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Trump, Fifa e a corrosão da democracia

Por:tote
11 de Junho de 2026, 10:20
Copa, Estados Unidos e Trump
Donald Trump (esq.): chegada da delegação do Senegal aos EUA e a taça da Copa do Mundo. Fotos: Agência Brasil, Reprodução de Redes Sociais e Fifa

Os dias que antecederam a abertura da 23ª edição da Copa do Mundo – a maior da história em número de participantes – transformaram o que era apenas uma incômoda expectativa em episódios explícitos de racismo, xenofobia e autoritarismo. Autoproclamado líder do que chama de “mundo livre”, o governo dos Estados Unidos passou a adotar medidas que o afastam progressivamente das noções mais amplas de democracia e contraria frontalmente o espírito de união global preconizado pela Fifa – a federação internacional de futebol, organizadora do evento. Especialistas ouvidos pelo Jornal da Unicamp veem corrosão da democracia e cumplicidade da Fifa.

Ao utilizar prerrogativas de soberania e segurança nacional de maneira peculiar, o presidente Donald Trump restringiu deslocamentos de delegações, barrou profissionais credenciados pela Fifa ou submeteu criadores de conteúdo originários de países considerados suspeitos a constrangimentos, num movimento jamais visto nos quase 100 anos de existência do mundial de futebol. 

Trump expandiu de forma significativa a lista de nações sujeitas a restrições de entrada no país. A relação de países com bloqueios parciais ou totais para vistos de turismo de curta duração subiu de 19 para 39 nações. Paralelamente às regras de turismo, os EUA suspenderam o processamento de vistos de imigrante para cidadãos de 75 países, atingindo inclusive o torcedor comum, com visto de turista.

Na primeira semana de junho, a menos de 15 dias do início da competição, a delegação do Irã foi formalmente informada sobre uma pesada restrição de permanência nos Estados Unidos. Os jogadores foram liberados, mas sob condições estritas.

O Departamento de Segurança Interna dos EUA concedeu os vistos apenas para os atletas na última hora, determinando que entrem e saiam do território norte-americano estritamente nos dias das partidas. Eles não receberam permissão de residência contínua ou pernoite comum nos EUA durante o torneio. 

Diversos membros da comissão técnica e dirigentes de alto escalão – incluindo Mehdi Taj, o presidente da Federação de Futebol do Irã – tiveram seus vistos negados. A seleção iraniana, que planejava se alojar em Tucson, no Arizona, acabou sendo acolhida pelo governo mexicano e teve de montar sua base emergencial em Tijuana.

Senegal

A delegação do Senegal foi submetida a uma rigorosa revista ainda na pista do aeroporto logo após desembarcar na Carolina do Norte. Imagens do procedimento viralizaram e geraram debate público, sobre o tratamento desigual adotado na chegada das delegações, já que os europeus foram liberados sem que passassem pelo processo. 

O Haiti, por sua vez, teve de alterar  seus uniformes porque a Fifa considerou haver “mensagens políticas” na camisa. O desenho continha uma bandeira e a ilustração da Batalha de Vertières, travada em 1803, decisiva para a independência do país após conflito com a França. 

Árbitro

O árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, de 34 anos, foi barrado na imigração americana ao desembarcar no Aeroporto de Miami (EUA). Ele foi convocado pela Fifa para apitar jogos no Mundial depois de ter sido eleito o melhor árbitro da África em 2025. As autoridades de fronteira consideraram o profissional “inadmissível” após checagem de antecedentes e o impediram de ingressar no país, determinado o retorno à Somália. Artan seria o primeiro árbitro da história da Somália a apitar em uma Copa do Mundo. Deportado, foi recebido com festa ao voltar para casa.

Iraquiano

Considerado o principal astro da seleção iraquiana, o atacante Aymen Hussein foi submetido a grande constrangimento ao tentar entrar nos Estados Unidos. Foi detido e interrogado por cerca de sete horas por autoridades de imigração no aeroporto de Chicago. Hussein acabou liberado, mas o fotógrafo oficial da delegação, Talal Salah, não conseguiu autorização para entrar. 

Influenciadores

A alfândega americana adotou uma prática radical e decidiu proibir a entrada de pessoas criadoras de conteúdo para redes sociais ou da mídia alternativa. Para as autoridades, produzir conteúdo que pode ser monetizado em solo americano com visto de turista é considerado trabalho ilegal.

Democracia

Para o professor do Instituto de Economia (IE) da Unicamp Marcelo Proni – que, entre outras linhas de pesquisa, tem estudos na área de economia do esporte –, o movimento do presidente americano corrói a democracia.

marcelo proni
Marcelo Proni

“Discordo dos que acham que, hoje, os EUA não podem mais ser chamados de democracia. Os EUA têm instituições fortes e que vão resistir ao Trump. O Trump vai passar”, aponta. “Mas eu diria que, hoje, a democracia nos EUA está ameaçada. Do ponto de vista formal, os EUA são uma democracia, mas uma democracia que está vivendo ataques sistemáticos, que está sendo erodida”, afirma.

Para Proni, a submissão da Fifa aos ditames do governo Trump criou uma “situação esquizofrênica”. 

“Idealmente, a Copa é uma celebração dos princípios civilizatórios que fundamentam a convivência pacífica entre as nações, inclusive a valorização da diversidade étnica e cultural. Mas o governo dos EUA impôs restrições claramente discriminatórias”, disse.

Segundo o docente, embora o presidente da Fifa, Gianni Infantino, pregue um mundo sem fronteiras, ele silencia diante de medidas hostis contra membros da comunidade que a Fifa deveria representar. “Infantino age como um CEO de uma grande corporação interessada em garantir os ganhos bilionários do seu negócio”, diz.

Contradição

Professor do Departamento de Sociologia e da Pós-Graduação em Sociologia da Unicamp, Michel Nicolau Netto chama a atenção para uma contradição. De acordo com ele, Trump se apropria da ideia de soberania para impor uma política discriminatória, antidemocrática. Com isso, subverte a tradição segundo a qual a Fifa passa a ter direito de ocupação de determinados espaços do país-sede, onde aplica regras próprias.

As regras em vigor definem que antes mesmo de um país ser anunciado como sede, o governo e as cidades candidatas precisam assinar o Host Agreement (Acordo de Sede). Trata-se de um contrato de adesão pelo qual o país aceita os termos da Fifa.  Na Copa de 2018, na Rússia, por exemplo, a Fifa interveio e determinou que o governo russo suspendesse a exigência de visto para a entrada no país. 

michel nicolau netto
Michel Nicolau Netto

Só que Trump ignorou essa tradição e, em nome da soberania do país, adotou as restrições que julgou necessárias. Mesmo diante de violações às regras da própria entidade, a Fifa preferiu não oferecer qualquer oposição.

“Mas a Fifa sempre fez isso. Sempre foi maleável. Sempre se adaptou a governos autoritários”, disse o professor. “Já promoveu jogos de Copa sobre mortos pela ditadura da Argentina; já sentou com governos sanguinários do Oriente Médio, realizou Copa na Rússia onde havia discursos fortemente intolerantes aos homossexuais ou em lugares onde havia claras violações de direitos das mulheres”, acrescentou.

Netto adverte, porém, que o comportamento de hoje do presidente norte-americano pode abrir um precedente perigoso e pode se tornar uma nova prática dos países que vão sediar as futuras competições organizadas pela Fifa.

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Unicamp inaugura sistema de iluminação inteligente que reduz consumo de energia em 70%

Por:tote
9 de Junho de 2026, 15:59
iluminação pública
Novo sistema de iluminação no campus entra em operação na Unicamp

A Unicamp inaugurou, em seu campus no distrito de Barão Geraldo, nesta segunda-feira (8), um novo sistema de iluminação pública inteligente. Resultado de um investimento de R$ 5 milhões obtido por meio do Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel), o modelo reduz em cerca de 70% o consumo e pode gerar uma economia de até R$ 1 milhão por ano à Universidade.

Liderado pelo professor Luiz Carlos Pereira da Silva, da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC), que também coordena o programa Campus Sustentável, ligado à Diretoria Executiva de Sustentabilidade (DExS), o projeto substituiu aproximadamente 2.500 luminárias antigas, baseadas em tecnologia de vapor de sódio, por equipamentos de LED de alta eficiência energética.

A inauguração oficial ocorreu em um evento na Casa do Lago e foi seguida por uma visita técnica a diferentes pontos do campus. O reitor Paulo Cesar Montagner participou da atividade. “A Unicamp vem colhendo resultados positivos com a implantação de sistemas de iluminação inteligente. Essa iniciativa integra um conjunto de ações que inclui veículos elétricos e projetos de geração de energia sustentável, consolidando a Universidade como referência nacional em pesquisa aplicada. Esses avanços representam a construção de um novo paradigma para a instituição e podem servir de modelo para outras universidades e centros tecnológicos do país”, afirmou.


Telegestão

Além da economia, o novo sistema incorpora tecnologias de telegestão que permitem monitorar e controlar remotamente cada luminária. Sensores conectados enviam informações em tempo real para uma plataforma digital, possibilitando acompanhar o consumo individual, identificar falhas instantaneamente e otimizar a manutenção da rede.

o reitor paulo cesar montagner
O reitor Paulo Cesar Montagner


Outra inovação é a possibilidade de ajustar a intensidade da iluminação ao longo da noite, reduzindo o consumo em horários de menor circulação de pessoas, sempre dentro dos parâmetros estabelecidos pelas normas técnicas.

O novo sistema também permite transformar a rede de iluminação em uma multiplataforma de dados. Entre as novas aplicações estão radares para monitoramento do fluxo de veículos nas guaritas do campus, por exemplo, e a integração de sensores capazes de coletar dados ambientais e de segurança. A infraestrutura ainda permite a instalação de câmeras de monitoramento e sensores acústicos para diferentes aplicações urbanas.

“A ideia é transformar a Unicamp em um laboratório vivo de pesquisa, desenvolvimento e demonstração de tecnologias voltadas à iluminação pública e às cidades inteligentes. A Universidade pode se tornar uma referência dessa área no país. Além de reduzir o consumo de energia e os custos operacionais, o sistema produzirá uma grande quantidade de dados que poderão ser utilizados em pesquisas de graduação, pós-graduação e projetos de inovação”, afirmou Silva.

Meio ambiente

Em relação ao impacto ambiental, o novo conjunto de iluminação implantado no campus de Barão Geraldo utiliza duas diferentes temperaturas de luz (tonalidade da cor emitida por uma fonte luminosa, sem relação com o calor físico da lâmpada): 4 mil Kelvin nas vias e avenidas, onde a segurança viária é prioridade, e 3 mil Kelvin nas áreas de mata, consideradas mais suscetíveis. Quanto menor a temperatura, mais amarelada é a luz.

 professor Luiz Carlos Pereira da Silva, da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC), que também coordena o programa Campus Sustentável
Luiz Carlos Pereira da Silva (ao microfone), coordenador do programa Campus Sustentável

“Essa atual temperatura de 4 mil Kelvin é conhecida como branco neutro e é uma das mais utilizadas em projetos de iluminação pública. Embora seja considerada mais confortável que os modelos anteriores, se diferencia dos tons amarelados que marcaram sistemas antigos, como as luminárias de vapor de sódio”, explicou o professor da FEEC, afirmando estar atento às possíveis mudanças de padrões.

“A expectativa é que futuras revisões normativas incentivem o uso de temperaturas ainda mais baixas, como 2,7 mil Kelvin em vias urbanas e 2,2 mil Kelvin em áreas ambientais. Entretanto, a indústria ainda não possui escala de produção suficiente para oferecer essas soluções”, comentou Silva.

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BI0S aponta gargalos da infraestrutura de dados da agropecuária brasileira

Por:tote
8 de Junho de 2026, 10:24

A inteligência artificial entrou de vez no vocabulário da agricultura. Mas, por trás da promessa de eficiência, automação e previsão, há perguntas decisivas que ainda carecem de respostas concretas. Que dados sustentam essas ferramentas? Como transformar modelagem em decisão prática no campo? O que a IA realmente acrescenta à pesquisa agroclimática? 

Essas são algumas das questões discutidas nesta entrevista com Jurandir Zullo Junior, pesquisador do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri/Unicamp) e coordenador da Trilha Agro do BI0S. Na conversa, ele fala de infraestrutura de dados, sensoriamento remoto, mudanças climáticas, soberania tecnológica e dos limites de uma inovação que, para ser transformadora de fato, precisa encarar o território como ele é: desigual, heterogêneo e cheio de contradições entre promessa tecnológica e realidade no campo. 

O professor Jurandir Zullo Junior, pesquisador do Cepagri
Jurandir Zullo Junior, pesquisador do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri/Unicamp)

A Trilha Agro do BI0S se apresenta como uma frente de apoio à tomada de decisão na agropecuária, do curto ao longo prazo. Como essa formulação se traduz, metodologicamente, em agenda de pesquisa?

Ela se traduz menos como uma agenda fechada e mais como uma estrutura aberta para responder a problemas concretos. No projeto original, havia objetivos gerais, mas, na prática, assim que o centro foi aprovado, começaram a chegar demandas. Então a agenda foi se constituindo nesse encontro entre grandes temas e necessidades reais do setor.

A robótica é um bom exemplo. Ela já aparecia como frente possível, mas ganhou corpo quando começaram a surgir demandas muito específicas, ligadas à falta de mão de obra e à mecanização de determinadas culturas. No caso do cacau, isso apareceu com força. Então o método acaba sendo esse: ouvir o problema, reunir grupos que têm competências diferentes e testar se aquilo pode virar pesquisa aplicada com utilidade concreta. Não é a tecnologia procurando um uso qualquer. É o problema que demanda pesquisa e inovação. 

O BI0S aponta a ausência de dados organizados e acessíveis como uma das barreiras centrais do setor. Quais são hoje os principais gargalos de infraestrutura de dados para a agropecuária brasileira?

O primeiro gargalo é a heterogeneidade. São dados de naturezas muito distintas, produzidos por instituições diferentes, em escalas diferentes, e que muitas vezes não conversam entre si. O segundo é a conectividade. Às vezes se fala em agricultura digital como se o território estivesse plenamente integrado, mas isso não corresponde ao que existe no campo brasileiro. E o terceiro gargalo, que nem sempre aparece no debate público, é a manutenção.

Não basta ter base aberta ou plataforma robusta. O problema é fazer aquilo continuar vivo, atualizado e confiável. Você consegue, às vezes, um grande esforço inicial de agregação, mas depois parte dos bancos deixa de ser alimentada, ou passa a operar com ritmos muito diferentes de atualização. O sistema envelhece rápido. Infraestrutura de dados não é só armazenamento; é governança, continuidade e curadoria.

Nesse ponto, houve avanços institucionais importantes. A Lei de Acesso à Informação consolidou o princípio de que o acesso à informação pública é a regra, e a Fapesp passou a exigir planos de gestão de dados em modalidades e chamadas específicas. Mas entre a norma e o uso efetivo ainda existe uma distância considerável, especialmente quando entram em cena bases pulverizadas, redes desiguais e dados privados. 

Quando se fala em “agricultura baseada em dados”, de que dados estamos falando? Climáticos, agronômicos, territoriais, econômicos, sanitários? Onde estão hoje os maiores vazios?

Estamos falando de tudo isso ao mesmo tempo. Dados climáticos, meteorológicos, de solo, de relevo, de manejo, de produtividade, de mercado, de logística e, em alguns casos, até de cenário internacional. Dependendo da cultura, o que acontece fora do país pesa diretamente na decisão produtiva aqui dentro.

O problema é que, em geral, esses dados não nascem integrados. Cada sistema costuma responder a uma finalidade específica. A economia agrícola olha uma coisa. A agrometeorologia olha outra. O agrônomo trabalha com outro conjunto. Então, mais do que ausência de dados, o que existe é uma dificuldade de articulação entre eles.

Por isso eu diria que o maior vazio hoje está menos na coleta bruta e mais na mediação. Falta interface. Falta tradução. Falta um modo de fazer esses bancos conversarem e devolverem algo utilizável para quem precisa decidir. O dado existe em muitos casos. O que não existe com a mesma solidez é a ponte entre o dado e a decisão. 

Em sua trajetória no Cepagri, o senhor acompanhou a evolução do uso de sensoriamento remoto e agrometeorologia no país. O que a IA acrescenta de novo ao setor? 

Ela acrescenta muito quando o problema é volume. No sensoriamento remoto, por exemplo, houve uma explosão na quantidade de imagens disponíveis. Antes, você trabalhava quase de forma artesanal. Hoje isso ficou inviável. A IA ajuda a extrair padrão, automatizar leitura, trabalhar com séries temporais longas e encontrar sinais que o olho humano, sozinho, não conseguiria tratar em escala.

Na climatologia acontece algo parecido. Não só aumentou o volume de dados como cresceu muito a diversidade de modelos e cenários. Então a IA e outras técnicas de processamento ajudam a selecionar, comparar e identificar comportamentos relevantes.

Agora, ela vira reembalagem, quando aparece como se bastasse despejar dados numa máquina e esperar uma resposta. Não é assim. Você continua precisando de método, de modelo adequado e de alguém que conheça profundamente o domínio do problema. A IA ajuda a lidar com a massa de informação. Ela não substitui, por si só, o conhecimento acumulado da área. 

No debate atual, às vezes parece que modelo preditivo basta. Por que a observação em campo, a curadoria dos dados e a validação empírica continuam centrais?

Porque dado não chega puro ao modelo. Mesmo o dado de satélite, que hoje é central, não é uma medida direta da realidade. Ele depende de calibração, de modelagem e de comparação com rede de superfície. Sem isso, você corre o risco de tratar como evidência uma informação que ainda é, na melhor das hipóteses, uma aproximação.

A IA pode ajudar muito a detectar anomalias, filtrar volumes enormes de informações e até acender alertas. Mas alguém ainda precisa dizer o que é plausível, o que é erro, o que merece ser revisto. Chuva negativa está errada. Um valor extremo fora de padrão precisa ser checado. Quanto maior o volume de dados, mais importante fica a curadoria especializada.

A imagem que eu gosto de usar é a de tentar beber água de um hidrante. Não falta água; falta capacidade de tomar aquilo de forma útil. Com os dados acontece algo parecido. O desafio não é apenas captar. É separar, qualificar, interpretar e transformar em critério de decisão. 

No caso do CacauClima, um dos desafios é monitorar por satélite sistemas agroflorestais mais complexos, como a cabruca. O que esse caso revela sobre os limites da IA quando o território não se comporta de forma padronizada?

Revela um limite importante: o território real é mais complexo do que o modelo gostaria que fosse. Sistemas como a cabruca não têm o comportamento visual e fenológico de uma plantação homogênea. Isso dificulta a leitura quando você depende apenas de um tipo de imagem ou de uma lógica muito padronizada de classificação.

Nesses casos, a saída não é abandonar a IA. É usá-la melhor. Integrar diferentes dados, combinar imagem óptica com radar, trazer variáveis ambientais e, quando possível, incorporar informação de campo. Às vezes, uma variável externa aparentemente simples, como data de plantio ou de colheita, melhora muito o desempenho do modelo.

Esse tipo de situação mostra que nenhuma tecnologia resolve tudo sozinha. O sensoriamento remoto tem limites. A IA também. O ganho aparece quando se aceita a complexidade do território em vez de tentar forçá-lo a caber numa leitura simplificada. 

O senhor diria que hoje o principal desafio da IA no agro é algorítmico, institucional ou epistemológico?

Hoje, eu diria que o desafio maior é institucional e epistemológico, mais do que algorítmico. Algoritmo tem muita gente desenvolvendo. O problema é outro: frequentemente a solução aparece antes do problema real.

Você vê isso bastante. Desenvolve-se uma ferramenta sofisticada e depois se tenta encaixar nela alguma aplicação. Nem sempre a pessoa parte de um caso concreto. Nem sempre volta para o território para perguntar se aquele resultado faz sentido na prática. Então o risco é produzir uma solução elegante, mas sem aderência real.

É por isso que estruturas como o BI0S são interessantes. Porque colocam quem desenvolve método para conversar com quem vive o problema. Esse atrito é produtivo. Ele evita que a IA fique girando em torno de si mesma. 

A Trilha Agro busca gerar soluções tanto para grandes produtores quanto para a agricultura familiar. Como evitar que a digitalização do campo reproduza assimetrias já existentes?

Primeiro, reconhecendo que essa assimetria existe e que o mercado, por si só, tende a olhar mais para quem tem escala, capital e capacidade de internalizar tecnologia. Grandes empresas conseguem montar suas redes, contratar soluções privadas, adaptar infraestrutura. Quem está em condições mais limitadas corre o risco de ficar à margem.

Por isso instituições públicas, universidades e agências de fomento precisam ter esse cuidado como premissa. Nem toda demanda que chega deve ser incorporada só porque tem recurso ou porque parece inovadora. É preciso perguntar a quem isso atende, quem fica de fora e como adaptar soluções para contextos produtivos diferentes.

Se a digitalização não enfrentar essa questão, ela pode apenas sofisticar desigualdades antigas com uma linguagem nova. O problema não desaparece porque ganhou uma camada de inteligência artificial. 

Em projetos voltados à adaptação climática, como equilibrar previsão, incerteza e utilidade prática? Em que ponto uma projeção deixa de ser ciência e passa a ser especulação?

Ela deixa de ser robusta quando perde vínculo com o território e com a validação. Não basta ter uma projeção tecnicamente sofisticada. É preciso saber que modelo está sendo usado, se ele é adequado para aquela região, se já foi comparado com observação e se conversa com a escala da decisão que se quer tomar.

Na climatologia isso ficou muito claro. Hoje existe uma quantidade muito maior de modelos disponíveis. Então a escolha do modelo virou um problema científico em si. Não se trata de selecionar o cenário que confirma sua hipótese, mas de construir critérios para saber quais modelos representam melhor aquele sistema regional.

Ao mesmo tempo, utilidade prática importa. O CPTEC (Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos), por exemplo, mantém aplicações públicas de monitoramento, previsão do tempo e previsão climática, mas acesso não elimina a necessidade de interpretação. Uma projeção útil é aquela que assume a incerteza, explicita seus limites e ainda assim ajuda a orientar decisão. Quando essa base some, o risco é produzir apenas especulação bem embalada. 

A agenda de IA aplicada ao campo levanta questões de soberania tecnológica. O Brasil está construindo capacidade própria ou ainda depende de plataformas, infraestruturas e padrões externos?

Ainda depende bastante, sobretudo quando a conversa envolve infraestrutura pesada, equipamentos e a dimensão espacial da coleta de dados. Na formação de pessoal, no desenvolvimento de algoritmos e em parte do ecossistema de inovação, houve avanço. Mas, quando se sobe a escala e se olha para satélites, plataformas estratégicas e capacidade industrial, a dependência continua importante.

Ao mesmo tempo, seria errado dizer que nada foi construído. O Amazônia-1, lançado em 2021, foi o primeiro satélite de observação da Terra projetado, integrado, testado e operado exclusivamente pelo Brasil. E o desenvolvimento conjunto do CBERS-5 com a China foi apresentado pelo governo brasileiro como um passo para colocar o país em um grupo muito restrito de nações com essa capacidade, com foco em aplicações meteorológicas e ambientais.

Então eu diria que o Brasil está num meio do caminho. Há capacidade científica, há quadros qualificados, há algumas infraestruturas importantes e há esforços institucionais relevantes. Mas ainda existe dependência externa em pontos estratégicos da cadeia. E isso importa muito quando se fala em clima, agricultura e dados, porque a soberania tecnológica não é um luxo: ela interfere diretamente em quem coleta, quem processa, quem distribui e quem controla a informação que orienta decisões no território.

Jaqueline Nichi é jornalista e socióloga. Doutora em Ambiente e Sociedade pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam/Unicamp) e bolsista de Jornalismo Científico (Mídia Ciência/Fapesp) no Centro de Pesquisa Aplicada em Inteligência Artificial (BI0S/Unicamp).

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Lume Teatro pesquisa a finitude e o post mortem para novo espetáculo

Por:tote
3 de Junho de 2026, 11:24
As pesquisadoras Raquel Scotti Hirson e Ana Cristina Colla: viagens pelo país para investigar rituais
As pesquisadoras Raquel Scotti Hirson e Ana Cristina Colla: viagens pelo país para investigar rituais que cercam a morte

Em busca das histórias e dos rituais que cercam a morte, integrantes do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais da Unicamp, o Lume Teatro, percorreram cemitérios, velórios e hospitais em diferentes regiões do país. A morte passou a ser vivida não como abstração, mas como experiência cotidiana, a partir de relatos de coveiros, profissionais de cuidados paliativos e doulas da morte na pesquisa que vai resultar em um novo espetáculo, previsto para estrear no início de 2027.

As atrizes e pesquisadoras Ana Cristina Colla e Raquel Scotti Hirson, integrantes do Lume
desde 1994 e docentes do Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena, do Instituto de
Artes (IA), contam que viajaram pelo Brasil para investigar rituais, cuidados e ofícios que
cercam a finitude humana. “A pesquisa de campo faz parte do nosso modo de trabalho. É a maneira que encontramos para responder às perguntas que o próprio espetáculo vai nos fazendo”, afirma Colla.

A pesquisa integra parte do projeto temático “Pedagogias, Processos e Arquivos da Presença”, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e o projeto do Programa de Incentivo a Novos Pesquisadores – iniciativa da Unicamp em conjunto com o Fundo de Apoio ao Ensino, à Pesquisa e à Extensão (PIN-Faepex) –, “Olhares para a invisibilidade da morte em pesquisa de campo nas artes cênicas”. 

O projeto, que também conta com os atores e pesquisadores Renato Ferracini e Jesser de Souza, começou a ganhar força depois de um trabalho anterior, dedicado ao estudo da doença de Alzheimer. A reflexão sobre envelhecimento, fragilidade e memória acabou conduzindo o grupo para questões relacionadas à finitude. Em seguida, vieram a pandemia e a experiência coletiva de conviver com a morte em escala global.

 espetáculo reúne personagens construídos ao longo de diferentes processos criativos do grupo
O pesquisador Jesser de Souza

“O tema da morte passou a nos atravessar de uma maneira muito forte”, diz Colla. “Começamos a nos perguntar que vida é essa que estamos vivendo e o que existe por trás desse lugar que hoje é quase um tabu. Ao mesmo tempo que queremos viver cada vez mais, falamos muito pouco sobre a morte.”

Um dos primeiros movimentos foi acompanhar equipes de cuidados paliativos em Campinas. O grupo esteve tanto no Serviço de Cuidados Paliativos do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp quanto no Serviço de Atendimento Domiciliar (SAD), programa municipal que oferece assistência a pacientes em suas próprias residências. “Passamos a acompanhar as visitas dos profissionais às casas das pessoas, e isso abriu um mundo para nós”, lembra Colla. “É um trabalho muito bonito, porque traz um olhar mais humano para esse momento final da vida.”

À margem

Ao ampliar o campo da investigação para o período posterior à morte, o grupo passou a conversar com coveiros, funcionários de funerárias, tanatopraxistas, jardineiros e trabalhadores responsáveis pela manutenção dos túmulos. Um dos personagens mais marcantes dessa trajetória foi Osmair Cândido, o “Fininho”, coveiro aposentado de São Paulo, formado em Filosofia. “Ele é uma figura muito interessante, porque reúne esses dois universos”, conta Hirson. “Tem toda a experiência prática da profissão, mas também um olhar filosófico sobre a morte.”

 espetáculo reúne personagens construídos ao longo de diferentes processos criativos do grupo
Osmair Cândido, o “Fininho”, coveiro aposentado de São Paulo, formado em Filosofia

O primeiro contato com Fininho aconteceu durante uma apresentação teatral. Depois vieram novas conversas, visitas e uma ida ao Cemitério da Vila Formosa, em São Paulo. “Quando falamos que nossa pesquisa se chamava ‘Invisibilidades da Morte’, ele respondeu imediatamente: ‘Invisibilidade é um nome bonitinho para a academia. O que a gente sofre é desprezo’”, recorda Colla. “Ele nos chamou a atenção para a condição dessas pessoas que trabalham diariamente com a morte e que muitas vezes permanecem à margem do olhar social”, completa. 

Ao longo da pesquisa, o grupo também se aproximou de jardineiros e cuidadores de túmulos. “São pessoas que conhecem profundamente aqueles espaços”, afirma Hirson. “Às vezes elas sabem quais flores uma família costuma levar, quais túmulos recebem visitas frequentes, quais foram abandonados. Em muitos casos, o cuidado permanece porque essas próprias pessoas criam vínculos afetivos com quem está enterrado ali.”

Norte a Sul

Desde julho de 2025, a pesquisa percorreu diferentes regiões do país para conhecer profissionais e espaços ligados ao tema. Entre as viagens realizadas, a ida a Manaus (AM) foi uma das experiências mais impactantes. As pesquisadoras visitaram o Cemitério Nossa Senhora Aparecida, ampliado às pressas durante o período mais crítico da pandemia de covid-19. “Lá, vimos um espaço que precisou crescer muito rapidamente para receber o enorme número de mortos daquele momento”, relata Hirson. 

A visita revelou uma dimensão concreta da tragédia vivida na cidade. “O cuidador do cemitério nos explicou que, em muitos casos, as marcações são simbólicas. Nem sempre a localização indicada corresponde exatamente ao local onde a pessoa foi enterrada. Aquilo nos marcou profundamente”, lembra Colla. 

Em Porto Alegre (RS), as pesquisadoras conheceram as chamadas “doulas da morte”, do projeto AmorTSer, profissionais que acompanham pacientes e familiares durante processos de fim de vida, oferecendo acolhimento emocional e orientação prática. Segundo Colla, elas atuam de forma semelhante às doulas do nascimento, mas estão voltadas para a despedida. 

Hirson explica que essas profissionais ajudam tanto no acolhimento emocional quanto nas questões práticas que surgem nesse período. “Quando alguém morre, as pessoas frequentemente não sabem o que fazer. Vai cremar? Vai enterrar? Como conseguir os documentos? Que providências precisam ser tomadas? Existe uma desorientação muito grande”, afirma. 

Para elas, os cemitérios observados durante a pesquisa revelam muito mais do que práticas funerárias. “O cemitério é quase uma microcidade, ali aparecem as diferenças de classe, as áreas mais cuidadas, as mais abandonadas, as ruínas, os afetos. É um retrato muito potente da sociedade”, ressalta Colla. 

Espetáculo em construção

Apesar do grande volume de material acumulado, as artistas afirmam que ainda estão em busca da forma cênica capaz de reunir todas essas experiências. O desafio envolve articular relatos de campo, histórias pessoais, registros documentais, reflexões filosóficas e experiências de luto. “Estamos no meio de um nó”, resume Colla. “Temos materiais de naturezas muito diferentes, experiências humanas muito fortes e muitas perguntas ainda sem resposta.”

O desafio agora é transformar esse percurso por hospitais, cemitérios e histórias de luto em uma experiência poética capaz de falar sobre a morte sem perder de vista a vida. “Estamos tentando encontrar uma forma que permita abordar esse tema com profundidade, mas também com delicadeza.”

Espetáculo SerEstando Mulheres atravessa uma trajetória

Além da pesquisa para o projeto, a atriz Ana Cristina Colla segue apresentando o espetáculo solo SerEstando Mulheres, atração deste mês dentro do projeto Lume em Casa, nos dias 20 e 21 junho, às 20h, na sede do grupo (Rua Carlos Diniz Leitão, 150, em Barão Geraldo, Campinas).

A programação integra as comemorações dos 60 anos da Unicamp e o projeto Palco DCult, iniciativa da Diretoria de Cultura (DCult), vinculada à Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (ProEEC). A entrada é gratuita, com parte dos ingressos reservados pela plataforma Sympla e parte com retirada uma hora antes do início das atividades.

 espetáculo reúne personagens construídos ao longo de diferentes processos criativos do grupo
O espetáculo reúne personagens construídos ao longo de diferentes processos criativos do grupo Foto: Arthur Amaral

Criado em 2012, SerEstando Mulheres nasceu quando a atriz completava duas décadas de trabalho no Lume e participava de encontros nacionais e internacionais de mulheres artistas. Naquele momento, conta, o tema do feminino atravessava intensamente suas reflexões. “Olhei para trás e vi quantas mulheres já tinham passado pelo meu caminho, quantas eu tinha encontrado em cena ou fora dela. Foi daí que nasceu o desejo de reuni-las.”

O espetáculo reúne personagens construídos ao longo de diferentes processos criativos do grupo. Estão ali mulheres encontradas em pesquisas de campo realizadas no interior de Goiás, Tocantins e Amazonas, personagens inspirados em pessoas em situação de rua observadas em São Paulo e no Rio de Janeiro e figuras ficcionais criadas em sala de ensaio.

Mais do que revisitar espetáculos antigos, explica Colla, o trabalho procura revelar as histórias dessas mulheres e os atravessamentos que elas produziram em sua própria trajetória. “O que costura tudo não é a técnica, nem o espetáculo de onde elas vieram. O que costura é aquilo que me atravessa. São mulheres muito diferentes, mas que de alguma maneira passaram a fazer parte de mim.”

Embora tenha surgido a partir de uma proposta de desmontagem – prática comum nas artes da cena em que artistas revisitam seus próprios processos criativos –, SerEstando Mulheres tomou outro caminho. Em vez de revelar bastidores ou técnicas de criação, Colla decidiu colocar as personagens no centro da narrativa. “Não queria mostrar como elas foram construídas. Queria trazer essas mulheres para perto”, afirma.

Ao final da apresentação, a atriz sintetiza essa ideia em uma frase que se tornou uma espécie de marca do espetáculo: “Essa sou eu vestida de todas essas mulheres.”

Com estrutura simples – um tapete, um tambor, uma cadeira e poucos adereços –, a montagem foi concebida para circular com facilidade. “Queria um espetáculo que coubesse numa mala”, afirma. A escolha permitiu que o espetáculo percorresse diferentes países ao longo dos últimos anos, como México, Cuba, Argentina, Costa Rica e Portugal, além de circular por diversas regiões do Brasil, incluindo presídios femininos, praças e espaços alternativos.

Para Colla, uma das descobertas mais bonitas dessa trajetória foi perceber como aquelas personagens encontravam eco em públicos muito distintos. “Essas mulheres acabam encontrando outras mulheres em cada lugar por onde passam. As histórias são diferentes, mas existe alguma coisa que se reconhece.”

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cemitério nossa senhora de aparecida em manaus
Cemitério Nossa Senhora de Aparecida, em Manaus

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A vida em números: Unicamp celebra legado e avanços da biomatemática 

Por:tote
3 de Junho de 2026, 10:01
biomatemática IMECC
Grupo de professores do IMECC: juntos transformam cálculos em políticas públicas

Os professores colocados lado a lado para uma foto no hall de entrada do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (Imecc), da Unicamp, formam uma verdadeira seleção. Juntos, eles transformaram a frieza dos cálculos e tabelas em ações práticas e políticas públicas que orientam governos e salvam vidas pelo Brasil afora. Há 40 anos, inspirados na ideia de “jogar diferente com os números”, eles perceberam que uma improvável parceria entre matemáticos e biólogos daria jogo e, melhor, resultados positivos.  Assim, passaram a se dedicar ao time da biomatemática.

À biologia cabe apresentar os fenômenos complexos da vida. A matemática os organiza em padrões mensuráveis e analisáveis. O resultado disso é uma área interdisciplinar que aplica ferramentas, modelos e teorias para estudar, simular e prever fenômenos e sistemas biológicos. O objetivo aqui é traduzir vários aspectos da vida em equações e gráficos, permitindo testar cenários, analisar dinâmicas de populações e compreender a incidência e avanço de doenças, por exemplo.

Em 1980, a ideia de criar um dos primeiros grupos brasileiros dessa vertente de pesquisa surgiu, ainda como possibilidade. A forma de ação foi sendo dada a partir de trabalhos de iniciação científica com alunos da graduação, orientados pelo professor Rodney Bassanezi que, de acordo com uma reportagem jornalística da época, seguiu à risca o objetivo de “derrubar barreiras que sempre tornavam difíceis as interações entre matemáticos e biólogos”.

biomatemática IMECC
Professores que integram o grupo considerado referência da biomatemática no Brasil

A partir de 1986, o mesmo Bassanezi, em parceria com os colegas João Frederico Meyer, Laércio Vendite, Laécio Carvalho de Barros, Wilson Castro Ferreira Júnior e Estevão Esmi Laureano – mais recentemente, a equipe ganhou o reforço da professora Jaqueline Godoy Mesquita – formaram o grupo que é considerado referência da biomatemática no país.

Outro impulso para que o trabalho avançasse foi uma série de palestras realizadas na Universidade, em junho de 1989, pelo israelense-estadunidense Lee Segel, professor do Instituto Weizmann, de Israel. Ele consolidou o caminho para que a biomatemática se expandisse na Unicamp. O próprio Segel se autodefinia como um “pregador em busca de seguidores”.

Nesta época, uma das pesquisas desenvolvidas na Universidade observava a dinâmica do crescimento de tumores cancerígenos e sua resistência às drogas quimioterápicas. O trabalho era feito em parceria com o Hospital da Mulher Prof. Dr. José Aristodemo Pinotti – Caism. Tratava-se da continuação de uma pesquisa desenvolvida pelo professor Laércio Vendite, também da Unicamp, em sua tese de doutorado realizada em Trento, na Itália.

Juntamente com um grupo de oncologistas italianos, Vendite desenvolveu um modelo matemático para analisar a resistência adquirida pelas células tumorais após certo tempo de tratamento com quimioterápicos. A partir do tamanho inicial do tumor era possível saber que fração dele passava a ser resistente à droga. Através de simulações sobre velocidade de crescimento do tumor, taxa de mutação e de destruição das células cancerígenas pelo medicamento, o modelo matemático determinava o momento em que o tratamento deixava de fazer efeito e havia a necessidade da troca das drogas utilizadas, otimizando as ações.

A sintonia entre duas áreas, aparentemente, tão distantes chamou a atenção da sociedade ao redor e de outros estudantes naquele final de década. De acordo com reportagem do jornal Folha de S. Paulo, publicada em junho de 1989, dos então 11 mestrandos admitidos pelo Departamento de Matemática Aplicada da Unicamp, oito haviam escolhido a área da biomatemática.

Ao longo dessas quatro décadas, o grupo contribuiu para o desenvolvimento de modelos matemáticos aplicados a problemas reais da sociedade. O impacto da propagação de epidemias, dinâmica populacional, desenvolvimento de medicamentos, controle de pragas agrícolas, poluição ambiental, previsão da eficácia de tratamentos, genética e hereditariedade, além de aplicações em sistemas biológicos e médicos são alguns dos muitos exemplos. Nesse contexto, é interessante destacar que a matemática não serve apenas para “resolver contas”, mas para identificar padrões; fazer previsões; reduzir incertezas e apoiar decisões.

Lógica Fuzzy

Com um olhar um pouco mais apurado sobre o trabalho desenvolvido, é importante mencionar a utilização da chamada Lógica Fuzzy nos levantamentos feitos pela equipe do Imecc. Ela foi apresentada ao mundo em 1965 pelo engenheiro e cientista da computação azerbaijano-americano Lotfi Zadeh, que lecionava na Universidade da Califórnia, em Berkeley (EUA). O professor criou um método que permitia ao computador entender e processar informações com base na linguagem e raciocínio humanos, que não vivem apenas de certezas absolutas. A Lógica Fuzzy permite que a análise de uma máquina possa avaliar e atuar com certos graus de imprecisão, exatamente como o cérebro faria. Estamos falando de algo que, hoje, pode ser aplicado ao funcionamento da Inteligência Artificial.

biomatemática IMECC
A Lógica Fuzzy permite que a análise de uma máquina possa avaliar e atuar com certos graus de imprecisão, exatamente como o cérebro faria

Em paralelo, para reforçar as infinitas possibilidades da biomatemática, o grupo tem trabalhado em conjunto com a Faculdade de Ciências Médicas (FCM) no diagnóstico de câncer de próstata. “A partir de trabalhos acadêmicos, foi produzido um software para predizer o estadiamento (processo médico que avalia a localização, tamanho e extensão de uma doença no corpo) da doença”, explica o professor Barros.

Outro trabalho diz respeito aos riscos de incêndios florestais, que são calculados a partir de variáveis físicas (altitude, tipologia florestal, presença de estradas e cursos d’água). Tal indicador envolve modelos de Machine Learning e a já mencionada Lógica Fuzzy para que, a partir dos dados reais georreferenciados, seja possível identificar localidades em uma determinada região que possuem uma maior propensão à ocorrência dos incêndios florestais, otimizando as tomada de decisão pelo Poder Público.

O professor Estevão Esmi, há uma década no grupo, também utiliza a Lógica Fuzzy em trabalhos em parceria com a FCM, já tendo desenvolvido desde um sistema de auxílio para diagnóstico de endometriose até questões envolvendo UTIs para gestantes de alto risco. “Atualmente, tenho trabalhado na elaboração de um sistema computacional baseado em aprendizagem de máquina que auxilie na elaboração assertivas de laudos de Transtorno do Espectro Autista”, conta ele.

Com tantas vertentes de atuação, o professor Barros menciona que, além da formação de um grande número de pessoas nessa área ao longo de 40 anos da biomatemática, um dos sólidos legados do grupo são os materiais didáticos – livros e uma revista -, que pode ser acessada pelo link: https://www.ime.unicamp.br/~biomat/revistas.htm.

Representatividade

Os anos passaram e novos integrantes surgiram, como a professora Jaqueline Godoy Mesquita, atual presidente da Sociedade Brasileira de Matemática e da Unión Matemática da América Latina e Caribe. Ela é a única mulher do grupo até o momento. “A representatividade é extremamente importante. Recentemente, tivemos a aprovação de mais uma mulher em um concurso na área de Matemática Aplicada, e espero muito que ela venha integrar o grupo, fortalecendo ainda mais essa presença feminina. Embora tenhamos observado avanços importantes, ainda existe uma sub-representação significativa. A presença de mulheres em espaços de pesquisa, liderança e tomada de decisão é fundamental porque gera identificação e inspira novas gerações”, comenta ela. “A biomatemática também pode, e deve, ser um espaço de representatividade, mostrando às jovens estudantes que elas pertencem a esse universo e podem ocupar qualquer posição que desejarem”, reforça a professora.

Pandemia

Jaqueline Mesquita lembra que, durante a pandemia do coronavírus, modelos matemáticos foram aplicados para apoiar decisões relacionadas a quarentenas, prever ondas de contágio e entender a dinâmica da propagação da covid. “Mas a biomatemática vai muito além da área da Saúde. Hoje, diante de desafios como as mudanças climáticas e o aquecimento global, ela também pode ser uma grande aliada para modelar fenômenos ambientais, estudar impactos em ecossistemas, prever cenários futuros e contribuir para soluções sustentáveis. É uma área que está diretamente conectada à melhoria da qualidade de vida e ao enfrentamento de problemas que afetam toda a sociedade”, aponta.

Futuro

De acordo com o professor Laércio Vendite, a biomatemática evoluiu de maneira muito significativa nas últimas quatro décadas graças também à tecnologia. “No início, muitos estudos trabalhavam com modelos mais teóricos e com capacidade computacional bastante limitada. Hoje, temos acesso a grandes volumes de dados, computadores muito mais potentes e ferramentas capazes de analisar sistemas biológicos extremamente complexos em tempo real”, explica ele. “Essa evolução aproximou ainda mais a biomatemática de áreas como medicina, genética, epidemiologia e neurociência, ampliando suas aplicações práticas na sociedade”, explica.

biomatemática IMECC
Professor João Frederico Meyer

O colega Laécio de Barros acredita que o legado da biomatemática é bastante animador. “Assim como diversas áreas da Matemática Aplicada, acreditamos que a nossa também irá, naturalmente, lançar mão de novas tecnologias na busca de tratar temas ligados à vida de modo geral; podendo ir da psicologia às questões de conforto ambiental. Falo desses dois porque já fomos consultados por especialistas das áreas, sobre a possibilidade de auxiliá-los de alguma forma”, conta.

Nesse contexto, a Inteligência Artificial passou a ter um papel cada vez mais importante. A IA permite, por exemplo, processar quantidades consideráveis de dados biológicos e médicos, identificar padrões difíceis de serem percebidos por métodos tradicionais e tornar os modelos biomatemáticos mais precisos e rápidos. “Atualmente, biomatemática e Inteligência Artificial caminham de forma bastante integrada em diversas pesquisas, especialmente em áreas como diagnóstico médico, previsão de epidemias, medicina personalizada e desenvolvimento de medicamentos”, detalha Vendite.

Ainda segundo ele, mais do que substituir os modelos matemáticos clássicos, a IA surge como uma ferramenta que amplia a capacidade de análise e abre novas possibilidades para a pesquisa científica. A tendência é que a biomatemática tenha um papel cada vez mais estratégico no futuro, principalmente em áreas que exigem previsão, análise de grandes volumes de dados e tomada de decisões rápidas.

Medicina personalizada

Na Saúde, por exemplo, a expectativa é avançar na chamada “medicina personalizada”, em que modelos matemáticos poderão ajudar a indicar tratamentos mais adequados para cada paciente, considerando características genéticas e clínicas específicas.

Também há um grande potencial em áreas como mudanças climáticas, preservação ambiental, agricultura sustentável e estudo do envelhecimento populacional.

“No fundo, a biomatemática tende a se consolidar como uma ponte entre os dados e as decisões. Em um mundo cada vez mais complexo, ela oferece ferramentas para transformar informações dispersas em conhecimento útil para a ciência e para a sociedade”, aponta Vendite.

Recentemente, o Imecc recebeu um evento científico na área de biomatemática reunindo pesquisadores de diversas partes do mundo, como Bulgária, Canadá, Chile, Estados Unidos, Espanha, Índia, Itália, Polônia, Portugal, República Tcheca e Turquia. “Isso demonstra não apenas a qualidade científica desenvolvida aqui, mas também a capacidade da Unicamp de promover conexões internacionais e fortalecer colaborações em escala global”, atesta a professora Jaqueline Mesquita, deixando claro que ela e seus companheiros de time continuam avançando no campo da Ciência, e rápido.

Europa é o ‘berço’

A Europa é o berço da disciplina, mas ela ganhou o formato que conhecemos hoje na década de 1920, com o desenvolvimento independente das equações de predação pelo biofísico nascido na Ucrânia, Alfred James Lotka, e pelo matemático italiano Vito Volterra. Já como disciplina acadêmica formal, a primeira pós-graduação em biomatemática foi iniciada em 1947, nos Estados Unidos, na Universidade de Chicago, pelo biofísico russo Nicolas Rashevsky.

Conferência

Uma conferência realizada na segunda quinzena de maio no Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (Imecc) celebrou Martin Bohner, matemático de reconhecimento internacional e professor da Missouri University of Science and Technology. Bohner é amplamente conhecido por seu papel pioneiro no desenvolvimento das equações dinâmicas em escalas temporais, teoria que unifica equações diferenciais e de diferenças e impactou pesquisas em diversas áreas do conhecimento.

Autor de mais de 350 artigos e sete livros, Bohner também exerceu importante liderança acadêmica como editor de periódicos científicos e presidente da International Society of Difference Equations. Esta conferência celebrou seus 60 anos e homenageou uma carreira marcada pela excelência científica, colaboração e profunda contribuição à comunidade matemática internacional.

Aplicações da Matemática

  • Epidemiologia: uso de modelos matemáticos para prever a propagação de doenças infecciosas e planejar estratégias de vacinação ou contenção;
  • Ecologia: análise de interações entre espécies, dinâmica de crescimento populacional e preservação de espécies ameaçadas;
  • Genética e Evolução:  estudo de mutações, frequência de genes em populações ao longo do tempo e heredogramas utilizando probabilidade e estatística;
  • Biomedicina e Farmacologia: simulações de como medicamentos se espalham no organismo e cálculo da dosagem ideal para tratamentos;
  • Fisiologia: modelagem matemática do funcionamento de órgãos específicos, como a forma que o sangue flui no sistema circulatório ou os impulsos elétricos no coração. 

Fonte: Imecc

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biomatemática IMECC
Grupo de professores no prédio do IMECC

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Morre o filósofo Edgar Morin, formulador da teoria da complexidade

Por:tote
1 de Junho de 2026, 11:26
edgard morin morre
Edgar Morin, um dos mais influentes intelectuais do século 20

O filósofo e sociólogo francês Edgar Morin, um dos mais influentes intelectuais do século 20 e formulador da teoria da complexidade, morreu aos 104 anos, na sexta-feira (29), em Paris. Autor de uma obra que atravessa áreas como filosofia, sociologia, educação, ciência e política, Morin deixou uma contribuição decisiva para a compreensão dos desafios contemporâneos.

O pensador defendia a reabilitação do princípio da “desordem” na ciência e questionava a crença nas verdades absolutas. Em uma de suas reflexões mais conhecidas, escreveu que “toda vida é um navegar num oceano de incertezas, atravessando algumas ilhas ou arquipélagos de certezas”, frase que sintetiza uma das ideias centrais de seu pensamento e a busca por compreender a complexidade da experiência humana.

Nascido em Paris, em 8 de julho de 1921, como Edgar Nahoum, Morin participou da Resistência Francesa durante a ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial. Foi nesse período que adotou o sobrenome pelo qual se tornaria conhecido internacionalmente. Formado em Direito, História e Geografia pela Sorbonne, sua obra mais conhecida é O Método, série de seis volumes publicada entre 1977 e 2004, na qual desenvolve a teoria da complexidade.

Segundo Morin, os fenômenos não podem ser compreendidos de forma isolada, pois estão inseridos em sistemas interligados e sujeitos a relações de dependência, incerteza e transformação permanente. Ao longo de mais de sete décadas de produção intelectual, publicou cerca de 80 livros. Entre os mais conhecidos estão Ciência com consciência, Terra-Pátria e Os sete saberes necessários à educação do futuro, obra elaborada a convite da Unesco e amplamente difundida em debates educacionais em diversos países.

Para Morin, o primeiro desafio do conhecimento era admitir suas próprias limitações. “O conhecimento não se constrói sem o risco de erro. Mas o erro desempenha papel positivo quando é reconhecido, analisado e superado”, escreveu.

Defensor de uma ciência aberta ao diálogo entre diferentes áreas do conhecimento, Morin acreditava que os grandes problemas da humanidade não poderiam ser resolvidos por disciplinas isoladas. Sua proposta de um pensamento capaz de conectar saberes transformou-se em referência para pesquisadores, educadores e formuladores de políticas públicas em todo o mundo.

Mesmo após completar 100 anos, Morin manteve intensa atividade intelectual. Em suas últimas entrevistas, insistia na necessidade de uma consciência planetária capaz de enfrentar desafios globais como as mudanças climáticas, as desigualdades sociais e as crises democráticas. Também alertava para a ilusão de um progresso inevitável, lembrando que “nenhuma conquista histórica é irreversível”.

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Na Unicamp, Banco Mundial defende reabilitação do papel do Estado na política industrial

Por:tote
29 de Maio de 2026, 15:44
O Banco Mundial, que defendeu durante décadas políticas de liberalização econômica e maior protagonismo do mercado, reabilitou a política industrial em seu relatório “Industrial Policy for Development: Approaches in the 21st Century
Apresentação de relatório no Instituto de Economia da Unicamp: mudança de posição

O Banco Mundial, que defendeu durante décadas políticas de liberalização econômica e maior protagonismo do mercado, reabilitou a política industrial em seu relatório “Industrial Policy for Development: Approaches in the 21st Century” [Política Industrial para o Desenvolvimento: Abordagens no Século 21], divulgado em março. Essa mudança de posicionamento, em meio a um cenário de desaceleração econômica, avanço do protecionismo e disputa tecnológica global, esteve no centro dos debates do seminário “Política Industrial para o Desenvolvimento: O Banco Mundial em Transformação”, realizado nesta sexta-feira (29 de maio), no Instituto de Economia (IE) da Unicamp.

O evento reuniu Marcos Chiliatto, diretor executivo do Banco Mundial no Brasil, egresso do IE, e os coautores do relatório, a portuguesa Ana Margarida Fernandes e o norte-americano Tristan Reed. 

Chiliatto destacou que a mudança de posição da instituição representa uma revisão importante de um modelo predominante desde os anos 1990, no contexto do chamado Consenso de Washington. “Naquela época, o Banco Mundial tinha uma posição muito reticente com relação à política industrial. Existe um documento clássico publicado em 1993, chamado “O Milagre do Leste Asiático”. A própria ideia de ‘milagre’ já carregava uma interpretação de que o sucesso asiático não vinha da política pública, mas de condições muito específicas, difíceis de reproduzir”, explica.

Segundo ele, a leitura predominante naquele período era de que experiências de industrialização conduzidas pelo Estado, como as observadas no Leste Asiático, tinham baixa possibilidade de replicação em outros países e alto risco de fracasso. “O banco recomendava que os países não seguissem esse caminho, defendendo que eles deveriam se concentrar em estabilidade macroeconômica e deixar que os mercados produzissem o desenvolvimento”, completa. 

Chiliatto destaca que essa posição sempre encontrou resistência em instituições como a Unicamp. “O Instituto de Economia sempre teve uma tradição crítica. Por isso, fiz questão de apresentar o relatório na Unicamp, que teve professores que ajudaram a construir uma perspectiva própria latino-americana sobre desenvolvimento”, afirma.

No relatório, o diagnóstico é de que a visão anterior “envelheceu mal como um disquete”. “[O novo relatório é] basicamente um reconhecimento de que as evidências acumuladas ao longo dos últimos 30 anos mostram que vários países — ricos e em desenvolvimento — fizeram política industrial com resultados importantes.”

Marcos Chiliatto, diretor executivo do Banco Mundial no Brasil
Marcos Chiliatto, diretor executivo do Banco Mundial no Brasil

Segundo ele, o estudo mapeou experiências em mais de 180 países e concluiu que a política industrial tem maior possibilidade de ser replicada do que se imaginava nos anos 1990. “Os professores da Unicamp certamente dirão que essas evidências já existiam antes. Mas o importante é que agora o Banco Mundial reconhece isso institucionalmente.”

Chiliatto comparou o papel da instituição ao de um banco de desenvolvimento. “O Banco Mundial funciona, em certa medida, como um BNDES global. Ele oferece financiamento de longo prazo para infraestrutura, energia e políticas públicas, mas também leva conhecimento e experiências acumuladas em diferentes países.” Como exemplo, cita a parceria da instituição na criação do Bolsa Família. “Quando o presidente Lula lançou o programa, o Banco Mundial participou do desenho da política, da concepção e da construção do Cadastro Único. Depois, essa experiência brasileira foi levada para vários países africanos”, conta.

Segundo o diretor, países emergentes como Brasil, México, Colômbia e Indonésia passaram a defender que o Banco Mundial também pudesse atuar como parceiro em estratégias de política industrial. “Se o banco podia colaborar em políticas sociais, por que não poderia colaborar também em política industrial? Essa demanda foi crescendo ao longo do tempo.” Para Chiliatto, o novo relatório representa justamente essa mudança institucional. “É uma revisão importante. Quando novas evidências mostram que uma posição estava equivocada, é preciso revê-la. Na ciência, é assim que funciona.” 

“O relatório recebe críticas tanto de economistas heterodoxos quanto ortodoxos. Muitos dizem que essa mudança ainda é tímida, e essa crítica faz sentido. O banco continua insistindo na importância de fundamentos como educação, infraestrutura, estabilidade macroeconômica e responsabilidade fiscal”, destaca. Ainda assim, Chiliatto considera que a mudança já representa um passo significativo. “O fato de o Banco Mundial reconhecer explicitamente que políticas industriais podem funcionar e serem replicáveis já é uma transformação institucional importante.”

Atento ao tema
A economista Ana Margarida Fernandes, uma das coautoras, destaca a relevância de debater o relatório, que levou cerca de um ano e meio para ser elaborado. “É importante mostrar que o Banco Mundial está atento. Foi um processo longo, de muita análise de dados, estudos e evidências.”

Segundo ela, o objetivo foi reunir e analisar sucessos e fracassos de políticas industriais em diferentes países nas últimas décadas. “Escrevemos este relatório para poder informar melhor os países emergentes sobre o que pode funcionar, o que pode correr bem e quais são as possibilidades.”

O Brasil contou com uma série de apresentações do relatório, no Ministério da Fazenda, em Brasília, em uma conferência sobre política industrial no Rio de Janeiro, e na Fundação Getulio Vargas (FGV), em São Paulo, antes do seminário na Unicamp. “Houve perguntas difíceis, algumas críticas também, mas estamos satisfeitos com o fato do Banco Mundial tratar deste tema”, afirmou. 

O economista norte-americano Tristan Reed, coautor do relatório, lembrou que um dos principais objetivos do estudo foi entender, a partir de evidências recentes, quais instrumentos de política industrial realmente funcionam. Segundo ele, durante muito tempo o debate ficou excessivamente concentrado em subsídios ou proteção tarifária, quando, na prática, políticas industriais envolvem um conjunto muito mais amplo de instrumentos, como qualificação profissional, infraestrutura, financiamento, apoio à inovação, universidades e instituições de pesquisa. “Muitas vezes, os maiores impactos não vêm apenas de incentivos fiscais, mas da construção de capacidades produtivas e tecnológicas ao longo do tempo”, afirma.

O economista observou ainda que políticas industriais eficazes exigem coordenação institucional e continuidade. Segundo ele, países que conseguiram avançar tecnologicamente combinaram apoio estatal com metas claras de desempenho, competição entre empresas e mecanismos de avaliação. “O importante não é simplesmente proteger setores, mas criar condições para que empresas aprendam, inovem e se tornem competitivas”, completa.

tristan reed economista
O economista Tristan Reed
Ana Margarida Fernandes economista
A economista Ana Margarida Fernandes

Reed aponta que “transformações estruturais levam tempo. Construir capacidades tecnológicas, formar mão de obra qualificada e consolidar novos setores produtivos não acontece rapidamente.”

Segundo o economista, o relatório procura justamente oferecer um conjunto de evidências práticas para orientar governos na formulação dessas políticas. “A questão hoje não é mais se os países devem ou não fazer política industrial, mas como desenhar políticas mais eficazes, adaptadas às capacidades e aos objetivos de cada economia”, concluiu.

Orientações práticas

O relatório reabilita a política industrial ao analisar o crescimento global mais lento, a transformação do mercado de trabalho, o avanço da automação, o aumento do protecionismo e a disputa tecnológica entre países. O texto traz orientações práticas, baseadas em evidências de mais de 60 economias, e identifica abordagens específicas para que os governos utilizem a política industrial com diferentes objetivos: gerar divisas, criar empregos, reduzir a poluição ou fortalecer a segurança e a resiliência.

O documento identifica 15 instrumentos de política industrial, organizados em três grupos: insumos públicos direcionados, incentivos de mercado e intervenções macroeconômicas. Entre eles estão parques industriais, programas de qualificação profissional, apoio à exportação, subsídios empresariais, exigências de conteúdo local, compras governamentais e incentivos à inovação.

Os dados apresentados mostram que, entre as economias de renda média-alta, os subsídios totais às empresas representam atualmente uma média de 4,2% do Produto Interno Bruto (PIB), o valor mais alto já registrado. Em outras palavras, a política industrial nunca desapareceu: os governos a praticaram enquanto o Banco Mundial pregava o contrário.

O Banco Mundial, que defendeu durante décadas políticas de liberalização econômica e maior protagonismo do mercado, reabilitou a política industrial em seu relatório “Industrial Policy for Development: Approaches in the 21st Century
Relatório debatido no IE: estudo mapeou experiências em mais de 180 países

Um dos pontos centrais do relatório é a crítica ao uso indiscriminado de medidas protecionistas. Em um dos trechos mais enfáticos, os autores afirmam que muitos governos ainda utilizam “marretas” quando deveriam trabalhar com “bisturis”, ao comparar tarifas amplas e subsídios generalizados com instrumentos mais precisos e direcionados. O texto defende ainda que políticas industriais tenham prazo definido e sejam constantemente avaliadas. A recomendação é de que governos retirem incentivos quando empresas não atingirem metas de desempenho, inovação e competitividade.

Ao final, o documento sintetiza a nova posição do Banco Mundial em uma formulação pragmática: a questão já não é mais decidir se governos devem ou não fazer política industrial, mas descobrir quais instrumentos funcionam em cada contexto e como evitar desperdício de recursos públicos. 

O relatório está disponível online


Acúmulo histórico de reflexão sobre o tema

Na abertura, o diretor do IE, Célio Hiratuka, lembrou a tradição do Instituto nos estudos sobre o tema. “[Estou] feliz pela presença de especialistas”, destacou. O professor do IE André Biancarelli, organizador do seminário, ressaltou que a realização do debate na Unicamp carrega um peso simbólico. “Aqui existe um acúmulo histórico de reflexão sobre desenvolvimento, indústria e papel do Estado. A Unicamp sempre teve economistas que defendem políticas industriais mesmo quando isso virou quase um palavrão nos anos 1990”, diz.

Professores do IE ligados ao debate desenvolvimentista brasileiro, como Mariano Laplane e Renato Garcia, também participaram do evento. Laplane apontou que o relatório representa uma inflexão importante e reconhece algo que diversos pesquisadores do campo do desenvolvimento já vinham apontando há décadas: mercados, sozinhos, não conseguem produzir as transformações estruturais necessárias para reduzir desigualdades e ampliar capacidades produtivas.

 “Há hoje um reconhecimento maior de que políticas públicas, coordenação estatal e instituições têm papel decisivo nos processos de desenvolvimento”, afirmou.
Mariano Laplane
economista renato garcia
Renato Garcia

“Há hoje um reconhecimento maior de que políticas públicas, coordenação estatal e instituições têm papel decisivo nos processos de desenvolvimento”, afirmou. Laplane também chamou atenção para os desafios enfrentados por países em desenvolvimento diante das novas disputas tecnológicas e da reorganização da economia mundial. “Construir capacidades produtivas exige tempo, coordenação institucional e investimentos contínuos em ciência, tecnologia e educação”, afirmou.

O professor do IE Renato Garcia ressaltou que o debate sobre o tema faz parte de uma trajetória histórica. Ele foi aluno do economista Wilson Suzigan, referência nacional nos estudos sobre desenvolvimento industrial, falecido em abril, na disciplina Política Industrial e Desenvolvimento, hoje ministrada por ele no Instituto de Economia. “Foi ali que aprendi que política industrial é, antes de tudo, uma política de desenvolvimento”, diz.

celio hiratuka
O diretor do IE, Celio Hiratuka
andré biancarelli
O organizador do evento, André Biancarelli

“O professor Suzigan sempre defendia que os países ricos criticavam a política industrial no discurso, mas continuavam utilizando instrumentos de apoio tecnológico, científico e produtivo”, lembra. Garcia observa que o novo relatório reconhece que políticas industriais podem impulsionar inovação, produtividade e geração de empregos, desde que sejam usadas com objetivos claros, capacidade técnica e mecanismos de avaliação. 

Garcia destaca que o novo relatório incorpora parte desse debate acumulado ao reconhecer que não existe um modelo único. “O relatório reconhece algo que aqui sempre foi debatido: desenvolvimento não acontece sem estratégia, instituições e política pública”, completa.

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 “Há hoje um reconhecimento maior de que políticas públicas, coordenação estatal e instituições têm papel decisivo nos processos de desenvolvimento”, afirmou.
Discussão sobre relatório do Banco Mundial a respeito da política industrial

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Unicamp aprova criação do Centro de Pesquisas para Sustentabilidade

Por:tote
29 de Maio de 2026, 11:04
Simpósio realizado em abril sobre o assunto
Simpósio realizado em abril: a partir da publicação da deliberação, Cocen terá 18 meses para implantação do CPqS

Em sessão realizada no dia 26 de maio, o Conselho Universitário da Unicamp (Consu) aprovou por unanimidade a criação do Centro de Pesquisas para Sustentabilidade (CPqS). A nova estrutura será resultado da fusão entre o Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação (NEPA) e o Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam), três unidades com trajetória consolidada em áreas complementares.

O novo centro nasce com a missão de reunir competências já consolidadas na Universidade para produzir conhecimento e apoiar respostas aos desafios contemporâneos em diferentes escalas, do local ao global. 

“Apresentamos essa proposta ao conselho por entendermos que é um projeto maduro que trará ganhos importantes à Universidade. A aprovação, em sessão histórica, representa não apenas uma reorganização administrativa, mas a consolidação de uma estratégia baseada na integração de competências e na produção de conhecimento orientado a problemas complexos”, declara Raluca Savu, coordenadora da Coordenadoria de Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa da Unicamp (Cocen).

A partir da publicação da deliberação, a Cocen terá prazo máximo de 18 meses para conduzir a implantação do CPqS e organizar as etapas necessárias para o início de seu funcionamento.

raluca savu, coordenadaora do Cocen
Raluca Savu, coordenadora do Cocen
Foto: Lúcio Camargo
ana carolina maciel, ex-cocen
Ana Carolina Maciel: inúmeras possibilidades
Foto: Lúcio Camargo

“A sustentabilidade do planeta será pauta no mundo por, pelo menos, algumas décadas. Este centro vai monitorar e projetar cenários em diferentes escalas espaciais e temporais, buscando soluções inovadoras e inclusivas para o enfrentamento das crises planetárias”, complementa Savu.

O novo centro será organizado em quatro grandes áreas de pesquisa: Clima, biodiversidade e sistemas socioecológicos; Agricultura, produção, sistemas alimentares e bem-estar; Governança, políticas públicas e transformações sociais; e Cultura e comunicação para a sustentabilidade. 

A partir desses eixos, reunirá estudos sobre diferentes temas, incluindo modelagem climática e de ecossistemas, impactos do clima na agricultura, sensoriamento remoto, segurança alimentar e nutricional, desenvolvimento de produtos alimentícios, educação ambiental, memória, patrimônio, direitos humanos e arqueologia pública. 

Na avaliação das coordenações das três unidades de pesquisa envolvidas, a integração deve ampliar a capacidade da Unicamp de produzir conhecimento interdisciplinar e aproximar ainda mais a pesquisa da sociedade.

Até a posse da primeira coordenação do novo centro, Cepagri, NEPA e Nepam seguirão em funcionamento. A extinção formal das três unidades será realizada somente após essa etapa.

A proposta prevê um prédio próprio em terreno já reservado ao Cepagri, próximo ao Museu Exploratório de Ciências. 

Construção coletiva 

“Está posto pela ciência que a sustentabilidade é uma questão de sistemas complexos cujas partes se retroalimentam”, declara Cristiana Seixas, coordenadora adjunta do Nepam.

Seixas conta que a criação do CPqS resultou de uma articulação “de baixo para cima”, construída a partir do diálogo entre os envolvidos. “Foi muito trabalhoso e levou quase quatro anos desde que surgiu a ideia até este dia histórico de aprovação no Consu”, afirma.

aline vieira, nepam
Aline Vieira, coordenadora do Nepam
alline tribst coordenador nepa
Alline Tribst, coordenadora do NEPA
davi lapola cepagri
David Lapola, coordenador do Cepagri

Essa articulação ganhou impulso entre 2022 e 2023, no contexto do Edital Convergências Cocen, iniciativa idealizada por Ana Carolina de Moura Delfim Maciel, então coordenadora do órgão, para estimular projetos conjuntos entre Centros e Núcleos Interdisciplinares da Unicamp em torno de grandes desafios contemporâneos. 

Embora o edital previsse inicialmente convergências em torno de projetos específicos de pesquisa, as dinâmicas revelaram afinidades mais amplas entre Cepagri e Nepam, abrindo caminho para uma aproximação acadêmica e institucional mais estrutural. Em 2025, o NEPA entrou formalmente na articulação. 

O processo envolveu 25 reuniões com pesquisadores e funcionários das três unidades. Versões preliminares da proposta também foram discutidas com a coordenação e o corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Sociedade, atualmente sediado no Nepam e vinculado ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH).

“Sem dúvida, as três unidades já eram muito conceituadas, mas entendemos que o CPqS será maior que a soma dessas unidades e potencializará ainda mais pesquisa, formação de recursos humanos e extensão universitária”, complementa Seixas.

cristiana seixas coordenadora ajudnta do nepam
Cristiana Seixas, coordenadora adjunta do Nepam Foto: Antonio Scarpinetti

O coordenador do Cepagri, David Lapola, observa que o CPqS formaliza uma aproximação já existente na prática. “O novo Centro nasce da convergência entre trajetórias que já dialogavam há décadas dentro da Universidade.”

Segundo Lapola, a criação do Centro responde a uma demanda própria da ciência contemporânea. “Do ponto de vista científico, faz muito sentido aumentar o nível de interdisciplinaridade das pesquisas. A sustentabilidade exige isso. Basta olhar para os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas), que são profundamente interdisciplinares.”

Já Alline Tribst, coordenadora do NEPA, destaca que o Núcleo leva ao CPqS uma trajetória de mais de 40 anos em pesquisas sobre alimentação, abrangendo temas como segurança alimentar, desenvolvimento de processos e políticas públicas.

Para Tribst, a aproximação com as áreas de clima e meio ambiente abre novas possibilidades para pesquisas sistêmicas sobre sistemas alimentares sustentáveis, adaptação às mudanças climáticas e soluções voltadas à mitigação dos impactos das crises planetárias.

“A expectativa das equipes de pesquisa e dos servidores em relação à fusão é positiva, especialmente pela perspectiva de maior integração entre áreas complementares, de fortalecimento institucional, de ampliação de projetos e de criação de uma estrutura mais moderna e colaborativa”, relata Tribst.

Do Convergências ao CPqS

O Projeto Convergências foi inspirado em uma missão acadêmica realizada por Maciel em Paris, em 2022, no Institut Convergences Migrations, sediado no Campus Condorcet.

“Voltei profundamente impactada por aquele modelo organizacional, que reúne centenas de pesquisadores de diferentes instituições e áreas do conhecimento em torno de temas complexos e estratégicos para a sociedade”, relata.

A experiência motivou um mapeamento das possíveis convergências temáticas entre os Centros e Núcleos Interdisciplinares da Cocen, tomando como referência os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). 

“O resultado foi surpreendente: identificamos inúmeras possibilidades de investigação conjunta que ainda eram pouco exploradas”, relembra Maciel.

A partir desse diagnóstico, a Cocen promoveu workshops e dinâmicas com pesquisadores, docentes e dirigentes dos Centros e Núcleos, movimento que levou ao primeiro Edital Convergências.

“Isso posiciona a Unicamp num patamar de excelência, alinhando-se às mais bem-sucedidas experiências internacionais. Essa iniciativa vai impactar a sociedade mediante a condução de pesquisas orientadas pelos grandes desafios contemporâneos que, seguramente, vão oferecer respostas transformadoras”, avalia Maciel. 

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Unicamp lidera ranking de depósito de patentes entre universidades de SP 

Por:tote
29 de Maio de 2026, 09:43
Pessoa utilizando jaleco azul e óculos de proteção, segurando um pequeno frasco de laboratório em frente a uma superfície transparente com anotações de fórmulas e esquemas químicos escritos em azul, em ambiente laboratorial.
A Universidade registrou 73 dos 1.957 depósitos de patente de invenção que compõem o ranking

Pelo terceiro ano consecutivo, a Unicamp lidera o ranking de maiores depositantes de pedidos de patente entre as universidades paulistas, segundo a classificação divulgada pelo Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (Inpi), nesta semana. Na lista geral do Ranking de Depositantes de 2025, a Unicamp avançou uma posição em relação ao ano anterior, ocupando o quinto lugar no país, entre empresas privadas e outras instituições públicas de ensino e pesquisa. 

A Universidade, por meio de sua Agência de Inovação Inova Unicamp, registrou 73 dos 1.957 depósitos de patente de invenção que compõem o ranking. O número manteve a curva de crescimento que levou a um aumento de mais de 80% no acumulado de três anos.  No topo da lista também aparecem a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), com 94 e 84 depósitos de pedido de patente, respectivamente, além da Universidade de São Paulo, com 65 pedidos.

“A permanência da Unicamp entre os destaques do ranking do Inpi reflete o amadurecimento de ações estratégicas contínuas da Inova”, disse Renato Lopes, diretor-executivo da Inova Unicamp. 

“Esse crescimento expressivo no acumulado de três anos demonstra que nossa proximidade com docentes, pesquisadores e alunos tem gerado resultados sólidos e sustentáveis”, acrescentou.

Ecossistema

O ranking do Inpi, baseado nos resultados de 2025, apontam o destaque do ecossistema universitário paulista, que conta com instituições como a Unicamp, a USP, a Universidade Estadual Paulista (Unesp) e a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Juntas, elas somaram 189 depósitos, com quatro pedidos em codepósito entre elas. 

O impacto positivo das universidades e dos institutos de ciência e tecnologia na proteção da propriedade intelectual e inovação se traduz em números expressivos na lista do Inpi, visto que o setor de Educação responde por 20,9% dos participantes do ranking.

Um dos trunfos d a Inova Unicamp para manter presença e relevância no cenário de proteção da propriedade intelectual são as formas de conexão com a comunidade interna. 

Em 2025, a Agência lançou uma disciplina de propriedade intelectual e inovação para a pós-graduação, com objetivo de capacitar os alunos para o uso estratégico do sistema patentário e ampliar o potencial de transformação das pesquisas acadêmicas em soluções que possam ser aplicadas na sociedade.

Além disso, oferece as oficinas Busca de Anterioridade em Bases de Patentes e Mentorias Individuais em Propriedade Intelectual, que ajudam alunos, docentes e pesquisadores a verificar se seus resultados de pesquisa são passíveis de algum tipo de proteção (patente, registro de programa de computador, cultivar etc.). 

No último ano, a Agência também ampliou as atividades com a implementação do InovaLab, um programa de aproximação com laboratórios, unidades, centros e núcleos de pesquisa da Unicamp. Seu objetivo principal é fomentar a inovação, identificar oportunidades de proteção e transferência de tecnologias e conectar a comunidade acadêmica a oportunidades de conexão com empresas interessadas em parcerias de pesquisa.

“O resultado visto no ranking do Inpi, com a Unicamp entre os maiores depositantes de patentes do país, é resultado de uma atuação contínua voltada à consolidação da cultura de proteção da propriedade intelectual no cotidiano da comunidade acadêmica”, avalia a supervisora de propriedade intelectual na Inova, Elisama Campelo.

A Inova Unicamp foi criada em 2003 com o objetivo de identificar oportunidades e promover atividades que estimulam a inovação e o empreendedorismo, ampliando o impacto do ensino, da pesquisa e da extensão em favor do desenvolvimento socioeconômico sustentado. 

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Casa de Sérgio Buarque de Holanda resgata universo íntimo do historiador

Por:tote
27 de Maio de 2026, 14:42
Sérgio Buarque de Holanda e o filho, o compositor e escritor Chico Buarque
Retrato de Sérgio Buarque e o filho Chico Buarque de Holanda

Na Rua Buri, número 35, no bairro do Pacaembu, em São Paulo, um casarão em estilo normando evoca memória, história e resistência. Foi ali que o historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) viveu entre 1957 e 1982 e escreveu parte de sua obra. A casa volta a ocupar simbolicamente seu lugar de encontro intelectual, nesta sexta-feira (29 de maio), às 14h, com a abertura do “Ciclo Buarqueano”, cujo primeiro evento, “A casa do historiador: Sérgio Buarque na Rua Buri”, reúne exposição e palestras.

A iniciativa, realizada no contexto das comemorações dos 60 anos da Unicamp, reconstrói, entre livros, fotografias, documentos e lembranças, o ambiente do autor de Raízes do Brasil (1936), cujo acervo está, desde 1983, preservado na Universidade, dividido entre o Arquivo Central do Sistema de Arquivos da Unicamp (Siarq/Unicamp) e a Biblioteca de Obras Raras (Bora). 

O evento busca ampliar as ações culturais e acadêmicas desenvolvidas na residência, que atualmente sedia atividades formativas da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. “É o primeiro passo de uma articulação entre a Universidade, o Arquivo Público do Estado de São Paulo e a Secretaria Municipal para ampliar a oferta de ações culturais e acadêmicas no local”, destaca o curador da exposição, Thiago Nicodemo, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e diretor do Arquivo Público do Estado de São Paulo.

casa de sérgio buarque de holanda ganha nova função
Thiago Nicodemo (esq.) na casa da Rua Buri, ao lado do escritor Fernando Morais Foto: Divulgação

Nicodemo dedicou cerca de 15 anos ao estudo da obra de Sérgio Buarque e lançou dois livros sobre o historiador, Urdidura do Vivido – Visão do Paraíso e a Obra de Sérgio Buarque de Holanda nos Anos 1950 (Edusp, 2008) e Alegoria Moderna – Crítica Literária e História da Literatura na Obra de Sérgio Buarque de Holanda (Unifesp, 2014), além de Uma introdução à história da historiografia brasileira 1870-1970 (FGV, 2018), que também aborda sua obra.

“O Sérgio sempre foi uma referência intelectual muito forte para mim. Não apenas pela interpretação do Brasil que ele construiu, mas também pela maneira como articulava história, literatura, cultura e vida pública”, diz. “Sempre sonhei em conectar o acervo com a casa de uma forma orgânica, que respeitasse a memória do autor, mas apontasse também para o futuro”, afirma.

A proposta é estabelecer uma “cooperação técnica” para transformar a casa em um espaço permanente de pesquisa, memória e circulação pública de conhecimento. “Essa casa não é apenas um imóvel histórico. Ela concentra experiências intelectuais, políticas e afetivas e ajuda a entender não só a obra, mas o ambiente de sociabilidade intelectual que marcou sua trajetória”, ressalta. 

ambiente de trabalho de sérgio buarque de holanda recriado na Unicamp
Ambiente de trabalho do historiador Sérgio Buarque de Holanda, recriado na Unicamp

Co-curador da exposição, Luccas Maldonado, doutor em História pela Unicamp, destaca que os arquivos de Sérgio Buarque tiveram papel decisivo na consolidação das humanidades dentro da universidade. Para ele, o projeto envolve ainda a discussão sobre a democratização do acesso. “Não é apenas estudar os arquivos, mas pensar em como utilizá-los e organizá-los.”

Nas primeiras visitas ao local para o projeto, Nicodemo foi acompanhado pelo jornalista e escritor Fernando Morais que, durante sua gestão como secretário estadual de educação, em 1982, foi o primeiro a propor preservar a residência e fazer dela um centro de pesquisas para professores da rede pública. O espaço só foi adquirido formalmente pela Prefeitura de São Paulo em 2007. 

A casa de 450 m² ocupa quase todo o terreno da Rua Buri. Há jardins na frente e nos fundos, onde as cinzas do historiador foram depositadas. A residência ficou conhecida pela circulação de artistas, pesquisadores, estudantes, jornalistas e amigos. Entre os frequentadores, estavam Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Antonio Candido, Caio Prado Júnior, Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso e Chico Buarque, um dos sete filhos do casal Sérgio e Maria Amélia.

Há relatos de festas que atravessavam madrugadas, mas a casa também foi espaço de escuta, abrigo e resistência durante a ditadura militar. Com o telefone grampeado, a família criou códigos para avisar sobre prisões e perseguições políticas. 

O Ciclo Buarqueano terá continuidade em agosto, quando a historiadora Lilia Schwarcz coordenará uma mesa em celebração aos 90 anos de Raízes do Brasil

Acervo precioso

O acervo de Sérgio Buarque de Holanda na Unicamp é um dos conjuntos documentais mais importantes da Universidade, com manuscritos, cartas, fotografias e documentos pessoais reunidos no Siarq, e livros, periódicos, prêmios e móveis de sua biblioteca na Bora. 

Janaína Santos, coordenadora do Siarq, destaca que a abertura do Ciclo Buarqueano “demonstra como os arquivos e as instituições de pesquisa e de educação podem se articular”. Para ela, a parceria entre a Unicamp, o Arquivo Público do Estado e a Secretaria Municipal de Educação pode gerar inúmeras possibilidades de cooperação.

“Exposições, atividades de extensão, visitas mediadas, ações pedagógicas, seminários, projetos de pesquisa e iniciativas voltadas à formação de estudantes e professores e à aproximação de públicos mais amplos dos arquivos e da produção de conhecimento, por exemplo”, afirma.

casa de sérgio buarque de holanda ganha nova função - Foto Janaína Santos
A supervisora técnica Telma Murari
Coordenadora do Siarq, Janaína Santos

Santos destaca que o Siarq, em conjunto com a Bora, é central nesse processo. “A Unicamp abriga um patrimônio de enorme valor histórico, intelectual e cultural, que vem sendo preservado, organizado e disponibilizado à pesquisa ao longo dos anos. Nesse sentido, o Siarq e a Bora contribuem não apenas como guardiões desse legado, mas também como agentes ativos em sua difusão”, completa. 

A coordenadora da Bora, Danielle Thiago Ferreira, lembra que a chegada da coleção de Sérgio Buarque de Holanda à Unicamp contribuiu para a criação e a consolidação de estruturas voltadas à preservação de coleções especiais, tanto na Bora quanto no Siarq.

casa de sérgio buarque de holanda ganha nova função Foto: Danielle Thiago
Coordenadora da Bora, Danielle Ferreira

Para Ferreira, participar da ocupação simbólica da casa da Rua Buri representa também uma forma de devolver ao público a memória do espaço. “Queremos deixar esse legado. Não apenas a memória do historiador, mas também da própria casa e do que ela significou”, afirma. Para a exposição, livros com anotações do historiador e imagens da antiga biblioteca do intelectual vão recriar parte do ambiente original do casarão.

A coordenadora da Bora destaca ainda que a coleção de Sérgio Buarque permanece entre as mais procuradas por pesquisadores. “Muitas obras têm dedicatórias, grifos e anotações feitas por ele. Isso é muito importante para quem pesquisa, porque permite acompanhar como ele lia e dialogava com os textos”, explica. 

No Siarq, parte dessa memória é organizada em fichários, que também serão apresentados no evento. A supervisora técnica Telma Murari lembra que o acervo, inicialmente incorporado à biblioteca da Unicamp, passou gradualmente para o Arquivo, ajudando a fortalecer a estrutura dedicada à preservação de arquivos pessoais e institucionais. “Quando começou o trabalho de difusão dos arquivos, a Universidade passou a receber muitos outros acervos importantes. Isso ajudou a fortalecer o órgão que existe hoje”, afirma.

PROGRAMAÇÃO

14h30: Abertura do Ciclo Buarqueano, com Thiago Nicodemo

15h: 40 anos do acervo de Sérgio Buarque de Holanda na Unicamp: balanço e perspectivas – Danielle Thiago Ferreira e Janaína Andiara dos Santos

15h30: Acervos em disputa: uma análise da memória buarqueana – Luccas Maldonado e Thiago Nicodemo. Mediação: Leopoldo Waizbort

Quando a Rua Buri virou cinema

Antes de voltar a receber visitantes com o evento “A casa do historiador: Sérgio Buarque na rua Buri”, o casarão do Pacaembu foi revisitado pelo cinema. Em 2002, o diretor Nelson Pereira dos Santos (1928-2018), de filmes como Vidas Secas e Memórias do Cárcere, lançou Raízes do Brasil, cinebiografia dedicada ao historiador. O filme transformou a residência da Rua Buri em uma espécie de território afetivo da história intelectual brasileira.

casa de sérgio buarque de holanda ganha nova função
Casa na Rua Buri se transformou numa espécie de território afetivo da intelectualidade brasileira

Parte das filmagens foi realizada na própria casa da família e parte na Unicamp. O documentário mistura imagens históricas do Brasil, fotografias da família, cenas do cotidiano da casa e leituras de trechos de Raízes do Brasil. Em uma das cenas, Sérgio Buarque surge caminhando pela casa, em um de seus raros registros em vídeo. O filme também recupera a atmosfera de encontros que marcou o endereço durante décadas como um espaço frequentado por intelectuais, músicos, estudantes e jornalistas, com conversas sobre literatura e política que atravessavam a madrugada.

Ao mesmo tempo em que revisita a trajetória intelectual do autor, o filme constrói um retrato íntimo de Sérgio Buarque: o pai, o avô, o anfitrião cercado de amigos, o homem que atravessou o modernismo, a universidade e os anos da ditadura sem abandonar a crença em um pensamento brasileiro independente.

Os depoimentos ajudam a compor esse retrato. Amigos próximos como Antonio Candido e Paulo Vanzolini aparecem ao lado de filhos e netos do historiador. Em uma das entrevistas mais marcantes, Maria Amélia, companheira de Sérgio Buarque por décadas, relembra episódios da vida familiar com humor e delicadeza. Entre os narradores do documentário está Zeca Buarque, neto do historiador, que cursou História na Unicamp e foi assistente de direção do longa. 

Em 2004, o cineasta falou sobre o documentário em entrevista à TV Unicamp. Confira

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Rede de pesquisadores inicia o mais amplo estudo sobre as condições de trabalho já feito no Brasil

Por:tote
25 de Maio de 2026, 15:14
Grupo de pesquisadores do INCT sentados ao redor de uma mesa de reunião para discutir aspectos que envolvem o trabalho no Brasil
Pesquisadores reunidos na Unicamp para a discussão sobre o trabalho no Brasil

Membros do comitê gestor do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia, Trabalho, Inclusão e Equidade (INCT-Trabalho), órgão ligado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CPNq), deram início ao mais amplo diagnóstico sobre as condições dos trabalhadores já realizado no Brasil. O grupo, que se reuniu no final da semana passada na Unicamp, projeta lançar até 2030 pesquisas, seminários, atividades de interlocução com a sociedade e uma série de publicações, incluindo livros virtuais, artigos e capítulos acadêmicos voltados ao debate sobre inclusão, equidade social, precarização e desvalorização do trabalho.

Dividida em oito eixos temáticos (veja quadro), a iniciativa reúne cerca de 60 pesquisadores brasileiros e 38 estrangeiros, de países da América Latina, Europa e Canadá, todos articulados em torno de uma rede interdisciplinar de estudos. As atividades prometem apresentar um diagnóstico aprofundado da situação atual do trabalho no país, avançar na reflexão teórico-metodológica referente aos estudos desse setor e propor diretrizes para futuras políticas públicas relacionadas ao tema.

Além disso, os integrantes do INCT querem promover mais visibilidade e qualificação do debate público sobre o tema do trabalho e contribuir para seu reposicionamento na agenda nacional. O grupo prevê a implementação de um programa de pesquisa próprio, articulado a uma interlocução ativa com atores sociais estrategicamente posicionados no mundo do trabalho.

Integram o comitê gestor os professores da Unicamp José Dari Krein, do Instituto de Economia (IE), e Andréia Galvão, professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política do IFCH; além deles, participam também Renata Dutra, da Universidade de Brasília (UnB), Adalberto Cardoso, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), José Ricardo Ramalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Maria Aparecida Bridi, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), coordenadora-adjunta do grupo, e Roberto Veras de Oliveira, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), coordenador dos trabalhos.

Avaliação

O projeto parte da avaliação de que o país enfrenta uma crise marcada por mudanças econômicas, sociais, tecnológicas e ambientais que afetam especialmente as classes trabalhadoras. Segundo os pesquisadores, fatores como a financeirização da economia, a reorganização produtiva global e a crise ambiental se somam a problemas históricos brasileiros, como informalidade, desigualdade estrutural e fragilidades institucionais.

“Temos muitos desafios. A reunião nos ajudou a avançar no planejamento das atividades, na divisão do trabalho entre o comitê gestor e os pesquisadores e na definição de mecanismos e critérios para promover a maior integração dos eixos. Almejamos produzir dados novos, quantitativos e qualitativos, por meio de pesquisas sobre as transformações nas relações e condições de trabalho. Isso requer analisar de modo sistemático uma série de fatores que interferem nesse processo”, afirma Andréia Galvão, citando o papel do Estado em seus diferentes níveis, as políticas de desenvolvimento de diferentes governos, o papel do empresariado e a atuação dos sindicatos e movimentos que lutam por direitos sociais e trabalhistas, além das questões tecnológicas, ambientais e demográficas, com recorte de gênero, raça e idade.

Imagem de uma carteira de trabalho
Carteira de trabalho: INCT é articulação de uma década Foto: Antoninho Perri

“O planejamento das atividades nos ajuda na condução das pesquisas coletivas, na realização do trabalho analítico, mas também a dimensionar nossa capacidade de intervenção no debate público sobre esses temas. Ele visa a realizar pesquisas coletivas no interior de cada um dos eixos, o que requer atribuir tarefas muito precisas a seus participantes, para que todos possam se engajar”, acrescenta ela.

O professor José Dari Krein lembra que o INCT é resultado de uma articulação construída ao longo de mais de uma década e fortalecida a partir da criação da Rede de Estudos e Monitoramento Interdisciplinar da Reconfiguração do Trabalho (Remir Trabalho), formada inicialmente para acompanhar os desdobramentos da reforma trabalhista no Brasil.

“O projeto parte da premissa de que o trabalho continua sendo um elemento estruturador da vida social e que sua centralidade precisa ser reposicionada diante das mudanças econômicas, tecnológicas e culturais das últimas décadas. O diagnóstico desenvolvido pelo grupo considera fatores como o avanço da inteligência artificial, da automação e da internet das coisas, além das transformações provocadas pela globalização, mudanças climáticas e aumento da precarização das relações de trabalho”, comenta Krein. “Esse conjunto de mudanças ampliou a insegurança social e reduziu mecanismos de proteção aos trabalhadores.”

Precarização

O INCT foi criado para analisar as transformações contemporâneas do mundo do trabalho no Brasil e seus impactos sobre a sociedade. Reunindo pesquisadores de diferentes áreas, a iniciativa busca compreender fenômenos como a precarização do trabalho, a flexibilização das relações trabalhistas, os efeitos das novas tecnologias e o aprofundamento das desigualdades sociais. Os oito eixos temáticos que serão trabalhados nos livros virtuais correspondem a situações críticas do mundo do trabalho contemporâneo. 

Ações

O INCT adota uma estrutura de governança colegiada e em rede para coordenar suas atividades de pesquisa, formação e interlocução social. A organização foi concebida para integrar diferentes áreas do conhecimento e dar suporte à amplitude temática e territorial do projeto.

OS EIXOS DA PESQUISA

1 – A incapacidade de as políticas de desenvolvimento gerarem melhorias de renda consistentes e duradouras para as classes trabalhadoras 

2 – A persistência das desigualdades sociais e sua articulação com os padrões de trabalho 

3 – As implicações das transformações demográficas sobre o mundo do trabalho

4 – A tendência de flexibilização do trabalho e a desconstrução dos direitos laborais

5 – Os efeitos das inovações organizacionais e tecnológicas nas dinâmicas ocupacionais e nas relações de trabalho   

6 – As implicações da crise ambiental e da transição energética para o trabalho 

7 – As fragilidades das lutas das classes trabalhadoras por direitos

8 – As inconsistências das políticas de inclusão laboral e de promoção da equidade  

Fonte: INCT-Trabalho

Grupo de pesquisadores discute aspectos do trabalho no Brasil: oito eixos
Grupo de pesquisadores discute aspectos do trabalho no Brasil: oito eixos

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Projeto sobre máscaras e tradição valoriza saberes populares brasileiros

Por:tote
22 de Maio de 2026, 11:28

A troca de saberes com mestres da cultura popular é o ponto de partida do projeto “Máscara, Festa e Cena: Manifestações Tradicionais Brasileiras”, cuja primeira edição teve início na quinta-feira, 21. Em dois dias de evento, oralidade e memória se conectam à formação acadêmica em uma troca de experiências sobre tradições populares. 

Realizada pelo Grupo de Pesquisa TeCe:ETC em parceria com o Departamento de Artes Cênicas do Instituto de Artes (IA), a iniciativa propõe ampliar os referenciais trabalhados na graduação. O primeiro convidado é Mestre Aguinaldo Silva, artista popular de Condado (PE), reconhecido por sua atuação nas manifestações culturais Cavalo Marinho e no Maracatu Rural.

Mestre Aguinaldo Silva
Mestre Aguinaldo Silva, professor visitante e Notório Saber em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia (BA)

A professora responsável pela disciplina de máscaras nas artes cênicas, Erika Velloso Lemos Schwarz, afirma que a proposta surgiu da necessidade de trazer para a Universidade referências que extrapolam os modelos tradicionalmente ensinados nas escolas de teatro. ““Tenho buscado trazer referências latino-americanas e brasileiras para a disciplina. São saberes corporificados, territoriais e ancestrais de pessoas que produzem conhecimento e arte para além de uma formação apenas intelectual ou técnica”, explica.

Para a professora, a presença de mestres populares provoca uma revisão dos referenciais tradicionalmente valorizados na formação artística. Segundo ela, muitas vezes, o ensino das máscaras no teatro é centrado em tradições europeias, enquanto manifestações brasileiras permanecem à margem dos currículos acadêmicos. “Existe uma herança muito forte franco-italiana, e a ideia é ampliar essas referências”, afirma.

De acordo com Schwarz, nesse primeiro encontro, o trabalho desenvolvido com os estudantes envolve tanto a história das máscaras quanto a experiência prática de confecção e utilização desses objetos em cena. “A máscara esconde e revela ao mesmo tempo. Você cobre o rosto, mas revela o corpo, o movimento.”

O objetivo é que o programa tenha continuidade, reunindo mestres de diferentes manifestações populares brasileiras. “É um projeto que está relacionado com preservação da memória, mas também com a valorização do corpo que pesquisa e produz conhecimento”, completa.

A pesquisadora adrielly Monticelli
Adrielly Monticelli
a professora Erika Velloso Lemos Schwarz
Erika Velloso Lemos Schwarz

A aproximação entre universidade e cultura popular tem mobilizado pesquisas de pós-graduação. A pesquisadora do IA Adrielly Monticelli estuda as máscaras no teatro e destaca que o contato com mestres populares amplia as possibilidades de investigação artística. “Quando falamos de máscara, a referência costuma ser muito eurocentrada. Trazer um mestre da cultura popular para dentro da universidade cria uma troca muito rica. É importante que esses conhecimentos circulem”, afirma. “Uma pessoa sai do seu território para compartilhar aquilo que construiu ao longo da vida. Isso transforma a pesquisa.”

Monticelli conheceu o trabalho de Mestre Aguinaldo durante estudos ligados ao teatro de máscaras em Santo André (SP) e pretende visitar Pernambuco para assistir ao Cavalo Marinho em seu território de origem. “Assistir fora já é potente, mas viver isso no lugar onde pertence é outra experiência.”

Folguedo e fantasia
Na Zona da Mata Norte de Pernambuco, entre os intervalos do trabalho nos canaviais, nasceu o folguedo Cavalo Marinho, que mistura teatro, música, dança, poesia e improviso a partir de 76 personagens, entre humanos, animais e seres fantásticos. Nas apresentações, o enredo é conduzido pela música executada por um conjunto conhecido como “banco”, formado por rabeca, pandeiro, bagé, ganzá e reco-reco. 

Mestre Aguinaldo Silva, professor visitante e Notório Saber em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia (BA), é dançarino, tocador e brincador de Cavalo Marinho desde os 12 anos de idade. Seu primeiro papel foi o de “dama”, personagem masculino vestido com roupas femininas. “Foi difícil no começo. Cidade pequena, eu tinha medo da reação dos colegas. Mas fui me acostumando e segui dentro da brincadeira”, contou.

Com o passar dos anos, tornou-se galante, contramestre e depois mestre do grupo fundado pelo pai. Hoje, aos 60 anos, carrega uma tradição familiar que já chega à quinta geração. “A gente precisa passar isso pra não deixar morrer.”

Atualmente, na função de professor universitário, sente orgulho de mostrar sua tradição. “Ver no olhar dos alunos como eles ficam encantados com as histórias do Cavalo Marinho, com a dança, com os movimentos das figuras, é muito importante”, destacou. “É uma vivência muito grande levar isso para dentro da universidade. Os alunos querem saber, perguntam, se interessam. O que for do meu saber, eu passo. Quanto mais a gente compartilha, mais a cultura continua viva.”

Foto de Capa

mascaras construidas por aguinaldo silva
Máscaras construídas pelo Mestre Aguinaldo Silva e expostas na Unicamp


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Grupos pedem urgência na aprovação do fim da escala 6×1

Por:tote
21 de Maio de 2026, 16:47
Grupos defendem urgência na aprovação do fim da escala 6x1
O professor Dari Krein (ao microfone) em seminário no Instituto de Economia: produtividade compensa redução de jornada

O Brasil viveu um aumento de produtividade do trabalho de 12% entre os anos de 2012 e 2024. Esses ganhos, no entanto, não estão sendo repassados para os trabalhadores. O custo médio da hora trabalhada no país é considerado baixo, contabilizando U$ 6,31 em 2022. No Chile, por exemplo, que já pratica a jornada de 40 horas semanais, esse valor é de U$ 13,35. 

Os dados apresentam um cenário favorável e podem cobrir os custos com a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais e o fim da escala 6×1 (6 dias de trabalho e um dia de descanso) — em discussão no Congresso Nacional. Isso é o que defendem os participantes do seminário “Redução da Jornada de Trabalho e Fim da Escala 6×1”, realizado no Instituto de Economia (IE) da Unicamp na última sexta-feira (15). 

O evento reuniu pesquisadores, membros do governo federal, do Legislativo, centrais sindicais e movimentos sociais, que reforçaram a urgência da aprovação das mudanças na lei trabalhista. 

Conforme o  professor José Dari Krein, do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) do IE, o objetivo era apresentar argumentos em diferentes perspectivas — econômicas, sanitárias, sociais, históricas, jurídicas e outras — e promover o diálogo intersetorial. “Há uma série de questões que os setores mais conservadores estão colocando no debate e que podem criar problemas para essa bandeira efetivamente avançar, então é preciso ter certa vigilância sobre o debate”, apontou Krein. 

As discussões tiveram como base o “Dossiê sobre Redução da Jornada de Trabalho e Fim da Escala 6×1”, composto por 36 artigos produzidos por 56 pesquisadores. Além das questões econômicas, os artigos mostram que mais de mais de 90% dos trabalhadores que trabalham na escala 6×1 relatam danos à saúde física e mental. Mulheres, pretos e pardos e aqueles que ganham até dois salários mínimos são a maioria dos trabalhadores na escala 6×1, evidenciando desigualdades sociais na disponibilidade de tempo livre fora do trabalho. 

Isso impacta, também, a capacidade de qualificação: 40% dos jovens entre 14 e 29 anos disseram ter abandonado os estudos por conta do trabalho. Ademais, 40% dos trabalhadores nessa escala têm apenas o ensino médio completo. 

De acordo com Krein, as pesquisas apontam que as mudanças trabalhistas melhorariam índices de saúde, educação, igualdade e democracia e teriam caráter civilizatório. Ouça o áudio. 

Baixa produtividade exige investimento tecnológico

Para o secretário-executivo do Ministério do Trabalho e Emprego, Francisco Macena, não se pode jogar a culpa da baixa produtividade das empresas na carga horária dos trabalhadores, mas na baixa digitalização dos empreendimentos. “Se a gente discutir, através de políticas públicas, como aumentar a produtividade fazendo essa transformação tecnológica, podemos reduzir a jornada de trabalho para 36 [horas semanais] com ganhos de produtividade. Isso vale para todos os setores da economia”, disse. 

Macena ressaltou, ainda, que os custos provenientes das mudanças são absorvidos pela produtividade, e que as empresas deixam de contabilizar outros custos relevantes. No caso da construção civil, por exemplo, “o custo da burocracia de licenciamento para poder realizar uma obra representa, hoje, 15,3% do custo da obra”.  

Ele comentou quais os setores econômicos mais afetados pela possível mudança:

O argumento de que pequenas e médias empresas serão as mais afetadas, pois possuem grande parte da força de trabalho na escala 6×1, não é a realidade do mercado, disse o secretário. “Temos 941 mil CNPJs que trabalham com escala 6×1; e 1,9 milhão de CNPJs de pequenas e médias empresas que já estão na escala 5×2”, exemplificou. 

A expectativa do governo, corroborada pelos participantes do seminário, é da aprovação das 40 horas semanais, com pelo menos dois dias de descanso remunerado por semana (escala 5×2), sem período de transição e sem redução salarial. 

Porém, Macena admitiu a possibilidade de um prazo maior para a efetivação da redução da jornada de trabalho, como defende parte dos membros do Congresso Nacional. “Se o Senado demorar para votar, e tivermos uma transição de 30, 60 ou 90 dias, a mudança pode ocorrer no ano que vem, mas nós queremos ainda este ano.” 

O escalonamento, contudo, diminuiria o impacto positivo das mudanças, defendeu Cássio Calvete, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenador do site Democracia e Mundo do Trabalho em Debate. 

Mudança pode gerar novos empregos

Marilane Teixeira, professora e pesquisadora do Cesit/IE, explicou que o processo de adaptação das empresas à nova jornada pode levar à reorganização dos processos de trabalho e ao aumento de contratações, principalmente em setores como comércio e serviços:

Teixeira também mencionou o alto custo dos processos de contratação e demissão, considerando a alta rotatividade do mercado de trabalho atual. “Temos que analisar se compensa manter o custo social dessa jornada [6×1] — que causa adoecimento, alta rotatividade e sobrecarga de trabalho — diante de uma redução da jornada de trabalho que vai criar mais mais qualidade de vida, diminuir a rotatividade, os adoecimentos e os afastamentos do trabalho.”

A pesquisadora também ressaltou os efeitos positivos para os trabalhadores sem carteira assinada. Nesse caso, a jornada de 40 horas semanais funcionará como referência para os acordos de trabalhos informais, além de auxiliar a incluir uma parcela dessa população em novos postos de trabalho formais.

Pejotização ameaça direitos

O coordenador do Fórum das Centrais Sindicais, Clemente Ganz Lúcio, disse haver a expectativa de que o Congresso vote a matéria até junho. Reforçou, ainda, a importância da pressão popular para concretizar essa demanda. Mas alertou para o risco de a oposição tentar descaracterizar as conquistas por meio de emendas: 

Lúcio chamou a atenção para a discussão em andamento no Supremo Tribunal Federal (STF), por meio do Tema 1.389, que avalia a licitude da contratação de trabalhador autônomo ou pessoa jurídica (PJ) para a prestação de serviços, a chamada “pejotização”.

“São milhares de trabalhadores que, hoje, trabalham como subordinados a uma empresa como PJ. Se as pessoas se transformarem em PJ, o direito à jornada de trabalho de 40 horas morre, porque uma empresa não tem férias, não tem salário, não tem licença-maternidade… Tudo aquilo que a CLT [Consolidação das Leis do Trabalho] define como direito do trabalhador vai por terra.” O coordenador defendeu que o debate seja levado ao Poder Legislativo para reverter a “pejotização” em curso.

Mobilização popular inseriu demanda na agenda pública

O movimento social Vida Além do Trabalho (VAT) é considerado um dos principais responsáveis por popularizar a demanda pelo fim da escala 6×1, que foi alçada na agenda pública a partir da mobilização dos trabalhadores. “Não precisamos apenas de descanso, precisamos de tempo para viver. A escala 6×1 limita muito a vida”, destacou o coordenador estadual do VAT no Rio de Janeiro, Lucas de Oliveira. Segundo ele, o medo de perder o emprego afasta muitos trabalhadores da luta. 

No áudio, Oliveira fala sobre a origem do movimento e ressalta que o VAT expressa um desejo da classe trabalhadora.

Psicólogo e sanitarista, Oliveira coordena os Grupos Terapêuticos Vida Além do Trabalho e afirmou que, através dos relatos dos participantes, observa os efeitos do desgaste mental e físico gerado pelo trabalho. O espaço é aberto a todos os trabalhadores e tem encontros remotos quinzenais. “Trabalhamos conceitos como transtornos mentais relacionados ao trabalho, lesão por esforço repetitivo e doenças ósseas moleculares.”

O seminário foi organizado por Ana Cláudia Moreira Cardoso, Cássio da Silva Calvete, José Dari Krein e Sadi Dal Rosso, com participação do site Democracia e Mundo do Trabalho em Debate, Associação Brasileira de Estudos do Trabalho (Abet), Cesit, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (FCE/UFRGS), Núcleo Nordeste para a constituição da Rede de Estudos e Monitoramento da Reforma Trabalhista (Remir), Grupo de Estudos e Pesquisas para o Trabalho da Universidade de Brasília (GEPT/UnB), FES e Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

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ato contra escala 6x 1 no rio de janeiro
 Ato contra a escala 6×1 realizada no Rio de Janeiro Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

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Oftalmologista transforma recomeços e memórias em literatura

Por:tote
20 de Maio de 2026, 11:57
A ofalmologista Mônica Alves sentada à mesa folheando um livro aberto de páginas amareladas, com óculos e outros materiais sobre a superfície, em ambiente de escritório com cadeira ao fundo.
Mônica Alves: pequenos textos, escritos como quem tenta organizar o que sente, transformaram-se em livro

“O inalcançável é sempre azul”, afirma a epígrafe de Clarice Lispector na abertura do livro Azul, da oftalmologista Mônica Alves, professora da Faculdade de Ciências Médicas (FCM). Durante muito tempo, a escrita ocupou um espaço silencioso na vida da médica. Não havia projeto literário, ambição editorial ou planos de publicação. O que existia eram cadernos repletos de anotações, frases surgidas na madrugada e pensamentos registrados entre um compromisso e outro. Esses pequenos textos, escritos como quem tenta organizar o que sente, transformaram-se em seu livro de estreia, lançado no início deste ano. 

O que estava guardado em um território íntimo ganhou um novo lugar. “Escrevia muito para mim mesma. Nunca imaginei que pudesse virar um livro”, conta Alves. Foi em um contexto de reconstrução, quando foi obrigada a uma reorganização completa da rotina, que sua escrita deixou de ser apenas um hábito silencioso. “Sempre adorei ler e acho que quem lê, de alguma forma, acaba escrevendo. Minha vida inteira foi do lado de lá, como leitora”, destaca. “Agora é estranho, e bonito, perceber que as pessoas podem entrar neste lugar tão íntimo que é a minha escrita.”

Durante a pandemia, enquanto escrevia parte dos textos, a médica enfrentava o fim do casamento e, simultaneamente, dois concursos decisivos na Unicamp. O primeiro, para livre-docência, já vinha sendo preparado há anos. O segundo apareceu de maneira inesperada após a morte de um professor do departamento, abrindo uma vaga de docente aguardada havia quase uma década. “Eu estava devastada emocionalmente”, lembra. “E, ao mesmo tempo, precisava escrever tese, preparar provas, organizar toda a vida profissional.”

Foi justamente nesse contexto de instabilidade que a escrita ganhou ainda mais espaço. Paralelamente à carreira acadêmica, a oftalmologista passou a frequentar oficinas de escrita criativa organizadas durante a pandemia por um grupo de amigas, reunidas inicialmente em torno de encontros femininos que misturavam culinária, leitura, meditação e conversa. As reuniões virtuais abriram espaço para exercícios literários e novas experimentações com a linguagem. “Aprendi a escrever para além do que eu só sentia”, afirma. “A misturar histórias, criar personagens, transformar sentimentos em outra coisa.”

Embora profundamente pessoal, Azul incorpora essa experiência: parte dos textos nasceu diretamente da intimidade, mas outra surgiu dos exercícios de escrita criativa. “Tem muito de mim, mas também tem invenção, mistura e deslocamento.”

Ao mesmo tempo, ela começou a digitalizar os inúmeros textos espalhados em cadernos. Aos poucos, percebeu que havia construído um arquivo extenso. O material foi enviado para amigas próximas, entre elas a livreira Adriana Haddad, da livraria Candeeiro, em Campinas, e a psicanalista e artista plástica Gabriela Sampaio Monteiro, que enxergaram ali um livro. Em um processo coletivo, afetivo e artesanal, o projeto ganhou forma, com ilustrações de Monteiro e com a chegada do escritor e poeta Diego Pansani, do Lume Teatro, que entrou na história para acompanhar a organização e edição dos textos. A diagramação e o projeto gráfico são de Henrique Pasti.

A autora define Azul como um conjunto de “fragmentos”. “Alguns textos se aproximam da poesia, outros lembram pequenas narrativas ou anotações confessionais”, afirma. O livro foi organizado em três partes – Cobalto, Celeste e Turquesa – como variações emocionais de um mesmo azul. A cor que dá nome ao livro vem de uma lembrança antiga. Na adolescência, a autora assistiu ao filme A Liberdade É Azul (1993), primeiro longa da Trilogia das Cores, do cineasta polonês Krzysztof Kieślowski. “Fiquei obcecada pelo filme. Assisti várias vezes, ouvia a trilha sonora, decorei falas”, lembra. 

Décadas depois, sentiu vontade de rever a obra. “Foi completamente diferente tantos anos depois”, diz. “Agora, eu assistia como uma mulher madura, que também tinha passado por perdas e mudanças, assim como a protagonista do filme, vivida pela atriz Juliette Binoche.”

A oftalmologista Mônica Alves, professora da Faculdade de Ciências Médicas (FCM).
O azul aparecia de maneira espontânea nas imagens evocadas pela escrita, nas ilustrações e fragmentos  

Ao começar a organizar os textos, Alves percebeu que o azul já aparecia de maneira espontânea em tudo: nas imagens evocadas pela escrita, nas ilustrações, na atmosfera melancólica e delicada dos fragmentos e até no arquivo original enviado ao editor, digitado em letras azuis. 

Durante a leitura final do livro, feita em voz alta ao lado do editor, dois textos ganharam significados inesperados. Um deles revelou-se uma homenagem involuntária à avó. O outro passou a carregar a memória de uma amiga inseparável desde os tempos da faculdade de medicina em Juiz de Fora, que morreu após enfrentar um tumor cerebral. “Terminei de ler e entendi imediatamente que aquele texto era para ela”, conta.

Mineira de Frutal, no Triângulo Mineiro, Alves deixou a cidade natal ainda adolescente para estudar medicina na Universidade Federal de Juiz de Fora. Depois, fez residência médica em oftalmologia, pós-graduação na Unicamp e acabou construindo toda a carreira acadêmica na instituição. Hoje, atua como professora da FCM, pesquisadora e especialista em doenças da superfície ocular, especialmente olho seco – condição que estuda há cerca de 25 anos. Coordena pesquisas, orienta estudantes e mantém consultório em Campinas. 

Nesse cotidiano marcado pela exigência técnica da medicina, a literatura acabou surgindo como uma espécie de contraponto. “A medicina exige uma objetividade de muita dureza”, afirma. “A escrita me reconecta com outras sensibilidades.” 

Produzido de forma independente, Azul pode ser encontrado na livraria Candeeiro https://www.livrariacandeeiro.com.br/, conhecida pelos encontros literários e pela atmosfera intimista. No lançamento, em fevereiro, a sessão de autógrafos virou também festa de aniversário da autora. “Tinha bolo, vinho, amigos, leitores. Foi muito bonito”, lembra.

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A oftalmologista Mônica Alves, professora da Faculdade de Ciências Médicas (FCM).
No cotidiano marcado pela exigência técnica da medicina, a literatura surgiu como uma espécie de contraponto

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Haitianos entre fronteiras, recomeços e ações solidárias

Por:tote
14 de Maio de 2026, 16:09
As redes de acolhimento organizadas pelos próprios imigrantes se tornaram fundamentais para receber os recém-chegados.
Redes de acolhimento organizadas pelos próprios imigrantes se tornaram fundamentais para receber os recém-chegados. Foto: Divulgação

Quando 120 haitianos ficaram retidos por mais de dois dias no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas, em março deste ano, o doutorando do Instituto de Geociências (IG) Guerby Saintè recebeu um telefonema pedindo ajuda. A maior parte do grupo havia desembarcado no Brasil com documentação irregular e permanecia confinada em uma área do aeroporto, à espera de análise das autoridades migratórias.

“Eles falavam: ‘chegamos aqui e parece que estamos presos’”, relata o pesquisador haitiano, que passou horas em Viracopos atuando como intérprete e articulador junto à Defensoria Pública e a órgãos de imigração. “Muitos estavam assustados, sem entender direito o que estava acontecendo.”

A cena sintetiza uma realidade que se tornou recorrente nos últimos anos: a intensificação do fluxo migratório de haitianos ao Brasil em busca de segurança, trabalho e estabilidade diante do agravamento da crise no Haiti. O Ministério das Relações Exteriores estima que, no Brasil, a comunidade haitiana é de cerca de 200 mil pessoas. Segundo o Itamaraty, entre 1º de janeiro e 9 de abril de 2026, foram emitidos 9.575 vistos para haitianos, entre humanitários e de reunião familiar. 

As redes de acolhimento organizadas pelos próprios imigrantes se tornaram fundamentais para receber os recém-chegados. Guerby e outros colegas haitianos criaram, em 2024, a Associação de Integração Social e Cultural (AISC), que reúne atualmente nove membros na comissão organizadora e está em fase final de legalização. Embora ainda não tenha vínculo institucional formal com a Unicamp, conta com a participação de estudantes e pesquisadores da Universidade e pretende ampliar parcerias com áreas ligadas aos direitos humanos e à extensão universitária.

Além de aulas de português, haitianos recebem orientações sobre documentação e encaminhamento profissional
Além de aulas de português, haitianos recebem orientações sobre documentação e encaminhamento profissional. Foto: Divulgação

A associação oferece apoio para regularização documental, emissão de CPF, orientação junto à Polícia Federal (PF), encaminhamento profissional e cursos gratuitos de português para estrangeiros. As aulas, ministradas de forma voluntária, atendem atualmente mais de 30 pessoas. “Muita gente chega aqui sem falar a língua e isso dificulta tudo: conseguir trabalho, entender documentos, se localizar”, explica Guerby. “Criamos um curso básico de português para ajudar na inserção dessas pessoas. Passamos por isso quando chegamos, então sabemos a dificuldade que é desembarcar em outro país sem falar a língua, sem entender os documentos e sem saber para onde ir.”

Além das ações de acolhimento, a associação também pretende ampliar os espaços de debate sobre a realidade haitiana. No domingo (17 de maio), a AISC realizará, em Barão Geraldo, a Festa da Bandeira Haitiana, data simbólica para a comunidade do país caribenho, celebrada todo dia 18 de maio. O evento reunirá pesquisadores haitianos para discutir identidade, migração, saúde mental e os impactos sociais da crise humanitária no país. A programação inclui ainda apresentações culturais de música e dança haitianas.

Só ‘bom dia’
A trajetória de Guerby se cruza com a própria história recente do acolhimento de haitianos na Unicamp. Ele chegou ao Brasil em 2011, inicialmente como intercambista em um programa apoiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), criado após o terremoto que devastou o Haiti em 2010. Na época, falava apenas algumas palavras em português. “Sabia só ‘bom dia’”, lembra, sorrindo. “Cheguei sozinho, mas junto de um grupo grande de haitianos que também vieram estudar.”

Doutorando do Instituto de Geociências (IG), Guerby Sante chegou ao Brasil em 2011. Foto: Lúcio Camargo
Doutorando do Instituto de Geociências (IG), Guerby Saintè chegou ao Brasil em 2011. Foto: Lúcio Camargo

Na Unicamp, cursou bacharelado e licenciatura em Geografia, concluiu o mestrado e atualmente desenvolve doutorado no Laboratório de Geografia dos Riscos e Resiliência (Geoplan). Sua pesquisa investiga vulnerabilidade territorial, urbanização e soberania no Haiti, analisando os impactos das intervenções internacionais e das desigualdades históricas.

Ao longo dos anos, muitos dos estudantes haitianos que chegaram à Universidade seguiram trajetórias semelhantes. Alguns tornaram-se pesquisadores e professores universitários; outros migraram para diferentes regiões do Brasil ou para outros países. Hoje, segundo Guerby, oito haitianos seguem vinculados à Unicamp entre estudantes e pesquisadores. 

Primeiro país negro independente das Américas, o Haiti, com população estimada em 12 milhões de habitantes, enfrenta há décadas crises políticas, instabilidade institucional, desastres naturais e sucessivas intervenções internacionais. Nos últimos anos, o avanço de grupos armados sobre Porto Príncipe agravou ainda mais a situação. “Hoje vivemos em um território praticamente controlado por gangues”, afirma o pesquisador. “Grande parte da capital está ocupada, as pessoas têm dificuldade para circular, trabalhar e frequentar a escola. Muita gente sai porque sente que a própria vida está ameaçada.”

A questão do Haiti está presente na sua produção acadêmica. Em artigo publicado na revista GeoUSP, da Universidade de São Paulo (USP), o pesquisador argumenta que o país se tornou um exemplo das limitações enfrentadas por Estados vulneráveis diante das grandes potências internacionais e das sucessivas intervenções externas. Segundo Guerby, a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), encerrada em 2017 após 13 anos de atuação, não conseguiu resolver os problemas estruturais do país.

Grupo de imigrantes recebe orientações: missão das Nações Unidades para Estabilização não resolveu problemas. Foto: Divulgação
Grupo de imigrantes recebe orientações: missão das Nações Unidades para Estabilização não resolveu problemas. Foto: Divulgação

“A soberania não existe na prática”, afirma. “O Haiti segue com os mesmos problemas que existiam antes das intervenções, com novas marcas no espaço e na busca incessante da soberania e do controle de seu próprio território e sua população.”

Guerby acompanha de longe e com apreensão a situação da família que permaneceu no Haiti. Os pais morreram, mas os irmãos continuam lá. Voltar tornou-se cada vez mais difícil, tanto pelas restrições migratórias quanto pelo agravamento da violência. “Ninguém deixa seu país sem motivo.”

Acolhimento humanitário x obstáculos


O antropólogo Omar Ribeiro Thomaz, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), esteve no Haiti em diversas ocasiões entre o fim dos anos 1990 e 2014, desenvolvendo pesquisas sobre pobreza, violência, desigualdade e organização social. 

Em sua avaliação, o ocorrido em Viracopos não foi um mero episódio de irregularidade, e sim resultado de uma política que, ao mesmo tempo em que anuncia acolhimento humanitário, impõe obstáculos quase intransponíveis a quem tenta chegar legalmente ao Brasil, com dificuldade de acesso a vistos humanitários e ausência de políticas mais efetivas de acolhimento. “O Brasil diz que facilita, mas na prática dificulta. Existe uma burocracia enorme para obtenção de vistos e regularização”, diz.

O antropólogo Omar Ribeiro Thomaz, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), esteve no Haiti em diversas ocasiões. Foto: Antonino Perri

O professor destaca que a experiência construída pela Unicamp após o terremoto de 2010 tornou-se uma das iniciativas mais bem-sucedidas de acolhimento acadêmico no país, em 2011. “Recebemos 48 estudantes haitianos em situação de grande vulnerabilidade social, e 47 concluíram a graduação. Muitos seguiram para o mestrado e doutorado”, ressalta. 

Segundo Thomaz, a iniciativa só foi possível graças à mobilização de diferentes setores da Unicamp. Ele cita o apoio do então pró-reitor de Graduação, Marcelo Knobel, e das professoras Eliana Amaral e Silvia Santiago, da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), além do envolvimento de docentes e funcionários de várias unidades. “Sem essa articulação institucional, não teria sido possível receber e acompanhar esses estudantes”, diz.

De acordo com o professor, o acolhimento envolveu desde cursos intensivos de português até apoio acadêmico e auxílio para adaptação à vida no Brasil. “Foi um trabalho difícil, mas mostrou que é possível construir políticas concretas de internacionalização e acolhimento”, diz. O professor destaca, porém, que experiências desse tipo ainda permanecem isoladas no Brasil.

Thomaz chama a atenção para o potencial pouco aproveitado dos haitianos que vivem hoje no Brasil. Segundo ele, muitos chegam com formação técnica ou universitária, mas encontram barreiras para validar diplomas e exercer suas profissões. “São pessoas qualificadas, com experiência, que poderiam contribuir muito mais. O Brasil desperdiça conhecimento e mão de obra ao dificultar processos de reconhecimento profissional.”

“Você não ouve falar de criminalidade haitiana ou de redes ligadas ao crime. É uma comunidade extremamente trabalhadora, organizada e comprometida com a própria sobrevivência coletiva”, completa.

Apesar da gravidade da crise na capital, Porto Príncipe, Thomaz ressalta que outras regiões do Haiti continuam funcionando de maneira precária, mas ativa, sustentadas principalmente pelo mundo rural e pelas redes familiares da diáspora haitiana espalhada pelo mundo. “O Haiti segue funcionando porque existe uma enorme capacidade de organização e sobrevivência da própria população”, afirma. 

Segundo Thomaz, o enfraquecimento do interesse internacional sobre o Haiti contribui para o isolamento do país. “As tragédias internacionais acabam deixando de mobilizar atenção, mesmo quando o sofrimento continua acontecendo”, diz.

O professor defende que o Brasil avance em políticas mais efetivas de acolhimento, integração profissional e cooperação internacional voltadas ao Haiti. Para ele, a reconstrução do país não passa por grandes intervenções militares, mas pelo fortalecimento gradual de instituições locais, educação e serviços públicos. “A solução não virá do espetáculo ou de grandes operações. Ela passa por reconstrução institucional, formação de pessoas, fortalecimento da saúde, da educação e da própria capacidade de organização da sociedade haitiana”, ressalta.

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Grupo de haitianos durante curso oferecido pela Associação de Integração Social e Cultural (AISC): grupos de apoio
Associação de Integração Social e Cultural (AISC) oferece apoio e cursos de português. Foto: Divulgação

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Geólogo Álvaro Crósta recebe o título de professor emérito

Por:tote
13 de Fevereiro de 2026, 13:24
Álvaro Crósta emérito da Unicamp
Entre Fernando Coelho (2º a partir da esq.) e o reitor Paulo Cesar Montagner, Álvaro Crósta exibe título de professor emérito

O geólogo Álvaro Penteado Crósta foi homenageado nesta quinta-feira (12) ao receber o título de professor emérito da Unicamp. Aos 71 anos, natural de Ribeirão Preto (SP), o professor do Instituto de Geociências (IG) desde 1983 vem colecionando conquistas em sua área e não pretende parar tão cedo. “É emocionante. Dediquei mais de 40 anos à Universidade e agora recebo esta homenagem. Para um geocientista acostumado a medir o tempo em milhões ou bilhões de anos, as poucas décadas de uma carreira acadêmica podem parecer um breve piscar de olhos”, comentou. 

O reitor da Unicamp, Paulo Cesar Montagner, que presidiu a cerimônia, destacou a trajetória do homenageado. “Ser professor emérito é uma das mais altas distinções que um docente pode receber. É um ato de gratidão institucional. Mais do que uma distinção formal, é o reconhecimento institucional de uma contribuição que ultrapassa a sala de aula e se projeta na formação de pessoas e no fortalecimento da universidade”, afirmou.  

Título de emérito a Alvaro Crosta
O professor Álvaro Crósta: plena atividade
Título de emérito a Alvaro Crosta
O reitor Paulo Cesar Montagner: carreira de impacto internacional

“O professor Álvaro construiu uma carreira de grande impacto nacional e internacional. Formou mestres, doutores e pesquisadores que atuam no Brasil e no exterior, levando a marca da Unicamp, e também teve atuação destacada na vida administrativa, sempre com diálogo, equilíbrio, firmeza de princípios e defesa da universidade pública, gratuita e de qualidade”, completou o reitor. 

Crósta continua atuando como professor na graduação e na pós-graduação e fazendo pesquisas no IG. Em 2026, adiantou que já tem dois compromissos no exterior. “Estou dando continuidade a um projeto de estudo de crateras de impacto meteorítico, uma área à qual me dedico junto com grupos internacionais, e agora vou para um congresso na Escócia, porque estamos estudando crateras no fundo do mar. Tenho também uma ida à China em agosto para falar em um congresso de mineralogia”, contou. 

O professor destaca-se por seu pioneirismo nos estudos sobre geologia planetária. “Na graduação, implantei a disciplina de Introdução à Geologia Planetária, que é a única do Brasil. Nos países do Hemisfério Norte, por exemplo, já é uma disciplina comum no currículo, mas aqui não havia. Resolvi começar a oferecer a disciplina há cinco anos, e tem tido uma boa aceitação”, ressaltou. 

Crósta começou a se interessar por geologia ainda na adolescência. “Fui capturado pela imaginação de Julio Verne, Isaac Asimov, Arthur C. Clarke e outros autores de ficção científica. Talvez eu tenha escolhido estudar a geologia da Terra inspirado por eles, ao olhar para os astros e desejar compreender como os mundos são moldados. Ou, quem sabe, já estivesse predestinado à geologia por causa do meu sobrenome”, brinca.

O professor ressalta “o enorme privilégio de ser formado integralmente na escola pública, da pré-escola à pós-graduação”. Graduou-se na Universidade de São Paulo (USP) e fez seu mestrado no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). “Foi sob orientação do professor Gilberto Amaral, que me estimulou a investir no sensoriamento remoto por satélite como tecnologia inovadora para o levantamento de recursos naturais e o avanço do conhecimento geológico do Brasil.” 

Título de emérito a Alvaro Crosta
Cerimônia de entrega do título, realizada no auditório do Instituto de Geociências da Unicamp

Após o doutorado no Imperial College London, no Reino Unido, orientado pelo professor John Moore, com quem se relaciona até hoje, foi pesquisador-visitante no Laboratório de Propulsão da Nasa (EUA), na Universidade de Nevada (EUA), e também nas universidades de Viena (Áustria) e Humboldt (Alemanha), além de ter atuado como professor convidado do Instituto de Petróleo da Universidade Khalifa, nos Emirados Árabes Unidos.

“Ingressei na Unicamp em 1983, convidado pelo professor Bernardino Figueiredo. O Instituto de Geociências era pequeno, com estrutura limitada, mas havia enorme entusiasmo. Foi um período desafiador e, ao mesmo tempo, extremamente fértil em ideias, planejamento e construção coletiva”, lembrou. Na Unicamp, participou da implantação do Laboratório de Processamento de Informações Georreferenciadas (Lapig), do IG, que se tornou referência brasileira em pesquisas e aplicações em geoprocessamento, e ainda fundou um grupo de pesquisa em geotecnologia.

Crósta testemunhou o crescimento da Unicamp e trabalhou na gestão universitária, com os reitores Hermano Tavares e José Tadeu Jorge. “Tenho orgulho de ver a Unicamp ampliar o acesso e investir fortemente em permanência estudantil, garantindo que estudantes de diferentes origens possam não apenas ingressar, mas concluir sua formação”, completou. 

Título de emérito a Alvaro Crosta
O coordenador-geral da Unicamp, Fernando Coelho: excelência e compromisso

Fernando Coelho, coordenador-geral da Unicamp, destacou a atuação de Crósta na Unicamp. “Vejo algo que considero fundamental: a combinação entre excelência acadêmica e compromisso institucional. O professor Álvaro construiu uma carreira científica de alto nível e, ao mesmo tempo, dedicou-se à gestão universitária. Uma coisa não atrapalha a outra — pelo contrário, se complementam”, afirmou. 

Contribuição

O diretor do IG, Emilson Leite, destacou duas das muitas contribuições de Crósta para a área. “A primeira é o livro publicado em 1992 pela Editora da Unicamp, Processamento Digital de Imagens e Sensoriamento Remoto, obra que teve grande impacto na formação de alunos da área. Mesmo publicada em português, alcançou mais de 1.100 citações na literatura científica — um número extremamente expressivo para o campo das geociências”, afirmou. 

A segunda contribuição é o que a literatura internacional passou a chamar de “técnica Crósta”, apresentada em 1989, em uma conferência no Instituto de Pesquisas Ambientais de Michigan (EUA). “Trata-se de uma metodologia aplicada a imagens de satélite para identificar, por meio de análise espectral, zonas de alteração hidrotermal associadas a depósitos minerais de grande importância econômica”, explicou.

“Ver o nome de um pesquisador brasileiro associado a uma técnica amplamente citada internacionalmente é muito significativo, especialmente em um país que historicamente importou metodologias e tecnologias desenvolvidas no exterior. Ter uma contribuição reconhecida com identidade própria é motivo de grande orgulho para a ciência brasileira.”

Os professores Cleyton Carneiro, da Escola Politécnica da USP, e um dos muitos alunos de Crósta, e João Frederico da Costa Azevedo Meyer, do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (Imecc), padrinhos de Crósta, destacaram o homenageado. “É com enorme orgulho que agradeço, em nome de todos que formou, por sua trajetória, sua obra, sua humanidade e, sobretudo, sua luz. Que ela continue a percorrer o universo, inspirando e transformando”, declarou Carneiro.

“Tenho orgulho de dizer: Álvaro é um grande homem, um notável companheiro, um docente exemplar e um ser humano profundamente exigente consigo mesmo e generoso com os outros. É alguém de quem aprendemos ciência — e, sobretudo, humanidade”, completou Meyer. 

Ao apresentar o homenageado, o professor Luiz Carlos Dias, do Instituto de Química (IQ), destacou ainda o trabalho do geólogo na identificação e caracterização de crateras de impacto no Brasil. “É uma grande honra vê-lo reconhecido como professor emérito da Unicamp. Que esta homenagem reflita todo o respeito e admiração que sentimos por sua trajetória — tão impactante quanto as crateras que ajudou a descobrir.”

Confira a cerimônia

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