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Parceria entre botos e pescadores para captura de peixes vira patrimônio imaterial do Brasil

16 de Março de 2026, 14:22

A tradicional pesca cooperativa entre pescadores artesanais e botos no Sul do Brasil foi reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A prática reúne conhecimentos tradicionais, relações ecológicas e modos de vida transmitidos entre gerações nas comunidades pesqueiras. 

Na pesca cooperativa, os botos cercam cardumes de tainha próximos à margem do canal e sinalizam o momento adequado para que os pescadores lancem as redes. A estratégia permite a captura de parte dos peixes pelos pescadores, enquanto outra parcela permanece disponível para os próprios golfinhos. A prática ocorre em áreas de encontro entre águas doces e salgadas, principalmente na foz do Rio Tramandaí, no litoral norte do Rio Grande do Sul, e no complexo lagunar da região de Laguna. 

O Projeto Botos da Barra do Rio Tramandaí , do Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos (Ceclimar) da UFRGS, sempre buscou a valorização dessa prática tradicional, a partir da pesca cooperativa como patrimônio cultural e ecológico, contribuindo para a subsistência das comunidades pesqueiras artesanais e para a preservação dos botos que habitam a região.  A proposta analisada pelo Iphan se baseia também em décadas de investigação que integram os saberes das comunidades locais e resgatam um histórico de atuação científica de diversos grupos de pesquisa e extensão como o Laboratório de Mamíferos Aquáticos (Lamaq), Laboratório de Ecologia e Etnobotânica (ECOHE), Núcleo de Dinâmicas Urbanas e Patrimônio Cultura, e Coletivo de Estudos em Ambientes, Percepções e Práticas (CANOA), todos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Laboratório de Zoologia (LabZoo), da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) , Projeto Botos do Araranguá, Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC) e o projeto Gephyreus, que reúne pesquisadores e pesquisadores de diversas universidades do sul do Brasil, Uruguai e Argentina. A iniciativa conta também com a participação das entidades representativas dos pescadores artesanais e de seu conhecimento tradicional: a Pastoral dos Pescadores e Pescadoras Regional Sul (CPP-Sul), o Movimento Boto Vivo de Laguna, o Fórum da Pesca do Complexo Lagunar Sul de Santa Catarina, o Sindicato dos Pescadores de Tramandaí, a Colônia de Pescadores de Tramandaí Z-39, a Colônia de Pescadores de Imbé Z-40 e o Fórum da Pesca do Litoral Norte do Rio Grande do Sul.

Segundo parecer técnico apresentado pelo conselheiro Bernardo Issa, do  Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA),  o reconhecimento se justifica pela profundidade histórica da prática, pela complexidade socioecológica e pelo valor simbólico e afetivo para as comunidades envolvidas. O documento também destaca que o registro amplia a compreensão de patrimônio cultural ao considerar relações que ultrapassam o universo exclusivamente humano. De acordo com o Iphan, a pesca cooperativa não envolve animais anônimos ou genéricos: muitos botos são reconhecidos individualmente pelos pescadores e identificados por nomes próprios. Além disso, o comportamento também é transmitido entre gerações de golfinhos, formando uma relação singular de aprendizado social entre humanos e animais.

Foto: Ceclimar UFRGS

O presidente do Iphan, Leandro Grass, ressaltou o caráter inédito do reconhecimento, marcado pela integração de perspectivas sociais, ambientais e biossociais.” É um chamado, uma convocação a um pensamento holístico, sistêmico, sustentabilista acerca do Patrimônio Cultural e, principalmente, comprometido com esse momento da história em que a humanidade precisa tomar uma decisão se vamos nos destruir ou se vamos permitir àqueles que ainda não nasceram viver dignamente”. 

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