O Bitcoin fechou a última quinta-feira (13) em US$ 63.426. Na quarta-feira (12), havia encerrado o dia em US$ 63.408. E, há seis semanas, o preço permanece praticamente confinado à mesma faixa, entre US$ 59,9 mil e US$ 66,5 mil.
A estabilidade chama atenção justamente por se tratar do Bitcoin. Nos últimos 30 dias, o ativo oscilou, em média, 0,87% por dia. Em 2024, essa média foi de 2,01%. Em 2025, de 1,57%.
Essa compressão da volatilidade é o tema central desta edição:
Por que o atual período de calmaria é estatisticamente raro;
O que aconteceu em episódios semelhantes no passado;
Como está o equilíbrio entre compradores e vendedores;
O que melhorou no cenário macroeconômico; e
O que ainda limita uma recuperação mais consistente.
Uma calmaria (quase) sem precedentes no Bitcoin
Comecemos pelo comportamento do preço. Depois de recuar de US$ 97.008 em janeiro para US$ 58.551 no fim de junho, o Bitcoin passou as últimas seis semanas negociando dentro de uma faixa relativamente estreita, sem renovar as mínimas do ano.
São 44 pregões dentro de um intervalo de apenas 10,9% entre o piso e o teto. Para os padrões do ativo, trata-se de um período excepcionalmente longo de estabilidade.
E há uma forma de medir exatamente o quanto isso é anômalo. O mercado chama de “volatilidade realizada” — em outras palavras, o tamanho médio das oscilações diárias de um ativo ao longo de um período, colocado em escala anual para permitir comparação.
A leitura atual é de 27,1% ao ano, colocando o Bitcoin no percentil 6 de sua própria distribuição histórica desde 2013. Em essência, em aproximadamente 94% do tempo, a volatilidade do ativo esteve acima do nível observado hoje.
Desde 1º de julho, em 44 pregões, o Bitcoin registrou apenas uma sessão com oscilação superior a 3%. Em 2024, movimentos dessa magnitude ocorreram, em média, sete vezes por mês. Em 2025, cerca de quatro vezes.
O que costuma acontecer depois de uma calmaria dessas
Para entender o que esse nível de compressão nos informa, levantamos todos os episódios desde 2014 em que a volatilidade do Bitcoin entrou no decil inferior de sua própria história. Encontramos 27 ocorrências, das quais 26 possuem histórico posterior completo para análise.
No momento do sinal, a volatilidade mediana era de aproximadamente 30% ao ano. Após 30 dias, subia para 44%; em 60 dias, alcançava 51%; e, depois de 90 dias, ainda permanecia próxima de 45%.
Historicamente, portanto, episódios de volatilidade tão baixa não costumaram se prolongar. Em algum momento, a amplitude dos movimentos voltou a aumentar de forma relevante.
Há, porém, uma distinção importante: isso nos informa sobre a magnitude provável dos próximos movimentos, não sobre sua direção. Volatilidade mede intensidade, e não tendência.
A principal conclusão, portanto, não é que o Bitcoin esteja necessariamente prestes a subir ou cair, mas que o ambiente excepcionalmente estável das últimas semanas tende a ser transitório.
Para a gestão de risco, essa diferença importa. A baixa volatilidade atual não deve ser interpretada como evidência de que o risco desapareceu. Pelo contrário: o histórico sugere que períodos como este costumam anteceder uma normalização das oscilações, o que recomenda avaliar as posições considerando um mercado potencialmente mais volátil do que aquele observado nas últimas semanas.
Amarrando as pontas: o que esperar daqui para a frente?
O marasmo atual tende a terminar. A direção ainda é incerta, mas, olhando além das oscilações diárias, há um sinal construtivo: o Bitcoin vem absorvendo uma sequência relevante de notícias negativas sem renovar as mínimas. Guerra, inflação ainda desconfortável, juros elevados e até a Strategy reduzindo posições tiveram impacto limitado sobre o preço.
É quase o inverso do que vimos no ano passado, quando regulação avançando, fortes entradas nos ETFs, maior adoção institucional e o surgimento de novas empresas de tesouraria já não eram suficientes para levar o Bitcoin muito além. Hoje, são as notícias ruins que parecem perder força.
Isso não confirma que o fundo ficou para trás, mas aumenta a probabilidade de que ele já tenha sido formado — ou esteja próximo. O drawdown acumulado e a proximidade da média de 200 semanas reforçam essa leitura, e melhoram a assimetria para quem pensa no médio e longo prazo.
Para quem ainda não tem exposição, compras graduais começam a fazer mais sentido. Para quem gere risco no curto prazo, porém, a cautela permanece: ainda não há confirmação de retomada da tendência, nem fundamentos suficientes para aumentar a exposição de forma mais agressiva.
Esta edição não é sobre o que aconteceu nos últimos dias. É sobre uma pergunta que antecede qualquer notícia: o que, exatamente, você está carregando quando compra um criptoativo?
Quase todo investidor chega ao mercado pela mesma porta: “qual moeda eu compro?”. É a pergunta mais natural e, sozinha, a menos útil. Existem outras duas que explicam a maior parte do resultado de uma carteira: em que momento você está comprado, e qual tamanho a posição ocupa no portfólio.
Reunimos essas três perguntas — quando, o que e quanto — em um relatório especial, com dados de janeiro de 2018 a julho de 2026. Aqui, o resumo do que ele mostra. O material completo, com o passo a passo da análise, está no fim desta edição.
Todo criptoativo está em algum ponto da mesma régua
Existem milhares de criptoativos negociados hoje, e analisá-los um a um é inviável. Quase todos, porém, cabem em uma régua com três referências — e o lugar que cada um ocupa nela antecipa boa parte do comportamento do preço.
Em um extremo está o Bitcoin: emissão limitada, previsível e que ninguém altera unilateralmente. Como não paga juros, dividendo nem aluguel, todo o valor está no futuro distante — por isso ele reage tanto a juros e a liquidez global. No meio estão os tokens de projeto, que são capital de risco com marcação a mercado minuto a minuto. No outro extremo, as memecoins, onde não há tese a analisar: o preço é a atenção que o ativo captura, e o ganho de um participante é a perda de outro.
A régua tem uma função prática: ela define qual pergunta faz sentido fazer. Diante do Bitcoin, pergunta-se sobre juros, liquidez e adoção institucional. Diante de um token, sobre receita, concorrência e mecanismo de captura de valor. Usar o critério errado para o ativo errado é a origem de boa parte das frustrações de quem está começando.
No agregado, o mercado perde para o Bitcoin
A intuição mais difundida é a de que, se o Bitcoin já subiu muito, o retorno maior estaria nas moedas menores. Oito anos e meio de dados contam outra história: desde janeiro de 2018, o Bitcoin subiu 265% e uma cesta com as 100 maiores altcoins caiu 34%.
E há um segundo fato, tão importante quanto o primeiro: as duas curvas sobem e descem praticamente juntas, com correlação de 0,83 numa escala em que 1 é sincronia perfeita. Ou seja, a diversificação não trouxe retorno adicional, muito menos trouxe proteção.
Quando se decompõe esse retorno, aparece o motivo. Cerca de 69% da variação das altcoins é explicada pelo próprio Bitcoin. O que sobra — aquilo que seria mérito do projeto — é negativo: −0,19% por semana no agregado. Parece pouco, mas ao longo de 446 semanas essa diferença mínima vira o abismo entre +265% e −34%. Na média, comprar altcoin é acompanhar o Bitcoin com uma taxa embutida.
Fonte: Coingecko
A causa é estrutural, não moral. O token típico não dá direito a fluxo de caixa nem a participação, então não existe um valor de referência para o qual o preço convirja quando o entusiasmo passa. E a emissão contínua para fundadores, investidores iniciais e equipe cria um vendedor estrutural: a cada mês chegam ao mercado unidades novas nas mãos de quem pagou muito menos — ou nada — por elas.
Isso muda a pergunta que o investidor precisa fazer. Não é “esta tecnologia é boa?” — muitas são. É “o valor que esta tecnologia gera chega até o token que estou comprando?”. Quando chega, o ativo descola: num ano em que o Bitcoin caiu 47%, HYPE subiu 154% por exemplo, sustentado por recompra com receita própria e utilidade comprovada. As exceções existem, e o que as separa é justamente esse mecanismo.
Quando, o que e quanto?
Se 69% do retorno vem do fator de mercado, é esse fator que precisa ser administrado — e administrar não é prever, é ter uma regra explícita.
Quando comprar. No relatório, testamos a regra mais simples de todas: ao fim de cada dia, comparar o retorno do Bitcoin nos últimos 30 dias com o do S&P 500. Se o Bitcoin estiver à frente, mantém-se a posição; se estiver atrás, fica-se em caixa.
A escolha do S&P 500 não é arbitrária. Ele reúne as 500 maiores empresas listadas na bolsa americana e funciona como termômetro do apetite por risco: quando o índice sobe, em geral é sinal de que o ambiente macroeconômico está favorável a ativos de risco. O Bitcoin, por sua vez, guarda uma correlação relevante com ele, porque ambos respondem à mesma variável de fundo — a liquidez global. Comparar um ao outro é, na prática, perguntar se o dinheiro está fluindo para o risco e se o Bitcoin está na frente ou atrás dessa onda.
O resultado do teste é simples de descrever. Seguindo a regra, o investidor teria obtido praticamente o dobro de retorno para o mesmo tanto de sobressalto que precisou aguentar pelo caminho. E a maior queda da estratégia, do topo até o fundo seguinte, encolheu de 82% para 39%. O segundo número talvez seja o mais importante: uma perda de 82% expulsa quase qualquer investidor da posição no pior momento possível — 39% dói, mas é suportável. O exercício não inclui custos nem impostos, e retornos passados não garantem rentabilidade futura.
Fonte: base de dados própria (Bitcoin) e Yahoo Finance (S&P 500); reconstrução do exercício publicado em “O que você carrega quando compra cripto”, BTG Pactual & Empiricus Research. Sem custos de transação e com execução no dia seguinte ao sinal. Exercício ilustrativo, não é recomendação. Dados até 5 de agosto.
O que comprar. Três filtros, nesta ordem: liquidez, porque performance no gráfico não vira dinheiro na conta se não houver comprador do outro lado; representação, que é o mecanismo de captura de valor; e evidência, que é o retorno ajustado ao risco frente ao Bitcoin — a referência não é o dólar nem o real, é o ativo que você carregaria sem esforço nenhum. Critério definido depois de olhar para os nomes não é critério, é justificativa.
Quanto comprar. Esta é a pergunta mais negligenciada e a que mais destrói patrimônio. O erro comum é dimensionar pela convicção, que é máxima depois de uma alta forte e mínima depois de uma queda forte. O critério correto é a oscilação: quanto você topa ver o portfólio variar em um dia normal? Meio por cento? Um? Se o ativo oscila 4% ao dia e você aceita 1% na carteira, a posição compatível é de cerca de um quarto do portfólio — e cai pela metade se a volatilidade dobrar, sem que nada tenha mudado na tese.
Escreva a regra antes de precisar dela
No fim das contas, investir em cripto é muito mais uma questão de gerenciamento de risco do que de acertar qual token vai ser o vencedor do ciclo. E gerenciar risco de forma eficiente exige sistema: regras bem definidas, escritas antes, e que façam sentido para o mercado em que você está.
Isso vale ainda mais em cripto, um ambiente em que as narrativas são voláteis e as coisas vão e vêm muito rápido. A narrativa da moda hoje pode não existir daqui a seis meses. Ter uma regra é justamente o que permite verificar, na medida certa, se aquela hipótese está se confirmando ou não — em vez de sustentar uma tese apenas porque você acredita nela. É essa verificação, repetida ao longo do tempo, que faz diferença no longo prazo.
O erro mais caro, portanto, não é escolher o token errado. É carregar o mercado às cegas: sem regra de entrada, sem tamanho definido e sem saber de onde vem o retorno que se espera receber. Um processo escrito em um dia calmo é o que resta de racional em um dia de pânico.
Se você quer ver tudo isso de forma muito mais aprofundada, o relatório completo está disponível na plataforma do BTG Pactual. Lá colocamos bem mais dados, os gráficos de cada uma das análises e o detalhamento dessas regras — inclusive como usá-las na prática para montar um portfólio de criptoativos e administrá-lo de forma mais eficiente.
Executar esse processo todos os dias, porém, exige rotina, dados e disciplina. É exatamente o que a Carteira Crypto Momentum sistematiza: timing por regra de tendência, seleção por momentum entre os ativos líquidos e alocação por volatilidade, com caixa como parte legítima da carteira — sem exigir do investidor acompanhamento de telas nem decisão tomada no calor do momento. Desde o lançamento, em maio de 2026, o excesso acumulado sobre o Bitcoin é de +10,3 pontos percentuais — retornos passados não garantem rentabilidade futura, mas mostram o método funcionando fora do papel. Conheça a Carteira Crypto Momentum.
O Bitcoin (BTC) voltou a negociar acima dos US$ 60 mil nesta semana, recuperando uma região técnica relevante após ter ameaçado uma correção mais profunda na virada do mês. O movimento trouxe alívio para o mercado cripto e interrompeu, ao menos por ora, a deterioração que vínhamos acompanhando nas últimas semanas.
A melhora ocorreu em um ambiente de maior apetite por risco, influenciado por três fatores principais: um relatório de emprego mais fraco nos Estados Unidos, a percepção de menor pressão inflacionária após a fala de Kevin Warsh no Fórum do BCE e uma rotação de capital depois de um primeiro semestre bastante concentrado em semicondutores.
Mesmo com a melhora no preço, o cenário ainda exige seletividade. O Bitcoin voltou para cima de um suporte importante, mas o mercado segue precificando a possibilidade de novos aumentos de juros ainda em 2026, enquanto os fluxos para cripto precisam mostrar mais consistência antes de sustentarem uma leitura mais construtiva.
Além disso, a Strategy voltou ao centro das discussões. A empresa reduziu parte do risco de cauda ao reforçar caixa e ampliar sua flexibilidade financeira, mas também abriu uma possibilidade que antes parecia distante: monetizar parte dos seus bitcoins caso a gestão entenda que isso seja vantajoso. Por isso, nossa leitura ainda segue a mesma: o momento continua mais adequado para gestão de risco do que para reconstrução agressiva de posições em altcoins.
Nesta edição, mostramos por que a recuperação recente melhora o quadro de curto prazo, mas ainda não confirma uma virada de tendência.
Leitura gráfica: Bitcoin (BTC)
O Bitcoin recuperou uma região técnica relevante. Depois de tocar a região de US$ 58 mil na virada do mês, o ativo voltou a negociar acima dos US$ 60 mil, faixa que vínhamos tratando como suporte importante nas últimas semanas. A retomada reduz, por ora, o risco de uma correção adicional em direção aos US$ 50 mil, cenário que havia ganhado força após a perda temporária desse nível.
Ainda assim, recuperar um suporte não significa, necessariamente, reverter a tendência. Para que o movimento ganhe consistência, será importante observar se o BTC consegue se manter acima dessa região e, principalmente, se a melhora de preço será acompanhada por fluxos mais fortes e maior demanda institucional.
Por enquanto, o repique deve ser interpretado como uma melhora pontual no curto prazo, mas ainda insuficiente para confirmar uma nova pernada de alta.
BTC/USDT
Fonte: TradingView
O alívio no mercado cripto veio, mas não virou tendência
A recuperação do Bitcoin ocorreu após a divulgação de um relatório de emprego mais fraco nos Estados Unidos. Em junho, a economia americana criou apenas 57 mil vagas, abaixo das cerca de 115 mil esperadas pelo mercado. Além disso, os dados dos meses anteriores foram revisados para baixo: abril passou de 179 mil para 148 mil vagas, enquanto maio caiu de 172 mil para 129 mil. No total, as revisões retiraram 74 mil vagas do que havia sido reportado anteriormente.
Fonte: Tradingeconomics
Os números reforçaram a percepção de um mercado de trabalho americano menos resiliente do que se imaginava. Para os ativos de risco, esse tipo de dado tende a aliviar parte da pressão sobre as taxas de juros, uma vez que reduz a probabilidade de uma postura ainda mais restritiva por parte do Fed.
Esse alívio também foi influenciado pela fala de Kevin Warsh no Fórum do BCE, em Sintra. O evento reúne alguns dos principais banqueiros centrais do mundo e costuma funcionar como um espaço relevante para sinalizações de política monetária. Em sua participação, Warsh reconheceu que as pressões inflacionárias diminuíram nas últimas semanas, o que contribuiu para reduzir a percepção de risco em torno dos juros.
Ainda assim, a mensagem não representou uma mudança ampla na postura de política monetária. Warsh reforçou o compromisso com a meta de 2% de inflação e evitou oferecer sinalizações claras sobre os próximos passos. Assim, embora o ambiente inflacionário pareça menos pressionado, o mercado ainda segue precificando a possibilidade de novos aumentos de juros ao longo de 2026.
Colocando esses dois pontos em contexto, é possível que tenhamos chegado a um “pico de hawkishness”. Em outras palavras, parte relevante do pessimismo em torno dos juros pode já estar refletida nos preços.
Daqui em diante, o ponto central passa a ser a confirmação pelos dados. Caso os próximos indicadores reforcem a continuação dessa dinâmica, o mercado pode começar a reduzir a expectativa de uma postura monetária ainda mais dura. Para o Bitcoin, esse alívio seria relevante: menos pressão nos juros tende a melhorar o apetite por risco e pode abrir espaço para uma recuperação mais consistente do ativo.
Outro fator relevante foi a rotação de capital no mercado acionário. Após um primeiro semestre marcado por forte concentração de ganhos em semicondutores e empresas ligadas à infraestrutura de inteligência artificial(IA), houve realização em parte desses ativos. O movimento não indica necessariamente uma saída ampla de risco, mas uma redistribuição de exposição entre setores e classes de ativos.
Nesse contexto, ativos digitais também foram beneficiados. Parte do capital que estava concentrado em segmentos com valuations mais elevados passou a buscar oportunidades em ativos que haviam ficado para trás no período recente, incluindo software e cripto.
Além disso, houve uma melhora marginal nos fluxos dos ETFs de Bitcoin à vista. Após uma sequência de dez dias consecutivos de saídas, os produtos registraram entrada líquida de aproximadamente US$ 223,5 milhões em 2 de julho. O dado é positivo porque interrompe a deterioração recente, mas ainda não tem magnitude suficiente para sustentar, sozinho, uma leitura mais construtiva.
Fonte: Farside
Para que a recuperação ganhe força e passe a indicar uma retomada mais consistente da tendência de alta, será importante observar a continuidade desses fluxos nos próximos dias.
Strategy reduz risco de cauda, mas muda narrativa
Outro ponto relevante veio da Strategy, empresa de Michael Saylor e maior tesouraria corporativa de Bitcoin do mundo. Depois de semanas de pressão sobre seu modelo de financiamento, a companhia anunciou um novo pacote de gestão de capital que mexe diretamente nos pontos frágeis que vínhamos acompanhando.
A empresa autorizou até US$ 2 bilhões em recompras, sendo US$ 1 bilhão em ações preferenciais e US$ 1 bilhão em ações ordinárias Classe A. Além disso, reforçou sua reserva em dólar para cerca de US$ 2,55 bilhões, valor suficiente para cobrir aproximadamente 17,4 meses de dividendos das preferenciais e juros da dívida. A Strategy também elevou o dividendo anual da STRC para 12%, que passa a valer a partir de 1º de julho de 2026.
O ponto mais sensível, porém, foi a criação de um programa de monetização de Bitcoin. Na prática, a empresa passou a ter autorização para vender parte dos seus BTCs caso a gestão entenda que isso é mais vantajoso do que emitir novas ações ou acessar o mercado de capitais em condições desfavoráveis. Os recursos poderiam ser usados para reforçar a reserva em dólar, pagar dividendos e juros ou financiar recompras.
É importante separar duas coisas. A Strategy não anunciou uma venda imediata de Bitcoin, nem assumiu obrigação de vender. O que mudou foi a abertura formal dessa possibilidade. Ainda assim, a sinalização é relevante porque representa uma mudança de postura em relação à narrativa anterior, muito mais associada à acumulação permanente de BTC.
Por muito tempo, a mensagem de Saylor esteve mais próxima de “compre Bitcoin, nunca venda seus bitcoins”. Agora, o discurso passa a incorporar outro elemento. Ao resumir o pacote, Saylor afirmou que a medida “fortalece o perfil de crédito da Strategy mantendo o bitcoin como principal ativo de reserva do tesouro”. A diferença é sutil, mas importante: a prioridade deixa de ser apenas acumular BTC a qualquer custo e passa a incluir a gestão ativa da estrutura de capital.
Do ponto de vista de mercado, a notícia foi recebida de forma positiva. A ação ordinária ($MSTR em laranja) e as preferenciais (como $STRC em vermelho) voltaram a subir, especialmente porque o pacote reduz parte do risco de cauda que vinha pressionando os papéis. Um balanço com mais caixa, maior cobertura de obrigações e ferramentas de recompra tende a dar mais conforto ao investidor sobre a capacidade da empresa de honrar seus pagamentos.
Fonte: Tradingview
Essa é a parte positiva. O novo plano diminui o risco de uma venda forçada e desordenada de Bitcoin em um cenário de estresse, o que seria muito pior para o mercado. Ao criar uma estrutura mais flexível, a Strategy ganha tempo e reduz a percepção de fragilidade imediata.
Mas isso não transforma a notícia em algo plenamente positivo. O fato de a companhia precisar abrir margem para vender BTC mostra que o modelo não está funcionando como antes. Quando o prêmio da ação diminui, a emissão de capital perde eficiência e o custo das preferenciais sobe, a empresa precisa recorrer a instrumentos defensivos. Em outras palavras, o pacote reduz o risco de curto prazo, mas também confirma que a tese da Strategy entrou em uma fase mais difícil.
Para o Bitcoin, o efeito líquido é ambíguo. De um lado, o mercado retira parte do risco de uma liquidação desordenada. De outro, passa a conviver com a possibilidade de que uma das maiores compradoras históricas do ativo possa, em determinados momentos, atuar também como vendedora. Isso não muda a tese estrutural do Bitcoin, mas adiciona uma camada importante de monitoramento para os próximos meses.
Já não basta “comprar e esquecer”
Esse ponto também reforça uma ideia central para o investidor. O Bitcoin pode continuar sendo um ativo interessante no longo prazo e seus fundamentos seguem sólidos. Ainda assim, a melhor forma de se expor ao ativo nem sempre é simplesmente comprar e esquecer. Em diferentes momentos do ciclo, faz sentido ajustar exposição, preservar caixa e gerir risco conforme os sinais de mercado evoluem.
É exatamente essa lógica que buscamos aplicar na carteira Crypto Momentum, uma forma automatizada de se expor ao mercado cripto pelo BTG Pactual. A estratégia busca capturar os momentos de alta do Bitcoin e, quando o ambiente é favorável, investir em altcoins que estejam apresentando melhor desempenho relativo em relação ao próprio BTC. Em períodos de perda de força do mercado, por outro lado, a carteira pode ampliar a posição em caixa, como ocorre no momento atual.
Até aqui, essa estratégia tem se refletido em uma performance consistente acima do Bitcoin. Para quem busca exposição ao mercado cripto com uma gestão de risco ativa e automatizada, confira a carteira Crypto Momentum aqui:
Portanto, a leitura segue equilibrada. O Bitcoin recuperou uma região técnica importante, as pressões inflacionárias parecem menos intensas, a rotação de capital favoreceu ativos digitais no curto prazo e a Strategy reduziu parte do risco de cauda. Por outro lado, o mercado ainda precifica a possibilidade de juros mais altos em 2026, os fluxos para cripto precisam mostrar mais consistência e a mudança de postura da Strategy confirma que o ciclo segue exigindo disciplina.
Por isso, nossa leitura ainda segue a mesma: o momento continua mais adequado para gestão de risco do que para reconstrução agressiva de posições em altcoins. A recuperação é positiva, mas a confirmação de que o ciclo virou ainda não veio.
O arrefecimento das tensões no Oriente Médio devolveu o apetite por risco aos mercados globais e levou as bolsas norte-americanas novamente às máximas históricas. Para quem investe em criptomoedas, no entanto, ficou a desconfortável sensação de não ter sido convidado para a festa.
Essa divergência não aconteceu por acaso. O Bitcoin (BTC) segue preso às suas próprias fragilidades: saídas persistentes dos ETFs, mineradoras assumindo uma postura mais vendedora e sinais crescentes de desconfiança em relação às empresas que se tornaram algumas das maiores compradoras do ativo neste ciclo. São fatores que pedem cautela e fazem contraponto à melhora do ambiente geopolítico.
Ao mesmo tempo, o BTC está cerca de 50% abaixo do topo registrado em outubro. É justamente quando a queda começa a incomodar que surge a pergunta que compõe o título desta edição: depois de uma correção dessa magnitude, faz sentido comprar agora? A resposta depende menos do preço isoladamente e mais do perfil, do horizonte e da estratégia de quem está fazendo a pergunta.
Nesta edição, analisamos o que mudou — e o que não mudou — com a estreia de Kevin Warsh no comando do Federal Reserve (Fed), porque a faixa atual voltou a despertar interesse do ponto de vista técnico e porque os fundamentos ainda exigem prudência.
Reescrevendo as regras do jogo
Além do acordo firmado entre Irã e Estados Unidos, o mercado acompanhou de perto a primeira reunião do Federal Reserve sob o comando de Kevin Warsh. O FOMC, comitê responsável pela definição dos juros nos Estados Unidos, manteve a taxa entre 3,5% e 3,75%, como amplamente esperado.
Ainda assim, o tom da reunião esteve longe de oferecer alívio aos mercados. A comunicação foi mais dura, com viés hawkish, e veio acompanhada de mudanças relevantes na forma como o banco central pretende orientar os investidores.
Nos últimos anos, o mercado se acostumou a examinar cada frase do Fed em busca de pistas sobre seus próximos passos, prática conhecida como forward guidance. Warsh rompeu com essa tradição: não ofereceu um roteiro para os próximos meses, evitou apresentar sua própria projeção para os juros e reduziu a importância do dot plot — o gráfico em que cada dirigente indica onde acredita que a taxa estará no futuro.
Em tese, essa postura dá ao Fed mais liberdade para reagir aos dados econômicos. Para o mercado, porém, ela reduz a visibilidade sobre a trajetória do “preço do dinheiro” e sobre a própria função de reação do Banco Central. Quando os investidores compreendem menos sobre como as decisões serão tomadas, passam a carregar uma camada adicional de incerteza e, consequentemente, exigem um prêmio maior para permanecer em ativos de risco.
Essa mudança também pesou sobre a performance dos mercados, sobretudo porque veio acompanhada de um pano de fundo que já era pouco favorável. A reunião não provocou uma queda relevante dos juros reais, não ampliou a liquidez do sistema e tampouco enfraqueceu o dólar de maneira estrutural. Além disso, a inflação cheia permanece em 4,2%, ainda distante da meta de 2%.
Para o Bitcoin, isso significa continuar inserido em um ambiente de incerteza e juros mais altos por mais tempo, combinação que aumenta sua dependência de entradas de capital e de catalisadores próprios para sustentar uma recuperação.
O Bitcoin voltou a uma zona decisiva
Do ponto de vista técnico, o cenário melhorou. O Bitcoin recuou até uma região que, em ciclos anteriores, coincidiu com o encerramento das principais quedas: a média de preço paga pelos investidores ao longo dos últimos quatro anos. Agora, o ativo flutua em torno desse nível.
Movimentos semelhantes ocorreram no fim de 2018, durante o choque de março de 2020 e na formação do fundo de 2022.
A profundidade da correção também merece atenção. Desde o pico próximo dos US$ 126 mil, o Bitcoin chegou a acumular uma queda de aproximadamente 50%. É um movimento expressivo, apesar de ainda inferior aos recuos entre 76% e 84% observados no encerramento de ciclos anteriores.
A ressalva é que permanecer nessa região não significa que um piso definitivo tenha sido estabelecido. A melhora técnica torna os preços mais interessantes, sobretudo para quem investe com horizonte mais longo, mas ainda não confirma o início de uma nova tendência de alta.
Nesta fase, o maior risco não está necessariamente em deixar de acertar o fundo exato, mas em perseguir cada repique como se a virada já estivesse consolidada.
Cada ativo que carregue a própria cruz
A melhora do ambiente geopolítico retirou uma fonte importante de pressão dos mercados, mas não resolveu os problemas específicos do Bitcoin. O ativo ainda enfrenta saídas dos ETFs, vendas por parte das mineradoras e sinais de desgaste entre as empresas que construíram grandes tesourarias em cripto. Em conjunto, esses fatores ajudam a explicar por que o Bitcoin não acompanhou o avanço das bolsas norte-americanas.
A inteligência artificial (IA) segue disputando capital
O Bitcoin passou a disputar dinheiro, energia e atenção com uma das principais teses de investimento dos últimos anos: a inteligência artificial. Essa concorrência não significa que o capital institucional tenha abandonado os ativos digitais, mas mostra que, diante de uma alternativa com maior momentum e resultados mais tangíveis, parte dos investidores preferiu trocar de mesa.
A inteligência artificial já faz parte do cotidiano, seus produtos são utilizados em larga escala e seus avanços podem ser acompanhados quase em tempo real. Isso torna a tese mais fácil de compreender e defender, especialmente diante de um Bitcoin que atravessa um período de poucos catalisadores próprios. Essa mudança aparece tanto nos fluxos dos ETFs quanto na estratégia das próprias mineradoras.
Os ETFs de Bitcoin perderam fôlego
Entre meados de maio e o início de junho, os ETFs de Bitcoin negociados nos Estados Unidos registraram sua pior sequência de resgates desde o lançamento, em 2024. Foram treze pregões consecutivos de saídas, somando aproximadamente US$ 4,4 bilhões.
No mesmo período, as ações ligadas à inteligência artificial avançaram com força. O capital institucional não desapareceu, mas encontrou uma alternativa mais atraente no curto prazo.
Treze pregões consecutivos de saídas dos ETFs de Bitcoin
Fonte: Farside Investors
As mineradoras estão mudando de lado
As mineradoras também deixaram de exercer o mesmo papel de sustentação observado em outros momentos do ciclo. Empresas que antes conseguiam manter parte relevante dos Bitcoins produzidos passaram a vender suas reservas com maior frequência.
A compressão das margens passa, antes de tudo, pelo halving, evento programado que ocorre aproximadamente a cada quatro anos e reduz pela metade a quantidade de Bitcoin recebida por bloco. Com menos BTC entrando no caixa e um preço que também não tem colaborado, a receita das mineradoras fica pressionada. Ao mesmo tempo, os custos com energia, equipamentos e manutenção continuam elevados, comprimindo ainda mais a rentabilidade do setor.
Diante desse aperto, vender parte da produção e das reservas deixou de ser apenas uma escolha e passou a ser uma necessidade para muitas empresas. A pressão aumenta com a corrida pela inteligência artificial: algumas mineradoras perceberam que sua infraestrutura energética e seus centros de processamento podem gerar retornos mais atraentes quando direcionados aos data centers.
Para manter as operações e financiar essa transição, o setor já vendeu mais de 15 mil Bitcoins. Assim, agentes que antes funcionavam como acumuladores estruturais passaram a adicionar oferta em um momento de demanda mais fraca.
As tesourarias de cripto começaram a despertar dúvidas
Outro ponto de atenção são as DATs, empresas que levantam dinheiro no mercado para comprar e manter criptoativos em caixa. Durante boa parte do ciclo, elas funcionaram como uma fonte importante de demanda. Esse movimento, porém, perdeu força: o valor de seus ativos caiu de aproximadamente US$ 220 bilhões para US$ 140 bilhões, e poucas companhias ainda conseguem captar novos recursos com facilidade.
A maior delas é a Strategy, de Michael Saylor. Seu modelo consiste, de forma simplificada, em emitir ações e outros papéis para levantar dinheiro e comprar mais Bitcoin. Enquanto o mercado confia nessa estratégia e aceita continuar financiando a empresa, o mecanismo se retroalimenta.
O problema é que essa confiança começou a enfraquecer. Um dos sinais veio da Stretch (STRC), ação preferencial da Strategy que paga dividendos de 11,5% ao ano. Mesmo oferecendo esse retorno elevado, o papel caiu para perto de sua mínima histórica e passou a negociar abaixo do valor pelo qual foi emitido.
Isso não significa que a Strategy esteja prestes a vender seus Bitcoins. Mostra, porém, que o mercado passou a questionar se esse modelo é sustentável no longo prazo. Caso a desconfiança aumente, a empresa pode encontrar mais dificuldade para captar dinheiro, reduzir suas compras e, em um cenário mais extremo, precisar vender parte das reservas para cumprir suas obrigações.
Esse risco ainda não se concretizou, mas merece atenção. A Strategy foi o maior comprador marginal de Bitcoin dos últimos anos. Se ela deixasse de comprar — ou passasse a vender —, o mercado perderia uma fonte relevante de demanda e receberia uma nova pressão de oferta. Isso poderia provocar uma queda no preço, fragilizar outras empresas que adotaram a mesma estratégia e criar um efeito em cadeia.
O futuro regulatório já não está mais tão “claro”
O CLARITY Act é o principal projeto para encerrar a zona cinzenta regulatória do mercado cripto nos Estados Unidos, definindo com mais clareza as atribuições da SEC e da CFTC. A proposta avançou na Câmara e no Comitê Bancário do Senado, mas ainda precisa conciliar diferentes versões do texto, reunir 60 votos e resolver divergências sobre as salvaguardas exigidas pelos democratas.
O impasse deixou de ser apenas técnico e passou a ser político. Com poucas semanas de atividade no Senado antes do recesso de agosto, o tempo joga contra. Cynthia Lummis, uma das principais defensoras do setor, alertou que, caso o projeto não seja aprovado neste ano, a discussão pode ficar fora da agenda até 2030.
Por enquanto, portanto, a aprovação continua próxima de um cara ou coroa — importante demais para ser ignorada, mas incerta demais para ser tratada como cenário-base.
Um risco distante, mas que entrou no radar
A computação quântica ainda é um risco de cauda, com horizonte de vários anos, mas deixou de ser apenas uma discussão teórica. Uma máquina suficientemente avançada poderia, no futuro, reconstruir chaves privadas a partir de informações já expostas na blockchain, colocando em risco milhões de Bitcoins.
Isso não significa que a rede esteja próxima de ser quebrada. O ponto de atenção está na velocidade dos avanços e no tempo necessário para migrar o Bitcoin para padrões de segurança resistentes à computação quântica.
A inteligência artificial adiciona outra camada a essa discussão. Ela pode acelerar a pesquisa de novos materiais, o desenho de chips, a correção de erros e a busca por formas mais eficientes de operar computadores quânticos. Em outras palavras, a IA não quebra a criptografia do Bitcoin diretamente, mas pode encurtar o caminho até máquinas capazes de fazê-lo.
O tema ganhou relevância porque estimativas recentes reduziram significativamente o número de qubits necessários para um ataque, enquanto instituições como BlackRock e Morgan Stanley passaram a mencionar esse risco nos prospectos de seus ETFs. A ameaça ainda não é imediata, mas, diante da combinação entre avanços quânticos e inteligência artificial, o relógio para preparar a transição pode correr mais rápido do que se imaginava.
Vale a pena comprar Bitcoin agora?
Para quem ainda não investe em Bitcoin ou pretende aumentar sua exposição com um horizonte de prazo mais alongado, pelo menos 12 meses, as faixas atuais começam a oferecer pontos interessantes para novos aportes.
Isso não significa, porém, que seja o momento de entrar com todo o capital de uma só vez. No curto prazo, os fundamentos ainda abrem margem para uma nova correção, rumo à região dos US$ 50 mil em caso de perda da zona atual em torno dos US$ 60 mil.
Por isso, a estratégia mais equilibrada passa por compras fracionadas. Dessa forma, o investidor começa a montar posição em uma região tecnicamente relevante, mas preserva capital para aproveitar preços mais baixos caso o cenário volte a se deteriorar.
Em outras palavras, não é preciso acertar o fundo exato. O mais importante é construir a posição de maneira gradual, respeitando o horizonte de investimento e a possibilidade de novas oscilações pelo caminho.
O cenário macro pouco mudou desde nossa última edição. O Bitcoin segue em lateralização, testando a faixa dos US$ 60 mil, região técnica mais importante deste ciclo, defendida em fevereiro e novamente colocada à prova agora.
No curtíssimo prazo, a queda foi aliviada por dois fatores: um CPI americano marginalmente melhor do que o esperado no núcleo, que reduziu parte da pressão imediata sobre os juros, e uma nova declaração de Donald Trump de que um acordo de paz com o Irã estaria próximo, reacendendo a expectativa de normalização gradual do Estreito de Ormuz e derrubando o petróleo.
Mas o alívio ainda é frágil. Segundo levantamento da CNN, esta foi a 39ª vez que Trump afirmou que um acordo estaria próximo desde o início do conflito e, até aqui, nenhuma das promessas anteriores se concretizou. Ao mesmo tempo, a inflação segue acima da meta do Fed, enquanto o Banco Central Europeu elevou juros nesta semana pela primeira vez desde 2023.
Nesta edição, explicamos por que esse conjunto ajuda a sustentar o Bitcoin acima dos US$ 60 mil no curto prazo, mas ainda não basta para falar em virada de tendência — e o que fazer com o portfólio nesse meio-tempo.
Macro: alívio no petróleo, mas inflação ainda resistente
No curtíssimo prazo, o principal alívio para os mercados veio do petróleo. O brent, principal referência internacional da commodity, voltou a recuar e segue formando fundos mais baixos. Esse movimento sugere que o mercado continua retirando parte do prêmio geopolítico incorporado desde a escalada no Oriente Médio.
A leitura por trás desse ajuste é simples. Apesar dos percalços e da ausência de um acordo formal, o cenário-base ainda parece ser o de uma resolução gradual do conflito. A expectativa de normalização do Estreito de Ormuz reduz o risco de um choque prolongado de energia, o que ajuda a aliviar as expectativas de inflação e, por consequência, parte da pressão sobre os juros.
Isso não elimina o risco geopolítico nem muda, sozinho, o pano de fundo macroeconômico. Mas ajuda a explicar por que os ativos de risco ganharam fôlego nos últimos dias — e por que o Bitcoin conseguiu, ao menos por ora, defender a região dos US$ 60 mil.
Petróleo Brent — formação de fundos mais baixos
Fonte: TradingView
Ainda assim, o quadro inflacionário segue desconfortável. O CPI americano de maio veio marginalmente melhor no núcleo, medida que exclui itens mais voláteis, como alimentos e energia. Mas a composição do dado ainda não foi suficiente para alterar a leitura de médio prazo. Componentes mais persistentes, como moradia e serviços médicos, seguem pressionados, enquanto o índice cheio permanece distante da meta de 2% do Federal Reserve.
Um dado isolado ajuda a reduzir a pressão imediata sobre os juros, mas não resolve o problema. Enquanto a inflação continuar persistente, o mercado seguirá convivendo com a expectativa de juros altos por mais tempo e, no limite, com a discussão sobre novas altas.
Essa dinâmica não está restrita aos Estados Unidos. Nesta semana, o Banco Central Europeu elevou os juros em 25 pontos-base, levando a taxa de depósito para 2,25% — a primeira alta desde 2023. O movimento refletiu a combinação de inflação ainda acima da meta, energia pressionada e risco de contaminação para componentes mais persistentes da economia.
Em resumo, o alívio recente melhora o ambiente de curto prazo, mas ainda não muda o quadro principal. Liquidez global segue pressionada, e ainda há pouca visibilidade sobre quando as condições financeiras voltarão a melhorar de forma consistente. Para o Bitcoin e, por consequência, para o mercado cripto, esse segue sendo um dos fatores centrais a monitorar.
O que isso significa para o Bitcoin (BTC)?
Para o Bitcoin, a mensagem principal é que ainda há espaço para repiques, mas não há confirmação de uma nova tendência de alta.
O ativo segue negociando em uma região decisiva. A faixa dos US$ 60 mil tem funcionado como ponto de defesa relevante e conversa com o antigo topo do ciclo de 2021, uma referência técnica importante para o mercado. Enquanto esse nível for preservado, o cenário mais provável continua sendo de lateralização, com movimentos alternados de recuperação e realização.
É por isso que nossos modelos seguem apontando para um regime de reversão à média. Em vez de uma tendência clara, o Bitcoin ainda opera dentro de uma faixa ampla de preços. Nesses momentos, o risco não está apenas em cair, mas também em comprar repiques como se fossem o início de uma nova pernada de alta.
Caso os US$ 60 mil sejam perdidos, o próximo suporte relevante aparece próximo dos US$ 50 mil. Com as informações disponíveis hoje, essa faixa aparece como uma candidata natural a marcar uma região de fundo caso a correção se aprofunde.
Por isso, a postura recomendada segue sendo de cautela. Faz sentido manter caixa, reduzir exposição a ativos mais voláteis e concentrar a parte cripto da carteira em nomes de maior qualidade e liquidez, com o Bitcoin ocupando papel central.
Para o investidor de longo prazo, porém, a região atual já começa a oferecer uma janela interessante para compras fracionadas. O Bitcoin foi um dos melhores ativos da última década e, para quem acredita no crescimento estrutural dos ativos digitais, momentos de estresse como o atual podem abrir boas oportunidades de entrada gradual.
Para quem busca exposição a esse mercado, a carteira Crypto Momentum tem se mostrado, até o momento, uma opção ainda mais interessante que o próprio Bitcoin. A estratégia é tão simples quanto comprar BTC, mas conta com gestão ativa de risco e seleção criteriosa de ativos. Desde o lançamento, tem superado com consistência o Bitcoin.
No front regulatório, a semana trouxe um capítulo frustrante para o projeto mais importante do setor nos Estados Unidos.
O Clarity Act — legislação que moderniza a estrutura regulatória de ativos digitais americana, cobrindo stablecoins, estrutura de mercado e tributação — travou em mais um impasse, dessa vez ético. Um grupo bipartidário tentou incluir no texto uma provisão que permitiria os procuradores-gerais estaduais processarem o Departamento de Justiça caso esse não aplicasse normas éticas relacionadas aos negócios cripto do próprio presidente Trump, estimados em US$ 2,3 bilhões.
Os republicanos recuaram de imediato, alegando que a medida seria constitucionalmente problemática, e a reunião de negociação terminou sem acordo.
O relógio corre contra o setor. Restam apenas 31 dias de sessão legislativa antes do recesso de agosto, prazo informal que o próprio mercado usa como referência. Se o projeto não avançar até lá, corre o risco de ser engolido pela agenda do segundo semestre, tipicamente dominada por disputas orçamentárias.
O projeto segue bipartidário no espírito e tecnicamente avançado, tão perto quanto nunca esteve. Mas a política cripto nos EUA é inseparável da política americana em geral, e o desfecho das próximas semanas será decisivo. Hoje, os mercados de previsão atribuem 49% de chance para o Clarity Act ser sancionado ainda em 2026. Na prática, a probabilidade de aprovação se aproxima do resultado de jogar uma moeda para cima.
Fonte: Polymarket
Diante dos impasses recentes e a corrida contra o tempo, nosso viés passa a ser neutro/pessimista. A legislação ainda pode avançar, mas o equilíbrio de probabilidades já não permite tratar a aprovação neste ano como cenário-base, o que reforça o momento de cautela.
Nas últimas duas semanas, o Bitcoin devolveu os ganhos acumulados desde o início de abril, pressionado por dados de atividade e emprego que reforçaram a percepção de que os juros podem permanecer elevados por mais tempo. Ao mesmo tempo, a inflação segue sem dar sinais claros de arrefecimento, o que aumentou a cautela dos investidores em relação aos ativos de risco.
Dessa vez, o movimento foi forte o suficiente para reacender também o debate sobre o preço esticado das ações de tecnologia, que vinham sustentando as bolsas norte-americanas em novas máximas sucessivas, mas que agora passam por um processo de correção.
Diante disso, o principal criptoativo do mercado voltou a negociar em uma região decisiva: a faixa dos US$ 60 mil, mesmo nível defendido em meados de fevereiro e ponto mais baixo registrado nesse ano.
Nesta edição, explicamos o que está por trás dessa correção e por que, enquanto as estratégias direcionais ainda não encontram suporte suficiente para uma decisão mais robusta, uma abordagem alternativa vem se destacando. Trata-se de um método que tem entregado resultados consistentes mesmo em meio às adversidades do cenário atual.
“O Bit não venceu”
Historicamente, o Bitcoin apresenta correlação relevante com a bolsa norte-americana, especialmente com os ativos de tecnologia. Em períodos de maior apetite ao risco, os dois mercados costumam subir juntos; em momentos de aversão, ambos tendem a sofrer. Nas últimas semanas, porém, essa dinâmica perdeu força: a bolsa seguiu sustentada pelas empresas de tecnologia, enquanto o Bitcoin passou a refletir com mais intensidade o aperto das condições financeiras.
S&P 500 (em vermelho) vs. Bitcoin (em azul) com volatilidade ajustada ao risco
Fonte: Tradingview
A dinâmica dos juros reais, já comentada em edições anteriores, ajuda a explicar a divergência. Quando a inflação segue resistente e a economia continua forte, o Federal Reserve tem menos espaço para cortar juros. O mercado passa a precificar juros altos por mais tempo, o que eleva os juros reais, isto é, os juros já descontados da inflação. Esse movimento costuma pesar sobre ativos de risco como um todo, porque torna as alternativas mais conservadoras relativamente mais atrativas.
No caso do Bitcoin, o impacto tende a ser ainda mais direto. Diferente de uma empresa, o BTC não tem lucro nem paga dividendos, seu valor é exclusivamente expectativa de preço futuro. Por isso ele se comporta como um barômetro de liquidez, altamente sensível ao apetite por risco.
A bolsa, por outro lado, tem contado com um amortecedor que o Bitcoin não possui: a força do ciclo de IA. As empresas de tecnologia seguem entregando resultados fortes, analistas continuam revisando projeções de lucro para cima e grandes companhias anunciam investimentos bilionários em infraestrutura.
Mesmo com juros reais mais altos, parte do mercado acionário se sustenta porque os lucros esperados também sobem. O Bitcoin não tem lucro a ser revisado nem fluxo de caixa para justificar uma reprecificação positiva, então, quando as condições financeiras apertam, ele sente o golpe primeiro.
É natural que, nesse ambiente, parte do capital global migre para onde o momentum está mais claro. Neste momento, esse fluxo favorece a bolsa, especialmente os ativos ligados à IA, em detrimento do Bitcoin. A rotação também aparece nos ETFs, que vêm registrando saídas expressivas desde o começo de maio.
Fluxos nos ETFs de Bitcoin
Fonte: Farside
Análise Macroeconômica
A dinâmica descrita acima foi reforçada pelos dados divulgados ao longo desta semana. Em conjunto, eles apontam para uma economia americana ainda resiliente, com atividade firme e mercado de trabalho aquecido, exatamente o tipo de cenário que reduz o espaço para cortes de juros e mantém os juros reais pressionados para cima.
Começamos pelos PMIs. Tanto o índice de atividade manufatureira (ISM Manufacturing, em 54,0 contra 53 esperados) quanto o de serviços (ISM Services, em 54,5 contra 53,8 esperados) vieram acima do consenso, sinalizando aceleração da atividade econômica.
Fonte: Tradingeconomics
Mas o dado mais importante veio nesta sexta-feira, 5 de junho: o relatório de emprego (non-farm payroll) e a taxa de desemprego. O payroll veio muito mais forte do que o mercado esperava — 172 mil vagas criadas contra um consenso de apenas 85 mil — enquanto a taxa de desemprego ficou estável em 4,3%.
Fonte: Tradingeconomics
No conjunto, esses números intensificam a dinâmica que vem pressionando o Bitcoin. Uma economia mais resiliente empurra os juros nominais para cima, à medida que o mercado passa a precificar uma inflação mais persistente. Com isso, o Federal Reserve ganha ainda menos espaço para cortar juros: o preço do dinheiro sobe e os títulos de renda fixa passam a se tornar relativamente mais atrativos.
O resultado é que, na margem, até a bolsa americana, que vinha sustentada pelo ciclo de IA, começou a dar sinais de cansaço. Para o Bitcoin, que não tem lucro nem fluxo de caixa para se defender, o efeito é mais direto.
Como buscar retorno em cripto em qualquer cenário de mercado
Esse cenário reforça um ponto importante: nem todo momento de mercado favorece estratégias direcionais. Quando o Bitcoin perde tendência, a liquidez fica mais restrita e os juros reais sobem, tentar capturar altas em altcoins se torna uma tarefa mais difícil e arriscada.
Nesses períodos, assim como já vínhamos comentando nas últimas semanas, a resposta natural das carteiras à vista costuma ser reduzir exposição, aumentar caixa e preservar capital até que os sinais de retomada fiquem mais claros. Isso faz sentido do ponto de vista de risco, mas também cria uma dúvida para o investidor: como continuar buscando retorno quando o mercado não oferece uma direção clara?
É aqui que entram estratégias não direcionais, como o long and short. Em vez de depender apenas da alta do mercado, esse tipo de estratégia busca capturar a diferença de desempenho entre dois ativos: fica comprada no ativo com melhor potencial relativo e vendida naquele com pior perspectiva.
Na prática, isso significa que a estratégia pode gerar resultado mesmo em mercados laterais ou de queda, desde que o ativo comprado tenha um desempenho melhor do que o ativo vendido. Ou seja, o foco deixa de ser acertar se o mercado vai subir ou cair e passa a ser identificar quais ativos devem se comportar melhor em relação aos outros.
É exatamente essa lógica que está por trás do Delta IA.
Apresentando o Delta IA
A estratégia opera de forma automática, buscando oportunidades relativas no mercado cripto com uma abordagem sistemática, disciplinada e menos dependente da próxima grande pernada de alta do Bitcoin ou das altcoins.
O desempenho recente ajuda a ilustrar essa diferença. Desde o início do acompanhamento (15/05/2026 – 04/06/2026), enquanto o Bitcoin acumula queda de 19,32%, o Delta IA registra alta de 5,59%, entregando resultado positivo mesmo em um período de forte pressão para o mercado.
Fonte: Empiricus Cripto
Em um ambiente em que simplesmente “comprar e esperar” deixou de ser suficiente, o Delta IA surge como uma alternativa para continuar buscando retorno mesmo quando o mercado perde direção.