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Qualidade de vida que pulsa pelos caminhos ao ar livre

6 de Maio de 2026, 17:14
Qualidade de vida que pulsa
pelos caminhos ao ar livre

Praças convidam a pequenas pausas, e áreas verdes servem de abrigo, respiro e oportunidade para praticar atividade física

Para quem chega, é o corpo que percebe primeiro. Ao cruzar as entradas da Unicamp no campus de Barão Geraldo, mais do que prédios e salas de aula, entre a natureza e o movimento, são os caminhos arborizados que convidam a pequenas pausas. Nesse instante inaugural, antes de oferecer conhecimento, a Universidade pulsa como abrigo e respiro.

Em meio ao concreto, o campus se afirma como uma “ilha verde”. Vista do alto, a área da Unicamp se desenha como uma natureza que resiste; ao nível do chão, esse traço se transforma em experiência, com saguis nas copas das árvores e o canto das aves que, por instantes, suspende o ruído da cidade. Ao longo do dia, a Universidade se reinventa nos usos. Os parques se tornam trajetos de caminhada e corrida no final da jornada diária; bicicletas cruzam as vias em fluxo contínuo e, sob as árvores, grupos se reúnem em piqueniques improvisados.

Parte desse cenário é resultado de um trabalho contínuo de gestão ambiental, que envolve desde o cuidado com animais até o planejamento das áreas verdes e a preservação da biodiversidade. O prefeito universitário, Juliano Finelli, ressalta que, além de garantir o funcionamento do campus, a Prefeitura foca na qualidade de vida da comunidade. “A nossa preocupação é oferecer um ambiente acolhedor, seguro e agradável, onde as pessoas possam viver o campus, circular, estudar, trabalhar e conviver.”

Caminho arborizado em parque urbano com árvores de flores vermelhas formando um corredor natural, onde pessoas caminham e circulam de bicicleta sobre o solo de terra batida, cercado por gramado verde e com veículos visíveis ao fundo.
Caminho arborizado em parque com palmeiras em ambos os lados, onde uma pessoa pedala bicicleta em primeiro plano e outras pessoas caminham ao fundo em um dia ensolarado.
Criança de costas balançando em um balanço de madeira em um parque com gramado verde, árvores e veículos estacionados ao fundo, enquanto outra pessoa caminha em segundo plano.
Pessoa praticando slackline em um parque arborizado, equilibrando-se sobre uma fita suspensa entre árvores, com vegetação ao redor e edificações ao fundo.
Parte do cenário é resultado de um trabalho contínuo de gestão ambiental

Entre institutos e vias, a vegetação compõe um mosaico de origens diversas, com espécies da Mata Atlântica e do Cerrado, que convivem com árvores trazidas de outros territórios ao longo das décadas. Ipês que explodem em cor, jerivás que se erguem esguios, pitangueiras e mangueiras, além de muitas outras árvores frutíferas, oferecem frutos e sombra.

Maria Gineusa de Medeiros e Souza, coordenadora da Divisão de Meio Ambiente da Prefeitura Universitária, destaca que a Universidade mantém um levantamento sistemático da fauna e flora. Mas ressalta que, mais do que infraestrutura, o campus também desperta vínculos afetivos. “As árvores, por exemplo, compõem uma paisagem que carrega histórias.”

Pelo menos 17 mil árvores ocupam ruas, praças e unidades de ensino que, junto com os cerca de 500 mil metros quadrados de áreas de preservação ambiental, fazem da natureza uma presença constante que molda o clima, o ar e a forma como se habita o espaço. Segundo a coordenadora de serviços das áreas verdes da Prefeitura Universitária, Camila Alonso Santos, as áreas de preservação permanente estão consolidadas, mas exigem cuidados e planejamento. “Esses espaços são essenciais para a fauna silvestre, que circula por todo o campus. A diversidade de árvores e de abrigo também favorece a permanência da fauna, mesmo em um ambiente urbano.”

Da fauna silvestre, aves, insetos e pequenos mamíferos encontram abrigo e alimento nas áreas verdes. Nas partes preservadas e no entorno, surgem sinais de presenças mais discretas: veados, cachorros-do-mato e até rastros de passagem da tão temida onça, já flagrada pelas câmeras de monitoramento. Mais do que apenas refúgio, o campus é um corredor ecológico que permite que a vida circule.

Pessoa abraçando o tronco de uma árvore em um parque arborizado, sorrindo para a câmera, vestindo blusa azul e saia estampada com flores coloridas.
Pessoa com cabelos longos e óculos escuros, vestindo blusa floral colorida, toca o tronco de uma árvore em um parque arborizado com gramado verde e caminho de terra ao fundo.
À esquerda, a coordenadora de serviços das áreas verdes da Prefeitura Universitária, Camila Alonso Santos e, à direita, a coordenadora da Divisão de Meio Ambiente da Prefeitura Universitária Maria Gineusa de Medeiros e Souza

Floresta urbana

Aproximadamente 10 mil árvores do campus já foram cadastradas em um sistema acessível ao público, por meio do site Floresta Urbana Dentro do projeto está o Pomar da Unicamp, criado em outubro de 2025 pelo servidor público e ambientalista Helio Cavalheri Jr., com o apoio da Prefeitura Universitária. Mais do que um simples catálogo, a plataforma foi concebida como uma ferramenta de educação ambiental, voltada à divulgação das espécies frutíferas existentes no campus.

Antes de se tornar projeto, site e mapeamento, no entanto, tudo começou pelo encantamento. Para Cavalheri Jr., a relação com a Unicamp nasceu do olhar, e esse olhar foi imediatamente atraído pelas árvores. Quando ingressou pela primeira vez na Universidade, em 2012, o que mais o impressionou não foram os prédios ou as vias do campus, mas a quantidade e a diversidade de espécies encontradas pelo caminho, especialmente as frutíferas. “Assim que eu pisei aqui, a primeira coisa que me encantou foi a diversidade gigantesca de espécies, muitas das quais eu só tinha visto em livro.” O fascínio nasceu nos trajetos mais simples, nas caminhadas até o Restaurante Universitário, durante o horário de almoço.

Cavalheri Jr. deixou a Universidade em 2016, mas, sete anos depois, estava de volta e retomou sua pesquisa pessoal, que deu origem ao projeto Floresta Urbana. O trabalho, iniciado de forma independente, ganhou continuidade e avança sistematicamente, mapeando as árvores do campus de Barão Geraldo e se estendendo aos campi de Limeira e Piracicaba.

Pessoa de óculos e camiseta amarela estende o braço para colher frutos de uma árvore em ambiente externo arborizado durante o dia.
O ambientalista Helio Cavalheri Jr.: diversidade gigantesco de espécies

Em uma das primeiras ações do projeto, Cavalheri Jr. transformou a curiosidade em experiência compartilhada. Criou plaquetas com QR codes e as instalou junto às árvores, de modo que qualquer pessoa pudesse, ao apontar o celular, descobrir a história daquela espécie — seu nome, origem, se era nativa ou exótica, e até se oferecia frutos comestíveis. O gesto, inicialmente feito de forma artesanal e com recursos próprios, tornou-se o embrião do sistema de mapeamento que hoje se expande pelo campus.

Entre todas as espécies, são as frutíferas que ocupam um lugar especial em sua memória e em sua paixão. Ao descrever a ameixa-da-mata, por exemplo, ele prefere traduzi-la em experiência: o sabor, diz, lembra uma mistura de jabuticaba com pitanga. Esse vínculo também se expressa no cuidado cotidiano. Preocupado com árvores que vinham sendo danificadas pela roçadeira durante a manutenção das áreas verdes, ele decidiu agir por conta própria, abrindo espaço ao redor dos troncos e protegendo espécies nativas e frutíferas.

Mais do que frutos, ele enxerga nessas árvores uma forma de educação ambiental e de pertencimento. “Quando a pessoa sabe que aquela é uma espécie frutífera, nativa, importante para os pássaros e para os mamíferos, ela passa a olhar diferente”, afirma. Ao percorrer o campus, Cavalheri Jr. observa não apenas a presença das árvores, mas a vida que elas sustentam. Frutíferas como grumixama, cajá-manga, tamarindo, abiu e ameixa-da-mata atraem pássaros, saguis e outros animais. “Onde tem fruta, tem vida.”

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Os vários modos de habitar o espaço

Quadra poliesportiva coberta com piso azul e laranja, rede de vôlei instalada ao centro, e uma pessoa em pé próxima à rede, sob estrutura metálica com iluminação artificial e cobertura translúcida.
Vista aérea de um complexo esportivo contendo múltiplas quadras poliesportivas com superfície verde e laranja, três quadras de tênis com piso verde cercadas por área laranja, uma quadra de areia, além de estacionamento, áreas arborizadas e edificações adjacentes.
O campus pode ser um espaço para prática de atividade física e lazer

A natureza convida à pausa, e o corpo em movimento prolonga essa experiência. Caminhar, correr ou pedalar deixam de ser apenas deslocamento para compor os modos de habitar o espaço. É nesse território entre o cotidiano e suas possibilidades que a Diretoria de Esportes da Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (Proeec) busca atuar.

Mais do que ampliar a oferta de atividades, o desafio está em transformar a relação da comunidade com o campus e fazer com que ele seja vivido também como lugar de cuidado e bem-estar. “A ideia é que as pessoas se apropriem do campus como um espaço para prática de atividade física e lazer”, destaca o diretor de Esportes da Proeec, Renato Barroso da Silva.

Pessoa sorrindo com os braços cruzados, vestindo camiseta na cor vinho, em ambiente externo com vegetação ao fundo desfocado.
O diretor de Esportes da Proeec, Renato Barroso da Silva: lugar de cuidado e bem-estar

“O campus não é só um lugar para estudar e ir embora. Ele pode ser um espaço de convivência, de qualidade de vida. Hoje, esse uso já existe, mas de forma dispersa, e permanece como gesto individual, não plenamente incorporado à cultura universitária”, ressalta.

O engajamento segue como um dos principais desafios. “Não é falta de interesse, mas muitas vezes as pessoas não se veem nesses espaços ou não sabem que podem participar”, avalia. Apesar das dificuldades, a expectativa é de avanço gradual na consolidação de uma política esportiva mais abrangente na universidade. “Estamos construindo isso aos poucos, tanto do ponto de vista institucional quanto cultural”, conclui.

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Foto de capa:

Pessoa praticando corrida em um caminho de terra cercado por árvores e vegetação em um parque arborizado durante o dia.
Em meio ao concreto, o campus se afirma como uma “ilha verde”

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Aborto legal é direito à dignidade para vítimas de violência sexual

17 de Abril de 2026, 15:46

Aborto legal é direito à dignidade para vítimas de violência sexual

OMS preconiza informações sobre interrupção da gravidez e atendimento seguro às mulheres

A assistente social Bárbara Regina Daolio está preparada para receber as mais diversas situações no Ambulatório de Violência Sexual do Hospital da Mulher Prof. Dr. José Aristodemo Pinotti – Caism Unicamp, mas alguns dias são mais difíceis que outros: “A pessoa mais jovem que eu atendi foi uma menina de 10 anos. Ela ficou grávida de um conhecido da família, que vivia no mesmo ambiente. A criança nem entendia o que, de fato, estava acontecendo”, lamenta.

O Código Penal Brasileiro permite a realização do aborto em três situações: gravidez decorrente de estupro e estupro de vulnerável (o que inclui relações sexuais com menores de 14 anos), risco de morte para a mulher em decorrência da gestação, e casos de anencefalia fetal.

A assistente social Bárbara Regina Daolio: revolta em se reconhecer como vítima
A assistente social Bárbara Regina Daolio: revolta em se reconhecer como vítima

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os sistemas de saúde de cada país devem se adequar e garantir informações sobre os casos em que a interrupção da gravidez seja permitida e possibilitar atendimento humanizado e digno às mulheres nessa condição antes, durante e depois do aborto.

Para José Paulo de Siqueira Guida, professor do Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp e coordenador do Ambulatório de Violência Sexual do Caism, oferecer esse procedimento, amparado pela lei, é um ato de respeito ao ser humano. “É constante vermos medidas para tentar impedir [a prática do aborto nas situações previstas em lei], mas aqui nós buscamos entender que isso não é uma questão política, mas um direito humano da nossa paciente”, diz ele. “Não me coloco como uma pessoa a favor do aborto; ninguém é a favor disso. O que buscamos fazer é reduzir os danos de algo que foi muito ruim, como a violência sexual, e a partir disso buscar meios para que a pessoa volte à sua vida normal”, aponta o médico.

O professor José Paulo de Siqueira Guida, coordenador do Ambulatório de Violência Sexual do Caism: direito humano da paciente
O professor José Paulo de Siqueira Guida: direito humano da paciente

Guida ressalta a importância de um debate honesto sobre o tema: “Temos que ser pragmáticos. Muitas pessoas são contra o aborto, mas não veem problema em minimizar a violência sexual. O aborto [fora dos casos previstos na legislação] é proibido no Brasil, mas ele é realizado. Se você tiver dinheiro, faz com segurança em clínicas particulares de bairros nobres. Se não tiver, recorre a locais clandestinos, e a chance de morrer existe. Isso é algo muito linear: quem tem dinheiro não morre”, afirma.

O coordenador do Ambulatório de Violência Sexual do Caism informa que as pacientes de 12 e 13 anos de idade, por exemplo, são vítimas habituais de abuso familiar (por pai ou padrasto), sem distinção de classe social. “Eu, particularmente, acho que crimes sexuais são falhas muito graves de caráter. Como é possível uma pessoa achar que tem poder sobre outro corpo? Sempre é uma história difícil”, afirma.

Gestação

Daolio também vê com preocupação o aumento do número de atendimentos de mulheres agredidas durante a gestação. “Cada pessoa chega aqui de uma forma, mas o que percebemos em todas elas é a sensação de culpa. Existe a revolta em se reconhecer enquanto vítima de uma violência que ela não provocou. Mas a sociedade questiona muito a roupa usada, o fato de a mulher sair à noite e consumir bebida alcoólica, por exemplo. Sempre procuramos trabalhar na responsabilização do agressor e não na culpabilização da vítima”, esclarece a profissional.

fechamento para retranca

Atendimento multidisciplinar oferece espaço protegido para as mulheres

Lidar com a saúde da mulher requer um trabalho multidisciplinar que garanta atendimento rápido, orientação, discrição e, tão importante quanto, afeto. José Paulo Guida mostra que o hospital oferece um espaço protegido para receber as pacientes.

“Fazemos a prevenção de HIV e das diversas infecções transmissíveis; prevenir gravidez e possíveis agravos também. A saúde mental é um ponto importante. E quanto mais rápido essa mulher chega, maior é a chance de a gente intervir rapidamente e evitar complicações”, afirma o médico.

Nos casos que envolvem violência, a atuação é feita com bastante cuidado e respeito à história de cada paciente. Até mesmo um momento de troca de experiências é incentivado. Muitas vezes, esse ambiente permite que situações internalizadas apareçam. “A gente tem buscado fazer algum tipo de interação de grupo, e essa troca entre as mulheres fortalece demais essa liberdade para falar”, afirma o médico. “Os residentes e alunos de graduação são treinados para perguntar ativamente. São mulheres que chegam com alguma lesão que pode ser a ponta do iceberg”, acrescenta Guida.

Boletim de Ocorrência

O registro de boletins de ocorrência é incentivado como uma forma de garantir direitos à paciente, mas isso não é obrigatório para nenhuma forma de atendimento. O prontuário é um meio de prova que pode ser utilizado após ordem judicial, e o Caism conta com toda uma cadeia de custódia para garantir a validade jurídica dos elementos colhidos nos atendimentos iniciais. “O laudo da agressão é uma prova muito consistente. Já houve casos em que agressores acabaram sendo condenados em função de material que foi coletado. Enfim, o registro do BO por aqui pode ser mais um canal de proteção”, opina o médico.

fechamento da retranca
fechamento da retranca

Distância e deslocamento são desafios para as mulheres mais vulneráveis

Guida aponta um desafio que o Caism tentará enfrentar de forma mais efetiva a partir de agora: a distância física do hospital em relação aos bairros mais carentes de Campinas e região.

A questão é fundamental porque é na periferia que está a maior parte dos registros – e consequente, maior subnotificação – dos casos de violência contra a mulher.

“A gente sabe que Campinas é uma cidade muito grande e que, talvez, as mulheres em maior vulnerabilidade estejam em locais mais distantes do distrito de Barão Geraldo, onde o Caism está localizado. A distância é um impeditivo para elas. Sair de um lugar tão distante é difícil. O ideal, realmente, é que as políticas sejam descentralizadas”, avalia Guida.

O médico afirma que representantes do Caism têm mantido conversas com diversas Prefeituras para que haja um atendimento inicial mais assertivo nas Unidades Básicas de Saúde. “A mulher que chega aqui no Caism é aquela que conseguiu superar uma barreira, que passou pelo estupro, pela violência sexual. Ela teve coragem de chegar até aqui. Não é uma decisão fácil. Talvez mulheres mais vulneráveis ainda não estejam chegando, e a gente precisa pensar de que forma podemos fazer isso. O caminho mais adequado seria conseguirmos treinar mais gente para atender mais locais. Estamos falando do estado de São Paulo inteiro”, afirma.

Por outro lado, Guida lembra que há mulheres que não têm coragem de ir a unidades perto da suas casas porque temem encontrar conhecidos do bairro que trabalhem ali, ou serem vistas por algum vizinho que faça comentários. “Por isso, temos essa missão de não colocar barreiras no atendimento”, comenta o médico, fortalecendo o compromisso assumido há 40 anos pelo Caism de ser um território livre e seguro no atendimento à mulher. 

fechamento da retranca
Fachada do Caism

Homens trans e mulheres lésbicas são alvos do chamado ‘estupro corretivo’

Homens trans têm procurado o Caism em busca de atendimento após serem vítimas de violência. De acordo com Guida, em alguns casos esses pacientes são vítimas do chamado “estupro corretivo”, ato criminoso cometido para tentar controlar o comportamento sexual ou social da vítima. Mulheres lésbicas também são alvo. O desafio do hospital é ser uma referência de empatia e segurança para todas as pessoas, independentemente de sua orientação sexual ou expressão de gênero. “A questão do estupro corretivo tem surgido tanto para homens trans quanto para mulheres lésbicas. É muito cruel”, lamenta o médico.

Outra preocupação do médico é com as mulheres transexuais, cuja presença no Caism é mais reduzida. “Recebemos poucas mulheres trans e sabemos que essa é uma população extremamente vulnerável. A expectativa de vida de uma mulher trans no Brasil é de 35 anos devido à violência. Essas mulheres não têm chegado aqui, e a gente não sabe onde elas são atendidas”, comenta o coordenador do Ambulatório.


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Pesquisadores desenvolvem tratamento promissor contra o câncer de pele

Por:raquel
14 de Abril de 2026, 16:39

O câncer de pele não melanoma não é o tipo mais letal, nem o mais agressivo – mas é o de maior incidência no Brasil e traz consigo alto potencial estigmatizante. Tumor que atinge regiões expostas ao sol – como o rosto, orelhas, boca, braços, pernas e pescoço –, é geralmente tratado com o que os médicos chamam de “ressecção cirúrgica”, a remoção de uma parte ou da totalidade do órgão ou tecido atingidos, num procedimento que pode deixar cicatrizes ou resultar em mutilação.

“Muitas vezes, o paciente perde partes do nariz, das orelhas, ou fica com cicatrizes profundas na boca ou em outras partes do corpo, o que provoca uma pressão social muito grande”, diz o químico Pedro Paulo Corbi, coordenador do Laboratório de Pesquisas em Química Bioinorgânica e Medicinal (LQBM) da Unicamp. Há 12 anos, Corbi trabalha no desenvolvimento de uma molécula que, agora, após colaboração com a médica oncologista Carmen Silvia Passos Lima – coordenadora do Serviço de Oncologia Clínica do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp e do Laboratório de Genética do Câncer (Lageca) da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp – e com a farmacêutica Gisele Goulart, pesquisadora do Lageca, tem se mostrado altamente promissora no tratamento desse tipo de enfermidade.

A farmacêutica Gisele Goulart e o químico Pedro Paulo Corbi: tumor tem alto potencial estigmatizante
A farmacêutica Gisele Goulart e o químico Pedro Paulo Corbi: tumor tem alto potencial estigmatizante

A pesquisa chegou a um composto inovador, nascido da mistura de um complexo de prata combinado com um anti-inflamatório. Começou a ser testado em humanos no início deste ano e tem trazido perspectivas alentadoras para pacientes que necessitam de tratamento.

O carcinoma de células escamosas cutâneo (CCEC) é o segundo mais prevalente entre os cânceres humanos em todo o mundo. Tem origem nas células principais que compõem a epiderme, a camada mais externa da nossa pele, e ocorre devido a vários fatores, com destaque para a exposição aos raios UV – os raios solares.

O tratamento do CCEC de pequenas dimensões baseia-se na ressecção do tumor por cirurgia. Contudo, pacientes com CCEC avançado são frequentemente inelegíveis para cirurgia curativa ou radioterapia, já que estas podem causar anormalidades funcionais, desfiguração e problemas psicológicos. Esses pacientes são tratados com quimioterapia com cisplatina, que oferece benefícios clínicos modestos e toxicidade potencialmente grave.

Foi pensando numa solução alternativa que Corbi e Lima avaliaram novas moléculas contra o tumor que pudessem ter uso direto na pele, para evitar toxicidades. O objetivo inicial era apenas diminuir o tamanho da lesão. Com isso, o cirurgião teria uma área menor a ser retirada e, assim, poderia reduzir as sequelas.

Pesquisadores da Unicamp desenvolvem tratamento promissor contra o câncer de pele
Os pesquisadores avaliaram novas moléculas contra o tumor que pudessem ter uso direto na pele, para evitar toxicidades
Os pesquisadores avaliaram novas moléculas contra o tumor que pudessem ter uso direto na pele, para evitar toxicidades

O estudo que mais avançou avaliou os efeitos de um complexo de prata com o anti-inflamatório nimesulida – um composto que vem sendo chamado de AgNMS. Corbi explica que a prata tem sido utilizada para o tratamento de condições humanas desde a Antiguidade. Embora o uso do metal tenha sido empírico por muito tempo, hoje as aplicações racionais na medicina estão intimamente relacionadas à sua atividade antibacteriana. Mais recentemente, a literatura mostrou o potencial de complexos de prata em inibir células de câncer in vitro.

A farmacêutica Tuany Zambroti Candido, doutoranda do Lageca que atuou sob supervisão dos pesquisadores Carmen Lima, Ana Lucia Tasca Góis Ruiz e João Ernesto de Carvalho, deu continuidade ao estudo no Lageca e no Laboratório de Fitoquímica, Farmacologia e Toxicologia Experimental (LaFTEx) da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Unicamp, conta Carmen Lima.

O AgNMS foi testado em experimentos “in vitro” com várias linhagens de câncer, incluindo o CCE, e em células de pele saudáveis. Observou-se que o AgNMS inibiu a proliferação do CCE, mas não a das células saudáveis, o que indicou a seletividade de ação do composto.

A médica oncologista Carmen Silvia Passos Lima (àesquerda): AgNMS foi testado em experimentos “in vitro” com várias linhagens de câncer

Candido também conduziu experimentos “in vivo” em camundongos com CCEC tratados com a molécula acoplada a uma membrana de celulose bacteriana e um adesivo, produzidos pelos farmacêuticos Wilton Rogerio Lustri e Silmara Cristina Lazarini Frajácomo, pesquisadores da Universidade de Araraquara (Uniara). Foi observado que o AGNMS reduziu os tumores ou causou seu desaparecimento, sem efeitos tóxicos para os animais. O grupo concluiu que, juntas, a NMS e a Ag podem se tornar uma alternativa na luta contra o CCEC.

Corbi e Lima veem o futuro do experimento com otimismo. “A meta inicial era apenas reduzir o tumor, mas agora podemos ter como perspectiva a remissão total”, afirmam.

Imunoterápicos como o cemiplimabe já são indicados para o tratamento de pacientes com CCEC, diz Lima, mas seu custo elevado impede o uso para pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) do Brasil. “Para nós, o cenário ideal é buscar uma solução que evite a cirurgia, a quimioterapia e a imunoterapia”, dizem Corbi e Lima.

“O AgNMS em membrana bacteriana e adesivo é absolutamente inovador para o CCEC, e, por esta razão, há cerca de cinco anos, conseguimos duas patentes – uma nacional e uma internacional”, conta Lima. O estudo só não prosseguiu, diz ela, por falta de investimento. “A indústria não quer arcar com os custos do estudo clínico de fase I e de fase II. Eles querem o negócio pronto”, explica.

Etapas

O estudo do AgNMs passou pela etapa da pesquisa básica de desenvolvimento, que consiste na síntese da molécula; pela fase pré-clínica, que são os experimentos em células e animais, e agora está em avaliação na fase clínica, com experimentos em humanos, que consta das fases I e II.

O estudo de fase I tem como objetivo verificar se, em doses crescentes, o AgNMS causa toxicidade ao paciente, de modo a determinar a dose adequada a ser usada no estudo de fase II.

O estudo de fase I teve início neste ano, com a aplicação do composto em três pacientes com CCEC atendidos no Hospital de Clínicas da Unicamp, em cooperação com as médicas dermatologistas e pesquisadoras Aparecida Machado de Moraes e Renata Ferreira Magalhães, do Serviço de Dermatologia do HC da Unicamp.

Equipes dos laboratórios de Genética do Câncer (à esquerda) e de Pesquisas em Química Bioinorgânica e Medicinal
Equipe do Laboratório de Pesquisas em Química Bioinorgânica e Medicinal da Unicamp que há 12 anos estuda o desenvolvimento de moléculas
Equipes dos laboratórios de Genética do Câncer (à esquerda) e de Pesquisas em Química Bioinorgânica e Medicinal

Os pesquisadores contam que o AgNMS não foi aplicado como um creme comum, mas sim na forma de um dispositivo constituído por uma membrana de celulose bacteriana e um adesivo, a mesma utilizada no estudo em animais. Essa membrana funciona como um reservatório que libera o medicamento de forma controlada e contínua por várias horas. Além disso, também pode ter uma ação antibacteriana, já que protege a ferida de infecções durante o tratamento.

“Os resultados até agora foram promissores, com redução do tumor nos pacientes avaliados e ausência de toxicidade. Precisamos agora testar em um segundo grupo de pacientes, ainda na fase I do estudo, com dose maior do AgNMS, para verificar qual dose será menos tóxica para tratar os pacientes da fase II”, disse Gisele Goulart.

Um grupo de 20 a 30 pacientes com CCEC do HC da Unicamp fará parte do estudo de fase II, a ser desenvolvido ao longo do ano. Serão tratados com o AgNMS – em dose definida no estudo de fase I – em adesivo com membrana de celulose bacteriana.

Se reduções parciais ou totais do tumor forem observadas, o complexo poderá chegar ao mercado – após avaliação e aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O estudo está em avaliação na fase clínica, com experimentos em humanos, que consta das fases I e II
O estudo está em avaliação na fase clínica, com experimentos em humanos, que consta das fases I e II

De acordo com Corbi, o avanço da pesquisa é decorrência direta da interação das pesquisas básica, pré-clínica e clínica no Centro de Inovação Teranóstica em Câncer, o CancerThera, que tem o apoio financeiro da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e sede na Unicamp. O Centro reuniu toda uma cadeia de pesquisa para o desenvolvimento de fármacos e radiofármacos a serem utilizados no diagnóstico e no tratamento de câncer.

Com o objetivo de criar tratamentos inovadores, o CancerThera reúne especialistas em áreas da medicina, química, física, biologia, farmácia, matemática, entre outras, mantendo colaborações com instituições nacionais e estrangeiras.

Lima lembra que inúmeros pesquisadores e experimentos, ao longo de uma década, foram necessários para obter um tratamento potencial para pacientes com CCEC, o que, segundo ela, revela a dedicação de pesquisadores brasileiros. Há ainda que se considerar, diz, que os estudos em células e animais foram conduzidos com o apoio financeiro da Fapesp, e os estudos em humanos só foram retomados com apoio do CancerThera da Fapesp. “Foi a grande chance de darmos sequência ao estudo AgNMS em CCEC, reforçando a importância da agência de fomento para a pesquisa em inovação no Estado de São Paulo”, reforçou.

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O câncer de pele não melanoma é o de maior incidência no Brasil
O câncer de pele não melanoma é o de maior incidência no Brasil

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Agressores transformam redes sociais em ‘armadilhas’ para mulheres

10 de Abril de 2026, 14:34

Agressores transformam redes sociais
em ‘armadilhas’ para mulheres

Caism, há 40 anos referência de atendimento a vítimas de violência sexual e doméstica, registra aumento de casos e desafio é ampliar ação nas periferias

Perfis falsos atraem a atenção, geram uma confiança ilusória e, ao final, surge a armadilha que abre caminho para todo tipo de ameaça, agressão e abuso. As redes sociais são um território livre para predadores sexuais atacarem mulheres e meninas. “Democrática”, a violência não escolhe idade, lugar ou condição econômica, apesar de as vítimas pretas e pobres serem os registros mais comuns nas estatísticas. O impacto é tão devastador que alguns profissionais de saúde afirmam que é comum pacientes apresentarem traumas aliados a hipervigilância, ansiedade e amargos flashbacks – um quadro que se encaixa na descrição do transtorno de estresse pós-traumático, semelhante àquele vivenciado por veteranos de guerra.

Esta realidade é cada vez mais comum entre os atendimentos no Hospital da Mulher Prof. Dr. José Aristodemo Pinotti (Caism-Unicamp), que há 40 anos é referência no atendimento e acompanhamento de vítimas de violência sexual. Ali, as pacientes — 50% das quais são menores de 18 anos — têm acompanhamento por seis meses após sofrerem a violência sexual. Mesmo entre as demais pacientes que buscam o local para atendimentos diversos, até 15% trazem algum registro de violência.

O coordenador do Ambulatório de Violência Sexual do Caism, José Paulo de Siqueira Guida
O coordenador do Ambulatório de Violência Sexual do Caism, José Paulo de Siqueira Guida

“As redes sociais estão virando uma armadilha para a mulher. Temos visto um número significativo delas que começa a ter algum contato com uma pessoa pela internet, marca um encontro e percebe que não era nada daquilo. Identidade fake do outro lado, a conversa vai evoluindo e, de repente, ela chega lá e é estuprada”, afirma José Paulo de Siqueira Guida, professor do Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) e coordenador do Ambulatório de Violência Sexual do Caism.

O uso das redes sociais como isca para a violência sexual é um fenômeno que ainda desafia os profissionais da saúde. “Isso é uma coisa que a gente está colocando no nosso radar. Há 25 anos, não tínhamos aplicativos. Estamos tentando levantar dados de forma mais consistente até para, depois, poder ajudar as autoridades a terem dimensão de que isso é um problema que está acontecendo. É um novo desafio”, acrescenta o médico.

As consequências de vários desses contatos virtuais que, cada vez mais, se transformam em pesadelos reais acabam sendo registradas no Caism, e sua frequência vem crescendo. “Podemos até comparar como algo em uma escala de catástrofe. Muitas chegam em um estado de apatia, vulnerabilidade, precisando de um lugar de cuidado. A nossa tentativa, o tempo inteiro, é oferecer esse espaço”, afirma Mariana Santos, psicóloga assistencial e supervisora do treinamento na área da Ginecologia do Caism.

A psicóloga assistencial Mariana Santos
A psicóloga assistencial Mariana Santos

 “Temos casos que se assemelham ao transtorno de estresse pós-traumático. Muitas desenvolvem esse quadro, que é mais grave e com maior risco de repercussão social, emocional, de distanciamento da rotina e contato com as pessoas. Elas enfrentam a perda da rotina, não conseguem estudar ou trabalhar, passam a viver em um isolamento”, relata a psicóloga.

A profissional, que é responsável por acompanhar as condições emocionais das pacientes, destaca o papel negativo das redes sociais nos últimos anos. “A gente percebe que são ambientes de abuso. Identificamos isso aqui, inclusive, em alguns estudos que produzimos. A violência gerada pelo contato em redes sociais, dos chamados ‘conhecidos virtuais’, aparece nos dados de nossos levantamentos”, confirma Santos.

Sua colega Laíse Potério, supervisora do setor de Psicologia, com quatro décadas de atuação no Caism e muitos momentos de dor e alegria vividos ali, confirma os novos casos que têm chegado. “A busca para conhecer alguém em aplicativos de relacionamentos leva à violência e ao abuso. Eles acontecem nesses encontros marcados. Virou armadilha mesmo”, aponta.

Resgate 

Ândria Cléia Alves, supervisora de seção do Serviço Social do Caism, confirma que as novas formas de relacionamento trouxeram com elas as velhas situações de exploração do corpo e mente das mulheres. “A violência sexual, aquela que atendemos com maior frequência aqui, tem envolvimento de um companheiro, parente, ex-namorado ou conhecido da família, mas também temos essas abordagens através das redes sociais. São pessoas que criam um perfil falso, um vínculo de confiança, e depois cometem o crime. É uma questão de oportunidade”, conta.

Alves está há mais de duas décadas no hospital e convive, ao lado de uma equipe especializada, com a missão de resgatar mentes destruídas pela exposição à violência sexual. “A mulher que vem para o Caism traz todo o seu histórico de vida, e as violências física e doméstica fazem parte disso. Muitas ocorrências são subnotificadas porque, muitas vezes, a mulher não consegue dizer o que está acontecendo, pois existe uma dependência emocional e financeira. Há ameaças a ela e aos filhos. Então, a gente vai acompanhando a situação dessas pessoas. Queremos fortalecer essas mulheres para que, nas próximas ações, elas possam sair dessa situação.”

A psicóloga Laíse Potério
A psicóloga Laíse Potério
Caism é referência no acolhimento
A supervisora Ândria Clélia Alves
A supervisora Ândria Clélia Alves

A subnotificação das pessoas vivendo em situação de violência é o grande desafio para dimensionar, de fato, o problema social que ganhou ares de epidemia nos últimos tempos. Apenas em 2025, foram registrados 1.568 feminicídios no Brasil, de acordo com levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Um crime é considerado feminicídio quando a vítima é morta pelo simples fato de ser mulher. Em 2015, quando essa tipificação penal foi adotada, o Brasil registrou 535 mortes. Uma década depois, o número cresceu 316%.

Ândria Cléia Alves reforça a questão dos diversos perfis de pacientes: existe a mulher que reconhece a violência sofrida, mas não tem condições de sair da relação naquele momento; as que justificam picos de agressividade dos companheiros provocados pela bebida ou drogas; e há aquelas que naturalizam a situação e não percebem que são vítimas. Existem aquelas que sofrem graves ameaças e têm medo de contar e morrer. A inconformidade do ex-parceiro com o fim da relação, associada a um comportamento violento, são as maiores causas de feminicídio no Brasil.

“Precisamos sempre ter respeito pelo momento delas. Eu tenho como voltar para minha casa e saber como me reorganizar, mas algumas mulheres não têm isso; elas enfrentam o medo de não serem protegidas”, lamenta a supervisora do Caism. “Vivemos sob a cultura do estupro, que busca apontar justificativas para o que acontece com a mulher: a roupa que usa, o horário em que está na rua… Há uma inversão do senso comum. Isso é grave porque você naturaliza a violência e a enxerga como algo que a mulher causou. Na realidade, uma mulher pode estar em qualquer lugar a qualquer momento”, acrescenta Alves.

Vítimas, muitas vezes, chegam ao Hospital da Mulher acompanhadas pelos próprios agressores
Vítimas, muitas vezes, chegam ao Hospital da Mulher acompanhadas pelos próprios agressores

Como se não bastasse, em algumas ocasiões, as vítimas chegam acompanhadas pelos próprios agressores. “Quando vejo que a pessoa é muito misógina, chamo um médico ou um enfermeiro para atender junto. Daí, o cara baixa a bola. Mas foram poucas vezes que aconteceu isso, porque aqui dentro eles costumam manter o papel de bom moço”, conta a supervisora. “Se a mulher determinar que o acompanhante não entre, não adianta espernear, ele ficará do lado de fora. Pode ter certeza, ele jamais chamará a polícia”, comenta ela.

Ainda de acordo com Alves, sempre foi difícil ocupar o papel de mulher na sociedade. Elas são colocadas em um lugar onde existe a necessidade de proteção porque aos homens tudo é permitido. “Penso que há um movimento de ódio contra a mulher. Tem relação com o que vivemos nos últimos anos. Houve um movimento de desmobilização, falta de investimento em políticas públicas para a mulher. Todo esse trabalho precisou ser reconstruído”, diz a profissional do Caism.

Infográfico A Mulher como Alvo

Cartilha

Em 2023, o hospital lançou “Violência contra a Mulher – Cartilha para profissionais de saúde na atenção pré-natal e pós-natal”, das autoras Odette del Risco Sánchez, então doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Tocoginecologia da FCM, Ândria Cléia Alves, assistente social, Fernanda Garanhani de Castro Surita, professora da FCM. O objetivo do material, que é distribuído gratuitamente, é pontuar questões relevantes para os profissionais da saúde sobre a violência contra a mulher, disponibilizar referências para aprofundar o conhecimento sobre o tema e disponibilizar os serviços existentes na região para oferecer os encaminhamentos necessários. 

A abordagem deste tema dentro do serviço permite que as mulheres possam identificar as instituições de saúde como espaços acolhedores e de proteção.

Além dessa espécie de guia de atendimento, os profissionais do Caism também adotam a conduta de fazer com que as vítimas contem suas histórias apenas uma vez, tudo para que elas não revivam os chamados “gatilhos” de sofrimento. Outra iniciativa é incluir um protocolo de questões em todos os tipos de atendimento, para identificar situações menos evidentes. Algumas perguntas são: Está tudo bem em sua casa, com seu companheiro? Você está com problemas no relacionamento familiar? Você acha que os problemas em casa estão afetando sua saúde?

Morte

Além da dificuldade de lidar com histórias sempre complexas, há ainda uma dor maior: a derrota para a morte. “Já aconteceu de perdermos alguém. Não vou entrar em detalhes, mas era uma pessoa que já vinha de um processo crônico de violência doméstica. O sentimento é horroroso, muito difícil. Foi uma pessoa que lutou bastante, teve toda uma rede envolvida e cuidados, mas, mesmo assim, a gente não conseguiu”, lamenta a supervisora do Serviço Social. “Tem circunstâncias que independem dos serviços. Em alguns momentos, a gente fica em uma situação de impotência diante de algumas coisas que não vão mudar completamente… Sabemos que alguns casos vão dar certo e outros não, por isso não podemos naturalizar ou perder a força de nos indignarmos diante das situações de violência”, observa Alves.

Infográfico dos casos com autoria conhecida (cometidos por homens)

Basta!

A psicóloga Laíse Potério incorpora essa mentalidade de que o apoio às mulheres vai além dos atendimentos. “Estou aqui desde o princípio, e todos os casos nos atravessam de alguma forma, porque a gente é mulher, mãe, filha. Essa violência é sempre um divisor de águas mesmo. A vida da mulher nunca mais será igual”, diz ela. “Chega, basta! Não dá para você ter um filho ou uma filha e não discutir essas questões com eles hoje em dia ou esperar que a escola faça isso. Falta um letramento sobre educação sexual. Nossa sociedade está doente”, desabafa Potério.

Ela conta que algumas mulheres têm necessidade de contar o ocorrido, como uma saída terapêutica. Já outras não têm mais estrutura para isso. São adolescentes e mulheres trazendo uma culpa enraizada, como se o ocorrido tivesse sido provocado por elas, através de um comportamento ou da escolha de uma roupa. Buscar ajuda e passar pelos procedimentos e exames necessários já é um desafio. “Quando a vítima chega aqui, esse reviver é avassalador. Os mecanismos de esquecimento precisam ser remexidos, e isso é extremamente doloroso. Algumas dizem que não vão contar para a família porque temem o julgamento, a vergonha, o ataque à reputação e a visão distorcida do ocorrido. Outras começam a tomar muitos banhos para tirar uma sujeira que está, na verdade, na alma”, afirma a psicóloga. “Elas vêm desesperadas e, ao vivenciar uma escuta empática, mudam. Ao final, buscam um longo abraço. É a sensação de não estar sozinha. As mulheres estão tendo acesso à informação e tentando buscar outros caminhos”, afirma Potério, com a experiência de quem sabe que, enquanto existir empatia, a batalha não estará perdida.

Infográfico Raixo-X dos feminicídios
Separador

Tecnologia que permite avanços é a mesma que fomenta agressões

Aspas

Com o crescimento acelerado dos aplicativos e sites de relacionamento, aliado a uma vida cada vez mais conectada nas redes sociais e ao avanço das tecnologias de geração de conteúdo por inteligência artificial, os cuidados ao se expor nesse ambiente precisam ser redobrados. Um dos principais pontos de atenção é a dependência emocional: pessoas mal-intencionadas frequentemente buscam indivíduos em situação de vulnerabilidade, explorando carência e fragilidade emocional. Por isso, antes de iniciar qualquer interação, é fundamental cuidar de si, fortalecer a autoestima e encontrar satisfação na própria vida, reduzindo a chance de manipulação por terceiros.

Mesmo ao se sentir preparada para um relacionamento — seja uma amizade virtual ou algo mais sério —, a cautela continua sendo indispensável. Perfis falsos criados com o uso de tecnologias generativas (que utilizam dados, textos, imagens, vídeos, áudios e códigos verdadeiros para criar algo diferente) são cada vez mais comuns, exigindo atenção a sinais suspeitos, como perfis excessivamente perfeitos ou comportamentos inconsistentes.

Nunca compartilhe dinheiro, dados pessoais sensíveis ou informações que possam comprometer sua segurança. Em chamadas de vídeo, observe possíveis falhas, como desalinhamento entre voz e imagem ou irregularidades faciais. Caso decida encontrar alguém presencialmente, avise pessoas de confiança, escolha locais públicos e movimentados e, se possível, vá acompanhada. Adotar essas precauções não é exagero, mas sim uma forma responsável de preservar sua segurança. Aspas

Stephane de Freitas Schwarz é doutoranda em Ciência da Computação, na Unicamp, na área de Análise Forense, e pesquisadora do Laboratório de Inteligência Artificial (Recod.ai).

Feminicídio é epidêmico no país, diz ministra das Mulheres

Assistente social e professora universitária aposentada, Márcia Lopes, ministra das Mulheres, defende a regulamentação das mídias sociais como forma de combate à violência digital que afeta meninas e mulheres no Brasil. Durante uma agenda em Campinas, ela se mostrou alarmada com a escalada do feminicídio no País.

“É muito importante que todas as políticas públicas olhem para esse fenômeno para, inclusive, analisar, dimensionar e entender o que tem ocorrido. O Ministério da Saúde, por exemplo, está tomando uma série de medidas, e uma delas é a solicitação junto à Organização Mundial da Saúde para incluir o feminicídio como um item do CID (Classificação Internacional de Doenças)”, afirmou a ministra, concordando que há uma epidemia de violência de gênero no País.

A minstra das Mulheres, Márcia Lopes: mais mulheres na política (Foto: Lúcio Camargo)
A minstra das Mulheres, Márcia Lopes: mais mulheres na política (Foto: Lúcio Camargo)

“A violência não nasce do nada. Precisamos investir na educação, na formação, romper ciclos históricos de machismo e misoginia. Se, daqui a alguns anos, tivermos profissionais de todas as áreas com outra formação, certamente essa realidade de banalização da violência vai se modificar. Por isso, queremos mais mulheres na política. Defendemos paridade: 50% de mulheres nos espaços de poder. Isso faz diferença. Sabemos que o mundo vem de uma raiz patriarcal, machista e misógina. Por isso a nossa luta é grande”, comentou Lopes.

A ministra citou o Pacto Brasil contra o feminicídio, lançado em fevereiro em todo o território nacional, que representa um compromisso entre o Executivo, Legislativo e Judiciário para agilizar o enfrentamento da violência contra a mulher. A meta é reduzir a impunidade e acelerar medidas que fortaleçam as redes de proteção. (Colaborou Daniela Prandi)

OS REDPILLS E A ‘MACHOSFERA’

Hoje, vemos a proliferação de conteúdos misóginos, como os chamados “redpills”, que não só reforçam estereótipos violentos, mas também normalizam o ódio, a desumanização e até a legitimação da violência contra mulheres.

Ao mesmo tempo, temos um cenário em que a juventude tem se mostrado mais conservadora do que gerações anteriores, algo que pesquisas recentes vêm apontando. O que se observa é que os mais jovens têm concordado mais com visões tradicionais sobre gênero, muitas delas baseadas em desigualdade e violência contra as mulheres.

A questão é que esse conservadorismo, combinado com a misoginia presente em parte da Geração Z, tem forte influência do ambiente digital. Por meio dos conteúdos da chamada “machosfera”, jovens encontram espaços que não só reforçam essas visões como também legitimam e incentivam comportamentos violentos contra mulheres. O caso recente de estupro coletivo em Copacabana, em que um dos suspeitos se apresentou à polícia usando uma camiseta com o lema de um influenciador “redpill”, evidencia como esses conteúdos transbordam para a vida real.

O que circula na internet impacta diretamente os comportamentos fora dela, influencia atitudes, molda relações e, no caso dos conteúdos “redpill”, alimenta todas as formas de violência contra a mulher: física, sexual, psicológica e moral. Esse cenário é agravado por características próprias do ambiente digital, como a velocidade de disseminação, o alcance maciço e a sensação de anonimato, que reduz barreiras para comportamentos agressivos.

Nesse contexto, é fundamental fortalecer políticas de formação e proteção para esses jovens. Estamos falando de pessoas em formação, expostas a um ambiente ainda pouco regulado e insuficientemente monitorado. É necessário avançar na regulação, tanto para proteger crianças e adolescentes no ambiente digital, através de iniciativas como o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) digital, quanto para garantir a retirada de conteúdos criminosos e a responsabilização de quem os produz e dissemina. Aspas

Beatriz Schroeder, pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

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O Caism Unicamp completa em 2026 40 anos de atendimento dedicado à mulher
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Pesquisa da Unicamp dá origem a memorial nacional sobre a pandemia

Por:raquel
6 de Abril de 2026, 15:31

A partir de uma pesquisa que nasceu na Unicamp, os anos da pandemia, que tanto alteraram a vida coletiva e deixaram marcas profundas na história recente, foram preservados na plataforma Memorial Digital da Pandemia de Covid-19, lançado neste 7 de abril, Dia Mundial da Saúde. O portal reúne, organiza e disponibiliza registros científicos, institucionais, culturais e sociais produzidos ao longo da crise sanitária no Brasil. Mais do que um site de consulta, o projeto consolida uma política pública de memória.

A trajetória que desemboca no lançamento do memorial começou ainda nos primeiros meses de 2020, quando a pandemia impôs uma experiência inédita de perdas, isolamento, cuidado coletivo e reorganização da vida cotidiana. No Centro de Humanidades Digitais (CHD) da Unicamp, uma pergunta passou a orientar a pesquisa coordenada pelo professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e atual coordenador do Arquivo Público do Estado de São Paulo, Thiago Nicodemo: como preservar as fontes que, no futuro, permitiriam contar a história da pandemia?

O professor Thiago Nicodemo: ideia começou como investigação acadêmica
O professor Thiago Nicodemo: ideia começou como investigação acadêmica

“O projeto nasceu na Unicamp, literalmente em um fundo de garagem”, lembra Nicodemo. Uma ideia que começou como investigação acadêmica mobilizou estudantes e pesquisadores da Universidade e, seis anos depois, se transformou em uma infraestrutura pública de preservação digital. “Percebemos que, no meio das catástrofes, grupos sociais se articulam para produzir e armazenar memórias sobre sua identidade.”

Desde 11 de março de 2020, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o estado de pandemia, milhões de pessoas em todo o mundo passaram a registrar suas experiências diante de um acontecimento tão incerto quanto traumático. No Brasil, esse movimento também se fez presente: a população documentou o cotidiano do isolamento, as perdas, as formas de cuidado, a mobilização coletiva e as desigualdades aprofundadas pela crise sanitária.

Foi a partir dessa realidade que o CHD passou a mapear as múltiplas formas de registro. “Eu percebi que havia um grande fenômeno da memória no mundo contemporâneo”, destaca Nicodemo. Dessa reflexão surgiu o Coronarquivo, projeto desenvolvido pelo CHD como um “arquivo de arquivos” dedicado a mapear iniciativas de memória da pandemia em todo o país.

Ao longo da pesquisa, foram identificadas mais de 120 iniciativas, envolvendo universidades, museus, escolas, coletivos, movimentos sociais, comunidades indígenas, associações de moradores e organizações da sociedade civil. O trabalho revelou um fenômeno significativo: grande parte das memórias da pandemia estava sendo produzida fora dos arquivos públicos tradicionais. Fotos, vídeos, relatos, mensagens, postagens em redes sociais e documentos diversos passaram a ser organizados por grupos comunitários, pesquisadores e cidadãos comuns, frequentemente de forma voluntária e criativa.

“O potencial disso é infinito, porque nos permite criar soluções de memória que deem conta da escala e da diversidade do mundo digital”, afirma Nicodemo. Segundo ele, o projeto articula uma dimensão clássica das humanidades com a experimentação tecnológica e a resolução de problemas sociais concretos. “É ciência, porque resolve um problema real, existente na sociedade.”

Preservar essas memórias é também uma forma de enfrentar a cultura brasileira do esquecimento
Preservar essas memórias é também uma forma de enfrentar a cultura brasileira do esquecimento
Preservar essas memórias é também uma forma de enfrentar a cultura brasileira do esquecimento

Solução de memória

Mais do que um repositório de documentos, o memorial oferece acesso gratuito a depoimentos, entrevistas, produções artísticas, fotografias, mapas, registros sonoros e filmográficos, documentos normativos, publicações científicas e referências bibliográficas relacionadas à pandemia, além de permitir a incorporação contínua de novas coleções.

Essa abundância de registros, no entanto, também evidenciou um problema central: a fragilidade do ambiente digital. Computadores quebram, HDs deixam de funcionar, senhas são esquecidas, plataformas deixam de existir e formatos se tornam obsoletos.

“Sem infraestrutura adequada, uma parte significativa dessa memória corria o risco de desaparecer”, ressalta. “O projeto não é apenas um repositório. É uma solução de memória.”

O acervo contempla documentos formais e informais, individuais e coletivos, relacionados às diferentes experiências da Covid-19 no Brasil. Estão presentes registros produzidos por povos indígenas, comunidades periféricas, movimentos sociais e grupos historicamente marginalizados, tornando visíveis dimensões muitas vezes apagadas da crise sanitária, como desigualdade social, racismo, violência de gênero e violações de direitos.

Para Nicodemo, preservar essas memórias é também uma forma de enfrentar a cultura brasileira do esquecimento. “O Brasil tem uma tradição de não processar suas feridas”, afirma. “Foi assim com a ditadura, foi assim com a escravidão, e há o risco de acontecer o mesmo com a pandemia. O memorial é parte do processo de reconhecimento e elaboração do que aconteceu.”

Segundo ele, embora exista um certo esgotamento social em relação ao tema, consequência dos anos em que a pandemia ocupou integralmente o cotidiano, o trabalho de memória continua sendo indispensável. “É um evento que matou 700 mil pessoas no país e não pode ser subestimado”, diz. “A memória é um trabalho terapêutico para quem foi diretamente envolvido, mas também é uma responsabilidade coletiva.”

Desde 2021, a equipe do CHD também vem realizando entrevistas de história oral com responsáveis por arquivos digitais sobre a Covid-19 no Brasil e outros países da América Latina, ampliando o escopo da pesquisa e consolidando uma rede internacional de preservação.

Os resultados desse percurso foram sistematizados em diversos artigos acadêmicos e no livro Por uma história da Covid-19: iniciativas de memória da pandemia no Brasil, organizado por Ian Kisil Marino, pesquisador do projeto, e por Nicodemo, publicado em 2023.

Em 2024, Marino defendeu, no IFCH, a tese “Arquivando a pandemia: transformação digital e luta pela memória na América Latina”, para a obtenção do título de doutor em História, na área de Dinâmicas e Linguagens Políticas. No mesmo ano, Nicodemo defendeu a tese de livre-docência “Arquivo Digital: história e memória diante dos desafios do século XXI”, também no IFCH.

O projeto não é apenas um repositório. É uma solução de memória
O projeto não é apenas um repositório. É uma solução de memória

Dimensão institucional

A partir de 2024, a iniciativa ganhou dimensão institucional. Em março daquele ano, o Ministério da Saúde realizou, em Brasília, o Seminário Memorial da Pandemia de Covid-19, marco importante para a formalização do projeto.

O encontro resultou na assinatura de um memorando de entendimento entre os ministérios da Saúde e da Cultura, consolidando a criação do memorial no Centro Cultural do Ministério da Saúde.  A iniciativa do CHD contou ainda com a parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).

Entre 2024 e 2025, o diálogo entre as instituições levou à construção do modelo. Para o professor, a experiência também projeta novos caminhos para a Universidade. “Tecnologia não é algo fora das humanidades. Ela precisa estar dentro desse campo, de forma crítica e experimental”, afirma. “Isso tensiona o papel da Universidade para o futuro.”

O modelo já desperta interesse para outras aplicações, como a preservação de memórias relacionadas a guerras, mudanças climáticas e saberes tradicionais de comunidades indígenas em diferentes países. “É uma área híbrida de conhecimentos que a sociedade demanda cada vez mais”, afirma. “A Universidade precisa formar gente nesses saberes híbridos.”

Além do ambiente digital, o projeto prevê ações de difusão, como exposições itinerantes em diferentes capitais e uma mostra permanente no Centro Cultural do Ministério da Saúde, no Rio de Janeiro.

No site, já está disponível uma mostra fotográfica com imagens em preto e branco produzidas pelo fotojornalista e historiador Carlos Erbs Jr., que ilustram essa reportagem. O fotógrafo acompanhou a crise sanitária desde os primeiros momentos e percorreu as ruas do Rio de Janeiro para registrar os efeitos das medidas de isolamento social, as ações de órgãos públicos, iniciativas da sociedade civil, os gestos de solidariedade e a tensão vivida pelos profissionais da linha de frente. As fotos integram o livro Vidas importam – Memória visual da pandemia COVID-19 no Rio de Janeiro (Editora iVentura, 2021).

O acervo contempla documentos formais e informais, individuais e coletivos, relacionados às diferentes experiências da Covid-19 no Brasil
O acervo contempla documentos formais e informais, individuais e coletivos, relacionados às diferentes experiências da Covid-19 no Brasil
O acervo contempla documentos formais e informais, individuais e coletivos, relacionados às diferentes experiências da Covid-19 no Brasil

Serviço:
Lançamento do Memorial Digital da Pandemia de Covid-19
Data: 7 de abril de 2026
Horário: 16h30
Local: Centro Cultural do Ministério da Saúde (CCMS)
Praça Marechal Âncora, 95 – Centro, Rio de Janeiro (RJ)

Conheça o site.

Foto de capa:

O memorial oferece acesso gratuito a depoimentos, entrevistas, produções artísticas, fotografias, mapas, registros sonoros e filmográficos, documentos normativos, publicações científicas e referências bibliográficas relacionadas à pandemia
O memorial oferece acesso gratuito a depoimentos, entrevistas, produções artísticas, fotografias, mapas, registros sonoros e filmográficos, documentos normativos, publicações científicas e referências bibliográficas relacionadas à pandemia


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Unicamp tem nove cursos em ranking dos melhores do mundo

Por:raquel
25 de Março de 2026, 13:17

Nove cursos oferecidos pela Unicamp estão na lista dos 100 melhores do mundo em suas respectivas áreas, segundo o ranking da consultoria britânica Quacquarelli Symonds (QS) divulgado nesta quinta-feira (26). Três desses cursos aparecem entre os 50 melhores das suas especialidades: Odontologia (26º lugar), Engenharia de Petróleo (38º) e Antropologia (42º) (veja a lista completa no quadro abaixo).

O pró-reitor de Desenvolvimento Universitário, Fernando Sarti: liderança no cenário brasileiro e destaque no âmbito internacional
O pró-reitor de Desenvolvimento Universitário, Fernando Sarti: liderança no cenário brasileiro e destaque no âmbito internacional

O ranking da QS identifica as melhores universidades do mundo em áreas específicas de estudo e avalia o desempenho das universidades em cinco grandes áreas do conhecimento: Artes e Humanidades, Engenharia e Tecnologia, Ciências da Vida e Medicina, Ciências Naturais, e Ciências Sociais e Administração. Essas áreas são subdivididas em 55 disciplinas.

“A Unicamp possui nove disciplinas no ranking das 100 melhores do mundo, o que revela sua posição de liderança no cenário brasileiro e de destaque no cenário internacional”, disse o pró-reitor de Desenvolvimento Universitário, Fernando Sarti.

Os resultados gerais da Unicamp mostram que a área de Engenharia e Tecnologia mantém a melhor classificação (112ª posição) e a maior pontuação (73,9, de um máximo de 100) dentro da universidade, considerando a média ponderada de todos os indicadores avaliados. A Engenharia de Petróleo é um dos destaques da área, na 38ª posição entre os 100 melhores cursos mundiais dessa área, enquanto Engenharia Química aparece na 79ª colocação.

Entre as cinco grandes áreas abrangidas no ranking, Ciências Naturais também se destaca, com nota 73,5, em 156º lugar no seu ranking (veja dados gerais no quadro abaixo).

O curso de Antropologia oferecido pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas aparece em 42º da lista do ranking QS
O curso de Antropologia oferecido pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas aparece em 42º da lista do ranking QS

Em outras áreas a Universidade registrou avanços. Línguas Modernas (que agrupa cursos de idiomas e literaturas, dentro da área de Artes e Humanidades) saltou da 90ª posição no ranking de 2025 para a 75ª nesta edição.

Na área de Ciências Sociais, Antropologia deu um salto significativo, saindo da faixa dos 51-100 melhores colocados em 2025 para a 42ª posição mundial em 2026. Em Ciências Naturais houve uma melhora expressiva em Matemática (da 122ª para a 88ª posição), Física e Astronomia (ambas agora na 126ª posição).

Metodologia

Os rankings são calculados com base em cinco indicadores principais, cujos pesos variam conforme a disciplina: reputação acadêmica, reputação entre empregadores, citações por artigo, impacto da pesquisa e rede internacional de pesquisa.

O peso de cada indicador utilizado varia de acordo com a área e a disciplina avaliada.

Para esta edição, a QS analisou a reputação e a produção científica de 6.277 instituições em todo o mundo, 1.074 a mais do que no ranking de 2025, confirmando a crescente importância dada a classificações desse tipo.

O assessor docente da PRDU, Renato Garcia: crescimento do número de universidades participantes
O assessor docente da PRDU, Renato Garcia: crescimento do número de universidades participantes

A avaliação partiu de informações de 16,4 milhões de artigos acadêmicos (base Scopus), e nas avaliações de 151 mil acadêmicos e aproximadamente 100 mil empregadores de todo o mundo.

“Um dos grandes destaques desta classificação é que a Unicamp permanece nas posições de liderança entre as 200 melhores universidades do mundo em todas as grandes áreas do conhecimento, mesmo com o crescimento do número de universidades participando deste ranking”, disse o assessor docente da Pró-Reitoria de Desenvolvimento Universitário (PRDU), Renato Garcia.

Quadro 1 (Fonte QS):

Cursos/áreas da unicamp no top 100 mundial

Quadro 2:

Quadro com resultados gerais da Unicamp

Foto de capa:

O curso de Odontologia aparece entre os 50 melhores das suas especialidades; classificação em 26º lugar
O curso de Odontologia aparece entre os 50 melhores das suas especialidades; classificação em 26º lugar

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Novo estudo indica avanço do vírus Oropouche em todas as regiões do Brasil

Por:raquel
24 de Março de 2026, 08:52

Um novo estudo publicado nesta terça-feira (24) pela revista Nature Medicine aponta o avanço do vírus Oropouche – transmitido aos humanos pela picada dos mosquitos maruins (Culicoides paraensis), frequentemente chamados de porvinha – na América Latina e Caribe. Conduzido por uma equipe de pesquisadores do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, Universidade de São Paulo (USP), Universidade de Kentucky (EUA) e Fundação Hospitalar de Hematologia e Hemoterapia do Amazonas (Hemoam), o levantamento estima que 9,4 milhões de infecções ocorreram entre 1960 e 2025 nesta região do planeta, sendo 5,5 milhões apenas no Brasil.

O professor do IB José Luiz Proença Modena: sazonalidade coincide com estação chuvosa amazônica
O professor do IB José Luiz Proença Modena: sazonalidade coincide com estação chuvosa amazônica

De rápida proliferação em áreas de solo úmido que podem ir da Floresta Amazônica até a Mata Atlântica, hoje o vírus está presente em todos os estados brasileiros, mas a pesquisa identifica Manaus (AM) como um epicentro para a disseminação do Oropouche. Entre o final de 2023 e meados de 2024, a porcentagem da população com anticorpos contra o vírus (indicando infecção passada) aumentou de 11,4% para 25,7%, com base em estimativas de estudos sorológicos realizados com doadores de sangue. A alta densidade populacional e o transporte aéreo provavelmente facilitaram a disseminação para áreas anteriormente não afetadas. Viagens à Europa e América do Norte também têm gerado os chamados casos importados nessas regiões.

Os pesquisadores discutem que o desmatamento pode estar relacionado à reemergência do vírus. A destruição de áreas naturais aumenta o contato entre humanos e vírus que circulam na floresta, um processo que facilita a “transposição” de patógenos do ambiente silvestre para populações humanas e, a partir daí, sua disseminação.

“A sazonalidade do Oropouche coincide com a estação chuvosa amazônica, que oferece condições ideais para a reprodução desses maruins”, explica o professor José Luiz Proença Modena, da Unicamp. Ao analisar dados de anticorpos, a equipe reconstruiu a história da transmissão do Oropouche na capital amazonense, constatando que o surto de 2023–2024 praticamente reproduziu um surto documentado entre 1980–1981. Ambos atingiram o pico durante a estação chuvosa (dezembro a abril).

O professor William M. de Souza, da Universidade de Kentucky: circulação 'silenciosa' do vírus
O professor William M. de Souza, da Universidade de Kentucky: circulação ‘silenciosa’ do vírus

“Pacientes em regiões remotas da Amazônia frequentemente enfrentam tempos de deslocamento superiores a 24 horas para chegar a uma unidade de saúde. Isso significa que muitos casos provavelmente não foram diagnosticados, permitindo que o vírus circulasse ‘silenciosamente’ até atingir um grande centro urbano como Manaus”, comenta o professor William M. de Souza, da Universidade de Kentucky.

Um segundo estudo, publicado também nesta quarta-feira pelo mesmo grupo de pesquisa, dessa vez na revista Nature Health, demonstra que o Oropouche ocorre predominantemente em áreas rurais, em contraste com a dengue, chikungunya e zika. A equipe chegou à conclusão de que essa divergência epidemiológica é impulsionada pelas diferentes ecologias dos vetores. Os maruins necessitam de ambientes com alta umidade em áreas rurais, enquanto os mosquitos Aedes aegypti estão concentrados em ambientes urbanos.

Os autores argumentam que as estratégias atuais de controle de vetores, focadas em mosquitos urbanos como o Aedes, são insuficientes para controlar a transmissão do Oropouche. As políticas de saúde pública também devem se adaptar para incluir vigilância específica em comunidades rurais e áreas próximas a florestas. Neste caso, estudos soroepidemiológicos contínuos são fundamentais para compreender o impacto das doenças arbovirais (transmitidas por mosquitos) na população e orientar estratégias de saúde pública para controlar a transmissão.

Sem vacina, por enquanto

O Oropouche ganhou atenção após ressurgir na Amazônia brasileira no final de 2023 e provocar mais de 30 mil casos em vários países da América Latina e do Caribe. O vírus pode causar uma doença febril semelhante à dengue; casos graves podem levar a doenças neurológicas, complicações materno-fetais e morte. Atualmente, não há vacinas licenciadas nem medicamentos antivirais disponíveis.

Identificado no Brasil desde a década de 1960, o Oropouche sempre esteve associado a surtos na Região Norte do país, especialmente com grandes surtos em cidades como Belém e Santarém. Por décadas, no entanto, foi tratado como uma arbovirose típica de áreas rurais e de floresta. Com a intensificação da mobilidade, especialmente por transporte aéreo, o vírus passou a circular com mais rapidez, saindo da Amazônia e alcançando outros pontos.

Pesquisador em trabalho de campo (à esquerda), área de desmatamento (ao centro) e solo úmido (à direita); pesquisadores discutem que o desmatamento pode estar relacionado à reemergência do vírus
Pesquisador em trabalho de campo (à esquerda); ao centro e à direita área de desmatamento e solo úmido, respectivamente, são as condições favoráveis para proliferação do vírus

Apesar da expansão geográfica, a transmissão do Oropouche continua dependente de condições ambientais específicas. O vetor se desenvolve em locais com solo úmido e matéria orgânica, comuns em regiões de mata ou áreas agrícolas. Plantações como banana, café e mandioca ajudam a manter essa umidade, criando ambientes ideais para a reprodução do inseto. Por isso, o vírus costuma se concentrar em áreas periurbanas, nas bordas das cidades. Em Campinas, já foi registrada a presença de potenciais vetores, espécies de culicoides, nos distritos de Sousas e Barão Geraldo, por exemplo. Esse fator é crucial para entender o avanço da doença: não se trata de um vírus urbano clássico, como a dengue, mas de uma arbovirose que encontra “pontes ecológicas” para chegar às cidades.

Os estudos mostram que surtos podem ocorrer de forma rápida. Em Manaus, por exemplo, 14% da população foi infectada em apenas cinco a seis meses, durante o período de chuvas. Antes do surto, cerca de 11% da população já tinha anticorpos contra o vírus. Esse número subiu para 25% após um ano, indicando ampla exposição. A análise por idade revelou outro dado importante: a maioria das pessoas com imunidade prévia tinha mais de 45 anos. Modelagens apontam que essas infecções ocorreram durante um grande surto há mais de 40 anos, no início da década de 1980.

De acordo com a pesquisa, o padrão se repete: crescimento rápido de casos em poucos meses, sempre associado ao período chuvoso, o que sugere um comportamento cíclico da doença.

Estudos soroepidemiológicos contínuos são fundamentais para compreender o impacto das doenças arbovirais na população
Estudos soroepidemiológicos contínuos são fundamentais para compreender o impacto das doenças arbovirais na população
Estudos soroepidemiológicos contínuos são fundamentais para compreender o impacto das doenças arbovirais na população
Estudos soroepidemiológicos contínuos são fundamentais para compreender o impacto das doenças arbovirais na população

Mais eficiente

Outro fator que preocupa os pesquisadores é a evolução do vírus. O Oropouche pode sofrer rearranjos genéticos quando diferentes variantes infectam uma mesma célula, gerando novas versões. Essas novas variantes podem se replicar com mais eficiência ou escapar parcialmente da imunidade adquirida anteriormente.

A doença causada pelo vírus é semelhante à dengue, com febre alta, dores no corpo e mal-estar. Também pode haver sensibilidade à luz e aumento da frequência urinária. Em alguns casos, os sintomas podem retornar após uma melhora inicial. O maior alerta, no entanto, está nas complicações neurológicas. O vírus pode atingir o sistema nervoso central e causar desde alterações leves, como perda de equilíbrio, até quadros graves e potencialmente fatais de meningite e encefalite.

A diferença entre o número estimado de infecções e os casos confirmados está ligada, principalmente, às dificuldades de acesso à saúde em regiões remotas. Na Amazônia, o deslocamento até um hospital pode levar dias, muitas vezes por barco ou estradas precárias. Isso impede o diagnóstico adequado e contribui para a subnotificação. Quando o vírus chega a regiões com melhor infraestrutura, passa a ser mais facilmente detectado, o que reforça a percepção de que ele está se expandindo.

O desafio de fortalecer a vigilância

Vírus passou a ser incluído nos protocolos de testagem
Vírus passou a ser incluído nos protocolos de testagem

O caso do Oropouche reforça um ponto central: doenças antes consideradas regionais podem rapidamente ganhar escala nacional e até internacional. Os pesquisadores alertam que o desafio agora é fortalecer a vigilância, especialmente em áreas remotas, e investir na prevenção. Também destacam a importância de melhorar as condições de vida das populações amazônicas, que são as primeiras a detectar novos surtos.

Os estudos que revelaram a nova dimensão do Oropouche também já impactaram políticas públicas. Hoje, o vírus passou a ser incluído nos protocolos de testagem, inclusive em locais onde dengue, zika e chikungunya já circulam. “O Brasil possui um sistema robusto de vigilância de arboviroses, com milhões de testes realizados por ano, considerado referência internacional. Mesmo assim, há espaço para aprimorar a detecção precoce, especialmente em regiões de difícil acesso”, afirma Souza.

A pesquisa foi apoiada pelo Wellcome Trust, Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil, Euroimmun e Instituto Todos pela Saúde.

Acesse os artigos publicados na Nature Medicine e Nature Health:

Ecological and demographic drivers of Oropouche virus transmission

Transmission dynamics of Oropouche virus in Latin America and the Caribbean

Leia mais:

Imunidade materna protege fetos contra danos do Oropouche

Foto de capa:

O levantamento estima que 9,4 milhões de infecções ocorreram entre 1960 e 2025 nesta região do planeta, sendo 5,5 milhões apenas no Brasil (Foto: Flávio Carvalho/Fiocruz)
O levantamento estima que 9,4 milhões de infecções ocorreram entre 1960 e 2025 na América Latina e Caribe, sendo 5,5 milhões apenas no Brasil (Foto: Flávio Carvalho/Fiocruz)

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Banco de dados inédito revela padrões de desinformação antivacina no Telegram

Por:raquel
16 de Março de 2026, 16:36

Um grupo multidisciplinar reunido pelo Laboratório de Inteligência Artificial Recod.ai, da Unicamp, mergulhou nas redes sociais e agrupou quatro milhões de postagens com apenas um objetivo: traçar os caminhos da desinformação antivacina que circula pelo aplicativo de mensagens Telegram no Brasil. O conjunto coletado inclui 1,4 milhão de arquivos de imagem, vídeo, áudio e enquetes – tudo compartilhado organicamente pelos usuários das redes ou turbinado pelos algoritmos. Com base nesses materiais, os pesquisadores criaram um banco de dados totalmente aberto, para uso sem finalidades comerciais, que está disponível no Repositório de Dados da Universidade. Trata-se de uma ferramenta que auxilia na valorização da verdade quando o assunto é saúde pública.

Infográfico de narrativas antivacina identificadas no Telegram

A análise abrangeu publicações feitas entre janeiro de 2020 e junho de 2025. O recorte temporal teve início nas primeiras semanas após a descoberta do coronavírus da covid-19 e se estendeu até os anos pós-pandemia, período de considerável circulação de desinformação na área de saúde, principalmente sobre a eficácia de tratamentos.

“Queremos entender melhor as motivações e estratégias de propagação da desinformação, mais precisamente na questão da vacinação. O tipo de comunicação que sobrevive, ganha força e se propaga nesse meio tem muita semelhança com os mecanismos de seleção natural que vemos na natureza. Se algum tipo de narrativa não está gerando engajamento, naturalmente as pessoas vão parar de reproduzi-la”, explica Leopoldo Lusquino Filho, colaborador do Recod.ai e docente da Unesp.

“Nós fizemos uma análise e conseguimos identificar que existem canais que só disseminam desinformação, outros que apenas a compartilham, e os que fazem as duas coisas. Existe uma estratégia por trás disso. Eventos externos, como a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, geram um efeito dominó nessas redes. É possível perceber também que há muitas mensagens compartilhadas por robôs”, detalha o pesquisador.

Ainda de acordo com Lusquino Filho, o fato de 2026 ser um ano eleitoral no Brasil tende a intensificar a circulação de conteúdos desinformativos. Isso porque as áreas de saúde e política acabam integrando disputas ideológicas que ficam mais acirradas nesse período. “Tivemos contato com outras agências de verificação de informações e elas confirmaram que nunca houve uma quantidade tão grande de desinformação política quanto neste ano”, aponta.

A análise abrangeu publicações feitas entre janeiro de 2020 e junho de 2025
A análise abrangeu publicações feitas entre janeiro de 2020 e junho de 2025

Primeiros passos

O primeiro passo para criar o banco de dados sobre desinformação antivacina foi identificar, em artigos de agências de checagem, os principais boatos sobre o tema. A partir disso, os pesquisadores selecionaram canais e grupos no Telegram, por ser esta uma base de dados mais acessível para fins de pesquisa e por ser conhecida por disseminar conteúdos antivacina. Isso foi feito com base em palavras-chave comuns nesse meio e de recomendações do algoritmo da própria plataforma para encontrar canais públicos semelhantes com mais de mil membros.

Na sequência, os cientistas desenvolveram uma ferramenta de coleta de dados personalizada nos canais e grupos. Depois do processo de coleta, os dados passaram por uma curadoria.

O projeto contou com o apoio da empresa Maritaca.ai para uso do modelo Sabiá, que facilitou a identificação de postagens relacionadas à vacinação. A privacidade dos usuários dos canais e grupos também foi assegurada. Eles passaram por um processo de anonimização, no qual a identificação do autor da mensagem foi removida. Somado a isso, informações pessoais como telefone, e-mail e registros de entradas e saídas dos grupos também foram excluídas. Isso tudo para que o processo respeitasse as boas práticas de ética em pesquisa e proteção de dados.

Da esquerda para a direita, Michelle Diniz Lopes, Leopoldo Lusquino Filho e Christiane Versuti: falta de dados abertos e sistematizados sobre a infodemia
Da esquerda para a direita, Michelle Diniz Lopes, Leopoldo Lusquino Filho e Christiane Versuti: falta de dados abertos e sistematizados sobre a infodemia

Lacuna histórica

De acordo com o Recod.ai, a iniciativa busca suprir uma lacuna histórica em relação à falta de dados abertos e sistematizados sobre a infodemia – o excesso de informações, incluindo notícias falsas ou imprecisas, que se espalham rapidamente durante uma crise sanitária – no caso brasileiro. “Os dados mostram que a desinformação vai além da saúde e envolve disputas políticas, crenças e desconfiança nas instituições — com impactos reais, como a queda da cobertura vacinal”, ressalta o material de divulgação científica do laboratório.

O conjunto de dados ocupa 5,5 terabytes de armazenamento (1 terabyte equivale a 1.024 gigabytes), reunindo conteúdos postados por 71.672 usuários em 119 grupos do Telegram. Há 407.723 mensagens relacionadas especificamente à postura antivacina, o que corresponde a 10,2% das postagens que compõem o banco de dados.

“Analisamos as reais motivações das pessoas que consomem informação negacionista na área de saúde, principalmente no que diz respeito à questão vacinal, e quais são as estratégias eficientes para propagação dessa desinformação”, explica a doutoranda Michelle Diniz Lopes, integrante da equipe de pesquisa, graduada em Matemática e especialista em Estatística e Neurociências. “Identificamos diversos nichos: o da desconfiança institucional, crenças injustificadas, visão de mundo e política, preocupações religiosas e fobias”, conta.

O conjunto de dados ocupa 5,5 terabytes de armazenamento (1 terabyte equivale a 1.024 gigabytes), reunindo conteúdos postados por 71.672 usuários em 119 grupos do Telegram
O conjunto de dados ocupa 5,5 terabytes de armazenamento (1 terabyte equivale a 1.024 gigabytes), reunindo conteúdos postados por 71.672 usuários em 119 grupos do Telegram

Disputas ideológicas

As narrativas de infodemia postadas por usuários do Telegram viraram espaço de disputas ideológicas. No espaço virtual, surgem com frequência temas ligados à saúde, à ciência, a instituições e políticas públicas e a crenças e desconfianças, além da disputa política propriamente dita. Ainda de acordo com o material de divulgação do Recod.ai, a presença maciça dessas narrativas indica que a desinformação na área de saúde passou a ter efeitos concretos na população. Isso trouxe impactos na política pública de vacinação, como se viu na perda de penetração do Programa Nacional de Imunizações (PNI), criado em 1973 para garantir às pessoas o acesso universal e gratuito às vacinas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Em 2020, o PNI alcançou o menor percentual de cobertura vacinal da sua história (75%) , de acordo com apuração do Instituto Butantan. A desinformação tem muita influência nisso.

Na tentativa de contribuir para reverter esse quadro, o Recod.ai espera que o novo banco de dados ajude as comunidades científica e de saúde a desenvolverem estratégias baseadas em evidências para mitigar a desinformação e a hesitação vacinal. “O entendimento dos padrões da infodemia é essencial para reconstruir o diálogo e a confiança com pessoas afetadas por narrativas falsas”, reforça o material de divulgação do trabalho científico.

As mais diversas áreas de pesquisa podem se beneficiar dos dados coletados. No campo do processamento de linguagem natural, por exemplo, serve como ferramenta para entender grandes volumes de postagens; nas ciências sociais, que permite compreender as narrativas antivacina; na análise de redes, servirá para identificar grupos e perfis influentes na disseminação de desinformação; e, no estudo das realidades sintéticas, contribui para identificar vídeos e imagens que são gerados por IA para apoiar discursos antivacina.

Michelle Lopes destaca o papel social do trabalho e a sua capacidade de orientar a população em geral. “Existem muitas pesquisas que não conseguem ter uma aplicabilidade social, mas no Recod.ai nós sempre tentamos vincular esse trabalho com a extensão, para que ele possa ser aproveitado pela sociedade como um todo. É importante dizer que temos utilizado a IA para analisar e encontrar padrões, mas é fundamental sempre existir uma curadoria humana”, salienta Lopes.

Na opinião dela, é fundamental “que possamos fazer questionamentos de forma estruturada, em prol do nosso desenvolvimento como sociedade”. Isso só é possível porque contamos com diversos pesquisadores, em um grupo multidisciplinar, que nos apoiam. Nossa busca é pela verdade.”, completa.

Em uma nova etapa do trabalho, os pesquisadores querem compreender o que leva as pessoas a aderirem a esse tipo de conteúdo
Em uma nova etapa do trabalho, os pesquisadores querem compreender o que leva as pessoas a aderirem a esse tipo de conteúdo

Ressentimento

A pós-doutoranda Christiane Versuti, com formação em Ciências Sociais e Comunicação, colaborou como pesquisadora no projeto. Ela entrou como uma usuária comum em diversos grupos do Telegram e acompanhou suas movimentações. Nesse ambiente, percebeu que o ressentimento e a busca por pertencimento movem quem acompanha cada postagem. “A falta de letramento midiático torna tudo ainda mais hostil. As pessoas não têm o hábito de checar as fontes ou só compartilhar algo quando têm certeza do conteúdo”, diz a pesquisadora.

Para Versuti, o ambiente digital fica ainda mais turbulento quando a questão da religião aparece. “É a lógica do racional contra o emocional. Tem gente que só aceita a ciência quando a informação bate com suas crenças. O mesmo acontece em relação à imprensa: os jornalistas só são considerados sérios quando falam o que a pessoa defende”, destaca Christiane, que se deparou com momentos que beiram o absurdo. “Encontrei mensagens que tratavam a enzima conhecida como luciferase como algo demoníaco apenas pela vaga lembrança que seu nome trazia. Outras apontavam que a aplicação dessa enzima transformaria as pessoas em zumbis”, lembra Versuti, explicando que luciferase é uma enzima bioluminescente que catalisa a oxidação, produzindo luz em diversos organismos como vagalumes, bactérias e fungos, por exemplo.

Próximas etapas

Em uma nova etapa do trabalho, os pesquisadores vão além da identificação das mensagens antivacina. Eles querem compreender o que leva as pessoas a aderirem a esse tipo de conteúdo. “Outros projetos de pesquisa já coletaram bases de dados amplas como a nossa, mas não as disponibilizam gratuitamente. Esse material costuma ser vendido por valores altos. Mas, no nosso caso, qualquer outro grupo acadêmico pode pegar as análises que a gente fez. Já disponibilizamos a base de dados do Telegram e, agora, estamos trabalhando com o Instagram, YouTube e X. Vamos disponibilizar isso ainda este ano, também de forma totalmente aberta e gratuita”, adianta o pesquisador Lusquino Filho. Neste mês, representantes do Recod.ai vão se reunir com funcionários do Ministério da Saúde para oferecer a ferramenta como fonte de futuras políticas públicas no país.

O banco de dados é resultado de uma parceria entre o Recod.ai e a Maritaca.ai, reunindo expertises acadêmicas e tecnológicas no desenvolvimento de soluções baseadas em IA. O projeto recebeu apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), por meio do Projeto Horus, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Ministério da Saúde, a partir do Projeto Aletheia, iniciativa de pesquisa que usa IA e linguística computacional para combater a desinformação em saúde.

Além de Leopoldo Lusquino Filho, Michelle Lopes e Christiane Versuti , o projeto teve a participação direta de Ana Carolina Monari e Anderson Rocha, coordenador do Recod.ai.

Foto de capa:

O conjunto coletado inclui 1,4 milhão de arquivos de imagem, vídeo, áudio e enquetes – tudo compartilhado organicamente pelos usuários das redes ou turbinado pelos algoritmos
O conjunto coletado inclui 1,4 milhão de arquivos de imagem, vídeo, áudio e enquetes – tudo compartilhado organicamente pelos usuários das redes ou turbinado pelos algoritmos

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O carbono esquecido debaixo do Cerrado

Por:raquel
12 de Março de 2026, 11:15
Por décadas, o Cerrado brasileiro foi visto apenas como uma paisagem seca e retorcida
Por décadas, o Cerrado brasileiro foi visto apenas como uma paisagem seca e retorcida

O carbono esquecido debaixo do Cerrado

Veredas e campos úmidos do bioma armazenam até oito vezes mais carbono por hectare do que a Amazônia

Por décadas, o Cerrado brasileiro foi visto apenas como uma paisagem seca e retorcida
Por décadas, o Cerrado brasileiro foi visto apenas como uma paisagem seca e retorcida

Descobertas no Cerrado brasileiro estão prestes a redesenhar o mapa global de estoques de carbono e a forma como a ciência compreende a importância das savanas no equilíbrio do planeta. Por décadas, esse bioma foi visto apenas como uma paisagem seca e retorcida, ocupando o papel de ‘patinho feio’ ou ‘boi de piranha’ nas políticas de conservação brasileira, que privilegiavam quase exclusivamente a exuberância úmida da Amazônia e de outras florestas tropicais.

A ecóloga Larissa Verona: parte do solo é um grande estocador de carbono
A ecóloga Larissa Verona: descobertas no Cerrado podem redesenhar o mapa climático global
A ecóloga Larissa Verona: parte do solo é um grande estocador de carbono
A ecóloga Larissa Verona: descobertas no Cerrado podem redesenhar o mapa climático global

No entanto, uma pesquisa inédita liderada pela ecóloga Larissa Verona, mestre em Biologia Vegetal pela Unicamp, em conjunto com outros pesquisadores da universidade, do Instituto Max Planck (Alemanha), do Cary Institute e da Universidade Yale (EUA), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, mostra que as veredas e os campos úmidos do Cerrado são capazes de estocar até oito vezes mais carbono por hectare do que o carbono presente na biomassa aérea de uma floresta amazônica típica, transformando o que antes era visto como uma paisagem sazonalmente seca em um cofre climático gigantesco.

“Estamos mostrando que parte do solo é um grande estocador de carbono, e as turfeiras do Cerrado [áreas úmidas, onde restos de plantas se acumulam e se decompõem lentamente, formando um solo rico em matéria orgânica] têm esse potencial exacerbado. Conservar esse estoque evita a emissão do que estaria indo para a atmosfera se degradássemos esse solo”, explica Verona. Esse e outros achados estão em um artigo publicado na revista New Phytologist.

Por meio de aferições de isótopos radioativos de carbono feitas no solo em profundidades de até quatro metros, os pesquisadores concluíram que esses reservatórios contêm carbono acumulado há mais de 20 mil anos. Apesar de o longo período trazer a impressão de se tratar de estoques seguros de carbono, o estudo revela que são frágeis diante das alterações na dinâmica hídrica da região e do rebaixamento dos lençóis freáticos. “Se começarmos a drenar essas turfeiras e liberar esse carbono acumulado, lançaremos bombas de carbono na atmosfera. É uma quantidade de carbono orgânico até então desconhecida, em uma grande extensão e em um bioma improvável”, alerta o professor do Departamento de Biologia Vegetal da Unicamp Rafael Oliveira, coordenador do estudo e orientador de Verona.

O coordenador da pesquisa, Rafael Oliveira: falta de conservação pode levar a emissão de bombas de carbono na atmosfera
O coordenador da pesquisa, Rafael Oliveira: falta de conservação pode levar a emissão de bombas de carbono na atmosfera

Berço das águas sob ameaça

O coordenador da pesquisa, Rafael Oliveira: falta de conservação pode levar a emissão de bombas de carbono na atmosfera
O coordenador da pesquisa, Rafael Oliveira: falta de conservação pode levar a emissão de bombas de carbono na atmosfera

Com quase dois milhões de quilômetros quadrados, o Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil e representa 23,3% do território. Presente em 16 estados e no Distrito Federal, é conhecido como “berço das águas” por abrigar oito das 12 nascentes das principais bacias hidrográficas do Brasil, além de três grandes aquíferos. Dentro desse bioma, estão as veredas e os campos úmidos, onde se encontram as turfas e os solos ricos em carbono orgânico.

Veredas são zonas úmidas que aparecem no Cerrado como ilhas lineares encaixadas em vales rasos e nascentes de rios. Os campos úmidos são ecossistemas semelhantes, mas sem as palmeiras, compostas por extensões herbáceas encharcadas, dominadas por gramíneas e sedges, que também foram objeto de análise do estudo.

Até então, o consenso global científico ditava que grandes áreas de turfeiras existiam majoritariamente em regiões de frio extremo no Hemisfério Norte ou sob florestas tropicais de chuva constante, como na Bacia do Congo ou na Amazônia peruana. Sob essa perspectiva, o clima do Cerrado, com sua estação de seca severa de seis meses, não teria condições de sustentar a umidade necessária para formar turfas. Como consequência, grande parte desses estoques de carbono permaneceu fora das estimativas globais sobre o papel dos ecossistemas tropicais na regulação do clima.

O Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul presente em 16 estados brasileiros e no Distrito Federal
O Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul presente em 16 estados brasileiros e no Distrito Federal
O Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil presente em 16 estados e no Distrito Federal

Oliveira ressalta que o Brasil Central foi historicamente excluído de mapeamentos globais de áreas úmidas porque “temos dificuldade de entender parte da nossa própria natureza quando ela foge do viés que associa áreas úmidas a ambientes muito chuvosos e florestais”. O diferencial está no subsolo: “A água do Cerrado está principalmente no componente subterrâneo. Quando a zona freática aflora na superfície, determina a baixa decomposição da matéria orgânica e, consequentemente, possibilita a acumulação do carbono.”

As veredas operam como uma “caixa d’água invertida”: a água da chuva se infiltra profundamente no solo e recarrega os reservatórios subterrâneos que afloram na superfície, mantendo a terra permanentemente saturada. Esse encharcamento contínuo cria um escudo que bloqueia o oxigênio e impede que microrganismos decomponham a matéria orgânica, permitindo que o carbono retirado da atmosfera seja enterrado e preservado no solo por milênios.

“Quando você olha uma paisagem do Cerrado à distância, você vê a savana e os campos, mas a Vereda está encaixada ali e ocupa um espaço pequeno. Pensando na escala do ecossistema inteiro, essas pequenas áreas se tornam muito importantes”, resume Verona. Com base nos levantamentos feitos pela equipe, as turfeiras representam, ao todo, cerca de 8% da área do Cerrado – uma extensão de 16,7 milhões de hectares, maior do que o estado do Acre, que tem 15,2 milhões de hectares.

Exemplo de solo orgânico entre 100-150 cm de profundidade
Exemplo de solo orgânico entre 100-150 cm de profundidade

Do campo à tecnologia

Exemplo de solo orgânico entre 100-150 cm de profundidade
Exemplo de solo orgânico entre 100-150 cm de profundidade

O que diferenciou esse trabalho dos estudos anteriores foi a profundidade das coletas. Enquanto outras pesquisas analisaram camadas superficiais, de 20 centímetros a um metro de profundidade, os pesquisadores da Unicamp utilizaram sondas tubulares metálicas, conhecidas como Russian Peat Auger, para extrair amostras de solo de até 4 metros, o que foi determinante para os resultados encontrados. “Se não fôssemos para campo e fizéssemos as medidas, nunca saberíamos qual a profundidade desses solos, e isso muda todo o cenário”, disse Verona. Caso a coleta fosse restrita apenas à camada superficial, como em outros estudos, o carbono total seria subestimado em até 95%.

As amostras foram suficientes para confirmar o acúmulo de carbono nas turfas, mas era importante estimar o total para o bioma de quase 2 milhões de quilômetros quadrados. Para isso, parte da equipe treinou um algoritmo para encontrar veredas e campos úmidos nessa imensidão, cruzando dados topográficos e dos satélites Sentinel-1 e2. O modelo de aprendizado de máquina utilizado (Random Forest) foi validado com dados do Cadastro Ambiental Rural (CAR), registro público em que proprietários de terras precisam declarar a presença de veredas, classificadas no Código Florestal como Áreas de Preservação Permanente (APPs).

O mapeamento chegou ao total de cerca de 16,7 milhões de hectares. Em termos de carbono, isso representa uma média de aproximadamente 1,2 mil tonelada de carbono por hectare, armazenadas principalmente no solo. Para ter uma ideia da proporção, Verona conta que, se todas as veredas mapeadas acumularem a mesma quantidade média de carbono do que as áreas das amostras, as veredas do Cerrado, sozinhas, respondem por cerca de 20% de todo o carbono estocado pela biomassa da Amazônia. Contudo, são necessários mais estudos para que essa estimativa seja confirmada. Ainda segundo a pesquisadora, a ciência estima que as turfas de todo o mundo armazenam mais carbono do que toda a biomassa dos seres vivos – plantas e animais – combinada.

Amostra que confirma o acúmulo de carbono nas turfas
Amostra de turfa retirada na Chapada dos Veadeiros

Longevidade e sensibilidade

Amostra que confirma o acúmulo de carbono nas turfas
Amostra de turfa retirada na Chapada dos Veadeiros

A importância cronológica desse solo também foi posta à prova. Algumas das amostras foram enviadas ao Instituto Max Planck para análises biogeoquímicas, sob os cuidados de Susan Trumbore, uma das maiores especialistas mundiais em ciclos de carbono e datação por radiocarbono. As avaliações apontaram que o processo de formação das turfeiras estudadas começou há pelo menos 20 mil anos. “Trata-se de uma verdadeira cápsula do tempo geológico e climático”, escrevem os pesquisadores no artigo, notando que o sistema operou como um cofre silencioso, resistindo a milênios de variações climáticas.

Nem tudo é celebração, sobretudo diante de décadas de intervenções humanas no bioma. Através de análises de espectrometria de infravermelho (FT-IR), as veredas e campos úmidos do Cerrado foram comparados com outras turfeiras tropicais, e uma fragilidade alarmante foi descoberta.

Enquanto as turfeiras de florestas são ricas em lignina – composto fibroso e resistente, difícil de ser digerido pelas bactérias –, constatou-se que as do Cerrado produzem turfa a partir de gramíneas e ervas, material carregado de holocelulose, de fácil digestão para os microrganismos. Verona descreve as moléculas de holocelulose como um “algodão doce” para as bactérias do solo: uma fonte de energia fácil e instantânea.

Da esquerda para a direita, Paulo Bernardino, Larissa Verona, Guilherme Alencar, Natashi Pilon, Rafael Oliveira durante durante o trabalho de campo na Chapada dos Veadeiros:
Da esquerda para a direita, Paulo Bernardino, Larissa Verona, Guilherme Alencar, Natashi Pilon, Rafael Oliveira durante durante o trabalho de campo

O único motivo pelo qual esse estoque não foi consumido nos últimos milênios foi justamente o escudo de água que mantém os microrganismos dormentes por falta de oxigênio. Quando esse escudo baixa, mesmo que sazonalmente, as bactérias encontram o substrato ideal e o ciclo de decomposição se acelera.

As análises feitas a partir dos dados de fluxos de gases confirmam que essa “bomba-relógio” já dá sinais de ativação sazonal. Equipamentos instalados em campo mediram as emissões de dióxido de carbono (CO₂) e metano (CH₄) ao longo de um ano e revelaram que 70% das emissões anuais ocorrem durante a estação seca. Quando o lençol freático desce naturalmente por conta da estiagem, o oxigênio invade o solo, e as bactérias iniciam seu banquete frenético no alimento acumulado por 20 mil anos. O impacto é preocupante, especialmente em relação ao metano, que possui um potencial de aquecimento global muito superior ao CO₂.

A vulnerabilidade das veredas e dos campos úmidos é agravada por sua distribuição “dendrítica”, segundo Oliveira. Ao contrário de grandes extensões contínuas, como as turfeiras do Congo ou da Amazônia peruana, elas não se organizam em massas compactas, mas em áreas pequenas, fragmentadas e ramificadas que acompanham a rede de drenagem por todo o bioma. São finas tiras sinuosas que acompanham as nascentes e riachos de primeira ordem, espalhando-se pela paisagem como neurônios. Por serem longas e estreitas, estão em contato permanente com áreas de agricultura intensiva e são diretamente afetadas pelo uso da água ao seu redor.

À esquerda, pivôs de irrigação central retiram água do subsolo para manter enormes plantações de soja no Matopiba, na Bahia. (Marizilda Cruppe/Greenpeace); à direita Canal de irrigação que abastece sistema de pivô central para uma plantação de soja no Cerrado. (Victor Moriyama/Greenpeace Brasil)
À esquerda, pivôs de irrigação central retiram água do subsolo para manter enormes plantações de soja no Matopiba, na Bahia. (Marizilda Cruppe/Greenpeace); à direita Canal de irrigação que abastece sistema de pivô central para uma plantação de soja no Cerrado. (Victor Moriyama/Greenpeace Brasil)
À esquerda, pivôs de irrigação central retiram água do subsolo para manter enormes plantações de soja no Matopiba, na Bahia. (Marizilda Cruppe/Greenpeace); à direita Canal de irrigação que abastece sistema de pivô central para uma plantação de soja no Cerrado. (Victor Moriyama/Greenpeace Brasil)

Legislação e expansão agrícola

Apesar de sua importância e da existência de leis para proteger essas áreas, as veredas e campos úmidos enfrentam ameaças crescentes devido a mudanças no uso da terra, à drenagem de áreas úmidas, à expansão agrícola e à intensificação das secas associadas às mudanças climáticas. Esses distúrbios podem fazer com que os ecossistemas passem de importantes sumidouros de carbono a fontes de emissões, liberando para a atmosfera estoques acumulados ao longo de milhares de anos.

Quando propriedades vizinhas a essas áreas instalam pivôs centrais de irrigação que sugam grandes volumes dos lençóis freáticos, o nível da água de toda a bacia é rebaixado – explica a ecóloga –, fazendo com que as veredas e campos úmidos sequem debaixo do solo.

As descobertas abrem uma nova fronteira para a conservação. Para os pesquisadores, elas evidenciam os limites de uma visão historicamente “florestocêntrica”, que priorizou a Amazônia em detrimento das savanas e áreas úmidas abertas – e que resultou em décadas de negligência com o Cerrado, tanto científica quanto política. Proteger a vegetação visível das veredas sem proteger o regime hídrico da bacia ao redor é, segundo os estudiosos, uma proteção incompleta. “A gestão do território não pode ser apenas sobre plantas. A gestão da água e a gestão do carbono são, neste bioma, a mesmíssima coisa”, defende Oliveira.

A principal questão suscitada pelo estudo, que ainda demanda respostas, é também a mais urgente para os pesquisadores: ainda não se sabe quanto desse estoque já foi perdido. “O Cerrado está tão alterado que já percebemos no cotidiano as secas mais intensas, os rios com menos água, e não sabemos o quanto já perdemos desses ecossistemas. As evidências indicam que algo já foi perdido, mas a dimensão dessa perda ainda é uma pergunta sem resposta”, avalia o professor.

Confira artigo completo na revista New Phytologist.

Foto de capa:

Pesquisa transforma o que antes era visto como uma paisagem sazonalmente seca em um cofre climático gigantesco
Pesquisa transforma o que antes era visto como uma paisagem sazonalmente seca em um cofre climático gigantesco (Foto: André Dib)

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8 de Março, um dia para celebrar mais mulheres nas salas de aula, na pesquisa e na extensão

Por:raquel
5 de Março de 2026, 15:37

8 de Março, um dia
para celebrar mais mulheres nas
salas de aula,
na pesquisa e
na extensão

Universidade promove ações afirmativas como editais, eventos e disciplinas sobre gênero a fim de apoiar protagonismo feminino no universo acadêmico

O Dia Internacional da Mulher, comemorado em 8 de março, é uma data para lembrar lutas e celebrar avanços frente às desigualdades de gênero que ainda persistem. Na Unicamp, o incentivo às ações afirmativas para ampliar a participação feminina na produção acadêmica – como o “Mais Mulheres na Pesquisa”, da Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP), que terá sua segunda edição em 2026, depois de contemplar 25 projetos no ano passado –, a inclusão de disciplinas sobre gênero nos catálogos da universidade e o avanço de projetos de extensão voltados para o universo feminino estão entre os exemplos dessa busca por equidade.

Apesar da presença das mulheres nas salas de aula da Unicamp ser cada vez mais representativa, elas continuam minoria. Entre 2015 e 2025, o número de universitárias matriculadas aumentou 7%, de 1.504 para 1.610, enquanto a porcentagem masculina caiu 2%, de 1.991 para 1.941 matrículas, segundo dados da Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp (Comvest).

Na comparação entre os cursos, há grandes disparidades. Em 2025, as mulheres seguiam minoria em Engenharia de Computação (11,96%), Engenharia Mecânica (20,57%) e Estatística (25,35%), por exemplo. Já nos cursos historicamente associados ao cuidado e à saúde, como Medicina (55,3%), Enfermagem (75,6%) e Pedagogia (87,7%), as mulheres são maioria.

Conforme os indicadores estratégicos do Planes construídos pelo Escritório de Dados e Apoio à Transformação (Edat), na análise do percentual de alunos matriculados, entre o período de 2019 a 2026, os homens representam 55,4% e as mulheres 44,6% dos estudantes. Na carreira docente, os homens também predominam, com 60,6% contra 39,4%. Já entre os Profissionais de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão (Paepe), 59,7% são mulheres e 40,3% homens.

A pesquisadora do Pagu Karla Bessa: ampliar a presença feminina nas áreas STEM
A pesquisadora do Pagu Karla Bessa: ampliar a presença feminina nas áreas STEM

Longo caminho

Karla Bessa, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu, professora da pós-graduação em Multimeios no Instituto de Artes (IA) e do doutorado em Ciências Sociais no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), destaca que ainda há “um longo percurso para a equidade de fato acontecer”.

Bessa ressalta que ainda é preciso ampliar a presença feminina nas áreas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), reduzir a disparidade nas bolsas de produtividade e criar políticas específicas para mulheres negras, quilombolas, trans e indígenas, além de ser necessária uma maior integração entre dados, financiamento e avaliação institucional. “Só assim saberemos se as iniciativas que temos feito estão sendo eficientes e quais áreas precisamos aprimorar.”

Atualmente, como vice-coordenadora do INCT Caleidoscópio (Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências), voltado à equidade de gênero e étnico-racial nas ciências, Bessa diz que a preocupação central é garantir condições adequadas para que mulheres possam estudar e trabalhar. “A violência de gênero no ambiente de trabalho desencadeia sucessivas consequências”, enfatiza. Por isso, o Observatório Caleidoscópio, que Bessa coordena juntamente com as professoras Margaret Lopes (Pagu/Unicamp) e Joana Pedro, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), tem monitorado indicadores relevantes e desenvolvido pesquisas nessa área.

Segundo Bessa, a Unicamp é pioneira com ao menos quatro equipamentos estruturais importantes para receber denúncias, como o Serviço de Atenção à Violência Sexual (Savs), desvinculados dos departamentos. “Ainda há desafios, mas a criação da Diretoria de Direitos Humanos e de uma comissão especializada em sexualidade e gênero para pensar as políticas de equidade e o enfrentamento das violências foram fundamentais”, afirma.

Entre os avanços recentes, Bessa cita a implementação do “botão do pânico” e a criação do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab) e do Núcleo da Consciência Trans, que representam “uma conquista relevante, especialmente como espaço de produção acadêmica de mulheres negras e mulheres trans”. Para ela, enfrentar desigualdades estruturais exige ir além do acesso. “As políticas de cotas modificaram o perfil da Universidade, com vestibular indígena e cotas para pessoas negras e trans, mas é preciso garantir permanência e pertencimento”, destaca.

A Unicamp é pioneira com ao menos quatro equipamentos estruturais importantes para receber denúncias de violência
A Unicamp é pioneira com ao menos quatro equipamentos estruturais importantes para receber denúncias de violência

O cenário é complexo, continua a professora. “Persistem disparidades raciais, especialmente no acesso aos cargos de maior prestígio na carreira científica. O número de mulheres negras ainda é reduzido; na pós-graduação, onde as mulheres são maioria, há concentração em áreas como humanidades e saúde, enquanto as áreas tecnológicas ainda apresentam déficit feminino”, completa.

Na área de Exatas, há iniciativas na Unicamp para atrair mais alunas, como o projeto de extensão Elas na Engenharia, da Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM), que tem como missão inspirar mais meninas a seguirem carreira nas áreas STEM, além de prestar apoio às alunas do curso, de modo a evitar a evasão e a capacitá-las para futuros cargos de liderança no campo profissional.

Vale destacar que, no ano passado, os cursos de graduação em Engenharia de Controle e Automação e Engenharia Mecânica tiveram aumento no número de ingressantes mulheres. Em 2023 e 2024, elas representavam cerca de 14% do total de ingressos, correspondendo a 26 mulheres em cada ano. Em 2025, a porcentagem chegou a 20%, ou seja, 39 mulheres.

Entre os projetos de extensão, há o M.A.F.A.L.D.A., voltado a estudantes do Ensino Médio de escolas públicas, que tem como objetivo estimular meninas a ingressarem em carreiras nas áreas STEM. O nome é um acrônimo para Meninas na Química, Física e Engenharia para Liderar o Desenvolvimento em Ciência e sintetiza a proposta central do projeto: ampliar a presença feminina em áreas historicamente marcadas pela desigualdade de gênero.

Diversos movimentos e redes têm contribuído para ampliar o debate, como as Mulheres Cientistas da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o Parents in Science, as Mulheres Acadêmicas na Unicamp e outros coletivos. Agências de fomento também começam a incorporar medidas de equidade, como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que lançou um programa de diversidade e inclusão em 2023. “Além disso, o CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico] passou a considerar períodos de maternidade na avaliação curricular, e a Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior] criou um censo demográfico da pós-graduação, instrumento visto como fundamental para produzir métricas e monitorar desigualdades”, completa.

“A transformação profunda e estrutural da desigualdade de gênero na ciência não acontece apenas aumentando matrículas. Ela exige rever critérios de avaliação, financiamento, cultura institucional e redes de apoio, visto que a permanência e a inserção no circuito acadêmico, ou seja, o reconhecimento das trajetórias é um dado fundamental para avaliarmos a equidade de gênero de modo interseccional e abrangente nas diferentes áreas de conhecimento”, completa Bessa.

Em 2025, as mulheres seguiam minoria em Engenharia de Computação (11,96%), Engenharia Mecânica (20,57%) e Estatística (25,35%)
Em 2025, as mulheres seguiam minoria em Engenharia de Computação (11,96%), Engenharia Mecânica (20,57%) e Estatística (25,35%)
Em 2025, as mulheres seguiam minoria em Engenharia de Computação (11,96%), Engenharia Mecânica (20,57%) e Estatística (25,35%)

Conquistas históricas

A professora Helena Altmann, da Faculdade de Educação Física (FEF), que ministra a disciplina “Gênero e sexualidade nas práticas corporais”, destaca que o 8 de Março é uma data histórica importante para se olhar para o que já foi conquistado, como a própria existência de uma disciplina obrigatória sobre gênero no curso de Educação Física.

“Há muito a ser comemorado, porque a sociedade mudou muito. Mas, muitas vezes, a forma de comemorar recoloca a mulher em um lugar estereotipado, fragilizado, que o movimento feminista justamente reivindicou superar. A data significa a luta das mulheres para ocupar outros lugares: o direito ao voto, ao mercado de trabalho, ao esporte, a cargos de comando, além da luta contra o feminicídio e a violência contra a mulher, que ainda são questões muito presentes”, afirma.

A professora lembra que a disciplina na FEF nasceu da pauta das questões das mulheres dentro do campo da Educação Física e das Ciências Sociais. “Muitas vezes, gênero e sexualidade são marcadores de desigualdade no acesso, na permanência e na profissionalização dentro da Educação Física e dos esportes”, destaca.

A docente da Faculdade de Educação Física Helena Altmann: disciplina “Gênero e sexualidade nas práticas corporais”
A docente da Faculdade de Educação Física Helena Altmann ministra a disciplina “Gênero e sexualidade nas práticas corporais”

Altmann lembra que pesquisas comprovam que as mulheres praticam menos atividades físicas e esportivas do que os homens. “A inatividade aumenta a partir de marcadores sociais como renda, escolaridade e raça. Mulheres negras, com menor escolaridade e com renda mais baixa apresentam menor frequência de prática”, afirma.

A professora enfatiza que o direito das mulheres de praticar esportes “foi uma conquista histórica”. Vale destacar que a legislação brasileira proibiu a prática em dois momentos distintos, em 1941 e em 1965. “A legislação de 1941 dizia que as mulheres não podiam praticar esportes ‘incompatíveis com a sua natureza’. Havia a ideia de que a prática esportiva poderia afetar a capacidade reprodutiva, um tipo de preocupação que nunca foi formulada em relação aos homens.” Em 1965, a legislação explicitou que as mulheres não podiam praticar esportes como futebol, rugby, polo aquático e halterofilismo, modalidades consideradas perigosas para elas. “Isso caiu por volta de 1979, num contexto de abertura política no Brasil.”

Feminismo de dados

Sandra Avila, professora do Instituto de Computação (IC), co-coordenadora do projeto de extensão Meninas SuperCientistas, defende que as ações afirmativas precisam ocorrer em diferentes esferas. “É importante destacar que não começamos do mesmo lugar, já que as mulheres nem sempre tiveram direito de estudar, trabalhar ou votar. Não temos o mesmo histórico.”

Sobre o Dia Internacional da Mulher, Avila reforça que não se trata apenas de uma data simbólica. “É um momento de luta. Não é um dia só, são todos os dias.” A reflexão sobre desigualdades de gênero também atravessa sua atuação docente, com a criação da disciplina “Feminismo de dados”, ministrada na pós-graduação do IC.

“A disciplina discute inteligência artificial (IA) a partir da noção de que dados são poder. Se as pessoas não estão representadas nos dados, não estarão representadas nos modelos. A proposta não se restringe às mulheres, mas às pessoas minorizadas socialmente – mulheres, pessoas negras, indígenas, periféricas, LGBTQIA+, trans, com deficiência, corpos fora do ‘padrão’ e outros grupos marginalizados”, explica.

Sandra Avila, professora do Instituto de Computação: ´momento de luta
Sandra Avila, professora do Instituto de Computação: momento de luta

A primeira turma, em 2025, contou com estudantes de diferentes cursos, com homens e mulheres em número equilibrado, “além de alunos especiais e profissionais do setor privado interessados na discussão”. A disciplina será novamente oferecida no segundo semestre de 2026.

A professora, contemplada na primeira edição do projeto Mais Mulheres na Pesquisa, relata que passou a atuar mais intensamente para enfrentar a desigualdade de gênero na área acadêmica nos últimos anos, com o fortalecimento de iniciativas voltadas à permanência de mulheres na ciência.

Avila destaca que, no projeto Meninas SuperCientistas, criado em 2019, iniciativa que aproxima estudantes do Ensino Fundamental II de pesquisadoras científicas, a ideia é apresentar possibilidades: “São cientistas mulheres apresentando o que fazem para meninas que talvez não se enxerguem nesse mesmo lugar. É clichê, mas é isso: mostrar que elas podem ser o que elas quiserem.”

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8 de Março, um dia para celebrar mais mulheres nas salas de aula, na pesquisa e na extensão
Apesar da presença das mulheres nas salas de aula da Unicamp ser cada vez mais representativa, elas continuam minoria

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Cepagri desenvolve ferramenta que calcula emissões de carbono nas lavouras de café

Por:raquel
3 de Março de 2026, 15:04

Depois de aproximadamente três anos de trabalho, pesquisadores  do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), da Unicamp, concluíram o desenvolvimento de uma ferramenta capaz de calcular o balanço de emissões de carbono na cultura de café.

Acesse a ferramenta.

Num projeto em parceria com a Cooperativa dos Cafeicultores de Guaxupé (Cooxupé), no sul de Minas Gerais, o recurso permite contabilizar as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e o sequestro de carbono em todas as etapas da produção.

A partir da aplicação de insumos – fertilizantes usados no cultivo, queima de combustível para funcionamento de maquinário, processos de beneficiamento e outras atividades da cadeia produtiva – a solução faz a quantificação das emissões e do sequestro de GEE. Com esses dados disponíveis, o produtor poderá promover um manejo sustentável sem reduzir níveis de produtividade e rentabilidade, além de disputar o mercado interno e externo em melhores condições.

A pesquisadora do Cepagri Renata Gonçalves: primeiro destinado para a cafeicultura
A pesquisadora do Cepagri Renata Gonçalves: primeiro destinado para a cafeicultura

A pesquisadora do Cepagri e coordenadora do projeto Renata Gonçalves conta que há mais de 20 anos a organização global de pesquisa World Resources Institute (WRI) cria protocolos internacionalmente aceitos para o desenvolvimento de inventários corporativos de GEE. Denominados genericamente de GHG Protocol (“protocolo GEE”, em inglês), esses padrões definem as práticas internacionalmente aceitas para o desenvolvimento de inventários de GEE corporativos, de projetos ou de produtos.

Nos últimos anos, no entanto, tem crescido a demanda por diretrizes técnicas voltadas para o setor agrícola. O modelo elaborado pelo Cepagri é o primeiro destinado especificamente para a cafeicultura.

A Cooxupé é hoje uma das associações mais importantes do setor na América Latina. Conta com aproximadamente 20 mil membros produtores. Segundo a associação, Minas Gerais é responsável por grande parte da safra nacional e, dessa produção, cerca de 50% é entregue pelo Sul de Minas. No total, o estado tem uma área cultivada superior a 1 milhão de hectares. De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), 99% desse espaço é voltado à produção do café arábica, para o qual a ferramenta do Cepagri foi desenvolvida.

O pesquisador João Paulo da Silva, que integra a equipe de desenvolvedores, diz que a principal preocupação no processo de adaptação da ferramenta para o café foi a busca pela identificação mais precisa dos efeitos da atividade no carbono estocado no solo.

“Isso demandou um trabalho bastante importante de coletas de dados específicos, como a coleta de amostra no campo em diferentes extratos das propriedades de café”, explica Silva.

João Paulo da Silva, da equipe de desenvolvedores: coletas de dados específicos
João Paulo da Silva, da equipe de desenvolvedores: coletas de dados específicos

“Depois, tivemos de submeter essas amostras a análises laboratoriais para entendermos a dinâmica desse carbono no solo em diferentes situações; em extratos de um cafezal, pontos relacionados ao relevo e em diferentes idades da planta”, conta ele.

Em seguida, o grupo fez o cruzamento de dados levantados nas propriedades com o banco de dados que a Cooxupé havia construído ao longo dos anos. Segundo Silva, a cooperativa dispõe de grande volume de dados sobre análise de solo e, a partir disso, foi possível estabelecer uma taxa de variação do carbono no solo.

Necessidade

Renata Gonçalves conta que o projeto de desenvolvimento da ferramenta integra o programa da Cooxupé denominado Protocolo de Sustentabilidade Gerações, que visa promover boas práticas agrícolas tendo como metas a sustentabilidade econômica, social e ambiental.

Gonçalves explica que muitos anos atrás, quando o Cepagri e a Embrapa começaram a trabalhar com o tema de mudanças climáticas, os pesquisadores alertaram que o café teria problemas com o aumento da temperatura. “Se a temperatura sobe muito, por exemplo, na época do florescimento, são grandes as chances de abortamento floral”, lembrou a pesquisadora.

Segundo ela, os eventos extremos, como calor extremo, granizo, geadas muito fortes ou secas prolongadas, têm ocorrido com maior frequência nessas áreas. Com isso, os produtores registraram grandes perdas nos últimos anos. “Foi aí que começaram a pensar em mudanças no manejo”, disse Gonçalves.

Cafeicultor durante colheita do café; parceria com a Cooxupé, no sul de Minas Gerais
Cafeicultor durante colheita do café; parceria com a Cooxupé, no sul de Minas Gerais

Além da questão ambiental, os produtores começaram a ter maior preocupação com a produção também pelo viés econômico. “As empresas compradoras, hoje, estão exigindo que a produção seja mais sustentável. Precisam que os produtores promovam mitigação de GEE para que possam continuar comprando e exportando o café”, revela.

Sabor

De acordo com os pesquisadores do Cepagri, o manejo sustentável das plantações de café tem potencial para, inclusive, impactar positivamente o sabor da bebida.

João Paulo da Silva lembra que a matéria orgânica tem uma função muito importante no comportamento do solo. É o elemento que, segundo ele, vai melhorar a capacidade de troca catiônica do solo – aumentando a quantidade de nutrientes disponíveis no solo para a planta absorver e utilizar em seus processos fisiológicos de crescimento e desenvolvimento de frutos.

Os eventos, como calor extremo, granizo, geadas muito fortes ou secas prolongadas, têm ocorrido com maior frequência nessas áreas
Os eventos, como calor extremo, granizo, geadas muito fortes ou secas prolongadas, têm ocorrido com maior frequência nessas áreas

“Se a gente tiver um solo com mais matéria orgânica, teremos menor necessidade de aplicação de adubo para a obtenção de uma bebida de mais qualidade. Com isso, a gente está reduzindo custo de produção e melhorando a qualidade da bebida”, disse o pesquisador.

“Desta técnica de diminuir a adubação e deixar mais matéria orgânica no solo é que vem a maioria dos cafés premiados deles”, finaliza Renata Gonçalves.

Multiplicadores

Os pesquisadores do Cepagri observam que a partir de agora haverá um trabalho de formação de multiplicadores. Técnicos vão ser treinados pela Associação para disseminar as funcionalidades da ferramenta junto aos produtores rurais.

Também participaram do projeto os pesquisadores do Cepagri, Priscila Coltri, Eduardo Assad, Jurandir Zullo Junior e Maria Leonor Lopes Assad.

Foto de capa:

Os pesquisadores do Cepagri observam que a partir de agora haverá um trabalho de formação de multiplicadores
Os pesquisadores do Cepagri observam que a partir de agora haverá um trabalho de formação de multiplicadores

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Redução de jornada deve gerar 4,5 milhões de novos empregos, aponta estudo

Por:raquel
25 de Fevereiro de 2026, 17:21

A redução da jornada de trabalho de 44 para 36 horas semanais resultaria na criação de até 4,5 milhões de novos empregos e elevaria em cerca de 4% os níveis de produtividade no Brasil. Essas projeções constam de um levantamento realizado pela economista Marilane Teixeira, pesquisadora do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) do Instituto de Economia (IE) da Unicamp, e que integra um diagnóstico feito por especialistas para medir os impactos da medida na economia e no país.

Chamado de “Dossiê 6×1”, o documento conclui que o Brasil “está pronto para trabalhar menos”, contrariando projeções do mercado segundo as quais a mudança poderia provocar queda no produto interno bruto (PIB) e agravar os níveis de insolvência das empresas. O estudo rebate, ainda, a ideia de que o brasileiro trabalha menos que a média mundial.

O dossiê é composto por 37 artigos, escritos por 63 autores, entre professores, pesquisadores, membros do Judiciário, auditores fiscais do Trabalho e representantes sindicais. Também participaram da elaboração 18 pareceristas. O material está sendo publicado semanalmente de forma simultânea em 19 sites, incluindo o do IE.

Confira o dossiê publicado.

A pesquisadora do Cesit Marilane Teixeira: Brasil está pronto para trabalhar menos
A pesquisadora do Cesit Marilane Teixeira: Brasil está pronto para trabalhar menos

Realizado por pesquisadores do Cesit com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o estudo mostra que aproximadamente 21 milhões de trabalhadores do país cumprem jornada superior às 44 horas semanais previstas na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Indica também que 76,3% das pessoas ocupadas no Brasil têm jornadas superiores a 40 horas semanais, sendo que 58,7% de todos os empregados trabalham entre 40 e 44 horas semanais. Para a especialista, essas são evidências de que o brasileiro está entre os que mais trabalham no mundo.

Marilane Teixeira lembra que existem nichos de trabalhadores, em áreas como a educação, saúde, serviço público e indústria, com jornadas inferiores a 44 horas semanais, mas faz uma ressalva:

“Não é desse contingente que estamos falando. Existe uma parcela de 18% da força de trabalho que faz entre 45 horas e 49 horas semanais, ou 58,7% que fazem entre 40 e 44. Se a redução já é possível em vários segmentos, por que no comércio e serviços ela não pode ocorrer?”, questiona a professora.

O diagnóstico feito pela economista mostra, ainda, que cerca de 4,5 milhões de pessoas estão na chamada subocupação. “Elas gostariam de trabalhar mais, mas não encontram vaga de emprego”, diz.

“Além disso, temos um nível de informalidade muito alto, que, em geral, ultrapassa em muito as 44 horas. Há, ainda, os casos de horas extras. A partir das reformas trabalhistas de 2017, abriu-se a possibilidade de pagamento de horas extras com banco de horas, e não em remuneração”, lembra. “Esse argumento de que o Brasil já trabalha pouco, definitivamente, não serve”, afirma a economista.

Pessoas participam de ato em defesa do fim da jornada 6x1, em São Paulo (SP), 15/11/2024 (Foto: Letycia Bond/Agência Brasil)
Pessoas participam de ato em defesa do fim da jornada 6×1, em São Paulo (SP), 15/11/2024 (Foto: Letycia Bond/Agência Brasil)

 Jornada 6×1

A redução da jornada deverá ser votada no Congresso ainda neste semestre. Uma das propostas em tramitação proíbe a chamada escala 6×1 (um dia de descanso a cada seis de trabalho), substituindo-a pela 4×3 (quatro de trabalho e três de folga a cada semana). De acordo com o estudo, essa mudança atingiria diretamente 76 milhões de trabalhadores.

Caso a redução seja para 40 horas semanais, na escala 5×2 –como querem determinados setores do Congresso –,- ainda assim a alteração afetaria a vida de aproximadamente 45 milhões de trabalhadores. A última mudança nesse sentido ocorreu há quase 38 anos, com a Constituição de 1988, quando a jornada legal no Brasil caiu de 48 horas semanais para as atuais 44 horas.

O estudo avalia as repercussões da mudança de jornada no consumo das famílias, nas políticas públicas para redução de desigualdades entre raças e gêneros e nas taxas de adoecimento do trabalhador.

“Em 2024 tivemos meio milhão de afastamentos por doenças psicossociais em decorrência das condições desfavoráveis do ambiente de trabalho”, argumenta a professora. “E estamos falando do emprego formal. Não se trata da outra metade da classe trabalhadora que está no trabalho por conta própria ou na informalidade e que também está submetida a condições de trabalho extenuantes e estressantes”, diz ela.

“Portanto, o fim da escala 6×1, é um grito, um pedido de socorro. Esses trabalhadores querem viver além do trabalho e querem direito ao lazer”, advertiu.

Desoneração

A professora da Unicamp lembra que o setor empresarial, com muita frequência, recorre ao Estado brasileiro quando precisa enfrentar mudanças estruturais. Em geral, vai em busca de isenções, incentivos ou desonerações.

 “Isso é histórico. Faz parte do perfil da classe dominante do Brasil”, diz ela “Ela não quer ceder nem um milímetro sequer. Não quer perder absolutamente nada”, acrescenta.  “Mas o governo não tem de ceder em absolutamente nada, porque esse setor ganhou muito nas últimas décadas. O que temos de fazer agora é reverter esses ganhos justamente em benefício do trabalhador”, recomenda.

Segundo ela, reclamações e previsões pessimistas também aconteceram quando da implantação de políticas como a do salário mínimo, a instituição do 13º salário e outros temas que envolvem a luta por direitos trabalhistas, como o registro dos empregados domésticos.

Trabalhadores e movimentos sociais fazem manifestação pelo fim da escala de trabalho 6 x 1 e pela taxação dos super-ricos, na Praça XV, no Rio de Janeiro, em julho de 2025 (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil?
Trabalhadores e movimentos sociais fazem manifestação pelo fim da escala de trabalho 6 x 1 e pela taxação dos super-ricos, na Praça XV, no Rio de Janeiro, em julho de 2025 (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil?

País pronto

Para o grupo de economistas e pesquisadores, o Brasil está pronto para a redução da jornada. Teixeira lembra que a última mudança ocorreu justamente na década de 1980, em uma conjuntura muito mais desfavorável que a de hoje.

“Nos anos 80, a economia brasileira andava de ré. Foi uma década considerada perdida, com queda do PIB, taxa de desemprego alta, inflação elevada, dívida externa.  Do ponto de vista econômico, um desastre e, mesmo assim, se reduziu a jornada para 44 horas semanais”, pondera.

“Nem por isso as empresas quebraram, nem por isso gerou-se desemprego. Não há estudo que aponte que a redução da jornada para 44 horas semanais nos anos 80 implicou queda do PIB ou taxa de desemprego mais alta”, desafia.

“Então não vai ser agora, com avanços tecnológicos, num contexto de pleno emprego, com crescimento econômico e o nível de tecnologia que temos, que não vai ser possível no Brasil reduzir para 40 horas”, argumenta.

Ela lembra que a produtividade do trabalho cresceu a uma taxa média anual de 6,5% entre os anos 1990 e 2000. Isso se deu com investimentos em tecnologia, formação do trabalhador e reorganização das empresas.

Um outro fator chama a atenção da pesquisadora. “As pessoas já não querem mais trabalhar com jornadas tão extensas. Hoje, muitas empresas já estão usando a jornada 5×2 como atrativo”, disse ela.

A professora diz ser um erro imaginar que a redução vai provocar paralisia na economia.  “Eles (mercado) fizeram um cálculo como se a economia fosse paralisada durante três dias e funcionasse só em quatro, o que não é verdade”, argumenta.

Trabalhadores e movimentos sociais fazem manifestação pelo fim da escala de trabalho 6 x 1 e pela taxação dos super-ricos, na Praça XV, no Rio de Janeiro, em julho de 2025 (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)
Trabalhadores e movimentos sociais fazem manifestação pelo fim da escala de trabalho 6 x 1 e pela taxação dos super-ricos, na Praça XV, no Rio de Janeiro, em julho de 2025 (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

O que é a PEC 8/25

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 8/25 prevê a adoção da jornada semanal de quatro dias de trabalho, com  descanso. O texto acaba com a escala 6×1 (seis dias de trabalho e um de descanso) e limita a duração do trabalho normal a 36 horas semanais. Atualmente, a Constituição estabelece que a carga de trabalho será de até oito horas diárias e 44 horas semanais.

A proposta também faculta a compensação de horários e a redução de jornada, mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho.

A PEC 8/25 será analisada pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados quanto à sua legalidade, juridicidade e constitucionalidade. Se admitida, será examinada por uma comissão especial a ser criada, antes de ser votada em dois turnos pelo plenário.

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Caminhada e clima de festa nas boas-vindas da Calourada 2026 

Por:raquel
23 de Fevereiro de 2026, 17:03
Caminhada teve início na Praça da Paz e seguiu até o Ginásio Multidisciplinar
Caminhada teve início na Praça da Paz e seguiu até o Ginásio Multidisciplinar

A Unicamp recebeu na manhã desta segunda-feira (23 de fevereiro) os calouros de 2026 com uma caminhada que começou na Praça da Paz e terminou no Ginásio Multidisciplinar, no campus de Barão Geraldo. Durante o percurso, houve muita confraternização com os veteranos e clima de festa para os ingressantes, que ganharam um kit de boas-vindas com uma camiseta, uma caneca e um vale-refeição para seu primeiro almoço no Restaurante Universitário, além de muita informação sobre a Universidade. 

O coordenador-geral da Unicamp, Fernando Coelho, ressaltou que este é um dos momentos mais importantes do ano na Universidade. “É um dia importantíssimo, porque marca o início de um ano letivo em que completamos 60 anos de existência. É, portanto, um dia de festa”, disse ele na cerimônia de recepção no Ginásio Multidisciplinar. “Quero que vocês saibam que estão chegando a uma das melhores universidades públicas do país e uma das mais importantes da América Latina. Aproveitem”, acrescentou.

Da esquerda para a direita, o coordenador-geral da Unicamp, Fernando Coelho, a pró-reitora de Graduação, Mônica Cotta e o coordenador da Comvest, José Alves: clima de festa
Da esquerda para a direita, o coordenador-geral da Unicamp, Fernando Coelho, a pró-reitora de Graduação, Mônica Cotta e o coordenador da Comvest, José Alves: clima de festa

O reitor da Unicamp, Paulo Cesar Montagner deu as boas-vindas aos estudantes “de todos os campi” e fez uma exortação. “Desfrutem. A Unicamp é uma universidade pública. Fortíssima na pesquisa, tem ensino de excelência e grandes programas de extensão, Portanto, vivam intensamente a experiência de viver numa universidade”, disse ele.

Segundo o coordenador-geral, nos últimos anos, a Unicamp tem avançado em muitas direções, seja nas diferentes formas de acesso, na implementação de programas cada vez mais vigorosos de inclusão e permanência e na busca pela excelência acadêmica, “sempre pensando na diversidade e na integração”. Ele também agradeceu aos pais de alunos, “que confiaram seus filhos à Universidade”.

A pró-reitora de Graduação, Mônica Cotta, que acompanhou a caminhada, também destacou a importância da celebração. “Para quem está chegando, a recomendação que faço é: aproveite. A Universidade é um espaço maravilhoso, que dá liberdade para fazer e descobrir muitas coisas. Corram atrás, é uma oportunidade única. E eu também tenho uma palavra aos pais: que eles fiquem tranquilos, porque na Unicamp não temos trotes violentos e vamos fazer o nosso melhor para cuidar bem de todos os nossos estudantes.”

A concentração dos ingressantes aconteceu no Ginásio Multidisciplinar, onde receberam um kit de boas-vindas, além de muita informação sobre a Universidade
A concentração dos ingressantes aconteceu no Ginásio Multidisciplinar, onde receberam um kit de boas-vindas, além de muita informação sobre a Universidade

O coordenador da Comissão do Vestibular (Comvest), José Alves de Freitas Neto, diz que a festa de recepção é a coroação de um longo e complexo processo que começou com a inscrição para o vestibular. “Se a gente pensar nos 80 mil que fazem inscrição pelos processos próprios (da Universidade) e os mais de 100 mil pelo Provão Paulista, nós estamos falando de um processo que selecionou 3.600 alunos. Portanto, desejamos que esses selecionados tenham uma temporada de sucesso e de muito estudo, porque é importante para o aluno saber que está ocupando uma vaga numa universidade pública e tem de valorizar essa grande conquista”, afirmou.

Marcela Santander, assessora da Pró-Reitoria de Graduação (PRG) e responsável pelo  comitê organizador da calourada, enfatizou a importância de apresentar a Universidade aos novos alunos. “Mostramos que há toda uma estrutura pronta e que o estudante vai receber acolhimento em todos os momentos de sua trajetória acadêmica. Também reunimos todas as entidades estudantis para apresentar seus projetos e dar as boas-vindas, além de promover apresentações de esportes praticados na Universidade”, completou. 

Sonhos e expectativas

Natural de Feira de Santana, na Bahia, Enzo Machado chegou a Campinas há uma semana para se preparar para sua nova jornada. Calouro da Engenharia Elétrica, disse que sempre teve vontade de estudar na Unicamp. “Pesquisei antes sobre o curso e a Universidade, vi tudo o que ela oferece, e aumentou a vontade de vir para cá. Nestes primeiros dias, conheci bastante gente e já encontrei lugar para morar, mas ainda estou me estabelecendo. Agora, finalmente, as aulas vão começar”, afirmou. 

Da esquerda para a direita, Karina Vazo, Enzo Machado e Larissa Costa Amaral: nova jornada

Larissa Costa Amaral, que mora em Campinas e tem 20 anos, é caloura do curso de Midialogia e comemorou a realização de um sonho. “Eu tentei o vestibular antes, mas não passei. Estou muito feliz de ter conseguido. Era realmente o meu sonho fazer esse curso. Estou com muitas expectativas para conhecer um mundo novo.” 

Karina Vazo, de Jundiaí, caloura de Economia, contou que conheceu a Universidade durante o Unicamp de Portas Abertas (UPA). “Sempre quis estudar Economia na Unicamp e vim duas vezes na UPA, a primeira durante o Ensino Médio e a segunda já no cursinho pré-vestibular. As minhas expectativas são as melhores, quero curtir o curso e a Universidade. Vou continuar morando em Jundiaí e pegar o ônibus fretado”, contou. 

Grupo de aprovados no Profis: oportunidade
Grupo de aprovados no Profis: oportunidade

O grupo formado pelos estudantes Gabriely Muniz, Giovanna Laura, Ana Carolina Macena, Jaciel Lima e Lorraine Silva entrou no clima da comemoração. Aprovados no Programa de Formação Interdisciplinar Superior (ProFIS) da Unicamp, curso superior gratuito de dois anos, voltado a alunos que concluíram o ensino médio em escolas públicas de Campinas, eles já fazem planos. No ProFIS, após o curso, os alunos podem ingressar na graduação da Unicamp sem vestibular. “Estamos com a mente aberta, queremos conhecer todos os cursos para decidir melhor”, afirmou Muniz. “Esse é o ponto positivo do ProFIS, essa oportunidade de a gente optar pelo curso certo para cada um”, completou Silva. 

Piracicaba e Limeira

No campus de Piracicaba, a Faculdade de Odontologia (FOP) também recebeu seus calouros nesta segunda-feira. Já no campus de Limeira, que recebe cerca de um terço dos ingressantes da Unicamp neste ano, as atividades de recepção serão nesta terça-feira, com atividades esportivas e culturais e estandes para informações e participação dos grupos estudantis. No período da manhã, haverá atividades na Faculdade de Tecnologia (FT) e, no período da tarde, a celebração será na Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA).

Durante o percurso, houve muita confraternização com os veteranos e clima de festa para os ingressante
Durante o percurso, houve muita confraternização com os veteranos e clima de festa para os ingressante
Durante o percurso, houve muita confraternização com os veteranos e clima de festa para os ingressante
Caminhada teve início na Praça da Paz e seguiu até o Ginásio Multidisciplinar com várias

Confira mais informações sobre a Calourada 2026.

Foto de capa:

Durante o percurso, houve muita confraternização com os veteranos e clima de festa para os ingressante
Durante o percurso, houve muita confraternização com os veteranos e clima de festa para os ingressantes

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Série de vídeos apresenta serviços da Universidade aos calouros

Por:raquel
20 de Fevereiro de 2026, 17:45

A recepção aos calouros que ingressam na Unicamp em 2026 começa na próxima segunda-feira (23). Mas antes disso, como parte das boas-vindas, quando a Universidade completa 60 anos, os alunos ingressantes já podem conferir nas redes sociais uma série de vídeos apresentando os serviços que a instituição oferece para facilitar a rotina dos estudantes.

Quanto custa e como é comer no Restaurante Universitário (RU) são informações apresentadas em um dos vídeos, que estão sendo publicados no Instagram e Youtube. Os conteúdos também incluem coisas que todo calouro e caloura precisa saber para facilitar seu dia a dia na Unicamp.

Além disso, os calouros também são informados sobre as bolsas e auxílios oferecidos através da política de permanência estudantil, que têm inscrições abertas até 10 de maio. Outro vídeo apresenta uma novidade deste ano: a entrega de um Kit Ingressante contendo uma camiseta, uma caneta, um “vale-bandejão” e uma sacola reutilizável.

Leia mais:

Unicamp se prepara para receber os calouros

Assista aos vídeos:

Como é comer no Restaurante Universitário

6 coisas que todo calouro (a) precisa saber

Prazo para solicitar bolsas e auxílios termina dia 10/3

Confira o kit Ingressante

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Projeto propõe pedagogia inovadora no ensino de lutas e artes marciais para crianças

Por:raquel
19 de Fevereiro de 2026, 15:52

O tatame como espaço de acolhimento a partir de uma pedagogia para o ensino de lutas mais inovadora, inclusiva e baseada no respeito mútuo. Este é o foco do projeto  “(Re)pensando os caminhos entre universidade e comunidade no campo das Lutas, Artes Marciais e Esportes de Combate: proposta de inovação no ensino de crianças baseada no Tactical Games Approach”, da Faculdade de Educação Física (FEF), aprovado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) dentro do programa “Primeiros Projetos”.

Com duração de três anos, o projeto de extensão terá concessão de bolsas para um pesquisador de pós-doutorado, dois mestrandos e dois bolsistas de iniciação científica. A maior parte dos recursos, de pouco mais de R$ 600 mil, será destinada à formação desses pesquisadores, explica o professor da FEF e coordenador do projeto, Luiz Gustavo Bonatto Rufino, que é faixa-preta de jiu-jitsu.

Uma das ações centrais será o oferecimento de um curso de extensão gratuito para treinadores e professores de lutas que atuam com crianças, independentemente da modalidade ou da formação em Educação Física. “Após essa formação inicial, os pesquisadores acompanharão esses profissionais em seus próprios contextos de atuação, como academias, clubes e projetos sociais, fortalecendo a relação entre universidade e comunidade”, destaca Rufino.

“O objetivo não é a Universidade dizer o que deve ser feito, mas construir junto”, completa o professor, que ressalta que o projeto prevê “escuta ativa dos treinadores, valorizando seus saberes e experiências”. A proposta é reunir representantes de modalidades — como judô, jiu-jitsu, karatê, boxe e esgrima, entre outras — para fomentar a troca de experiências.

O coordenador do projeto, Luiz Gustavo Bonatto Rufino e a professora Mariana Simões Pimentel Gomes: oferecimento de um curso de extensão gratuito para treinadores e professores de lutas que atuam com crianças
O coordenador do projeto, Luiz Gustavo Bonatto Rufino e a professora Mariana Simões Pimentel Gomes: ensino de lutas baseado no respeito mútuo

Também integrante do projeto, a professora de educação física adaptada Mariana Simões Pimentel Gomes, igualmente faixa-preta de jiu-jitsu, enfatiza que o objetivo é construir alternativas pedagógicas que ampliem o acesso, valorizem a diversidade corporal e promovam experiências mais significativas para as crianças. “A ideia partiu da constatação de que o ensino tradicional das modalidades de luta ainda é marcado por modelos conservadores, hierarquizados e pouco inclusivos, voltados majoritariamente a um perfil específico de praticante”, explica.

A professora destaca que sua trajetória pessoal influenciou diretamente essa abordagem. Filha de um faixa-preta de jiu-jitsu e irmã de uma pessoa com deficiência, ela relata que desde cedo percebeu como o ensino das lutas era direcionado apenas a determinados corpos. “Eu queria ensinar de outra forma, romper com a ideia de que a luta é só para um tipo de pessoa”, afirma. Essa inquietação levou à criação, ainda na graduação, da escolinha de lutas da FEF, um projeto de extensão voltado a crianças da comunidade.

Rufino ressalta que sua experiência pessoal com o jiu-jitsu também foi determinante para sua trajetória acadêmica. Ele conta que iniciou a prática ainda criança, após enfrentar dificuldades de comportamento na escola, e que a modalidade teve impacto direto em sua formação pessoal e profissional. “As lutas me levaram à Educação Física e à universidade”, relata.

Jogos e táticas

Entre os principais eixos do projeto está a busca por ressignificar o ensino baseado apenas na repetição técnica de golpes por abordagens que valorizem jogos, situações-problema e princípios táticos comuns às diferentes lutas. “A ideia é que crianças compreendam, desde cedo, aspectos como movimentação, percepção do outro e tomada de decisão”, continua Rufino.

“Geralmente, a criança aprende um movimento e o repete muitas vezes. Depois, na hora da luta, não sabe quando realizar, como se movimentar ou como reagir ao oponente”, ressalta. “A alternativa apresentada é começar pela lógica da luta: entender que o alvo é móvel e que, ao mesmo tempo em que se ataca, também se é alvo.”

Estudantes participam de aula de lutas na FEF; uma das ações centrais do projeto é o oferecimento de um curso de extensão gratuito para treinadores e professores de lutas que atuam com crianças
Estudantes participam de aula de lutas na FEF; uma das ações centrais do projeto é o oferecimento de um curso de extensão gratuito para treinadores e professores de lutas que atuam com crianças

Ao transpor princípios estruturais das lutas para jogos e situações pedagógicas, o projeto busca tornar o aprendizado mais significativo. A ideia é ensinar desde o início conexões e compreensões que, tradicionalmente, só seriam adquiridas muitos anos depois — muitas vezes, apenas na faixa-preta. “Queremos formar praticantes mais conscientes, mais completos e mais autônomos sobre o que estão fazendo”, afirma.

Os docentes também chamam atenção para o alto índice de evasão nas modalidades de luta. Embora muitas pessoas iniciem a prática, poucas permanecem até níveis mais avançados. Para eles, isso está diretamente relacionado a modelos pedagógicos excludentes. “A história que se conta é a de quem chegou à faixa-preta, mas pouco se fala de quem ficou pelo caminho”, observa o professor.

Mais do que desempenho competitivo, o foco está na formação humana. O trabalho enfatiza consciência corporal, autoestima e inclusão. “Todo corpo é potente — seja gordo, magro, alto, baixo, feminino ou masculino. O tatame pode ser um espaço de descoberta e transformação”, destaca Gomes.

A professora enfatiza ainda a necessidade de combater práticas de intimidação, assédio e exclusão, especialmente em relação a mulheres, pessoas LGBTQIA+ e pessoas com deficiência. “Ainda engatinhamos em muitas questões, especialmente de gênero e diversidade. Se você for a uma academia hoje, verá poucas mulheres proporcionalmente. E pessoas LGBTQIA+ muitas vezes não se sentem acolhidas. A luta precisa ser para todos — mas isso exige um olhar atento, não pode ser só discurso”, destaca.

“O tatame precisa ser um espaço de acolhimento, não de temor, assédio ou silenciamento. É possível aprender respeito sem medo. Nem todo mundo vai gostar de lutar, e está tudo bem. Mas todos devem ter o direito de experimentar e se sentir acolhidos”, completa.

Além da produção de artigos científicos, o projeto prevê a elaboração de um material didático voltado ao campo profissional. A expectativa é que esse material contribua para a continuidade das reflexões e das transformações propostas, mesmo após o término da pesquisa. “Publicamos muitos artigos, mas eles nem sempre chegam ao campo profissional. Por isso, o curso vai gerar um material didático em linguagem acessível, que permita interação com os profissionais. Queremos construir relações de diferentes formas e documentar isso para que outras pessoas possam continuar”, destaca a professora.

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Núcleo de Segurança Farmacêutica analisa fraudes em alimentos e eficácia de remédios

Por:raquel
5 de Fevereiro de 2026, 15:22

O Núcleo de Segurança Farmacêutica da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Unicamp reúne três laboratórios de alta complexidade em áreas distintas – análise de alimentos, genética e toxicologia – para darem suporte técnico aos órgãos públicos que fiscalizam a segurança de alimentos e remédios. O projeto começou a tomar forma em 2019, quando os professores da FCF Rodrigo Catharino, Patricia Moriel e José Luiz da Costa participaram de um edital do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP).

“Ficamos sabendo do edital a duas horas do prazo de encerramento, foi uma correria”, lembra Moriel. “Foi sem pretensão. A gente achou que não ia dar certo, mas era uma grande oportunidade que juntava várias linhas diferentes, e decidimos tentar”.

Os professores os professores da FCF, José Luiz da Costa (à esquerda), Patricia Moriel e Rodrigo Catharino: edital do Ministério da Justiça e Segurança Pública para compra de equipamentos
Os professores os professores da FCF, José Luiz da Costa (à esquerda), Patricia Moriel e Rodrigo Catharino: edital do Ministério da Justiça e Segurança Pública para compra de equipamentos

“Com as expertises diferentes de cada um, submetemos a proposta, que podia ter somente três parágrafos, apresentamos os orçamentos dos equipamentos que queríamos e que já tínhamos feito anteriormente, e deu certo”, continua Moriel.

“Não imaginávamos que o projeto seria aprovado”, diz Costa. “Costumo dizer que jogamos na loteria e ganhamos”, brinca Catharino.

Em 2020, em plena pandemia, os três receberam seus equipamentos e colocaram as máquinas para funcionar. O montante de R$ 9 milhões veio do Fundo de Defesa de Direitos Difusos (FDD), gerido pelo Ministério da Justiça, uma ferramenta financeira que concentra recursos de multas e condenações judiciais para financiar projetos.

Catharino, hoje coordenador do Núcleo, comanda um laboratório voltado à análise de alimentos, Moriel atua na área de genética, e Costa trabalha com toxicologia. Embora estejam localizados em espaços físicos distintos dentro da Unicamp, os três laboratórios compartilham o mesmo objetivo: atuar de forma integrada na promoção da segurança farmacêutica em prol da sociedade.

Os equipamentos para montagem do Núcleo chegaram em 2020, em plena pandemia
Os equipamentos para montagem do Núcleo chegaram em 2020, em plena pandemia
Os equipamentos para montagem do Núcleo chegaram em 2020, em plena pandemia
Os equipamentos para montagem do Núcleo chegaram em 2020, em plena pandemia
Os equipamentos para montagem do Núcleo chegaram em 2020, em plena pandemia

“Foi o nosso compromisso com o projeto aprovado: gerar um novo senso de estabilidade e segurança. Não é apenas fazer análises pontuais, mas criar um conceito que ajude as pessoas a se sentirem realmente seguras em relação aos produtos farmacêuticos que utilizam no dia a dia”, afirma Costa, que também coordena o Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox), localizado no Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp. “O Núcleo, portanto, funciona como um ‘fiel da balança’, garantindo suporte técnico.”

Moriel, por sua vez, destaca que nem todos os pacientes respondem da mesma forma a um medicamento e que reações adversas ou falta de eficácia podem estar relacionadas a fatores genéticos. “O trabalho do laboratório consiste em analisar genes ligados ao metabolismo de fármacos”, explica.

Já no laboratório coordenado por Catharino destacam-se equipamentos de alta resolução, que permitem identificar, em poucos minutos, a composição química de amostras extremamente complexas. “Esse tipo de análise nos permite identificar adulterações, fraudes e também valorizar produtos de pequenos produtores, ganhando impacto social e comprovando a qualidade e a autenticidade do que a agricultura social e ecológica hoje produz”, afirma. “Em muitos casos, trata-se de situações em que há suspeita de fraude ou adulteração, mas não existe outro laboratório público acessível para esse tipo de avaliação.”

O Laboratório de Farmácia Clínica, coordenado por Patrícia Moriel estuda os genes que estão relacionados com as enzimas
O Laboratório de Farmácia Clínica, coordenado por Patrícia Moriel, estuda os genes que estão relacionados com as enzimas

Análise farmacogênica

No Laboratório de Farmácia Clínica, Moriel explica que o objetivo é entender a razão de algumas pessoas responderem a certos medicamentos e outras não. “Buscamos respostas, e é aí que entra a genética”, diz. “Mas é claro que a genética não vai responder a tudo, porque quando uma pessoa tem uma reação adversa ou há inefetividade, são muitos fatores que estão ali embutidos, como interação medicamentosa, uma questão ambiental ou até mesmo estar tomando o remédio de maneira errada.”

“No laboratório, fazemos a análise farmacogenômica, que é estudar os genes que estão relacionados com as enzimas e os transportadores que metabolizam os fármacos. Com o projeto, ampliamos nossa capacidade de execução de testes com dois equipamentos, um PCR de tempo real e um sequenciador genético”, completa.

A partir de parcerias com o Hospital de Clínicas e outros hospitais públicos brasileiros, o projeto tem ampliado sua atuação. “Hoje, um dos nossos maiores problemas é que a farmacogenética conhecida vem da Europa e dos Estados Unidos. Mas nós somos muito diferentes geneticamente, somos uma população totalmente miscigenada. Nosso estudo ganha mais importância porque a gente está analisando usuários do SUS [Sistema Único de Saúde]”, completa. “Os dados gerados refletem a realidade da população brasileira, o que contribui para o avanço da chamada medicina personalizada no contexto nacional.”

Moriel cita ainda a implementação de testes farmacogenéticos no HC para pacientes em tratamento oncológico com medicamentos de alto risco. “Esses testes, hoje realizados de forma rotineira, ajudam a prevenir reações adversas graves e já beneficiaram centenas de pacientes, além de embasar teses de doutorado e outras pesquisas acadêmicas. Desde a implantação do laboratório, tivemos cinco teses de doutorado defendidas que usaram nossos equipamentos para pesquisas com pacientes. Então, se cada tese analisou de 100 a 150 pacientes, podemos calcular uma média de 800 pacientes já beneficiados”.

José Luiz Costa é responsável pelo Laboratório de Toxicologia Analítica, espaço de referência que atende órgãos públicos, empresas e a sociedade civil
O professor José Luiz Costa é responsável pelo Laboratório de Toxicologia Analítica, espaço de referência que atende órgãos públicos, empresas e a sociedade civil

Papel estratégico

No Laboratório de Toxicologia Analítica, Costa ressalta o papel estratégico do trabalho de análise. “Quando há um crime, a polícia faz a análise. Mas, quando existe apenas uma suspeita, uma dúvida ou uma necessidade do governo, muitas vezes não há um laboratório disponível para esse tipo de teste. Surgimos como esse espaço de referência, capaz de atender órgãos públicos, empresas e a sociedade civil”, explica o professor, que leciona as disciplinas de Toxicologia e Análises Toxicológicas na FCF.

Entre os trabalhos realizados recentemente, destacam-se as análises de metanol relacionadas aos casos de contaminação em bebidas alcoólicas registrados no ano passado. Esses exames foram feitos no próprio laboratório, utilizando equipamentos específicos de alta complexidade. “Os casos diminuíram após a retirada dos estoques contaminados, mas ainda existe preocupação com novos surtos, especialmente em períodos como o Carnaval, quando há maior consumo de bebidas alcoólicas. Situações semelhantes já ocorreram no Natal, como o surto registrado na Bahia”, lembra. O laboratório recebe amostras regularmente da Secretaria de Saúde do estado de São Paulo, que envia materiais para análise de metanol duas vezes por semana.

O laboratório conta com um equipamento de cromatografia líquida de alta eficiência (HPLC), muito usado no controle de qualidade farmacêutico. “As amostras, como comprimidos, são diluídas e inseridas em frascos específicos antes de serem injetadas no equipamento para análise. Esse tipo de sistema é semelhante ao utilizado na indústria farmacêutica, mas em menor escala”, explica.

No Laboratório Innovare de Biomarcadores, de responsabilidade de Rodrigo Catharino, as análises incluem café, maionese, carne, óleos, metanol e outros produtos
No Laboratório Innovare de Biomarcadores, de responsabilidade de Rodrigo Catharino, as análises incluem café, maionese, carne, óleos, metanol e outros produtos

Relevância na saúde pública

No Laboratório Innovare de Biomarcadores, Catharino destaca que as tecnologias são capazes de separar e caracterizar substâncias em níveis de precisão raramente disponíveis fora de grandes centros de pesquisa. As aplicações e análises realizadas são diversas e incluem itens como café, maionese, cogumelos, carne, óleos, metanol em bebidas, suplementos alimentares e outros produtos, totalizando mais de 23.000 análises em 50 projetos diferentes em poucos anos.

“Em um país com histórico recente de problemas envolvendo bebidas contaminadas com metanol, suplementos adulterados e alimentos fraudados, o trabalho do Núcleo ganha relevância não apenas para a saúde pública, mas também para a economia. Quando uma commodity como o café é adulterada e vendida a preços muito baixos, isso impacta diretamente a imagem e a competitividade do produto brasileiro no mercado internacional”, afirma.

Muitas análises são motivadas por questões que emergem no debate social ou ganham destaque na imprensa. “Casos de suplementos que não contêm o que prometem no rótulo, medicamentos vendidos como naturais, mas que escondem fármacos sintéticos em sua composição, e alimentos adulterados fazem parte das investigações e, em alguns casos, os resultados servem de subsídio para alertas às autoridades e órgãos de fiscalização”, afirma.

“Apoiados pelo conceito de segurança, conseguimos obter informações importantes de cosméticos, bebidas e vírus, por exemplo, dispondo da inteligência artificial em nossos desenvolvimentos e culminando na criação de sensores à base de grafeno em parcerias. Assim se desenvolve o núcleo de segurança, com um olhar que se baseia nas tecnologias analíticas de ponta, para o desenvolvimento e criação de novos conceitos e produtos que geram segurança social no futuro”, completa.

Os serviços prestados pelo Núcleo variam conforme a complexidade da análise, o tipo de amostra e a demanda envolvida
Os serviços prestados pelo Núcleo variam conforme a complexidade da análise, o tipo de amostra e a demanda envolvida

Ampliação do acesso

Os serviços prestados pelo Núcleo variam conforme a complexidade da análise, o tipo de amostra e a demanda envolvida. Algumas avaliações são rápidas, enquanto outras exigem mais tempo, preparo e alto custo tecnológico. Ainda assim, a proposta é ampliar o acesso e tornar o Núcleo mais conhecido pela comunidade.

Além da consolidação institucional, entre os próximos passos do Núcleo estão a criação de um site e a ampliação das parcerias com outros setores da Unicamp, da indústria e do poder público. Uma segunda fase do projeto está prevista até o fim de 2026, com a ampliação das atividades e do alcance das ações.

Foto de capa:

Núcleo reúne três laboratórios de alta complexidade para darem suporte técnico aos órgãos públicos que fiscalizam a segurança de alimentos e remédios
O Núcleo reúne três laboratórios de alta complexidade para darem suporte técnico aos órgãos públicos que fiscalizam a segurança de alimentos e remédios

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