFPC2 – NASA / ESA
Os padrões simétricos da nebulosa não vêm de explosões violentas, como supernovas, mas de eventos coordenados no núcleo da estrela, rico em carbono. Essa poeira antiga ajudou a formar sistemas estelares, como o nosso, há bilhões de anos.
Não é o primeiro registro que o Hubble faz da estrutura
O Hubble já havia fotografado a Nebulosa do Ovo várias vezes. Em 1997, imagens em infravermelho capturadas pela Câmera Infravermelha Próxima e Espectrômetro Multialvo (NICMOS) mostraram mais detalhes da poeira. Em 2003, a Câmera Avançada de Pesquisa (ACS) revelou ondulações ao redor da nebulosa, e em 2012, a Câmera de Campo Amplo 3 (WFC3) destacou fluxos de gás e a nuvem central.
A nova imagem combina dados anteriores com novas observações, fornecendo a visão mais nítida e detalhada do “ovo cósmico”. Registros como esses ajudam cientistas a entender melhor como as estrelas morrem e liberam material que pode formar novos sistemas planetários.