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CAIO – O novo Cargo Estratégico nas Empresas

21 de Novembro de 2025, 11:40

Chief Artificial Intelligence Officer

Em um passado não tão distante, as iniciativas de Inteligência Artificial (IA) nas empresas costumavam estar restritas somente aos departamentos de TI, muitas vezes isoladas do planejamento estratégico e desconectadas das reais necessidades dos negócios.

O resultado? Projetos fragmentados, com pouco impacto e difícil escalabilidade dentro das organizações.

Por esta razão, e com o avanço acelerado da IA generativa e a crescente pressão competitiva, tornou-se evidente a necessidade de uma liderança dedicada, capaz de integrar a IA de forma transversal em toda a organização.

Foi nesse cenário que surgiu o cargo Chief AI Officer (CAIO), ou, em português, “diretor de Inteligência Artificial”.

Segundo uma pesquisa da Iron Mountain de 2024, 98% das lideranças empresariais acreditam que um(a) CAIO pode acelerar significativamente a adoção da IA generativa em seus negócios.

Porém, somente 32% das empresas que participaram da pesquisa tinham alguém no cargo de diretoria de IA.

Ainda assim, esses dados refletem uma mudança clara de mentalidade: para competir em um mercado moldado por dados, algoritmos e automação inteligente, é essencial contar com uma liderança C-Level que tenha uma visão de negócios e expertise tecnológica.

Para conferir mais informações sobre o que é a diretoria de Inteligência Artificial, como CAIOs podem impactar diferentes nichos de empresas, quais são seus desafios, além de conferir como organizações podem ajudar as lideranças internas a alcançarem esse cargo, continue a leitura deste artigo.
O que faz um Chief AI Officer?

Chief AI Officer (CAIO) é a pessoa executiva responsável por liderar a estratégia de Inteligência Artificial de uma organização, garantindo que as iniciativas de IA estejam alinhadas aos objetivos de negócio e entreguem valor real aos setores.

Ou seja, seu papel vai muito além do domínio técnico em Inteligência Artificial — esse tipo de profissional atua como um elo entre a tecnologia e a visão estratégica da empresa.

Chief AI Officer: funções e responsabilidades
Entre as principais funções de um(a) CAIO dentro de empresas, destacam-se as responsabilidades de:

  • definir e implementar a estratégia de IA corporativa, garantindo que os investimentos em tecnologia estejam alinhados aos objetivos de longo prazo da organização;
  • liderar a integração da IA em processos críticos de negócio, como atendimento ao cliente, marketing, operações industriais e desenvolvimento de produtos;
  • estabelecer a governança da IA, o que inclui políticas de uso responsável e ético, privacidade de dados e conformidade com regulamentações;
  • promover uma cultura orientada por dados e inovação, por exemplo, ao capacitar equipes e incentivar a experimentação com novas tecnologias;
  • avaliar e selecionar as melhores soluções com IA e ferramentas parceiras, como plataformas de IA generativa e infraestrutura de dados;
  • mensurar o impacto e o ROI dos projetos de IA, garantindo que cada iniciativa esteja conectada a resultados mensuráveis para o negócio.

Desafios do cargo CAIO
Apesar de sua crescente importância, o papel do cargo Chief AI Officer está longe de ser simples. Por ser uma posição nova e ainda em consolidação, CAIOs enfrentam uma série de desafios únicos — tanto técnicos quanto estratégicos — que exigem uma visão ampla, resiliência e habilidades multidisciplinares. Listamos alguns dos principais desafios do cargo abaixo.

1. Falta de maturidade organizacional em IA: muitas empresas ainda estão nos estágios iniciais da adoção da IA, com estruturas de dados desorganizadas, baixa automação e pouco entendimento interno sobre o potencial da tecnologia.

2. Necessidade de integração transversal: o(a) diretor(a) de IA precisa garantir que a IA seja aplicada de forma eficaz em diferentes departamentos, para projetos isolados que não se comunicam entre si.
3. Dificuldade em demonstrar ROI no curto prazo: projetos de IA, muitas vezes, exigem tempo e investimentos significativos antes de apresentarem resultados claros. Isso exige paciência dos stakeholders e habilidades do(a) profissional CAIO para comunicar valor à alta gestão em cada fase do processo.

4. Falta de talentos qualificados: a escassez de profissionais com experiência prática em IA, machine learning e engenharia de dados dificulta a formação de equipes de alto nível para tocar os projetos estratégicos da área. Afinal, a diretoria de IA precisa de um setor qualificado para as soluções serem executadas.

5. Governança, ética e regulação: gestores e gestoras também são responsáveis por garantir que os sistemas de IA operem de forma ética, justa e em conformidade com legislações, como a LGPD, e futuras regulamentações globais. Isso inclui prevenir vieses algorítmicos e proteger os dados sensíveis, por exemplo.

6. Alinhamento com a alta liderança: o sucesso de um(a) CAIO depende da sua capacidade de influenciar decisões na gestão C-Level. Isso exige habilidades de comunicação, pensamento estratégico e entendimento profundo do negócio, além da fluência técnica.

Com base nesses desafios, o cargo Chief AI Officer se torna um dos mais complexos (e também um dos mais promissores) na nova era da transformação digital.

Isso porque não se trata somente de implantar tecnologias, mas de reimaginar processos, produtos e decisões sob a lente da Inteligência Artificial.

Para líderes que desejam ocupar a posição de diretor ou diretora de Inteligência Artificial, é essencial desenvolver um conjunto de habilidades que combinam conhecimento técnico, visão estratégica e capacidades de gestão. Entenda melhor a seguir.

1. Visão estratégica de negócios
A liderança CAIO deve alinhar as iniciativas de Inteligência Artificial com os objetivos estratégicos da empresa, como identificar oportunidades nas quais a IA pode gerar valor significativo e sustentável.

2. Conhecimento técnico em IA
Embora não seja necessário ser uma pessoa expert em codificação, é importante ser especialista em IA, além de ter alto conhecimento em outros fundamentos, incluindo machine learning, processamento de linguagem natural e análise de dados.

Isso é essencial para tomar decisões informadas e liderar equipes técnicas. Por isso, cursos, faculdades, MBAs e outras formações nessas áreas são bem-vindas.

3. Habilidades de liderança e gestão de mudanças
Implementar IA em uma organização frequentemente requer mudanças culturais e operacionais. Por este motivo, o(a) CAIO deve ser capaz de liderar essas transformações, além de capacitar as equipes e gerenciar resistências internas.

4. Ética e governança em IA
CAIOs devem estabelecer diretrizes claras para o uso responsável da IA. Assim, como consequência, garantir que as soluções de IA sejam implementadas de forma ética e em conformidade com as regulamentações existentes e as que estão por vir.

5. Comunicação eficaz
Traduzir conceitos técnicos complexos em linguagem acessível para diferentes stakeholders e setores é uma habilidade essencial para que o(a) CAIO comunique os benefícios e riscos da IA nas empresas de forma convincente e clara.

Quais empresas podem se beneficiar com profissionais CAIOs?
Agora que as pessoas líderes que desejam se tornar CAIOs conhecem os principais fundamentos do cargo, é importante ficar claro para as organizações que esse novo tipo de profissão não deve ser valorizada somente por big techs ou empresas de tecnologia.

Na verdade, qualquer organização que deseja adotar a Inteligência Artificial de maneira estratégica, escalável e ética pode (e deve) considerar esse cargo como parte de sua estrutura de liderança.

Inclusive, Lan Guan, Chief AI Officer da Accenture, enfatizou essa ideia em uma entrevista:

“Ter um Chief AI Officer deve se tornar um papel padrão para que as organizações possam aproveitar efetivamente o potencial da IA.”

Para ficar mais claro, a seguir, confira alguns exemplos de empresas e segmentos que podem se beneficiar diretamente dessa função.

Indústrias de consumo e varejo: o(a) profissional pode ajudar a otimizar cadeias de suprimento, prever demandas, personalizar ofertas e automatizar o atendimento ao cliente.
Instituições financeiras: profissionais CAIOs podem conduzir iniciativas estratégicas que aplicam IA, como análise de crédito, detecção de fraudes, algoritmos de investimento e atendimento automatizado.

Saúde e farmácia: CAIOs podem usar a IA para diagnósticos assistidos, análises preditivas, gestão de prontuários e aceleração de pesquisas clínicas.
Telecomunicações e mídia: atividades como personalização de conteúdo, automação de redes e análise em tempo real do comportamento das pessoas consumidoras podem ser realizadas por tais profissionais.

Em resumo, empresas que já possuem uma base de dados relevante, enfrentam pressão por inovação ou lidam com alto volume de operações podem se beneficiar imensamente com a atuação de um(a) CAIO.

Como empresas podem ajudar uma liderança a se tornar um(a) CAIO?
É extremamente válido ressaltar que as empresas, como as que citamos acima, podem (e devem) ajudar a preparar uma liderança para assumir o cargo de Chief AI Officer, caso a organização veja potencial em um talento interno.

Isso porque, além de investir no crescimento profissional de uma pessoa colaboradora da própria empresa, esse(a) profissional já possui conhecimentos internos que podem ser usados para o aprendizado ser mais alinhado às metas da organização.

Mas, como as empresas devem começar essa iniciativa? Quais os principais passos a serem seguidos? Abaixo, veja algumas formas práticas de promover o desenvolvimento de um(a) CAIO.

1° passo: criar um ambiente favorável à experimentação
Estimule a cultura do test and learn, que permite que áreas lideradas por CAIOs experimentem novas possibilidades com IA sem medo de falhas, desde que os aprendizados sejam documentados e compartilhados.

2° passo: incentivar o pensamento interdisciplinar
A futura pessoa CAIO deve ser capaz de atuar em diferentes áreas de um negócio. Por isso, oferecer experiências que envolvam outros times e setores, como marketing, finanças e RH, ajuda a construir uma visão sistêmica mais ampla para este cargo.

3° passo: expor lideranças a projetos reais de IA
Complementando o passo anterior, ao criar oportunidades para que executivos e executivas de IA participem da concepção, implementação e avaliação de projetos de outros setores, é possível que essas pessoas entendam os desafios práticos da empresa e ganhem experiência para encontrar soluções em IA mais assertivas.

4° passo: desenvolver skills e investir em capacitação contínua
Por fim, o sucesso de um(a) CAIO também depende de sua capacidade de influenciar os times, dialogar com stakeholders e liderar mudanças culturais.

Diante disso, oferecer mentorias com pessoas gestoras seniores, coaching executivo(a) e oportunidades de fala em fóruns e eventos estratégicos são caminhos para fortalecer essas habilidades.

Além disso, promover treinamentos em IA, machine learning, governança de dados e tecnologias emergentes é importante para que esse tipo de profissional sempre se atualize das novidades do mercado.

Parcerias com universidades, como programas de MBA in Company, cursos online de alto nível e programas de certificação podem acelerar esse processo.

Ter uma parceria para traçar a estratégia educacional do seu time pode ajudar a construir trilhas de aprendizado personalizadas, que vão ao encontro das necessidades tecnológicas da sua empresa.

Fonte: Alura

IA Melhor que Cérebro? Nao!

29 de Julho de 2025, 10:53

Cientista paulistano é um dos mais importantes do Brasil. Nicolelis estuda maneiras de criar uma conexão entre cérebro e máquina.

Em tempos de discussão sobre inteligência artificial (IA) e chips cerebrais capazes de devolver os movimentos a pacientes com doenças incapacitantes, o neurocientista Miguel Nicolelis é uma das vozes mais importantes do mundo sobre o assunto.

Nicolelis foi o primeiro brasileiro a ter um artigo publicado na capa da revista Science e chefiou por anos o Centro de Neuroengenharia da Universidade de Duke, uma das mais prestigiadas dos Estados Unidos. Nicolelis estuda, desde os anos 1990, uma maneira de criar uma conexão entre o cérebro humano e máquinas para ajudar na reabilitação de pacientes com dificuldades motoras.

Agora, o cientista se prepara para abrir um novo polo neurocientífico de pesquisa e atendimento em Milão, na Itália. Em entrevista ao Metrópoles, ele fala sobre o futuro da inteligência artificial, o desenvolvimento da interface cérebro-máquina, o Neurolink de Elon Musk e o que podemos esperar da neurociência nos próximos anos. Confira:

Leia a íntegra da entrevista com o neurocientista Miguel Nicolelis:

Hoje, Metrópoles entrevista o neurocientista Miguel Nicolelis. Ele é fundador e presidente do Instituto, que leva o seu nome e faz pesquisas sobre a interface cérebro-máquina. Olá doutor, tudo bom? O senhor acaba de criar um novo centro neurocientífico em Milão, na Itália, que tem aí uma grande promessa para os próximos anos. Você pode detalhar pra gente o que vai ser pesquisado?

Na realidade, é uma parceria com o Hospital São Raffaele, que é o maior hospital privado da Itália, com o novo instituto que eu criei aqui no Brasil e que também tem sede nos Estados Unidos, para se estabelecer um verdadeiro polo de pesquisa e atendimento na área de neurociências. Na realidade, o nome é polo de neurotecnologia, porque nós não só vamos atender pacientes, mas nós vamos desenvolver novos protocolos de tratamento, implementar e desenvolver novas tecnologias e basicamente inaugurar essa rede mundial que estou montando de centros de excelência espalhados pelo mundo para levar as terapias que criei nos últimos 30 anos, usando essa invenção nossa da conexão direta do cérebro com a máquina para tratar pacientes que não têm acesso a tratamento hoje em dia.

Há alguns anos, temos visto anúncios surpreendentes sobre a interface cérebro-máquina, como, por exemplo, a sua pesquisa sobre o uso de exoesqueletos. São pesquisas feitas na Universidade da Califórnia, Universidade de Stanford. Quando esse tipo de tecnologia será oferecida a mais pacientes que passam por lesões cerebrais?

Veja, na realidade, a interface cérebro-máquina foi inventada em 99. São 25 anos exatamente esse ano que eu e o John Chapin, meu grande amigo, publicamos o primeiro trabalho demonstrando que isso era possível. E o nosso intuito na época da Copa do Mundo, dez anos atrás, no Brasil, quando a gente fez a demonstração, a primeira demonstração pública para o mundo todo, de uma interface ser máquina em seres humanos que pode ser vista para um grande público. O intuito era já transferir boa parte dessas terapias, invenções e tecnologias aqui no Brasil para o Sistema Único de Saúde. Esse era o objetivo final do projeto da Copa.

Ninguém ficou sabendo porque o Brasil entrou num cataclisma e nós não tivemos chance de nem divulgar essa ideia. E agora? Essa é uma das ideias que eu quero desenvolver com essa nova rede, não só no Brasil, mas em outros países do mundo que possuem sistemas públicos de saúde.

A ideia é disseminar essas terapias porque as pessoas veem esses anúncios de uma universidade americana aqui, de uma outra empresa ali, mas a imprensa, infelizmente, não explica que isso está acontecendo há 25 anos e que esses são só os últimos capítulos de algo que já foi implementado há muito tempo, só que são implementações em um paciente aqui, um paciente ali. E nós queremos fazer isso em grande escala.

Nós estamos, inclusive, trabalhando na análise de dados de um grande teste clínico com muitos pacientes, muito mais do que os anúncios que nós temos visto, com uma interface não invasiva. E isso é muito importante ressaltar. Não há nenhuma intervenção cirúrgica na nossa abordagem.

Então, eu acredito que com a criação desse polo na Europa e outros que vão surgir, nós vamos poder transferir isso para o grande público, para os pacientes que estão precisando disso. É uma questão de anos, dois, três anos. Nós vamos começar a ver isso escalar.

O senhor tem sido um crítico com relação à inteligência artificial, porque muita gente fala que vai superar a mente humana em muito. Eu queria saber, na sua opinião, em quais campos o conhecimento da máquina ele é bem-vindo ou atrapalha e quais são os limites dela?

Veja, os métodos estatísticos e de análise de dados, de mineração de dados como o pessoal fala hoje em dia, apesar de eu não gostar desses termos porque eles tiram da pessoa comum a chance de entender o que realmente é tudo isso, são métodos muito úteis. Eu uso esses métodos desde os anos 1990. Acho que o nosso laboratório foi o primeiro a mostrar que redes neurais artificiais podiam ser usadas para analisar os dados que vinham do cérebro de animais.

E nós publicamos isso nos anos 1990 e foi um trabalho de muita repercussão. Então, no ponto de vista de análise estatística de dados, seja qual for a fonte de dados, em medicina, engenharia, em jornalismo, é extremamente útil, não há dúvida alguma, porque estatística é extremamente útil. O que eu bato é de frente há muitos anos e com essa criação de expectativas falsas de que o cérebro humano pode ser superado ou copiado em sistemas de computadores usando lógica digital.

Isso é uma impossibilidade científica, matemática e até física, porque o cérebro não funciona como um computador. Ele não é uma máquina digital. E nós aprendemos de uma maneira completamente diferente de um sistema computacional. E a nossa inteligência não é transferível para uma fórmula matemática. Senão, imagina se tudo fosse transferido para um algoritmo, uma forma matemática? Já tinha gente ganhando fortunas na bolsa de valores, mas ninguém consegue prever o movimento da bolsa de valores, assim como ninguém consegue prever ou formular e criar um algoritmo que defina a inteligência humana.

Então, é onde a minha crítica reside. É essa tentativa de vender gato por lebre que a gente vê todos os dias na televisão. A tentativa de diminuir a nossa condição humana, de nos fazer sentir secundários ou subservientes às máquinas que nós criamos. Por isso, eu digo que a inteligência artificial não é nem inteligente nem artificial.

Ela não é inteligente porque inteligência é uma propriedade dos seres vivos que surgiu durante o processo de interação com o ambiente, com outros seres vivos. É uma propriedade emergente da natureza e não é artificial, porque são seres humanos que criam todos esses algoritmos e todas essas máquinas, entendeu? Elas não caem do céu, não surgem do chão. Nós passamos a acreditar na ficção científica que nós mesmos descrevemos e esquecemos que é ficção. Não é realidade.

A neurociência de Elon Musk também está tentando avançar nas pesquisas da interface cérebro-máquina. Recentemente, eles até anunciaram que um paciente conseguiu mover um mouse com apenas com a força do pensamento. Quais são os limites desses chips cerebrais? E por que o senhor considera que o Musk faz “ficção científica de péssima qualidade”, como o senhor já disse?

Então, veja bem, eu inventei o implante que ele está usando como aluno de pós doutorado de 1989 a 1994. Junto com esse meu amigo John Chapin, inventei a cirurgia e o implante que eles estão fazendo e os eletrodos, e eu publiquei dezenas de trabalhos científicos nos últimos 25 anos ou 30 anos com esses tipos de implante em animais.

E foram três alunos meus que saíram do meu laboratório para criar o Neurolink. Então três alunos de doutorado, um de graduação e dois do doutorado. Então eu sei exatamente como funciona. Fui eu que criei. E o que eu digo é que, primeiro, o anúncio do Elon Musk é um tweet. Não tem dado, não tem imagem, não tem nenhuma comprovação científica.

É o que ele anuncia, o paciente mexeu com o cursor de computador, nós e outros grupos fizemos há 20 anos isso. A primeira demonstração foi em 2004 e foi publicada antes de anunciar para imprensa. Nem havia Twitter nem redes sociais naquela época. Nós publicamos. Foi capa do maior jornal de neurocirurgia americano e depois foi anunciado. E outras empresas fizeram isso ao longo dos últimos 20 anos.

Então não tem novidade nenhuma. Por isso que eu digo, quando esse senhor propõe que vamos implantar adolescentes para que eles joguem videogame com mais eficiência, é um total absurdo, porque os implantes cerebrais são feitos para pessoas que têm doenças do sistema nervoso central, do cérebro, e não há nenhuma entidade médica nem nenhuma agência regulatória médica do mundo que vai permitir que pessoas sadias sofram um implante cerebral que tem um risco de infectar, um risco de sangrar, um risco de parar de funcionar.

E se parar de funcionar, a gente faz o quê? Porque não dá para tirar. Porque se você tirar vem tecido sadio do cérebro junto com um implante porque ele gruda no cérebro depois que fica implantado vários meses, então, na realidade, esse senhor tem só o objetivo de ganhar dinheiro. Ele não entende absolutamente nada, nem de medicina, nem de neurociência.

E ele fala toda sorte de pataquada, que nós estamos criando telepatia, que nós vamos melhorar a inteligência do ser humano. Isso é uma impossibilidade matemática. Nunca ninguém cogitou algo assim, de usar uma interface cérebro-máquina, para melhorar. Não é o filme Matrix, que o Neo sentava lá e ele aprendia karatê, kung fu, instantaneamente.

O senhor Musk deve ter assistido muito filme do Matrix, muita ficção científica. E acha que porque ele tem bilhões, ele é capaz de usar o dinheiro para desafiar as leis da física. Mas nem o Rei Midas seria capaz de fazer isso.

Hoje, a melhor aplicação para isso seria para quais pacientes, por exemplo?

Então, nós começamos com pacientes com lesão medular, pacientes paraplégicos. Demonstramos que o uso por vários meses leva não só à melhoria das condições de vida e mobilidade, mas a uma recuperação neurológica parcial que nunca havia sido vista na literatura de dezenas, centenas de papers, por décadas. Ninguém nunca tinha visto uma recuperação parcial de pacientes que têm uma lesão grave, a lesão mais grave que você pode ter.

Isso foi demonstrado em pacientes paraplégicos e logo a gente começou a pensar. Agora em Milão, nós vamos conseguir implementar essa teoria para outros pacientes, para pacientes com derrame, que era um número absurdo de mais de 250 milhões de pessoas no mundo sofrem com as consequências de derrames, acidentes vasculares. Nós temos também uma nova terapia para uma condição na doença de Parkinson, que é quando a pessoa congela, ela não consegue andar, o congelamento da marcha.

Temos estudos demonstrando que essa mesma abordagem poderia ser usada para epilepsia crônica, não tratável e que não responde a medicamentos. E nós estamos ampliando. Vamos criar vários estudos clínicos para aplicar esse mesmo protocolo que nós usamos aqui no Brasil durante a Copa do Mundo, que agora se espalhou pelo mundo, o protocolo de neuroreabilitação, para outras doenças, não só neurológicas, mas também psiquiátricas.

A Organização Mundial da Saúde vem relatando há anos, mesmo antes da pandemia, ela já estimava que mais de 1 bilhão de pessoas no mundo sofrem com doenças do cérebro — agora, recentemente, no final do ano passado, ela atualizou esse número para quase 2 bilhões . Devido a pandemia de Covid, muitas pessoas estão tendo sequelas no cérebro devido a reflexões repetidas do Covid.

Então, existe uma demanda gigantesca e quase um em cada quatro seres humanos tem algum problema do cérebro. E é por isso que nós precisamos de métodos seguros, eficazes e que sejam acessíveis. Não adianta você desenvolver algo que custa 1 milhão de dólares, ninguém vai ter acesso a isso.

E o meu grande sonho é que, eventualmente, em um país como o Brasil, que tem um sistema público de saúde, o governo do país possa adquirir essas tecnologias e oferecer gratuitamente para os pacientes, que no Brasil se estima que estejam na ordem de 20 milhões de pessoas, quase 10% da população.

Para as pessoas que não estão acostumadas com neurociência, com todos os avanços científicos, parece uma coisa muito distante. E o senhor está pesquisando isso há 30 anos. A gente está vendo a pesquisa bastante acelerada agora — para a gente, pelo menos. Dá para estimar quando que esse tipo de tratamento chegaria a um paciente com Parkinson, com lesão medular, com esclerose múltipla, por exemplo?

Então, o nosso centro em Milão, basicamente, o hospital tem doenças de alvo, porque a população italiana tem um grande índice dessas patologias. Derrame, ele é um hospital referência na Europa e na Itália, e esclerose múltipla, para você ter uma ideia, que eu nunca imaginei que nós vamos chegar a aplicar essas terapias para esses pacientes. Então, vai depender muito também, não só dos cientistas, vai depender dos governos, dos sistemas de saúde, de como a gente consegue preencher todos os requisitos necessários para que essas terapias novas sejam disseminadas.

Por isso eu digo que a nossa grande vantagem nessa iniciativa, que eu chamo de treat one billion, tratar 1 bilhão de pessoas, que é o projeto e a Itália é o primeiro membro fora do Brasil. A nossa grande vantagem é que nós não precisamos de nenhuma intervenção cirúrgica, e isso facilita demais a aprovação de protocolos para tratar pacientes.

Sem a necessidade de implantar nada na cabeça, na medula espinal, enfim, você reduz a burocracia para aprovar essas terapias para uso em grande escala, sendo não invasiva e não tendo nenhum efeito colateral demonstrado depois de 20 anos de prática, você tem uma chance muito maior de introduzir isso rapidamente no sistema médico de um país.

E como que funciona na prática o seu projeto falando dessa intervenção cirúrgica? Como que ele atua para ter essa resposta?

Então, existem várias técnicas para registrar atividade elétrica do cérebro. Nós usamos uma que foi criada há um tempão, mais de um século, mas ela foi aperfeiçoada. É como se fosse uma touquinha de nadador, que tem sensores que são aplicados na superfície do couro cabeludo e chama-se eletroencefalografia. É uma técnica muito conhecida, existe em todos os hospitais do mundo, mas ela permite que você registre a atividade do cérebro e use esses sinais para controlar qualquer tipo de artefato mecânico virtual ou computacional.

E foi assim que a gente criou para a Copa do Mundo aqui no Brasil, um esqueleto de membros inferiores, um robô oco de membros inferiores, que permitia que o paciente imaginasse que ele queria andar. E ao imaginar, a gente detectava esse sinal do cérebro, decodificava ele usando computadores, que hoje foram reduzidos a um telefone celular, o nosso de última geração permite tudo isso acontecendo só com telefone celular, que lê os sinais do cérebro e manda os comandos para esse exoesqueleto.

E quando o esqueleto faz o paciente andar, porque ele literalmente carrega o paciente, ele devolve sinais para as áreas do corpo do paciente onde ele ainda tem sensibilidade, por exemplo, os braços. E dessa forma, o paciente sente o solo, ele consegue sentir a textura do chão quando ele está andando e isso facilita demais a recuperação do paciente, porque ele tem a nítida sensação que ele está caminhando e o cérebro dele incorpora o exo como se fosse uma parte do corpo dele.

Ou seja, o paciente tem a percepção não que ele está usando um robô, mas que é ele que está andando de novo. E eu acho que esse é o grande pulo do gato que ninguém ainda conseguiu fazer e que nós reproduzimos agora, não só no Brasil, mas fora do Brasil, nesse estudo que nós estamos analisando os dados nesse momento.

Então nós temos uma casuística agora muito grande, muito maior do que qualquer outra, outro grupo ou qualquer outra empresa. Você vê, os relatos sempre são um paciente que fez isso, um paciente fez aquilo. Não, não. Nós vamos mostrar dezenas de pacientes para que a validação estatística possa ser feita. E, curiosamente, algumas das análises desses dados são feitas com essa estatística chamada de inteligência artificial, que nós estamos usando para analisar os dados dos pacientes.

E esse mesmo projeto da Itália, ele vai se expandir para outros países, tem possibilidades de ele vir para o Brasil também?

Ah sim, nós vamos anunciar isso em breve. E o nosso parceiro brasileiro, acho que em mais umas duas ou três semanas a gente vai ter condição de anunciar e também parceiros espalhados pelo mundo, porque o meu projeto, o meu plano inicial, é que nós tenhamos polos em todos os continentes do planeta. Ou seja, centros hospitalares ou institutos de pesquisa, universidades que sejam parceiras do projeto, a nível mundial.

Ou seja, cada continente do mundo terá um hub, um polo responsável pela mesma coisa que nós vamos fazer em Milão, né?

E só pra finalizar, durante a pandemia da Covid-19, o senhor se destacou na mídia como um crítico ao negacionismo tanto do presidente Jair Bolsonaro quanto de alguns médicos. Na sua avaliação, de lá pra cá, o interesse pela ciência avançou, caminhou na sociedade, ou ainda tem muita desinformação que precisa ser contornada?

Eu acho que para as pessoas que usam o que a gente tem entre as orelhas, ele avançou dramaticamente porque foi a ciência que nos tirou da fase mais crítica dessa enrascada. Não fosse o desenvolvimento de vacinas em tempo recorde, em um ano, nós não estaríamos aqui numa situação um pouco melhor. Apesar de que a pandemia não acabou.

Ninguém fala isso, mas a pandemia continua. Ela continua em outros níveis e ainda existe sim algum grau de negacionismo. É uma falta de ação política muito grande mundo afora. No mundo, em todo lugar, a pandemia foi posta debaixo do tapete e sumiu do noticiário. Apesar que hoje, por exemplo, aqui no Brasil, ela mata mais do que a dengue que está tendo uma epidemia aqui no Brasil, mas ela sumiu da agenda política e da agenda midiática.

Mas eu acho que nunca a ciência mundial e os cientistas puderam mostrar para a sociedade como um todo no planeta todo, quão fundamental para o mundo e para cada país a ciência é. Porque numa situação de vida ou morte, ela claramente respondeu e respondeu, por exemplo, o nosso comitê aqui do Nordeste, que trabalhou anos na pandemia, eu fiquei um ano no comitê como coordenador, não tinha nenhum orçamento para trabalhar, enquanto os comitês científicos do mundo afora tinham milhões por dia para realizar suas funções. E ainda assim nós conseguimos.

Claro que a relação causal ainda não é difícil de estabelecer, mas o Nordeste, que era para ser uma das regiões piores de mortalidade do Brasil na pandemia, foi a melhor. Então a ciência teve clara participação na parte positiva da pandemia que foi o salvar de milhões de vidas. Mas tem muita coisa pra ser feita, porque o diálogo de cientistas com políticos não importa o espectro ideológico, é muito difícil, porque os políticos têm outros objetivos diferentes do cientista. E esse diálogo é bem, bem complicado.

Tá bom, doutor, foi um prazer recebê-lo. A gente tentou conversar durante a pandemia, mas também naquela loucura de agenda, prazer finalmente falar com o senhor. E eu espero saber em breve sobre esse projeto que vem para o Brasil.

Pode deixar.
Muito obrigado! Foi um prazer.

Publicado originalmente em Metrópoles

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