Unicamp cria Rede de Microscopia e inaugura equipamento para pesquisas avançadas


Integrar unidades de pesquisa, equipamentos e especialistas, ampliando a eficiência no uso de recursos públicos e fortalecendo a produção científica em benefício da sociedade. Esses são os pilares da recém-criada Rede de Microscopia da Unicamp (RMU). Em paralelo, a Universidade apresenta nesta sexta-feira (12) o seu novo microscópio eletrônico de transmissão de alta resolução – iniciativa que recebeu R$ 15 milhões da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Desse total, R$ 13,3 milhões foram destinados à compra do microscópio. O restante, R$ 1,7 milhão, foi utilizado na adaptação da infraestrutura necessária para sua instalação.
O equipamento – modelo Jem F200 Cold Feg, de 3,4 metros de altura e 1,7 toneladas –, foi obtido graças ao esforço conjunto de várias unidades da Unicamp e da Pró-Reitoria de Pesquisa, que foi coordenado pelo professor Rubens Caram Jr., da Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM). A aquisição é resultado de uma trajetória iniciada ainda na década de 2010, marcada por vários insucessos na busca de recursos, que agora se concretiza a partir de uma iniciativa do corpo de pesquisadores e da diretoria do Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW), por meio de várias gestões – dos diretores Pascoal Pagliuso, Mônica Cotta e Marcos Oliveira.
A proposta vitoriosa reuniu aproximadamente 50 docentes e pesquisadores de 11 unidades: os já mencionados IFGW, “instituição-sede”, e FEM; o Instituto de Química (IQ), o Centro de Componentes Semicondutores (CCSNano), a Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA), a Faculdade de Ciências Médicas (FCM), a Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC), a Faculdade de Engenharia Química (FEQ), a Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP), o Instituto de Biologia (IB) e o Instituto de Geociências (IG). Integram a equipe especialistas em microscopia eletrônica avançada, entre eles o professor Daniel Ugarte, coordenador técnico-científico do projeto, e o professor Diego Muraca, ambos do IFGW.
O microscópio está instalado no Laboratório Multiusuário de Microscopia Eletrônica (LM2E), em um prédio do IFGW que passou por uma ampla reforma. Uma das etapas mais complexas foi a construção de uma base especial de concreto, com cerca de um metro de profundidade, destinada a reduzir vibrações que poderiam comprometer as imagens geradas.
“A estruturação de espaços multiusuários de pesquisa, como a Rede de Microscopia da Unicamp, representa uma iniciativa estratégica da Universidade para ampliar o acesso à infraestrutura científica e aumentar sua visibilidade junto à comunidade acadêmica e aos parceiros externos. A criação e o fortalecimento desses espaços vêm sendo incentivados pela PRP, uma vez que o sucesso dessas iniciativas pode contribuir para o desenvolvimento de modelos sustentáveis de custeio, manutenção e renovação do parque instrumental da Universidade”, afirma Ana Frattini, pró-reitora de Pesquisa.

Para a professora do IQ Daniela Zanchet, que também atua como coordenadora da RMU, a criação do grupo e a incorporação do novo microscópio representam um importante avanço para a infraestrutura de pesquisa da Unicamp, ampliando as possibilidades de investigação científica multiusuária e fortalecendo a excelência acadêmica.
“O conceito de rede vai além da praticidade. Diante do aumento dos custos e da sofisticação dos equipamentos científicos, compartilhar infraestrutura tornou-se uma necessidade para garantir o melhor aproveitamento dos investimentos realizados em pesquisa”, aponta Zanchet. “A microscopia exige não apenas equipamentos de alto valor, mas também profissionais altamente qualificados para operá-los e interpretar os resultados. Nem sempre quem precisa do equipamento sabe onde ele está disponível, e nem sempre os recursos são utilizados da forma mais otimizada possível quando se olha para a Universidade como um todo”, comenta a coordenadora.
Ainda de acordo com Zanchet, a troca de experiências entre especialistas de diferentes áreas é um dos principais ganhos da iniciativa. A RMU reúne pesquisadores e técnicos de campos diversos, como biologia, física, geociências, química, engenharia e odontologia, criando oportunidades para novas colaborações e soluções inovadoras.
“A ciência ganha muito quando compartilhamos diferentes expertises. Temos pesquisadores trabalhando com diferentes tipos de materiais, como polímeros, catalisadores, rochas, ligas metálicas, materiais biológicos, entre outros. Essa interação amplia nossa capacidade de enfrentar problemas complexos e encontrar soluções que talvez não surgissem dentro de uma única unidade”, afirma.
Além dos benefícios para a pesquisa, Zanchet destaca que a sociedade também é diretamente favorecida. Para ela, a integração dos equipamentos permite otimizar o uso dos recursos públicos, aumentando a eficiência da infraestrutura existente e acelerando a geração de conhecimento. “A sociedade investe na universidade e espera resultados. Precisamos mostrar que estamos utilizando esses recursos da forma mais responsável possível. As redes permitem justamente isso: conectar as pessoas certas aos equipamentos mais adequados, promovendo mais eficiência e melhores resultados”, diz.

Formação
Para Mônica Cotta, ex-diretora do IFGW e pró-reitora de Graduação da Unicamp, o fato de a RMU reunir informações sobre os microscópios disponíveis, seus recursos e formas de agendamento pode acabar com a subutilização de estruturas de alto custo e propiciar o fortalecimento da formação de estudantes e pesquisadores. A ampliação na capacidade de formação de recursos humanos qualificados em técnicas de microscopia eletrônica é uma das metas da RMU. “Isso representa uma mudança cultural. As principais universidades do país possuem centros ou redes de microscopia avançada, mas a Unicamp ainda não contava com um microscópio eletrônico de transmissão desse porte”, ressalta. “A RMU pode servir de modelo para futuras iniciativas de integração de infraestrutura científica na Universidade, ampliando a cooperação entre áreas de pesquisa e fortalecendo a capacidade da Unicamp de planejar novos investimentos estratégicos em equipamentos de grande porte”, diz.
A estratégia já apresenta resultados concretos. Além do microscópio eletrônico de transmissão em instalação, a articulação entre diferentes unidades da Unicamp contribuiu para a aprovação de uma nova iniciativa, desta vez, pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Serão cerca de R$ 7 milhões para a aquisição de um segundo microscópio eletrônico. O novo instrumento é considerado um “microscópio de entrada”, necessário para atender rapidamente ao grande volume de análises rotineiras de alta resolução espacial (nanométrica) nas diversas áreas do conhecimento da comunidade da Unicamp e da região. O equipamento também ampliará o alcance na formação de recursos humanos qualificados.
Zanchet afirma que a expectativa é ampliar ainda mais a infraestrutura da RMU nos próximos anos, com novos projetos voltados para áreas específicas como materiais biológicos e metalurgia. “O objetivo é consolidar um planejamento de médio e longo prazo para a microscopia na Unicamp e, futuramente, contribuir para a construção de redes em escala estadual e nacional”, conta.


Comunidade acadêmica
Coordenador do projeto que tornou realidade a instalação do microscópio eletrônico de transmissão de alta resolução, Caram ressalta que a aquisição desse microscópio atende a uma demanda antiga da comunidade científica da Unicamp. O equipamento, considerado uma das “joias” da Universidade, também permitirá avanços em áreas como ciência dos materiais, nanotecnologia, semicondutores, metalurgia e saúde. Submetido em 2022 no âmbito do edital de Equipamentos Multiusuários da Fapesp, o projeto foi um dos maiores aprovados pela Fundação. Após um processo de seleção de fornecedores e de tramitação da compra, o equipamento foi entregue em setembro de 2025 e ainda passa por etapas de instalação e testes.
Embora a Universidade já possua diversos microscópios eletrônicos de varredura distribuídos em diferentes unidades, faltava um equipamento de transmissão de última geração, tecnologia considerada essencial para análises mais avançadas. “Isso representa uma mudança de patamar na qualidade das investigações científicas realizadas na Universidade. Até então, muitos grupos dependiam de equipamentos localizados em outras instituições, em São Carlos ou Belo Horizonte, por exemplo. Em alguns casos, estudantes e pesquisadores precisavam viajar centenas de quilômetros para realizar análises necessárias para projetos e publicações científicas. Com a chegada do novo microscópio, a expectativa é ampliar a autonomia da Unicamp e acelerar o desenvolvimento de pesquisas estratégicas”, explica Caram.
Concluída a instalação, os testes finais e o treinamento no novo microscópio continuarão nos próximos meses. “A expectativa é que, gradualmente, toda a comunidade acadêmica da Universidade possa acessar a nova estrutura, considerada uma das mais avançadas do país para investigação científica em escala atômica”, garante o professor.
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