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Inovação não é marketing, é competitividade

22 de Junho de 2026, 20:30

Inovação virou uma palavra confortável demais. Cabe em pitch, em campanha, em manifesto institucional. Mas, quando tudo passa a ser “inovador”, quase nada de fato é. O resultado é uma distorção perigosa: confunde-se narrativa com estrutura, e marketing com competitividade.

O problema é que inovação não é um atributo comunicável, é um deslocamento econômico real. Um estudo recente do NBER sobre transformação estrutural da economia mostra justamente isso: a inovação não apenas acontece dentro de setores, ela migra entre eles ao longo do tempo. 

A economia não inova de forma homogênea. Ela reorganiza seus centros de criação de valor, historicamente saindo da indústria e avançando em direção aos serviços e às atividades intensivas em conhecimento. Esse deslocamento não é cosmético. Ele redefine produtividade, crescimento e, principalmente, quem lidera os mercados em cada ciclo.

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Isso muda uma premissa importante: inovação não é o que uma empresa diz sobre si mesma, mas o lugar que ela ocupa dentro dessa reorganização estrutural. Em outras palavras, não se trata de parecer inovadora, mas de estar posicionada onde a inovação está acontecendo e, mais ainda, onde ela está migrando.

É aqui que o discurso corporativo costuma falhar. Muitas empresas tratam inovação como uma camada de marketing adicionada ao modelo existente, quando na prática ela deveria ser o próprio mecanismo de reinvenção do modelo. O resultado é uma ilusão de movimento: produtos “novos” que não alteram estruturas, iniciativas “digitais” que não mudam produtividade, estratégias “disruptivas” que não se conectam a mudanças reais de mercado.

Na prática, quem está no centro desse movimento vê outra dinâmica. Em minha experiência como CEO da Plug and Play, atuando na conexão entre startups, corporações e capital de risco, inovação não é discurso, é fluxo de capital e tecnologia encontrando problemas reais em setores específicos. E esse fluxo não respeita organogramas. Ele atravessa indústrias, redesenha cadeias de valor e força empresas a escolherem entre duas posições: participar da nova arquitetura de mercado ou ficar presas à antiga.

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É por isso que reduzir inovação a marketing não é apenas um erro conceitual, é um erro estratégico. Marketing pode até contar a história da inovação. Mas não substitui o que realmente importa: a capacidade de uma empresa de se reposicionar dentro da transformação estrutural da economia.

No fim, inovação não é sobre o que se diz. É sobre onde se está quando a economia muda de lugar.

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Para inovar é preciso captar investimento? Nem sempre (ou quase nunca)

19 de Março de 2026, 20:00

Por muito tempo, a palavra inovação foi associada quase automaticamente à ideia de grandes aportes financeiros, laboratórios de tecnologia ou projetos disruptivos capazes de transformar setores inteiros. Esse imaginário não está completamente errado, mas é incompleto. 

Na prática, muitas das mudanças que realmente geram impacto dentro das empresas surgem de fatores mais simples, como a revisão de processos internos ou uso de ferramentas já existentes no mercado.

Em outras palavras, a inovação não precisa necessariamente começar com um investidor ou com um projeto milionário. Em muitos casos, ela nasce da capacidade de olhar para a operação com atenção e identificar gargalos que, embora pareçam pequenos, estão travando resultados importantes.

Um exemplo ajuda a ilustrar essa dinâmica em empresas que crescem muito rápido. Imagine uma empresa que, após aumento das vendas, passa a enfrentar atrasos constantes na expedição de pedidos. À primeira vista, o problema parece complexo, mas a causa pode ser muito mais simples do que se imagina: a equipe possuir poucas impressoras para emitir notas fiscais. 

Ao ampliar a quantidade de equipamentos — um investimento pequeno diante do impacto gerado —, o fluxo logístico seria destravado e os atrasos poderiam ser reduzidos.

Talvez não pareça inovador, mas é. Quando a solução melhora o fluxo do negócio, reduz desperdícios ou aumenta a eficiência, ela já está cumprindo o papel central da inovação.

Outro caso interessante que acompanhei pessoalmente envolve a área de recursos humanos. Uma empresa tinha um processo seletivo bastante estruturado, mas enfrentava um problema recorrente. 

Entre a aprovação do candidato e o início efetivo no trabalho, passavam-se cerca de três meses e, durante esse período, o futuro colaborador praticamente não tinha contato com a empresa ou com a equipe. 

Como resultado, muitos acabavam aceitando outras propostas antes de assumir a vaga. O impacto era significativo, já que, além da perda de talentos, havia o custo de todo o processo seletivo que precisava ser reiniciado.

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A inovação precisa ser sustentável para evitar desperdícios e fortalecer a saúde financeira da empresa para que ela não dependa tanto de capital externo para crescer. (Fonte: Getty Images)

A solução envolveu uma parceria com uma plataforma de onboarding já disponível no mercado. Com a ferramenta, os profissionais aprovados passaram a ter acesso antecipado a conteúdos da empresa, conhecer colegas e iniciar uma integração gradual mesmo antes do primeiro dia de trabalho. O resultado foi a redução da evasão de candidatos e maior eficiência no processo de contratação.

Esses exemplos mostram que inovação também pode significar reorganizar, conectar ou adaptar soluções que já existem. Aliás, vale dizer que momentos de crise costumam acelerar esse tipo de transformação. 

Quando os recursos ficam mais escassos, as empresas tendem a olhar com mais atenção para seus próprios processos e buscar formas criativas de fazer mais com menos.  Cortar custos passa a ser uma necessidade imediata, mas esse movimento também pode revelar oportunidades de melhoria que estavam escondidas em estruturas pouco questionadas.

A verdade é que inovar precisa fazer sentido para a saúde financeira da empresa. Uma ideia só se sustenta quando ela, de alguma forma, reduz custos ou abre novas fontes de receita. Precisa emitir nota fiscal, por assim dizer. E existem muitas formas de fazer isso sem precisar de apoio externo.

É claro que captar investimento pode, sim, acelerar projetos transformadores e abrir novas possibilidades de crescimento. Mas não é o único caminho para inovar. Muitas empresas descobrem que as mudanças mais eficazes começam dentro de casa quando decidem olhar com atenção aquilo que já existe.

© Getty Images

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