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Pesquisa expõe como sistemas de reconhecimento facial reproduzem desigualdades sociais

Por:raquel
12 de Maio de 2026, 13:50

Antes de reconhecer alguém diante da câmera, um sistema de inteligência artificial (IA) precisa decidir se aquele rosto “existe”. É justamente nesse momento, anterior à identificação, que, segundo a cientista da computação Ana Carolina Silva das Neves da Hora, mais conhecida como Nina da Hora, começam os apagamentos produzidos pelas tecnologias de reconhecimento facial, tema de sua tese de mestrado, Do Rosto ao Vetor: Epistemicídio Computacional no Reconhecimento Facial, defendida nesta segunda-feira (11), no Instituto de Computação (IC).

Orientada pela professora Sandra Avila, do IC, e coorientada pela antropóloga Marisol Marini, da Universidade de São Paulo (USP), a tese teve na banca examinadora a socióloga Angela Figueiredo, da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), e o pesquisador Virgílio Almeida, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). 

A pesquisa combina reflexão teórica e experimentos computacionais para analisar desigualdades em arquiteturas de detecção facial amplamente utilizadas em sistemas de IA. Da Hora propõe o conceito de “epistemicídio computacional”, inspirado nos trabalhos da filósofa Sueli Carneiro sobre o apagamento de sujeitos negros na produção do conhecimento. O trabalho multidisciplinar reúne computação, antropologia, artes visuais, estudos raciais e filosofia.

A pesquisadora auditou arquiteturas de detecção facial utilizando uma base criada pela Meta, dona do Facebook, do Instagram e do WhatsApp, a partir de vídeos enviados por pessoas de países como Brasil, Índia, Síria e Indonésia. Os resultados revelaram desigualdades profundas nos processos de detecção facial. “O dano já começa antes, quando o sistema sequer detecta aquele rosto como um rosto válido”, explica.

Em um dos experimentos, pessoas acima de 85 anos tiveram apenas 44% de taxa de detecção, enquanto grupos mais jovens alcançaram índices superiores a 90%. Em outros casos, determinados grupos simplesmente desapareciam dos sistemas. “Tivemos grupos com 0%. Normalmente, quando aparece um 0%, você roda o sistema de novo e tenta corrigir. Mas quis investigar por que aquelas pessoas tinham desaparecido”, diz.

Uma pessoa apresentando em um evento acadêmico, gesticulando diante de duas telas de projeção, sendo uma com participantes em videoconferência à esquerda e outra com slide de apresentação em português sobre questões de pesquisa à direita.
Pessoa apresentando em evento acadêmico diante de projeção contendo slide com título "O rosto não é dado natural: e superfície de disputa" e subtítulos sobre teorias relacionadas a eugenia e biometria, com monitor ao fundo exibindo participante remoto em biblioteca.
A pesquisa combina reflexão teórica e experimentos computacionais para analisar desigualdades em arquiteturas de detecção facial amplamente utilizadas em sistemas de IA

Segundo Da Hora, os sistemas simplificam realidades complexas ao transformar diversidade humana em categorias rígidas. “É como se não existissem variações. Ou você é branco ou você é negro. Mas nós sabemos que isso não representa países como o Brasil.”

Mais do que erros técnicos, a pesquisadora vê nesses resultados a materialização de escolhas políticas e históricas. “A etapa do reconhecimento só acumula problemas. Primeiro, o sistema precisa decidir que existe um rosto ali.” Em muitos casos, afirma, nem mesmo a autodeclaração das pessoas é suficiente. “Quando eu mando um vídeo dizendo quem eu sou, pessoas do outro lado podem dizer que eu não sou aquilo que estou dizendo. E, às vezes, a palavra delas vai valer mais.”

Segundo a pesquisadora, o problema não está apenas na precisão técnica. “A questão não é fazer a tecnologia funcionar melhor”, afirma. “É perguntar por que estamos insistindo em tecnologias que transformam pessoas em padrões de vigilância.”

Da Hora vê a expansão dessas tecnologias como parte de uma transformação maior nas formas de controle social e circulação da informação. “O reconhecimento facial e as inteligências artificiais são vendidos como solução para tudo. Mas, muitas vezes, o que elas produzem é exclusão e aprofundamento de desigualdades. Eu queria entender o que se perde quando você transforma o rosto de uma pessoa em vetor matemático”, afirma.

“Você olha para um rosto e tenta resumir aquela pessoa a medidas, padrões e probabilidades. Só que ali existe história, contexto e identidade”, destaca.

Além da dissertação, a pesquisadora tem novos trabalhos acadêmicos. Um deles, intitulado Frankenstein em Processo: Epistemicídio Computacional no Reconhecimento Facial, será apresentado em junho, no Canadá, em uma conferência mundial sobre justiça algorítmica. No artigo, ela aproxima a lógica dos sistemas de reconhecimento facial da figura do personagem Frankenstein. “Você pega retalhos e monta uma pessoa”, explica. “Fragmenta o rosto e tenta contar a história de alguém apenas a partir daquilo.”

Uma pessoa usando óculos e vestimenta com estampa geométrica colorida gesticula com as mãos enquanto fala em um ambiente interno com quadros ao fundo.
Pesquisadora se tornou uma das vozes mais conhecidas da discussão sobre tecnologia e racismo algorítmico no país

Ativismo e ética

Prestes a completar 31 anos, Nina da Hora se tornou uma das vozes mais conhecidas da discussão sobre tecnologia e racismo algorítmico no país. Colunista da MIT Technology Review Brasil, pesquisadora do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getúlio Vargas (FGV), integrante da comissão de tecnologia do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e fundadora do Instituto da Hora, ela construiu uma trajetória que atravessa ciência, ativismo e divulgação tecnológica.

Em poucos anos, acumulou reconhecimentos importantes. Em 2022, recebeu o CUBS Sabiá Award, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, pela pesquisa sobre racismo algorítmico no reconhecimento facial. Antes disso, entrou para a lista Forbes Under 30 e foi incluída entre as 100 mulheres mais relevantes do mundo em ética em inteligência artificial.

Embora hoje seja conhecida nas redes como “hacker antirracista”, a pesquisadora explica que sua trajetória passou menos pela invasão de sistemas e mais pela cibersegurança. Ela trabalhou com análise de hardware e investigação técnica de códigos, especialmente em projetos ligados às urnas eletrônicas e à transparência eleitoral nas eleições de 2022. “Eu trabalhei mais com hacker ético”, afirma. “Depois, os caminhos me levaram para a inteligência artificial e ‘hacker’ acabou virando mais um apelido”, conta.

Essa preocupação atravessa também sua atuação pública. Depois de integrar a Comissão de Transparência das Eleições de 2022, Da Hora volta a colaborar com o TSE, agora em discussões ligadas à inteligência artificial, plataformas digitais e regulação tecnológica. Ela acredita que as próximas eleições brasileiras serão profundamente impactadas pelo avanço da IA generativa. “Essa vai ser a eleição da inteligência artificial”, afirma. “Nós já temos dificuldade de diferenciar o que é real e o que não é. Isso vai aumentar muito nas campanhas.”

Segundo Da Hora, embora o TSE tenha aprovado regras para limitar determinados usos de IA durante o período eleitoral, ainda existem poucas ferramentas capazes de detectar manipulações em larga escala. “A disputa agora também acontece no campo da confiança”, observa. “As pessoas vão olhar vídeos, imagens, áudios, e muitas vezes não vão saber se aquilo aconteceu de verdade.”

Outro eixo importante de sua atuação está no Instituto da Hora, organização criada em 2020 para discutir direitos digitais, IA e soberania tecnológica a partir de perspectivas antirracistas. O instituto mantém projetos voltados à formação de jovens periféricos em segurança da informação e apoio a pessoas LGBTQIAPN+ interessadas em pesquisa e tecnologia. “A gente trabalha muito nesse momento do ‘pré’ e do ‘durante’ tentando ajudar as pessoas a chegar nesses espaços e permanecer neles.”

Três pessoas conversam em pé diante de uma tela de projeção que exibe o título "Do Rosto ao Vetor: Epistemicídio Computacional no Reconhecimento Facial" e informações sobre uma defesa de dissertação de mestrado de Nina da Hora, em um ambiente de apresentação acadêmica.
Duas pessoas abraçadas sorrindo em um ambiente acadêmico, com projeção ao fundo exibindo texto sobre orientadora e coorientadora, durante o que aparenta ser uma defesa ou apresentação acadêmica.
Nina Da Hora (ao centro) ao lado das orientadoras Sandra Avila (à esquerda) e Marisol Marini e com a mãe Ana Cláudia

Fora do roteiro

Quando chegou à Unicamp, vinda da Baixada Fluminense (RJ), Da Hora carregava a sensação de estar em um território que, durante muito tempo, parecia não lhe pertencer. “Tinha um roteiro muito mais simples para a minha vida”, afirma. “Fazer pesquisa na Unicamp não fazia parte do roteiro.”

A pesquisadora aprendeu programação ainda adolescente no computador de uma tia e com materiais emprestados por amigos da mãe, a professora Ana Cláudia, que prestigiou a defesa do mestrado na Unicamp.

Antes de chegar ao curso de graduação em Ciência da Computação, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), conciliou estudos, trabalho e longos deslocamentos diários. Na faculdade, o choque social foi imediato. “Eu vivia em outra realidade, as pessoas perguntavam, por exemplo, por que eu trabalhava.”

Na Unicamp, o estranhamento voltou em outra escala. “É outro mundo ao quadrado”, afirma. “A Unicamp, para mim, tem uma diversidade muito maior do que outros espaços por onde passei. Ela é um mundo de oportunidades.”

Entre uma conferência internacional, experimentos computacionais e debates públicos sobre tecnologia, a pesquisadora tenta administrar a dimensão mais íntima de tudo o que conquistou nos últimos anos. “Se eu pudesse traduzir meu sentimento, é uma mistura de muito orgulho do que eu fiz e o medo de perder. Fiquei em alerta durante esses três anos.”

Depois da defesa, planeja descansar por algumas semanas antes de decidir os próximos passos do doutorado, possibilidade já discutida por grupos da própria Universidade. Enquanto fala sobre o futuro, Da Hora retorna várias vezes à ideia do improvável. Não como exceção individual, mas como abertura de caminhos. “Hoje eu encontro estudantes chegando na computação com os olhos brilhando”, conta. “E eu penso muito nisso, porque eu também não imaginava que conseguiria chegar aqui.”

Foto de capa:

Ambiente de evento com participantes sentados em cadeiras assistindo a uma apresentação, onde uma pessoa está de pé próxima a uma mesa de madeira clara, com múltiplas telas exibindo videoconferência e projeção de slides contendo texto em português.
Nina durante apresentação da dissertação de mestrado Do Rosto ao Vetor: Epistemicídio Computacional no Reconhecimento Facial, defendida nesta segunda-feira (11), no Instituto de Computação (IC)

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Pterossauros para jovens exploradores

Por:raquel
11 de Maio de 2026, 15:45

Resultado de uma dissertação de mestrado em Ensino e História de Ciências da Terra defendida no Instituto de Geociências (IG) da Unicamp, o livro “Pterossauros para jovens exploradores” apresenta de forma didática a família desses lagartos alados, muitas vezes confundidos com dinossauros. Com orientação de Fresia Soledad Ricardi Torres Branco, a pesquisadora Cristiane Vigilato da Paixão desenvolveu um material didático como ferramenta para o ensino de paleontologia na educação básica. O livro, de 66 páginas, reúne os frutos de sua dissertação e 13 modelos de pterossauros para serem recortados e montados em formato de móbile.

Paixão é formada em Biologia pela Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP) e, durante a graduação, foi orientada por Ariel Milani Martine, que a coorientou no mestrado. Além do livro, junto a uma equipe, a pesquisadora elaborou um móbile, pendurado no teto do hall do IG, que foi pensado como uma árvore filogenética, com representantes das 13 famílias de pterossauros estudadas.

O livro, que traz as mesmas espécies do móbile, também apresenta conceitos de paleontologia e de evolução, mostrando onde esses seres habitavam e onde hoje são encontrados seus fósseis. “Há um pouco de biologia e de geologia”, explica Paixão. Segundo orientadora Fresia Ricardi, “um banner explicativo com QR Code ficará disponível na entrada principal do prédio para que as pessoas possam conhecer os pterossauros”. O material foi registrado na Biblioteca Nacional e tem direitos autorais reservados.

Quatro pessoas sorrindo seguram um livro sobre pterossauros e maquetes de répteis voadores suspensos, em ambiente interno com teto alto, janelas e iluminação natural, com uma exposição sobre paleontologia.
Átrio interno de uma edificação institucional com pé-direito amplo, claraboia em estrutura metálica amarela no teto, múltiplos pavimentos com varandas laterais, escadaria central em mármore com corrimãos brancos, e grupo de pessoas observando a arquitetura do espaço, com balcão de recepção ao fundo.
Equipe que desenvolveu o projeto do móbile com a orientação da professora Frésia Ricardi (blusa verde)

Ariel Martine foi responsável pela pintura dos pterossauros; Pábulo Matheus Domiciano, doutorando em Geociências no IG, fez as ilustrações; Bruno Belila Rusinelli elaborou os mapas do livro. Paixão ficou responsável por vetorizar os desenhos do mobile em AutoCad, que foram cortados no Laboratório Plasma, do Instituto de Física Gleb Wataghin.

Para produzir o móbile e imprimir o livro, a equipe coordenada por Fresia Ricardi obteve apoio da Pró-Reitoria de Pós-Graduação da Unicamp e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). “A coordenação do Programa de Pós-Graduação em EHCT colaborou para o sucesso da submissão do projeto de extensão junto à Capes”, reforça a orientadora. Assim, além da impressão do móbile em destaque no hall do IG, foi possível imprimir 200 exemplares que serão distribuídos. Uma versão online está disponível na Biblioteca Digital da Unicamp.

Foto de capa:

Três pessoas sorrindo posam para foto em ambiente interno com arquitetura moderna colorida ao fundo, sendo que a pessoa ao centro segura um livro sobre pterossauros e a pessoa à direita segura uma estrutura articulada representando um pterossauro.
Da esquerda para a direita, Bruno Belila Rusinelli, Cristiane Vigilato da Paixão e Pábulo Matheus Domiciano: apoio ao projeto da Capes e PRPG

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Livro de coleção internacional celebra Walter Carnielli e contribuição brasileira à lógica

Por:raquel
28 de Abril de 2026, 15:56

O lançamento do livro Walter Carnielli on Reasoning, Paraconsistency, and Probability [Walter Carnielli sobre o raciocínio, a paraconsistência e a probabilidade], 32º volume da coleção Outstanding Contributions to Logic, da editora alemã Springer, uma das mais prestigiadas do mundo acadêmico, marca um momento de inflexão para a lógica desenvolvida no Brasil. A obra reúne contribuições de 19 pesquisadores de diferentes países em torno da produção científica do lógico-matemático Walter Carnielli, professor titular do Departamento de Filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e pesquisador-sênior da Unicamp, vinculado ao Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE).

Mais do que uma homenagem individual, o livro se insere em um movimento mais amplo de reconhecimento da ciência brasileira e amplia a visibilidade internacional de uma tradição de pesquisa construída ao longo de décadas no país, destaca o professor. “O livro não é uma homenagem a mim apenas, é uma homenagem à lógica brasileira”, afirma Carnielli, autor, entre outros títulos, de Computabilidade: funções computáveis, lógica e os fundamentos da matemática, ganhador do Prêmio Jabuti, e de Pensamento crítico: o poder da lógica e da argumentação, escritos em parceria com o matemático norte-americano Richard L. Epstein.

A coleção da Springer reúne livros dedicados a nomes de grande impacto na área, e a inclusão de Carnielli marca um feito inédito: é a primeira vez que um pesquisador fora do eixo hegemônico é homenageado na série. “Nem América Latina, nem África, nem outros países do Sul Global tinham sido contemplados antes”, conta.

O professor Wlater Carnielli: homenagem à lógica brasileira
O professor Walter Carnielli: homenagem à lógica brasileira

Para o professor, esse dado evidencia uma desigualdade estrutural no sistema científico internacional. “Conseguir esse espaço mostra que é possível romper essa barreira. De certa forma, eu furei essa bolha”, diz. A “bolha”, nesse caso, refere-se a uma estrutura consolidada de produção e circulação do conhecimento, na qual centros acadêmicos do Hemisfério Norte concentram visibilidade, prestígio e capacidade de influência.

Carnielli ressalta que pesquisadores de outras regiões frequentemente enfrentam mais obstáculos para alcançar reconhecimento equivalente, mesmo quando produzem contribuições relevantes. “É muito mais difícil para quem está fora desse eixo ganhar espaço”, aponta.

O livro foi organizado por Henrique Antunes, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), e Alfredo Roque Freire, da Universidade de Brasília (UnB), ambos ex-alunos de doutorado de Carnielli, e por Abílio Rodrigues, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e colaborador de longa data. A organização do volume levou quatro anos. “Foi um trabalho enorme. Coordenar autores de vários países, revisar textos e estruturar o livro demandou um esforço coletivo muito grande”, afirma. A obra apresenta análises críticas, desenvolvimentos teóricos e novas propostas a partir das ideias de Carnielli e de seus colaboradores. “Não é uma coletânea de elogios. É um debate científico de alto nível”, ressalta.

Cada capítulo dialoga com aspectos específicos da produção do pesquisador, abrangendo temas como lógicas paraconsistentes e não clássicas, computabilidade, teoria da probabilidade, filosofia da lógica e filosofia da ciência, por exemplo. Entre os destaques está a discussão sobre a relação entre a lógica contemporânea e a tradição aristotélica. Um dos textos propõe uma “ruptura radical” com essa ortodoxia. “Não se trata de jogar fora a lógica clássica, mas de estendê-la. Na matemática e na lógica, quase nunca se abandona o que foi construído. O que fazemos é ampliar”, afirma.

Para ilustrar essa ideia, ele recorre a uma analogia com a música brasileira. “A bossa nova não destruiu a música clássica nem o samba tradicional. Ela incorporou elementos e criou algo novo. Gosto de dizer que o Brasil está fazendo a ‘bossa nova da lógica’.”

Além de reunir os artigos, o livro inclui a participação direta de Carnielli, responsável por comentar cada uma das contribuições, estabelecendo um diálogo com os autores e aprofundando o debate. A obra traz ainda uma autobiografia intelectual, na qual o pesquisador revisita sua trajetória acadêmica, suas influências e os caminhos que levaram à consolidação da lógica paraconsistente no Brasil.

Escrito integralmente em inglês, o livro foi concebido para circulação internacional e já está disponível na plataforma Amazon. Com mais de 600 páginas, a obra se projeta como referência para pesquisadores da área e para novas gerações interessadas em lógica, filosofia e ciência da computação.

Ao olhar para o conjunto de sua trajetória, Carnielli vê no lançamento um momento de síntese. “Eu considero esse livro uma coroação de um trabalho coletivo de décadas”, afirma. “Se não fosse o ambiente da Unicamp, do Centro de Lógica, dos alunos e colaboradores, nada disso existiria.”

Capa do livro parte da coleção internacional

Escola brasileira de lógica

A publicação recupera e projeta especialmente o desenvolvimento da lógica paraconsistente, uma área iniciada no Brasil a partir dos trabalhos do matemático Newton da Costa (1929–2024), e de forma independente na Polônia.

Um dos pilares dessa trajetória é o Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE), criado no início dos anos 1970 a partir de uma iniciativa liderada pelo filósofo Oswaldo Porchat Pereira, que trouxe para a Unicamp a proposta de um espaço dedicado à pesquisa em lógica, filosofia e fundamentos da ciência, em um momento em que essas áreas ainda eram incipientes no Brasil. “O centro surgiu com a proposta de investigar não apenas a lógica formal, mas também seus fundamentos filosóficos e históricos, um enfoque inovador para a época”, lembra Carnielli, cuja trajetória está diretamente ligada ao CLE. Ele atuou desde os primeiros anos, participou da consolidação do centro, foi diretor da instituição durante 11 anos e hoje segue como professor e pesquisador-sênior, mantendo atividades na pós-graduação e orientação de alunos.

O CLE se consolidou como um dos principais polos de pesquisa em lógica na América Latina, formando gerações de pesquisadores. Foi nesse ambiente que a lógica paraconsistente encontrou espaço para se desenvolver e ganhar projeção. “Se não fosse este espaço, este grupo, este ambiente, esse trabalho não existiria”, destaca.

A lógica paraconsistente propõe uma inflexão conceitual importante em relação à tradição clássica. Enquanto a lógica tradicional, herdada em grande parte da filosofia aristotélica, não admite contradições, levando sistemas inconsistentes ao colapso, a abordagem paraconsistente permite trabalhar com elas de forma controlada, sem comprometer a racionalidade. “A ciência clássica não consegue lidar com contradições. Se você introduz uma, o sistema ‘explode’. A lógica paraconsistente, ao contrário, permite que você continue raciocinando de maneira rigorosa mesmo na presença de contradições”, explica.

Essa possibilidade aproxima a formalização lógica do modo como os seres humanos efetivamente pensam e tomam decisões, com profundos reflexos em várias áreas da ciência. No cotidiano, contradições são frequentes, com informações conflitantes, interpretações divergentes ou dados incompletos e, ainda assim, o raciocínio não colapsa. “É uma lógica mais humana, e mais realista, no sentido de que consegue lidar com situações concretas”, observa.

Ao longo das últimas décadas, essa abordagem deixou de ser apenas uma proposta teórica para se tornar uma ferramenta relevante em diversas áreas. Aplicações em computação, linguística, inteligência artificial, filosofia da ciência, teoria da probabilidade e fundamentos da matemática demonstram o alcance do campo.

Na Unicamp, esse desenvolvimento ganhou novo impulso com a reestruturação da teoria e a criação de uma vertente conhecida como lógicas da inconsistência formal, que sistematiza e amplia propostas anteriores.

“O que fizemos aqui foi retomar uma ideia que estava, de certa forma, dispersa, e reorganizá-la. A partir disso, conseguimos integrar diversas contribuições internacionais e dar maior consistência ao campo”, explica. “O resultado foi a consolidação de uma escola brasileira de lógica, que formou pesquisadores e se expandiu por diferentes universidades do país, como a Universidade de Brasília (UnB) e as Federais da Bahia (UFBA), de Santa Catarina (UFSC), do Paraná (UFPR) e de Minas Gerais (UFMG)”, completa.

Esse movimento também contribuiu para a internacionalização da área. Hoje, pesquisas em lógica paraconsistente e não clássica desenvolvidas no Brasil dialogam com centros nos Estados Unidos, Alemanha, Israel, Japão, Bélgica, França, Itália, Austrália, Nova Zelândia, México, Argentina e China. “A área cresceu e o grupo brasileiro ganhou projeção. Isso foi um trabalho coletivo, de muitos anos.”

Foto de capa:

A organização do volume levou quatro anos; cada capítulo dialoga com aspectos específicos da produção do pesquisador
A organização do volume levou quatro anos; cada capítulo dialoga com aspectos específicos da produção do pesquisador

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Projeto mapeia feiras livres e busca resgatar cultura de convivência em Campinas

Por:raquel
27 de Abril de 2026, 15:37

Se existem lugares que estão no DNA do Brasil, a feira livre é um deles. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem cerca de 9 mil delas em funcionamento atualmente, distribuídas em 3.961 municípios, alcançando 71,5% do país. Disposto a incentivar o público universitário a frequentar esses locais, um grupo de estudantes do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), da Unicamp, deu início ao projeto de extensão “Cadê a feira?”, que busca mapear e descrever cada um desses pontos de comércio popular e tradicional em Campinas. Valorizar a agricultura familiar é outro foco do grupo com este trabalho.

O que era para ser uma ação entre colegas, transformou-se em um projeto a serviço da comunidade em geral. Surgido em 2024 dentro das disciplinas de extensão universitária, alunos das Ciências Sociais passaram a combinar pesquisa acadêmica com ações práticas de resgate destes espaços, que vão além da compra de alimentos.

Atualmente, a iniciativa tem uma página no Instagram — kdafeira.unicamp —, onde é possível saber os bairros, dias e horários das feiras, além do que cada local oferece. “Hoje, entendemos que o projeto tem um caráter de utilidade pública, porque facilita o acesso à informação. Queremos conectar feirantes a consumidores”, explica o estudante Pedro Montefusco Neto, integrante da iniciativa.

Além de reunir dados, o grupo busca resgatar o papel das feiras como espaços de convivência. Mais do que locais de compra, elas são vistas como ambientes de socialização e de troca entre pessoas de diferentes origens. “Queremos recuperar essa cultura de frequentar a feira não só pelo consumo, mas pela experiência social”, comenta o estudante.

Estudantes durante a programação do Unicamp Portas Abertas, em 2025; a docente Artionka Capiberipe no centro e ao lado o estudante Pedro Montefusco Neto
Estudantes durante a programação do Unicamp Portas Abertas, em 2025; a docente Artionka Capiberipe no centro e ao lado o estudante Pedro Montefusco Neto

O projeto também tem investido em ações educativas. Entre elas, a participação em eventos universitários com atividades interativas sobre os caminhos dos alimentos até o consumo e a organização de exibições de documentários sobre alimentação e indústria alimentícia. Na edição mais recente do programa Unicamp de Portas Abertas (UPA), por exemplo, o grupo montou literalmente uma banca de feira para chamar a atenção dos visitantes.

Para ampliar este verdadeiro raio-x das feiras, o grupo do IFCH realiza um trabalho de campo que envolve um mapeamento a partir de dados públicos (site da Prefeitura de Campinas, por exemplo), a verificação das informações e visitas presenciais. Pedro Neto conta que, em alguns casos, feiras existentes no portal do município, na verdade, não existem. Por isso, a importância desse contato presencial pelas regiões da cidade.

Durante as idas aos locais, eles conversam com feirantes e consumidores, registram imagens em foto e vídeo, além de coletar dados sobre o funcionamento e o perfil dos trabalhadores. Outra ação do grupo foi a criação de localizações no Google para feiras que ainda não estavam registradas digitalmente.

Barão Geraldo

Por enquanto, as atividades estão concentradas em Campinas, principalmente por questões logísticas. O levantamento mais detalhado até agora foi feito na feira de Barão Geraldo, distrito de Campinas, onde os estudantes aplicaram questionários para compreender aspectos econômicos e históricos dos feirantes. Ainda de acordo com Pedro Neto, o perfil dos trabalhadores é diverso, e nem todos são produtores diretos. “É comum que muitos sejam revendedores, o que também faz parte da dinâmica atual. Por isso, além da agricultura familiar, também valorizamos a economia local como um todo”, afirma ele.

Questionado sobre a percepção de que as feiras estariam desaparecendo, o estudante avalia que elas continuam ativas, mas perderam visibilidade. A concorrência com supermercados, que oferecem maior praticidade, é apontada como um dos principais desafios. “As feiras não sumiram. O que mudou foi o acesso e o hábito das pessoas”, acredita.

Outro ponto observado é o perfil do público. A frequência ainda é majoritariamente composta por pessoas de uma faixa etária mais alta, habituadas culturalmente a frequentar esses espaços, o que reforça a necessidade de atrair novos consumidores. Para os integrantes do grupo, o objetivo central é manter viva uma prática cultural que resiste às transformações urbanas. “A feira é um espaço importante de convivência e de resistência. Fazer com que as pessoas saibam que ela existe já é um passo muito grande”, conclui.

Feirantes no distrito de Barão Geraldo: atividades para compreender aspectos econômicos e históricos dos feirantes
Feirantes no distrito de Barão Geraldo: atividades para compreender aspectos econômicos e históricos dos feirantes

Vida própria

A professora Artionka Capiberibe, coordenadora da graduação em Ciências Sociais (2024-2026) do IFCH, lembra que o projeto “Cadê a Feira?” surgiu em sala de aula como parte de uma disciplina de extensão e rapidamente ganhou vida própria. A proposta inicial evoluiu para um trabalho mais profundo de interação com feirantes e frequentadores.

“A partir desse diagnóstico, passaram a atuar em diálogo com os trabalhadores locais, respeitando o princípio fundamental da extensão universitária: a construção conjunta com a comunidade”, aponta a professora. “A experiência prática também revelou aos alunos a complexidade do cotidiano dos feirantes, muitos dos quais exercem  múltiplas atividades além da feira. Esse contato direto contribuiu para desconstruir visões simplificadas e ampliar a compreensão sobre as dinâmicas sociais e econômicas envolvidas”, acrescenta.

Capiberibe faz questão de ressaltar que a “curricularização” da extensão universitária tem provocado mudanças significativas na formação de estudantes, ao estimular o contato direto com a sociedade e a aplicação prática do conhecimento acadêmico. “Na área de Ciências Sociais, essa transformação tem se materializado em uma série de projetos que conectam universidade e comunidade de forma contínua e colaborativa”, diz ela.

O “Cadê a Feira?” é apenas uma entre diversas iniciativas desenvolvidas no âmbito das disciplinas de extensão. Projetos como o “Falacine”, que leva sessões de cinema nacional a escolas públicas, o “Iranti”, voltado à realização de oficinas com mulheres idosas, e o “Humanidades em Cena”, que articula teoria social e produção teatral, demonstram a diversidade de propostas e públicos alcançados.

Ainda de acordo com Capiberibe, diferentemente de atividades acadêmicas tradicionais, os projetos de extensão não se encerram em um semestre. Estruturados em ciclos de disciplinas, eles permitem continuidade e aprofundamento ao longo do tempo, além de favorecer a participação coletiva — tanto entre estudantes quanto com os grupos externos envolvidos.

“Mais do que aplicar conhecimentos, os alunos relatam transformações pessoais ao longo do processo. Em muitos casos, a expectativa de levar algo à comunidade dá lugar à percepção de troca e aprendizado mútuo. A vivência prática, marcada pelo diálogo e pela adaptação às realidades encontradas, reforça o papel social da universidade pública”, comenta a professora.

Com iniciativas que seguem ativas desde 2024, os projetos indicam que a extensão pode ir além de uma exigência curricular, consolidando-se como um eixo estruturante da formação universitária. Ao romper os muros da academia, essas experiências contribuem para formar profissionais mais conscientes, engajados e preparados para atuar em contextos diversos.

Feiras visitadas pelos estudantes para colher informações; à esquerda no bairro Costa e Silva e à direita no Jardim Chapadão
Feiras visitadas pelos estudantes para colher informações; à esquerda no bairro Costa e Silva e à direita no Jardim Chapadão

Praça de alimentação

Rogério Chiminazzo, presidente do Sindicato dos Feirantes e Ambulantes de Campinas, valoriza a iniciativa surgida na Unicamp e acredita que ela pode reaquecer um estratégico setor comercial da cidade. “Também sou feirante e considero esse trabalho maravilhoso, justamente por atrair a atenção dos jovens. Atuo há seis anos em feiras noturnas e, hoje, elas estão ainda mais completas com verduras, peixe, espetinhos, milho, chope, pastel, crepe, hambúrguer, cookie e até acarajé. Tem muita coisa. É praticamente uma praça de alimentação. Queremos fazer isso também com as feiras diurnas”, conta.

Documentário

Como parte complementar desse universo ligado à alimentação, o IFCH exibe, no próximo dia 30, a partir das 18h, no Auditório Marielle Franco (Rua Cora Coralina, 100, na Unicamp), o documentário “Comida de Mentira”, de Rafael Mellin e Chica Andrade. Após a exibição, haverá uma roda de conversa sobre o filme. O evento é promovido pelo projeto “Cadê a Feira?”. A obra revela como a indústria dos ultraprocessados, movida pelo lucro a qualquer custo, quer reprogramar a alimentação de milhões de pessoas, comprometendo a saúde e ameaçando ecossistemas inteiros. A produção é do Coletivo Bodoque e Pajú Entretenimento.

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Estágio de pós-doc no exterior fortalece parcerias em estudos sobre erosão costeira no Mediterrâneo

Por:raquel
24 de Abril de 2026, 16:18

O pós-doutorando do Departamento de Geografia do Instituto de Geociências (IG) Luca Lämmle retornou de um estágio de um ano no Departamento de Geologia da Universidade de Patras, na Grécia, onde foi recebido por Pavlos Avramidis. Sob supervisão do professor do IG Archimedes Perez Filho no IG, Lämmle pesquisou ambientes de transição de áreas estuarinas e deltaicas localizadas na foz do rio Pineios, no oeste do Peloponneso, Grécia. Também realizou atividades de campo junto à Universidade de Napoli Federico II, na Itália, por dois meses, quando pesquisou a foz do rio Volturno, localizado na região Campania, no sul do país. Seus estudos buscaram compreender como as pressões antrópicas nas bacias hidrográficas — incluindo urbanização, agricultura e barragens — impactam o sistema costeiro. O foco principal recai sobre a erosão costeira progressiva, que ameaça áreas urbanas no Mediterrâneo, configurando um desafio crescente para a gestão pública.

À esquerda, visita ao State Key Laboratory of Estuarine and Coastal Research (East China Normal University) e grupo de pesquisa anfitrião
À esquerda, visita ao State Key Laboratory of Estuarine and Coastal Research (East China Normal University) e grupo de pesquisa anfitrião
À esquerda, visita ao State Key Laboratory of Estuarine and Coastal Research (East China Normal University) e grupo de pesquisa anfitrião

Financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Lämmle conta que seu primeiro contato com Avramidis, coordenador do Laboratório de Sedimentologia da universidade grega, ocorreu durante seu doutorado em Geografia no IG. Em 2023, o coordenador consolidou parceria com o Laboratório de Geomorfologia (Geomorfo), coordenado por Perez Filho, quando participou de um workshop internacional.

Resultados dos estudos na Grécia

Segundo Lämmle, “é possível apontar que o principal problema das áreas estudadas até então é que estão passando por um processo de erosão costeira com intensidade progressiva, associada às alterações no fluxo hidrossedimentar dos rios, reduzindo sua capacidade de transportar sedimentos até a costa”. Esses sedimentos deveriam chegar às praias e manter o equilíbrio na área de foz, mas a perda de energia dos rios diminui o fluxo de sedimentos até a foz. Esse déficit nas praias faz com que as ondas avancem sobre o continente para recompor o material ausente, o que caracteriza o fenômeno da erosão costeira.

O pesquisador aponta que, “dentre as principais atividades de uso relacionada a tais alterações, está a presença de barragens, que possuem grande capacidade de reter sedimentos e de alterar o fluxo de vazão fluvial”. Praias urbanas próximas a essas áreas também foram analisadas por Lämmle. Dois artigos já foram publicados e outro está em avaliação: um no periódico Anthropocene Coasts e outro no Land.  

Palestra proferida na Universidade de Veneza e apresentação de resultados parciais na 11ª Conferência Internacional de Geomorfologia, realizada em Christchurch, na Nova Zelândia,
Palestra proferida na Universidade de Veneza e apresentação de resultados parciais na 11ª Conferência Internacional de Geomorfologia, realizada em Christchurch, na Nova Zelândia,

Durante a execução do projeto, o pós-doc do IG propôs um evento no formato de reunião científica aqui no Departamento, intitulado “II Meeting on Tropical and Subtropical transitional environments“. “O objetivo do evento foi consolidar as colaborações internacionais vinculadas ao projeto, e o encontro contou com membros do Laboratório de Geomorfologia da Unicamp, além de professores de universidades italianas, americanas, alemãs e gregas”, destaca Lämmle. 

O pesquisador também participou de palestras na Universidade de Genova (Itália), na Universidade de Napoli Federico II (Itália) e na Universidade da Basilicata (Itália), que permitiram estreitar relações acadêmicas para ampliar a colaboração internacional do grupo do Geomorfo-Unicamp.

Eventos internacionais

Durante seu estágio na Grécia, o pós-doc do IG participou de eventos internacionais, como o Congresso Internacional de Geomorfologia, na Nova Zelândia, em que divulgou resultados parciais em apresentação oral e coordenou uma sessão temática do eixo de Geomorfologia Antropogênica, juntamente com o Francesco Faccini, professor da Universidade de Genova, e Alessia Pica, da Universidade de Roma La Sapienza.

Lämmle participou ainda de uma atividade de campo na China, no delta do rio Yangtze, no State Key Laboratory of Estuarine and Coastal Research. Esse laboratório é o principal centro de estudos estuarinos e costeiros da China, sendo vinculado ao Ministério da Educação e estando hospedado na East China Normal University (ECNU). O pós-doc ministrou a palestra “Transitional environments under anthropogenic pressures: current challenges and future directions”.

Professores e pesquisadores participantes do II Meeting on Tropical and Subtropical Transitional Environments no auditório da Universidade de Patras
Professores e pesquisadores participantes do II Meeting on Tropical and Subtropical Transitional Environments no auditório da Universidade de Patras

Prêmios e títulos

Os estudos de Lämmle tem rendido prêmios internacionais. Um deles ocorreu durante seu estágio na Grécia. Concedido em junho de 2025, para participar da “Giornate di Studi autunnali AIGeo” realizada em Florença (Itália), no formato de conferência científica, o pós-doc ficou em primeiro lugar entre os geomorfólogos de destaque.  

No final de 2025, Lämmle recebeu o título de cidadão honorário de Belmonte, na Bahia, por reconhecimento aos trabalhos em desenvolvimento sobre erosão costeira no município, que está localizado na foz do rio Jequitinhonha.  “A sessão solene ocorreu em 15 de dezembro de 2025, mas, em decorrência da realização do estágio no exterior, não pude participar pessoalmente, e o título foi recebido por um familiar”, explica. 

À esquerda, grupo de pesquisa do Laboratório de Sedimentologia do Departamento de Geologia da Universidade de Patras, Grécia; à direita, trabalho de campo do II Meeting on Tropical and Subtropical Transitional Environments
À esquerda, grupo de pesquisa do Laboratório de Sedimentologia do Departamento de Geologia da Universidade de Patras, Grécia; à direita, trabalho de campo do II Meeting on Tropical and Subtropical Transitional Environments
À esquerda, grupo de pesquisa do Laboratório de Sedimentologia do Departamento de Geologia da Universidade de Patras, Grécia; à direita, trabalho de campo do II Meeting on Tropical and Subtropical Transitional Environments

Convite

Lämmle é membro de corpo editorial de três revistas internacionais. “Submissões resultantes de pesquisas do IG são muito bem-vindas, uma vez que vários professores já publicam nessas revistas”, aponta o pós-doc.

Para saber mais sobre as revistas, acesse:

Anthropocene Coasts (Springer)/Associate Editor

Quaternaty International (Elsevier)/ Editorial Board member

Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology (Elsevier)/ Editorial Board member

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Pesquisa aponta problemas de pele em crianças e adolescentes que utilizam dispositivos para controlar diabetes

Por:raquel
23 de Abril de 2026, 11:42

A equipe da Endocrinologia Pediátrica do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp participou de uma pesquisa internacional sobre o uso de dispositivos tecnológicos como sensores de glicose e bombas de insulina para controlar a glicemia de crianças e adolescentes. O estudo envolveu 22 centros de diabete pediátrica no mundo e foi realizado com mais de 1.700 crianças e adolescentes com a doença.

Durante quatro semanas foram coletados dados das crianças e adolescentes que utilizavam esses dispositivos, incluindo fatores demográficos, problemas de pele visíveis, tipo de dispositivo e produtos utilizados.  A pesquisa mostrou que problemas de pele estavam presentes em 52% dos usuários de bomba de insulina, em comparação com 30% dos usuários de sensor de glicose. Eczema foi encontrado em 9% dos participantes tanto nos locais de aplicação da bomba de insulina quanto nos locais de aplicação do sensor de glicose.

A endocrinologista pediátrica, Mariana Zorron: risco de complicações
A endocrinologista pediátrica, Mariana Zorron: risco de complicações

Cicatrizes, feridas e lipodistrofias foram mais frequentes nos locais de aplicação da bomba de insulina do que nos locais de aplicação do sensor de glicose. Tanto a xerose cutânea (pele excessivamente seca, áspera e descamativa) quanto a queratose pilar (acúmulo de queratina nos folículos pilosos) estiveram fortemente associadas a quase todos os tipos de problemas de pele, aumentando o risco de duas a cinco vezes.

De acordo com Mariana Zorron, endocrinologista pediátrica do HC da Unicamp, esse estudo trouxe evidências sobre as complicações cutâneas associadas ao uso de tecnologias na prática clínica. Ainda segundo a especialista da Unicamp, os problemas de pele são uma preocupação séria que limita o uso de dispositivos para diabetes em crianças e adolescentes, aumentando, consequentemente, o risco de complicações.

“O desenvolvimento de dispositivos mais amigáveis, a conscientização da família sobre os cuidados com a pele e a identificação precoce dos fatores de risco como pele seca ou queratose pilar são necessários para garantir que todas as crianças e adolescentes com diabetes possam usar esses dispositivos de forma eficaz em longo prazo”, comenta Zorron.

Os resultados foram constam do artigo Skin-Pedic: A Worldwide Assessment of Skin Problems in Children and Adolescents Using Diabetes Devices [uma avaliação mundial de problemas de pele em crianças e adolescentes usando dispositivos para diabetes] do qual Zorron é uma das autoras. O estudo também teve a participação das médicas e médicos-residentes da equipe da endocrinologia pediátrica do HC da Unicamp.

O artigo foi selecionado para o Anúário 2025 da Conferência Internacional sobre Tecnologias e Tratamentos Avançados para o Diabetes (ATTD, na sigla em inglês). A apresentação aconteceu durante a edição de 2026 do ATTD, ocorrido no mês de março, em Barcelona, na Espanha.

Cicatrizes, feridas e lipodistrofias foram mais frequentes nos locais de aplicação da bomba de insulina do que nos locais de aplicação do sensor de glicose
Cicatrizes, feridas e lipodistrofias foram mais frequentes nos locais de aplicação da bomba de insulina do que nos locais de aplicação do sensor de glicose

Inovação no cuidado

O ATTD é um dos principais congressos internacionais dedicados à inovação no cuidado do diabetes, especialmente no campo das tecnologias avançadas. Seu Anuárioreúne os artigos científicos mais relevantes e impactantes da área, selecionados e analisados criticamente por especialistas internacionais.

“A inclusão deste estudo no Anuáriodo ATTD reforça sua relevância científica e impacto clínico, além de destacar a inserção do HC da Unicamp em redes internacionais de pesquisa e sua contribuição para o avanço da inovação em diabetes pediátrico”, diz Zorron, que também integra o Conselho Consultivo da Sociedade Internacional para o Diabetes Pediátrico e Adolescente (ISPAD) no triênio 2023–2026.

A ISPAD é a principal organização global dedicada à melhoria do cuidado de crianças, adolescentes e jovens com diabetes, atuando na promoção do conhecimento científico, educação e melhores práticas assistenciais. Seu Conselho Consultivo tem papel estratégico no apoio às iniciativas e diretrizes da sociedade.

Matéria publicada originalmente no site do HC Unicamp.

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Nova cátedra propõe modernização de indicadores de atividade científica

Por:raquel
17 de Abril de 2026, 16:45

A Unicamp foi agraciada com um novo projeto ligado ao São Paulo Excellence Chair (SPEC), modalidade de auxílio à pesquisa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) que busca atrair cientistas reconhecidos que atuam no exterior para coordenar projetos em universidades ou institutos de pesquisa paulistas. Rodrigo Costas, do Centre for Science and Technology Studies (CWTS), da Leiden University (Países Baixos), será o pesquisador responsável pelo projeto Multi-Observatório de Ciência, Tecnologia e Dinâmica de Inovação (MultiObs), que será desenvolvido junto ao Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) do Instituto de Geociências (IG), em parceria com a Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) e do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp.

Junto ao exponencial crescimento da produção de conhecimento, vem ocorrendo um avanço nos métodos de medi-lo. A ausência de mecanismos precisos de automonitoramento em sistemas de ciência, tecnologia e inovação (CTI) gera lacunas nos ecossistemas de conhecimento que comprometem a resposta a desafios sociais e científicos urgentes. Assim, o objetivo do projeto é desenvolver, ao longo de cinco anos, um amplo programa de pesquisa para criar e aplicar métodos para produzir evidências e conhecimento para um monitoramento mais amplo e útil dos sistemas de CTI.

Rodrigo Costas, do CWTS, da Leiden University: demandas urgentes
Rodrigo Costas, do CWTS, da Leiden University: demandas urgentes

Os indicadores mais comuns atualmente usados dependem de bases de dados fechadas e que falham em capturar a complexidade da relação contemporânea entre ciência e sociedade. Assim, o projeto desenvolverá uma matriz que amplia a base de dados utilizada e diversifica os resultados e interpretações possíveis. “O projeto está motivado por demandas urgentes que existem no mundo acadêmico de mudanças de como medimos, monitoramos e avaliamos ciência, tecnologia e inovação”, afirma Costas.

Segundo o pesquisador, a maior ambição do projeto é mudar como se mede a ciência e incorporar uma maior diversidade de bases, muito além da Web of Science e Scopus, introduzindo a visão dos próprios stakeholders, tais como agências de financiamento, indústria e organizações políticas. Assim, propõe-se a implementação de um monitoramento cocriado e contextualizado em uma nova abordagem, propondo uma matriz que amplia a base dados utilizada e diversifica os resultados e interpretações possíveis, com participação dos stakeholders, especialmente com foco no Sul Global. O objetivo é tornar visíveis as atividades científicas que ainda permanecem invisíveis, especialmente da América Latina e de outras regiões em desenvolvimento, cujas dinâmicas são muitas vezes ignoradas pelas bases, análises e rankings internacionais.

“Como queremos mudar essa forma de fazer cientometria, trabalharemos para desenvolver uma infraestrutura de dados que seja mais democrática e que permita aos usuários trabalhar em grande escala com esses dados, em que se sintam empoderados para discutir e questionar os indicadores que se propõem”, diz Costas. “O trabalho dedica-se a conectá-los e beneficiá-los dessa interconexão de bases de dados”, completa.

O design geral do programa pode ser visualizado como uma estrutura de árvore, com uma base enraizada em uma ampla infraestrutura de Big Data, cujos ramos temáticos florescem em um living lab dedicado ao monitoramento de CTI. A infraestrutura de dados engloba bancos de dados interconectados que permitem responder a perguntas de pesquisa. Os ramos temáticos abordam desafios específicos de políticas de CTI e servem como campo de teste. O living lab é o elemento mais inovador do projeto que servirá para apontar respostas aos ramos temáticos combinando dados, marcos teóricos e abordagens participativas com os stakeholders.

A cátedra envolve o Departamento de Política Científica e Tecnológica do IG, em parceria com a FCA e Labjor da Unicamp
A cátedra envolve o Departamento de Política Científica e Tecnológica do IG, em parceria com a FCA e Labjor da Unicamp
Na Unicamp, a cátedra envolve o Departamento de Política Científica e Tecnológica do IG, em parceria com a FCA e Labjor

Para a execução do projeto, haverá uma estreita colaboração entre sete pesquisadores principais, que supervisionarão os ramos temáticos do projeto. Sérgio Salles-Filho, do LagGeopi-Unicamp, supervisionará, junto a Costas, a infraestrutura de big data e o living lab. Salles atuará com Cassidy Sugimoto, do The Georgia Institute of Technology (Estados Unidos) na supervisão do ramo temático dedicado às dinâmicas de política científica e diplomacia em CTI – em julho, a pesquisadora assumirá a direção da escola de Humanidades e Ciências Sociais da Carnegie Mellon University. Adriana Bin, da FCA, e Ismael Ràfols, ligado à Cátedra Unesco, à Leiden University e ao INGENIO (um centro misto do Consejo Superior de Investigaciones Científicas e da Universitat Politècnica de València, na Espanha), supervisionarão o eixo temático referente a financiamento e dinâmica das forças de trabalho. Costas e Germana Barata (Labjor) supervisionarão o ramo temático dedicado a comunicação pública e dinâmicas societárias. Nicolas Vonortas, da The George Washington University (Estados Unidos) e Sérgio Queiroz, do DPCT-Unicamp, supervisarão o eixo dedicado a tecnologia, inovação e dinâmicas regionais.

Para Sergio Salles, “a nova cátedra SPEC representa uma contribuição substantiva para os estudos sociais da ciência, tecnologia e inovação, ampliando e disponibilizando em acesso aberto amplas e originais bases de dados e construindo análises que devem criar evidências de utilidade para os principais stakeholders do sistema de CTI no Brasil e para a sociedade como um todo”.

O projeto espera produzir uma infraestrutura de computação em nuvem pública; criar indicadores específicos para temas complexos e subestimados; além de produzir materiais educacionais, resumos de políticas e resultados acadêmicos. O MutiObs conta com 13 pesquisadores associados, diferentes parceiros nacionais e internacionais, e prevê a realização de conferências internacionais, workshop e hackatons.

Foto de capa:

Junto ao exponencial crescimento da produção de conhecimento, vem ocorrendo um avanço nos métodos de medi-lo
Junto ao exponencial crescimento da produção de conhecimento, vem ocorrendo um avanço nos métodos de medi-lo

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Pesquisa busca reduzir incerteza na datação de rochas que registram a história da Terra

Por:raquel
17 de Abril de 2026, 12:00

A datação de rochas sedimentares – que registram a maior parte da história da Terra – ainda opera com incertezas que podem chegar a 10% da idade medida, o que, em escalas geológicas, representa de milhões a dezenas de milhões de anos. Reconstruir com maior exatidão eventos-chave da evolução do planeta é o desafio que um projeto conduzido por pesquisadores do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp, no âmbito do Centro de Estudos de Petróleo e Energia (Cepetro) – com financiamento da Petrobras –  busca enfrentar, aprimorando métodos para datar diretamente essas rochas, com maior confiabilidade.

O avanço na datação de rochas sedimentares tem implicações diretas para a compreensão de alguns dos principais eventos da história da Terra. Com maior precisão temporal, torna-se possível testar hipóteses sobre mudanças globais na composição da atmosfera, episódios de glaciação em escala planetária, o surgimento e a expansão da vida multicelular e a duração e a dinâmica de grandes extinções.

Hoje, muitos desses eventos são reconstruídos a partir de correlações entre registros geológicos distribuídos em diferentes regiões do mundo. Sem uma datação precisa, ainda há incertezas sobre a sincronia desses fenômenos.

“As rochas sedimentares são o principal arquivo da história da Terra, e estamos começando a conseguir datá-las diretamente de forma sistemática”, afirma o geólogo Bernardo Tavares Freitas, coordenador da pesquisa.

O professor do IG Bernardo Tavares Freitas: as rochas sedimentares são o principal arquivo da história da Terra
O professor do IG Bernardo Tavares Freitas: as rochas sedimentares são o principal arquivo da história da Terra

Um limite histórico

Durante décadas, a geocronologia – área que estuda a idade das rochas – apoiou-se principalmente em minerais de origem ígnea, que funcionam como “relógios naturais” mais estáveis: ao se formarem, eles aprisionam elementos radioativos que, ao longo do tempo, transformam-se em outros elementos em ritmo conhecido, permitindo calcular sua idade.

Já as rochas sedimentares, organizadas em camadas que funcionam como páginas da história do planeta, sempre representaram um desafio. Seus minerais possuem baixos teores desses elementos radioativos e são mais suscetíveis a alterações ao longo do tempo, o que dificulta a obtenção de idades precisas.

Sem datação direta, a ciência avançou apoiada principalmente em fósseis – usados para identificar e correlacionar camadas (bioestratigrafia) – e em outros métodos indiretos, capazes de indicar a ordem dos eventos, mas não exatamente quando eles ocorreram.

Nova fronteira científica

Nos últimos anos, avanços tecnológicos passaram a permitir a datação de minerais carbonáticos, como calcita e dolomita, formados dentro das próprias rochas sedimentares.

Isso representou uma mudança importante: em vez de depender de eventos externos, como erupções vulcânicas, os pesquisadores passam a atribuir idades diretamente às camadas que registram os processos geológicos.

O desafio, no entanto, permanece. Esses minerais apresentam baixa concentração de urânio e alta sensibilidade a alterações químicas, o que gera resultados frequentemente complexos. “Em muitos casos, você obtém várias idades diferentes e precisa entender o que, de fato, representa a história daquele sistema”, explica Freitas.

As rochas sedimentares, organizadas em camadas que funcionam como páginas da história do planeta, sempre representaram um desafio
As rochas sedimentares, organizadas em camadas que funcionam como páginas da história do planeta, sempre representaram um desafio

Do dado ao método

O projeto desenvolvido na Unicamp, cujo foco é reduzir incertezas na exploração de petróleo, busca justamente aumentar a precisão e a confiabilidade dessas datações. O objetivo é entender por que alguns resultados são consistentes e outros não, um ponto central para consolidar a técnica como ferramenta científica mais robusta.

Para isso, a equipe combina múltiplas técnicas de análise – incluindo microscopia eletrônica, mapeamentos espectrais e isotópicos – para construir um retrato detalhado da composição e da textura das rochas. Esses dados são integrados por meio de algoritmos que buscam identificar padrões associados à qualidade dos resultados geocronológicos.

A expectativa é que esse cruzamento permita, no futuro, prever quais amostras têm maior potencial de gerar idades confiáveis e, assim, direcionar o uso de análises mais complexas e destrutivas – com potencial para reduzir incertezas na exploração de petróleo. Ao mesmo tempo, os avanços metodológicos desenvolvidos no projeto podem ampliar a capacidade de datação de rochas sedimentares em diferentes contextos, com implicações que vão além da indústria de energia e alcançam a própria compreensão da história da Terra.

O projeto tem duração prevista de quatro anos, com conclusão estimada para 2029, e reúne uma equipe multidisciplinar, com cerca de dez pesquisadores, entre docentes, pós-doutorandos e alunos de pós-graduação, além de especialistas vinculados ao Laboratório Nacional de Luz Síncrotron e a diferentes laboratórios do IG. A iniciativa conta com investimento de aproximadamente R$ 8,5 milhões em pesquisa e desenvolvimento, além de cerca de R$ 1,5 milhão em infraestrutura.

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Pesquisadores desenvolvem tratamento promissor contra o câncer de pele

Por:raquel
14 de Abril de 2026, 16:39

O câncer de pele não melanoma não é o tipo mais letal, nem o mais agressivo – mas é o de maior incidência no Brasil e traz consigo alto potencial estigmatizante. Tumor que atinge regiões expostas ao sol – como o rosto, orelhas, boca, braços, pernas e pescoço –, é geralmente tratado com o que os médicos chamam de “ressecção cirúrgica”, a remoção de uma parte ou da totalidade do órgão ou tecido atingidos, num procedimento que pode deixar cicatrizes ou resultar em mutilação.

“Muitas vezes, o paciente perde partes do nariz, das orelhas, ou fica com cicatrizes profundas na boca ou em outras partes do corpo, o que provoca uma pressão social muito grande”, diz o químico Pedro Paulo Corbi, coordenador do Laboratório de Pesquisas em Química Bioinorgânica e Medicinal (LQBM) da Unicamp. Há 12 anos, Corbi trabalha no desenvolvimento de uma molécula que, agora, após colaboração com a médica oncologista Carmen Silvia Passos Lima – coordenadora do Serviço de Oncologia Clínica do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp e do Laboratório de Genética do Câncer (Lageca) da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp – e com a farmacêutica Gisele Goulart, pesquisadora do Lageca, tem se mostrado altamente promissora no tratamento desse tipo de enfermidade.

A farmacêutica Gisele Goulart e o químico Pedro Paulo Corbi: tumor tem alto potencial estigmatizante
A farmacêutica Gisele Goulart e o químico Pedro Paulo Corbi: tumor tem alto potencial estigmatizante

A pesquisa chegou a um composto inovador, nascido da mistura de um complexo de prata combinado com um anti-inflamatório. Começou a ser testado em humanos no início deste ano e tem trazido perspectivas alentadoras para pacientes que necessitam de tratamento.

O carcinoma de células escamosas cutâneo (CCEC) é o segundo mais prevalente entre os cânceres humanos em todo o mundo. Tem origem nas células principais que compõem a epiderme, a camada mais externa da nossa pele, e ocorre devido a vários fatores, com destaque para a exposição aos raios UV – os raios solares.

O tratamento do CCEC de pequenas dimensões baseia-se na ressecção do tumor por cirurgia. Contudo, pacientes com CCEC avançado são frequentemente inelegíveis para cirurgia curativa ou radioterapia, já que estas podem causar anormalidades funcionais, desfiguração e problemas psicológicos. Esses pacientes são tratados com quimioterapia com cisplatina, que oferece benefícios clínicos modestos e toxicidade potencialmente grave.

Foi pensando numa solução alternativa que Corbi e Lima avaliaram novas moléculas contra o tumor que pudessem ter uso direto na pele, para evitar toxicidades. O objetivo inicial era apenas diminuir o tamanho da lesão. Com isso, o cirurgião teria uma área menor a ser retirada e, assim, poderia reduzir as sequelas.

Pesquisadores da Unicamp desenvolvem tratamento promissor contra o câncer de pele
Os pesquisadores avaliaram novas moléculas contra o tumor que pudessem ter uso direto na pele, para evitar toxicidades
Os pesquisadores avaliaram novas moléculas contra o tumor que pudessem ter uso direto na pele, para evitar toxicidades

O estudo que mais avançou avaliou os efeitos de um complexo de prata com o anti-inflamatório nimesulida – um composto que vem sendo chamado de AgNMS. Corbi explica que a prata tem sido utilizada para o tratamento de condições humanas desde a Antiguidade. Embora o uso do metal tenha sido empírico por muito tempo, hoje as aplicações racionais na medicina estão intimamente relacionadas à sua atividade antibacteriana. Mais recentemente, a literatura mostrou o potencial de complexos de prata em inibir células de câncer in vitro.

A farmacêutica Tuany Zambroti Candido, doutoranda do Lageca que atuou sob supervisão dos pesquisadores Carmen Lima, Ana Lucia Tasca Góis Ruiz e João Ernesto de Carvalho, deu continuidade ao estudo no Lageca e no Laboratório de Fitoquímica, Farmacologia e Toxicologia Experimental (LaFTEx) da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Unicamp, conta Carmen Lima.

O AgNMS foi testado em experimentos “in vitro” com várias linhagens de câncer, incluindo o CCE, e em células de pele saudáveis. Observou-se que o AgNMS inibiu a proliferação do CCE, mas não a das células saudáveis, o que indicou a seletividade de ação do composto.

A médica oncologista Carmen Silvia Passos Lima (àesquerda): AgNMS foi testado em experimentos “in vitro” com várias linhagens de câncer

Candido também conduziu experimentos “in vivo” em camundongos com CCEC tratados com a molécula acoplada a uma membrana de celulose bacteriana e um adesivo, produzidos pelos farmacêuticos Wilton Rogerio Lustri e Silmara Cristina Lazarini Frajácomo, pesquisadores da Universidade de Araraquara (Uniara). Foi observado que o AGNMS reduziu os tumores ou causou seu desaparecimento, sem efeitos tóxicos para os animais. O grupo concluiu que, juntas, a NMS e a Ag podem se tornar uma alternativa na luta contra o CCEC.

Corbi e Lima veem o futuro do experimento com otimismo. “A meta inicial era apenas reduzir o tumor, mas agora podemos ter como perspectiva a remissão total”, afirmam.

Imunoterápicos como o cemiplimabe já são indicados para o tratamento de pacientes com CCEC, diz Lima, mas seu custo elevado impede o uso para pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) do Brasil. “Para nós, o cenário ideal é buscar uma solução que evite a cirurgia, a quimioterapia e a imunoterapia”, dizem Corbi e Lima.

“O AgNMS em membrana bacteriana e adesivo é absolutamente inovador para o CCEC, e, por esta razão, há cerca de cinco anos, conseguimos duas patentes – uma nacional e uma internacional”, conta Lima. O estudo só não prosseguiu, diz ela, por falta de investimento. “A indústria não quer arcar com os custos do estudo clínico de fase I e de fase II. Eles querem o negócio pronto”, explica.

Etapas

O estudo do AgNMs passou pela etapa da pesquisa básica de desenvolvimento, que consiste na síntese da molécula; pela fase pré-clínica, que são os experimentos em células e animais, e agora está em avaliação na fase clínica, com experimentos em humanos, que consta das fases I e II.

O estudo de fase I tem como objetivo verificar se, em doses crescentes, o AgNMS causa toxicidade ao paciente, de modo a determinar a dose adequada a ser usada no estudo de fase II.

O estudo de fase I teve início neste ano, com a aplicação do composto em três pacientes com CCEC atendidos no Hospital de Clínicas da Unicamp, em cooperação com as médicas dermatologistas e pesquisadoras Aparecida Machado de Moraes e Renata Ferreira Magalhães, do Serviço de Dermatologia do HC da Unicamp.

Equipes dos laboratórios de Genética do Câncer (à esquerda) e de Pesquisas em Química Bioinorgânica e Medicinal
Equipe do Laboratório de Pesquisas em Química Bioinorgânica e Medicinal da Unicamp que há 12 anos estuda o desenvolvimento de moléculas
Equipes dos laboratórios de Genética do Câncer (à esquerda) e de Pesquisas em Química Bioinorgânica e Medicinal

Os pesquisadores contam que o AgNMS não foi aplicado como um creme comum, mas sim na forma de um dispositivo constituído por uma membrana de celulose bacteriana e um adesivo, a mesma utilizada no estudo em animais. Essa membrana funciona como um reservatório que libera o medicamento de forma controlada e contínua por várias horas. Além disso, também pode ter uma ação antibacteriana, já que protege a ferida de infecções durante o tratamento.

“Os resultados até agora foram promissores, com redução do tumor nos pacientes avaliados e ausência de toxicidade. Precisamos agora testar em um segundo grupo de pacientes, ainda na fase I do estudo, com dose maior do AgNMS, para verificar qual dose será menos tóxica para tratar os pacientes da fase II”, disse Gisele Goulart.

Um grupo de 20 a 30 pacientes com CCEC do HC da Unicamp fará parte do estudo de fase II, a ser desenvolvido ao longo do ano. Serão tratados com o AgNMS – em dose definida no estudo de fase I – em adesivo com membrana de celulose bacteriana.

Se reduções parciais ou totais do tumor forem observadas, o complexo poderá chegar ao mercado – após avaliação e aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O estudo está em avaliação na fase clínica, com experimentos em humanos, que consta das fases I e II
O estudo está em avaliação na fase clínica, com experimentos em humanos, que consta das fases I e II

De acordo com Corbi, o avanço da pesquisa é decorrência direta da interação das pesquisas básica, pré-clínica e clínica no Centro de Inovação Teranóstica em Câncer, o CancerThera, que tem o apoio financeiro da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e sede na Unicamp. O Centro reuniu toda uma cadeia de pesquisa para o desenvolvimento de fármacos e radiofármacos a serem utilizados no diagnóstico e no tratamento de câncer.

Com o objetivo de criar tratamentos inovadores, o CancerThera reúne especialistas em áreas da medicina, química, física, biologia, farmácia, matemática, entre outras, mantendo colaborações com instituições nacionais e estrangeiras.

Lima lembra que inúmeros pesquisadores e experimentos, ao longo de uma década, foram necessários para obter um tratamento potencial para pacientes com CCEC, o que, segundo ela, revela a dedicação de pesquisadores brasileiros. Há ainda que se considerar, diz, que os estudos em células e animais foram conduzidos com o apoio financeiro da Fapesp, e os estudos em humanos só foram retomados com apoio do CancerThera da Fapesp. “Foi a grande chance de darmos sequência ao estudo AgNMS em CCEC, reforçando a importância da agência de fomento para a pesquisa em inovação no Estado de São Paulo”, reforçou.

Foto de capa:

O câncer de pele não melanoma é o de maior incidência no Brasil
O câncer de pele não melanoma é o de maior incidência no Brasil

O post Pesquisadores desenvolvem tratamento promissor contra o câncer de pele apareceu primeiro em Jornal da Unicamp.

Uma antropologia marcada por grafias, imagens e movimento

Por:raquel
10 de Abril de 2026, 15:38

Nem toda pesquisa é feita somente de palavras. Algumas se desenham em imagens, outras se desdobram em mapas, filmes ou cadernos visuais. Há investigações que pedem voz, gesto, superfície e movimento. É nesse território em que a antropologia se aproxima da arte, da literatura e do cinema que o Laboratório Antropológico de Grafia e Imagem (La’grima), vinculado ao Departamento de Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), construiu um caminho marcado pela experimentação.

Criado em 2015, o grupo realiza, de 15 a 17 de abril, o “Simpósio 10 anos do La’grima: contribuições das grafias nas experimentações antropológicas”, que vai reunir pesquisadores, docentes, estudantes e convidados em torno de uma pergunta que atravessa toda a história do laboratório: de quantas formas o conhecimento pode ser produzido, narrado e compartilhado?

Simpósio 10 anos do La’grima: contribuições das grafias nas experimentações antropológicas acontece nos dias 15 a 17 de abril
Simpósio 10 anos do La’grima: contribuições das grafias nas experimentações antropológicas acontece nos dias 15 a 17 de abril, no Auditório Fausto Castilho (IFCH)

Ao longo de sua primeira década, o La’grima dedicou-se à investigação das grafias e das imagens. Para Fabiana Bruno, pesquisadora e uma das coordenadoras do grupo, o laboratório se consolidou como um ponto de experimentação sobre as formas de produzir conhecimento. “As grafias funcionam menos como um tema e mais como uma forma de pensar a pesquisa”, afirma. “A antropologia é uma disciplina historicamente muito pautada pela escrita e pela descrição e o laboratório ajudou a ampliar essa perspectiva.”

A pesquisadora conta que sua linha de pesquisa, por exemplo, são as fotografias de família. “Entendendo a fotografia não apenas como superfície imagética, mas em relação à oralidade, à memória e a outras formas de grafia. A escrita antropológica também é central e não é vista em oposição às imagens, mas sempre em relação com elas”, explica.

Com programação híbrida, o evento será realizado no Auditório Fausto Castilho, no prédio de graduação do IFCH, com transmissão online pelo canal do Instituto no YouTube. A programação reúne debates e uma mostra das produções do La’grima, que podem ser conhecidas no arquivo digital “Grafia em Linha”

A abertura do simpósio será conduzida pela professora e pesquisadora Suely Kofes, coordenadora do laboratório desde sua criação, com a mesa “A gente pintava nas pedras a voz e o que dava santidades às nossas palavras era a canção do ver: grafias e linhas, dez anos depois”.

À esquerda material sendo separado para exposição; à direita trabalho com mapas
À esquerda material sendo separado para exposição; à direita trabalho com mapas

Formas de narrar

Para a pesquisadora Daniela Feriani, integrante do grupo desde sua fundação, uma das marcas mais fortes dessa trajetória é justamente a abertura a formas não convencionais de escrita e pesquisa. Ela destaca que essa experimentação aparece não apenas no conteúdo das pesquisas, mas também em sua forma material, com trabalhos que extrapolam a estrutura linear da página, incorporando superfícies, imagens, desenhos e dispositivos visuais como parte do próprio processo de pensamento.

Feriani, pesquisadora dos temas demência e neurodivergência, ressalta que cada vez mais teses e dissertações vêm experimentando com as grafias. “Sem perder o rigor científico, buscamos uma linguagem que possa alcançar públicos mais amplos, seja por meio de uma escrita mais poética, ensaística, visual ou audiovisual”, afirma. “Um filme, por exemplo, é muito mais acessível do que um artigo acadêmico.”

“Durante o meu pós-doutorado, eu mesma criei um site com materiais de pesquisa, justamente pensando em como apresentar esses materiais imagéticos para além de uma escrita meramente acadêmica. É uma forma de fazer com que a pesquisa chegue a outros lugares”, completa a pesquisadora.

Feriani cita exemplos do que é desenvolvido no La’grima, como o projeto “Sala de Cinema”, com exibição de filmes com teor etnográfico. “Escolhemos um filme para debater. Assistimos à obra, promovemos a discussão e, quando possível, convidamos o autor ou diretor para participar”, conta. Ela também destaca os seminários de leitura, em que uma obra ou um tema é escolhido para debate. “Neste semestre, por exemplo, estamos trabalhando com o tema dos sonhos”, conta.

Já a professora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) Mariana Petroni, também da equipe de pesquisadoras do La’grima, destaca a abertura permanente ao novo como uma das principais conquistas do laboratório. “O fato de ser um laboratório de experimentação nos permite incorporar novas linguagens e mudanças sem perder o compromisso com o rigor científico e antropológico”, observa. “Se deixarmos de experimentar, perdemos a nossa essência.”

Atualmente em Salvador, Petroni mantém projetos em diálogo com o grupo e ressalta a força da rede construída ao longo da década. Segundo ela, a experiência do La’grima tem possibilitado intercâmbios entre universidades e novas formas de produção de conhecimento, especialmente em pesquisas ligadas à fotografia, imagem e antropologia visual.

“Minha pesquisa trabalha com fotografias indígenas feitas por indígenas e sobre indígenas, nesse diálogo das grafias, no sentido de compreender tanto a produção quanto a imagem em si, sempre com uma perspectiva antropológica”, completa.

Da esquerda para a direita: Daniela Feriani, Mariana Petroni e Fabiana Bruno: interesse crescente das novas gerações pelo laboratório
Da esquerda para a direita: Daniela Feriani, Mariana Petroni e Fabiana Bruno: interesse crescente das novas gerações pelo laboratório

Novas gerações

A equipe do La’grima tem observado um interesse crescente das novas gerações pelo laboratório. “Estudantes de graduação têm buscado o grupo para pensar pesquisas que dialoguem com cinema, imagem, desenho e outros modos de escrita. Também tem sido muito interessante perceber o interesse crescente dos estudantes mais jovens, especialmente da graduação”, conta Bruno.

A coordenadora ressalta que, além dos bolsistas, muitos estudantes colaboradores  procuram o laboratório pelo interesse nas questões das grafias. “Eles querem pensar pesquisas de iniciação científica a partir das imagens, de outros modos de escrita e até da produção de filmes. Sentimos uma força muito grande nesse interesse das novas gerações.”

Bruno destaca ainda que a trajetória do La’grima foi marcada por uma ampla rede de interlocução com outros centros de pesquisa, no Brasil e no exterior. Entre os chamados “laboratórios primos”, com os quais o grupo mantém diálogo constante, estão o Sensolab, da Universidad Javeriana, em Bogotá, na Colômbia, o Laboratório de Imagem e Som em Antropologia (Lisa), da Universidade de São Paulo (USP), o Núcleo de Antropologia Visual (Navisual), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e o Grupo de Estudos e Pesquisas Rastros Urbanos, da Universidade Federal do Ceará (UFC). “Essas parcerias são fundamentais para a troca de produções e para a circulação de pesquisadoras e pesquisadores entre instituições”, afirma.

Para ela, a experimentação “é, sobretudo, carregar perguntas” e refletir sobre o modo de compartilhar informação para torná-la mais acessível. “Não somos um laboratório de respostas prontas. O La’grima reflete teórica e epistemologicamente sobre o fazer antropológico, e aí reside também um futuro. Temos um chão sólido de questões e, ao mesmo tempo, um horizonte aberto”, completa.

Acesse o La’grima
Acesse o Arquivo digital Grafia em Linhas

Foto de capa:

O Laboratório Antropológico de Grafia e Imagem é vinculado ao Departamento de Antropologia do IFCH
O Laboratório Antropológico de Grafia e Imagem é vinculado ao Departamento de Antropologia do IFCH


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Entre deslocamentos e resistência, livro analisa presença quilombola na pós-graduação

Por:raquel
7 de Abril de 2026, 15:59

A presença e a permanência de quilombolas nas universidades motivaram a pesquisadora Andréia Rosalina Silva, pós-doutoranda em Antropologia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), da Unicamp a lançar o livro “Quilombolas na pós-graduação: construindo ‘Ébgés’ de Resistência no Ensino Superior Brasileiro”, disponibilizado gratuitamente em formato e-book pela Editora da Universidade Estadual de Ponta Grossa (PR). A autora deve também lançar a obra no formato físico, em maio, num evento no IFCH.

O termo “ébgé”, que vem do iorubá, remete à ideia de coletividade. E foi pelo coletivo que a autora, especializada em políticas afirmativas de inclusão e equidade racial, elaborou a obra, base para a pesquisa “Caminhos e Desafios – o impacto das ações afirmativas para indígenas e quilombolas na gestão político-pedagógica universitária”, que vem sendo desenvolvida no IFCH com orientação do professor José Maurício Arruti, do Departamento de Antropologia, e apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

O lançamento marca também um percurso pessoal que, segundo a autora, começa antes mesmo da escrita. “Esse livro é fruto de um processo iniciado muito antes, com a minha ancestralidade”, afirma.

A pesquisadora e autora do livro Andréia Rosalina: vínculos estreitos com a comunidade onde ainda vive parte da minha família
A pesquisadora e autora do livro Andréia Rosalina: vínculos estreitos com a comunidade onde ainda vive parte da família

Nascida em Belo Horizonte (MG) e criada no interior paulista, em São Roque, a pesquisadora descende de negros escravizados que se estabeleceram em Belo Vale (MG) e formaram núcleos em comunidades tradicionais da região. Sua ancestralidade também remete ao município de Barão de Cocais (MG), terra de seu avô paterno.

Orientada pela memória de seus ancestrais, de seus saberes e da tradição oral, Rosalina sempre carregou questões sobre pertencimento. “Embora não tenha vivido no quilombo de forma permanente, mantive vínculos estreitos com a comunidade onde ainda vive parte da minha família. Na infância, ia para lá todas as férias escolares”, relata.

Essa herança, segundo ela, não apenas sustenta sua identidade, mas também orientou sua atuação acadêmica e profissional. “Eu conheço toda a minha história, sei de quem descendo, quem sou e a razão de valorizar quem veio antes de mim. E isso é importante para construir e consolidar o conhecimento em que acredito”, completa.

Rosalina graduou-se em Ciência da Informação na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Sua trajetória acadêmica a levou a ingressar no Projeto Ações Afirmativas da UFMG, um programa que articula ensino, pesquisa e extensão e também desenvolve ações voltadas à Educação Escolar Quilombola no estado. Já em São Paulo, fez doutorado em Educação na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e pós-doutorado em Psicologia Social e do Trabalho na Universidade de São Paulo (USP).

Hoje, na Unicamp, integra a equipe do Laboratório de Pesquisa e Extensão com Populações Tradicionais Ameríndias e Afro-americanas (LaPPAA) e o Centro de Estudos Rurais (Ceres), coordenados pelo professor Arrutti.

Rosalina resolveu investigar a presença de estudantes quilombolas a partir da análise de deslocamentos e estratégias de permanência

Mapa dos caminhos

Em sua pesquisa, com levantamentos na Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal de Goiás (UFG), Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), Rosalina resolveu investigar a presença de estudantes quilombolas a partir da análise de deslocamentos e estratégias de permanência.

“No livro, mostro esses deslocamentos. Mapeei os caminhos percorridos pelos estudantes, desde suas comunidades de origem até diferentes universidades do país. Em muitos casos, os percursos incluem passagens por múltiplas instituições e estados, revelando uma circulação acadêmica marcada por desafios, mas também por estratégias de inserção.”

Esses percursos revelam tanto os desafios estruturais quanto a capacidade de articulação desses estudantes. “Na UnB, por exemplo, a maioria não era de lá. Tinha gente do Pará, do Tocantins, de Minas Gerais. Já tinham passado por outros lugares e foram sendo direcionados, encontrando caminhos”, relata.

Em outras instituições, como a Universidade Federal de Goiás (UFG), a autora identificou diversidade de áreas de formação. “Encontrei pessoas na Antropologia, que é um curso muito procurado por quilombolas e indígenas, mas também em Relações Internacionais, o que eu achei muito interessante”, destaca.

Mas a pesquisadora enfatiza a dificuldade que encontrou para acessar dados consolidados sobre a presença quilombola no ensino superior. “As universidades sabem quem entrou, mas não sabe quantos terminaram, quantos mudaram de curso, quantos seguiram para o mestrado ou doutorado. Isso ainda precisa ser muito avaliado”, afirma. A ausência de informações, segundo ela, torna “invisíveis trajetórias importantes e dificulta a formulação de políticas mais eficazes”.

Capa do livro Quilombolas na pós-graduação: construindo ‘Ébgés’ de Resistência no Ensino Superior Brasileiro

Construção coletiva

Um dos diferenciais do livro está na forma como a pesquisa foi conduzida. Ao todo, 32 interlocutores participaram do estudo — estudantes, professores e gestores — que, segundo a autora, não são apenas fontes, mas coautores do processo. “Eu os considero interlocutores, porque foram eles que construíram, junto comigo, a pesquisa”, explica.

Essa perspectiva se reflete na própria estrutura do livro. No primeiro capítulo, os participantes se apresentam com suas próprias palavras. “Eu sinto falta disso na Ciência. Às vezes alguém te apresenta, mas não deixa você se apresentar. Eu quis que cada um dissesse quem é, de uma forma que fizesse sentido”, afirma. A escolha dialoga com uma crítica mais ampla ao modo como o conhecimento acadêmico é produzido. “Essa coisa de ser apenas ‘objeto de pesquisa’ é horrível. Eu já cansei de ser observada, acho que tenho o direito de falar de nós também. Então quis fazer diferente.”

Parte do desenvolvimento da pesquisa, entre 2018 e 2022, coincidiu com o período da pandemia, o que trouxe obstáculos adicionais. Sem acesso à internet em muitas comunidades, a autora precisou criar estratégias para realizar as entrevistas. “Foi um trabalho de detetive. Eu sabia que muitas pessoas iam ao INSS ou à prefeitura para receber benefícios. Então eu tentava encontrá-las nesses momentos”, conta.

A empatia também aparece como elemento central nas entrevistas. “Quando você começa a conversar, percebe semelhanças. A pessoa se abre e diz: ‘ue bom estar falando com você’. Isso não tem preço”, relata.

Outro aspecto marcante foi a predominância feminina entre os participantes e apoiadores do estudo. “A maioria dos gestores com quem conversei era de mulheres. Foram dez pessoas, só um homem. Somos nós, mulheres, que estamos construindo a Ciência neste país”, afirma.

A pesquisadora reconhece o papel fundamental de outras mulheres em sua formação. “Eu tive professoras que viram em mim a possibilidade de ser uma intelectual. Por muitas vezes eu era aquela que só ficava escutando nas salas de aula. E, de repente, fui para a frente, para participar, viajar, falar em congressos”, lembra. Hoje, ela busca reproduzir esse movimento em sala de aula. “Às vezes vejo uma jovem negra de cabeça baixa e, quando começo a falar, ela se reconhece. Pensa: ‘Essa história é igual à minha”, eu posso ir além’.”

Para Rosalina, o livro é parte de um processo maior de transformação. “Essas trajetórias mostram que estamos produzindo conhecimento, ocupando espaços e construindo novos caminhos. Não é só sobre estar na universidade, é sobre transformá-la”, afirma. Ela destaca a importância de ocupar espaços institucionais também como forma de incentivar outras trajetórias. “Eu acho importante marcar essa presença, até como inspiração para outros”, afirma.

Pós-doutoranda em Antropologia pelo IFCH, Andréia Rosalina optou por disponibilizar o livro no formato e-book gratuitamente
Pós-doutoranda em Antropologia pelo IFCH, Andréia Rosalina optou por disponibilizar o livro no formato e-book gratuitamente

Desigualdades

A trajetória da pesquisadora também evidencia as desigualdades ainda presentes no ambiente acadêmico. Recentemente em uma atividade da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp, ela era a única mulher negra entre mais de 50 participantes. “O espanto das pessoas ao me verem foi incrível.”

Para ela, a experiência revela uma visão ainda limitada sobre quem pode produzir conhecimento. “Acham que os quilombolas estão olhando só para as suas comunidades. Nós pensamos em melhorar a sociedade. Não vivemos isolados”, afirma. Essa crítica se estende ao próprio modelo de Ciência. “Hoje é construída isoladamente. E não é isso que a gente está procurando. Queremos uma Ciência que sirva para todo mundo”, defende.

Por essa perspectiva, Rosalina optou por disponibilizar seu livro no formato e-book gratuitamente. “O conhecimento não é só meu, ele tem que ser partilhado. Eu abri mão dos direitos autorais porque quero que muitas pessoas leiam, especialmente quilombolas, e se vejam refletidas ali”, afirma. Além do livro, ela também participa de outros projetos, como o desenvolvimento de um dicionário biográfico intitulado “Histórias entrelaçadas de mulheres afrodiaspóricas” (Editora Malê), ampliando o alcance de sua atuação acadêmica.

Acesse o e-book.

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Entre memórias, corpos e territórios, formandos de Artes Visuais expõem múltiplas linguagens

Por:raquel
26 de Março de 2026, 19:41
A exposição, realizada anualmente, representa uma oportunidade para os artistas apresentarem suas criações à comunidade
A exposição, realizada anualmente, representa uma oportunidade para os artistas apresentarem suas criações à comunidade

Experimentação, linguagem, emoção, memória, território, pertencimento e as percepções do tempo estão entre as inspirações das obras da exposição coletiva “Cartografias do Comum – Experimentações da Arte em Projeto”, dos formandos de 2025 da graduação em Artes Visuais do Instituto de Artes (IA) da Unicamp. A mostra, inaugurada nesta quarta-feira (25), pode ser vista até 1º de maio na Galeria de Artes do IA (Gaia), no térreo da Biblioteca Central Cesar Lattes.

O professor do IA Sérgio Niculitcheff, coordenador da galeria, destaca a diversidade de linguagens da exposição, que reúne os trabalhos de conclusão de curso, chamados de “projetos experimentais”. “Como é arte, há uma dimensão maior de experimentação. Há pinturas, gravuras, esculturas, instalações, história em quadrinhos e vídeo, por exemplo.”.

A exposição, realizada anualmente, representa uma oportunidade para os artistas apresentarem suas criações à comunidade. Além da mostra, o evento também gera um catálogo anual, que reúne o trabalho de todos os 33 formandos. “É um registro importante, com indicação dos orientadores e pequenos textos sobre as obras”, explica o professor.

A mostra é composta pelo trabalho de 33 formandos em Artes Visuais; um catálogo reúne as obras expostas
A mostra é composta pelo trabalho de parte dos 33 formandos em Artes Visuais

Inspiração e interação

A memória, ou a sua perda, é o ponto de partida da obra do formando Filipi Macarini, que produziu um trabalho sensível a partir da relação com o avô e das questões ligadas ao Mal de Alzheimer. Em vídeo e objetos, ele investiga a fragilidade das lembranças e o impacto da doença não apenas em quem a vive, mas também ao redor. “Percebi que não é só a pessoa que sofre, mas todos à volta.”

“Meu avô era lenhador, carvoeiro, e sempre comia com uma colher”, lembra. Com essas três informações, criou peças de madeira com desenhos a carvão de colheres que, aos poucos, vão se apagando. “As colheres mais nítidas simbolizam a memória afiada que ele tinha, e as desgastadas evocam seu esquecimento progressivo”, explica.

A formanda Vandora Bonfim, nascida na Bahia e criada em Campinas, inspirou-se na memória e na vivência de sua mãe, vendedora ambulante. Sua instalação, que dialoga com a escultura, trata de memória, informalidade e pertencimento através de caixas de isopor empilhadas e enfeitadas com fitas com expressões típicas dos camelódromos, confeccionadas por ela. “São frases comuns, como formas de chamar o cliente ou tratar do preço, como ‘fala, campeão’ e ‘três por dez’, por exemplo. Isso vem da minha infância, de crescer nesse ambiente”, conta Bonfim, que pretende se tornar professora de artes e pesquisadora após fazer o mestrado e o doutorado.

Já a formanda Gabriela Gomes, que apresenta a obra “Diante da promessa”, aposta em um objeto-escultura, um “colar-porta”, que veste como uma experiência poética. A artista aciona aberturas e trancas e surgem inscrições que evocam pensamentos do cotidiano que sugerem sentidos abertos e inacabados. “São frases criadas durante o processo, sobre território e sentimentos”, explica. Entre as frases, escolhe uma: “Os dias vão pra nunca mais, mesmo assim tanta coisa fica.”

Entre memórias, corpos e territórios, formandos de Artes Visuais expõem múltiplas linguagens
Entre memórias, corpos e territórios, formandos de Artes Visuais expõem múltiplas linguagens
Entre memórias, corpos e territórios, formandos de Artes Visuais expõem múltiplas linguagens
Entre memórias, corpos e territórios, formandos de Artes Visuais expõem múltiplas linguagens
Entre memórias, corpos e territórios, formandos de Artes Visuais expõem múltiplas linguagens
Entre memórias, corpos e territórios, formandos de Artes Visuais expõem múltiplas linguagens
Entre memórias, corpos e territórios, formandos de Artes Visuais expõem múltiplas linguagens

Cores e técnicas

Entre os trabalhos expostos, a pintura aparece como campo de investigação cromática e técnica na obra de Felipe Menani, com trabalhos desenvolvidos a partir do uso de spray e de experimentações com estêncil, técnica de pintura que utiliza um molde vazado, muito associado à linguagem do grafite e da arte urbana.

“Foi um processo de descobrimento. Ao longo do curso, a gente passa por várias áreas e acaba se identificando mais com algumas linguagens”, conta. Inspirado também pela serigrafia e pela gravura, o artista usou materiais inusitados, como rendas, para criar texturas e desenhos.

A relação entre existência e tempo marca o trabalho de Beatriz Lumo, autora de uma pintura em grandes dimensões. “A ideia é pensar que estamos vivos no presente, atravessados ao mesmo tempo por maravilhas e agonias”, explica. A artista, que já desenvolve a pesquisa desde a iniciação científica, pretende dar continuidade ao trabalho em programas de pós-graduação e residências artísticas.

Formandos desenvolveram os trabalhos com a orientação dos professores do IA
Formandos desenvolveram os trabalhos com a orientação dos professores do IA
Formandos desenvolveram os trabalhos com a orientação dos professores do IA
Formandos desenvolveram os trabalhos com a orientação dos professores do IA

Identidade e trajetória

Isabelle Gomes apresenta um vídeo que articula corpo, espiritualidade e identidade a partir do projeto “Ter sede em águas salgadas: manifesto de uma lésbica do interior de São Paulo”, que resultou em um documentário de cerca de 28 minutos que será apresentado na Gaia no dia 8 de abril, às 15h.

Na mostra, um trecho do documentário da formanda, que é de Americana (SP), antecipa seu trabalho, que utiliza os elementos fogo e água como metáforas de sua trajetória. “O fogo aparece nos momentos mais difíceis, ligados à lesbofobia que ainda enfrento. A água é o que me resgata, me acalma e me dá força”, resume.

Mareh Vilella discute corpo, linguagem e dissidência na obra “Poéticas da carne: da língua bovina ao corpo queer”, uma ação performática registrada em vídeo, acompanhada de letras confeccionadas em cerâmica. “Eu parto do lugar da casa, do cuidado e do comer, e relaciono isso com a palavra e com o corpo”, explica.

Serviço:

Coletiva “Cartografias do Comum – Experimentações da Arte em Projeto”. A exposição reúne 33 formandos: Adriely Correia, Amanda Lima, Artur Strauch, Beatriz Lumo, Bianca Paiva, Carolina Avelina, Caos Haru, Cleiton Olympio, Enrico Scudeler, Felipe Menani, Fernanda Rocha, Filipi Macarini, Gabriela Germini Abreu, Gabriela Gomes, Giulia Urbano, Giuliana Takahira, Guilherme Gomes, Helena Rybka, Isabel Brentani, Isabelle Germano, Isabelle Gomes, Julia Roma, Laura Fernandes, Laura Marissa Pérez Henríquez, Lavínia Machado, Lucas Braco, Mareh Vilela, Pedro Mishima, Pedro Seebregts, Tania Sayri, Thayná Vitória Tinarelli e Vandora Bonfim.

Galeria de Artes do IA (Gaia), no térreo da Biblioteca Central Cesar Lattes – Rua Sérgio Buarque de Holanda, s/nº, no campus da Unicamp, em Barão Geraldo, Campinas.

Até 1º de maio, das 9h às 17h, de segunda a sexta-feira, exceto feriados.

Foto de capa:

A mostra pode ser vista na Galeria de Arte do IA até 1º de maio, de segunda à sexta, das 9 às 17 horas, exceto feriados
A mostra pode ser vista na Galeria de Arte do IA até 1º de maio, de segunda à sexta, das 9 às 17 horas, exceto feriados

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Novo estudo indica avanço do vírus Oropouche em todas as regiões do Brasil

Por:raquel
24 de Março de 2026, 08:52

Um novo estudo publicado nesta terça-feira (24) pela revista Nature Medicine aponta o avanço do vírus Oropouche – transmitido aos humanos pela picada dos mosquitos maruins (Culicoides paraensis), frequentemente chamados de porvinha – na América Latina e Caribe. Conduzido por uma equipe de pesquisadores do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, Universidade de São Paulo (USP), Universidade de Kentucky (EUA) e Fundação Hospitalar de Hematologia e Hemoterapia do Amazonas (Hemoam), o levantamento estima que 9,4 milhões de infecções ocorreram entre 1960 e 2025 nesta região do planeta, sendo 5,5 milhões apenas no Brasil.

O professor do IB José Luiz Proença Modena: sazonalidade coincide com estação chuvosa amazônica
O professor do IB José Luiz Proença Modena: sazonalidade coincide com estação chuvosa amazônica

De rápida proliferação em áreas de solo úmido que podem ir da Floresta Amazônica até a Mata Atlântica, hoje o vírus está presente em todos os estados brasileiros, mas a pesquisa identifica Manaus (AM) como um epicentro para a disseminação do Oropouche. Entre o final de 2023 e meados de 2024, a porcentagem da população com anticorpos contra o vírus (indicando infecção passada) aumentou de 11,4% para 25,7%, com base em estimativas de estudos sorológicos realizados com doadores de sangue. A alta densidade populacional e o transporte aéreo provavelmente facilitaram a disseminação para áreas anteriormente não afetadas. Viagens à Europa e América do Norte também têm gerado os chamados casos importados nessas regiões.

Os pesquisadores discutem que o desmatamento pode estar relacionado à reemergência do vírus. A destruição de áreas naturais aumenta o contato entre humanos e vírus que circulam na floresta, um processo que facilita a “transposição” de patógenos do ambiente silvestre para populações humanas e, a partir daí, sua disseminação.

“A sazonalidade do Oropouche coincide com a estação chuvosa amazônica, que oferece condições ideais para a reprodução desses maruins”, explica o professor José Luiz Proença Modena, da Unicamp. Ao analisar dados de anticorpos, a equipe reconstruiu a história da transmissão do Oropouche na capital amazonense, constatando que o surto de 2023–2024 praticamente reproduziu um surto documentado entre 1980–1981. Ambos atingiram o pico durante a estação chuvosa (dezembro a abril).

O professor William M. de Souza, da Universidade de Kentucky: circulação 'silenciosa' do vírus
O professor William M. de Souza, da Universidade de Kentucky: circulação ‘silenciosa’ do vírus

“Pacientes em regiões remotas da Amazônia frequentemente enfrentam tempos de deslocamento superiores a 24 horas para chegar a uma unidade de saúde. Isso significa que muitos casos provavelmente não foram diagnosticados, permitindo que o vírus circulasse ‘silenciosamente’ até atingir um grande centro urbano como Manaus”, comenta o professor William M. de Souza, da Universidade de Kentucky.

Um segundo estudo, publicado também nesta quarta-feira pelo mesmo grupo de pesquisa, dessa vez na revista Nature Health, demonstra que o Oropouche ocorre predominantemente em áreas rurais, em contraste com a dengue, chikungunya e zika. A equipe chegou à conclusão de que essa divergência epidemiológica é impulsionada pelas diferentes ecologias dos vetores. Os maruins necessitam de ambientes com alta umidade em áreas rurais, enquanto os mosquitos Aedes aegypti estão concentrados em ambientes urbanos.

Os autores argumentam que as estratégias atuais de controle de vetores, focadas em mosquitos urbanos como o Aedes, são insuficientes para controlar a transmissão do Oropouche. As políticas de saúde pública também devem se adaptar para incluir vigilância específica em comunidades rurais e áreas próximas a florestas. Neste caso, estudos soroepidemiológicos contínuos são fundamentais para compreender o impacto das doenças arbovirais (transmitidas por mosquitos) na população e orientar estratégias de saúde pública para controlar a transmissão.

Sem vacina, por enquanto

O Oropouche ganhou atenção após ressurgir na Amazônia brasileira no final de 2023 e provocar mais de 30 mil casos em vários países da América Latina e do Caribe. O vírus pode causar uma doença febril semelhante à dengue; casos graves podem levar a doenças neurológicas, complicações materno-fetais e morte. Atualmente, não há vacinas licenciadas nem medicamentos antivirais disponíveis.

Identificado no Brasil desde a década de 1960, o Oropouche sempre esteve associado a surtos na Região Norte do país, especialmente com grandes surtos em cidades como Belém e Santarém. Por décadas, no entanto, foi tratado como uma arbovirose típica de áreas rurais e de floresta. Com a intensificação da mobilidade, especialmente por transporte aéreo, o vírus passou a circular com mais rapidez, saindo da Amazônia e alcançando outros pontos.

Pesquisador em trabalho de campo (à esquerda), área de desmatamento (ao centro) e solo úmido (à direita); pesquisadores discutem que o desmatamento pode estar relacionado à reemergência do vírus
Pesquisador em trabalho de campo (à esquerda); ao centro e à direita área de desmatamento e solo úmido, respectivamente, são as condições favoráveis para proliferação do vírus

Apesar da expansão geográfica, a transmissão do Oropouche continua dependente de condições ambientais específicas. O vetor se desenvolve em locais com solo úmido e matéria orgânica, comuns em regiões de mata ou áreas agrícolas. Plantações como banana, café e mandioca ajudam a manter essa umidade, criando ambientes ideais para a reprodução do inseto. Por isso, o vírus costuma se concentrar em áreas periurbanas, nas bordas das cidades. Em Campinas, já foi registrada a presença de potenciais vetores, espécies de culicoides, nos distritos de Sousas e Barão Geraldo, por exemplo. Esse fator é crucial para entender o avanço da doença: não se trata de um vírus urbano clássico, como a dengue, mas de uma arbovirose que encontra “pontes ecológicas” para chegar às cidades.

Os estudos mostram que surtos podem ocorrer de forma rápida. Em Manaus, por exemplo, 14% da população foi infectada em apenas cinco a seis meses, durante o período de chuvas. Antes do surto, cerca de 11% da população já tinha anticorpos contra o vírus. Esse número subiu para 25% após um ano, indicando ampla exposição. A análise por idade revelou outro dado importante: a maioria das pessoas com imunidade prévia tinha mais de 45 anos. Modelagens apontam que essas infecções ocorreram durante um grande surto há mais de 40 anos, no início da década de 1980.

De acordo com a pesquisa, o padrão se repete: crescimento rápido de casos em poucos meses, sempre associado ao período chuvoso, o que sugere um comportamento cíclico da doença.

Estudos soroepidemiológicos contínuos são fundamentais para compreender o impacto das doenças arbovirais na população
Estudos soroepidemiológicos contínuos são fundamentais para compreender o impacto das doenças arbovirais na população
Estudos soroepidemiológicos contínuos são fundamentais para compreender o impacto das doenças arbovirais na população
Estudos soroepidemiológicos contínuos são fundamentais para compreender o impacto das doenças arbovirais na população

Mais eficiente

Outro fator que preocupa os pesquisadores é a evolução do vírus. O Oropouche pode sofrer rearranjos genéticos quando diferentes variantes infectam uma mesma célula, gerando novas versões. Essas novas variantes podem se replicar com mais eficiência ou escapar parcialmente da imunidade adquirida anteriormente.

A doença causada pelo vírus é semelhante à dengue, com febre alta, dores no corpo e mal-estar. Também pode haver sensibilidade à luz e aumento da frequência urinária. Em alguns casos, os sintomas podem retornar após uma melhora inicial. O maior alerta, no entanto, está nas complicações neurológicas. O vírus pode atingir o sistema nervoso central e causar desde alterações leves, como perda de equilíbrio, até quadros graves e potencialmente fatais de meningite e encefalite.

A diferença entre o número estimado de infecções e os casos confirmados está ligada, principalmente, às dificuldades de acesso à saúde em regiões remotas. Na Amazônia, o deslocamento até um hospital pode levar dias, muitas vezes por barco ou estradas precárias. Isso impede o diagnóstico adequado e contribui para a subnotificação. Quando o vírus chega a regiões com melhor infraestrutura, passa a ser mais facilmente detectado, o que reforça a percepção de que ele está se expandindo.

O desafio de fortalecer a vigilância

Vírus passou a ser incluído nos protocolos de testagem
Vírus passou a ser incluído nos protocolos de testagem

O caso do Oropouche reforça um ponto central: doenças antes consideradas regionais podem rapidamente ganhar escala nacional e até internacional. Os pesquisadores alertam que o desafio agora é fortalecer a vigilância, especialmente em áreas remotas, e investir na prevenção. Também destacam a importância de melhorar as condições de vida das populações amazônicas, que são as primeiras a detectar novos surtos.

Os estudos que revelaram a nova dimensão do Oropouche também já impactaram políticas públicas. Hoje, o vírus passou a ser incluído nos protocolos de testagem, inclusive em locais onde dengue, zika e chikungunya já circulam. “O Brasil possui um sistema robusto de vigilância de arboviroses, com milhões de testes realizados por ano, considerado referência internacional. Mesmo assim, há espaço para aprimorar a detecção precoce, especialmente em regiões de difícil acesso”, afirma Souza.

A pesquisa foi apoiada pelo Wellcome Trust, Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil, Euroimmun e Instituto Todos pela Saúde.

Acesse os artigos publicados na Nature Medicine e Nature Health:

Ecological and demographic drivers of Oropouche virus transmission

Transmission dynamics of Oropouche virus in Latin America and the Caribbean

Leia mais:

Imunidade materna protege fetos contra danos do Oropouche

Foto de capa:

O levantamento estima que 9,4 milhões de infecções ocorreram entre 1960 e 2025 nesta região do planeta, sendo 5,5 milhões apenas no Brasil (Foto: Flávio Carvalho/Fiocruz)
O levantamento estima que 9,4 milhões de infecções ocorreram entre 1960 e 2025 na América Latina e Caribe, sendo 5,5 milhões apenas no Brasil (Foto: Flávio Carvalho/Fiocruz)

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Projetos de educação midiática atuam no enfrentamento à desinformação

Por:raquel
18 de Março de 2026, 17:39

A desinformação se tornou um dos principais desafios contemporâneos com a expansão das redes sociais. O ambiente digital mudou a forma como a informação circula e intensificou a disseminação das narrativas manipuladas e dos discursos de ódio. Diante desse cenário, o Observatório da Desinformação da Unicamp tem intensificado suas ações de enfrentamento a partir de projetos de educação midiática, como o lançamento, em breve, de três cartilhas sobre o tema e um projeto piloto que será implantado nas escolas públicas de Campinas. 

O objetivo é ajudar estudantes, professores e comunidades a compreenderem de forma crítica o funcionamento das mídias e a circulação de conteúdos no ambiente digital, destaca a pesquisadora do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE), Claudia Wanderley, uma das coordenadoras do Observatório, que funciona de forma colaborativa e descentralizada. “Muitos dos conflitos vêm da dificuldade de lidar com a diferença.”

A professora Josianne Cerasoli e a pesquisadora Claudia Wanderley: informação como um direito
A professora Josianne Cerasoli e a pesquisadora Claudia Wanderley: informação como um direito

As cartilhas, com temas que abordam noções básicas de educação midiática, letramento em mídia, estratégias e desafios, fazem parte de um projeto maior, a Olimpíada Brasileira de Educação Midiática (Obem). “Todo esse material está em fase de publicação e deve ser disponibilizado gratuitamente ao público”, acrescenta.

Enquanto aguarda a confirmação da data de realização da Olimpíada, um projeto piloto está sendo organizado nas escolas públicas de Campinas ligadas ao Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid). A professora da Faculdade de Educação (FE), Nima Spigolon, uma das coordenadoras do grupo, destaca que o objetivo é ajudar estudantes e professores a lidar com a grande quantidade de informação digital que circula no cotidiano escolar. “Hoje todos produzem e compartilham informação. Precisamos aprender a fazer isso de forma crítica e segura.”

Uma das estratégias discutidas no projeto é a criação de redes de apoio dentro das escolas para ajudar os estudantes a avaliar informações. “Bibliotecários, orientadores pedagógicos, professores e gestores podem atuar com os alunos”, explica.

A professora da FE, Nima Spigolon e o biólogo e professor da Ufac, Ewerton Machado: relação entre emoção e informação
A professora da FE, Nima Spigolon e o biólogo e professor da Ufac, Ewerton Machado: relação entre emoção e informação

“O material que preparamos aborda desde o pensamento crítico e avaliação de fontes até a relação entre emoção e informação”, destaca o biólogo e professor da Universidade Federal do Acre (Ufac), Ewerton Machado, também coordenador do Observatório. “Temos livros conceituais e também materiais pedagógicos para ajudar professores e alunos a trabalhar com educação midiática.”

Além das ações com escolas e comunidades, o grupo, que produz boletins que analisam casos de desinformação em diferentes contextos, pretende disponibilizar parte dos materiais produzidos em plataformas abertas, como a Wikimedia. “A ideia é ampliar o acesso público ao conhecimento”, destaca Wanderley. 

Informação como um direito

O Observatório, que mantém parceria com Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), funciona como um núcleo para que pesquisadores interessados possam estudar o tema a partir de diferentes áreas do conhecimento. Para a professora de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), Josianne Cerasoli, uma das articuladoras do projeto, o ponto de partida é reconhecer a informação como um direito. “Buscamos entender como esse direito está sendo ameaçado hoje e o que a Educação pode fazer diante disso”, afirma.

O grupo nasceu a partir de uma articulação com o Observatório de Direitos Humanos da Unicamp e, além da produção acadêmica, aposta no diálogo com a sociedade, especialmente por meio de iniciativas de formação e extensão. 

Segundo Cerasoli, o objetivo não é atuar diretamente na checagem de informações, mas compreender as condições sociais e culturais que favorecem a disseminação da desinformação. “O que nos interessa é entender como as relações humanas criam espaço para que a desinformação tenha um papel tão desarticulador quanto vemos hoje”, explica.

Para a historiadora, a dinâmica das plataformas digitais intensifica processos que já fazem parte da história política. “Processos de exclusão política sempre passam pela mobilização de sentimentos”, afirma. 

“As bolhas parecem algo novo, mas trabalham em um campo que politicamente já está disponível há muito tempo”, continua Cerasoli, que destaca que os processos de exclusão política frequentemente começam com a construção de distanciamento emocional entre grupos. “Primeiro se corta a empatia. Depois, começam a surgir imagens negativas do outro, que levam ao desprezo, à indiferença e, em casos extremos, ao ódio”, explica.

Cartilha Noções básicas de Educação Midiática
Cartilha Estratégias e desafios para estudantes na Obem
Cartilha Letramento em Mídia e Informação

Esse processo encontra nas plataformas digitais um ambiente favorável à amplificação. Cerasoli cita estudos sobre patentes registradas por empresas de tecnologia que exploram justamente a dimensão emocional das interações online. “Nos últimos anos, mais da metade das patentes do Facebook mencionam emoção ou sentimento. Isso mostra o quanto essas plataformas operam diretamente sobre nossas reações emocionais.” Para ela, compreender essa dimensão é essencial para pensar estratégias de enfrentamento da desinformação.

Conhecimentos tradicionais

Outro eixo do trabalho do Observatório envolve a colaboração com o povo Paiter Suruí, em Rondônia, parceria que existe há cerca de uma década. Segundo Machado,  a proposta, hoje, busca ampliar o diálogo entre conhecimentos tradicionais e debates globais. “A ideia é que eles possam falar sobre a floresta e sobre o conhecimento que possuem a partir da própria perspectiva.”

Inicialmente voltado à organização do conhecimento tradicional da comunidade, o projeto passou a incluir discussões sobre desinformação em temas como floresta e mudanças climáticas. 

Uma das iniciativas mais recentes é a criação de uma MIL City — (MIL é a sigla em inglês de “letramento em mídia e informação”) na Aldeia Lapetanha. A proposta é transformar a comunidade em uma referência internacional em educação midiática indígena. “Será a primeira aldeia MIL do mundo”, destaca.

Conheça o projeto

Foto de capa:

O Observatório da Desinformação mantém parceria com Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco)
O Observatório da Desinformação mantém parceria com Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco)


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Banco de dados inédito revela padrões de desinformação antivacina no Telegram

Por:raquel
16 de Março de 2026, 16:36

Um grupo multidisciplinar reunido pelo Laboratório de Inteligência Artificial Recod.ai, da Unicamp, mergulhou nas redes sociais e agrupou quatro milhões de postagens com apenas um objetivo: traçar os caminhos da desinformação antivacina que circula pelo aplicativo de mensagens Telegram no Brasil. O conjunto coletado inclui 1,4 milhão de arquivos de imagem, vídeo, áudio e enquetes – tudo compartilhado organicamente pelos usuários das redes ou turbinado pelos algoritmos. Com base nesses materiais, os pesquisadores criaram um banco de dados totalmente aberto, para uso sem finalidades comerciais, que está disponível no Repositório de Dados da Universidade. Trata-se de uma ferramenta que auxilia na valorização da verdade quando o assunto é saúde pública.

Infográfico de narrativas antivacina identificadas no Telegram

A análise abrangeu publicações feitas entre janeiro de 2020 e junho de 2025. O recorte temporal teve início nas primeiras semanas após a descoberta do coronavírus da covid-19 e se estendeu até os anos pós-pandemia, período de considerável circulação de desinformação na área de saúde, principalmente sobre a eficácia de tratamentos.

“Queremos entender melhor as motivações e estratégias de propagação da desinformação, mais precisamente na questão da vacinação. O tipo de comunicação que sobrevive, ganha força e se propaga nesse meio tem muita semelhança com os mecanismos de seleção natural que vemos na natureza. Se algum tipo de narrativa não está gerando engajamento, naturalmente as pessoas vão parar de reproduzi-la”, explica Leopoldo Lusquino Filho, colaborador do Recod.ai e docente da Unesp.

“Nós fizemos uma análise e conseguimos identificar que existem canais que só disseminam desinformação, outros que apenas a compartilham, e os que fazem as duas coisas. Existe uma estratégia por trás disso. Eventos externos, como a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, geram um efeito dominó nessas redes. É possível perceber também que há muitas mensagens compartilhadas por robôs”, detalha o pesquisador.

Ainda de acordo com Lusquino Filho, o fato de 2026 ser um ano eleitoral no Brasil tende a intensificar a circulação de conteúdos desinformativos. Isso porque as áreas de saúde e política acabam integrando disputas ideológicas que ficam mais acirradas nesse período. “Tivemos contato com outras agências de verificação de informações e elas confirmaram que nunca houve uma quantidade tão grande de desinformação política quanto neste ano”, aponta.

A análise abrangeu publicações feitas entre janeiro de 2020 e junho de 2025
A análise abrangeu publicações feitas entre janeiro de 2020 e junho de 2025

Primeiros passos

O primeiro passo para criar o banco de dados sobre desinformação antivacina foi identificar, em artigos de agências de checagem, os principais boatos sobre o tema. A partir disso, os pesquisadores selecionaram canais e grupos no Telegram, por ser esta uma base de dados mais acessível para fins de pesquisa e por ser conhecida por disseminar conteúdos antivacina. Isso foi feito com base em palavras-chave comuns nesse meio e de recomendações do algoritmo da própria plataforma para encontrar canais públicos semelhantes com mais de mil membros.

Na sequência, os cientistas desenvolveram uma ferramenta de coleta de dados personalizada nos canais e grupos. Depois do processo de coleta, os dados passaram por uma curadoria.

O projeto contou com o apoio da empresa Maritaca.ai para uso do modelo Sabiá, que facilitou a identificação de postagens relacionadas à vacinação. A privacidade dos usuários dos canais e grupos também foi assegurada. Eles passaram por um processo de anonimização, no qual a identificação do autor da mensagem foi removida. Somado a isso, informações pessoais como telefone, e-mail e registros de entradas e saídas dos grupos também foram excluídas. Isso tudo para que o processo respeitasse as boas práticas de ética em pesquisa e proteção de dados.

Da esquerda para a direita, Michelle Diniz Lopes, Leopoldo Lusquino Filho e Christiane Versuti: falta de dados abertos e sistematizados sobre a infodemia
Da esquerda para a direita, Michelle Diniz Lopes, Leopoldo Lusquino Filho e Christiane Versuti: falta de dados abertos e sistematizados sobre a infodemia

Lacuna histórica

De acordo com o Recod.ai, a iniciativa busca suprir uma lacuna histórica em relação à falta de dados abertos e sistematizados sobre a infodemia – o excesso de informações, incluindo notícias falsas ou imprecisas, que se espalham rapidamente durante uma crise sanitária – no caso brasileiro. “Os dados mostram que a desinformação vai além da saúde e envolve disputas políticas, crenças e desconfiança nas instituições — com impactos reais, como a queda da cobertura vacinal”, ressalta o material de divulgação científica do laboratório.

O conjunto de dados ocupa 5,5 terabytes de armazenamento (1 terabyte equivale a 1.024 gigabytes), reunindo conteúdos postados por 71.672 usuários em 119 grupos do Telegram. Há 407.723 mensagens relacionadas especificamente à postura antivacina, o que corresponde a 10,2% das postagens que compõem o banco de dados.

“Analisamos as reais motivações das pessoas que consomem informação negacionista na área de saúde, principalmente no que diz respeito à questão vacinal, e quais são as estratégias eficientes para propagação dessa desinformação”, explica a doutoranda Michelle Diniz Lopes, integrante da equipe de pesquisa, graduada em Matemática e especialista em Estatística e Neurociências. “Identificamos diversos nichos: o da desconfiança institucional, crenças injustificadas, visão de mundo e política, preocupações religiosas e fobias”, conta.

O conjunto de dados ocupa 5,5 terabytes de armazenamento (1 terabyte equivale a 1.024 gigabytes), reunindo conteúdos postados por 71.672 usuários em 119 grupos do Telegram
O conjunto de dados ocupa 5,5 terabytes de armazenamento (1 terabyte equivale a 1.024 gigabytes), reunindo conteúdos postados por 71.672 usuários em 119 grupos do Telegram

Disputas ideológicas

As narrativas de infodemia postadas por usuários do Telegram viraram espaço de disputas ideológicas. No espaço virtual, surgem com frequência temas ligados à saúde, à ciência, a instituições e políticas públicas e a crenças e desconfianças, além da disputa política propriamente dita. Ainda de acordo com o material de divulgação do Recod.ai, a presença maciça dessas narrativas indica que a desinformação na área de saúde passou a ter efeitos concretos na população. Isso trouxe impactos na política pública de vacinação, como se viu na perda de penetração do Programa Nacional de Imunizações (PNI), criado em 1973 para garantir às pessoas o acesso universal e gratuito às vacinas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Em 2020, o PNI alcançou o menor percentual de cobertura vacinal da sua história (75%) , de acordo com apuração do Instituto Butantan. A desinformação tem muita influência nisso.

Na tentativa de contribuir para reverter esse quadro, o Recod.ai espera que o novo banco de dados ajude as comunidades científica e de saúde a desenvolverem estratégias baseadas em evidências para mitigar a desinformação e a hesitação vacinal. “O entendimento dos padrões da infodemia é essencial para reconstruir o diálogo e a confiança com pessoas afetadas por narrativas falsas”, reforça o material de divulgação do trabalho científico.

As mais diversas áreas de pesquisa podem se beneficiar dos dados coletados. No campo do processamento de linguagem natural, por exemplo, serve como ferramenta para entender grandes volumes de postagens; nas ciências sociais, que permite compreender as narrativas antivacina; na análise de redes, servirá para identificar grupos e perfis influentes na disseminação de desinformação; e, no estudo das realidades sintéticas, contribui para identificar vídeos e imagens que são gerados por IA para apoiar discursos antivacina.

Michelle Lopes destaca o papel social do trabalho e a sua capacidade de orientar a população em geral. “Existem muitas pesquisas que não conseguem ter uma aplicabilidade social, mas no Recod.ai nós sempre tentamos vincular esse trabalho com a extensão, para que ele possa ser aproveitado pela sociedade como um todo. É importante dizer que temos utilizado a IA para analisar e encontrar padrões, mas é fundamental sempre existir uma curadoria humana”, salienta Lopes.

Na opinião dela, é fundamental “que possamos fazer questionamentos de forma estruturada, em prol do nosso desenvolvimento como sociedade”. Isso só é possível porque contamos com diversos pesquisadores, em um grupo multidisciplinar, que nos apoiam. Nossa busca é pela verdade.”, completa.

Em uma nova etapa do trabalho, os pesquisadores querem compreender o que leva as pessoas a aderirem a esse tipo de conteúdo
Em uma nova etapa do trabalho, os pesquisadores querem compreender o que leva as pessoas a aderirem a esse tipo de conteúdo

Ressentimento

A pós-doutoranda Christiane Versuti, com formação em Ciências Sociais e Comunicação, colaborou como pesquisadora no projeto. Ela entrou como uma usuária comum em diversos grupos do Telegram e acompanhou suas movimentações. Nesse ambiente, percebeu que o ressentimento e a busca por pertencimento movem quem acompanha cada postagem. “A falta de letramento midiático torna tudo ainda mais hostil. As pessoas não têm o hábito de checar as fontes ou só compartilhar algo quando têm certeza do conteúdo”, diz a pesquisadora.

Para Versuti, o ambiente digital fica ainda mais turbulento quando a questão da religião aparece. “É a lógica do racional contra o emocional. Tem gente que só aceita a ciência quando a informação bate com suas crenças. O mesmo acontece em relação à imprensa: os jornalistas só são considerados sérios quando falam o que a pessoa defende”, destaca Christiane, que se deparou com momentos que beiram o absurdo. “Encontrei mensagens que tratavam a enzima conhecida como luciferase como algo demoníaco apenas pela vaga lembrança que seu nome trazia. Outras apontavam que a aplicação dessa enzima transformaria as pessoas em zumbis”, lembra Versuti, explicando que luciferase é uma enzima bioluminescente que catalisa a oxidação, produzindo luz em diversos organismos como vagalumes, bactérias e fungos, por exemplo.

Próximas etapas

Em uma nova etapa do trabalho, os pesquisadores vão além da identificação das mensagens antivacina. Eles querem compreender o que leva as pessoas a aderirem a esse tipo de conteúdo. “Outros projetos de pesquisa já coletaram bases de dados amplas como a nossa, mas não as disponibilizam gratuitamente. Esse material costuma ser vendido por valores altos. Mas, no nosso caso, qualquer outro grupo acadêmico pode pegar as análises que a gente fez. Já disponibilizamos a base de dados do Telegram e, agora, estamos trabalhando com o Instagram, YouTube e X. Vamos disponibilizar isso ainda este ano, também de forma totalmente aberta e gratuita”, adianta o pesquisador Lusquino Filho. Neste mês, representantes do Recod.ai vão se reunir com funcionários do Ministério da Saúde para oferecer a ferramenta como fonte de futuras políticas públicas no país.

O banco de dados é resultado de uma parceria entre o Recod.ai e a Maritaca.ai, reunindo expertises acadêmicas e tecnológicas no desenvolvimento de soluções baseadas em IA. O projeto recebeu apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), por meio do Projeto Horus, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Ministério da Saúde, a partir do Projeto Aletheia, iniciativa de pesquisa que usa IA e linguística computacional para combater a desinformação em saúde.

Além de Leopoldo Lusquino Filho, Michelle Lopes e Christiane Versuti , o projeto teve a participação direta de Ana Carolina Monari e Anderson Rocha, coordenador do Recod.ai.

Foto de capa:

O conjunto coletado inclui 1,4 milhão de arquivos de imagem, vídeo, áudio e enquetes – tudo compartilhado organicamente pelos usuários das redes ou turbinado pelos algoritmos
O conjunto coletado inclui 1,4 milhão de arquivos de imagem, vídeo, áudio e enquetes – tudo compartilhado organicamente pelos usuários das redes ou turbinado pelos algoritmos

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Cientistas discutem novas técnicas para enfrentar o câncer

Por:raquel
13 de Março de 2026, 15:00

Cientistas brasileiros e estrangeiros de diversas áreas se reúnem nesta semana na Unicamp para discutir novas técnicas e abordagens contra o câncer, uma doença que deve registrar 781 mil novos casos por ano no Brasil até 2028, segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional do Câncer (INC) no início de fevereiro.

O 3º Congresso CancerThera acontece nesta quinta e sexta (dias 12 e 13) no auditório da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), com a participação de especialistas em áreas como medicina, química e física, entre outras. Neste ano, o tema do encontro é “Os desafios da pesquisa translacional no Teranóstico em câncer”. Teranóstico é a junção de conceitos de terapia e diagnóstico, e a ideia é debater formas de levar os avanços obtidos em pesquisa acadêmica até o paciente.. 

De acordo com hematologista Carmino de Souza, pesquisador responsável pelo  Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) CancerThera e presidente do Congresso, o encontro abre espaço para o debate sobre os mais recentes avanços no desenvolvimento de radiofármacos e metalofármacos (medicamentos de precisão nos quais as propriedades físico-químicas de um metal são usadas para realizar tarefas moleculares). Além disso, o seminário vai discutir estratégias diagnósticas e terapêuticas inovadoras para os cuidados de pacientes oncológicos.

Neste ano, o tema do encontro é “Os desafios da pesquisa translacional no Teranóstico em câncer”
Neste ano, o tema do encontro é “Os desafios da pesquisa translacional no Teranóstico em câncer”

“A função do Congresso é dar oportunidade para que todos os envolvidos no Cepid possam ver as atividades de pesquisa que estão sendo desenvolvidas e os respectivos resultados. Alguns são preliminares, outros, mais definitivos”, disse Souza.

“Não estamos falando apenas de irradiação. No casos de câncer de pele, por exemplo, a gente praticamente não falou de irradiação no sentido nuclear. Nós falamos de fotodinâmica, falamos de novos fármacos, falamos de metais”, observa. A fotodinâmica é uma técnica medicinal que utiliza a interação entre luz e um fármaco sensível à luz para destruir células doentes de forma extremamente precisa.

“Quando você conhece o inimigo e sabe quantos são, onde estão e aonde vão, você escolhe as armas com as quais vai lutar”, afirma. “No câncer é a mesma coisa”, argumenta.

Carmino de Souza diz que o seminário também discutirá a chamada “medicina personalizada”, na qual o tratamento é individualizado com base em características próprias de cada organismo.

Cepid CancerThera

Instalado na Unicamp em maio de 2023, o Centro de Inovação em Câncer com Ênfase em Metais e Teranóstico (CancerThera) tem como tarefa desenvolver atividades de pesquisa, inovação e difusão do conhecimento para a criação de novos fármacos e radiofármacos baseados em metais para diagnóstico e tratamento do câncer, incluindo novos usos para radiofármacos já conhecidos.

Além disso, o centro agrega pesquisadores de diversas áreas do conhecimento, incluindo oncologia clínica, onco-hematologia, química, medicina nuclear, farmácia, estatística, biologia e física, adotando um modelo inovador no país para se transformar numa instituição de classe mundial no estudo do câncer.

Tipos de câncer mais incidentes

Homens

Próstata (30,5%) – Cólon e reto (10,3%) – Pulmão (7,3%) – Estômago (5,4%) – Cavidade oral (4,8%)

Mulheres

Mama (30,0%) – Cólon e reto (10,5%) – Colo do útero (7,4%) – Pulmão (6,4%) – Tireoide (5,1%)

Fonte: INC

Alerta

➔  781 mil novos casos de câncer estimados por ano no Brasil em cada ano do triênio 2026-2028.

➔  518 mil casos anuais da doença, excluídos os tumores de pele não melanoma.

➔  O câncer se aproxima das doenças cardiovasculares como principal causa de mortes no Brasil. 

Foto de capa:

Doença deve registrar 781 mil novos casos por ano no Brasil até 2028
Doença deve registrar 781 mil novos casos por ano no Brasil até 2028

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O carbono esquecido debaixo do Cerrado

Por:raquel
12 de Março de 2026, 11:15
Por décadas, o Cerrado brasileiro foi visto apenas como uma paisagem seca e retorcida
Por décadas, o Cerrado brasileiro foi visto apenas como uma paisagem seca e retorcida

O carbono esquecido debaixo do Cerrado

Veredas e campos úmidos do bioma armazenam até oito vezes mais carbono por hectare do que a Amazônia

Por décadas, o Cerrado brasileiro foi visto apenas como uma paisagem seca e retorcida
Por décadas, o Cerrado brasileiro foi visto apenas como uma paisagem seca e retorcida

Descobertas no Cerrado brasileiro estão prestes a redesenhar o mapa global de estoques de carbono e a forma como a ciência compreende a importância das savanas no equilíbrio do planeta. Por décadas, esse bioma foi visto apenas como uma paisagem seca e retorcida, ocupando o papel de ‘patinho feio’ ou ‘boi de piranha’ nas políticas de conservação brasileira, que privilegiavam quase exclusivamente a exuberância úmida da Amazônia e de outras florestas tropicais.

A ecóloga Larissa Verona: parte do solo é um grande estocador de carbono
A ecóloga Larissa Verona: descobertas no Cerrado podem redesenhar o mapa climático global
A ecóloga Larissa Verona: parte do solo é um grande estocador de carbono
A ecóloga Larissa Verona: descobertas no Cerrado podem redesenhar o mapa climático global

No entanto, uma pesquisa inédita liderada pela ecóloga Larissa Verona, mestre em Biologia Vegetal pela Unicamp, em conjunto com outros pesquisadores da universidade, do Instituto Max Planck (Alemanha), do Cary Institute e da Universidade Yale (EUA), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, mostra que as veredas e os campos úmidos do Cerrado são capazes de estocar até oito vezes mais carbono por hectare do que o carbono presente na biomassa aérea de uma floresta amazônica típica, transformando o que antes era visto como uma paisagem sazonalmente seca em um cofre climático gigantesco.

“Estamos mostrando que parte do solo é um grande estocador de carbono, e as turfeiras do Cerrado [áreas úmidas, onde restos de plantas se acumulam e se decompõem lentamente, formando um solo rico em matéria orgânica] têm esse potencial exacerbado. Conservar esse estoque evita a emissão do que estaria indo para a atmosfera se degradássemos esse solo”, explica Verona. Esse e outros achados estão em um artigo publicado na revista New Phytologist.

Por meio de aferições de isótopos radioativos de carbono feitas no solo em profundidades de até quatro metros, os pesquisadores concluíram que esses reservatórios contêm carbono acumulado há mais de 20 mil anos. Apesar de o longo período trazer a impressão de se tratar de estoques seguros de carbono, o estudo revela que são frágeis diante das alterações na dinâmica hídrica da região e do rebaixamento dos lençóis freáticos. “Se começarmos a drenar essas turfeiras e liberar esse carbono acumulado, lançaremos bombas de carbono na atmosfera. É uma quantidade de carbono orgânico até então desconhecida, em uma grande extensão e em um bioma improvável”, alerta o professor do Departamento de Biologia Vegetal da Unicamp Rafael Oliveira, coordenador do estudo e orientador de Verona.

O coordenador da pesquisa, Rafael Oliveira: falta de conservação pode levar a emissão de bombas de carbono na atmosfera
O coordenador da pesquisa, Rafael Oliveira: falta de conservação pode levar a emissão de bombas de carbono na atmosfera

Berço das águas sob ameaça

O coordenador da pesquisa, Rafael Oliveira: falta de conservação pode levar a emissão de bombas de carbono na atmosfera
O coordenador da pesquisa, Rafael Oliveira: falta de conservação pode levar a emissão de bombas de carbono na atmosfera

Com quase dois milhões de quilômetros quadrados, o Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil e representa 23,3% do território. Presente em 16 estados e no Distrito Federal, é conhecido como “berço das águas” por abrigar oito das 12 nascentes das principais bacias hidrográficas do Brasil, além de três grandes aquíferos. Dentro desse bioma, estão as veredas e os campos úmidos, onde se encontram as turfas e os solos ricos em carbono orgânico.

Veredas são zonas úmidas que aparecem no Cerrado como ilhas lineares encaixadas em vales rasos e nascentes de rios. Os campos úmidos são ecossistemas semelhantes, mas sem as palmeiras, compostas por extensões herbáceas encharcadas, dominadas por gramíneas e sedges, que também foram objeto de análise do estudo.

Até então, o consenso global científico ditava que grandes áreas de turfeiras existiam majoritariamente em regiões de frio extremo no Hemisfério Norte ou sob florestas tropicais de chuva constante, como na Bacia do Congo ou na Amazônia peruana. Sob essa perspectiva, o clima do Cerrado, com sua estação de seca severa de seis meses, não teria condições de sustentar a umidade necessária para formar turfas. Como consequência, grande parte desses estoques de carbono permaneceu fora das estimativas globais sobre o papel dos ecossistemas tropicais na regulação do clima.

O Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul presente em 16 estados brasileiros e no Distrito Federal
O Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul presente em 16 estados brasileiros e no Distrito Federal
O Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil presente em 16 estados e no Distrito Federal

Oliveira ressalta que o Brasil Central foi historicamente excluído de mapeamentos globais de áreas úmidas porque “temos dificuldade de entender parte da nossa própria natureza quando ela foge do viés que associa áreas úmidas a ambientes muito chuvosos e florestais”. O diferencial está no subsolo: “A água do Cerrado está principalmente no componente subterrâneo. Quando a zona freática aflora na superfície, determina a baixa decomposição da matéria orgânica e, consequentemente, possibilita a acumulação do carbono.”

As veredas operam como uma “caixa d’água invertida”: a água da chuva se infiltra profundamente no solo e recarrega os reservatórios subterrâneos que afloram na superfície, mantendo a terra permanentemente saturada. Esse encharcamento contínuo cria um escudo que bloqueia o oxigênio e impede que microrganismos decomponham a matéria orgânica, permitindo que o carbono retirado da atmosfera seja enterrado e preservado no solo por milênios.

“Quando você olha uma paisagem do Cerrado à distância, você vê a savana e os campos, mas a Vereda está encaixada ali e ocupa um espaço pequeno. Pensando na escala do ecossistema inteiro, essas pequenas áreas se tornam muito importantes”, resume Verona. Com base nos levantamentos feitos pela equipe, as turfeiras representam, ao todo, cerca de 8% da área do Cerrado – uma extensão de 16,7 milhões de hectares, maior do que o estado do Acre, que tem 15,2 milhões de hectares.

Exemplo de solo orgânico entre 100-150 cm de profundidade
Exemplo de solo orgânico entre 100-150 cm de profundidade

Do campo à tecnologia

Exemplo de solo orgânico entre 100-150 cm de profundidade
Exemplo de solo orgânico entre 100-150 cm de profundidade

O que diferenciou esse trabalho dos estudos anteriores foi a profundidade das coletas. Enquanto outras pesquisas analisaram camadas superficiais, de 20 centímetros a um metro de profundidade, os pesquisadores da Unicamp utilizaram sondas tubulares metálicas, conhecidas como Russian Peat Auger, para extrair amostras de solo de até 4 metros, o que foi determinante para os resultados encontrados. “Se não fôssemos para campo e fizéssemos as medidas, nunca saberíamos qual a profundidade desses solos, e isso muda todo o cenário”, disse Verona. Caso a coleta fosse restrita apenas à camada superficial, como em outros estudos, o carbono total seria subestimado em até 95%.

As amostras foram suficientes para confirmar o acúmulo de carbono nas turfas, mas era importante estimar o total para o bioma de quase 2 milhões de quilômetros quadrados. Para isso, parte da equipe treinou um algoritmo para encontrar veredas e campos úmidos nessa imensidão, cruzando dados topográficos e dos satélites Sentinel-1 e2. O modelo de aprendizado de máquina utilizado (Random Forest) foi validado com dados do Cadastro Ambiental Rural (CAR), registro público em que proprietários de terras precisam declarar a presença de veredas, classificadas no Código Florestal como Áreas de Preservação Permanente (APPs).

O mapeamento chegou ao total de cerca de 16,7 milhões de hectares. Em termos de carbono, isso representa uma média de aproximadamente 1,2 mil tonelada de carbono por hectare, armazenadas principalmente no solo. Para ter uma ideia da proporção, Verona conta que, se todas as veredas mapeadas acumularem a mesma quantidade média de carbono do que as áreas das amostras, as veredas do Cerrado, sozinhas, respondem por cerca de 20% de todo o carbono estocado pela biomassa da Amazônia. Contudo, são necessários mais estudos para que essa estimativa seja confirmada. Ainda segundo a pesquisadora, a ciência estima que as turfas de todo o mundo armazenam mais carbono do que toda a biomassa dos seres vivos – plantas e animais – combinada.

Amostra que confirma o acúmulo de carbono nas turfas
Amostra de turfa retirada na Chapada dos Veadeiros

Longevidade e sensibilidade

Amostra que confirma o acúmulo de carbono nas turfas
Amostra de turfa retirada na Chapada dos Veadeiros

A importância cronológica desse solo também foi posta à prova. Algumas das amostras foram enviadas ao Instituto Max Planck para análises biogeoquímicas, sob os cuidados de Susan Trumbore, uma das maiores especialistas mundiais em ciclos de carbono e datação por radiocarbono. As avaliações apontaram que o processo de formação das turfeiras estudadas começou há pelo menos 20 mil anos. “Trata-se de uma verdadeira cápsula do tempo geológico e climático”, escrevem os pesquisadores no artigo, notando que o sistema operou como um cofre silencioso, resistindo a milênios de variações climáticas.

Nem tudo é celebração, sobretudo diante de décadas de intervenções humanas no bioma. Através de análises de espectrometria de infravermelho (FT-IR), as veredas e campos úmidos do Cerrado foram comparados com outras turfeiras tropicais, e uma fragilidade alarmante foi descoberta.

Enquanto as turfeiras de florestas são ricas em lignina – composto fibroso e resistente, difícil de ser digerido pelas bactérias –, constatou-se que as do Cerrado produzem turfa a partir de gramíneas e ervas, material carregado de holocelulose, de fácil digestão para os microrganismos. Verona descreve as moléculas de holocelulose como um “algodão doce” para as bactérias do solo: uma fonte de energia fácil e instantânea.

Da esquerda para a direita, Paulo Bernardino, Larissa Verona, Guilherme Alencar, Natashi Pilon, Rafael Oliveira durante durante o trabalho de campo na Chapada dos Veadeiros:
Da esquerda para a direita, Paulo Bernardino, Larissa Verona, Guilherme Alencar, Natashi Pilon, Rafael Oliveira durante durante o trabalho de campo

O único motivo pelo qual esse estoque não foi consumido nos últimos milênios foi justamente o escudo de água que mantém os microrganismos dormentes por falta de oxigênio. Quando esse escudo baixa, mesmo que sazonalmente, as bactérias encontram o substrato ideal e o ciclo de decomposição se acelera.

As análises feitas a partir dos dados de fluxos de gases confirmam que essa “bomba-relógio” já dá sinais de ativação sazonal. Equipamentos instalados em campo mediram as emissões de dióxido de carbono (CO₂) e metano (CH₄) ao longo de um ano e revelaram que 70% das emissões anuais ocorrem durante a estação seca. Quando o lençol freático desce naturalmente por conta da estiagem, o oxigênio invade o solo, e as bactérias iniciam seu banquete frenético no alimento acumulado por 20 mil anos. O impacto é preocupante, especialmente em relação ao metano, que possui um potencial de aquecimento global muito superior ao CO₂.

A vulnerabilidade das veredas e dos campos úmidos é agravada por sua distribuição “dendrítica”, segundo Oliveira. Ao contrário de grandes extensões contínuas, como as turfeiras do Congo ou da Amazônia peruana, elas não se organizam em massas compactas, mas em áreas pequenas, fragmentadas e ramificadas que acompanham a rede de drenagem por todo o bioma. São finas tiras sinuosas que acompanham as nascentes e riachos de primeira ordem, espalhando-se pela paisagem como neurônios. Por serem longas e estreitas, estão em contato permanente com áreas de agricultura intensiva e são diretamente afetadas pelo uso da água ao seu redor.

À esquerda, pivôs de irrigação central retiram água do subsolo para manter enormes plantações de soja no Matopiba, na Bahia. (Marizilda Cruppe/Greenpeace); à direita Canal de irrigação que abastece sistema de pivô central para uma plantação de soja no Cerrado. (Victor Moriyama/Greenpeace Brasil)
À esquerda, pivôs de irrigação central retiram água do subsolo para manter enormes plantações de soja no Matopiba, na Bahia. (Marizilda Cruppe/Greenpeace); à direita Canal de irrigação que abastece sistema de pivô central para uma plantação de soja no Cerrado. (Victor Moriyama/Greenpeace Brasil)
À esquerda, pivôs de irrigação central retiram água do subsolo para manter enormes plantações de soja no Matopiba, na Bahia. (Marizilda Cruppe/Greenpeace); à direita Canal de irrigação que abastece sistema de pivô central para uma plantação de soja no Cerrado. (Victor Moriyama/Greenpeace Brasil)

Legislação e expansão agrícola

Apesar de sua importância e da existência de leis para proteger essas áreas, as veredas e campos úmidos enfrentam ameaças crescentes devido a mudanças no uso da terra, à drenagem de áreas úmidas, à expansão agrícola e à intensificação das secas associadas às mudanças climáticas. Esses distúrbios podem fazer com que os ecossistemas passem de importantes sumidouros de carbono a fontes de emissões, liberando para a atmosfera estoques acumulados ao longo de milhares de anos.

Quando propriedades vizinhas a essas áreas instalam pivôs centrais de irrigação que sugam grandes volumes dos lençóis freáticos, o nível da água de toda a bacia é rebaixado – explica a ecóloga –, fazendo com que as veredas e campos úmidos sequem debaixo do solo.

As descobertas abrem uma nova fronteira para a conservação. Para os pesquisadores, elas evidenciam os limites de uma visão historicamente “florestocêntrica”, que priorizou a Amazônia em detrimento das savanas e áreas úmidas abertas – e que resultou em décadas de negligência com o Cerrado, tanto científica quanto política. Proteger a vegetação visível das veredas sem proteger o regime hídrico da bacia ao redor é, segundo os estudiosos, uma proteção incompleta. “A gestão do território não pode ser apenas sobre plantas. A gestão da água e a gestão do carbono são, neste bioma, a mesmíssima coisa”, defende Oliveira.

A principal questão suscitada pelo estudo, que ainda demanda respostas, é também a mais urgente para os pesquisadores: ainda não se sabe quanto desse estoque já foi perdido. “O Cerrado está tão alterado que já percebemos no cotidiano as secas mais intensas, os rios com menos água, e não sabemos o quanto já perdemos desses ecossistemas. As evidências indicam que algo já foi perdido, mas a dimensão dessa perda ainda é uma pergunta sem resposta”, avalia o professor.

Confira artigo completo na revista New Phytologist.

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Pesquisa transforma o que antes era visto como uma paisagem sazonalmente seca em um cofre climático gigantesco
Pesquisa transforma o que antes era visto como uma paisagem sazonalmente seca em um cofre climático gigantesco (Foto: André Dib)

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Pesquisa transforma resíduo da indústria da batata em farinha sustentável

Por:raquel
9 de Março de 2026, 17:21

O que a água utilizada no processamento da batata tem a ver com a poluição de rios? A resposta está no amido liberado pelo tubérculo ao entrar em contato com o líquido durante as etapas industriais.

Sendo um dos alimentos mais consumidos no mundo, a batata possui uma produção em larga escala que exige volumes massivos de água, gerando um resíduo que pode causar danos ao meio ambiente.

Segundo Eric Keven Silva, professor e pesquisador da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp, o descarte inadequado desse efluente compromete a qualidade dos corpos d’água e dos lençóis freáticos.

“Esse material possui uma alta carga orgânica. Quando descartado sem tratamento, ele contribui para a redução do oxigênio na água, causando o desequilíbrio de ecossistemas aquáticos”, explica o docente do Departamento de Engenharia e Tecnologia de Alimentos.

Alternativa sustentável

Para enfrentar o problema, pesquisadores da FEA desenvolveram um processo capaz de recuperar o amido presente na chamada “água de batata”, transformando o resíduo em uma farinha rica em fibras.

“O ingrediente pode ser utilizado na produção de pães e bolos ou como espessante natural para molhos, ampliando as possibilidades de uso na indústria”, destaca Gabriela Milanezzi, doutoranda da FEA e responsável pelo estudo.

A proposta central da pesquisa é permitir que as próprias indústrias incorporem o reaproveitamento do resíduo em suas linhas de produção. A iniciativa não apenas reduz o desperdício de recursos, mas também agrega valor comercial a um material que, anteriormente, seria descartado apenas como efluente.

Confira mais detalhes na reportagem.

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Pesquisa aplica abordagem inovadora em estudo sobre terras raras em Poços de Caldas (MG)

Por:raquel
6 de Março de 2026, 16:19
Pesquisadores analisam caixa com os furos de sondagem do depósito
Pesquisadores analisam caixa com os furos de sondagem do depósito

Um grupo de pesquisadores do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp e do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) esteve em Poços de Caldas (MG) no final de fevereiro para uma atividade de campo em uma área que integra um dos maiores depósitos de elementos de terras raras (ETRs) do mundo – o depósito Caldeira, um maciço alcalino reconhecido internacionalmente por seu potencial mineral. Coordenada pelo docente do IG Diego Fernando Ducart, a atividade teve como objetivos a descrição geológica detalhada de furos de sondagem, a coleta sistemática de amostras, a aquisição de dados espectrais e geoquímicos com múltiplos equipamentos e a integração de dados com outras fontes.

“Os ETRs são essenciais para tecnologias de alta performance, incluindo baterias, turbinas eólicas, ímãs permanentes de alto desempenho, veículos elétricos, dispositivos eletrônicos e equipamentos médicos. Apesar do nome, muitos ETRs não são necessariamente raros na crosta terrestre, mas sua concentração em depósitos economicamente viáveis é incomum”, explica Ducart. No depósito Caldeira, os ETRs estão principalmente associados a argilas que passaram por modificação físico-química por ação da água, do oxigênio ou de ácidos orgânicos durante processos intensos de decomposição.

Diferentemente de muitos minerais metálicos, a caracterização correta dos ETRs exige técnicas analíticas avançadas. Tais elementos não são identificados a olho nu, nem mesmo com métodos tradicionais de campo, como a lupa de mão. Para superar esses desafios em Poços de Caldas, “a equipe utilizou equipamentos portáteis de última geração, capazes de gerar dados em tempo real diretamente nos testemunhos de sondagem”, segundo Ducart.

Medição fluorescencia de raios-x
Medição fluorescencia de raios-x
Rocha com elementos de terras raras
Rocha com elementos de terras raras
 medidas com espectrômetro de reflectância no VNIR-SWIR
 Medição com espectrômetro de reflectância

Foram utilizados um analisador de fluorescência de raios-X (pXRF, empregado para determinar a composição química de amostras), um espectrômetro de reflectância de alta resolução, cobrindo desde o espectro visível (VIS) até o infravermelho de ondas curtas (SWIR), e um espectrômetro FTIR, cobrindo o infravermelho termal (TIR) — fundamentais para identificar assinaturas espectrais características dos ETRs, além dos minerais com ETRs agregados. “A integração dessas técnicas hiperespectrais e ultraespectrais representa uma abordagem inovadora na prospecção mineral no Brasil, permitindo maior eficiência, redução de custos analíticos e geração de modelos mais robustos sobre os processos de formação do depósito”, explica o coordenador da atividade em Poços de Caldas.

Além de Ducart, participaram da atividade os docentes da Unicamp Carlos Roberto de Souza Filho, Alfredo Borges de Campos e David Jozef Cornelius Debruyne, o docente da UFRJ Claudio Gerheim Porto, o pesquisador da Unicamp Raphael Bianchi Hunger, os alunos de pós-graduação da Unicamp César Henrique Bezerra de Farias, Juan Felipe Galán, André Martins Leal, Anna Beatriz Gomes Tetzner e Pedro Henrique Hokama, e o aluno da UFRJ João Antônio Casado do Nascimento. “O número expressivo de pesquisadores envolvidos foi fundamental para garantir a cobertura completa dos pontos de amostragem, medição e análise”, explica o coordenador da atividade.

Equipe de pesquisadores da Unicamp e UFRJ que participou da atividade de campo
Equipe de pesquisadores da Unicamp e UFRJ que participou da atividade de campo

O estudo ocorreu no escopo de dois projetos de pesquisa de grande relevância científica: “The Rare Earth Supergene Caldeira System: From Ore Forming Processes to Recovery”, coordenado por Rodrigo de Melo, docente da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e financiado pela Agência para o Desenvolvimento e Inovação do Setor Mineral Brasileiro (ADIMB), e “Maximizing the Use of Hyper- and Ultra-Spectral Techniques for Prospecting Rare-Earth Elements in Brazil”, coordenado por Diego Ducart, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Segundo Ducart, “há atualmente diversos trabalhos de mestrado e doutorado em desenvolvimento no âmbito desses projetos, reforçando a formação de recursos humanos altamente qualificados em um tema estratégico para o Brasil”.

Ducart lembra que o estudo do depósito Caldeira contribui para compreender os processos geológicos de formação de depósitos de ETRs e aprimorar metodologias de prospecção mineral com base em técnicas espectrais avançadas, além de apoiar o desenvolvimento de cadeias produtivas ligadas à transição energética. Estudos como esse fundamentam a consolidação do protagonismo da Unicamp na área de pesquisa mineral estratégica. A iniciativa em Poços de Caldas “reforça a integração entre universidade, agências de fomento e setor produtivo, promovendo ciência de excelência com impacto direto no desenvolvimento tecnológico e econômico do país”, finaliza Ducart.

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Equipe descrevendo os testemunhos de sondagem do depósito
Equipe descrevendo os testemunhos de sondagem do depósito

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Cepagri desenvolve ferramenta que calcula emissões de carbono nas lavouras de café

Por:raquel
3 de Março de 2026, 15:04

Depois de aproximadamente três anos de trabalho, pesquisadores  do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), da Unicamp, concluíram o desenvolvimento de uma ferramenta capaz de calcular o balanço de emissões de carbono na cultura de café.

Acesse a ferramenta.

Num projeto em parceria com a Cooperativa dos Cafeicultores de Guaxupé (Cooxupé), no sul de Minas Gerais, o recurso permite contabilizar as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e o sequestro de carbono em todas as etapas da produção.

A partir da aplicação de insumos – fertilizantes usados no cultivo, queima de combustível para funcionamento de maquinário, processos de beneficiamento e outras atividades da cadeia produtiva – a solução faz a quantificação das emissões e do sequestro de GEE. Com esses dados disponíveis, o produtor poderá promover um manejo sustentável sem reduzir níveis de produtividade e rentabilidade, além de disputar o mercado interno e externo em melhores condições.

A pesquisadora do Cepagri Renata Gonçalves: primeiro destinado para a cafeicultura
A pesquisadora do Cepagri Renata Gonçalves: primeiro destinado para a cafeicultura

A pesquisadora do Cepagri e coordenadora do projeto Renata Gonçalves conta que há mais de 20 anos a organização global de pesquisa World Resources Institute (WRI) cria protocolos internacionalmente aceitos para o desenvolvimento de inventários corporativos de GEE. Denominados genericamente de GHG Protocol (“protocolo GEE”, em inglês), esses padrões definem as práticas internacionalmente aceitas para o desenvolvimento de inventários de GEE corporativos, de projetos ou de produtos.

Nos últimos anos, no entanto, tem crescido a demanda por diretrizes técnicas voltadas para o setor agrícola. O modelo elaborado pelo Cepagri é o primeiro destinado especificamente para a cafeicultura.

A Cooxupé é hoje uma das associações mais importantes do setor na América Latina. Conta com aproximadamente 20 mil membros produtores. Segundo a associação, Minas Gerais é responsável por grande parte da safra nacional e, dessa produção, cerca de 50% é entregue pelo Sul de Minas. No total, o estado tem uma área cultivada superior a 1 milhão de hectares. De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), 99% desse espaço é voltado à produção do café arábica, para o qual a ferramenta do Cepagri foi desenvolvida.

O pesquisador João Paulo da Silva, que integra a equipe de desenvolvedores, diz que a principal preocupação no processo de adaptação da ferramenta para o café foi a busca pela identificação mais precisa dos efeitos da atividade no carbono estocado no solo.

“Isso demandou um trabalho bastante importante de coletas de dados específicos, como a coleta de amostra no campo em diferentes extratos das propriedades de café”, explica Silva.

João Paulo da Silva, da equipe de desenvolvedores: coletas de dados específicos
João Paulo da Silva, da equipe de desenvolvedores: coletas de dados específicos

“Depois, tivemos de submeter essas amostras a análises laboratoriais para entendermos a dinâmica desse carbono no solo em diferentes situações; em extratos de um cafezal, pontos relacionados ao relevo e em diferentes idades da planta”, conta ele.

Em seguida, o grupo fez o cruzamento de dados levantados nas propriedades com o banco de dados que a Cooxupé havia construído ao longo dos anos. Segundo Silva, a cooperativa dispõe de grande volume de dados sobre análise de solo e, a partir disso, foi possível estabelecer uma taxa de variação do carbono no solo.

Necessidade

Renata Gonçalves conta que o projeto de desenvolvimento da ferramenta integra o programa da Cooxupé denominado Protocolo de Sustentabilidade Gerações, que visa promover boas práticas agrícolas tendo como metas a sustentabilidade econômica, social e ambiental.

Gonçalves explica que muitos anos atrás, quando o Cepagri e a Embrapa começaram a trabalhar com o tema de mudanças climáticas, os pesquisadores alertaram que o café teria problemas com o aumento da temperatura. “Se a temperatura sobe muito, por exemplo, na época do florescimento, são grandes as chances de abortamento floral”, lembrou a pesquisadora.

Segundo ela, os eventos extremos, como calor extremo, granizo, geadas muito fortes ou secas prolongadas, têm ocorrido com maior frequência nessas áreas. Com isso, os produtores registraram grandes perdas nos últimos anos. “Foi aí que começaram a pensar em mudanças no manejo”, disse Gonçalves.

Cafeicultor durante colheita do café; parceria com a Cooxupé, no sul de Minas Gerais
Cafeicultor durante colheita do café; parceria com a Cooxupé, no sul de Minas Gerais

Além da questão ambiental, os produtores começaram a ter maior preocupação com a produção também pelo viés econômico. “As empresas compradoras, hoje, estão exigindo que a produção seja mais sustentável. Precisam que os produtores promovam mitigação de GEE para que possam continuar comprando e exportando o café”, revela.

Sabor

De acordo com os pesquisadores do Cepagri, o manejo sustentável das plantações de café tem potencial para, inclusive, impactar positivamente o sabor da bebida.

João Paulo da Silva lembra que a matéria orgânica tem uma função muito importante no comportamento do solo. É o elemento que, segundo ele, vai melhorar a capacidade de troca catiônica do solo – aumentando a quantidade de nutrientes disponíveis no solo para a planta absorver e utilizar em seus processos fisiológicos de crescimento e desenvolvimento de frutos.

Os eventos, como calor extremo, granizo, geadas muito fortes ou secas prolongadas, têm ocorrido com maior frequência nessas áreas
Os eventos, como calor extremo, granizo, geadas muito fortes ou secas prolongadas, têm ocorrido com maior frequência nessas áreas

“Se a gente tiver um solo com mais matéria orgânica, teremos menor necessidade de aplicação de adubo para a obtenção de uma bebida de mais qualidade. Com isso, a gente está reduzindo custo de produção e melhorando a qualidade da bebida”, disse o pesquisador.

“Desta técnica de diminuir a adubação e deixar mais matéria orgânica no solo é que vem a maioria dos cafés premiados deles”, finaliza Renata Gonçalves.

Multiplicadores

Os pesquisadores do Cepagri observam que a partir de agora haverá um trabalho de formação de multiplicadores. Técnicos vão ser treinados pela Associação para disseminar as funcionalidades da ferramenta junto aos produtores rurais.

Também participaram do projeto os pesquisadores do Cepagri, Priscila Coltri, Eduardo Assad, Jurandir Zullo Junior e Maria Leonor Lopes Assad.

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Os pesquisadores do Cepagri observam que a partir de agora haverá um trabalho de formação de multiplicadores
Os pesquisadores do Cepagri observam que a partir de agora haverá um trabalho de formação de multiplicadores

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Redução de jornada deve gerar 4,5 milhões de novos empregos, aponta estudo

Por:raquel
25 de Fevereiro de 2026, 17:21

A redução da jornada de trabalho de 44 para 36 horas semanais resultaria na criação de até 4,5 milhões de novos empregos e elevaria em cerca de 4% os níveis de produtividade no Brasil. Essas projeções constam de um levantamento realizado pela economista Marilane Teixeira, pesquisadora do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) do Instituto de Economia (IE) da Unicamp, e que integra um diagnóstico feito por especialistas para medir os impactos da medida na economia e no país.

Chamado de “Dossiê 6×1”, o documento conclui que o Brasil “está pronto para trabalhar menos”, contrariando projeções do mercado segundo as quais a mudança poderia provocar queda no produto interno bruto (PIB) e agravar os níveis de insolvência das empresas. O estudo rebate, ainda, a ideia de que o brasileiro trabalha menos que a média mundial.

O dossiê é composto por 37 artigos, escritos por 63 autores, entre professores, pesquisadores, membros do Judiciário, auditores fiscais do Trabalho e representantes sindicais. Também participaram da elaboração 18 pareceristas. O material está sendo publicado semanalmente de forma simultânea em 19 sites, incluindo o do IE.

Confira o dossiê publicado.

A pesquisadora do Cesit Marilane Teixeira: Brasil está pronto para trabalhar menos
A pesquisadora do Cesit Marilane Teixeira: Brasil está pronto para trabalhar menos

Realizado por pesquisadores do Cesit com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o estudo mostra que aproximadamente 21 milhões de trabalhadores do país cumprem jornada superior às 44 horas semanais previstas na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Indica também que 76,3% das pessoas ocupadas no Brasil têm jornadas superiores a 40 horas semanais, sendo que 58,7% de todos os empregados trabalham entre 40 e 44 horas semanais. Para a especialista, essas são evidências de que o brasileiro está entre os que mais trabalham no mundo.

Marilane Teixeira lembra que existem nichos de trabalhadores, em áreas como a educação, saúde, serviço público e indústria, com jornadas inferiores a 44 horas semanais, mas faz uma ressalva:

“Não é desse contingente que estamos falando. Existe uma parcela de 18% da força de trabalho que faz entre 45 horas e 49 horas semanais, ou 58,7% que fazem entre 40 e 44. Se a redução já é possível em vários segmentos, por que no comércio e serviços ela não pode ocorrer?”, questiona a professora.

O diagnóstico feito pela economista mostra, ainda, que cerca de 4,5 milhões de pessoas estão na chamada subocupação. “Elas gostariam de trabalhar mais, mas não encontram vaga de emprego”, diz.

“Além disso, temos um nível de informalidade muito alto, que, em geral, ultrapassa em muito as 44 horas. Há, ainda, os casos de horas extras. A partir das reformas trabalhistas de 2017, abriu-se a possibilidade de pagamento de horas extras com banco de horas, e não em remuneração”, lembra. “Esse argumento de que o Brasil já trabalha pouco, definitivamente, não serve”, afirma a economista.

Pessoas participam de ato em defesa do fim da jornada 6x1, em São Paulo (SP), 15/11/2024 (Foto: Letycia Bond/Agência Brasil)
Pessoas participam de ato em defesa do fim da jornada 6×1, em São Paulo (SP), 15/11/2024 (Foto: Letycia Bond/Agência Brasil)

 Jornada 6×1

A redução da jornada deverá ser votada no Congresso ainda neste semestre. Uma das propostas em tramitação proíbe a chamada escala 6×1 (um dia de descanso a cada seis de trabalho), substituindo-a pela 4×3 (quatro de trabalho e três de folga a cada semana). De acordo com o estudo, essa mudança atingiria diretamente 76 milhões de trabalhadores.

Caso a redução seja para 40 horas semanais, na escala 5×2 –como querem determinados setores do Congresso –,- ainda assim a alteração afetaria a vida de aproximadamente 45 milhões de trabalhadores. A última mudança nesse sentido ocorreu há quase 38 anos, com a Constituição de 1988, quando a jornada legal no Brasil caiu de 48 horas semanais para as atuais 44 horas.

O estudo avalia as repercussões da mudança de jornada no consumo das famílias, nas políticas públicas para redução de desigualdades entre raças e gêneros e nas taxas de adoecimento do trabalhador.

“Em 2024 tivemos meio milhão de afastamentos por doenças psicossociais em decorrência das condições desfavoráveis do ambiente de trabalho”, argumenta a professora. “E estamos falando do emprego formal. Não se trata da outra metade da classe trabalhadora que está no trabalho por conta própria ou na informalidade e que também está submetida a condições de trabalho extenuantes e estressantes”, diz ela.

“Portanto, o fim da escala 6×1, é um grito, um pedido de socorro. Esses trabalhadores querem viver além do trabalho e querem direito ao lazer”, advertiu.

Desoneração

A professora da Unicamp lembra que o setor empresarial, com muita frequência, recorre ao Estado brasileiro quando precisa enfrentar mudanças estruturais. Em geral, vai em busca de isenções, incentivos ou desonerações.

 “Isso é histórico. Faz parte do perfil da classe dominante do Brasil”, diz ela “Ela não quer ceder nem um milímetro sequer. Não quer perder absolutamente nada”, acrescenta.  “Mas o governo não tem de ceder em absolutamente nada, porque esse setor ganhou muito nas últimas décadas. O que temos de fazer agora é reverter esses ganhos justamente em benefício do trabalhador”, recomenda.

Segundo ela, reclamações e previsões pessimistas também aconteceram quando da implantação de políticas como a do salário mínimo, a instituição do 13º salário e outros temas que envolvem a luta por direitos trabalhistas, como o registro dos empregados domésticos.

Trabalhadores e movimentos sociais fazem manifestação pelo fim da escala de trabalho 6 x 1 e pela taxação dos super-ricos, na Praça XV, no Rio de Janeiro, em julho de 2025 (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil?
Trabalhadores e movimentos sociais fazem manifestação pelo fim da escala de trabalho 6 x 1 e pela taxação dos super-ricos, na Praça XV, no Rio de Janeiro, em julho de 2025 (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil?

País pronto

Para o grupo de economistas e pesquisadores, o Brasil está pronto para a redução da jornada. Teixeira lembra que a última mudança ocorreu justamente na década de 1980, em uma conjuntura muito mais desfavorável que a de hoje.

“Nos anos 80, a economia brasileira andava de ré. Foi uma década considerada perdida, com queda do PIB, taxa de desemprego alta, inflação elevada, dívida externa.  Do ponto de vista econômico, um desastre e, mesmo assim, se reduziu a jornada para 44 horas semanais”, pondera.

“Nem por isso as empresas quebraram, nem por isso gerou-se desemprego. Não há estudo que aponte que a redução da jornada para 44 horas semanais nos anos 80 implicou queda do PIB ou taxa de desemprego mais alta”, desafia.

“Então não vai ser agora, com avanços tecnológicos, num contexto de pleno emprego, com crescimento econômico e o nível de tecnologia que temos, que não vai ser possível no Brasil reduzir para 40 horas”, argumenta.

Ela lembra que a produtividade do trabalho cresceu a uma taxa média anual de 6,5% entre os anos 1990 e 2000. Isso se deu com investimentos em tecnologia, formação do trabalhador e reorganização das empresas.

Um outro fator chama a atenção da pesquisadora. “As pessoas já não querem mais trabalhar com jornadas tão extensas. Hoje, muitas empresas já estão usando a jornada 5×2 como atrativo”, disse ela.

A professora diz ser um erro imaginar que a redução vai provocar paralisia na economia.  “Eles (mercado) fizeram um cálculo como se a economia fosse paralisada durante três dias e funcionasse só em quatro, o que não é verdade”, argumenta.

Trabalhadores e movimentos sociais fazem manifestação pelo fim da escala de trabalho 6 x 1 e pela taxação dos super-ricos, na Praça XV, no Rio de Janeiro, em julho de 2025 (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)
Trabalhadores e movimentos sociais fazem manifestação pelo fim da escala de trabalho 6 x 1 e pela taxação dos super-ricos, na Praça XV, no Rio de Janeiro, em julho de 2025 (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

O que é a PEC 8/25

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 8/25 prevê a adoção da jornada semanal de quatro dias de trabalho, com  descanso. O texto acaba com a escala 6×1 (seis dias de trabalho e um de descanso) e limita a duração do trabalho normal a 36 horas semanais. Atualmente, a Constituição estabelece que a carga de trabalho será de até oito horas diárias e 44 horas semanais.

A proposta também faculta a compensação de horários e a redução de jornada, mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho.

A PEC 8/25 será analisada pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados quanto à sua legalidade, juridicidade e constitucionalidade. Se admitida, será examinada por uma comissão especial a ser criada, antes de ser votada em dois turnos pelo plenário.

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Projeto propõe pedagogia inovadora no ensino de lutas e artes marciais para crianças

Por:raquel
19 de Fevereiro de 2026, 15:52

O tatame como espaço de acolhimento a partir de uma pedagogia para o ensino de lutas mais inovadora, inclusiva e baseada no respeito mútuo. Este é o foco do projeto  “(Re)pensando os caminhos entre universidade e comunidade no campo das Lutas, Artes Marciais e Esportes de Combate: proposta de inovação no ensino de crianças baseada no Tactical Games Approach”, da Faculdade de Educação Física (FEF), aprovado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) dentro do programa “Primeiros Projetos”.

Com duração de três anos, o projeto de extensão terá concessão de bolsas para um pesquisador de pós-doutorado, dois mestrandos e dois bolsistas de iniciação científica. A maior parte dos recursos, de pouco mais de R$ 600 mil, será destinada à formação desses pesquisadores, explica o professor da FEF e coordenador do projeto, Luiz Gustavo Bonatto Rufino, que é faixa-preta de jiu-jitsu.

Uma das ações centrais será o oferecimento de um curso de extensão gratuito para treinadores e professores de lutas que atuam com crianças, independentemente da modalidade ou da formação em Educação Física. “Após essa formação inicial, os pesquisadores acompanharão esses profissionais em seus próprios contextos de atuação, como academias, clubes e projetos sociais, fortalecendo a relação entre universidade e comunidade”, destaca Rufino.

“O objetivo não é a Universidade dizer o que deve ser feito, mas construir junto”, completa o professor, que ressalta que o projeto prevê “escuta ativa dos treinadores, valorizando seus saberes e experiências”. A proposta é reunir representantes de modalidades — como judô, jiu-jitsu, karatê, boxe e esgrima, entre outras — para fomentar a troca de experiências.

O coordenador do projeto, Luiz Gustavo Bonatto Rufino e a professora Mariana Simões Pimentel Gomes: oferecimento de um curso de extensão gratuito para treinadores e professores de lutas que atuam com crianças
O coordenador do projeto, Luiz Gustavo Bonatto Rufino e a professora Mariana Simões Pimentel Gomes: ensino de lutas baseado no respeito mútuo

Também integrante do projeto, a professora de educação física adaptada Mariana Simões Pimentel Gomes, igualmente faixa-preta de jiu-jitsu, enfatiza que o objetivo é construir alternativas pedagógicas que ampliem o acesso, valorizem a diversidade corporal e promovam experiências mais significativas para as crianças. “A ideia partiu da constatação de que o ensino tradicional das modalidades de luta ainda é marcado por modelos conservadores, hierarquizados e pouco inclusivos, voltados majoritariamente a um perfil específico de praticante”, explica.

A professora destaca que sua trajetória pessoal influenciou diretamente essa abordagem. Filha de um faixa-preta de jiu-jitsu e irmã de uma pessoa com deficiência, ela relata que desde cedo percebeu como o ensino das lutas era direcionado apenas a determinados corpos. “Eu queria ensinar de outra forma, romper com a ideia de que a luta é só para um tipo de pessoa”, afirma. Essa inquietação levou à criação, ainda na graduação, da escolinha de lutas da FEF, um projeto de extensão voltado a crianças da comunidade.

Rufino ressalta que sua experiência pessoal com o jiu-jitsu também foi determinante para sua trajetória acadêmica. Ele conta que iniciou a prática ainda criança, após enfrentar dificuldades de comportamento na escola, e que a modalidade teve impacto direto em sua formação pessoal e profissional. “As lutas me levaram à Educação Física e à universidade”, relata.

Jogos e táticas

Entre os principais eixos do projeto está a busca por ressignificar o ensino baseado apenas na repetição técnica de golpes por abordagens que valorizem jogos, situações-problema e princípios táticos comuns às diferentes lutas. “A ideia é que crianças compreendam, desde cedo, aspectos como movimentação, percepção do outro e tomada de decisão”, continua Rufino.

“Geralmente, a criança aprende um movimento e o repete muitas vezes. Depois, na hora da luta, não sabe quando realizar, como se movimentar ou como reagir ao oponente”, ressalta. “A alternativa apresentada é começar pela lógica da luta: entender que o alvo é móvel e que, ao mesmo tempo em que se ataca, também se é alvo.”

Estudantes participam de aula de lutas na FEF; uma das ações centrais do projeto é o oferecimento de um curso de extensão gratuito para treinadores e professores de lutas que atuam com crianças
Estudantes participam de aula de lutas na FEF; uma das ações centrais do projeto é o oferecimento de um curso de extensão gratuito para treinadores e professores de lutas que atuam com crianças

Ao transpor princípios estruturais das lutas para jogos e situações pedagógicas, o projeto busca tornar o aprendizado mais significativo. A ideia é ensinar desde o início conexões e compreensões que, tradicionalmente, só seriam adquiridas muitos anos depois — muitas vezes, apenas na faixa-preta. “Queremos formar praticantes mais conscientes, mais completos e mais autônomos sobre o que estão fazendo”, afirma.

Os docentes também chamam atenção para o alto índice de evasão nas modalidades de luta. Embora muitas pessoas iniciem a prática, poucas permanecem até níveis mais avançados. Para eles, isso está diretamente relacionado a modelos pedagógicos excludentes. “A história que se conta é a de quem chegou à faixa-preta, mas pouco se fala de quem ficou pelo caminho”, observa o professor.

Mais do que desempenho competitivo, o foco está na formação humana. O trabalho enfatiza consciência corporal, autoestima e inclusão. “Todo corpo é potente — seja gordo, magro, alto, baixo, feminino ou masculino. O tatame pode ser um espaço de descoberta e transformação”, destaca Gomes.

A professora enfatiza ainda a necessidade de combater práticas de intimidação, assédio e exclusão, especialmente em relação a mulheres, pessoas LGBTQIA+ e pessoas com deficiência. “Ainda engatinhamos em muitas questões, especialmente de gênero e diversidade. Se você for a uma academia hoje, verá poucas mulheres proporcionalmente. E pessoas LGBTQIA+ muitas vezes não se sentem acolhidas. A luta precisa ser para todos — mas isso exige um olhar atento, não pode ser só discurso”, destaca.

“O tatame precisa ser um espaço de acolhimento, não de temor, assédio ou silenciamento. É possível aprender respeito sem medo. Nem todo mundo vai gostar de lutar, e está tudo bem. Mas todos devem ter o direito de experimentar e se sentir acolhidos”, completa.

Além da produção de artigos científicos, o projeto prevê a elaboração de um material didático voltado ao campo profissional. A expectativa é que esse material contribua para a continuidade das reflexões e das transformações propostas, mesmo após o término da pesquisa. “Publicamos muitos artigos, mas eles nem sempre chegam ao campo profissional. Por isso, o curso vai gerar um material didático em linguagem acessível, que permita interação com os profissionais. Queremos construir relações de diferentes formas e documentar isso para que outras pessoas possam continuar”, destaca a professora.

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Geólogo Álvaro Crósta recebe o título de professor emérito

Por:tote
13 de Fevereiro de 2026, 13:24
Álvaro Crósta emérito da Unicamp
Entre Fernando Coelho (2º a partir da esq.) e o reitor Paulo Cesar Montagner, Álvaro Crósta exibe título de professor emérito

O geólogo Álvaro Penteado Crósta foi homenageado nesta quinta-feira (12) ao receber o título de professor emérito da Unicamp. Aos 71 anos, natural de Ribeirão Preto (SP), o professor do Instituto de Geociências (IG) desde 1983 vem colecionando conquistas em sua área e não pretende parar tão cedo. “É emocionante. Dediquei mais de 40 anos à Universidade e agora recebo esta homenagem. Para um geocientista acostumado a medir o tempo em milhões ou bilhões de anos, as poucas décadas de uma carreira acadêmica podem parecer um breve piscar de olhos”, comentou. 

O reitor da Unicamp, Paulo Cesar Montagner, que presidiu a cerimônia, destacou a trajetória do homenageado. “Ser professor emérito é uma das mais altas distinções que um docente pode receber. É um ato de gratidão institucional. Mais do que uma distinção formal, é o reconhecimento institucional de uma contribuição que ultrapassa a sala de aula e se projeta na formação de pessoas e no fortalecimento da universidade”, afirmou.  

Título de emérito a Alvaro Crosta
O professor Álvaro Crósta: plena atividade
Título de emérito a Alvaro Crosta
O reitor Paulo Cesar Montagner: carreira de impacto internacional

“O professor Álvaro construiu uma carreira de grande impacto nacional e internacional. Formou mestres, doutores e pesquisadores que atuam no Brasil e no exterior, levando a marca da Unicamp, e também teve atuação destacada na vida administrativa, sempre com diálogo, equilíbrio, firmeza de princípios e defesa da universidade pública, gratuita e de qualidade”, completou o reitor. 

Crósta continua atuando como professor na graduação e na pós-graduação e fazendo pesquisas no IG. Em 2026, adiantou que já tem dois compromissos no exterior. “Estou dando continuidade a um projeto de estudo de crateras de impacto meteorítico, uma área à qual me dedico junto com grupos internacionais, e agora vou para um congresso na Escócia, porque estamos estudando crateras no fundo do mar. Tenho também uma ida à China em agosto para falar em um congresso de mineralogia”, contou. 

O professor destaca-se por seu pioneirismo nos estudos sobre geologia planetária. “Na graduação, implantei a disciplina de Introdução à Geologia Planetária, que é a única do Brasil. Nos países do Hemisfério Norte, por exemplo, já é uma disciplina comum no currículo, mas aqui não havia. Resolvi começar a oferecer a disciplina há cinco anos, e tem tido uma boa aceitação”, ressaltou. 

Crósta começou a se interessar por geologia ainda na adolescência. “Fui capturado pela imaginação de Julio Verne, Isaac Asimov, Arthur C. Clarke e outros autores de ficção científica. Talvez eu tenha escolhido estudar a geologia da Terra inspirado por eles, ao olhar para os astros e desejar compreender como os mundos são moldados. Ou, quem sabe, já estivesse predestinado à geologia por causa do meu sobrenome”, brinca.

O professor ressalta “o enorme privilégio de ser formado integralmente na escola pública, da pré-escola à pós-graduação”. Graduou-se na Universidade de São Paulo (USP) e fez seu mestrado no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). “Foi sob orientação do professor Gilberto Amaral, que me estimulou a investir no sensoriamento remoto por satélite como tecnologia inovadora para o levantamento de recursos naturais e o avanço do conhecimento geológico do Brasil.” 

Título de emérito a Alvaro Crosta
Cerimônia de entrega do título, realizada no auditório do Instituto de Geociências da Unicamp

Após o doutorado no Imperial College London, no Reino Unido, orientado pelo professor John Moore, com quem se relaciona até hoje, foi pesquisador-visitante no Laboratório de Propulsão da Nasa (EUA), na Universidade de Nevada (EUA), e também nas universidades de Viena (Áustria) e Humboldt (Alemanha), além de ter atuado como professor convidado do Instituto de Petróleo da Universidade Khalifa, nos Emirados Árabes Unidos.

“Ingressei na Unicamp em 1983, convidado pelo professor Bernardino Figueiredo. O Instituto de Geociências era pequeno, com estrutura limitada, mas havia enorme entusiasmo. Foi um período desafiador e, ao mesmo tempo, extremamente fértil em ideias, planejamento e construção coletiva”, lembrou. Na Unicamp, participou da implantação do Laboratório de Processamento de Informações Georreferenciadas (Lapig), do IG, que se tornou referência brasileira em pesquisas e aplicações em geoprocessamento, e ainda fundou um grupo de pesquisa em geotecnologia.

Crósta testemunhou o crescimento da Unicamp e trabalhou na gestão universitária, com os reitores Hermano Tavares e José Tadeu Jorge. “Tenho orgulho de ver a Unicamp ampliar o acesso e investir fortemente em permanência estudantil, garantindo que estudantes de diferentes origens possam não apenas ingressar, mas concluir sua formação”, completou. 

Título de emérito a Alvaro Crosta
O coordenador-geral da Unicamp, Fernando Coelho: excelência e compromisso

Fernando Coelho, coordenador-geral da Unicamp, destacou a atuação de Crósta na Unicamp. “Vejo algo que considero fundamental: a combinação entre excelência acadêmica e compromisso institucional. O professor Álvaro construiu uma carreira científica de alto nível e, ao mesmo tempo, dedicou-se à gestão universitária. Uma coisa não atrapalha a outra — pelo contrário, se complementam”, afirmou. 

Contribuição

O diretor do IG, Emilson Leite, destacou duas das muitas contribuições de Crósta para a área. “A primeira é o livro publicado em 1992 pela Editora da Unicamp, Processamento Digital de Imagens e Sensoriamento Remoto, obra que teve grande impacto na formação de alunos da área. Mesmo publicada em português, alcançou mais de 1.100 citações na literatura científica — um número extremamente expressivo para o campo das geociências”, afirmou. 

A segunda contribuição é o que a literatura internacional passou a chamar de “técnica Crósta”, apresentada em 1989, em uma conferência no Instituto de Pesquisas Ambientais de Michigan (EUA). “Trata-se de uma metodologia aplicada a imagens de satélite para identificar, por meio de análise espectral, zonas de alteração hidrotermal associadas a depósitos minerais de grande importância econômica”, explicou.

“Ver o nome de um pesquisador brasileiro associado a uma técnica amplamente citada internacionalmente é muito significativo, especialmente em um país que historicamente importou metodologias e tecnologias desenvolvidas no exterior. Ter uma contribuição reconhecida com identidade própria é motivo de grande orgulho para a ciência brasileira.”

Os professores Cleyton Carneiro, da Escola Politécnica da USP, e um dos muitos alunos de Crósta, e João Frederico da Costa Azevedo Meyer, do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (Imecc), padrinhos de Crósta, destacaram o homenageado. “É com enorme orgulho que agradeço, em nome de todos que formou, por sua trajetória, sua obra, sua humanidade e, sobretudo, sua luz. Que ela continue a percorrer o universo, inspirando e transformando”, declarou Carneiro.

“Tenho orgulho de dizer: Álvaro é um grande homem, um notável companheiro, um docente exemplar e um ser humano profundamente exigente consigo mesmo e generoso com os outros. É alguém de quem aprendemos ciência — e, sobretudo, humanidade”, completou Meyer. 

Ao apresentar o homenageado, o professor Luiz Carlos Dias, do Instituto de Química (IQ), destacou ainda o trabalho do geólogo na identificação e caracterização de crateras de impacto no Brasil. “É uma grande honra vê-lo reconhecido como professor emérito da Unicamp. Que esta homenagem reflita todo o respeito e admiração que sentimos por sua trajetória — tão impactante quanto as crateras que ajudou a descobrir.”

Confira a cerimônia

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Unicamp terá Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para discutir práticas solidárias e sustentáveis

Por:raquel
10 de Fevereiro de 2026, 11:56

Diante de um cenário de aprofundamento da desigualdade social e de ocorrências de tragédias naturais provenientes das alterações climáticas, um novo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) sediado na Unicamp, que começa a operar em março deste ano, pretende apresentar às gerações mais jovens alternativas de organização socioeconômica mais solidárias e sustentáveis, focadas no bem-estar social e na saúde ambiental. O Instituto também se propõe a fomentar a cidadania participativa e democrática por meio da criação de um aplicativo que permite a comunicação entre governo e cidadãos.

O Instituto de Informação para uma Economia Solidária e Sustentável (INE2S) está instalado no Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE), o primeiro e único Centro Interdisciplinar de Pesquisa da Unicamp a sediar um INCT. Os centros de pesquisa interdisciplinar da Unicamp são subordinados à Coordenadoria de Centros e Núcleos interdisciplinares de Pesquisa (Cocen), responsável hoje por 23 centros e núcleos.

O INE2S, que tem duração prevista de cinco anos, foi aprovado na última chamada do programa, realizada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) em 2024, cujos resultados foram divulgados em 2025. O Instituto foi contemplado com cerca de R$ 10 milhões em recursos.

O vice-coordenador do INCT, Alfredo Pereira (à esquerda), o vice-diretor do CLE Fábio Bertato e a coordenadora do INE2S Itala D'Ottaviano
O vice-coordenador do INCT, Alfredo Pereira (à esquerda), o vice-diretor do CLE Fábio Bertato e a coordenadora do INE2S Itala D’Ottaviano

A interdisciplinaridade é um dos pontos fortes da proposta, que apresenta características incomuns para um INCT. A ideia do projeto nasceu dentro de um grupo interdisciplinar que atua no CLE desde o final da década de 1980, o Grupo Interdisciplinar Auto-Organização, que trabalha temas como teoria de sistemas, auto-organização, informação e complexidade – sob o comando da professora Itala D’Ottaviano, coordenadora do novo INCT.

“Arriscamos duplamente [na apresentação da proposta], porque, além de ser um tema de ponta, uma novidade, também submetemos [a proposta] na área de filosofia – e a grande maioria dos INCT aprovada, em geral, está nas áreas de biológicas e de exatas”, explica D’Ottaviano, que celebra a aprovação do projeto com uma nota alta na seleção.

Outro diferencial é a abordagem extensionista do projeto, uma vez que prevê contato direto com a comunidade a partir da criação de núcleos em diferentes cidades. Até o momento, já existem nove núcleos organizados em Campinas, Botucatu, Marília, São Carlos, Limeira, Rondonópolis, Belém, Rio de Janeiro, Terra Indígena Canauanim e Bonfim (RR), além de outros em análise.

Esses grupos trabalharão diferentes temas em parceria com escolas locais, em especial com as turmas de ensino médio, aproveitando vocações regionais e as áreas de pesquisas dos participantes.

O público-alvo do projeto envolve desde comunidades indígenas, ribeirinhos, comunidades urbanas socialmente vulneráveis, entre outras. “Vamos abarcar várias áreas importantes que afetam questões sociais, de sustentabilidade, minorias, questões de gênero, preservação da vida senciente, desigualdade, questões de etnia e outras”, afirma D’Ottaviano.

O INE2S está instalado no Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência, o primeiro e único centro a sediar um INCT
O INE2S está instalado no Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência, o primeiro e único centro a sediar um INCT

Pesquisa-ação

O vice-coordenador do INE2S, Alfredo Pereira, que é docente da Universidade Estadual Paulista (Unesp), explica que a motivação é conscientizar os estudantes a respeito de novas perspectivas de empreendedorismo que não visem apenas o lucro e o ganho pessoal, incentivando-os a criar iniciativas de geração de emprego e renda e de auto-organização popular.

“Os jovens estão sem perspectivas. A humanidade vive duas crises. Uma delas é a desigualdade e a falta de oportunidades com a introdução da inteligência artificial. A outra é a ambiental, que gera a necessidade de mudarmos o modelo econômico e termos práticas mais sustentáveis”, argumenta Pereira.

Para o desenvolvimento do trabalho, o INCT planeja utilizar a metodologia da pesquisa-ação, que combina a investigação de um tema com o diálogo com a sociedade. “Estamos muito animados com a possibilidade de trazer a nossa expertise – que é mais teórica, mais ligada ao pensamento crítico, à complexidade – e fazer essa ponte com o concreto, a ação. E não tem ninguém que conhece melhor os problemas locais do que a comunidade, então essa troca é fundamental”, destaca Fábio Bertato, pesquisador, vice-diretor do CLE e tesoureiro do INE2S.

Bertato pontua, ainda, que essa ponte teoria-prática exige formação dos participantes. Nesse contexto, os envolvidos nos núcleos participarão anualmente de ações de capacitação ofertadas pelo Instituto, tanto presenciais quanto virtuais. O projeto conta, também, com verba para a disponibilização de 200 bolsas em diferentes níveis, podendo contemplar desde alunos do ensino médio, professores municipais até pós-doutorandos.

“O INCT estar sediado em um centro de pesquisa coaduna com os objetivos da Universidade de potencializar suas ações com a sociedade. Isso dá um grau ainda maior de institucionalidade para todo o processo”, destaca o secretário executivo do INCT, Marcelo Phaiffer.

Apesar de os institutos estarem instalados fisicamente em instituições brasileiras de excelência, os trabalhos são interconectados com várias regiões e pesquisadores. O INE2S é composto por cerca de 30 pesquisadores de diferentes instituições. Além do CLE, também da Unesp – Campi Marília e Botucatu; Universidade de São Paulo (USP); universidades federais de São Carlos (UFSCar), de Rondonópolis (URF, no Mato Grosso), do Pará (UFPA), de São João del Rei (UFSJ, MG), de Uberlândia (UFU), do Paraná (UFPR), do Mato Grosso do Sul (UFMS), de Minas Gerais (UFMG), da Paraíba (UFPB) e de Pernambuco (UFPE).

Além da interlocução direta com a juventude, o INCT também atuará na divulgação de informações via redes sociais
Além da interlocução direta com a juventude, o INCT também atuará na divulgação de informações via redes sociais

Cidadania

Além da interlocução direta com a juventude, o INCT também atuará na divulgação de informações via redes sociais. “Vamos agir circulando informações que mostrem essas possibilidades, a fim de incentivar as novas gerações a se tornarem empreendedoras, dentro do chamado empreendedorismo social”, esclarece Pereira.

Somado a isso, o docente destaca como um dos resultados principais do INCT a criação de um canal de comunicação “de baixo para cima” entre o povo e os governantes. Por meio de um aplicativo, a ser desenvolvido e vinculado ao sistema informatizado governamental, os cidadãos poderão enviar suas demandas e reinvindicações. Essas informações serão compiladas e organizadas em relatórios, com o auxílio da inteligência artificial, e encaminhadas para a esfera pública pertinente.

“Não existe, hoje, uma ferramenta para a população, continuamente, participar [da gestão pública] por meio das suas avaliações, sugestões e solicitações. Acreditamos que a inteligência artificial pode ser usada em prol da democracia. Essas informações fornecerão subsídios para que a sociedade possa cobrar condutas mais eficazes e eficientes dos governantes”, afirma Pereira.

Foto de capa:

Unicamp terá Insitituto Nacional de Ciência e Tecnologia para discurtir práticas solidárias e sustentáveis
O Instituto também se propõe a fomentar a cidadania participativa e democrática por meio da criação de um aplicativo que permite a comunicação entre governo e cidadãos

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Núcleo de Segurança Farmacêutica analisa fraudes em alimentos e eficácia de remédios

Por:raquel
5 de Fevereiro de 2026, 15:22

O Núcleo de Segurança Farmacêutica da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Unicamp reúne três laboratórios de alta complexidade em áreas distintas – análise de alimentos, genética e toxicologia – para darem suporte técnico aos órgãos públicos que fiscalizam a segurança de alimentos e remédios. O projeto começou a tomar forma em 2019, quando os professores da FCF Rodrigo Catharino, Patricia Moriel e José Luiz da Costa participaram de um edital do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP).

“Ficamos sabendo do edital a duas horas do prazo de encerramento, foi uma correria”, lembra Moriel. “Foi sem pretensão. A gente achou que não ia dar certo, mas era uma grande oportunidade que juntava várias linhas diferentes, e decidimos tentar”.

Os professores os professores da FCF, José Luiz da Costa (à esquerda), Patricia Moriel e Rodrigo Catharino: edital do Ministério da Justiça e Segurança Pública para compra de equipamentos
Os professores os professores da FCF, José Luiz da Costa (à esquerda), Patricia Moriel e Rodrigo Catharino: edital do Ministério da Justiça e Segurança Pública para compra de equipamentos

“Com as expertises diferentes de cada um, submetemos a proposta, que podia ter somente três parágrafos, apresentamos os orçamentos dos equipamentos que queríamos e que já tínhamos feito anteriormente, e deu certo”, continua Moriel.

“Não imaginávamos que o projeto seria aprovado”, diz Costa. “Costumo dizer que jogamos na loteria e ganhamos”, brinca Catharino.

Em 2020, em plena pandemia, os três receberam seus equipamentos e colocaram as máquinas para funcionar. O montante de R$ 9 milhões veio do Fundo de Defesa de Direitos Difusos (FDD), gerido pelo Ministério da Justiça, uma ferramenta financeira que concentra recursos de multas e condenações judiciais para financiar projetos.

Catharino, hoje coordenador do Núcleo, comanda um laboratório voltado à análise de alimentos, Moriel atua na área de genética, e Costa trabalha com toxicologia. Embora estejam localizados em espaços físicos distintos dentro da Unicamp, os três laboratórios compartilham o mesmo objetivo: atuar de forma integrada na promoção da segurança farmacêutica em prol da sociedade.

Os equipamentos para montagem do Núcleo chegaram em 2020, em plena pandemia
Os equipamentos para montagem do Núcleo chegaram em 2020, em plena pandemia
Os equipamentos para montagem do Núcleo chegaram em 2020, em plena pandemia
Os equipamentos para montagem do Núcleo chegaram em 2020, em plena pandemia
Os equipamentos para montagem do Núcleo chegaram em 2020, em plena pandemia

“Foi o nosso compromisso com o projeto aprovado: gerar um novo senso de estabilidade e segurança. Não é apenas fazer análises pontuais, mas criar um conceito que ajude as pessoas a se sentirem realmente seguras em relação aos produtos farmacêuticos que utilizam no dia a dia”, afirma Costa, que também coordena o Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox), localizado no Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp. “O Núcleo, portanto, funciona como um ‘fiel da balança’, garantindo suporte técnico.”

Moriel, por sua vez, destaca que nem todos os pacientes respondem da mesma forma a um medicamento e que reações adversas ou falta de eficácia podem estar relacionadas a fatores genéticos. “O trabalho do laboratório consiste em analisar genes ligados ao metabolismo de fármacos”, explica.

Já no laboratório coordenado por Catharino destacam-se equipamentos de alta resolução, que permitem identificar, em poucos minutos, a composição química de amostras extremamente complexas. “Esse tipo de análise nos permite identificar adulterações, fraudes e também valorizar produtos de pequenos produtores, ganhando impacto social e comprovando a qualidade e a autenticidade do que a agricultura social e ecológica hoje produz”, afirma. “Em muitos casos, trata-se de situações em que há suspeita de fraude ou adulteração, mas não existe outro laboratório público acessível para esse tipo de avaliação.”

O Laboratório de Farmácia Clínica, coordenado por Patrícia Moriel estuda os genes que estão relacionados com as enzimas
O Laboratório de Farmácia Clínica, coordenado por Patrícia Moriel, estuda os genes que estão relacionados com as enzimas

Análise farmacogênica

No Laboratório de Farmácia Clínica, Moriel explica que o objetivo é entender a razão de algumas pessoas responderem a certos medicamentos e outras não. “Buscamos respostas, e é aí que entra a genética”, diz. “Mas é claro que a genética não vai responder a tudo, porque quando uma pessoa tem uma reação adversa ou há inefetividade, são muitos fatores que estão ali embutidos, como interação medicamentosa, uma questão ambiental ou até mesmo estar tomando o remédio de maneira errada.”

“No laboratório, fazemos a análise farmacogenômica, que é estudar os genes que estão relacionados com as enzimas e os transportadores que metabolizam os fármacos. Com o projeto, ampliamos nossa capacidade de execução de testes com dois equipamentos, um PCR de tempo real e um sequenciador genético”, completa.

A partir de parcerias com o Hospital de Clínicas e outros hospitais públicos brasileiros, o projeto tem ampliado sua atuação. “Hoje, um dos nossos maiores problemas é que a farmacogenética conhecida vem da Europa e dos Estados Unidos. Mas nós somos muito diferentes geneticamente, somos uma população totalmente miscigenada. Nosso estudo ganha mais importância porque a gente está analisando usuários do SUS [Sistema Único de Saúde]”, completa. “Os dados gerados refletem a realidade da população brasileira, o que contribui para o avanço da chamada medicina personalizada no contexto nacional.”

Moriel cita ainda a implementação de testes farmacogenéticos no HC para pacientes em tratamento oncológico com medicamentos de alto risco. “Esses testes, hoje realizados de forma rotineira, ajudam a prevenir reações adversas graves e já beneficiaram centenas de pacientes, além de embasar teses de doutorado e outras pesquisas acadêmicas. Desde a implantação do laboratório, tivemos cinco teses de doutorado defendidas que usaram nossos equipamentos para pesquisas com pacientes. Então, se cada tese analisou de 100 a 150 pacientes, podemos calcular uma média de 800 pacientes já beneficiados”.

José Luiz Costa é responsável pelo Laboratório de Toxicologia Analítica, espaço de referência que atende órgãos públicos, empresas e a sociedade civil
O professor José Luiz Costa é responsável pelo Laboratório de Toxicologia Analítica, espaço de referência que atende órgãos públicos, empresas e a sociedade civil

Papel estratégico

No Laboratório de Toxicologia Analítica, Costa ressalta o papel estratégico do trabalho de análise. “Quando há um crime, a polícia faz a análise. Mas, quando existe apenas uma suspeita, uma dúvida ou uma necessidade do governo, muitas vezes não há um laboratório disponível para esse tipo de teste. Surgimos como esse espaço de referência, capaz de atender órgãos públicos, empresas e a sociedade civil”, explica o professor, que leciona as disciplinas de Toxicologia e Análises Toxicológicas na FCF.

Entre os trabalhos realizados recentemente, destacam-se as análises de metanol relacionadas aos casos de contaminação em bebidas alcoólicas registrados no ano passado. Esses exames foram feitos no próprio laboratório, utilizando equipamentos específicos de alta complexidade. “Os casos diminuíram após a retirada dos estoques contaminados, mas ainda existe preocupação com novos surtos, especialmente em períodos como o Carnaval, quando há maior consumo de bebidas alcoólicas. Situações semelhantes já ocorreram no Natal, como o surto registrado na Bahia”, lembra. O laboratório recebe amostras regularmente da Secretaria de Saúde do estado de São Paulo, que envia materiais para análise de metanol duas vezes por semana.

O laboratório conta com um equipamento de cromatografia líquida de alta eficiência (HPLC), muito usado no controle de qualidade farmacêutico. “As amostras, como comprimidos, são diluídas e inseridas em frascos específicos antes de serem injetadas no equipamento para análise. Esse tipo de sistema é semelhante ao utilizado na indústria farmacêutica, mas em menor escala”, explica.

No Laboratório Innovare de Biomarcadores, de responsabilidade de Rodrigo Catharino, as análises incluem café, maionese, carne, óleos, metanol e outros produtos
No Laboratório Innovare de Biomarcadores, de responsabilidade de Rodrigo Catharino, as análises incluem café, maionese, carne, óleos, metanol e outros produtos

Relevância na saúde pública

No Laboratório Innovare de Biomarcadores, Catharino destaca que as tecnologias são capazes de separar e caracterizar substâncias em níveis de precisão raramente disponíveis fora de grandes centros de pesquisa. As aplicações e análises realizadas são diversas e incluem itens como café, maionese, cogumelos, carne, óleos, metanol em bebidas, suplementos alimentares e outros produtos, totalizando mais de 23.000 análises em 50 projetos diferentes em poucos anos.

“Em um país com histórico recente de problemas envolvendo bebidas contaminadas com metanol, suplementos adulterados e alimentos fraudados, o trabalho do Núcleo ganha relevância não apenas para a saúde pública, mas também para a economia. Quando uma commodity como o café é adulterada e vendida a preços muito baixos, isso impacta diretamente a imagem e a competitividade do produto brasileiro no mercado internacional”, afirma.

Muitas análises são motivadas por questões que emergem no debate social ou ganham destaque na imprensa. “Casos de suplementos que não contêm o que prometem no rótulo, medicamentos vendidos como naturais, mas que escondem fármacos sintéticos em sua composição, e alimentos adulterados fazem parte das investigações e, em alguns casos, os resultados servem de subsídio para alertas às autoridades e órgãos de fiscalização”, afirma.

“Apoiados pelo conceito de segurança, conseguimos obter informações importantes de cosméticos, bebidas e vírus, por exemplo, dispondo da inteligência artificial em nossos desenvolvimentos e culminando na criação de sensores à base de grafeno em parcerias. Assim se desenvolve o núcleo de segurança, com um olhar que se baseia nas tecnologias analíticas de ponta, para o desenvolvimento e criação de novos conceitos e produtos que geram segurança social no futuro”, completa.

Os serviços prestados pelo Núcleo variam conforme a complexidade da análise, o tipo de amostra e a demanda envolvida
Os serviços prestados pelo Núcleo variam conforme a complexidade da análise, o tipo de amostra e a demanda envolvida

Ampliação do acesso

Os serviços prestados pelo Núcleo variam conforme a complexidade da análise, o tipo de amostra e a demanda envolvida. Algumas avaliações são rápidas, enquanto outras exigem mais tempo, preparo e alto custo tecnológico. Ainda assim, a proposta é ampliar o acesso e tornar o Núcleo mais conhecido pela comunidade.

Além da consolidação institucional, entre os próximos passos do Núcleo estão a criação de um site e a ampliação das parcerias com outros setores da Unicamp, da indústria e do poder público. Uma segunda fase do projeto está prevista até o fim de 2026, com a ampliação das atividades e do alcance das ações.

Foto de capa:

Núcleo reúne três laboratórios de alta complexidade para darem suporte técnico aos órgãos públicos que fiscalizam a segurança de alimentos e remédios
O Núcleo reúne três laboratórios de alta complexidade para darem suporte técnico aos órgãos públicos que fiscalizam a segurança de alimentos e remédios

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Deserto avança no Nordeste brasileiro, aponta mapeamento desenvolvido em doutorado

Por:raquel
4 de Fevereiro de 2026, 16:31

O fenômeno da desertificação vem avançando no Brasil, principalmente nos estados do Nordeste. Novas áreas têm apresentado um risco potencial para o crescimento do fenômeno, em função das mudanças climáticas e da intensificação das ações humanas no manejo do solo. É o que aponta a pesquisa de doutorado desenvolvida no Instituto de Geociências (IG) da Unicamp por Mariana de Oliveira.

Oliveira estudou o fenômeno da desertificação como membro do grupo de pesquisas coordenado pelo professor Marcos César Ferreira, do IG. O grupo cria modelos de risco para detecção e análise de problemas ambientais e vem observando como os fenômenos climáticos afetam solos, vegetação e recursos hídricos. 

O estudo, realizado durante o doutorado de Oliveira, criou um modelo de risco da desertificação nas condições geográficas brasileiras, utilizando o método de regressão logística,  com base em dados empíricos, mapas e imagens de satélite. Foi mapeada a probabilidade de ocorrência da desertificação a partir de cinco variáveis geográficas de risco (temperatura terrestre, manejo do solo, vegetação, média de chuvas e densidade populacional).  A pesquisa identificou uma provável nova mancha do fenômeno em uma área ainda não mapeada no Ceará e novas áreas de risco à desertificação no estado do Ceará.

Para Flávio Rodrigues do Nascimento, coordenador do Departamento de Combate à Desertificação do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), a metodologia desenvolvida no estudo contribui para o monitoramento das áreas degradadas e para o diagnóstico mais preciso daquelas mais suscetíveis ao avanço da desertificação.

Assista ao programa Vida em Pesquisa:

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