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Emergência Radioativa: entenda o caso Césio-137, que chocou o Brasil e inspirou a série da Netflix

24 de Março de 2026, 15:52

Na última semana, a Netflix lançou a série “Emergência Radioativa”, que vem chamando a atenção do público e da crítica. Ambientada em Goiânia, Goiás, a produção acompanha médicos e físicos em uma corrida contra o tempo para conter um desastre radiológico e salvar vidas. A trama é inspirada no acidente real com o Césio-137, ocorrido em 1987, que chocou o Brasil. Todos os episódios foram disponibilizados na quarta-feira (18).

Logo no fim de semana de estreia, a série alcançou o Top 1 no Brasil e o Top 2 global, aparecendo ainda no Top 10 de diversos países, como Portugal. A popularidade gerou debates nas redes sociais, comparações com Chernobyl e discussões sobre a verossimilhança dos fatos, com críticos elogiando a direção e as atuações, mas questionando a fidelidade histórica.

Comparações no X entre “Emergência Radioativa” e “Chernobyl”. Créditos: Captura de tela/X

O ponto central da série é o acidente radiológico de Goiânia ocorrido em setembro de 1987. Um aparelho de radioterapia abandonado no Instituto Goiano de Radioterapia foi aberto de forma indevida. O equipamento continha uma cápsula de Césio-137 de alta radioatividade, que acabou sendo espalhada pela cidade, provocando contaminação em diversas pessoas.

Segundo a Secretaria de Saúde de Goiás, a cápsula tinha 50,9 TBq (1.375 Ci) de radioatividade e continha cloreto de césio, um composto altamente solúvel. O Césio-137 é um isótopo radioativo artificial com comportamento químico semelhante ao potássio. Ele pode se acumular em animais, plantas e, consequentemente, no corpo humano.

Escombros do Instituto Goiano de Radioterapia, localizado no Centro de Goiânia. Crédito: CRCN-CO/CNEN

Como o material radioativo contaminou a população

Após a violação do aparelho, pedaços do material radioativo se espalharam pelo ambiente em forma de pó azul brilhante. Esse pó acabou em casas, depósitos de ferro-velho e até distribuído entre parentes e amigos, que não sabiam do perigo. O interesse pelo chumbo presente no aparelho também contribuiu para a venda e a circulação do material.

O contato com o Césio-137 causou sintomas graves nas primeiras horas: náuseas, vômitos, diarreia, tontura e queimaduras. Algumas pessoas procuraram hospitais locais. A situação só foi identificada corretamente quando a esposa do dono do ferro-velho levou o material à Divisão de Vigilância Sanitária, que confirmou a radioatividade.

Sucata do aparelho de radiologia nas ruínas do Instituto Goiano de Radioterapia. Crédito: CRCN-CO/CNEN

As principais formas de exposição ao produto foram a inalação de partículas, ingestão de alimentos contaminados e irradiação externa. Segundo Luiz Antonio Andrade de Oliveira, professor do Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), elementos radioativos superpesados demoram décadas para se desintegrar, emitindo radiação continuamente.

No caso do Césio-137, a meia-vida é de cerca de 33 anos. Isso significa que uma amostra do elemento leva esse tempo para reduzir sua radioatividade à metade. “A recomendação principal é não manipular esse tipo de substâncias. Se houver contato com a pele, lavar abundantemente com água e sabão. Se inalado ou ingerido, a situação é mais complicada”, explicou Oliveira em entrevista ao Olhar Digital.

O professor detalha que, em acidentes como o de Goiânia, sinais visíveis – como o brilho azul do Césio – ajudam na identificação. Mas, na maioria das situações, a exposição passa despercebida. “Naquele caso, as pessoas que ingeriram o Césio em elevada concentração foram tratadas em hospitais com substâncias para tentar retirar o Césio-137 do organismo. Mesmo assim, muitas delas morreram.”

Ele compara o episódio brasileiro a um caso nos EUA, em 1995, quando um adolescente tentou montar um reator nuclear caseiro. “No caso do rapaz dos EUA, como ele lidava com pequenas quantidades de material radioativo, não se esperaria algo tão dramático. Em pequenas doses, os efeitos aparecem depois de muito tempo”.

Vista aérea do ferro-velho que comprou o material e repassou para outros depósitos, dando início à corrente de contaminação radioativa. Imagem: Yosikazu Maeda via Secretaria de Estado de Saúde de Goiás

Governo monitorou milhares de vítimas

Em Goiânia, no total, foram monitoradas 112.800 pessoas, das quais 249 apresentaram significativa contaminação interna e/ou externa, sendo que em 120 delas a contaminação era apenas em roupas e calçados, e as mesmas foram liberadas após a descontaminação.

As outras 129 passaram a receber acompanhamento médico regular. Destas, 79 com contaminação externa receberam tratamento ambulatorial; dos outros 50 radioacidentados com contaminação interna, 30 foram assistidos em albergues em semi-isolamento, e 20 foram encaminhados ao Hospital Geral de Goiânia. Destes últimos, 14 em estado grave foram transferidos para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, onde quatro deles foram a óbito, oito desenvolveram a Síndrome Aguda da Radiação (SAR), 14 apresentaram falência de medula óssea e um sofreu amputação do antebraço.

Medição de radioatividade na população. Imagem: Arquivo da Secretaria de Estado de Saúde de Goiás

No total, 28 pessoas desenvolveram em maior ou menor intensidade, a Síndrome Cutânea da Radiação (as lesões cutâneas também eram ditas “radiodermites”). Os casos de óbito ocorreram cerca de quatro a cinco semanas após a exposição ao material radioativo, devido a complicações esperadas da SAR – hemorragia (dois pacientes) e infecção generalizada (também dois pacientes).

Para realizar o monitoramento sobre os efeitos da exposição à radiação ionizante nas pessoas que foram vítimas do acidente, o governo goiano criou, em fevereiro de 1988, a Fundação Leide das Neves Ferreira. Foram definidos grupos de monitoramento dos pacientes, de acordo com normas internacionais, que consideram como critérios de classificação a gravidade das lesões cutâneas e a intensidade da contaminação interna e externa, e que determinou a metodologia dos protocolos de acompanhamento médico.

A avaliação da contaminação externa usou análises cromossômicas, enquanto a contaminação interna foi medida em excretas e com detectores próximos ao corpo. A técnica de contagem de corpo inteiro (monitoração in vivo) e análise de excretas (monitoração in vitro) permitiu estimar a dose de radiação recebida.

Descontaminação de áreas na Rua 57. Ao fundo, a entrada do Mercado Central de Goiânia. Crédito: CRCN-CO/CNEN

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Desastre do Césio-137 transformou os protocolos de segurança

O acidente gerou 3.500 m³ de lixo radioativo, armazenado em contêineres de concreto. O repositório definitivo está em Abadia de Goiás, a 23 km de Goiânia, sob responsabilidade do Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste, da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). O local realiza monitoração e controle ambiental contínuo.

O episódio também deixou lições valiosas para a ciência e para a sociedade. Ele reforçou a necessidade de conhecer os riscos ao lidar com elementos radioativos, priorizando ética e responsabilidade. O aprendizado vai além da física ou química: envolve cuidado com a vida humana e a preservação do meio ambiente.

Em resumo, o acidente com o Césio-137 marcou Goiânia e o Brasil. Ele transformou protocolos de segurança, inspirou estudos científicos e permanece vivo na memória coletiva. “Emergência Radioativa” cumpre o papel de relembrar essa história, ao mesmo tempo em que educa e alerta sobre os perigos da radiação.

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Alerta global: o ‘túmulo’ radioativo do pacífico está vazando e especialistas temem consequências catastróficas

20 de Março de 2026, 07:00

Quando você pensa nos maiores riscos ambientais do planeta, provavelmente imagina derramamentos de petróleo ou usinas nucleares em pane. Mas existe uma bomba-relógio radioativa bem no meio do Pacífico que poucos conhecem — e ela está começando a vazar.

O Domo de Runit, apelidado de “O Túmulo”, é uma estrutura de 115 metros de diâmetro construída sobre uma cratera criada por uma explosão nuclear de 18 quilotons em 1958. O teste, batizado de “Cactus”, deixou um buraco gigante na Ilha Runit, no Atol de Enewetak, nas Ilhas Marshall.

Vista de satélite gerada pela Nasa. A cratera formada pela explosão pode ser vista na porção mais ao norte – (NASA/USGS)

Entre 1977 e 1980, os militares americanos preencheram essa cratera com mais de 120 mil toneladas de solo e detritos contaminados pelos testes nucleares na região. Por cima, colocaram uma tampa de concreto. A ideia era simples: enterrar o problema e esperar que ele desaparecesse com o tempo.

O problema que ninguém previu

Quase 50 anos depois, a estrutura não está mais tão sólida assim. Rachaduras no concreto revelam que o domo está mais vulnerável do que se imaginava, especialmente com o avanço do nível do mar sobre as margens estreitas da ilha.

A química Ivana Nikolic-Hughes, da Universidade Columbia, viu essas rachaduras pessoalmente em 2018 durante uma coleta de amostras de solo. Em suas pesquisas, ela encontrou níveis elevados de radiação e quantidades significativas de cinco radionuclídeos no solo da ilha, fora do domo.

“Considerando que o nível do mar está subindo e há indicações de que as tempestades estão se intensificando, nos preocupamos que a integridade do domo possa estar em perigo”, disse Nikolic-Hughes ao jornalista Kyle Evans, da Australian Broadcasting Corporation.

O mais preocupante é que a estrutura contém plutônio-239, um componente de armas nucleares que permanece perigoso por mais de 24 mil anos. Runit fica a apenas 32 quilômetros de onde pessoas vivem e usam a lagoa da região.

Vazamentos já começaram

Ken Buesseler, especialista em radioatividade marinha do Instituto Oceanográfico Woods Hole, explicou em 2020 que os vazamentos radioativos do Domo de Runit são, até agora, “relativamente pequenos”.

“Enquanto o plutônio permanecer no lugar sob o domo, não será uma grande nova fonte de radiação para o Oceano Pacífico”, disse Buesseler. “Mas muito depende da futura elevação do nível do mar e de como coisas como tempestades e marés altas sazonais afetam o fluxo de água para dentro e para fora do domo.”

O problema é que a estrutura já estava comprometida desde o início. A cratera não foi impermeabilizada, e a água subterrânea penetrou no local, que fica sobre um leito de sedimento de coral poroso. Isso significa que os contaminantes podem se espalhar pela água.

Uma corrida contra o tempo

Em 2024, o Laboratório Nacional do Noroeste Pacífico do Departamento de Energia dos EUA conduziu uma investigação sobre os impactos potenciais das mudanças climáticas no local. A conclusão foi direta: ondas de tempestade e elevação gradual do nível do mar seriam os maiores fatores na disseminação de radionuclídeos pelo atol.

A Runit Dome, pouco depois de sua conclusão, em 1980 – US Defense Special Weapons Agency

A maior parte da Ilha Runit fica apenas 2 metros acima do nível do mar. Cientistas climáticos preveem uma elevação de 1 metro no nível do mar nas Ilhas Marshall até 2100. Quando você olha o atol de cima, é fácil imaginar o estrago que apenas 1 metro extra de água poderia causar.

O domo foi pensado como uma solução temporária para conter material deixado pelos testes nucleares, alguns dos quais superaram a magnitude de Hiroshima e Nagasaki em mais de 1.000 vezes. Mas décadas depois, a estrutura está se deteriorando enquanto o oceano se aproxima.

A responsabilidade americana

Nikolic-Hughes e seu colega pesquisador Hart Rapaport já pediram publicamente que os Estados Unidos assumam a responsabilidade pela limpeza adequada dos resíduos nucleares nas ilhas, como parte de garantir um futuro seguro para os residentes marshalleses.

Paula Gaviria Betancur, relatora especial das Nações Unidas, resumiu bem a situação em 2024: “Legados de testes nucleares e requisições de terras militares por uma potência estrangeira deslocaram centenas de marshalleses por gerações, enquanto os efeitos adversos das mudanças climáticas ameaçam deslocar milhares mais.”

O que torna essa situação ainda mais revoltante é que os próprios testes nucleares contribuíram para as mudanças climáticas que agora ameaçam romper o “túmulo” radioativo. É um ciclo cruel onde as consequências de decisões passadas se multiplicam no presente.

Buesseler enfatizou a necessidade de monitoramento mais regular do local: “É uma fonte pequena agora, mas precisamos monitorá-la com mais regularidade para entender o que está acontecendo e levar os dados diretamente às comunidades afetadas na região.”

Enquanto isso, milhares de pessoas nas Ilhas Marshall vivem com a incerteza de saber que uma estrutura rachada, cheia de material radioativo e cercada por um oceano em expansão, pode determinar o futuro de suas comunidades. É uma lembrança sombria de que algumas decisões do passado continuam assombrando o presente — literalmente.

Fonte: sciencealert.com

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