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Samsung pode encerrar vendas de TVs na China ainda em 2026, diz jornal

27 de Abril de 2026, 18:30

A Samsung Electronics planeja encerrar ainda em 2026 as vendas de televisores e eletrodomésticos na China, pressionada por fabricantes locais que avançaram em preço e qualidade. As informações são do veículo asiático Nikkei.

Caso confirmada, a movimentação marca uma mudança relevante na estratégia da empresa sul-coreana em um dos mercados mais disputados do mundo. Segundo reportagem da Nikkei, a decisão final deve ser tomada até o fim deste mês, e a empresa já se prepara para começar a comunicar a mudança a funcionários e parceiros comerciais no país.

A saída deve acontecer de forma gradual. O veículo indica que a Samsung pretende vender o estoque disponível ao longo dos próximos meses até encerrar completamente as operações de venda desses produtos na China ainda este ano.

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Segundo a reportagem, a Samsung pode deixar de vender TVs na China ainda em 2026. (Imagem: Sean Gallup/Getty Images/Reprodução)

Exportação de itens

Vale ressaltar que a empresa não está deixando o país por completo. A ideia é manter a produção local de itens como geladeiras, máquinas de lavar e ar-condicionado, mas com foco em exportação, ou seja, as fábricas chinesas passariam a funcionar como centros de produção para outros mercados.

O motivo dessa decisão é a perda de competitividade. Fabricantes chineses têm conseguido oferecer produtos mais baratos e, ao mesmo tempo, elevaram o padrão de qualidade, ampliando sua presença dentro e fora da China. 

Procurada pela Nikkei, a Samsung disse que revisa constantemente sua estratégia global, mas afirmou que ainda não há decisão final sobre mudanças no país.

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Justiça obriga Amazon a barrar venda de celulares irregulares no Brasil

27 de Abril de 2026, 15:53

A Justiça Federal voltou atrás e decidiu que a Amazon precisa seguir as regras da Anatel para vender celulares no Brasil, inclusive barrando aparelhos irregulares. A medida já tem efeito imediato e reacende uma discussão que pode mudar a forma como compras online funcionam no País.

A decisão mais recente saiu na quinta-feira (23) e foi assinada pelo desembargador André Nekatschalow, do TRF-3. Na prática, ele suspendeu uma decisão anterior que favorecia a Amazon e determinou que o caso siga para análise do STJ, que dará a palavra final.

O ponto central da disputa é uma norma criada pela Anatel em 2025, que estabelece que marketplaces, como a Amazon, também são responsáveis pelos produtos vendidos em suas plataformas, mesmo quando anunciados por terceiros, e isso inclui celulares sem homologação ou fora dos padrões técnicos exigidos no Brasil.

A ideia da agência é simples: impedir que aparelhos irregulares continuem circulando livremente. Para isso, as plataformas precisam exigir códigos de homologação, validar essas informações e adaptar seus sistemas para evitar anúncios ilegais.

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Anatel vem intensificando ações de combate à pirataria de eletrônicos no Brasil. (Imagem: Getty Images/Reprodução)

Anatel em alerta

Nem todo mundo concordou com essa regra. Empresas do setor recorreram à Justiça alegando que, pelo Marco Civil da Internet, plataformas digitais não são obrigadas a fiscalizar previamente o que terceiros vendem. Esse argumento, inclusive, já foi aceito em outros casos envolvendo produtos falsificados ou pirataria.

Mas, desta vez, o entendimento começou a mudar. Na decisão, o desembargador destacou que celulares têm uma particularidade importante: eles usam radiofrequência e podem afetar o funcionamento das telecomunicações no país, ou seja, não é só uma questão comercial, mas também técnica e de segurança.

Do lado da Anatel, o discurso é de alerta. A agência argumenta que aparelhos não homologados podem representar riscos à saúde, à segurança digital e até à economia, já que esse mercado paralelo não paga impostos. Dados do setor indicam que cerca de 4,5 milhões de celulares irregulares foram vendidos no Brasil em 2025, o equivalente a 12% do mercado. 

Com a decisão, a Amazon deve criar mecanismos automáticos para validar os produtos e retirar do ar anúncios irregulares. Caso contrário, pode enfrentar multas pesadas ou até medidas mais duras, como o bloqueio das operações no país, um cenário que vinha sendo discutido desde o ano passado.

O TecMundo entrou em contato com a Amazon em busca de um posicionamento da companhia e deverá atualizar a matéria.

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Tinder testa escaneamento de íris para frear bots de IA

24 de Abril de 2026, 19:00

Diante do avanço de perfis falsos criados por inteligência artificial (IA), o Tinder passou a testar um novo sistema de verificação que usa escaneamento de íris para provar que o usuário é humano. A novidade, feita em parceria com a World, reacende discussões sobre segurança, privacidade e os limites do uso de dados biométricos.

O aumento de perfis falsos e golpes em aplicativos de namoro não é novidade, mas ganhou uma nova dimensão com a popularização da IA. Hoje, bots conseguem imitar fotos, voz e até conversas com um nível de realismo que engana facilmente e é nesse cenário que o Tinder decidiu reforçar seus mecanismos de verificação.

A solução encontrada envolve a World, projeto cofundado por Sam Altman, também CEO da OpenAI. A ideia é simples de entender: o usuário escaneia a íris, aquela parte colorida do olho, e o sistema gera um código único que comprova que ele é uma pessoa real. Esse código, chamado de World ID, pode ser usado para validar a identidade dentro da plataforma.

Como funciona?

Na prática, o processo pode ser feito por um aplicativo ou por dispositivos físicos em formato de esfera, desenvolvidos pela própria World. Após o escaneamento, o usuário recebe um selo no perfil indicando “prova de humanidade”. Como incentivo, o Tinder também oferece benefícios, como impulsionamentos gratuitos que aumentam a visibilidade do perfil por um período.

A iniciativa vem sendo testada inicialmente em mercados como o Japão e faz parte de uma estratégia maior da World de expandir sua tecnologia para outras plataformas digitais. Empresas como Zoom, Reddit e Shopify também podem adotar essa tecnologia no futuro com a mesma proposta: usar a verificação para garantir que há uma pessoa real por trás das contas e reduzir fraudes feitas com ajuda de IA.

O movimento não acontece por acaso. Nos últimos anos, os chamados golpes amorosos aumentaram; só nos EUA, esses esquemas causaram prejuízos superiores a US$ 1 bilhão em um único ano, segundo dados de autoridades locais. Em muitos casos, os criminosos usam perfis falsos altamente sofisticados para enganar vítimas.

O Tinder já havia começado a exigir selfies em vídeo para validar usuários, mas a chegada da IA tornou essas barreiras menos eficazes. Com ferramentas capazes de gerar rostos e vídeos convincentes, a verificação tradicional passou a não ser suficiente, então o escaneamento de íris surge como uma camada extra de segurança.

World no Brasil

Apesar da promessa de mais segrança, a tecnologia não vai funcionar no Brasil. O sistema da World foi proibido no país após decisão da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), que questionou o uso de dados biométricos e a prática de oferecer criptomoedas em troca do cadastro.

A suspensão começou em janeiro do ano passado e continuou mesmo depois de a empresa tentar mudar a decisão. Com isso, a coleta de dados segue parada no Brasil, e o recurso do Tinder não deve chegar por aqui tão cedo.

A proposta coloca o usuário diante de uma escolha delicada: mais segurança ou mais exposição de dados. A World afirma que o sistema é anônimo e não coleta informações como nome ou endereço, mas ainda há dúvidas sobre o armazenamento e uso desses dados biométricos.

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ECA Digital entra em vigor e força empresas a mexer no dinheiro

20 de Março de 2026, 07:00

O ECA Digital, também chamado de Lei Felca, entrou em vigor na última terça-feira, 17, e já começa a mexer com o mercado de tecnologia no Brasil. A ideia é simples: proteger crianças e adolescentes na internet. A execução? Nem tanto.

Na prática, a lei cria uma série de novas obrigações para plataformas digitais. Entre elas, está a exigência de verificação de idade mais rigorosa (adeus botão “tenho mais de 18”), o fim da publicidade personalizada para menores e limites para recursos que incentivam uso excessivo, como rolagem infinita e loot boxes em jogos (aquelas “caixinhas surpresa” pagas em games, em que o jogador não sabe o que vai ganhar).

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Fonte: Felca/YouTube/Reprodução

Isso significa que redes sociais, apps, jogos e sites vão ter que repensar como funcionam, do jeito que recomendam conteúdo até como ganham dinheiro com usuários mais jovens. Sim, é aquele tipo de mudança que não dá pra resolver só com um “atualizamos nossos termos de uso”.

Mesmo assim, a entrada em vigor veio com um certo improviso. O governo adiou a assinatura do decreto que detalha as regras, o que deixou empresas num cenário meio “a lei já vale, mas calma aí que ainda estamos vendo como aplicar tudo”.

Mercado ainda reage devagar às novas regras

No primeiro dia de vigência, algumas empresas já começaram a se mexer. O Google, por exemplo, anunciou mudanças em serviços como Busca, YouTube e Play Store, com mais restrições de conteúdo e ferramentas de supervisão para menores.

Mas, fora isso, a sensação geral é de “vida normal”, com redes sociais funcionando praticamente igual, sem exigir verificação mais rígida de idade. E, sim, sites adultos ainda usam aquele clássico botão de autodeclaração, que a lei basicamente tentou banir.

Basicamente, o que se vê é um descompasso: a lei entrou em vigor, mas o comportamento das plataformas ainda não acompanhou totalmente, pelo menos por enquanto.

“As plataformas que oferecem produtos ou serviços direcionados a crianças e adolescentes tendem a iniciar, de imediato, medidas mínimas de adequação para atender às obrigações já vigentes”, afirma Ricardo Nunes, sócio de Tecnologia, Proteção de Dados e Propriedade Intelectual do escritório de advocacia Lefosse.

Segundo ele, acabar com o “tenho mais de 18” já muda bastante o jogo e deve forçar as empresas a correr atrás de sistemas mais sérios, principalmente em serviços com conteúdo adulto.

Agora o negócio ficou sério

Se do lado de fora quase nada mudou, por dentro das empresas o cenário é outro. A Lei Felca exige alterações profundas e caras na forma como as plataformas operam, o que significa mexer diretamente em estruturas que não foram feitas para mudar rápido.

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Fonte: Alice Labate/TecMundo

Isso inclui criar sistemas mais robustos de verificação de idade, revisar algoritmos de recomendação e até repensar produtos inteiros. Recursos comuns hoje, como feeds infinitos ou mecânicas de engajamento em jogos, entram diretamente na mira e não são exatamente fáceis de substituir.

Traduzindo: não é só uma questão de compliance ou jurídico. É produto, tecnologia, dados, marketing, basicamente todo mundo dentro da empresa vai ser impactado. E como muitas dessas ferramentas estão no centro do modelo de negócio, qualquer ajuste vira também uma decisão estratégica.

Esse movimento também abre um outro problema: até onde as empresas podem ir para cumprir a lei sem violar a privacidade dos usuários?

“A Lei 15.211 exige verificação de idade confiável, mas não especifica como fazê-la, e é exatamente nesse silêncio que mora o maior risco jurídico para as plataformas”, afirma Paula Caixeta, cofundadora e CLO da DeltaAI. “Biometria facial, por exemplo, é dado sensível nos termos da LGPD, e seu tratamento exige base legal específica, consentimento qualificado e proporcionalidade estrita”.

Na prática, isso significa que não basta sair pedindo documento ou selfie de todo mundo. As empresas vão ter que equilibrar proteção de menores com privacidade, e errar nessa conta pode dar problema dos dois lados.

Segundo Nunes, esse processo não deve acontecer de uma vez. “A adaptação tende a ser gradual e faseada”, afirma. “Isso decorre tanto do impacto operacional quanto da necessidade de desenvolvimento ou ajuste de mecanismos internos para mapear riscos”.

Nesse começo, a prioridade tende a ser mais básica do que parece: saber o que a empresa já faz, quais dados coleta e onde estão os principais riscos. Só depois disso é que entram mudanças mais pesadas, o que ajuda a explicar por que o impacto ainda não apareceu com força para o usuário.

A vida é um morango apenas para as big techs

Quando o assunto é adaptação, nem todo mundo parte do mesmo ponto, porque empresas grandes tendem a ter mais fôlego para lidar com esse tipo de mudança. Gigantes como Meta e o próprio Google já têm estrutura, equipe e tecnologia para adaptar produtos em diferentes países.

Mesmo assim, isso não significa mudanças imediatas. O mais provável é ver ajustes graduais, muitas vezes começando por soluções intermediárias, como estimar a idade do usuário em vez de exigir um documento logo de cara.

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— nini (@jeongconha) March 18, 2026

Algumas plataformas já começaram a testar caminhos nesse sentido. O X (eterno Twitter), por exemplo, passou a pedir uma selfie para tentar estimar a idade dos usuários usando inteligência artificial (IA). Na prática, porém, esse tipo de sistema ainda levanta dúvidas e pode ser facilmente burlado, já que muitos menores conseguem contornar a verificação usando fotos de outras pessoas ou até bonecos.

Nesse cenário, impedir totalmente esse tipo de coisa ainda está longe de ser uma realidade. Segundo o sócio da Lefosse, tentativas de fraude em sistemas de verificação já são esperadas e fazem parte do jogo. “Mais do que uma solução específica, o objetivo mais realista é reduzir significativamente a possibilidade de fraude por meio de mecanismos consistentes e demonstráveis”, afirma.

É tipo misturar várias tecnologias e aumentar o nível de controle dependendo do risco de cada plataforma. Porque, sendo realista, não dá pra impedir 100% das fraudes, o foco é dificultar ao máximo e mostrar que a empresa fez a lição de casa.

Só que esse tipo de solução também cria um novo problema: segurança.

“Sempre que uma plataforma passa a coletar RG, selfie ou biometria, ela amplia o volume de dados sensíveis sob sua guarda e aumenta o impacto potencial de qualquer incidente”, afirma Luiz Claudio, CEO da LC SEC. “Diferentemente de uma senha, esses dados não podem simplesmente ser trocados depois de um vazamento”.

Segundo ele, isso aumenta a chamada “superfície de ataque” das empresas, já que essas informações passam por diferentes sistemas, fornecedores e integrações. “Se não houver arquitetura segura, criptografia forte e controle de acesso, cria-se um ponto muito valioso para fraudadores”, diz.

Para companhias menores, o cenário é mais desafiador. Startups e plataformas com menos recursos precisam adaptar sistemas e rever processos sem a mesma capacidade técnica ou financeira, o que pode pesar na operação.

“Empresas menores podem lidar com desafios típicos como limitação de recursos financeiros e humanos”, explica Nunes. Ainda assim, ele ressalta que o risco jurídico não se limita às big techs e pode atingir empresas de diferentes tamanhos, dependendo do caso.

Isso pode aumentar a distância entre quem já é grande e quem ainda está tentando crescer. A lei é a mesma para todo mundo, mas o impacto claramente não é.

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Empresas ainda operam no escuro

Essa demora não é por acaso. Parte da lentidão na adaptação tem uma explicação simples: ainda não está tudo 100% definido. O decreto que detalha a aplicação da lei foi adiado e deve passar por ajustes, o que deixa empresas operando em um cenário de incerteza.

Nem todas as regras estão claras ainda, o que faz com que muitas empresas adotem uma postura mais cautelosa, evitando mudanças mais profundas até entender melhor o que será exigido. “De forma geral, as empresas buscam avançar em frentes que não dependem de regulamentação detalhada e aguardam diretrizes específicas para evitar retrabalho”, afirma Ricardo Nunes.

Esse “esperar sem ficar parado” tem um efeito direto na forma como as empresas estão priorizando suas ações agora. Em vez de sair implementando soluções complexas, o foco inicial tende a ser mais interno, quase um raio-x da própria operação.

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Fonte: Alice Labate/TecMundo

Segundo Nunes, o primeiro passo seria compreender quais dados são tratados e quais produtos ou serviços podem atingir crianças e adolescentes, mesmo que não sejam pensados diretamente para esse público. A partir daí, entram o mapeamento de sistemas, fluxos e controles já existentes.

A ideia é simples (na teoria): antes de mudar, entender onde estão os riscos. Esse diagnóstico inicial ajuda a evitar decisões desproporcionais, tipo gastar milhões em uma solução que talvez nem seja necessária, e direciona melhor os investimentos.

Além disso, tem um fator que pesa bastante nesse ritmo: o que ainda vai ser definido pela Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD). A expectativa é que a autoridade publique orientações mais detalhadas nos próximos meses, inclusive sobre temas sensíveis como verificação de idade.

Além da incerteza técnica, existe também uma pressão jurídica que deve crescer nos próximos meses. “As empresas estão vinculadas à lei desde 17 de março, mas sem parâmetros técnicos definitivos de como cumpri-la”, afirma Paula Caixeta. “Essa janela de incerteza precisa ser gerenciada com documentação rigorosa e demonstração ativa de boa-fé regulatória”.

Segundo ela, isso muda o jogo na prática. “Antes, a plataforma alegava boa-fé e transferia a responsabilidade ao usuário. Agora, ela precisa demonstrar que adotou medidas técnicas razoáveis e proporcionais”. Isso inclui registrar todo o processo: como verificou a idade, quais dados coletou, por quanto tempo guardou e o que acontece em caso de problema. Em outras palavras: não basta fazer, tem que provar que fez.

Para Ricardo Nunes, esse processo deve seguir uma lógica progressiva, considerando o nível de risco de cada serviço. Ou seja: nem toda empresa vai precisar fazer tudo ao mesmo tempo, e nem do mesmo jeito.

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Rage rooms: 'salas da raiva' voltam a ser trend com aumento de estresse no trabalho

13 de Março de 2026, 06:30

Em meio a um cenário de pressão crescente no mercado de trabalho, marcado por jornadas intensas, insegurança profissional e pela rápida adoção de tecnologias como a inteligência artificial (IA), vídeos de pessoas destruindo televisores, garrafas e eletrodomésticos voltaram a viralizar nas redes sociais.

As chamadas rage rooms, salas criadas para quebrar objetos de forma controlada, reapareceram como tendência em diferentes países no TikTok e no Instagram neste início de 2026, frequentemente acompanhadas de relatos de frustração com o trabalho, demissões ou cansaço emocional.

O movimento também cresce no Brasil em um momento em que pesquisas indicam deterioração na relação dos brasileiros com o trabalho. O levantamento global Work Relationship Index 2025, da HP, aponta que apenas 29% dos profissionais do país estão na chamada “zona saudável”.

Na outra ponta, 34% se encontram na “zona crítica”, índice que cresceu 9 pontos percentuais em relação a 2024 e indica avanço do desgaste emocional. Segundo o estudo, 71% dos brasileiros dizem que as exigências das empresas aumentaram no último ano.

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Fonte: Rage Room CT/Instagram

Popularizadas na internet desde 2021, as rage rooms surgiram no Japão como um espaço para liberar emoções reprimidas e passaram a aparecer em diferentes países. No Brasil, o formato ainda é raro. Em São Paulo, há apenas um espaço dedicado à atividade, a Rage Room CT, no Tatuapé.

Para o professor de marketing digital da ESPM, João Finamor, o retorno da tendência segue um padrão recorrente de conteúdos online. “Foi um ciclo que teve início na época da pandemia, por volta de 2021, e agora voltou novamente. Esse movimento é comum no ambiente digital: conteúdos tendem a ser cíclicos e acabam sendo revisitados ao longo do tempo. Como sociedade, as pessoas também resgatam aquilo com que ainda têm algum tipo de conexão”.

Segundo ele, o momento que estamos vivendo favorece esse tipo de conteúdo. “Quando a gente fala do momento atual, estamos em um período muito catártico. As pessoas estão muito estressadas e cansadas. Nesse contexto, esse tipo de conteúdo acaba funcionando também como uma forma de desestressar e gerar algum tipo de conexão”.

Pressão no trabalho aparece entre os motivos

A viralização também acompanha mudanças na relação com o trabalho. O estudo da HP aponta que 39% dos profissionais brasileiros acreditam que as empresas priorizam o lucro em detrimento das pessoas. Ao mesmo tempo, 68% gostariam de passar menos dias presencialmente no escritório, revelando insatisfação com o modelo atual.

Na capital paulista, a Rage Room CT recebe cerca de 250 pessoas por mês, entre quarta-feira e domingo. O funcionamento é simples: o visitante escolhe um pacote de destruição e paga pelos objetos que deseja quebrar durante a sessão.

O espaço oferece experiências de 30 minutos para grupos de até três pessoas e sessões de uma hora para grupos maiores. Antes da atividade, os participantes passam por um briefing com instruções de segurança e recebem equipamentos de proteção. Depois disso, entram na sala preparada para o impacto e começam a destruir os objetos escolhidos.

O perfil do público revela um recorte específico. Segundo o espaço, 98% dos frequentadores são mulheres, com idade entre 20 e 45 anos. Entre as profissões mais comuns estão trabalhadores de tecnologia, psicólogos e terapeutas, professores e profissionais de comunicação.

“A Rage Room CT surgiu como uma forma de aliviar o estresse do dia a dia, funcionando como uma espécie de válvula de escape. O espaço recebe pessoas por diferentes motivos, que vão desde questões pessoais até pressões relacionadas ao trabalho”, afirma a equipe do local.

O desenvolvedor de sistemas Lucas Lopes, de 31 anos, foi uma dessas pessoas. Ele visitou a rage room com uma amiga em um momento de pressão profissional. “Eu fui uma vez porque estava me sentindo estressado com muitas coisas, questões pessoais e, principalmente, do trabalho”, conta.

Segundo ele, a rotina na área de tecnologia pode ser desgastante. “É estressante porque, para mim, o maior problema são os bugs quase inexplicáveis que aparecem às vezes nos códigos e que eu preciso resolver. Além disso, tenho muita responsabilidade e pressão diariamente, o que, a longo prazo, acaba sendo bem desgastante”.

O avanço da IA também tem alimentado incertezas no mercado de trabalho. Segundo a pesquisa Global Hopes and Fears 2025, da PwC, 61% dos brasileiros acreditam que a tecnologia afetará significativamente seus empregos nos próximos três anos. Ao mesmo tempo, o uso dessas ferramentas já faz parte da rotina de muitos profissionais.

Entre desenvolvedores de software, esse processo é ainda mais evidente. Lucas afirma que, no início, tinha dúvidas sobre como a IA afetaria sua profissão, mas passou a incorporá-la no dia a dia de trabalho. “No começo, quando ainda não sabíamos muito bem como as IAs se encaixariam na rotina de trabalho, me atrapalhava bastante. Mas, agora, com a evolução delas, eu uso pra melhorar minhas entregas”, diz.

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Fonte: Arquivo pessoal/Lucas Lopes

Destruição como forma de aliviar tensões

Para Finamor, o sucesso desses vídeos também está ligado à forma como são narrados nas redes sociais. “Todos têm storytelling. Por exemplo: depois de uma demissão, após um término de namoro. Não é simplesmente a pessoa que foi lá quebrar coisas e postar, há um contexto por trás”.

O especialista afirma que o fenômeno também tem um componente geracional. “A geração Z tem uma conexão mais forte com essa questão catártica. Mas sempre dizemos que o millennial é uma geração coringa, porque combina e hibridiza características das outras gerações”.

Entre os vídeos mais comuns estão justamente aqueles que conectam a destruição de objetos a situações emocionais intensas. “Primeiro, há aquela conexão social e cultural, que faz as pessoas se identificarem. Depois vem a questão da catarse emocional. A pessoa está quase explodindo e ver algo explodindo gera uma associação”.

Para quem participa da experiência, o efeito pode ser imediato, ainda que temporário. A ilustradora Giulia Conti, de 23 anos, visitou uma rage room na Itália, onde mora, acompanhando uma amiga. “Foi muito bom, me ajudou bastante a descarregar emoções e problemas que eu já vinha carregando há algum tempo, principalmente questões pessoais. Foi uma experiência muito boa”, afirma.

Ela ressalta que a experiência não resolve todos os problemas. “Não ajuda completamente. Não é como se eu tivesse saído de lá pensando ‘nossa, agora estou bem de novo’. Mas ajudou bastante”.

A psicóloga Marina Akemi Tanabe Duarte afirma que experiências desse tipo podem funcionar como um canal de expressão emocional. “Vejo as rage rooms como uma ferramenta para expressão de emoções, assim como outras práticas perpetuadas socialmente”.

Segundo ela, cada pessoa encontra formas próprias de lidar com sentimentos como raiva ou estresse. “Em alguns casos, ir a uma rage room e descarregar essas emoções pode funcionar, a depender da necessidade e da intensidade do que a pessoa está sentindo”.

A predominância feminina nesses espaços também pode ter explicações sociais. Para a psicóloga, homens historicamente tiveram mais permissividade cultural para expressar agressividade em público, enquanto mulheres são frequentemente pressionadas a reprimir esse tipo de reação.

@ragezoneusa Replying to @Cris🔛🔝 ♬ original sound - Rage Zone

“A mulher, desde que o homem é homem, quando expressa seus sentimentos de maneira ‘inadequada’ aos padrões impostos, é taxada de histérica, emocionalmente desregulada e louca”, afirma.

A possibilidade de que experiências desse tipo incentivem comportamentos agressivos fora desse ambiente também é discutida por especialistas.

Para Marina, no entanto, o risco não está necessariamente na prática em si, mas na forma como as emoções são elaboradas. “Muitas práticas e situações podem igualmente reforçar comportamentos agressivos, não necessariamente a rage room em si. Se é utilizado para descarregar sentimentos em um ambiente controlado e específico para isso, não há por que essa prática resultar em comportamentos agressivos em outros contextos sociais cotidianos”.

A psicóloga ressalta ainda que não existe uma única forma considerada ideal para lidar com emoções intensas. Segundo ela, o ponto central é encontrar maneiras de expressar essas emoções sem causar danos a si mesmo ou aos outros. “A raiva e o estresse, quando não elaborados de alguma forma, podem ter outro destino e, em algumas situações, se tornar adoecedores. É melhor colocar esses sentimentos ‘para fora’ de uma maneira que não cause danos a você ou ao outro”.

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