Trump, Fifa e a corrosão da democracia

Os dias que antecederam a abertura da 23ª edição da Copa do Mundo – a maior da história em número de participantes – transformaram o que era apenas uma incômoda expectativa em episódios explícitos de racismo, xenofobia e autoritarismo. Autoproclamado líder do que chama de “mundo livre”, o governo dos Estados Unidos passou a adotar medidas que o afastam progressivamente das noções mais amplas de democracia e contraria frontalmente o espírito de união global preconizado pela Fifa – a federação internacional de futebol, organizadora do evento. Especialistas ouvidos pelo Jornal da Unicamp veem corrosão da democracia e cumplicidade da Fifa.
Ao utilizar prerrogativas de soberania e segurança nacional de maneira peculiar, o presidente Donald Trump restringiu deslocamentos de delegações, barrou profissionais credenciados pela Fifa ou submeteu criadores de conteúdo originários de países considerados suspeitos a constrangimentos, num movimento jamais visto nos quase 100 anos de existência do mundial de futebol.
Trump expandiu de forma significativa a lista de nações sujeitas a restrições de entrada no país. A relação de países com bloqueios parciais ou totais para vistos de turismo de curta duração subiu de 19 para 39 nações. Paralelamente às regras de turismo, os EUA suspenderam o processamento de vistos de imigrante para cidadãos de 75 países, atingindo inclusive o torcedor comum, com visto de turista.
Na primeira semana de junho, a menos de 15 dias do início da competição, a delegação do Irã foi formalmente informada sobre uma pesada restrição de permanência nos Estados Unidos. Os jogadores foram liberados, mas sob condições estritas.
O Departamento de Segurança Interna dos EUA concedeu os vistos apenas para os atletas na última hora, determinando que entrem e saiam do território norte-americano estritamente nos dias das partidas. Eles não receberam permissão de residência contínua ou pernoite comum nos EUA durante o torneio.
Diversos membros da comissão técnica e dirigentes de alto escalão – incluindo Mehdi Taj, o presidente da Federação de Futebol do Irã – tiveram seus vistos negados. A seleção iraniana, que planejava se alojar em Tucson, no Arizona, acabou sendo acolhida pelo governo mexicano e teve de montar sua base emergencial em Tijuana.
Senegal
A delegação do Senegal foi submetida a uma rigorosa revista ainda na pista do aeroporto logo após desembarcar na Carolina do Norte. Imagens do procedimento viralizaram e geraram debate público, sobre o tratamento desigual adotado na chegada das delegações, já que os europeus foram liberados sem que passassem pelo processo.
O Haiti, por sua vez, teve de alterar seus uniformes porque a Fifa considerou haver “mensagens políticas” na camisa. O desenho continha uma bandeira e a ilustração da Batalha de Vertières, travada em 1803, decisiva para a independência do país após conflito com a França.
Árbitro
O árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, de 34 anos, foi barrado na imigração americana ao desembarcar no Aeroporto de Miami (EUA). Ele foi convocado pela Fifa para apitar jogos no Mundial depois de ter sido eleito o melhor árbitro da África em 2025. As autoridades de fronteira consideraram o profissional “inadmissível” após checagem de antecedentes e o impediram de ingressar no país, determinado o retorno à Somália. Artan seria o primeiro árbitro da história da Somália a apitar em uma Copa do Mundo. Deportado, foi recebido com festa ao voltar para casa.
Iraquiano
Considerado o principal astro da seleção iraquiana, o atacante Aymen Hussein foi submetido a grande constrangimento ao tentar entrar nos Estados Unidos. Foi detido e interrogado por cerca de sete horas por autoridades de imigração no aeroporto de Chicago. Hussein acabou liberado, mas o fotógrafo oficial da delegação, Talal Salah, não conseguiu autorização para entrar.
Influenciadores
A alfândega americana adotou uma prática radical e decidiu proibir a entrada de pessoas criadoras de conteúdo para redes sociais ou da mídia alternativa. Para as autoridades, produzir conteúdo que pode ser monetizado em solo americano com visto de turista é considerado trabalho ilegal.
Democracia
Para o professor do Instituto de Economia (IE) da Unicamp Marcelo Proni – que, entre outras linhas de pesquisa, tem estudos na área de economia do esporte –, o movimento do presidente americano corrói a democracia.

“Discordo dos que acham que, hoje, os EUA não podem mais ser chamados de democracia. Os EUA têm instituições fortes e que vão resistir ao Trump. O Trump vai passar”, aponta. “Mas eu diria que, hoje, a democracia nos EUA está ameaçada. Do ponto de vista formal, os EUA são uma democracia, mas uma democracia que está vivendo ataques sistemáticos, que está sendo erodida”, afirma.
Para Proni, a submissão da Fifa aos ditames do governo Trump criou uma “situação esquizofrênica”.
“Idealmente, a Copa é uma celebração dos princípios civilizatórios que fundamentam a convivência pacífica entre as nações, inclusive a valorização da diversidade étnica e cultural. Mas o governo dos EUA impôs restrições claramente discriminatórias”, disse.
Segundo o docente, embora o presidente da Fifa, Gianni Infantino, pregue um mundo sem fronteiras, ele silencia diante de medidas hostis contra membros da comunidade que a Fifa deveria representar. “Infantino age como um CEO de uma grande corporação interessada em garantir os ganhos bilionários do seu negócio”, diz.
Contradição
Professor do Departamento de Sociologia e da Pós-Graduação em Sociologia da Unicamp, Michel Nicolau Netto chama a atenção para uma contradição. De acordo com ele, Trump se apropria da ideia de soberania para impor uma política discriminatória, antidemocrática. Com isso, subverte a tradição segundo a qual a Fifa passa a ter direito de ocupação de determinados espaços do país-sede, onde aplica regras próprias.
As regras em vigor definem que antes mesmo de um país ser anunciado como sede, o governo e as cidades candidatas precisam assinar o Host Agreement (Acordo de Sede). Trata-se de um contrato de adesão pelo qual o país aceita os termos da Fifa. Na Copa de 2018, na Rússia, por exemplo, a Fifa interveio e determinou que o governo russo suspendesse a exigência de visto para a entrada no país.

Só que Trump ignorou essa tradição e, em nome da soberania do país, adotou as restrições que julgou necessárias. Mesmo diante de violações às regras da própria entidade, a Fifa preferiu não oferecer qualquer oposição.
“Mas a Fifa sempre fez isso. Sempre foi maleável. Sempre se adaptou a governos autoritários”, disse o professor. “Já promoveu jogos de Copa sobre mortos pela ditadura da Argentina; já sentou com governos sanguinários do Oriente Médio, realizou Copa na Rússia onde havia discursos fortemente intolerantes aos homossexuais ou em lugares onde havia claras violações de direitos das mulheres”, acrescentou.
Netto adverte, porém, que o comportamento de hoje do presidente norte-americano pode abrir um precedente perigoso e pode se tornar uma nova prática dos países que vão sediar as futuras competições organizadas pela Fifa.
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