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Received today — 18 de Agosto de 2026Unicamp

Antes que a tragédia se instale

17 de Agosto de 2026, 16:16
Antes que a tragédia se instale

Grupo do Ambulatório de Substâncias Psicoativas do HC da Unicamp já reúne cerca de 30 pessoas que buscam tratamento regular por conta da dependência em apostas

A percepção de um aumento na procura por atendimentos relacionados à dependência em apostas online levou o Ambulatório de Substâncias Psicoativas (Aspa) a criar um grupo específico para pessoas com problemas relacionados às chamadas bets. A iniciativa começou em abril em uma área do Hospital de Clínicas (HC) e, desde então, a equipe passou a dedicar especial atenção a casos envolvendo endividamento, perda de controle e, o maior alerta, relatos associados a pensamentos suicidas.

A iniciativa já reúne mais de 30 pessoas que buscam regularmente esse tipo de apoio. O atendimento começa pelo acolhimento, sempre às quartas-feiras, das 8h às 11h30. Não é necessário agendamento, basta fazer cadastro na recepção do hospital e seguir para o acolhimento. O objetivo é oferecer um ambiente protegido, sem julgamentos e com garantia de sigilo. Antes do encaminhamento, os participantes respondem a um questionário que aponta o grau de presença das apostas em seu cotidiano. Geralmente, o interesse pelo jogo surge na esperança de reforçar o orçamento ou atenuar as dificuldades em um momento de desemprego, ou ainda pela ilusão de estar diante de um investimento.

A psiquiatra e professora da Faculdade de Ciências Médicas, Renata Azevedo, responsável pelo trabalho, conta que a demanda surgiu inicialmente entre pacientes que já eram acompanhados por problemas relacionados ao consumo de álcool, tabaco e outras drogas. Com o tempo, porém, pessoas sem histórico de dependência de substâncias também começaram a procurar ajuda por causa das apostas.

Pessoa ao centro usando óculos, camisa clara e colar vermelho, circundada por quatro pessoas de costas vestindo camisetas em tons de azul, preto e marrom, em sala com parede clara, mesa com monitor de televisão ao fundo exibindo conteúdo em roxo e equipamento eletrônico preto.
O Aspa funciona às quartas-feiras, das 8 às 11h30 e não é necessário agendamento

A estratégia, segundo a psiquiatra, é oferecer informação para que a pessoa busque ajuda o mais cedo possível, evitando avançar a um estágio mais problemático. “A equipe buscou referências em um serviço da USP [Universidade de São Paulo], que já atendia pessoas com dependência comportamental em jogos e, posteriormente, estruturou o grupo aqui na Unicamp. Em junho, profissionais da rede pública de Campinas também foram capacitados para identificar e encaminhar pacientes com problemas relacionados às apostas. A capacitação, inicialmente planejada para 40 pessoas, recebeu 110 inscrições”, lembra Azevedo. A estratégia prevê ampliar o atendimento para além do ambulatório, com a participação de Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) campineiros.

O serviço tem recebido principalmente adultos na faixa dos 30 a 40 anos. Atualmente, há uma maioria de homens – 75% do total -, embora também haja um número considerável de mulheres entre os pacientes.

“Adolescentes também apresentam risco de desenvolver transtornos relacionados ao jogo, mas esse público ainda não chega com frequência aos serviços de atendimento. Uma das possíveis explicações é o menor acesso deles ao dinheiro, o que pode retardar o aparecimento de problemas como o endividamento e também o momento em que as famílias percebem a situação”, diz a responsável pelo Aspa.

Vergonha

Um dos principais obstáculos para a busca por ajuda é a vergonha. De acordo com a psiquiatra, pacientes frequentemente escondem da família as dívidas e a perda de controle sobre as apostas. Alguns chegam ao atendimento no HC da Unicamp constrangidos e demoram a se apresentar quando são chamados para participar do grupo. “Quando avisamos do início do atendimento, alguns continuam sentados, esperam algum tempo e só depois levantam e se dirigem às salas. Eles não querem ter seus nomes ligados a isso publicamente”, conta Azevedo.

A responsável pelo Aspa explica ainda que a dependência de jogos apresenta uma característica particular. Ao contrário de outras drogas, em que o usuário não costuma acreditar que uma nova dose resolverá seus problemas, o jogador pode manter a expectativa de que uma nova aposta permitirá recuperar o dinheiro perdido. “Essa percepção está relacionada a uma distorção cognitiva. O paciente passa a acreditar que esteve perto de ganhar e que, na próxima tentativa, poderá recuperar as perdas e solucionar as dificuldades financeiras. É comum que essas pessoas consigam dizer exatamente o quanto já ganharam, mas têm dificuldade para dimensionar quanto já perderam”, revela a psiquiatra.

A facilidade de acesso proporcionada pelos celulares é apontada como um dos fatores que ajudam a explicar o rápido avanço das bets. Disponível diretamente no smartphone, o jogo pode ser realizado a qualquer momento, sem a necessidade de deslocamento até um estabelecimento físico, como acontecia com os bingos, por exemplo.

Desespero

Pessoa usando óculos e vestuário composto por camisa lilás, lenço vermelho e crachá, posicionada sentada em primeiro plano com as mãos levantadas em gesto de apresentação, em ambiente de escritório com monitor de computador ao fundo exibindo apresentação com título "Gestão de Pessoas" em fundo rosa, parede branca e móvel cinza à esquerda.
A psiquiatra Renata Azevedo: pacientes buscam, principalmente, pela perda de controle e o agravamento das dívidas

A percepção de perda de controle e o agravamento das dívidas estão entre os principais fatores que levam os pacientes a procurar atendimento. A psiquiatra responsável pelo Aspa reforça a preocupação com o risco de suicídio. Segundo ela, profissionais que atuam no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) de Campinas têm recebido cada vez mais chamados de pessoas com ideação ou tentativa de suicídio associadas ao desespero provocado pelo endividamento decorrente das apostas.

Parte do problema está relacionada à maneira como essa atividade é apresentada ao público, avalia Azevedo. Influenciadores, atletas, artistas e outras pessoas com grande exposição nas redes sociais transmitem a falsa ideia de que apostar é divertido e permite obter lucro rápido e fácil.

A psiquiatra destaca que o perfil socioeconômico dos apostadores com problemas reforça a preocupação e a necessidade de uma ação. Dados de estudos epidemiológicos indicam maior concentração de dependentes entre pessoas de baixa renda, incluindo aquelas que recebem até um salário mínimo. Nesse contexto, a expectativa de obter uma renda adicional pode funcionar como um dos fatores que levam ao início das apostas. Neste caso, não é algo pela “aventura de ganhar”, mas a busca por reforço em um orçamento familiar já bastante apertado.

A recuperação

A psiquiatra Renata Azevedo, atua há cerca de 30 anos com dependências dos mais variados tipos e considera totalmente possível a recuperação dos envolvidos em apostas online. Ela defende a regulamentação e maior fiscalização da prática, com amplo acesso do público a informação e tratamento para reduzir os danos do jogo.

Entre as medidas disponíveis até o momento está o sistema de autoexclusão, criado pelo Governo Federal, que permite ao indivíduo bloquear o próprio acesso a plataformas legalizadas.

Acesse para mais informações sobre o serviço.

É um passo importante, mas não é tudo. Empresas consideradas ilegais seguem atuando no país. O Governo Federal já bloqueou mais de 50 mil sites, aplicativos e plataformas clandestinas, mas os envolvidos continuam driblando a fiscalização por meio de servidores internacionais e alternativas como os canais do Telegram.

Além do Aspa na Unicamp, pessoas com problemas relacionados ao jogo ainda podem buscar ajuda em unidades de saúde, Caps ou serviços especializados. O tratamento combina avaliação individual, acompanhamento em grupo e, quando necessário, medicamentos para o controle dos impulsos.

A participação da família, segundo Azevedo, também é fundamental. Os parentes são orientados a não fornecer dinheiro para apostas nem tratar o jogo como investimento. No próprio Aspa, parentes de dependentes já se organizam dessa forma, para trocar informações e apoio. Dos especialistas, eles ouvem a orientação.

A docente aponta ainda a necessidade de uma maior responsabilidade sobre a publicidade de bets. “Ampliar o debate sobre os riscos das apostas é essencial para estimular a busca por ajuda antes que o problema se agrave”, reforça a psiquiatra.

fechamento para retranca

Pensamentos ‘mágicos’ e a falsa sensação de domínio sobre a máquina

Outro aspecto observado pelos profissionais que atuam no Ambulatório de Substâncias Psicoativas (Aspa), localizado no Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp, é a crença de que o conhecimento sobre o funcionamento das apostas aumenta as chances de vitória. O apostador pode interpretar uma sequência de resultados como evidência de que aprendeu a “jogar melhor”, mesmo diante de perdas sucessivas.

Esse mecanismo pode alimentar os chamados pensamentos “mágicos” e gerar a falsa sensação de controle. A pessoa passa a atribuir significado a acontecimentos aleatórios – como sonhos, sinais ou sequências de vitórias e derrotas – e acredita que consegue antecipar o resultado.

Para a psiquiatra, é necessário ampliar o conhecimento da população sobre o funcionamento dos jogos de azar – por meio de um maior letramento digital, por exemplo –e deixar claro que compreender as regras não significa controlar o resultado.

fechamento da retranca

Assista ao programa Analisa com a psiquiatra Renata Azevedo:

fechamento da retranca

RAIO-X DA DEPENDÊNCIA

  • A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a ludopatia como um transtorno mental e uma dependência comportamental
  • Entre 2018 e 2023, o número de atendimentos a dependentes em jogos aumentou 1.094% no Brasil
  • As apostas online, conhecidas como bets, provocaram uma saída líquida de R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias brasileiras em 2025, segundo a terceira edição do Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros
fechamento para retranca

EM BUSCA DE AJUDA

Frases de dependentes em apostas online (depoimentos concedidos sob sigilo):

“Este mês não resisti: usei o dinheiro do aluguel para jogar e tive que pedir ajuda para a minha família, que tem poucos recursos.”

“Sei que não posso jogar, mas ainda não consigo parar.”

“Eu não tinha com quem conversar; aqui sinto que posso falar sem sentir medo ou vergonha.”

“Existem horários em que as plataformas pagam mais e é mais fácil ganhar, porém não consigo sacar o dinheiro ganho porque continuo jogando e acabo perdendo tudo novamente.”

“Estou há mais de um mês sem jogar, entendi que tenho que parar.”

“Ninguém sabe que eu jogo e estou endividado. Tenho vergonha de falar até para a minha mãe.”

“Sempre paguei minhas contas certinho, mas depois que viciei passei a dever para muitas pessoas, inclusive no meu trabalho.”


Não aposte sua saúde – autoteste: Disponibilizado pelo Ministério da Saúde, o “Autoteste do Jogo” é uma ferramenta que auxilia as pessoas a refletirem sobre a sua relação com os jogos e apostas, mas não é um instrumento de diagnóstico.

Reflita sobre sua relação com o jogo. Acesse!


Foto de capa:

Pessoa vista de costas segurando um smartphone com tela exibindo padrão de ondas em cores ciano e branco, com fundo em tons de magenta, verde e azul com efeito de distorção digital e caracteres textuais desfocados, criando estética de glitch art cyberpunk.
Atualmente, há uma maioria de homens atendidos no Aspa, 75% do total

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No Gabinete de Estampas, novas histórias de arte em papel

24 de Junho de 2026, 16:19
No Gabinete de Estampas,
novas histórias de arte em papel

Coleção da Unicamp com cerca de 4,5 mil obras amplia possibilidades de pesquisa e inspira projetos

O Gabinete de Estampas da Unicamp, que reúne uma coleção referência em obras de arte em papel, é reconhecido como um dos mais importantes acervos universitários dedicados ao tema no país. A coleção, atualmente com cerca de 4,5 mil obras, majoritariamente gravuras, é sediada na Biblioteca de Obras Raras (Bora) e tem atraído pesquisadores e inspirado projetos semelhantes em outras instituições de ensino.

O nome pode até sugerir uma sala administrativa, mas o Gabinete de Estampas tem seu título inspirado nos antigos gabinetes de curiosidades que antecederam os museus modernos. A proposta permanece fiel ao projeto que lhe deu origem: reunir imagens, preservar a produção artística e transformá-la em conhecimento.

Seja por meio da pesquisa acadêmica, da formação de estudantes, dos cursos de extensão ou das atividades educativas realizadas com o público, o espaço continua ampliando o acesso ao acervo e construindo novas histórias.

Vinculado ao Departamento de Artes Plásticas (Desenho e Gravura) do Instituto de Artes (IA), a história do Gabinete começou em 1997, com a criação do Centro de Pesquisa em Gravura (CPGravura), iniciativa idealizada pela professora Lygia Eluf. A partir de doações de artistas, professores e ex-alunos, além de obras provenientes de intercâmbios internacionais e exposições organizadas pelo próprio Gabinete da Unicamp, o acervo passou a reunir uma coleção voltada majoritariamente à preservação da gravura brasileira.

O projeto ganhou impulso com a incorporação, em 2015, de mais de 220 gravuras de Marcello Grassmann (1925-2013), um dos mais importantes nomes da arte gráfica nacional, adquiridas com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). “O Gabinete de Estampas abriga um dos mais importantes conjuntos de obras de Grassmann em uma instituição pública brasileira. A coleção tem como diferencial a preservação de praticamente toda a sua produção em gravura em metal reunida em um único acervo”, destaca o coordenador do Gabinete, Sérgio Niculitcheff, professor do IA.

“Existem obras de Grassmann espalhadas por várias coleções, mas poucas instituições possuem um conjunto tão completo. Isso permite pesquisas mais amplas e um olhar mais aprofundado sobre sua trajetória artística”, completa. Considerado um dos maiores gravadores brasileiros do século 20, Grassmann desenvolveu uma linguagem própria em uma produção que atravessou mais de sete décadas.

Hoje, integram a coleção obras de artistas consagrados, como Maria Bonomi, Alfredo Volpi, Roberto Burle Marx e Renina Katz, provenientes da galeria especializada em gravura e arte gráfica Glatt & Ymagos, bem como trabalhos de Mario Gruber, Arl Leskoschek e Oswaldo Goeldi. “Os artistas sabem que aqui as obras serão conservadas, pesquisadas e disponibilizadas para consulta. Existe uma relação de confiança que foi construída ao longo dos anos”, destaca Niculitcheff. Para o coordenador, a principal riqueza do Gabinete está em seu caráter dinâmico. “Cada nova doação amplia as possibilidades de pesquisa e ajuda a preservar a memória, principalmente da gravura brasileira.”

Duas pessoas usando luvas azuis manipulam obras de arte em uma mesa branca em interior com grandes janelas; à esquerda, pessoa em cardigan bege segura pintura com fundo avermelhado; à direita, pessoa em suéter marrom com listras azuis segura moldura amarela contendo padrão geométrico de triângulos azuis e verdes; ao fundo, vista de paisagem montanhosa através de janelas com estrutura de chumbo; sobre a mesa, materiais de conservação e publicação vermelha.
Pessoa de cabelos grisalhos usando óculos, cardigan marrom sobre camiseta listrada azul e marrom, calças bege e chinelos, posicionada à esquerda observando máquinas de madeira escura em um interior com paredes brancas, piso claro e janelas de vidro ao fundo, incluindo um tear manual com estrutura de madeira, um cilindro metálico prateado à esquerda e uma roda de madeira acoplada a uma estrutura de trabalho à direita.
Duas pessoas usando luvas azuis examinam gravuras e impressões em preto e branco dispostas sobre uma mesa de trabalho em um espaço com janelas amplas ao fundo, sendo que a pessoa à esquerda, vestindo cardigan cinza sobre camiseta listrada em tons de azul e amarelo, segura uma moldura branca contendo uma impressão, enquanto a pessoa à direita, com óculos e vestindo cardigan bege sobre camiseta em tons de laranja e preto, observa as obras dispostas na superfície de trabalho ao seu lado.

Sem orçamento permanente para aquisição de obras, o Gabinete tem ampliado seu acervo também pela iniciativa de famílias de artistas já falecidos, que encontram no local um porto seguro para a preservação dos seus legados. Uma das mais recentes doações, por exemplo, foi feita pela família da artista argentina radicada no Brasil Laura Salgado (1944-1998), que está em processo de digitalização.

Na coleção, destaca-se um importante encontro de gerações, com trabalhos de Arcangelo Ianelli (1922-2009), doados por seu filho, Rubens Ianelli, que também é artista e está presente no acervo. “Além de doar trabalhos de sua própria autoria, Rubens Ianelli contribuiu com obras produzidas pelo pai, ampliando a representatividade de uma das famílias mais importantes das artes visuais brasileiras”, ressalta Niculitcheff, que articulou a doação. “A presença de obras dos dois artistas oferece aos pesquisadores a possibilidade de observar aproximações, diferenças e diálogos entre pai e filho, além de ampliar a diversidade de linguagens representadas no acervo”, completa.

Outro nome de destaque é o de Wesley Duke Lee (1931-2010), cujo trabalho “Cartografia Anímica” amplia as possibilidades de pesquisa ao aproximar técnicas como o offset, a gravura e o desenho à cartografia imaginária e à experimentação artística. 

Há ainda a Coleção Maneira Negra, dedicada a uma das técnicas mais refinadas da gravura em metal. Conhecida internacionalmente como mezzotint, a técnica nasceu no século 17 e se caracteriza pela produção de imagens com ricos contrastes e delicadas gradações tonais. “O resultado são gravuras marcadas por efeitos de luz e sombra que lembram desenhos a carvão ou pinturas”, explica Niculitcheff. “A preservação desse conjunto no Gabinete amplia as possibilidades de estudo das técnicas históricas de impressão e oferece aos pesquisadores contato com um procedimento pouco frequente em coleções brasileiras”, completa.

Além da preservação física das obras, uma das prioridades atuais é a digitalização do acervo. A técnica em museologia Ana Paula de Andrade, doutoranda do IA e responsável técnica pelo espaço, destaca a constante expansão da coleção. “Quando comecei a atuar no Gabinete, em 2017, a coleção reunia pouco mais de 200 obras. Hoje, o número ultrapassa 4,5 mil. É difícil estabelecer um número definitivo porque, quando terminamos de catalogar uma coleção, outra é incorporada”, explica.

O Gabinete está aberto a pesquisadores externos à Universidade, que podem consultar o acervo mediante agendamento prévio. “Parte das obras já está disponível no catálogo digital, ferramenta que auxilia os visitantes a identificar materiais de interesse antes da consulta presencial”, completa.

Quatro painéis informativos dispostos em uma mesa com superfície clara exibem documentos técnicos sobre técnicas de impressão (serigrafia, litografia, gravura em relevo e gravura em encavo), cada um contendo textos descritivos, amostras de trabalhos artísticos impressos em diferentes cores e tons, e exemplos práticos de matrizes e impressões em papel, organizados de forma educativa com logotipos institucionais na base de cada painel.
Pessoa usando luvas azuis de proteção segura um documento aberto com uma pequena imagem em preto e branco colada em sua página, enquanto outras pessoas ao fundo também vestem luvas azuis próximas a uma mesa com diversos documentos, fotografias antigas, um livro encadernado em marrom com texto na capa e várias folhas brancas contendo pequenas imagens em preto e branco, em ambiente interno com móvel de madeira ao fundo.
Pessoa usando cardigan cinzento sobre camiseta azul-marinho com faixa dourada, calça bege, luvas de látex azul, segurando com ambas as mãos um documento branco contendo uma gravura geométrica abstrata com formas em tons de laranja, cinzento e azul, em ambiente interior com parede de madeira ao fundo.
Pessoa usando luva azul estendendo a mão direita sobre uma mesa com documentos impressos e amostras de material, incluindo placas de cobre e preto com símbolos brancos gravados, e papéis com textos em cirílico e diagramas técnicos visíveis ao fundo.
Vitrine de museu com vidro frontal contendo diversos trabalhos artísticos em papel dispostos sobre fundo claro, incluindo desenhos em tinta azul e vermelha, gravuras em tons de verde e dourado, silhuetas recortadas em papel laranja e azul, estudos em tinta roxa, e pequenas composições em preto e branco, organizados de forma não uniforme sobre a superfície branca da vitrine.

Ensino e extensão

O acervo do Gabinete atrai estudantes, professores, artistas e pesquisadores de diferentes instituições, que utilizam regularmente a coleção para estudos sobre história da arte, técnicas de gravura, curadoria, conservação e processos de impressão. O espaço também integra atividades de ensino da graduação e da pós-graduação. “Professores utilizam as obras em sala de aula, estudantes desenvolvem projetos de pesquisa, e o Gabinete oferece cursos e oficinas voltados à conservação de obras em papel”, aponta Andrade.

A coleção faz com que ganhem materialidade as diferentes técnicas de gravura – linguagem artística baseada na criação de uma matriz que permite a impressão de múltiplos exemplares de uma imagem. Entre os processos representados, estão a xilogravura, feita a partir de matrizes de madeira; a gravura em metal, produzida em chapas de cobre, zinco ou outros metais; a litografia, que utiliza pedras calcárias; e a serigrafia, realizada por meio de telas. Cada técnica possui características próprias de traço, textura e impressão, constituindo um importante campo de pesquisa.

Além das gravuras, desenhos e matrizes, o Gabinete conta com equipamentos utilizados nos processos de impressão, como prensas de madeira e de metal empregadas por artistas e ateliês na produção de gravuras, construídas e doadas pelo professor Márcio Périgo. “As máquinas ajudam a contar a história das técnicas de impressão e permitem compreender etapas fundamentais do trabalho dos gravadores”, ressalta Niculitcheff.

Superfície clara com tabuleiro de xadrez em preto e branco à esquerda contendo peças vermelhas numeradas, fotografias em preto e branco espalhadas no centro, caixas de quebra-cabeça com imagens coloridas de natureza e paisagens, caixa azul com grade de imagem à direita, três círculos pretos no teto acima, e caixa de madeira marrom no canto superior direito.
As ações educativas ganharam espaço crescente nos últimos anos durante o Unicamp de Portas Abertas (UPA)

Além das atividades de pesquisa, o Gabinete também promove ações formativas, como um curso de extensão voltado à conservação de obras em papel, livros e documentos, oferecido anualmente no segundo semestre. A iniciativa reúne estudantes, profissionais de museus, bibliotecas, arquivos e pessoas interessadas na preservação de acervos.

O trabalho desenvolvido tem servido de modelo para outras instituições de ensino superior. Um dos casos mais emblemáticos é o da Universidade Federal de Sergipe (UFS), que criou seu próprio gabinete de estampas após conhecer a experiência da Unicamp, resultando numa parceria permanente. Integrantes da equipe da Universidade passaram a oferecer consultorias e cursos sobre conservação, catalogação e gestão de acervos gráficos em Aracaju.

Diversão na UPA

As ações educativas também ganharam espaço crescente nos últimos anos. Durante o Unicamp de Portas Abertas (UPA), evento que recebe milhares de estudantes do ensino médio no campus, o Gabinete de Estampas promove oficinas e atividades que apresentam ao público os processos de criação e impressão das gravuras.

Para a próxima edição, no dia 22 de agosto, a equipe pretende utilizar jogos educativos desenvolvidos em uma oficina voltada à formação de professores e educadores. Entre as atividades estão quebra-cabeças, jogos da memória, tabuleiros e outras propostas inspiradas em obras do acervo. “A ideia é aproximar os visitantes do universo das artes de forma lúdica e participativa, permitindo que os estudantes conheçam técnicas, materiais e processos de impressão que fazem parte do cotidiano do Instituto de Artes”, completa Andrade.

Foto de capa:

A coleção é sediada na Biblioteca de Obras Raras (Bora) e tem atraído pesquisadores e inspirado projetos semelhantes em outras instituições de ensino
A coleção é sediada na Biblioteca de Obras Raras (Bora) e tem atraído pesquisadores e inspirado projetos semelhantes em outras instituições de ensino

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Qualidade de vida que pulsa pelos caminhos ao ar livre

6 de Maio de 2026, 17:14
Qualidade de vida que pulsa
pelos caminhos ao ar livre

Praças convidam a pequenas pausas, e áreas verdes servem de abrigo, respiro e oportunidade para praticar atividade física

Para quem chega, é o corpo que percebe primeiro. Ao cruzar as entradas da Unicamp no campus de Barão Geraldo, mais do que prédios e salas de aula, entre a natureza e o movimento, são os caminhos arborizados que convidam a pequenas pausas. Nesse instante inaugural, antes de oferecer conhecimento, a Universidade pulsa como abrigo e respiro.

Em meio ao concreto, o campus se afirma como uma “ilha verde”. Vista do alto, a área da Unicamp se desenha como uma natureza que resiste; ao nível do chão, esse traço se transforma em experiência, com saguis nas copas das árvores e o canto das aves que, por instantes, suspende o ruído da cidade. Ao longo do dia, a Universidade se reinventa nos usos. Os parques se tornam trajetos de caminhada e corrida no final da jornada diária; bicicletas cruzam as vias em fluxo contínuo e, sob as árvores, grupos se reúnem em piqueniques improvisados.

Parte desse cenário é resultado de um trabalho contínuo de gestão ambiental, que envolve desde o cuidado com animais até o planejamento das áreas verdes e a preservação da biodiversidade. O prefeito universitário, Juliano Finelli, ressalta que, além de garantir o funcionamento do campus, a Prefeitura foca na qualidade de vida da comunidade. “A nossa preocupação é oferecer um ambiente acolhedor, seguro e agradável, onde as pessoas possam viver o campus, circular, estudar, trabalhar e conviver.”

Caminho arborizado em parque urbano com árvores de flores vermelhas formando um corredor natural, onde pessoas caminham e circulam de bicicleta sobre o solo de terra batida, cercado por gramado verde e com veículos visíveis ao fundo.
Caminho arborizado em parque com palmeiras em ambos os lados, onde uma pessoa pedala bicicleta em primeiro plano e outras pessoas caminham ao fundo em um dia ensolarado.
Criança de costas balançando em um balanço de madeira em um parque com gramado verde, árvores e veículos estacionados ao fundo, enquanto outra pessoa caminha em segundo plano.
Pessoa praticando slackline em um parque arborizado, equilibrando-se sobre uma fita suspensa entre árvores, com vegetação ao redor e edificações ao fundo.
Parte do cenário é resultado de um trabalho contínuo de gestão ambiental

Entre institutos e vias, a vegetação compõe um mosaico de origens diversas, com espécies da Mata Atlântica e do Cerrado, que convivem com árvores trazidas de outros territórios ao longo das décadas. Ipês que explodem em cor, jerivás que se erguem esguios, pitangueiras e mangueiras, além de muitas outras árvores frutíferas, oferecem frutos e sombra.

Maria Gineusa de Medeiros e Souza, coordenadora da Divisão de Meio Ambiente da Prefeitura Universitária, destaca que a Universidade mantém um levantamento sistemático da fauna e flora. Mas ressalta que, mais do que infraestrutura, o campus também desperta vínculos afetivos. “As árvores, por exemplo, compõem uma paisagem que carrega histórias.”

Pelo menos 17 mil árvores ocupam ruas, praças e unidades de ensino que, junto com os cerca de 500 mil metros quadrados de áreas de preservação ambiental, fazem da natureza uma presença constante que molda o clima, o ar e a forma como se habita o espaço. Segundo a coordenadora de serviços das áreas verdes da Prefeitura Universitária, Camila Alonso Santos, as áreas de preservação permanente estão consolidadas, mas exigem cuidados e planejamento. “Esses espaços são essenciais para a fauna silvestre, que circula por todo o campus. A diversidade de árvores e de abrigo também favorece a permanência da fauna, mesmo em um ambiente urbano.”

Da fauna silvestre, aves, insetos e pequenos mamíferos encontram abrigo e alimento nas áreas verdes. Nas partes preservadas e no entorno, surgem sinais de presenças mais discretas: veados, cachorros-do-mato e até rastros de passagem da tão temida onça, já flagrada pelas câmeras de monitoramento. Mais do que apenas refúgio, o campus é um corredor ecológico que permite que a vida circule.

Pessoa abraçando o tronco de uma árvore em um parque arborizado, sorrindo para a câmera, vestindo blusa azul e saia estampada com flores coloridas.
Pessoa com cabelos longos e óculos escuros, vestindo blusa floral colorida, toca o tronco de uma árvore em um parque arborizado com gramado verde e caminho de terra ao fundo.
À esquerda, a coordenadora de serviços das áreas verdes da Prefeitura Universitária, Camila Alonso Santos e, à direita, a coordenadora da Divisão de Meio Ambiente da Prefeitura Universitária Maria Gineusa de Medeiros e Souza

Floresta urbana

Aproximadamente 10 mil árvores do campus já foram cadastradas em um sistema acessível ao público, por meio do site Floresta Urbana Dentro do projeto está o Pomar da Unicamp, criado em outubro de 2025 pelo servidor público e ambientalista Helio Cavalheri Jr., com o apoio da Prefeitura Universitária. Mais do que um simples catálogo, a plataforma foi concebida como uma ferramenta de educação ambiental, voltada à divulgação das espécies frutíferas existentes no campus.

Antes de se tornar projeto, site e mapeamento, no entanto, tudo começou pelo encantamento. Para Cavalheri Jr., a relação com a Unicamp nasceu do olhar, e esse olhar foi imediatamente atraído pelas árvores. Quando ingressou pela primeira vez na Universidade, em 2012, o que mais o impressionou não foram os prédios ou as vias do campus, mas a quantidade e a diversidade de espécies encontradas pelo caminho, especialmente as frutíferas. “Assim que eu pisei aqui, a primeira coisa que me encantou foi a diversidade gigantesca de espécies, muitas das quais eu só tinha visto em livro.” O fascínio nasceu nos trajetos mais simples, nas caminhadas até o Restaurante Universitário, durante o horário de almoço.

Cavalheri Jr. deixou a Universidade em 2016, mas, sete anos depois, estava de volta e retomou sua pesquisa pessoal, que deu origem ao projeto Floresta Urbana. O trabalho, iniciado de forma independente, ganhou continuidade e avança sistematicamente, mapeando as árvores do campus de Barão Geraldo e se estendendo aos campi de Limeira e Piracicaba.

Pessoa de óculos e camiseta amarela estende o braço para colher frutos de uma árvore em ambiente externo arborizado durante o dia.
O ambientalista Helio Cavalheri Jr.: diversidade gigantesco de espécies

Em uma das primeiras ações do projeto, Cavalheri Jr. transformou a curiosidade em experiência compartilhada. Criou plaquetas com QR codes e as instalou junto às árvores, de modo que qualquer pessoa pudesse, ao apontar o celular, descobrir a história daquela espécie — seu nome, origem, se era nativa ou exótica, e até se oferecia frutos comestíveis. O gesto, inicialmente feito de forma artesanal e com recursos próprios, tornou-se o embrião do sistema de mapeamento que hoje se expande pelo campus.

Entre todas as espécies, são as frutíferas que ocupam um lugar especial em sua memória e em sua paixão. Ao descrever a ameixa-da-mata, por exemplo, ele prefere traduzi-la em experiência: o sabor, diz, lembra uma mistura de jabuticaba com pitanga. Esse vínculo também se expressa no cuidado cotidiano. Preocupado com árvores que vinham sendo danificadas pela roçadeira durante a manutenção das áreas verdes, ele decidiu agir por conta própria, abrindo espaço ao redor dos troncos e protegendo espécies nativas e frutíferas.

Mais do que frutos, ele enxerga nessas árvores uma forma de educação ambiental e de pertencimento. “Quando a pessoa sabe que aquela é uma espécie frutífera, nativa, importante para os pássaros e para os mamíferos, ela passa a olhar diferente”, afirma. Ao percorrer o campus, Cavalheri Jr. observa não apenas a presença das árvores, mas a vida que elas sustentam. Frutíferas como grumixama, cajá-manga, tamarindo, abiu e ameixa-da-mata atraem pássaros, saguis e outros animais. “Onde tem fruta, tem vida.”

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Os vários modos de habitar o espaço

Quadra poliesportiva coberta com piso azul e laranja, rede de vôlei instalada ao centro, e uma pessoa em pé próxima à rede, sob estrutura metálica com iluminação artificial e cobertura translúcida.
Vista aérea de um complexo esportivo contendo múltiplas quadras poliesportivas com superfície verde e laranja, três quadras de tênis com piso verde cercadas por área laranja, uma quadra de areia, além de estacionamento, áreas arborizadas e edificações adjacentes.
O campus pode ser um espaço para prática de atividade física e lazer

A natureza convida à pausa, e o corpo em movimento prolonga essa experiência. Caminhar, correr ou pedalar deixam de ser apenas deslocamento para compor os modos de habitar o espaço. É nesse território entre o cotidiano e suas possibilidades que a Diretoria de Esportes da Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (Proeec) busca atuar.

Mais do que ampliar a oferta de atividades, o desafio está em transformar a relação da comunidade com o campus e fazer com que ele seja vivido também como lugar de cuidado e bem-estar. “A ideia é que as pessoas se apropriem do campus como um espaço para prática de atividade física e lazer”, destaca o diretor de Esportes da Proeec, Renato Barroso da Silva.

Pessoa sorrindo com os braços cruzados, vestindo camiseta na cor vinho, em ambiente externo com vegetação ao fundo desfocado.
O diretor de Esportes da Proeec, Renato Barroso da Silva: lugar de cuidado e bem-estar

“O campus não é só um lugar para estudar e ir embora. Ele pode ser um espaço de convivência, de qualidade de vida. Hoje, esse uso já existe, mas de forma dispersa, e permanece como gesto individual, não plenamente incorporado à cultura universitária”, ressalta.

O engajamento segue como um dos principais desafios. “Não é falta de interesse, mas muitas vezes as pessoas não se veem nesses espaços ou não sabem que podem participar”, avalia. Apesar das dificuldades, a expectativa é de avanço gradual na consolidação de uma política esportiva mais abrangente na universidade. “Estamos construindo isso aos poucos, tanto do ponto de vista institucional quanto cultural”, conclui.

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Foto de capa:

Pessoa praticando corrida em um caminho de terra cercado por árvores e vegetação em um parque arborizado durante o dia.
Em meio ao concreto, o campus se afirma como uma “ilha verde”

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Arte que pulsa para tocar corações e mentes

29 de Abril de 2026, 15:15
Arte que pulsa para tocar corações e mentes

Entre espetáculos, encontros e percursos cotidianos, Universidade transforma a experiência cultural em parte da própria produção de conhecimento

No caminho entre uma aula e outra, o estudante, quase sem perceber, desacelera. Um som escapa de um ensaio ao longe, uma arte em uma parede atrai a vista, uma escultura no jardim interrompe o olhar automático de quem só queria chegar. O trajeto se transforma, e já não é apenas deslocamento, mas encontro. Na Universidade, a cultura não se limita a salas, palcos ou horários. Ela circula, ocupa os intervalos, faz pulsar corações e mentes. Mas essa rede de experiências não alcança todos da mesma maneira e nem sempre é compreendida em toda a sua diversidade. Ainda existem distâncias: de acesso, de repertório e, muitas vezes, de reconhecimento.

À frente da Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura da Unicamp (Proeec), a pró-reitora Sylvia Furegatti, escultora e professora de Artes Visuais no Instituto de Artes (IA), destaca que o próprio formato do campus de Barão Geraldo favorece a dinâmica da articulação entre cultura e extensão, que tem sido um dos eixos centrais da gestão, inclusive nos campi de Limeira e Piracicaba. “Trabalhamos para que essas dimensões se encontrem. Um projeto de saúde pode ter aspectos culturais, assim como uma ação cultural também dialoga com a sociedade”, explica.

A presença da arte no espaço cotidiano é uma frente em expansão. “A ideia é criar encontros inesperados”, aponta. Projetos como o Arte no Campus e o jardim de esculturas do Instituto de Artes (IA) buscam integração ao percurso diário. Mais do que montar instalações permanentes, a proposta é pensar o espaço como algo vivo, “um lugar de atravessamento, de convivência, de novas interações”.

Pessoa sorridente usando óculos de armação preta e camisa branca, posicionada em frente a uma parede com fotografias ao fundo, aparentando estar em um ambiente profissional ou de evento.
A pró-reitora de Extensão, Sylvia Furegatti: encontros inesperados

No ano passado, o Arte no Campus entrou em uma nova fase, com a instalação de duas obras de artistas mineiros: uma escultura de ferro de Leandro Gabriel, no centro da revitalizada praça Milton Santos, e a peça “Sentinela”, de Jorge dos Anjos, produzida com chapa de aço, que passou a ocupar um espaço no gramado do Restaurante Universitário (RU).” O campus de Limeira será o próximo a receber uma escultura, ainda em 2026”, adianta a pró-reitora.

Iniciativas como o Cine Cult e o Palco DCult ampliam o acesso a diferentes linguagens, tanto em espaços fechados quanto em áreas abertas do campus. A proposta, segundo Furegatti, é criar uma agenda diversa e contínua, capaz de oferecer múltiplas possibilidades de escolha ao público. “A Universidade precisa ter uma programação maior do que a capacidade individual de absorção. As pessoas escolhem, se identificam com uma linguagem, e isso também faz parte da experiência cultural.”

Essa lógica se desdobra em diferentes escalas, da formação de estudantes e produção artística interna à circulação de obras e artistas externos. Editais, parcerias e eventos de maior porte contribuem para projetar a Unicamp em circuitos mais amplos, ao mesmo tempo em que fortalecem a produção local, tanto em Barão Geraldo quanto nos campi de Limeira e Piracicaba. A Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA), por exemplo, organiza todos os anos o evento Primavera Cultural e Literária, cuja terceira edição, em novembro do ano passado, teve como objetivo a democratização da cultura em Limeira, além do incentivo à leitura e a integração com a comunidade.

O diretor de Cultura, Eduardo Okamoto: sentido ampliado de cultura
O diretor de Cultura, Eduardo Okamoto: sentido ampliado de cultura

“Trabalhamos com um sentido bastante ampliado de cultura”, destaca Eduardo Okamoto, que comanda a Diretoria de Cultura (DCult) da Unicamp. “Ela envolve as artes, mas também o comportamento, o convívio, as formas de estar junto.” É nesse território ampliado que a cultura se conecta diretamente à produção de conhecimento. “A inovação se produz no ambiente da cultura”, observa Okamoto. “A gente precisa de imaginação para pensar o novo, e essa imaginação se alimenta dos encontros, muitas vezes fora dos laboratórios.”

Esses encontros nem sempre são planejados. Podem surgir, por exemplo, no impacto de um concerto da Orquestra Sinfônica da Unicamp, no corpo em movimento ao participar de uma oficina, na atenção silenciosa diante de uma cena teatral. São momentos breves, às vezes quase invisíveis, mas que deixam marcas. “A pessoa volta diferente”, resume o diretor. “A cultura fertiliza o pensamento.”

Em um tempo marcado por distâncias e fragmentações, “precisamos reconstruir o convívio”, afirma Okamoto. “A cultura pode ser esse espaço seguro onde as pessoas se encontram e voltam a dialogar. Sentar-se em uma plateia, dividir o silêncio, reagir junto. Gestos simples que, pouco a pouco, reconstroem o tecido coletivo.”

No centro desse movimento, o Teatro de Arena se destaca como ponto de convergência. Aberto, atravessado por fluxos, ele, materializando uma ideia simbólica: a de que o coração da vida universitária pode ser um espaço de encontro e expressão. “É curioso pensar que o centro da nossa ‘pólis’ é um teatro”, ressalta.

Entre palcos e passagens, entre o previsto e o inesperado, a cultura na Unicamp não se impõe, ela acontece. E, ao acontecer, desloca, provoca, transforma. Como um gesto quase invisível que, de repente, muda a forma de ver, de pensar, de estar no mundo.

Esculturas espalhadas pelo campus de Barão Geraldo; na Universidade, a cultura não se limita a salas, palcos ou horários
Esculturas espalhadas pelo campus de Barão Geraldo; na Universidade, a cultura não se limita a salas, palcos ou horários

Paredes que falam

Nos corredores, escadarias e fachadas do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), as paredes falam. Grafites, pichações, murais e inscrições espontâneas formam camadas de memória, expressão e conflito que transformam o campus em um espaço vivo de leitura e pertencimento.

“A parede é incontrolável. Gostamos de falar que as paredes têm ouvidos, mas, no caso das nossas, elas têm boca e falam muito. As paredes falam aquilo que está pulsando fora do controle da Universidade”, destaca Josianne Cerasoli, professora do IFCH.

Pessoa de cabelos curtos acinzentados, vestindo blusa azul com padrão geométrico, gesticula enquanto fala em ambiente interno com cartazes informativos ao fundo sobre questões estudantis.
Pessoa de cabelos cacheados castanhos, usando vestido estampado em tons de verde, laranja e bege, gesticula com as mãos enquanto fala, posicionada em frente a uma parede com diversas imagens em preto e branco e alguns cartazes coloridos.
A professora do IFCH Josianne Cerasoli (à esquerda) e a doutoranda Luana Espig Regiani: desacelerar o olhar e perceber as intervenções urbanas

Ao percorrer o prédio, a sensação é de que cada parede acumula tempos distintos. Uma palavra reaparece em outro muro. Um símbolo resiste sob novas camadas de tinta. Um desenho conhecido ressurge em outro corredor. “É muito interessante passar pelas paredes não tentando fazer um juízo de valor, mas buscando de fato dialogar com aquilo que elas estão dizendo”, observa Cerasoli. “Elas expressam muita coisa. São muitos tempos colocados nessas mesmas paredes, então são muitas vozes.”

Durante eventos como o Universidade de Portas Abertas (UPA), as paredes do IFCH também se tornam pontos de identificação para os visitantes, especialmente os mais jovens. “Os adolescentes chegam impactados pelas paredes”, relata a professora. “Muitos reconhecem os artistas que estão ali, especialmente nas manifestações ligadas ao hip-hop. Dizem: ‘Esse fulano eu conheço’. E se surpreendem ao perceber que podem estar ao lado da arte de alguém que admiram.” Para Cerasoli, esse encontro ajuda a aproximar a Universidade da comunidade. “Olhar para as paredes sem o sentido de ficar isolado do mundo pode abrir portas.”

Um projeto desenvolvido no Instituto propõe justamente esse exercício: desacelerar o olhar e perceber as intervenções urbanas como linguagem, história e presença. A iniciativa, que surgiu a partir de uma disciplina voltada ao patrimônio e se tornou uma ação de extensão, envolveu o mapeamento e a investigação das obras espalhadas pelo prédio.

“O trabalho de extensão surgiu como um desdobramento da disciplina de patrimônio”, explica Luana Espig Regiani, doutoranda do IFCH, que contou com os estudantes Kelly Leme de Proença e Max Nascimento da Silva, autores do trabalho que deu origem ao projeto. “A ideia começou com o mapeamento dos murais do IFCH e, a partir disso, percebemos que o trabalho iria além, porque o Instituto tem essa característica muito forte de ser um museu a céu aberto, com tantas manifestações artísticas.”

Nos corredores e escadarias do IFCH, grafites, pichações, murais e inscrições espontâneas formam camadas de memória, expressão e conflito
Nos corredores e escadarias do IFCH, grafites, pichações, murais e inscrições espontâneas formam camadas de memória, expressão e conflito

A partir do mapeamento inicial, os estudantes e pesquisadores passaram a identificar, catalogar e investigar as histórias por trás das obras: os eventos em que foram produzidas, os artistas envolvidos e os sentidos que circulam entre elas. “Trabalhamos na identificação, no mapeamento e na seleção dessas obras para entender quais histórias estavam por trás delas, em que eventos foram feitas e quem são os artistas”, explica Regiani.

Entre as obras mapeadas, um dos murais de maior impacto é o que dialoga com a cultura e a luta indígena, funcionando também como memorial. “Essa obra traz também uma homenagem a uma aluna indígena do campus que faleceu e que está representada ali”, contou Regiane. Segundo Regiani, a obra mobiliza diferentes leituras e provocações. “Para a comunidade indígena, ele tem uma questão muito forte de representatividade e reconhecimento.”

Evento em espaço coberto com estrutura metálica, apresentando performance artística no palco central iluminado por luzes azuis e amarelas, com banner ao fundo exibindo logo e número 60, enquanto performers caracterizados se apresentam para o público presente.
Orquestra ensaiando em sala com arquitetura de tijolos aparentes, teto abobadado com claraboia, onde músicos estão sentados em formação com seus instrumentos e partituras, incluindo contrabaixos em destaque no primeiro plano à direita.
Espaço cultural coberto com estrutura circular onde ocorre uma apresentação artística, com instrumentos musicais ao fundo e diversos objetos em formato de cabaça dispostos no chão do palco, enquanto o público assiste das arquibancadas laterais .
Grupo de pessoas observa exposição de arte composta por painéis com ilustrações em formato de história em quadrinhos dispostos em grade sobre parede iluminada em ambiente de galeria ou museu.
Mural artístico pintado na lateral de um edifício retratando uma figura humana suspensa por paraquedas em tons de azul e cinza sobre fundo branco desgastado, cercado por vegetação e outras edificações sob céu azul.

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Aborto legal é direito à dignidade para vítimas de violência sexual

17 de Abril de 2026, 15:46

Aborto legal é direito à dignidade para vítimas de violência sexual

OMS preconiza informações sobre interrupção da gravidez e atendimento seguro às mulheres

A assistente social Bárbara Regina Daolio está preparada para receber as mais diversas situações no Ambulatório de Violência Sexual do Hospital da Mulher Prof. Dr. José Aristodemo Pinotti – Caism Unicamp, mas alguns dias são mais difíceis que outros: “A pessoa mais jovem que eu atendi foi uma menina de 10 anos. Ela ficou grávida de um conhecido da família, que vivia no mesmo ambiente. A criança nem entendia o que, de fato, estava acontecendo”, lamenta.

O Código Penal Brasileiro permite a realização do aborto em três situações: gravidez decorrente de estupro e estupro de vulnerável (o que inclui relações sexuais com menores de 14 anos), risco de morte para a mulher em decorrência da gestação, e casos de anencefalia fetal.

A assistente social Bárbara Regina Daolio: revolta em se reconhecer como vítima
A assistente social Bárbara Regina Daolio: revolta em se reconhecer como vítima

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os sistemas de saúde de cada país devem se adequar e garantir informações sobre os casos em que a interrupção da gravidez seja permitida e possibilitar atendimento humanizado e digno às mulheres nessa condição antes, durante e depois do aborto.

Para José Paulo de Siqueira Guida, professor do Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp e coordenador do Ambulatório de Violência Sexual do Caism, oferecer esse procedimento, amparado pela lei, é um ato de respeito ao ser humano. “É constante vermos medidas para tentar impedir [a prática do aborto nas situações previstas em lei], mas aqui nós buscamos entender que isso não é uma questão política, mas um direito humano da nossa paciente”, diz ele. “Não me coloco como uma pessoa a favor do aborto; ninguém é a favor disso. O que buscamos fazer é reduzir os danos de algo que foi muito ruim, como a violência sexual, e a partir disso buscar meios para que a pessoa volte à sua vida normal”, aponta o médico.

O professor José Paulo de Siqueira Guida, coordenador do Ambulatório de Violência Sexual do Caism: direito humano da paciente
O professor José Paulo de Siqueira Guida: direito humano da paciente

Guida ressalta a importância de um debate honesto sobre o tema: “Temos que ser pragmáticos. Muitas pessoas são contra o aborto, mas não veem problema em minimizar a violência sexual. O aborto [fora dos casos previstos na legislação] é proibido no Brasil, mas ele é realizado. Se você tiver dinheiro, faz com segurança em clínicas particulares de bairros nobres. Se não tiver, recorre a locais clandestinos, e a chance de morrer existe. Isso é algo muito linear: quem tem dinheiro não morre”, afirma.

O coordenador do Ambulatório de Violência Sexual do Caism informa que as pacientes de 12 e 13 anos de idade, por exemplo, são vítimas habituais de abuso familiar (por pai ou padrasto), sem distinção de classe social. “Eu, particularmente, acho que crimes sexuais são falhas muito graves de caráter. Como é possível uma pessoa achar que tem poder sobre outro corpo? Sempre é uma história difícil”, afirma.

Gestação

Daolio também vê com preocupação o aumento do número de atendimentos de mulheres agredidas durante a gestação. “Cada pessoa chega aqui de uma forma, mas o que percebemos em todas elas é a sensação de culpa. Existe a revolta em se reconhecer enquanto vítima de uma violência que ela não provocou. Mas a sociedade questiona muito a roupa usada, o fato de a mulher sair à noite e consumir bebida alcoólica, por exemplo. Sempre procuramos trabalhar na responsabilização do agressor e não na culpabilização da vítima”, esclarece a profissional.

fechamento para retranca

Atendimento multidisciplinar oferece espaço protegido para as mulheres

Lidar com a saúde da mulher requer um trabalho multidisciplinar que garanta atendimento rápido, orientação, discrição e, tão importante quanto, afeto. José Paulo Guida mostra que o hospital oferece um espaço protegido para receber as pacientes.

“Fazemos a prevenção de HIV e das diversas infecções transmissíveis; prevenir gravidez e possíveis agravos também. A saúde mental é um ponto importante. E quanto mais rápido essa mulher chega, maior é a chance de a gente intervir rapidamente e evitar complicações”, afirma o médico.

Nos casos que envolvem violência, a atuação é feita com bastante cuidado e respeito à história de cada paciente. Até mesmo um momento de troca de experiências é incentivado. Muitas vezes, esse ambiente permite que situações internalizadas apareçam. “A gente tem buscado fazer algum tipo de interação de grupo, e essa troca entre as mulheres fortalece demais essa liberdade para falar”, afirma o médico. “Os residentes e alunos de graduação são treinados para perguntar ativamente. São mulheres que chegam com alguma lesão que pode ser a ponta do iceberg”, acrescenta Guida.

Boletim de Ocorrência

O registro de boletins de ocorrência é incentivado como uma forma de garantir direitos à paciente, mas isso não é obrigatório para nenhuma forma de atendimento. O prontuário é um meio de prova que pode ser utilizado após ordem judicial, e o Caism conta com toda uma cadeia de custódia para garantir a validade jurídica dos elementos colhidos nos atendimentos iniciais. “O laudo da agressão é uma prova muito consistente. Já houve casos em que agressores acabaram sendo condenados em função de material que foi coletado. Enfim, o registro do BO por aqui pode ser mais um canal de proteção”, opina o médico.

fechamento da retranca
fechamento da retranca

Distância e deslocamento são desafios para as mulheres mais vulneráveis

Guida aponta um desafio que o Caism tentará enfrentar de forma mais efetiva a partir de agora: a distância física do hospital em relação aos bairros mais carentes de Campinas e região.

A questão é fundamental porque é na periferia que está a maior parte dos registros – e consequente, maior subnotificação – dos casos de violência contra a mulher.

“A gente sabe que Campinas é uma cidade muito grande e que, talvez, as mulheres em maior vulnerabilidade estejam em locais mais distantes do distrito de Barão Geraldo, onde o Caism está localizado. A distância é um impeditivo para elas. Sair de um lugar tão distante é difícil. O ideal, realmente, é que as políticas sejam descentralizadas”, avalia Guida.

O médico afirma que representantes do Caism têm mantido conversas com diversas Prefeituras para que haja um atendimento inicial mais assertivo nas Unidades Básicas de Saúde. “A mulher que chega aqui no Caism é aquela que conseguiu superar uma barreira, que passou pelo estupro, pela violência sexual. Ela teve coragem de chegar até aqui. Não é uma decisão fácil. Talvez mulheres mais vulneráveis ainda não estejam chegando, e a gente precisa pensar de que forma podemos fazer isso. O caminho mais adequado seria conseguirmos treinar mais gente para atender mais locais. Estamos falando do estado de São Paulo inteiro”, afirma.

Por outro lado, Guida lembra que há mulheres que não têm coragem de ir a unidades perto da suas casas porque temem encontrar conhecidos do bairro que trabalhem ali, ou serem vistas por algum vizinho que faça comentários. “Por isso, temos essa missão de não colocar barreiras no atendimento”, comenta o médico, fortalecendo o compromisso assumido há 40 anos pelo Caism de ser um território livre e seguro no atendimento à mulher. 

fechamento da retranca
Fachada do Caism

Homens trans e mulheres lésbicas são alvos do chamado ‘estupro corretivo’

Homens trans têm procurado o Caism em busca de atendimento após serem vítimas de violência. De acordo com Guida, em alguns casos esses pacientes são vítimas do chamado “estupro corretivo”, ato criminoso cometido para tentar controlar o comportamento sexual ou social da vítima. Mulheres lésbicas também são alvo. O desafio do hospital é ser uma referência de empatia e segurança para todas as pessoas, independentemente de sua orientação sexual ou expressão de gênero. “A questão do estupro corretivo tem surgido tanto para homens trans quanto para mulheres lésbicas. É muito cruel”, lamenta o médico.

Outra preocupação do médico é com as mulheres transexuais, cuja presença no Caism é mais reduzida. “Recebemos poucas mulheres trans e sabemos que essa é uma população extremamente vulnerável. A expectativa de vida de uma mulher trans no Brasil é de 35 anos devido à violência. Essas mulheres não têm chegado aqui, e a gente não sabe onde elas são atendidas”, comenta o coordenador do Ambulatório.


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Agressores transformam redes sociais em ‘armadilhas’ para mulheres

10 de Abril de 2026, 14:34

Agressores transformam redes sociais
em ‘armadilhas’ para mulheres

Caism, há 40 anos referência de atendimento a vítimas de violência sexual e doméstica, registra aumento de casos e desafio é ampliar ação nas periferias

Perfis falsos atraem a atenção, geram uma confiança ilusória e, ao final, surge a armadilha que abre caminho para todo tipo de ameaça, agressão e abuso. As redes sociais são um território livre para predadores sexuais atacarem mulheres e meninas. “Democrática”, a violência não escolhe idade, lugar ou condição econômica, apesar de as vítimas pretas e pobres serem os registros mais comuns nas estatísticas. O impacto é tão devastador que alguns profissionais de saúde afirmam que é comum pacientes apresentarem traumas aliados a hipervigilância, ansiedade e amargos flashbacks – um quadro que se encaixa na descrição do transtorno de estresse pós-traumático, semelhante àquele vivenciado por veteranos de guerra.

Esta realidade é cada vez mais comum entre os atendimentos no Hospital da Mulher Prof. Dr. José Aristodemo Pinotti (Caism-Unicamp), que há 40 anos é referência no atendimento e acompanhamento de vítimas de violência sexual. Ali, as pacientes — 50% das quais são menores de 18 anos — têm acompanhamento por seis meses após sofrerem a violência sexual. Mesmo entre as demais pacientes que buscam o local para atendimentos diversos, até 15% trazem algum registro de violência.

O coordenador do Ambulatório de Violência Sexual do Caism, José Paulo de Siqueira Guida
O coordenador do Ambulatório de Violência Sexual do Caism, José Paulo de Siqueira Guida

“As redes sociais estão virando uma armadilha para a mulher. Temos visto um número significativo delas que começa a ter algum contato com uma pessoa pela internet, marca um encontro e percebe que não era nada daquilo. Identidade fake do outro lado, a conversa vai evoluindo e, de repente, ela chega lá e é estuprada”, afirma José Paulo de Siqueira Guida, professor do Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) e coordenador do Ambulatório de Violência Sexual do Caism.

O uso das redes sociais como isca para a violência sexual é um fenômeno que ainda desafia os profissionais da saúde. “Isso é uma coisa que a gente está colocando no nosso radar. Há 25 anos, não tínhamos aplicativos. Estamos tentando levantar dados de forma mais consistente até para, depois, poder ajudar as autoridades a terem dimensão de que isso é um problema que está acontecendo. É um novo desafio”, acrescenta o médico.

As consequências de vários desses contatos virtuais que, cada vez mais, se transformam em pesadelos reais acabam sendo registradas no Caism, e sua frequência vem crescendo. “Podemos até comparar como algo em uma escala de catástrofe. Muitas chegam em um estado de apatia, vulnerabilidade, precisando de um lugar de cuidado. A nossa tentativa, o tempo inteiro, é oferecer esse espaço”, afirma Mariana Santos, psicóloga assistencial e supervisora do treinamento na área da Ginecologia do Caism.

A psicóloga assistencial Mariana Santos
A psicóloga assistencial Mariana Santos

 “Temos casos que se assemelham ao transtorno de estresse pós-traumático. Muitas desenvolvem esse quadro, que é mais grave e com maior risco de repercussão social, emocional, de distanciamento da rotina e contato com as pessoas. Elas enfrentam a perda da rotina, não conseguem estudar ou trabalhar, passam a viver em um isolamento”, relata a psicóloga.

A profissional, que é responsável por acompanhar as condições emocionais das pacientes, destaca o papel negativo das redes sociais nos últimos anos. “A gente percebe que são ambientes de abuso. Identificamos isso aqui, inclusive, em alguns estudos que produzimos. A violência gerada pelo contato em redes sociais, dos chamados ‘conhecidos virtuais’, aparece nos dados de nossos levantamentos”, confirma Santos.

Sua colega Laíse Potério, supervisora do setor de Psicologia, com quatro décadas de atuação no Caism e muitos momentos de dor e alegria vividos ali, confirma os novos casos que têm chegado. “A busca para conhecer alguém em aplicativos de relacionamentos leva à violência e ao abuso. Eles acontecem nesses encontros marcados. Virou armadilha mesmo”, aponta.

Resgate 

Ândria Cléia Alves, supervisora de seção do Serviço Social do Caism, confirma que as novas formas de relacionamento trouxeram com elas as velhas situações de exploração do corpo e mente das mulheres. “A violência sexual, aquela que atendemos com maior frequência aqui, tem envolvimento de um companheiro, parente, ex-namorado ou conhecido da família, mas também temos essas abordagens através das redes sociais. São pessoas que criam um perfil falso, um vínculo de confiança, e depois cometem o crime. É uma questão de oportunidade”, conta.

Alves está há mais de duas décadas no hospital e convive, ao lado de uma equipe especializada, com a missão de resgatar mentes destruídas pela exposição à violência sexual. “A mulher que vem para o Caism traz todo o seu histórico de vida, e as violências física e doméstica fazem parte disso. Muitas ocorrências são subnotificadas porque, muitas vezes, a mulher não consegue dizer o que está acontecendo, pois existe uma dependência emocional e financeira. Há ameaças a ela e aos filhos. Então, a gente vai acompanhando a situação dessas pessoas. Queremos fortalecer essas mulheres para que, nas próximas ações, elas possam sair dessa situação.”

A psicóloga Laíse Potério
A psicóloga Laíse Potério
Caism é referência no acolhimento
A supervisora Ândria Clélia Alves
A supervisora Ândria Clélia Alves

A subnotificação das pessoas vivendo em situação de violência é o grande desafio para dimensionar, de fato, o problema social que ganhou ares de epidemia nos últimos tempos. Apenas em 2025, foram registrados 1.568 feminicídios no Brasil, de acordo com levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Um crime é considerado feminicídio quando a vítima é morta pelo simples fato de ser mulher. Em 2015, quando essa tipificação penal foi adotada, o Brasil registrou 535 mortes. Uma década depois, o número cresceu 316%.

Ândria Cléia Alves reforça a questão dos diversos perfis de pacientes: existe a mulher que reconhece a violência sofrida, mas não tem condições de sair da relação naquele momento; as que justificam picos de agressividade dos companheiros provocados pela bebida ou drogas; e há aquelas que naturalizam a situação e não percebem que são vítimas. Existem aquelas que sofrem graves ameaças e têm medo de contar e morrer. A inconformidade do ex-parceiro com o fim da relação, associada a um comportamento violento, são as maiores causas de feminicídio no Brasil.

“Precisamos sempre ter respeito pelo momento delas. Eu tenho como voltar para minha casa e saber como me reorganizar, mas algumas mulheres não têm isso; elas enfrentam o medo de não serem protegidas”, lamenta a supervisora do Caism. “Vivemos sob a cultura do estupro, que busca apontar justificativas para o que acontece com a mulher: a roupa que usa, o horário em que está na rua… Há uma inversão do senso comum. Isso é grave porque você naturaliza a violência e a enxerga como algo que a mulher causou. Na realidade, uma mulher pode estar em qualquer lugar a qualquer momento”, acrescenta Alves.

Vítimas, muitas vezes, chegam ao Hospital da Mulher acompanhadas pelos próprios agressores
Vítimas, muitas vezes, chegam ao Hospital da Mulher acompanhadas pelos próprios agressores

Como se não bastasse, em algumas ocasiões, as vítimas chegam acompanhadas pelos próprios agressores. “Quando vejo que a pessoa é muito misógina, chamo um médico ou um enfermeiro para atender junto. Daí, o cara baixa a bola. Mas foram poucas vezes que aconteceu isso, porque aqui dentro eles costumam manter o papel de bom moço”, conta a supervisora. “Se a mulher determinar que o acompanhante não entre, não adianta espernear, ele ficará do lado de fora. Pode ter certeza, ele jamais chamará a polícia”, comenta ela.

Ainda de acordo com Alves, sempre foi difícil ocupar o papel de mulher na sociedade. Elas são colocadas em um lugar onde existe a necessidade de proteção porque aos homens tudo é permitido. “Penso que há um movimento de ódio contra a mulher. Tem relação com o que vivemos nos últimos anos. Houve um movimento de desmobilização, falta de investimento em políticas públicas para a mulher. Todo esse trabalho precisou ser reconstruído”, diz a profissional do Caism.

Infográfico A Mulher como Alvo

Cartilha

Em 2023, o hospital lançou “Violência contra a Mulher – Cartilha para profissionais de saúde na atenção pré-natal e pós-natal”, das autoras Odette del Risco Sánchez, então doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Tocoginecologia da FCM, Ândria Cléia Alves, assistente social, Fernanda Garanhani de Castro Surita, professora da FCM. O objetivo do material, que é distribuído gratuitamente, é pontuar questões relevantes para os profissionais da saúde sobre a violência contra a mulher, disponibilizar referências para aprofundar o conhecimento sobre o tema e disponibilizar os serviços existentes na região para oferecer os encaminhamentos necessários. 

A abordagem deste tema dentro do serviço permite que as mulheres possam identificar as instituições de saúde como espaços acolhedores e de proteção.

Além dessa espécie de guia de atendimento, os profissionais do Caism também adotam a conduta de fazer com que as vítimas contem suas histórias apenas uma vez, tudo para que elas não revivam os chamados “gatilhos” de sofrimento. Outra iniciativa é incluir um protocolo de questões em todos os tipos de atendimento, para identificar situações menos evidentes. Algumas perguntas são: Está tudo bem em sua casa, com seu companheiro? Você está com problemas no relacionamento familiar? Você acha que os problemas em casa estão afetando sua saúde?

Morte

Além da dificuldade de lidar com histórias sempre complexas, há ainda uma dor maior: a derrota para a morte. “Já aconteceu de perdermos alguém. Não vou entrar em detalhes, mas era uma pessoa que já vinha de um processo crônico de violência doméstica. O sentimento é horroroso, muito difícil. Foi uma pessoa que lutou bastante, teve toda uma rede envolvida e cuidados, mas, mesmo assim, a gente não conseguiu”, lamenta a supervisora do Serviço Social. “Tem circunstâncias que independem dos serviços. Em alguns momentos, a gente fica em uma situação de impotência diante de algumas coisas que não vão mudar completamente… Sabemos que alguns casos vão dar certo e outros não, por isso não podemos naturalizar ou perder a força de nos indignarmos diante das situações de violência”, observa Alves.

Infográfico dos casos com autoria conhecida (cometidos por homens)

Basta!

A psicóloga Laíse Potério incorpora essa mentalidade de que o apoio às mulheres vai além dos atendimentos. “Estou aqui desde o princípio, e todos os casos nos atravessam de alguma forma, porque a gente é mulher, mãe, filha. Essa violência é sempre um divisor de águas mesmo. A vida da mulher nunca mais será igual”, diz ela. “Chega, basta! Não dá para você ter um filho ou uma filha e não discutir essas questões com eles hoje em dia ou esperar que a escola faça isso. Falta um letramento sobre educação sexual. Nossa sociedade está doente”, desabafa Potério.

Ela conta que algumas mulheres têm necessidade de contar o ocorrido, como uma saída terapêutica. Já outras não têm mais estrutura para isso. São adolescentes e mulheres trazendo uma culpa enraizada, como se o ocorrido tivesse sido provocado por elas, através de um comportamento ou da escolha de uma roupa. Buscar ajuda e passar pelos procedimentos e exames necessários já é um desafio. “Quando a vítima chega aqui, esse reviver é avassalador. Os mecanismos de esquecimento precisam ser remexidos, e isso é extremamente doloroso. Algumas dizem que não vão contar para a família porque temem o julgamento, a vergonha, o ataque à reputação e a visão distorcida do ocorrido. Outras começam a tomar muitos banhos para tirar uma sujeira que está, na verdade, na alma”, afirma a psicóloga. “Elas vêm desesperadas e, ao vivenciar uma escuta empática, mudam. Ao final, buscam um longo abraço. É a sensação de não estar sozinha. As mulheres estão tendo acesso à informação e tentando buscar outros caminhos”, afirma Potério, com a experiência de quem sabe que, enquanto existir empatia, a batalha não estará perdida.

Infográfico Raixo-X dos feminicídios
Separador

Tecnologia que permite avanços é a mesma que fomenta agressões

Aspas

Com o crescimento acelerado dos aplicativos e sites de relacionamento, aliado a uma vida cada vez mais conectada nas redes sociais e ao avanço das tecnologias de geração de conteúdo por inteligência artificial, os cuidados ao se expor nesse ambiente precisam ser redobrados. Um dos principais pontos de atenção é a dependência emocional: pessoas mal-intencionadas frequentemente buscam indivíduos em situação de vulnerabilidade, explorando carência e fragilidade emocional. Por isso, antes de iniciar qualquer interação, é fundamental cuidar de si, fortalecer a autoestima e encontrar satisfação na própria vida, reduzindo a chance de manipulação por terceiros.

Mesmo ao se sentir preparada para um relacionamento — seja uma amizade virtual ou algo mais sério —, a cautela continua sendo indispensável. Perfis falsos criados com o uso de tecnologias generativas (que utilizam dados, textos, imagens, vídeos, áudios e códigos verdadeiros para criar algo diferente) são cada vez mais comuns, exigindo atenção a sinais suspeitos, como perfis excessivamente perfeitos ou comportamentos inconsistentes.

Nunca compartilhe dinheiro, dados pessoais sensíveis ou informações que possam comprometer sua segurança. Em chamadas de vídeo, observe possíveis falhas, como desalinhamento entre voz e imagem ou irregularidades faciais. Caso decida encontrar alguém presencialmente, avise pessoas de confiança, escolha locais públicos e movimentados e, se possível, vá acompanhada. Adotar essas precauções não é exagero, mas sim uma forma responsável de preservar sua segurança. Aspas

Stephane de Freitas Schwarz é doutoranda em Ciência da Computação, na Unicamp, na área de Análise Forense, e pesquisadora do Laboratório de Inteligência Artificial (Recod.ai).

Feminicídio é epidêmico no país, diz ministra das Mulheres

Assistente social e professora universitária aposentada, Márcia Lopes, ministra das Mulheres, defende a regulamentação das mídias sociais como forma de combate à violência digital que afeta meninas e mulheres no Brasil. Durante uma agenda em Campinas, ela se mostrou alarmada com a escalada do feminicídio no País.

“É muito importante que todas as políticas públicas olhem para esse fenômeno para, inclusive, analisar, dimensionar e entender o que tem ocorrido. O Ministério da Saúde, por exemplo, está tomando uma série de medidas, e uma delas é a solicitação junto à Organização Mundial da Saúde para incluir o feminicídio como um item do CID (Classificação Internacional de Doenças)”, afirmou a ministra, concordando que há uma epidemia de violência de gênero no País.

A minstra das Mulheres, Márcia Lopes: mais mulheres na política (Foto: Lúcio Camargo)
A minstra das Mulheres, Márcia Lopes: mais mulheres na política (Foto: Lúcio Camargo)

“A violência não nasce do nada. Precisamos investir na educação, na formação, romper ciclos históricos de machismo e misoginia. Se, daqui a alguns anos, tivermos profissionais de todas as áreas com outra formação, certamente essa realidade de banalização da violência vai se modificar. Por isso, queremos mais mulheres na política. Defendemos paridade: 50% de mulheres nos espaços de poder. Isso faz diferença. Sabemos que o mundo vem de uma raiz patriarcal, machista e misógina. Por isso a nossa luta é grande”, comentou Lopes.

A ministra citou o Pacto Brasil contra o feminicídio, lançado em fevereiro em todo o território nacional, que representa um compromisso entre o Executivo, Legislativo e Judiciário para agilizar o enfrentamento da violência contra a mulher. A meta é reduzir a impunidade e acelerar medidas que fortaleçam as redes de proteção. (Colaborou Daniela Prandi)

OS REDPILLS E A ‘MACHOSFERA’

Hoje, vemos a proliferação de conteúdos misóginos, como os chamados “redpills”, que não só reforçam estereótipos violentos, mas também normalizam o ódio, a desumanização e até a legitimação da violência contra mulheres.

Ao mesmo tempo, temos um cenário em que a juventude tem se mostrado mais conservadora do que gerações anteriores, algo que pesquisas recentes vêm apontando. O que se observa é que os mais jovens têm concordado mais com visões tradicionais sobre gênero, muitas delas baseadas em desigualdade e violência contra as mulheres.

A questão é que esse conservadorismo, combinado com a misoginia presente em parte da Geração Z, tem forte influência do ambiente digital. Por meio dos conteúdos da chamada “machosfera”, jovens encontram espaços que não só reforçam essas visões como também legitimam e incentivam comportamentos violentos contra mulheres. O caso recente de estupro coletivo em Copacabana, em que um dos suspeitos se apresentou à polícia usando uma camiseta com o lema de um influenciador “redpill”, evidencia como esses conteúdos transbordam para a vida real.

O que circula na internet impacta diretamente os comportamentos fora dela, influencia atitudes, molda relações e, no caso dos conteúdos “redpill”, alimenta todas as formas de violência contra a mulher: física, sexual, psicológica e moral. Esse cenário é agravado por características próprias do ambiente digital, como a velocidade de disseminação, o alcance maciço e a sensação de anonimato, que reduz barreiras para comportamentos agressivos.

Nesse contexto, é fundamental fortalecer políticas de formação e proteção para esses jovens. Estamos falando de pessoas em formação, expostas a um ambiente ainda pouco regulado e insuficientemente monitorado. É necessário avançar na regulação, tanto para proteger crianças e adolescentes no ambiente digital, através de iniciativas como o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) digital, quanto para garantir a retirada de conteúdos criminosos e a responsabilização de quem os produz e dissemina. Aspas

Beatriz Schroeder, pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

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